A Calçada da Memória do atentado a D. José I

A Calçada da Memória em 1969
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

A memória das aventuras galantes de D. José I com D. Teresa de Távora, que terminaram com um atentado à integridade física do soberano, ficou registada no próprio local da agressão com a construção de uma Igreja dedicada a Nossa Senhora do Livramento – por ele ter saído ileso-, assim como a São José – por ser o nome do rei-, e essa lembrança estendeu-se depois a três topónimos locais: a  Calçada , o Largo e a Travessa da Memória.

Tanto a Calçada da Memória como a Travessa homónima, foram topónimos oficializados pela edilidade lisboeta através do Edital de  26 de setembro de 1916. Já o Largo da Memória não possui prova documental que ateste a sua data de fixação mas terá de ser posterior ao início  da construção nesta zona da Igreja da Memória , isto é, a partir de 1760. A partir dos documentos constantes no Arquivo Municipal de Lisboa podemos deduzir que todos os três topónimos serão do séc. XIX e que antes foram genericamente as Terras da Memória.

Com data de 27 de outubro de 1886, encontramos  um projeto de ruas a executar na zona da Memória e da Ajuda, no qual percebemos que a Igreja da Memória confrontava com o Caminho do Buraco, o Pátio das Vacas e o Largo do Chafariz. Também com a data de 8 de janeiro de  1891 deparamos com o projeto definitivo das ruas nas denominadas Terras da Memória, em terreno cedido pela Casa Real. E em 1892, descobrimos um requerimento de vários moradores a solicitar a demolição do muro na travessa do Pátio das Vacas para comunicação com as Terras da Memória e ainda uma solicitação de Rosa Gomes para construção de casa num dos arruamentos projetados na zona da Memória.

Da ligação de D. José I a D. Teresa de Távora, informa o olisipógrafo  Norberto de Araújo que o atentado ocorreu na noite de 3 de setembro de 1758, quando o monarca saído dos aposentos da jovem marquesa de Távora subia de Belém para Ajuda, na carruagem do seu criado e confidente Pedro Teixeira (também fixado como topónimo numa Estrada da Ajuda) e que ao passar no Pátio das Vacas foi D. José atacado a tiro. Os conjurados sumiram-se e o rei partiu à desfilada para a casa do Marquês de Angeja, na Junqueira, para tratar os seus ferimentos no braço. Saiu ileso o rei desta conspiração, tida como dos Távoras, e por tal bênção desta salvação foi erguida a Igreja da Memória. Depois, o Marquês de Pombal acusou os seus inimigos Távoras de conspiração e estes foram torturados e depois executados em janeiro de 1759. A morte dos Távoras foi celebrada com um pelourinho erguido no Beco do Chão Salgado, topónimo também relativo a essa ocasião e os restos mortais do Marquês de Pombal foram transladados em 1923 para a Igreja da Memória.

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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O Largo do sítio de São Domingos do séc. XIII

Largo de São Domingos na segunda década do séc. XX
(Foto: Alberto Carlos Lima, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Largo de São Domingos retira o seu nome do Convento de S. Domingos, erguido neste sítio no séc. XIII e que a partir dessa data  serviu como referência toponímica a toda a zona em seu redor.

Hoje, o Largo de São Domingos define-se na confluência da Rua Dom Antão de AlmadaRua de Barros Queirós, Praça D. Pedro IV e Rua das Portas de Santo Antão, onde se apresenta a Igreja de São Domingos.

A 1ª pedra do Convento da Ordem dos Dominicanos ou Ordem dos Pregadores aqui erguido foi benzida em 1242, no tempo de D. Sancho II, mas só ficou concluído em 1259, já no reinado de Afonso III. Mais tarde será fundado o Convento de S. Domingos de Benfica, em 1399, através de Frei Vicente de Lisboa, o confessor do rei D. João I. O templo da baixa lisboeta foi reedificado em 1536 por via do terramoto de 1531, assim como em 1608 e também após o terramoto de 1755, com um novo traçado de Carlos Mardel e fachada de João Frederico Ludovice. Em 1959, a igreja sofreu violento incêndio e só voltou a abrir ao público em 1994.

Este Largo de São Domingos tem ainda outras memórias da cidade de Lisboa e da história do país de que destacamos três, por ordem cronológica. Da Igreja de São Domingos partiu o Massacre de Lisboa de 1506 (ou Matança da Páscoa de 1506), em que  instigada por dominicanos a população perseguiu e matou centenas de judeus. A assinalar esta data trágica a CML inaugurou em abril de 2008, no centro do Largo,  um Memorial às Vítimas do Massacre Judaico de 1506, tal como um mural onde em  34 línguas está escrito Lisboa Cidade da Tolerância.  Também para a eclosão do 1º de Dezembro de 1640 se fizeram reuniões no edifício que conhecemos como Palácio da Independência, então pertença de D. Antão de Almada, que era dos 40 conjurados. E a partir de 1840, abriu neste Largo de São Domingos a taberna de um galego de apelido Espinheira, que foi a primeira a vender ginjinha, para além da loja ainda hoje ostentar no exterior rimas da autoria do jornalista Esculápio.

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Calçada da Capela de Santo Amaro, protetor dos ossos e dos namoros

Freguesia de Alcântara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Calçada de Santo Amaro recolhe o seu nome da Capela a que dá morada, por ser uma via talvez do séc. XVI mas seguramente do tempo em que eram as populações que atribuíam os nomes pelos pontos de referência que eram significantes no seu mundo.

Hoje, a Calçada de Santo Amaro liga a Rua Primeiro de Maio à Travessa dos Moinhos e será um topónimo posterior à construção da Ermida em 1549, no Alto que ficou também de Santo Amaro, um abade beneditino que como santo do dia 15 de janeiro é o protetor dos ossos, dos pescadores  e dos namoros. Norberto de Araújo esclareceu a este propósito que «A Ermida de Santo Amaro foi edificada em Fevereiro de 1549, era então êste sítio, num alto bem marcado, completamente isolado de Lisboa, campo verdejante enfrentando o Tejo pelo Sul e uma parte da Serra do Monsanto pelo Norte, antigas terras do Casal Rolão. (…) A Ermida lisboeta de Santo Amaro estava agregada à Basílica de S. João Latrão, de Roma, à qual pagava foro (…).»

Há quem atribua  a fundação da Ermida a tripulantes galegos de uma barca que  aqui teria dado à costa e há quem defenda tratar-se de uma iniciativa de frades da Ordem de Cristo, regressados de Roma, que aqui teriam iniciado a sua ascese religiosa.

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Ainda segundo Norberto de Araújo, desde o século XVI ao XIX, eram os galegos em Lisboa os mais devotos de Santo Amaro e esta capela, era local certo de romaria de 15 de janeiro a 2 de fevereiro: a Romaria dos Pinhões, o fruto seco mais comum dessa época do ano, que  se realizou pela última vez em 1930. Conta-nos o historiador olisiponense Augusto Vieira da Silva que “Nela se faziam antigamente grandes festas ao seu patrono, que começavam em 15 de Janeiro e se prolongavam ordinariamente até 2 de Fevereiro. No seu adro organizavam os galegos das companhias de aguadeiros de Lisboa, um arraial e danças ao som de gaitas de foles, e nele apareciam, além dos vendedores dos artigos que era uso negociarem-se em todas as festanças populares portuguesas, mulheres vendendo rosários de pinhões de Leiria”. Santo Amaro era venerado pelo povo como santo casamenteiro registado até numa quadra que o etnógrafo Luís Chaves registou em 1922:

Santo Amaro, meu Santo Amaro,
tu és o meu santo querido.
Venho hoje aqui pedir-te
que me dês um bom marido.

Na zona existem mais dois topónimos ligados ao mesmo Santo: as Escadinhas de Santo Amaro que ligam a capela à Calçada e a Rua da Academia Recreativa de Santo Amaro, atribuída pelo Edital municipal de  28 de julho de 1958 para consagrar a coletividade local.

Gravura das Escadinhas e da Calçada de Santo Amaro
(Foto do Arquivo Municipal de Lisboa)

Da Almofala ao Largo do Convento de Nossa Senhora da Graça

Freguesia de São Vicente
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Foi na Almofala que acamparam as tropas de D. Afonso Henriques em 1147 mas, depois  de em 1305 o Convento de Agostinhos erguido no local  ter tomado  a invocação de Nossa Senhora da Graça foi esta que se estendeu ao seu redor como topónimo, fazendo nascer o Largo da Graça.

O Largo da Graça que hoje encontramos na confluência da Rua da Graça, Rua Damasceno Monteiro, Rua da Verónica, Travessa das Mónicas e Rua da Voz do Operário é uma encruzilhada de caminhos que se definiu em 1700, após a destruição da Cerca Fernandina  e a demolição dos dois  Postigos locais : o da Graça ou de Santo Agostinho e o do Caracol da Graça. Na descrição paroquial que refere as existências imediatamente anteriores ao Terramoto é mencionado o Largo da Graça na Freguesia de Santa Engrácia como «o Largo da porta do Carro do Convento da Graça» e na Freguesia de São Vicente como o «Largo da Graça da parte do Sul». O mesmo Convento originou também a Rua da Graça.

A Almofala ou Almafala era um arrabalde mourisco e após ter ganho a cidade D. Afonso Henriques doou grande parte das terras aos monges agostinhos, pela contribuição que tinham dado para o reconhecimento da independência nacional no plano externo. O Convento da Ordem de Santo Agostinho foi erigido de 1271 até 1291. Os monges haviam estado no Monte de S. Gens a partir de 1243, oriundos das suas antigas instalações, nas Olarias. Só em 1305 todos os conventos da ordem de Santo Agostinho passaram a ser da invocação de Nª Srª da Graça e apenas em  1373-1375 é que o Convento fica dentro da Cerca Fernandina, ou seja, já no perímetro urbano de Lisboa.

A população da Graça cresceu particularmente nos séculos XVII e XVIII,  sobretudo após o Terramoto. O Convento da Graça rivalizava com o de São Roque na colina fronteira, disputando a influência das suas Ordens junto da Corte, bem como na Igreja. O século XIX assistiu à urbanização do Largo da Graça após a destruição do Palácio dos Abelhos e em 1834,  o convento foi reconvertido em quartel e a sua igreja tornou-se paroquial. Cerca de quarenta anos depois, em 1872, começou a abertura do arruamento que hoje identificamos como Rua da Voz do Operário.  Refira-se ainda que de 1905 a 1930 esteve instalada neste Largo a Escola-Oficina nº 1 de Lisboa.

O Largo da Graça em 1949                 (Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Largo do Carmo de Nuno Álvares Pereira

Freguesia de Santa Maria Maior

O Largo do Carmo é um topónimo fixado na memória de Lisboa por referência à proximidade ao Convento e Igreja de Nª Srª do Vencimento do Monte do Carmo, estruturas religiosas da iniciativa de Nuno Álvares Pereira, no último quartel do século XIV.

António José Saraiva defendeu que a localização do Convento seria simbólica. Primeiro, porque este templo foi erguido num monte que afrontava o do Castelo, em cuja encosta  se situavam o Paço Real e a Sé de Santa Maria Maior. Em segundo lugar, porque na época de construção o popularmente designado Rossio denominava-se Valverde, o que decerto lembraria a Nuno Álvares Pereira o triunfo na batalha desse nome. Em terceiro lugar, porque apesar das enormes dificuldades técnicas surgidas na consolidação da escarpa para assentar as fundações do templo, a ponto de terem sido precisos 8 anos para a construção dos alicerces, o Condestável insistiu na construção do convento ali mesmo. Quando a obra ficou terminada, em 1423, doou o convento à Ordem do Carmo e ingressou nele como frade.

Nuno Álvares Pereira era cunhado do Almirante Pessanha, grande proprietário naquele local do Monte do Carmo e que por isso mesmo também ficou registado na toponímia da zona.  Até ao Terramoto de 1775, o Largo do Carmo tinha assim a maior Igreja de Lisboa, cuja nave central é hoje visível a céu aberto. A zona do Convento está  ocupada pelo quartel da GNR que foi o palco da rendição de Marcelo Caetano em 25 de Abril de 1974.

Freguesia de Santa Maria Maior – Placa de Azulejo

A Rua da Igreja paroquial de São Mamede ao Caldas

A Rua de São Mamede, no cruzamento com a Rua da Saudade, em 1901
(Foto: Machado & Souza, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua de São Mamede estende-se desde a Rua da Saudade até ao Largo Adelino Amaro da Costa, o antigo Largo do Caldas, em resultado do Edital de 8 de junho de 1889 que retirou à Rua Nova de São Mamede a palavra «Nova» e deve o seu nome à Paróquia de São Mamede que neste arruamento se situou no período entre 1220 e o Terramoto de 1755.

Se seguirmos o Agiológio Lusitano, a igreja paroquial de São Mamede  aqui se situava pelo menos desde 1220 e Norberto de Araújo avança que é de 1220 uma escritura em que interveio Maria Pires, cunhada de Fernando de Bulhões, depois Santo António de Lisboa e a Igreja de São Mamede é mencionada. O templo localizar-se-ia no largo fronteiro ao Palácio dos Condes de Penafiel.  Ainda de acordo com este olisipógrafo, «(…) cerca deste sitio, que mesmo no século XVIII era silvestre, pouco mais do que campo, com as habitações disseminadas pela encosta. Depois do terramoto este local ficou sendo conhecido por “monturos de S. Mamede”». A igreja ficou  totalmente arruinada na catástrofe e passou então para São Cristóvão; em 1761 foi para a Ermida de São Patrício nas Escadinhas de São Crispim e nove anos depois, em 1770, pela remodelação paroquial, foi a paróquia transferida para o Vale do Pereiro, para a Ermida de Nossa Senhora da Mãe de Deus e dos Homens que passou a ser a sede paroquial que Vieira da Silva localizou na Rua Rodrigo da Fonseca, onde é cortada pelas Ruas Braamcamp e Alexandre Herculano. Depois, em 1782, começou a ser construída a nova Igreja de São Mamede, em terrenos cedidos pelo Colégio dos Nobres, local que hoje denominamos como Largo de São Mamede, mas que só abriu ao culto após o fim das obras, em 1861.

São Mamede terá nascido no séc. III em   Cesareia – hoje,  Kayseri na Turquia -, sob o poder do Império Romano. É  um Santo mártir venerado tanto pela Igreja Católica como pela Igreja Ortodoxa, comemorado a  5 de novembro.

Nesta Rua de São Mamede, encontra-se o Palácio dos Condes de Penafiel e como tal, do último Correio-Mor, já que de de 1606 até 1797 o serviço de correio foi privilégio da família Gomes da Mata, sendo que ao passar o serviço para a Coroa o 8.º e último Correio-Mor, Manuel José da Mata de Sousa Coutinho, recebeu diversas compensações  como o título de Conde de Penafiel.  Também no Arquivo Municipal de Lisboa encontramos uma petição de D. Isabel Cafaro, datada de 1710, tutora de seu filho Luís Vitório de Sousa Coutinho da Mata, Correio-Mor do Reino, para reedificar as casas onde vive situadas em  São Mamede, assim como construir um telheiro e lavrar as pedrarias no largo junto da igreja.

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Praça da Estrela dos quinhentistas frades do Convento da Estrelinha

A Praça da Estrela e o Hospital Militar (ex-Convento da Estrelinha) em 1911
(Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

De Tibães vieram os frades que chegaram a Lisboa no séc. XVI e aqui fundaram o seu primeiro mosteiro, o Convento da Estrelinha,  concluído em 1571, no local que hoje designamos como Praça da Estrela.

Esta Praça da Estrela foi fixada pelo Edital municipal de 8 de junho de 1889 na que era até aí a Praça do Convento Novo do Coração de Jesus e assim  o topónimo substituiu a referência ao Convento do Coração de Jesus e à Real Basílica, terminados em 1790, pelo mais antigo Convento de Nossa Senhora da Estrela. No decorrer do século XIX, o Convento do Coração de Jesus e o Convento da Estrelinha vão disputando o topónimo. Duarte Fava, na sua planta de  1807 designava o arruamento como Praça do Convento do Coração de Jesus, tal como fez o Duque de Wellington em 1811.  Já Filipe Folque, em 1856, identificou o arruamento como Praça do Convento Novo e 26 anos passados, em 1882, a planta municipal de Francisco Goulard denominou a artéria como Largo da Estrela e é como Praça da Estrela que vai ficar perpetuada sete anos depois.

O topónimo Estrela ganhou e foi ficando em mais artérias da zona, como na Calçada da Estrela, na Rua da Estrela, na Rua do Jardim à Estrela, assim como na Rua dos Ferreiros à Estrela (Edital do Governo Civil de Lisboa de 01/09/1859), na Rua de Santo António à Estrela (Edital municipal de 14/06/1881), na Rua da Imprensa à Estrela (Edital de 12/02/1883) e na Travessa da Oliveira à Estrela (parecer da Comissão Municipal de Toponímia de 09/06/1952). Acresce ainda aquela que conhecemos como  Rua de João de Deus, desde a publicação do Edital municipal de 24/02/1897, que antes era a Calçada Nova da Estrela e ainda antes era a Calçada Nova do Convento Novo do Coração de Jesus.

Os frades que vieram de Tibães para a Lisboa Quinhentista e aqui dedicaram a igreja do seu convento a Nossa Senhora da Estrela ou da Estrelinha, compraram mais tarde, em 1596, e mais abaixo,  as terras da Quinta da Saúde onde ergueram um convento maior, o de São Bento da Saúde – que hoje é a Assembleia da República – e destinaram o da Estrelinha apenas para o ensino dos noviços. O terramoto de 1755 destruiu parte do Convento da Estrelinha mas, em 1818 já uma parte dele funcionava como secretaria dos Hospitais Militares e com a extinção das ordens religiosas em 1834, o exército alargou a sua ocupação do edifício pelo que em 1837 passou a ser o Hospital Militar.

Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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O Largo da Igreja de São Miguel de Alfama

Freguesia de Santa Maria Maior

O Largo de São Miguel, na confluência da Rua de São Miguel e da Travessa do Terreiro do Trigo, colhe o seu topónimo da Igreja de São Miguel que ali começou a ser construída por volta de 1150.

A própria Freguesia da mesma invocação foi criada cerca de trinta anos depois, em 1180. E São Miguel tem nesta zona de Alfama mais 5 topónimos: a Calçadinha, a Rua (uma típica rua Direita medieval), mais o Beco (para substituir a denominação  Beco dos Mortos) e a Travessa (era o Beco de São Miguel) que se juntaram no final do séc. XIX e as Escadinhas de São Miguel (para substituir o Largo da Cantina Escolar) em 1963.

Estes hagiotopónimos referem-se a São Miguel Arcanjo, celebrado liturgicamente a 29 de setembro, defensor do Povo de Deus por liderar os exércitos celestiais e por acompanhar as almas dos mortos até o céu. Mas o seu culto em Portugal remonta a Dom Afonso Henriques que o fez o primeiro padroeiro de Portugal. Reza a lenda que o primeiro rei português antes de defrontar os mouros em terras escalabitanas, em 1147, terá invocado o seu auxílio e que São Miguel Arcanjo  fez descer dos céus o seu punho alado, derrotando as forças sarracenas. São Miguel foi o padroeiro de Portugal até D. João I o trocar por São Jorge por via do seu casamento com D. Filipa de Lencastre que será também substituído após a Restauração de 1640 por Nossa Senhora da Conceição.

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Largo do Mosteiro do padroeiro de Lisboa, São Vicente

O Largo de São Vicente em 1899
(montagem a partir da foto de Machado & Souza, Arquivo Municipal de Lisboa)

Na confluência da Rua da Voz do Operário com o Arco Grande de Cima firma-se o Largo de São Vicente, recolhendo o topónimo do Mosteiro ali erguido desde 1147, da invocação do padroeiro de Lisboa, São Vicente, com o acrescento de Fora por nessa época o convento se situar fora das muralhas da cidade.

Este hagiotopónimo de São Vicente que também se estende ao nome da Freguesia e neste zona, surge  também num Telheiro, que acolhe um pedaço da Cerca Fernandina; numa Rua, fronteira ao Largo; numa Travessa; e numa Calçada que parte do Largo.

Largo de São Vicente em 1899
(Foto: Machado & Souza, Arquivo Municipal de Lisboa)

Segundo o  olisipógrafo Norberto de Araújo, «A Igreja de S. Vicente foi construída por D. Afonso Henriques, em obediência ao voto que fizera, e revelara ao Arcebispo de Braga, D. João Peculiar, quando do Cerco de Lisboa. A primeira pedra foi lançada em 21 de Novembro de 1147. (…) O primitivo Mosteiro de S. Vicente não tinha a mais leve semelhança com o actual, nem dele resta memória descritiva ou simples alçado. (…) A inauguração do novo Mosteiro e Igreja de São Vicente fêz-se a 28 de Agosto de 1629, sem que as obras estivessem concluídas, pois se prolongaram interiormente quase durante um século. São Vicente, de magestosa fábrica, templo esplenderoso da mais pura Renascença, de uma nobreza e suavidade admiravelmente conjugadas, era no século XVII dos mais belos de Lisboa, e único no seu estilo largo, harmonioso, um pouco frio, e por isso severo. O Terramoto causou-lhe enormes prejuízos (…). As obras de reedificação começaram pouco depois, e datam dessa época vários enxertos e sobreposições que se notam no templo.»

Após a extinção das Ordens Religiosas, em 1834, o Paço Patriarcal foi transferido para o Mosteiro de São Vicente e em 1908 foi da sua igreja que saiu o cortejo fúnebre de Dom Carlos I e de Dom Luís Filipe.

Freguesia de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua do Convento da Madre de Deus em Xabregas

A Rua da Madre de Deus na década de cinquenta do séc. XX
(Foto: Abreu Nunes, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua da Madre de Deus, com início na Rua de Xabregas e fim na Calçada da Cruz da Pedra, foi um topónimo fixado na memória de Lisboa em data que se desconhece mas seguramente posterior a 1509, já que é  esse o ano da fundação do Convento de Nossa Senhora da Madre de Deus, de cariz manuelino, a partir do qual se gerou o topónimo.

Também denominado Real Mosteiro de Enxobregas foi este mandado erguer numa quinta em Xabregas pela rainha D. Leonor, então viúva de D. João II, para dele fazer mercê às freiras Franciscanas Descalças, da Primeira Regra de Santa Clara, do Convento de Jesus de Setúbal e que se constituiu como um dos pólos dinamizadores da zona oriental de Lisboa, ao aglomerar em seu torno  populações e quintas de recreio da nobreza, à semelhança de outros mosteiros locais como São Félix de Chelas e São Francisco de Xabregas. Ainda por intervenção da rainha D. Leonor, o Convento da Madre de Deus recebeu  as relíquias de Santa Auta em 1517, cerimónia que originou um retábulo datável entre 1520 e 1525. Refira-se ainda que D. Leonor habitou junto do mosteiro, num paço que para si mandou edificar e em 1525 ficou em campa rasa no claustro do convento.

Coeva do Convento da Madre de Deus foi a Fonte da Samaritana, também  mandada construir pela rainha D. Leonor, junto do Convento da Madre de Deus mas que em 1700 foi transferida para outro local das proximidades por mor do contínuo abuso praticado pelas freiras que desviavam a sua água.

D. João III congratulou-se em 1523 por a Câmara lisboeta custear a construção de uma escadaria defronte do Mosteiro da Madre de Deus, rei que também lhe ordenou obras de remodelação traçadas pelo arquiteto régio Diogo de Torralva no final dos anos trinta de 1500. Em 1567 foi a vez do Cardeal D. Henrique ordenar a construção de um cais junto do Mosteiro da Madre de Deus. D. João V e D. José I, entre 1746 e 1759, ordenaram novas obras de reforma do Convento de que se salienta o revestimento em talha dourada. Foi depois destruído pelo terramoto de 1755, reedificado e novamente restaurado em 1872.

Antes do terramoto e mesmo antes de  1780, conforme plantas conservadas no Arquivo Municipal de Lisboa, o espaço deste arruamento era apenas rural sendo na planta topográfica de Lisboa de 1780 mencionados os campos do Alto do Varejão. Mencione-se que, em julho de 1577, Francisco Álvares Varejão abdicou a favor da cidade de um pedaço de terreno situado nas propriedades do Mosteiro da Madre de Deus, para ser usado como serventia pública. Só na planta de Filipe Folque, produzida em 1858, se indica já a Rua Direita da Madre de Deus.

Em 1867, o Mosteiro foi entregue ao Asilo Maria Pia, aquando da venda dos bens da Igreja. Já no séc. XX, entre 1957 e 1958, com o apoio da Fundação Gulbenkian, por ocasião do V Centenário do Nascimento da Rainha D. Leonor, foram nele realizadas as primeiras obras de cariz museológico, e em 1965, em parte do espaço foi fundado o Museu Nacional do Azulejo.

Ainda derivado do Mosteiro da Madre de Deus temos ainda nesta zona o Largo da Madre de Deus – por Edital municipal de 14/06/1950 –  no Bairro de Casas Económicas da Madre de Deus.

Freguesia da Penha de França
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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