O 25 de Abril, o Colégio Militar e o Largo da Luz

Ao Colégio Militar chegou às 04H00 do dia 23 de abril o cabo da linha de transmissões para daí seguir para o último ponto – o Posto de Comando do MFA – e às 21H30 do dia 25 de abril de 1974, foi também o local da refeição quente do dia, de almôndegas com massa, da coluna militar da EPC – Escola Prática de Cavalaria.

Para a linha telefónica militar (ponto-a-ponto) necessária ao Posto de Comando do MFA, instalado no RE 1- Regimento de Engenharia n° 1, na Pontinha, foi instalado cabo telefónico aéreo pelo seguintes pontos: Regimento de Transmissões (Rua de Sapadores) – Pupilos do Exército (Estrada de Benfica) – Colégio Militar (Largo da Luz) –  Posto de Comando do MFA (Pontinha). O então tenente-coronel Garcia dos Santos – responsável pelas transmissões do Movimento das Forças Armadas- assinara o pedido urgente da linha telefone militar na zona dos Pupilos do Exército que foi autorizada pelo Estado Maior do Exército em 15 de abril de 1974. Clandestinamente, deu-se seguimento ao processo a partir das 20:00 horas do dia 22 de abril de 1974, com um cabo aéreo de 5 pares com 2.000 metros, primeiro até ao Colégio Militar  onde chegou às 4 horas do dia 23, para depois, com um novo cabo de 3.000 metros chegar até ao RE 1, tendo chegado à Porta d’Armas às 6 horas do dia 24 de abril e após diversos testes, à sala do Posto de Comando cerca das 18 horas.

Já no dia 25 de abril, cerca das 21h horas, a Chaimite Bula oriunda do Largo do Carmo a transportar os membros do Governo deposto, escoltada pela coluna da Escola Prática de Cavalaria, chegaram ao RE 1 – Regimento de Engenharia, na Pontinha, onde estava instalado o Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas. E cerca de meia hora depois, por volta das 21:30, esta coluna militar da EPC instalou-se no Colégio Militar, onde lhe foi servida uma refeição quente:  almôndegas com massa.

Findo o jantar, às 22:30, o major Monge, o capitão Salgueiro Maia e os tenentes Alfredo Assunção e Santos Silva dirigiram-se com as viaturas blindadas para a Calçada da Ajuda, onde conseguiram a rendição dos regimentos de Cavalaria 7 e Lanceiros 2, tendo sido presos os comandantes dessas unidades.  À meia-noite e meia, forças da EPC escoltaram a Junta de Salvação Nacional na deslocação à RTP. À 1:30 de dia 26, as forças que acompanharam Salgueiro Maia à Ajuda ficaram a pernoitar no Regimento de Cavalaria 7. Às 2 horas, a coluna que fez a escolta até à RTP regressou ao Colégio Militar para passar a noite.

Refira-se ainda que dos envolvidos no 25 de Abril de 1974, foram  alunos do Colégio Militar os seguintes: General António de Spínola e  General Francisco da Costa Gomes (Junta de Salvação Nacional); Major José Sanches Osório, Tenente-coronel Nuno Fisher Lopes Pires, Capitão Luís Macedo (Posto de Comando do MFA); Furriel João Gomes Pereira Carmona, Capitão Mário Delfim Tavares de Almeida, Alferes Miguel Sequeira Marcelino (da coluna da EPC do Capitão Salgueiro Maia); bem como Tenente Américo Henriques, Major António Carlos de Magalhães Arnão Metelo, Capitão Duarte Nuno Pinto Soares, Capitão Francisco Faria Paulino, Capitão Francisco Sousa Lobo, Tenente –Coronel João de Almeida Bruno, Tenente José Balula Cid, Capitão José Bernardo do Canto e Castro, Capitão José Fernandes Décopete dos Santos Coelho, Capitão Mário Alfredo Brandão Rodrigues dos Santos, Major Pedro Pezarat Correia, Capitão-Tenente Vasco Fernando Leote de Almeida e Costa (dados recolhidos em NRP Cacine).

O Colégio Militar estava, em abril de 1974 como hoje, sediado no Largo da Luz, topónimo que também surge repetido nas proximidades na Azinhaga da Luz, Estrada da Luz e Travessa da Luz, todos por referência comum a Santa Maria da Luz.

Conta uma lenda que Nossa Senhora, aureolada de luz, terá aparecido a um natural de Carnide, de seu nome Pêro Martins. Das  sucessivas vezes prometeu livrá-lo do cativeiro com o compromisso de ao regressar a Carnide erigir na Fonte da Machada uma ermida dedicada a Santa Maria da Luz, cuja imagem até encontraria perto daquele local. Pêro Martins  foi libertado e regressou a Portugal em 1463, após o que encontrou a imagem de Nossa Senhora da Luz nas cercanias da Fonte da Machada e se empenhou em recolher contribuições dos seus vizinhos, assim como a licença do Bispo de Lisboa, para construir a ermida, na qual a imagem foi solenemente entronizada no dia 8 de setembro de 1464. Pêro Martins foi sepultado na ermida em 1466 e esta foi depois anexada à igreja de São Lourenço de Carnide, cujo pároco ficou com o encargo de manter o culto e dar continuidade às festividades religiosas em honra de Nossa Senhora da Luz, a 8 de setembro, as quais persistiram até aos nossos dias no decorrer desse mês.

O Colégio Militar, no Largo da Luz, cerca de 1960
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

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O jornal República e a Rua da Misericórdia

(Foto: Ana Haterly, Arquivo Municipal de Lisboa)

No dia 25 de abril de 1974, o jornal «República», sito na Rua da Misericórdia nº 116,  saiu impresso para as ruas com o rodapé «Este jornal não foi visado por qualquer Comissão de Censura».

Em meados de abril de 1974,  o jornalista Álvaro Guerra – que era elemento de ligação entre alguns oficiais do MFA e meios civis da oposição-  conseguiu a colaboração do núcleo do jornal República, contando com o diretor, Raul Rego, bem como os jornalistas Álvaro Belo Marques, Carlos Albino, Fernando Assis Pacheco, José Jorge Letria e Vítor Direito. Por isso, às 14 horas no dia 24 de abril, a edição do vespertino República inseria uma curta notícia, intitulada «Limite», onde se podia ler «O programa Limite que se transmite em Rádio Renascença diariamente entre a meia-noite e as 2 horas, melhorou notoriamente nas últimas semanas. A qualidade dos apontamentos transmitidos e o rigor da selecção musical, fazem de «Limite» um tempo radiofónico de audição obrigatória.», aludindo ao programa onde à meia-noite e vinte do dia 25 de abril iria passar a 2ª senha do Movimento: Grândola, Vila Morena, de José Afonso.

Raul Rego recusou de viva voz enviar provas ao Exame Prévio da Comissão de Censura e no dia 25 de abril o República saiu à rua com uma tarja em rodapé de primeira página anunciando que «Este jornal não foi visado por qualquer Comissão de Censura».  Também a 1ª página exibia a manchete «As Forças Armadas tomaram o poder» quando só horas mais tarde a rendição ocorreria no Quartel do Largo do Carmo.

Já cerca das 13:45, na Rua da Misericórdia, Largo Trindade Coelho e Praça de Luís de Camões, os capitães Andrade Moura e Alberto Ferreira dispuseram as suas forças e comunicaram com as forças da GNR, tendo o seu comandante contactado com o Comando-Geral e após 30 minutos recolheram a quartéis. As tropas do RC7 aderiram ao Movimento.

Ainda na Rua da Misericórdia mas na manhã do dia 26 de abril de 1974, as instalações do jornal A Época e da Comissão de Censura são destruídas por populares. Desde 22 de setembro de 1969 que a Censura estava sediada na Rua da Misericórdia nº 125 – 1º, embora as provas para exame prévio fossem entregues pela porta das traseiras na Rua das Gáveas nº 90 – 3º.  O Época veio substituir  em 1971 o Diário da Manhã, o órgão oficioso e de doutrinação da União Nacional que desde 1931 tinha comprado a sede do jornal O Mundo, no nº 95 daquela artéria.

A Rua da Misericórdia onde estava sediado o República tem uma história toponímica também relacionada com os movimentos políticos que foram acontecendo no país. Começou por ser a Rua Larga de São Roque, dada a proximidade à Igreja e Convento de São Roque,  que afinal também deu o topónimo inicial do Bairro: Alto de São Roque. No final do séc. XIX viu o seu nome encurtado para Rua de São Roque, por Edital municipal de 8 de junho de 1889. Depois, o jornal O Mundo, foi criado em 16 de setembro de 1900 por António França Borges (1871-1915) que fez dele o  órgão republicano e um matutino de grande tiragem e se instalou na Rua das Gáveas mas esse edifício  foi depois englobado numa nova edificação com a fachada principal para a Rua de São Roque e na qual até exibia um grande globo, pelo que a edilidade republicana fez da artéria uma homenagem ao jornal tornando-a Rua do Mundo, através do Edital de 18 de novembro de 1910. Depois, com o Estado Novo, sobretudo nos anos trinta, foram frequentes as mudanças de topónimos republicanos por outros de cariz religioso ou usados anteriormente, pelo que o Edital municipal de 19 de agosto de 1937 passou a denominá-la Rua da Misericórdia por referência à Misericórdia de Lisboa instalada no largo do topo desta artéria.

 

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O 25 de Abril e a queda do regime no Largo do Carmo

Uma coluna comandada por Salgueiro Maia sai da Praça do Comércio cerca das 11H30 para o Largo do Carmo, onde  monta cerco ao Quartel do Carmo, no qual estava refugiado Marcelo Caetano. O cerco manteve-se durante as horas seguintes tendo às 18H20 um comunicado do MFA informado o País da rendição de Marcelo Caetano a que se seguiu um outro, às 19H50, anunciando formalmente a queda do Governo.

O Largo lisboeta que deve o seu nome ao Mosteiro de Nossa Senhora do Vencimento do Monte do Carmo, ali mandado erguer por Nuno Álvares Pereira no último quartel do século XIV, foi no dia 25 de abril de 1974 o palco da queda do regime, confirmada às 18:20 horas num comunicado do MFA e reconfirmada às 19:50  num outro emitido pelo Rádio Clube Português.

Por volta das 5 horas da madrugada, o Presidente do Conselho, Marcelo Caetano, foi aconselhado por telefone pelo diretor-geral da PIDE/DGS, major Silva Pais, a refugiar-se no Quartel do Comando-Geral da GNR, no Largo do Carmo. Cerca das 11:30 uma coluna da EPC, comandada por Salgueiro Maia, saiu da Praça do Comércio para montar cerco ao Quartel do Carmo, sendo aclamada pela população ao longo do percurso.

De acordo com Salgueiro Maia, «Pelo meio dia e trinta cerquei o quartel da G.N.R. do Carmo. Foi bastante importante o apoio dado pela população no realizar destas operações pois que além de me indicarem todos os locais que dominavam o quartel e as portas de saída deste, abriram portas, varandas e acessos a telhados para que a nossa posição fosse mais dominante e eficaz. Também nesta altura começaram a surgir populares com alimentos e comida que distribuíram pelos soldados».

Cerca das 15:10 Salgueiro Maia, munido de um megafone,  solicita a rendição de Marcelo Caetano em 10 minutos. Às 15:30, o capitão Maia manda o tenente Santos Silva fazer uma rajada da chaimite sobre as janelas mais altas do Quartel, repetindo o apelo de rendição logo a seguir. O Largo do Carmo está repleto de população. Quarenta e cinco minutos depois, Salgueiro Maia ordena ao alferes miliciano Carlos Beato a instalação dos seus homens no cimo das varandas do edifício da Companhia de Seguros Império para fazer fogo sobre a frontaria do Carmo, com armas automáticas G-3. Quinze minutos depois (16:25) impõe a colocação de um blindado em posição de tiro e chega a começar a contagem que é interrompida pelo tenente Alfredo Assunção, para lhe apresentar Pedro Feytor Pinto (diretor dos Serviços de Informação da Secretaria de Estado da Informação e Turismo) e Nuno Távora,  mensageiros do general Spínola para Marcelo Caetano, que são autorizados a entrar no Quartel.

Às 16:30, Spínola comunicara ao Posto de Comando do MFA ter recebido um pedido de Marcelo Caetano para ser ele a aceitar a rendição do chefe do governo e Otelo concedeu-lhe esse mandato, após recolher a opinião dos presentes. Às 17 horas  Salgueiro Maia entra no Quartel do Carmo e fala com Marcelo Caetano que solicita um oficial-general, António de Spínola, para fazer a transmissão de poderes.

Salgueiro Maia volta ao Largo do Carmo e pede a Francisco Sousa Tavares e a Pedro Coelho – oposicionistas ligados à CEUD e ao PS- para ajudarem a afastar a população. Sousa Tavares sobe para uma guarita da GNR e apela à calma, usando o megafone. Às 17:45 chega ao Largo do Carmo o general Spínola, acompanhado pelo tenente-coronel Dias de Lima, o major Carlos Alexandre Morais, o capitão António Ramos e o Dr. Carlos Vieira da Rocha e passados quinze minutos, após receber de Salgueiro Maia a informação sobre como os membros do Governo serão evacuados, entra acompanhado por ele no interior do Quartel do Carmo. O general Spínola informa Marcelo Caetano dos procedimentos para a sua saída do local e posterior deslocação para a Madeira.

Já em pleno Largo do Carmo, Salgueiro Maia pede à população que abandone o local para se proceder à evacuação do Presidente do Conselho e dos ministros que ali estavam com ele mas o apelo é ignorado. Às 18:20, um comunicado do MFA dá conta ao País da rendição de Marcelo Caetano e dos membros do seu governo. Cinco minutos depois, às ordens de Salgueiro Maia, soldados formam um cordão em frente da porta de armas do Quartel do Carmo e às 19 horas, Marcelo Caetano, Rui Patrício e Moreira Baptista abandonam o Quartel do Carmo, sendo conduzidos na Chaimite Bula para o Quartel da Pontinha. Às 19:50, aos microfones do Rádio Clube Português, um comunicado do MFA anuncia formalmente a queda do Governo:

 Posto de comando do Movimento das Forças Armadas. Continuando a dar cumprimento à sua obrigação de manter o País ao corrente do desenrolar dos acontecimentos, o Movimento das Forças Armadas informa que se concretizou a queda do Governo,tendo Sua Ex.ª o prof. Marcello Caetano apresentado a sua rendição incondicional a Sua Ex.ª o general António de Spínola. O ex-presidente do Conselho, o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e o ex-ministro do Interior encontram-se sob custódia do Movimento, enquanto Sua Ex.ª o almirante Américo Tomás e alguns ex-ministros do Governo se encontram refugiados em dois aquartelamentos que estão cercados pelas nossas tropas e cuja rendição se aguarda para breve.
O Movimento das Forças Armadas agradece a toda a população o civismo e a colaboração demonstrados de maneira inequívoca desde o início dos acontecimentos, prova evidente de que ele era o intérprete do pensamento e dos anseios nacionais. Continua a recomendar-se a maior calma e a estrita obediência a todas as indicações que forem transmitidas. Espera-se que amanhã a vida possa retomar o seu ritmo normal, por forma a que todos, em perfeita união, consigamos construir um futuro melhor para o País. Viva Portugal!

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O Quartel-General do Governo Militar de Lisboa e o Largo de São Sebastião da Pedreira

(Foto: A Capital, 25 de abril de 1974, edição das 12 horas)

O Quartel- General da RML – posto de comando das Unidades da Região Militar de Lisboa e centro de comunicações de grande importância – foi cercado pelas 3H30 por uma força do Batalhão de Caçadores n.º 5. Estiveram envolvidos cerca de 100 militares, comandados pelo capitão Bicho Beatriz, com a rendição cerca de uma hora depois.

O Quartel-General da Região Militar de Lisboa, instalado no Palácio Vilalva, no Largo de São Sebastião da Pedreira, foi cercado às 3:30 pela 1ª Companhia Operacional do Batalhão de Caçadores nº 5, comandada pelo capitão Bicho Beatriz, que desceram da Rua Marquês de Fronteira. Às 4:30 horas, rendeu-se o governo militar de Lisboa e o major Cardoso Fontão comunicou ao posto de comando que Canadá fora ocupado sem incidentes. Cerca das 9:15, uma força da Escola Prática de Cavalaria, comandadas pelo alferes Sequeira Marcelino e pelo aspirante Pedro Ricciardi, foi reforçar a ocupação de Canadá.

O  Largo de São Sebastião da Pedreira, como a Rua e a Travessa da mesma invocação, são topónimos nascidos no sítio da Pedreira, onde já no século XVI existia uma pequena ermida dedicada a São Sebastião, construída pelos moradores da Rua das Arcas da freguesia de São Nicolau, que tomaram este santo como protetor contra o mal da peste, prometendo ir lá todos os domingos com um sacerdote para celebrar missa, festejando o orago no seu dia – 20 de janeiro – e fazendo procissão, que se realizou até 1755. No século XVII,  em 1652, D. João IV também dedicou uma igreja no largo do mesmo nome a S. Sebastião da Pedreira.

Este Largo de São Sebastião da Pedreira, na freguesia das Avenidas Novas, situa-se na confluência da Rua de São Sebastião da Pedreira, Rua Dr. Nicolau Bettencourt e Rua Marques de Sá da Bandeira.

(Foto: A Capital, 25 de abril de 1974, edição das 12 horas)

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A Rádio Marconi e a Rua de São Julião

Largo de São Julião
(Diário Popular, 25 de abril de 1974)

Cerca das 5H45 as forças da EPC, comandadas por Salgueiro Maia, instalaram-se  na Praça do Comércio, assumindo simbolicamente o poder dos Ministérios e cercando outros pontos estratégicos próximos, como a Rádio Marconi, Viena de nome de código.

No dia 25 de abril de 1974, a coluna da EPC- Escola Prática de Cavalaria comandada por Salgueiro Maia, chega à Baixa de Lisboa, cerca os ministérios e ocupa a Praça do Comércio (Toledo, de nome de código), bem como outros pontos estratégicos da zona, como o Banco de Portugal na Rua do Comércio e a Rádio Marconi, na paralela Rua de São Julião. Ao Posto de Comando instalado na Pontinha comunicou Salgueiro Maia «maior de Charlie Oito ao Posto de Comando: Ocupámos Toledo e controlamos Bruxelas e Viena.» Conforme  Salgueiro Maia declarou na altura ao jornalista Adelino Gomes,  «Estamos aqui para derrubar o Governo».

Viena era o nome de código da sede da Rádio Marconi, instalada no nº 131 da Rua de São Julião desde 1925  e  por extenso denominada  Companhia Portuguesa Rádio Marconi, SA., uma empresa de telegrafia e de satélite portuguesa. A CPRM – Companhia Portuguesa de Rádio Marconi foi constituída a partir do contrato de concessão celebrado entre o governo português e a Marconi Wireless Telegraph Company Limited , com  estatutos publicados em 18 de julho de 1925. A sua preponderância nas comunicações sem fios tornou-a um alvo estratégico.

A Rua de São Julião é uma artéria pombalina resultante do reordenamento urbanístico da Baixa lisboeta após o terramoto de 1755, que se estende da Rua da Padaria ao  Largo de São Julião, sendo este último confinante com a Rua do Comércio e a Praça do Município. Este topónimo foi atribuído pelo decreto régio de 5 de novembro de 1760  – o primeiro diploma a instituir topónimos na cidade -, junto com a determinação de neste arruamento se instalarem os algibebes, os vendedores de fatos já feitos ao invés dos alfaiates que os faziam por medida.

De acordo com Norberto de Araújo esta artéria teria como antepassada a rua de San Gião referida  no Pranto de Maria Parda do teatro vicentino. Já segundo Luís Pastor de Macedo, começou este arruamento a ser referido com o nome oficial de São Julião em 1762, e em 1781, era mais conhecido como rua ou travessa dos Algibebes.

Tanto a Rua como o Largo de São Julião, são topónimos resultantes da proximidade à igreja medieval de São Julião, na qual, de acordo com a tradição oral, terá sido batizado Pedro Julião, também conhecido como Pedro Hispano e que se tornou o Papa João XXI, em 20 de setembro de 1276. Esta igreja de São Julião foi paróquia do Paço da Ribeira mas ruiu com o terramoto o que obrigou à sua reedificação, que decorreu de 1802 até 1810. No século  XX  o templo passou a propriedade do Banco de Portugal, sendo agora o Museu da Moeda, após a adaptação traçada pelo arquiteto Gonçalo Byrne.

A Rua de São Julião
(Flama, 3 de maio de 1974)

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O Comando Geral da Legião Portuguesa e o Largo da Penha de França

O Quartel-general da Legião Portuguesa, foi ocupado pelas 14H00,  por uma força da Escola Prática de Cavalaria de Santarém, saída do Terreiro do Paço e comandada pelo major Jaime Neves, evitando qualquer tentativa de oposição ao MFA.

Da Praça do Comércio saíram duas forças da Escola Prática de Cavalaria de Santarém: uma força comandada por Salgueiro Maia para o Quartel da GNR no Largo do Carmo e outra, dirigida por Jaime Neves – com forças do Regimento de Cavalaria 7, Regimento de Lanceiros 2 e Regimento de Infantaria 1-, para o Comando da Legião Portuguesa, no nº 1 do Largo da Penha de França. As instalações da Legião – com o nome de código Marrocos – foram ocupadas às 14 horas evitando assim qualquer oposição ao movimento.

Este Largo da Penha de França, na confluência da Rua da Penha de França e da Rua Marques da Silva, tem a sua origem no próprio topónimo do sitio: a Penha de França. Um escultor de imagens sacras ou imaginário, de seu nome António Simões,  encontrando-se perdido em Alcácer Quibir fez a promessa de que se voltasse a Portugal fabricaria várias imagens de Nossa Senhora e lhes daria um destino condigno. Já regressado a Portugal, chamou Senhora da Penha de França (crê-se que por invocação de um santuário de Salamanca) à última imagem que produziu e esta foi inicialmente colocada na Igreja da Vitória, na  Baixa de Lisboa. Depois, o escultor lá conseguiu erguer uma Ermida, no Monte Alperche, em terrenos de Afonso Torres de Magalhães, e foi nessa Ermida ainda em construção, em 1597, que foi acolhida a dita imagem de Nossa Senhora da Penha de França, sendo apenas no ano seguinte que ficou terminado o seu templo. Em 1604, começou a construir-se no sítio uma nova Igreja, bastante maior e até com Casa Conventual que ficou terminada em 1635, sendo esta que acabou por estender o nome da Senhora da Penha de França a todo o sítio, até chegar a ser também o da própria freguesia.

O sítio foi habitado pelo menos desde a época muçulmana, memória que parece ter ficado na Calçada do Poço dos Mouros, ou até em períodos anteriores, uma vez que a toponímia portuguesa usa muitas vezes a palavra «Mouro» e seus derivados para locais ocupados ainda em períodos neolíticos ou para assinalar gente de diferentes culturas.

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Alameda Padre Álvaro Proença

Alameda Padre Álvaro Proença, topónimo atribuído por Edital de 28 de Fevereiro de 1984 a um arruamento da freguesia de Benfica

Álvaro Proença (1912-1983). Padre, professor e escritor. Ordenou-se padre após o curso feito no Seminário de Santarém. Nos anos 40 do século XX, foi professor na Casa Pia de Lisboa e na Escola Industrial Afonso Domingues (Marvila). A sua carreira eclesiástica desenrolou-se na área de Lisboa tendo sido Capelão Naval, Capelão da Casa Pia de Lisboa, Reitor da Igreja da Madre de Deus e pároco de Santa Maria de Loures. Enquanto esteve à frente desta paróquia interessou-se pela história local, tendo publicado em 1940, Subsídios para a história do Concelho de Loures. No ano seguinte escreve Como o povo reza: etnografia, em 1940, Raínha Nossa: coro falado, e em 1949 A grande colheita: coro falado para a festa das colheitas. Por toda a década de 50 publicará várias pequenas obras dedicadas à catequese de jovens e à oração: A nossa oração, Compêndio de Religião e Moral, Nossa Mãe e nossa Vida, Nossa Fé e nossa Lei, A hora triunfal: coro falado e Missal da Juventude.

A partir de 1955 é nomeado pároco de Nossa Senhora do Amparo de Benfica, lugar que manterá até à sua morte em 1983. Dedica-se à sua paróquia promovendo uma renovação da vida paroquial. Logo nesse ano funda o Boletim da Família Paroquial de modo a aproximar a igreja dos seus fiéis. Em 1958, lança o primeiro peditório para a construção dum Centro Paroquial e Social, a ser edificado no lado poente da Igreja, o que se veio a realizar, depois de apresentados vários projectos, em 1959, e terminada a segunda fase em 1964. O Centro destinava-se às actividades próprias da vida paroquial (cartório, casa paroquial, etc.), mas também, previa, desde o início, uma Creche, Jardim Infantil, Biblioteca, Salas de Aulas e Salão Paroquial. É durante o seu ministério que se iniciam os Cursos de Preparação para o Matrimónio, que se institui a Obra da Sagrada Família (para a promoção da oração em família), que se cria o Grupo de Recepção e Acolhimento, se formaliza o grupo de Leitores para a Eucaristia, e se cria o Apoio Pastoral que ainda hoje funcionam. A partir das emissões de televisão, em 1957, cria também um dos primeiros Cineclubes de Lisboa, que funcionava na paróquia.

Mas o seu interesse por Benfica levou-o igualmente, à semelhança do que já havia feito para Loures, a investigar a história desta freguesia. Em 1964 saiu a sua grande obra: Benfica através dos tempos. O Padre Álvaro Proença, ao longo de quase 600 páginas, procurou fazer a história da paróquia, da sua igreja, mas também do seu povo, usos e costumes, de aspectos da vida social, do património edificado da freguesia, das feiras e festas, entre outros temas. Benfica através dos tempos tornou-se, assim, uma obra fundamental para quem quer estudar esta zona e um excelente exemplo de como a olisipografia se pode dedicar a uma pormenorizada história de uma parte da cidade.

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Rua José Felicidade Alves

Rua José Felicidade Alves, topónimo atribuído por Edital de 14 de Julho de 2004 a um arruamento da freguesia de Campolide

José Felicidade Alves (1925-1998), sacerdote, escritor, olisipógrafo. Participou na Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos. Foi sócio da Academia Nacional de Belas Artes, do Grupo Amigos de Lisboa e da Associação Portuguesa de Historiadores de Arte. Pertenceu à Comissão de Ética do Instituto Português de Oncologia. Foi ordenado sacerdote em 1948. A sua carreira eclesiástica iniciou-se nos Seminários de Almada e dos Olivais, como professor, mas em 1956 foi nomeado pároco de Santa Maria de Belém. Segundo alguns dos seus próprios testemunhos, foi aqui, através da vida paroquial e dos paroquianos, que contactou com a realidade. Em simultâneo, as eleições presidenciais às quais Humberto Delgado se candidatou, em 1958, despertaram nele uma consciência política, embora ainda pouco definida – “Foram as eleições de Humberto Delgado que me acordaram(…) dei-me conta que não estava com o regime embora não soubesse porquê”, como contou à jornalista Diana Andringa. Com o início da guerra colonial, começa também a questionar o papel da Igreja no acompanhamento dado aos militares e no ocultar das tragédias pessoais que iam ocorrendo, e que ele tanta vezes ouvia no confessionário. Viviam-se então os anos do Concílio Vaticano II (1962-1965), pelo qual a Igreja, através dos seus dignitários procurou a reaproximação aos princípios cristãos, ao mesmo tempo que alterava profundamente a liturgia, apelava à participação activa dos leigos na vida das comunidades e apelava à aplicação dos direitos do homem. Em 1965, o cardeal Cerejeira envia-o a Paris, por pouco tempo. Em 1967 as suas homílias começam a incomodar a hierarquia católica ao abordar temas como a reforma da Igreja e mais uma vez é enviado a Paris, agora para estudar Teologia Ecuménica em 1968. No entanto, nas férias da Páscoa desse ano, regressa Lisboa, apresentando uma comunicação ao Conselho Paroquial de Belém subdividida em duas partes Perspectivas actuais de transformação nas estruturas da Igreja, e Sentido da responsabilidade pessoal na vida pública do meu país onde tece considerações sobre uma muito necessária reforma do clero, da igreja e do seu ensinamento, ao mesmo tempo que defendia a abolição da censura, o direito à informação e discutia a guerra colonial. Esta comunicação veio a revelar-se um ponto de viragem na sua vida, pelas consequências que provocou. O cardeal Cerejeira, instaurou-lhe um processo cujo resultado foi o afastamento de Felicidade Alves da paróquia em Novembro de 1968, a suspensão e a excomunhão em 1970.

Afastado da vida clerical, mas não da fé cristã, Felicidade Alves impulsionou, com Teotónio Pereira e o padre Abílio Tavares Cardoso, a publicação dos Cadernos do GEDOC (Grupo de Estudos, Intercâmbio de Documentos, Informações e Experiências) inseridos no movimento dos católicos progressistas que questionavam a hierarquia da Igreja instituída e a manutenção da guerra. Acusado de incitar à violência e à luta armada, foi preso pela PIDE e levado a tribunal, sendo absolvido.

Após a saída da vida religiosa passa a dirigir o Anuário Comercial, e depois ingressa na Editora Livros Horizonte. Dedica-se à escrita de temas teológicos Também nós queremos ser pessoas livres (1970), Não te admires que eu diga: é preciso nascer de novo! (1970), Jesus da Nazaré (1994). Enveredou pela Olisipografia a partir da década de 80 do século XX, iniciando em 1984 a publicação da obra de Francisco de Holanda (1517-1585), humanista e arquitecto português: Da Fábrica que falece à cidade de Lisboa, Do tirar polo natural, Da pintura antiga, Diálogos em Roma (todos de 1984). Obras para as quais redigiu as introduções, as notas e comentários trazendo para a luz da discussão este importante humanista. Em 1986 apresenta de sua autoria Introdução ao estudo da obra de Francisco de Holanda. No ano seguinte inicia um novo e importante conjunto de edições, traduzindo , anotando e comentando algumas das obras clássicas sobre Lisboa: Lisboa em 1551, de Cristóvão Rodrigues de Oliveira (1987); Descrição da cidade de Lisboa, de Damião de Góis (1988), A conquista de Lisboa aos mouros em 1147 (…), (1989), Grandeza e Abastança de Lisboa em 1552, de João Brandão, e Do sítio de Lisboa: diálogos, de Luís Mendes de Vasconcelos (ambos de 1990). Estas edições enriquecidas com as suas investigações permitiram que toda uma nova geração a elas tivesse acesso e deu a conhecer ao grande público algumas das mais importantes fontes para o conhecimento da história da cidade. Entre 1989 e 1993, vieram a público os seus três volumes O Mosteiro dos Jerónimos: Descrição e evocação (I vol.), Das origens à actualidade (II vol. ) e Para um inventário do recheio de Santa Maria de Belém (III vol. ), naquele que é considerado um dos mais completos estudos sobre este mosteiro.

O seu arquivo, meticulosamente organizado, foi doado pela sua viúva, Elisete Alves, com quem se casara civilmente em 1970 (e canonicamente em 1998), à Fundação Mário Soares, e abarca um vasto conjunto documental sobre temas diversos. Foi a partir do seu espólio que foram postumamente publicados os títulos, Roteiro da Produção literária Portuguesa no século XVI, e em 2008, Monografia sobre São Vicente.

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A inclusão da Travessa da Praia na Travessa dos Brunos

A Travessa dos Brunos hoje – Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Edital municipal de 3 de outubro de 1919 estabelecia que «os prédios com os nºs 22 e 24 situados num troço da extinta via pública que se denominava Travessa da Praia sejam desta desanexados e encorporados [ incorporados] na Travessa dos Brunos» conforme a Comissão Executiva da Câmara deliberara na sua sessão de 28 de setembro.

Excerto da planta de Filipe Folque de 1857 (Arquivo Municipal de Lisboa)

Na planta de Filipe Folque, de 1857, a Travessa da Praia surge com uma extensão maior que a Travessa dos Brunos e bem junto a uma doca e ao Rio Tejo, fazendo jus ao seu nome. Mais de vinte anos depois, em 1879, na planta de Francisco e César Goulart, a Travessa da Praia aparece com uma extensão semelhante mas já longe do rio, com a Rua Vinte e Quatro de Julho ( mais tarde será a Avenida Vinte e Quatro de Julho) de permeio.

Excerto da planta de Francisco e César Goulart de 1879 (Arquivo Municipal de Lisboa)

Em outros documentos municipais ainda encontramos a Travessa da Praia no final do séc. XIX. Numa escritura com data de 28 de maio de 1884, de expropriação de terreno nessa artéria para abertura de novo arruamento entre a Rua do Sacramento e a Rua Vinte e Quatro de Julho.  Dois anos depois, em 22 de novembro de 1886, também num projeto e orçamento para a abertura da nova artéria, bem como em 7 de maio do ano seguinte na  expropriação de um prédio na Rua do Sacramento à Pampulha e Travessa da Praia e, finalmente, em 31 de agosto de 1889 na expropriação de mais terrenos.

As alterações urbanísticas da zona com o progressivo ganho de terreno ao Tejo conduzem a que a Travessa da Praia seja progressivamente diminuída, e considerada extinta em 1919, pegando então o que dela restava para ser integrado na Travessa dos Brunos,  memória dos frades cartuxos de São Bruno que nesta zona se instalaram no século XVII.  D. Jorge de Ataíde, bispo de Viseu e capelão-mor de Filipe II, propôs o estabelecimento da ordem de São Bruno de Colónia em Portugal e o prior D. Luís Telmo, da Cartuxa de Évora, aceitou umas casas na Pampulha, oferecidas pelo bispo, e assim ficarão na memória  desta Travessa.