A Rua do Convento de Santa Marta de Jesus

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Do Asilo de Santa Marta de Jesus, fundado no séc. XVI, mais tarde instituído como Convento, nasceu a Rua de Santa Marta.

Já no séc. XIX, o Edital do Governo Civil de Lisboa de 01/09/1859 incorporou a Rua de Santa Joana na Rua de Santa Marta. E em 1926, face aos pedidos insistentes da Junta de Freguesia de Camões para substituir a nomenclatura da Rua de Santa Marta, por deliberação de Câmara de 31 de maio de 1926 passou a denominar-se Rua Alexandre Braga, embora quase quatro meses depois, pelo edital municipal de 14 de setembro desse mesmo ano,  voltou a designar-se Rua de Santa Marta, ao mesmo tempo que colocava o topónimo Alexandre Braga «á rua sem nome que, partindo da Rua José Estevam e ao norte do Jardim Constantino, vai ligar-se com a Rua Dona Estefânia».

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Asilo de Santa Marta de Jesus foi criado para acolher e tratar as filhas das vítimas da Grande Peste de Lisboa de 1569, a pedido do Padre António de Monserrate, representante dos Padres de São Roque, da Companhia de Jesus. Depois de 1577, os padres jesuítas pediram a passagem do recolhimento a Mosteiro e em 1583, o arcebispo de Lisboa D. Jorge de Almeida, autorizou a instituição de um convento de religiosas franciscanas clarissas, sob a invocação de Santa Marta, sendo fundadoras 3 religiosas vindas do Convento de Santa Clara de Santarém. Em 1612 teve início a construção da igreja do Convento que está classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1946.

Refira-se que em 1693, residindo a rainha viúva de Inglaterra, D. Catarina de Bragança, no palácio dos Condes de Redondo, contíguo à igreja conventual, foi aberta uma tribuna sobre a capela-mor para que a soberana aí pudesse assistir às celebrações mas que foi fechada assim que D. Catarina se instalou no Paço da Bemposta, originando o topónimo Paço da Rainha.

Na descrição corográfica de arruamentos anteriores ao terramoto, a Rua de Santa Martha surge já na freguesia de S. José. O Convento de Santa Marta foi um de 11 entre os 65 conventos existentes em Lisboa que, não obstante os danos do Terramoto de  1 de novembro de 1755, se mantiveram habitáveis.

Após a extinção das ordens religiosas pelo Decreto de 30 de maio de 1834, o Convento de Santa Marta após a morte da  última religiosa em 15 de dezembro de 1887, foi alvo de obras de adaptação para começar a funcionar ao serviço da saúde em 1890, com a designação de Hospício dos Clérigos Pobres, já que desde o ano anterior havia sido cedido a essa Irmandade, para albergar as vítimas de um grande surto de gripe que alvoroçou a cidade e posteriormente, ficou como hospital de doenças venéreas. Em 1903 passou a ser um Hospital dependente do governo, inicialmente como anexo ao Hospital de São José. Em 1910 foi atribuída oficialmente ao Hospital de Santa Marta a função de Escola Médico Cirúrgica de Lisboa assumindo um importante papel no ensino da Medicina em Lisboa, função que manteve até 1953, data em que a clínica universitária foi transferida para o novel Hospital de Santa Maria, voltando o Hospital de Santa Marta para o grupo dos Hospitais Civis de Lisboa. Foi considerado como uma das principais escolas de Medicina Interna durante a segunda metade do séc. XX com Carlos George, bem como ganhou diferenciação na área cardio-vascular com a inovação trazida por Machado Macedo.

Marta era a irmã de Maria e de Lázaro, que foi ressuscitado por Jesus a seu pedido. A devoção a Santa Marta remonta à época das Cruzadas e partiu de França, onde segundo uma lenda, Marta, Maria e Lázaro teriam terminado os seus dias. Santa Marta era muito popular na comuna francesa de Tarrascon já que, segundo a tradição, aí estrangulara Tarasca, um monstro que devorava animais domésticos e crianças. Santa Marta é a patrona das cozinheiras.

Ainda na Freguesia de Santo António, encontramos mais dois topónimos evocativos de Santa Marta: o Beco de Santa Marta, junto ao nº 26 da Rua de Santa Marta, bem como a Travessa de Santa Marta que o Edital do Governo Civil de Lisboa de 01/09/1859 escolheu para ser a nova denominação da Travessa das Freiras.

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua Bispo de Cochim, D. Joseph Kureethara

Freguesia da Penha de França
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Na freguesia da Penha de França, a ligar a Avenida Infante Dom Henrique à Rua de Xabregas, encontramos a Rua Bispo de Cochim, ali fixada desde a publicação do Edital municipal de 25 de julho de 2001.

A sugestão deste topónimo partiu da investigadora Maria de Lurdes Rosa, do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, e do Patriarcado de Lisboa.

D. Joseph Kureethara (Índia – Chirakal/02.07.1929 – 06.01.1999/Cochim – Índia), nasceu no Estado de Kerala, salientando que a a sua terra natal «foi o local onde os Missionários portugueses iniciaram as suas actividades na Índia». Empenhou-se ao longo da sua vida na preservação do património histórico e religioso da Diocese de Cochim e na defesa da herança cultural portuguesa na Índia, tal como  impulsionou a recolha e conservação de objetos, monumentos e tradições locais. Disso são exemplos a criação em 1995 do Arquivo Histórico da Diocese de Cochim – após trabalho de uma equipa de investigadores portugueses enviados pela Fundação Calouste Gulbenkian e liderada por Maria de Lurdes Rosa -, e do Museu da Diocese de Cochim, nos jardins do Paço Episcopal, também com apoio da Fundação, que só foi possível inaugurar no ano seguinte ao falecimento de D. Joseph Kureethara.

Kureethara estudou em diversas instituições do Padroado Português para depois, em 1950 entrar para a Escola Apostólica Diocesana. Em 1960, foi ainda para Roma para fazer um doutoramento em Direito Canónico na Universidade Urbaniana. Nos seus 70 anos de idade, este prelado ordenado em 18 de março de 1958 somou 40 anos de sacerdócio e 23 anos como Bispo de Cochim, desde 22 de dezembro de 1975, sendo o  33º Bispo da Diocesse de Cochim  e o 2º do clero indiano, a exemplo do seu antecessor. O seu bispado pautou-se pela fundação de muitas instituições, como institutos de assistência social, uma faculdade, algumas escolas, hospitais, casas de repouso, paróquias e igrejas, bem como uma congregação religiosa destinada a mulheres (Irmãs da Sagrada Eucaristia). Empenhou-se também em campanhas de promoção de direitos para as mulheres, idosos e desempregados.

O Bispo de Cochim foi um homem culto, atento, aberto à história e ao diálogo intercultural entre os povos indiano e português, cuja dedicação ao serviço da cultura portuguesa na Índia mereceu ser agraciado com a Ordem do Infante D. Henrique, pelo Presidente Mário Soares, em 1995.

Freguesia da Penha de França
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua do jovem mártir São Ciro

Freguesia da Estrela
(Foto: Sérgio Dias | NT do DPC )

Uma rua da Freguesia da Estrela guarda a memória de São Ciro, mártir do cristianismo aos 3 anos de idade, provavelmente desde o séc. XVII ou XVIII, talvez por devoção de religiosos instalados na zona.

Este arruamento que se estende da Rua de Sant’Ana à Lapa (artéria anterior ao Terramoto de 1755) à Rua de Buenos Aires surge já nas plantas e descrições das freguesias de Lisboa após a remodelação paroquial de 1780, como arruamento divisório da Freguesia do Senhor Jesus da Boa Morte  com a Freguesia de Nossa Senhora da Lapa, assim se mantendo em 1857, nas plantas do Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque.

O topónimo homenageia o mártir cristão que com apenas 3 anos de idade foi morto com sua mãe, consagrada como Santa Julita, no século IV, na Turquia, cabendo a ambos o dia 16 de junho no calendário católico. São Ciro vivia na Turquia quando o imperador Diocleciano começou a perseguir, prender e matar cristãos. Sua mãe terá então fugido com ele para Tarso ou Antioquia (ambas localidades turcas) mas acabaram torturados e mortos no ano 304. Precedido  dos santos mártires exterminados pelo rei Herodes em Belém, Ciro tornou-se o mais jovem mártir do cristianismo.

O culto de São Ciro espalhou-se por toda a cristandade, mas quase sem referir a sua mãe, sendo assim que encontramos muitas igrejas ou localidades dedicadas em sua honra na Síria, na Palestina, em Itália, França, Espanha ou Brasil.

Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

A Rua da Igreja paroquial de Santa Catarina do Monte Sinai em Belver

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias | NT do DPC )

A Rua de Santa Catarina, na Freguesia da Misericórdia, deriva da existência no local da Igreja paroquial de Santa Catarina do Monte Sinai durante cerca de três séculos, de 1559 a 1835.

A ligar a Rua Marechal Saldanha à Rua Fernandes Tomás a Rua de Santa Catarina foi atribuída por deliberação camarária de 18/05/1889 e consequente Edital de 08/06/1889, na que era a Rua do Monte de Santa Catarina. No seu topo encontramos o Miradouro de Santa Catarina, com a característica estátua do Adamastor, ali implantada em 10 de junho de 1927.

Segundo o olisipógrafo Norberto de Araújo «O Alto de Santa Catarina, designação que foi simultânea com a de Belver, mas resistiu, deve a designação à circunstância de neste sítio – exactamente onde está êsse Palacete n.º 2, com pátio guarnecido de gradeamento – ter existido a Igreja paroquial de Santa Catarina do Monte Sinai. No alto dêste cabeço, havia, como atrás disse, desde o século XV uma enorme Cruz de madeira, que servia de guia aos mareantes.»

Freguesia da Misericórdia – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias | NT do DPC )

A Igreja de Santa Catarina do Monte Sinai, de invocação da Santa patrona dos livreiros, começou a ser edificada em 1557, por vontade da Rainha D. Catarina (1507 – 1578), irmã mais nova do Imperador Carlos V e mulher de D. João III (1502 – 1557), que foi Regente do Reino de 1557 a 1562 , durante a menoridade do seu neto, D. Sebastião. Doou a Igreja à Irmandade dos Livreiros, seguindo a sugestão que lhe fora apresentada por Simão Guedes, fidalgo do Conselho do Rei e Juiz da Irmandade dos Livreiros, junto com Miguel de Valença,um frade jerónimo. Segundo Gomes de Brito, «O chão onde se levantou o templo foi gratuitamente cedido pelos herdeiros de Bartholomeu de Andrade, em 1557, e a construção correu quasi exclusivamente por conta da rainha». Em 9 de outubro de 1559, a Igreja de Santa Catarina do Monte Sinai passou a ser paroquial, ficando com parte da área da antiga freguesia dos Mártires. O Terramoto destruiu o templo mas no final de 1757 estava reedificado e só no século seguinte, em 1835, é que ardeu completamente, tendo os restos do templo, pertença da Irmandade dos Livreiros, sido removidos entre 1856 e 1862. Depois dessa data foi construído no local o Palacete fronteiro ao Miradouro de Santa Catarina, mandado erguer por José Pedro Colares Pereira, proprietário da Metalúrgica Vulcano e Colares, que o vendeu no final do séc. XIX ao industrial Alfredo da Silva, passando depois para o seu genro Manuel da Silva. No final do séc. XX este palacete foi  adquirido pela Associação Nacional das Farmácias, que lá instalou o Museu da Farmácia, inaugurado em 1996.

Finalmente, sobre Santa Catarina destaque-se que foi conhecida como A Grande Mártir Santa Catarina ou Catarina de Alexandria, por ser natural da cidade egípcia de Alexandria, e terá sido uma  intelectual notável do início do século IV bem como mártir cristã, decapitada por ordem do Imperador romano Maximino Daia. A Igreja Ortodoxa venera-a como grande mártir e a Igreja Católica como um dos catorze santos auxiliares. Entre 527 e 565, por ordem do Imperador bizantino Justiniano I foi construído no sopé do Monte Sinai, no Egito, o Mosteiro de Santa Catarina.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

A Travessa de Santo Aleixo em homenagem à Madre Maria de Santo Aleixo

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: Sérgio Dias | NT do DPC )

Em Campo de Ourique, a Travessa de Santo Aleixo deve-se a uma homenagem a Madre Maria de Santo Aleixo, de acordo com o olisipógrafo Gomes de Brito.

Gomes de Brito na sua obra Ruas de Lisboa, escreve o seguinte no seu verbete sobre este topónimo: «Acaso por comemoração da Madre Maria de Santo Aleixo [falecida em 4 de novembro de 1689], uma das quatro Religiosas Capuchas Francesas, que a rainha D. Maria Francisca Isabel de Saboia trouxe de Paris em 1666, e que veio a ser a primeira Abadessa do Mosteiro da Sua ordem [ Mosteiro do Santo Crucifixo, conhecido como das Francesinhas], fundado em Lisboa pela Rainha sobredita e começado a habitar em 1667.  Actualmente em ruínas na Rua João das Regras [desde 1950 é a Rua das Francesinhas], esquina da Calçada da Estrêla. O retrato desta Religiosa constitue umas das três gravuras que ornamentam a “Historia da fundação do Real Convento do Santo Christo das religiosas capuchinhas francesas” – 1748, por D. José Barbosa.»

Podemos equacionar que o topónimo desta artéria que hoje vemos a ligar a  Rua Silva Carvalho à Travessa de Cima dos Quartéis tenha sido fixado no séc. XVII ou no seguinte, mas sem certeza. Após o Terramoto, o Reitor de Santa Isabel (que era então a paróquia deste sítio) escrevia em 26 de março de 1758,  que «Esta freguezia fica no suburbio da cidade de Lisboa, a cujo Patriarchado pertence» e não mencionava nomes de arruamentos.

Com segurança, sabemos que a Travessa de Santo Aleixo aparece na planta de Lisboa de Filipe Folque, de 1857, fronteira à Travessa de Jesus Maria José (que desde 1911 é a Travessa do Cabo). Sabemos igualmente que a partir da 2ª metade do séc. XIX esta artéria acolheu vilas operárias, como também aconteceu na Rua de Campo de Ourique e na Rua da Páscoa, para alojar  os trabalhadores das fábricas próximas da Ribeira de Alcântara. E em 1892 e 1896 a Travessa de Santo Aleixo teve obras de pavimentação executadas pela Câmara Municipal de Lisboa.

Refira-se que Santo Aleixo foi um romano rico que fugiu do seu casamento para ser mendigo, sendo depois apontado como Homem de Deus e o seu culto introduzido em Roma  no século XI, por monges orientais. No entanto, foi retirado do hagiológico Calendário Romano Geral em 1969.

Freguesia de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

A Praça do patrono dos animais e do meio ambiente, São Francisco de Assis

Freguesia de Carnide
(Foto: Sérgio Dias | NT do DPC )

O italiano São Francisco de Assis,  santo patrono dos animais e do meio ambiente, está homenageado numa Praça da Freguesia de Carnide, na confluência da Avenida das Nações Unidas, Rua Padre Américo e Estrada do Paço do Lumiar, desde a publicação do Edital Municipal de 28/02/2000, através do qual a Câmara Municipal de Lisboa respondeu favoravelmente ao pedido formulado pelo Seminário da Luz.

São Francisco de Assis nasceu Giovanni di Pietro Bernardone (Assis/05.07.1182 -03.10.1226/Assis) e distinguiu-se por após uma juventude mundana de extravagâncias se ter alistado na guerra de Assis contra Peruggia, para depois integrar o exército papal, ter tentado ser comerciante como seu pai e ainda, ter sido pedreiro na reconstrução de diversas igrejas, para encontrar como razão da sua vida a fundação da Ordem dos Franciscanos, ou Ordem Terceira, uma ordem mendicante virada para uma vida religiosa de completa pobreza, que se pautava por os seus frades não possuírem nada além do absolutamente indispensável, ganharem o seu sustento diariamente pelo trabalho manual e só quando não conseguissem poderiam pedir esmola. O exemplo dos franciscanos renovou o Catolicismo dessa época, por ao imitarem a vida de Cristo desenvolverem uma profunda identificação com os problemas dos seus semelhantes, a ponto de São Francisco de Assis ser canonizado menos de dois anos após falecer, em 16 de julho de 1228, sendo o santo patrono dos animais e do meio ambiente, com o seu dia assinalado a 4 de outubro.

Freguesia de Carnide – Placa Tipo IV
(Foto: Sérgio Dias | NT do DPC )

Em Portugal, os franciscanos estabeleceram-se  por volta de 1217, estando entre os seus primeiros conventos o de Santo Antão dos Olivais, em Coimbra, que após a canonização de Santo António passou a ser Santo António dos Olivais, por ter sido ali que esse santo português vestiu o hábito franciscano.  A população de Lisboa também desde 1217 se tornou devota de São Francisco de Assis, tendo a  presença dos franciscanos nesta cidade sido uma constante. Primeiro, estabeleceram-se no Chiado, onde a Calçada Nova de São Francisco ainda guarda a memória do enorme convento conhecido como Cidade de São Francisco, que se estendia da Rua Capelo ao Largo da Academia Nacional de Belas Artes e da Rua Ivens à Rua Serpa Pinto.  Foi destruído pelo Terramoto de 1755 e os franciscanos refugiram-se na Quinta dos Padres Quentais onde também ficou registado na toponímia o Alto de São Francisco. A partir de 29 de junho de 1940, os franciscanos instalaram-se na propriedade com casa apalaçada, parque e terras de cultivo que lhes foi vendida pelo Sr. Eduardo May de Oliveira, junto ao Largo da Luz, muito próximo da qual está a Praça de São Francisco de Assis.

Refira-se que em 1999, São Francisco de Assis foi eleito pelos leitores de uma revista de relevância internacional – a Times – a pessoa do 2º milénio, como arauto da paz, estratega da tolerância e patrono da ecologia.

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

 

Os antigos campos de forca no Campo da Lã e no de Santa Clara

Sobreposição da planta de Carlos Mardel de 1756 sobre a dos nosso dias, para se visualizar o Campo da Lã sobre o Largo do Terreiro do Trigo

O Campo da Lã – antes de ser Largo do Terreiro do Trigo – e o Campo de Santa Clara foram ambos campos lisboetas onde se ergueram forcas.

Em 1725, a escrava Antónia Gomes, acusada de matar o seu amo com veneno misturado num caldinho de galinha, foi queimada com uma tenaz (atazanada) antes de ser enforcada no Campo da Lã. Também lá foram enforcadas uma mulher Setúbal e a sua filha cega de 25 anos, por matarem o homem que era o marido e padrasto, com a agravante das suas cabeças terem ficado expostas na forca.

Sobreposição da planta de Guilherme de Menezes de 1761 sobre a dos nosso dias para se visualizar o Campo da Lã sobre o Largo do Terreiro do Trigo

O Campo da Lã, deve o seu nome à seca de curtumes que no seu espaço tinha lugar, antes de na época pombalina ser denominado como Largo do Terreiro do Trigo.  Nos documentos municipais encontramos um Auto de 1588 sobre umas casas no Campo de Lã, em frente do chafariz d’El Rei, que estavam devendo foro à cidade; uma vistoria em 1709 às casas de Luís Nunes no Campo da Lã; uma petição de 1710, de Manuel Pires Quaresma, a solicitar licença para fazer uma varanda numas casas ao Campo da Lã, na entrada do beco de Alfama;  um aviso  ao senado municipal de 1739 para se tratar do arrendamento das naves nos armazéns do Terreiro do Paço, do Rossio e do Campo da Lã para se guardar a colunata da procissão do Corpo de Deus; um Decreto  de 1747, de doação de um chão no Campo da Lã a Tomé Furtado, sujeito que em março de 1755 encontramos com umas lojas no Campo de Lã, delimitadas por serem em frente da forca e perto do tanque onde se lavam as peles; e em novembro de 1755, o prior da freguesia de São Pedro de Alfama requereu autorização para continuar a ocupar o armazém do senado municipal no Campo da Lã.

Já o Campo de Santa Clara, por mor do Convento de Santa Clara,  deve estar fixado na memória do local desde cerca de 1294. Este Campo ainda no séc. XVI era vulgarmente conhecido por Campo da Forca por nele se realizarem execuções capitais.

Sobreposição da planta de Tinoco de 1650 sobre a dos nosso dias para se visualizar o Campo de Santa Clara nas duas épocas

 

 

 

Forcas e fogueiras no Campo de Santa Bárbara, hoje Largo

Largo de Santa Bárbara – Freguesia de Arroios
(Foto: Luís Pavão, 2011, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Largo de Santa Bárbara começou por ser o Campo de Santa Bárbara e pelo menos desde o séc. XV foi lugar de execuções pela forca e pelo fogo.

Ao certo, encontramos um documento de 16 de agosto de 1450, de D. Afonso V, em que manda o corregedor em Lisboa atender aos  montantes gastos pelo concelho na cerca feita em redor da forca de Santa Bárbara. Depois, em 19 de maio de 1500, D. Manuel I determina que as execuções por fogo devem ter lugar no Rossio de Santa Bárbara ou noutro local do exterior da cidade. Após o Terramoto de 1755 foi também no Campo de Santa Bárbara que se ergueram as forcas onde foram executados aqueles que aproveitando a confusão gerada pela catástrofe roubaram os bens das vítimas.

Alguns indícios parecem também apontar para que o Campo de Santa Bárbara tenha sido designado também como Campo da Forca na época de D. João V. Nos documentos municipais encontramos uma petição de 1700 de Manuel Antunes, morador a São Lázaro que diz ter umas casas em frente do muro da forca dos padres Bernardos [no Desterro]; em  1702, o  secretário de Estado Mendo de Fóios Pereira, no seu aviso sobre os locais de depósito dos lixos da cidade determina que os lixos da Mouraria podem ser depositados no Campo da Forca ou nas covas perto da Calçada do Monte, sendo que os restantes escolhidos são sempre locais relativamente próximos da origem do lixo; em 1705, Francisca João, proprietária de casas situadas na rua dos Anjos junto ao Campo da Forca, solicitou uma vistoria para construir outra casa no mesmo local; e em 1712, Bernardino de Andrade faz uma petição para aforar um chão junto a Fontaínha do Campo, antigo Campo da Forca.

O Campo de Santa Bárbara na planta de 1858 de Filipe Folque (carregue na imagem para ver em tamanho maior)

O Campo de Santa Bárbara era nos arrabaldes da cidade de Lisboa, era  no campo. Por isso, em 20 de abril de 1523, D. João III ordenou mesmo à Câmara de Lisboa que devido à peste passasse temporariamente  a reunir em Santa Bárbara, certamente com melhores e bons ares. Em 1573, D. Sebastião determinou que não se fizessem aforamentos sem o seu consentimento no Campo de Santa Bárbara. No século seguinte ainda era um lugar de hortas, quintas, olivais, fontaínhas e arroios de água. No séc. XVIII, de 1703 a 1749, deparamos com inúmeros aforamentos e vistorias no Campo de Santa Bárbara. Já no séc. XIX, a planta de Lisboa de Filipe Folque, de 1858, continua a denominá-lo Campo de Santa Bárbara. Em 11 de dezembro de 1874, a Câmara aprovou que lá fosse feita calçada e em 1878 a planta de Francisco Goullard mantém a designação de Campo de Santa Bárbara. Cinco anos depois, em 1881, Francisco Goullard já usa Largo de Santa Bárbara numa planta do local, assim como a Câmara aprova a expropriação parcial da quinta de Santa Bárbara, situada na Travessa da Cruz do Tabuado, para a abertura da nova rua que há-de ligar o Largo de Santa Bárbara com a dita travessa, bem como para a construção de uma escola municipal e ainda nesse ano, os Diretores da Companhia Carris de Ferro de Lisboa solicitam à edilidade a aprovação do projeto n.º 1 para a conclusão da 3ª linha de caminho de ferro americano, traçada do Largo do Intendente pela Rua Direita dos Anjos até ao Largo de Santa Bárbara, e daqui pela rua nova traçada até à avenida Estefânia, terminando nas portas da cidade. Em 1910, a planta do levantamento de Silva Pinto também  já identifica o Largo de Santa Bárbara. Três anos depois, o Edital municipal de 18/10/1913 altera-lhe o nome para Largo 28 de Janeiro, data do movimento de 1908 com o propósito de proclamar a república que acabou gorado e ficou conhecido como a Janeirada. Quase 24 anos depois novo Edital camarário de 19/08/1937, volta a designá-lo Largo de Santa Bárbara. Este mesmo edital, removeu outros topónimos dados pela vereação republicana, a saber, atribuiu a Rua da Misericórdia que havia sido a Rua do Mundo (edital de 18/11/1910) e antes Rua de São Roque (edital de 08/06/1889), assim como  atribuiu Rua das Trinas à Rua Sara de Matos (edital de 17/10/1924) que antes fora a Rua das Trinas de Mocambo.

Finalmente, a origem do topónimo radica na proximidade à antiga Ermida de Santa Bárbara, sendo que no séc. XVII foi erguida uma nova Capela de Santa Bárbara, por Inácio Lopes de Moura, no seu palácio.  D. António Caetano de Sousa, no seu Agiológio lusitano de 1744 , explica que « ‎Neste Campo de Santa Barbara, naõ havia outra Ermida, mais que a antiga de que falamos; porque a que hoje vemos dedicada a Santa Barbara, he obra moderna, que em nossos dias edificou Ignacio Lopes de Moura, desembargador dos Agravos, grande devoto de Santa Barbara (…) em cujo louvor compoz hum livrinho , que imprimio em Lisboa, no anno de 1701, intitulado “Flores de Devoção colhidas no Campo de Santa Bárbara”, a que deu nome à Ermida antiga.»

Com o mesmo topónimo existe ainda a Rua de Santa Bárbara, a ligar o Largo de Santa Bárbara ao Largo do Conde de Pombeiro, que de acordo com o olisipógrafo Luís Pastor de Macedo «deveria ter sido rasgada nos fins do primeiro ou no princípio do segundo quartel do século XVIII. A primeira vez que a topamos é em 1727 sob o nome de rua Nova de Santa Bárbara [Livro V de óbitos – Anjos] e a prova de que ela deveria ter sido então aberta é que pouco depois ainda era a “rua nova que se abrio de novo e vay da Bemposta para o campo de Stª Barbara (1737) ».

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

Publicação municipal de toponímia sobre Padre Joaquim Aguiar

A publicação municipal de toponímia referente ao Padre Joaquim Aguiar, distribuída hoje no decorrer da inauguração da Rua Padre Joaquim Aguiar, na freguesia dos Olivais, já está on-line.

É só carregar na capa abaixo e poderá ler.

Caso queira conhecer publicações anteriores poderá ir às Publicações Digitais do site da CML e escolher o separador Toponímia.

Ou no topo do nosso blogue carregar em 3 – As nossas Edições.

Inauguração da Rua Padre Joaquim Aguiar

Rua Padre Joaquim de Aguiar – Freguesia dos Olivais
(Foto: Sérgio Dias)

Amanhã,  sábado, às 9:30 horas, a Sr.ª Vereadora da Cultura e Presidente da Comissão Municipal de Toponímia, Catarina Vaz Pinto, acompanhada da Sr.ª Presidente de Junta de Freguesia dos Olivais, Rute Lima, procederão à inauguração da Rua Padre Joaquim Aguiar.

O Padre Joaquim Aguiar Joaquim António de Aguiar (Penedono- Castainço/03.01.1915 – 01.10.2004/Lisboa) distinguiu-se como pedagogo, já que tendo professado vida religiosa na Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria (Missionários Claretianos) e recebido a ordenação sacerdotal na Sé Catedral do Porto a 4 de agosto de 1940, conseguiu com o seu  dinamismo e espírito empreendedor fundar  o primeiro Colégio Universitário em Lisboa, o Colégio Universitário Pio XII, que abriu portas em 1957.

Refira-se que além das suas funções religiosas, particularmente como primeiro Secretário da Conferência Nacional dos Institutos Religiosos (1954 a 1970), a ligação a estabelecimentos de ensino foi uma constante. Criou o Instituto Superior de Cultura Católica (1961) em cuja direção participou e leccionou; organizou o  Instituto Superior de Ciências Psicopedagógicas (1962) que também dirigiu como em paralelo o executou de igual modo no Instituto Superior da Pastoral; foi professor encarregado das cadeiras de Ética e História do Cristianismo no Instituto de Ciências Sociais e Políticas bem como dos cursos de Assistentes Sociais e Administração Ultramarina na Universidade Técnica de Lisboa  (1968 a 1978); professor convidado da Faculdade de Filosofia da Universidade de Pontifícia de Salamanca (1978 a 1980); professor da cadeira de Ideologias Políticas em Portugal nos séculos XIX e XX no curso de pós graduação da Universidade Livre de Lisboa (1980 a 1982); integrou a organização e lançamento da Universidade Internacional de Lisboa (1982 a 1984), onde lecionou a cadeira de Introdução à Universidade e até 1989 dirigiu o Instituto Pré Universitário Internacional da mesma; e encarregou-se da cátedra de História Medieval Política e Institucional da Universidade Autónoma de Lisboa (1986 a 2000).

A Câmara Municipal de Lisboa já em 1982 lhe atribuiu a Medalha de Prata de Mérito Municipal.

Freguesia dos Olivais
(Planta: Sérgio Dias)