A Travessa de Santo Aleixo em homenagem à Madre Maria de Santo Aleixo

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: Sérgio Dias | NT do DPC )

Em Campo de Ourique, a Travessa de Santo Aleixo deve-se a uma homenagem a Madre Maria de Santo Aleixo, de acordo com o olisipógrafo Gomes de Brito.

Gomes de Brito na sua obra Ruas de Lisboa, escreve o seguinte no seu verbete sobre este topónimo: «Acaso por comemoração da Madre Maria de Santo Aleixo [falecida em 4 de novembro de 1689], uma das quatro Religiosas Capuchas Francesas, que a rainha D. Maria Francisca Isabel de Saboia trouxe de Paris em 1666, e que veio a ser a primeira Abadessa do Mosteiro da Sua ordem [ Mosteiro do Santo Crucifixo, conhecido como das Francesinhas], fundado em Lisboa pela Rainha sobredita e começado a habitar em 1667.  Actualmente em ruínas na Rua João das Regras [desde 1950 é a Rua das Francesinhas], esquina da Calçada da Estrêla. O retrato desta Religiosa constitue umas das três gravuras que ornamentam a “Historia da fundação do Real Convento do Santo Christo das religiosas capuchinhas francesas” – 1748, por D. José Barbosa.»

Podemos equacionar que o topónimo desta artéria que hoje vemos a ligar a  Rua Silva Carvalho à Travessa de Cima dos Quartéis tenha sido fixado no séc. XVII ou no seguinte, mas sem certeza. Após o Terramoto, o Reitor de Santa Isabel (que era então a paróquia deste sítio) escrevia em 26 de março de 1758,  que «Esta freguezia fica no suburbio da cidade de Lisboa, a cujo Patriarchado pertence» e não mencionava nomes de arruamentos.

Com segurança, sabemos que a Travessa de Santo Aleixo aparece na planta de Lisboa de Filipe Folque, de 1857, fronteira à Travessa de Jesus Maria José (que desde 1911 é a Travessa do Cabo). Sabemos igualmente que a partir da 2ª metade do séc. XIX esta artéria acolheu vilas operárias, como também aconteceu na Rua de Campo de Ourique e na Rua da Páscoa, para alojar  os trabalhadores das fábricas próximas da Ribeira de Alcântara. E em 1892 e 1896 a Travessa de Santo Aleixo teve obras de pavimentação executadas pela Câmara Municipal de Lisboa.

Refira-se que Santo Aleixo foi um romano rico que fugiu do seu casamento para ser mendigo, sendo depois apontado como Homem de Deus e o seu culto introduzido em Roma  no século XI, por monges orientais. No entanto, foi retirado do hagiológico Calendário Romano Geral em 1969.

Freguesia de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

A Praça do patrono dos animais e do meio ambiente, São Francisco de Assis

Freguesia de Carnide
(Foto: Sérgio Dias | NT do DPC )

O italiano São Francisco de Assis,  santo patrono dos animais e do meio ambiente, está homenageado numa Praça da Freguesia de Carnide, na confluência da Avenida das Nações Unidas, Rua Padre Américo e Estrada do Paço do Lumiar, desde a publicação do Edital Municipal de 28/02/2000, através do qual a Câmara Municipal de Lisboa respondeu favoravelmente ao pedido formulado pelo Seminário da Luz.

São Francisco de Assis nasceu Giovanni di Pietro Bernardone (Assis/05.07.1182 -03.10.1226/Assis) e distinguiu-se por após uma juventude mundana de extravagâncias se ter alistado na guerra de Assis contra Peruggia, para depois integrar o exército papal, ter tentado ser comerciante como seu pai e ainda, ter sido pedreiro na reconstrução de diversas igrejas, para encontrar como razão da sua vida a fundação da Ordem dos Franciscanos, ou Ordem Terceira, uma ordem mendicante virada para uma vida religiosa de completa pobreza, que se pautava por os seus frades não possuírem nada além do absolutamente indispensável, ganharem o seu sustento diariamente pelo trabalho manual e só quando não conseguissem poderiam pedir esmola. O exemplo dos franciscanos renovou o Catolicismo dessa época, por ao imitarem a vida de Cristo desenvolverem uma profunda identificação com os problemas dos seus semelhantes, a ponto de São Francisco de Assis ser canonizado menos de dois anos após falecer, em 16 de julho de 1228, sendo o santo patrono dos animais e do meio ambiente, com o seu dia assinalado a 4 de outubro.

Freguesia de Carnide – Placa Tipo IV
(Foto: Sérgio Dias | NT do DPC )

Em Portugal, os franciscanos estabeleceram-se  por volta de 1217, estando entre os seus primeiros conventos o de Santo Antão dos Olivais, em Coimbra, que após a canonização de Santo António passou a ser Santo António dos Olivais, por ter sido ali que esse santo português vestiu o hábito franciscano.  A população de Lisboa também desde 1217 se tornou devota de São Francisco de Assis, tendo a  presença dos franciscanos nesta cidade sido uma constante. Primeiro, estabeleceram-se no Chiado, onde a Calçada Nova de São Francisco ainda guarda a memória do enorme convento conhecido como Cidade de São Francisco, que se estendia da Rua Capelo ao Largo da Academia Nacional de Belas Artes e da Rua Ivens à Rua Serpa Pinto.  Foi destruído pelo Terramoto de 1755 e os franciscanos refugiram-se na Quinta dos Padres Quentais onde também ficou registado na toponímia o Alto de São Francisco. A partir de 29 de junho de 1940, os franciscanos instalaram-se na propriedade com casa apalaçada, parque e terras de cultivo que lhes foi vendida pelo Sr. Eduardo May de Oliveira, junto ao Largo da Luz, muito próximo da qual está a Praça de São Francisco de Assis.

Refira-se que em 1999, São Francisco de Assis foi eleito pelos leitores de uma revista de relevância internacional – a Times – a pessoa do 2º milénio, como arauto da paz, estratega da tolerância e patrono da ecologia.

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

 

Os antigos campos de forca no Campo da Lã e no de Santa Clara

Sobreposição da planta de Carlos Mardel de 1756 sobre a dos nosso dias, para se visualizar o Campo da Lã sobre o Largo do Terreiro do Trigo

O Campo da Lã – antes de ser Largo do Terreiro do Trigo – e o Campo de Santa Clara foram ambos campos lisboetas onde se ergueram forcas.

Em 1725, a escrava Antónia Gomes, acusada de matar o seu amo com veneno misturado num caldinho de galinha, foi queimada com uma tenaz (atazanada) antes de ser enforcada no Campo da Lã. Também lá foram enforcadas uma mulher Setúbal e a sua filha cega de 25 anos, por matarem o homem que era o marido e padrasto, com a agravante das suas cabeças terem ficado expostas na forca.

Sobreposição da planta de Guilherme de Menezes de 1761 sobre a dos nosso dias para se visualizar o Campo da Lã sobre o Largo do Terreiro do Trigo

O Campo da Lã, deve o seu nome à seca de curtumes que no seu espaço tinha lugar, antes de na época pombalina ser denominado como Largo do Terreiro do Trigo.  Nos documentos municipais encontramos um Auto de 1588 sobre umas casas no Campo de Lã, em frente do chafariz d’El Rei, que estavam devendo foro à cidade; uma vistoria em 1709 às casas de Luís Nunes no Campo da Lã; uma petição de 1710, de Manuel Pires Quaresma, a solicitar licença para fazer uma varanda numas casas ao Campo da Lã, na entrada do beco de Alfama;  um aviso  ao senado municipal de 1739 para se tratar do arrendamento das naves nos armazéns do Terreiro do Paço, do Rossio e do Campo da Lã para se guardar a colunata da procissão do Corpo de Deus; um Decreto  de 1747, de doação de um chão no Campo da Lã a Tomé Furtado, sujeito que em março de 1755 encontramos com umas lojas no Campo de Lã, delimitadas por serem em frente da forca e perto do tanque onde se lavam as peles; e em novembro de 1755, o prior da freguesia de São Pedro de Alfama requereu autorização para continuar a ocupar o armazém do senado municipal no Campo da Lã.

Já o Campo de Santa Clara, por mor do Convento de Santa Clara,  deve estar fixado na memória do local desde cerca de 1294. Este Campo ainda no séc. XVI era vulgarmente conhecido por Campo da Forca por nele se realizarem execuções capitais.

Sobreposição da planta de Tinoco de 1650 sobre a dos nosso dias para se visualizar o Campo de Santa Clara nas duas épocas

 

 

 

Forcas e fogueiras no Campo de Santa Bárbara, hoje Largo

Largo de Santa Bárbara – Freguesia de Arroios
(Foto: Luís Pavão, 2011, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Largo de Santa Bárbara começou por ser o Campo de Santa Bárbara e pelo menos desde o séc. XV foi lugar de execuções pela forca e pelo fogo.

Ao certo, encontramos um documento de 16 de agosto de 1450, de D. Afonso V, em que manda o corregedor em Lisboa atender aos  montantes gastos pelo concelho na cerca feita em redor da forca de Santa Bárbara. Depois, em 19 de maio de 1500, D. Manuel I determina que as execuções por fogo devem ter lugar no Rossio de Santa Bárbara ou noutro local do exterior da cidade. Após o Terramoto de 1755 foi também no Campo de Santa Bárbara que se ergueram as forcas onde foram executados aqueles que aproveitando a confusão gerada pela catástrofe roubaram os bens das vítimas.

Alguns indícios parecem também apontar para que o Campo de Santa Bárbara tenha sido designado também como Campo da Forca na época de D. João V. Nos documentos municipais encontramos uma petição de 1700 de Manuel Antunes, morador a São Lázaro que diz ter umas casas em frente do muro da forca dos padres Bernardos [no Desterro]; em  1702, o  secretário de Estado Mendo de Fóios Pereira, no seu aviso sobre os locais de depósito dos lixos da cidade determina que os lixos da Mouraria podem ser depositados no Campo da Forca ou nas covas perto da Calçada do Monte, sendo que os restantes escolhidos são sempre locais relativamente próximos da origem do lixo; em 1705, Francisca João, proprietária de casas situadas na rua dos Anjos junto ao Campo da Forca, solicitou uma vistoria para construir outra casa no mesmo local; e em 1712, Bernardino de Andrade faz uma petição para aforar um chão junto a Fontaínha do Campo, antigo Campo da Forca.

O Campo de Santa Bárbara na planta de 1858 de Filipe Folque (carregue na imagem para ver em tamanho maior)

O Campo de Santa Bárbara era nos arrabaldes da cidade de Lisboa, era  no campo. Por isso, em 20 de abril de 1523, D. João III ordenou mesmo à Câmara de Lisboa que devido à peste passasse temporariamente  a reunir em Santa Bárbara, certamente com melhores e bons ares. Em 1573, D. Sebastião determinou que não se fizessem aforamentos sem o seu consentimento no Campo de Santa Bárbara. No século seguinte ainda era um lugar de hortas, quintas, olivais, fontaínhas e arroios de água. No séc. XVIII, de 1703 a 1749, deparamos com inúmeros aforamentos e vistorias no Campo de Santa Bárbara. Já no séc. XIX, a planta de Lisboa de Filipe Folque, de 1858, continua a denominá-lo Campo de Santa Bárbara. Em 11 de dezembro de 1874, a Câmara aprovou que lá fosse feita calçada e em 1878 a planta de Francisco Goullard mantém a designação de Campo de Santa Bárbara. Cinco anos depois, em 1881, Francisco Goullard já usa Largo de Santa Bárbara numa planta do local, assim como a Câmara aprova a expropriação parcial da quinta de Santa Bárbara, situada na Travessa da Cruz do Tabuado, para a abertura da nova rua que há-de ligar o Largo de Santa Bárbara com a dita travessa, bem como para a construção de uma escola municipal e ainda nesse ano, os Diretores da Companhia Carris de Ferro de Lisboa solicitam à edilidade a aprovação do projeto n.º 1 para a conclusão da 3ª linha de caminho de ferro americano, traçada do Largo do Intendente pela Rua Direita dos Anjos até ao Largo de Santa Bárbara, e daqui pela rua nova traçada até à avenida Estefânia, terminando nas portas da cidade. Em 1910, a planta do levantamento de Silva Pinto também  já identifica o Largo de Santa Bárbara. Três anos depois, o Edital municipal de 18/10/1913 altera-lhe o nome para Largo 28 de Janeiro, data do movimento de 1908 com o propósito de proclamar a república que acabou gorado e ficou conhecido como a Janeirada. Quase 24 anos depois novo Edital camarário de 19/08/1937, volta a designá-lo Largo de Santa Bárbara. Este mesmo edital, removeu outros topónimos dados pela vereação republicana, a saber, atribuiu a Rua da Misericórdia que havia sido a Rua do Mundo (edital de 18/11/1910) e antes Rua de São Roque (edital de 08/06/1889), assim como  atribuiu Rua das Trinas à Rua Sara de Matos (edital de 17/10/1924) que antes fora a Rua das Trinas de Mocambo.

Finalmente, a origem do topónimo radica na proximidade à antiga Ermida de Santa Bárbara, sendo que no séc. XVII foi erguida uma nova Capela de Santa Bárbara, por Inácio Lopes de Moura, no seu palácio.  D. António Caetano de Sousa, no seu Agiológio lusitano de 1744 , explica que « ‎Neste Campo de Santa Barbara, naõ havia outra Ermida, mais que a antiga de que falamos; porque a que hoje vemos dedicada a Santa Barbara, he obra moderna, que em nossos dias edificou Ignacio Lopes de Moura, desembargador dos Agravos, grande devoto de Santa Barbara (…) em cujo louvor compoz hum livrinho , que imprimio em Lisboa, no anno de 1701, intitulado “Flores de Devoção colhidas no Campo de Santa Bárbara”, a que deu nome à Ermida antiga.»

Com o mesmo topónimo existe ainda a Rua de Santa Bárbara, a ligar o Largo de Santa Bárbara ao Largo do Conde de Pombeiro, que de acordo com o olisipógrafo Luís Pastor de Macedo «deveria ter sido rasgada nos fins do primeiro ou no princípio do segundo quartel do século XVIII. A primeira vez que a topamos é em 1727 sob o nome de rua Nova de Santa Bárbara [Livro V de óbitos – Anjos] e a prova de que ela deveria ter sido então aberta é que pouco depois ainda era a “rua nova que se abrio de novo e vay da Bemposta para o campo de Stª Barbara (1737) ».

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

Publicação municipal de toponímia sobre Padre Joaquim Aguiar

A publicação municipal de toponímia referente ao Padre Joaquim Aguiar, distribuída hoje no decorrer da inauguração da Rua Padre Joaquim Aguiar, na freguesia dos Olivais, já está on-line.

É só carregar na capa abaixo e poderá ler.

Caso queira conhecer publicações anteriores poderá ir às Publicações Digitais do site da CML e escolher o separador Toponímia.

Ou no topo do nosso blogue carregar em 3 – As nossas Edições.

Inauguração da Rua Padre Joaquim Aguiar

Rua Padre Joaquim de Aguiar – Freguesia dos Olivais
(Foto: Sérgio Dias)

Amanhã,  sábado, às 9:30 horas, a Sr.ª Vereadora da Cultura e Presidente da Comissão Municipal de Toponímia, Catarina Vaz Pinto, acompanhada da Sr.ª Presidente de Junta de Freguesia dos Olivais, Rute Lima, procederão à inauguração da Rua Padre Joaquim Aguiar.

O Padre Joaquim Aguiar Joaquim António de Aguiar (Penedono- Castainço/03.01.1915 – 01.10.2004/Lisboa) distinguiu-se como pedagogo, já que tendo professado vida religiosa na Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria (Missionários Claretianos) e recebido a ordenação sacerdotal na Sé Catedral do Porto a 4 de agosto de 1940, conseguiu com o seu  dinamismo e espírito empreendedor fundar  o primeiro Colégio Universitário em Lisboa, o Colégio Universitário Pio XII, que abriu portas em 1957.

Refira-se que além das suas funções religiosas, particularmente como primeiro Secretário da Conferência Nacional dos Institutos Religiosos (1954 a 1970), a ligação a estabelecimentos de ensino foi uma constante. Criou o Instituto Superior de Cultura Católica (1961) em cuja direção participou e leccionou; organizou o  Instituto Superior de Ciências Psicopedagógicas (1962) que também dirigiu como em paralelo o executou de igual modo no Instituto Superior da Pastoral; foi professor encarregado das cadeiras de Ética e História do Cristianismo no Instituto de Ciências Sociais e Políticas bem como dos cursos de Assistentes Sociais e Administração Ultramarina na Universidade Técnica de Lisboa  (1968 a 1978); professor convidado da Faculdade de Filosofia da Universidade de Pontifícia de Salamanca (1978 a 1980); professor da cadeira de Ideologias Políticas em Portugal nos séculos XIX e XX no curso de pós graduação da Universidade Livre de Lisboa (1980 a 1982); integrou a organização e lançamento da Universidade Internacional de Lisboa (1982 a 1984), onde lecionou a cadeira de Introdução à Universidade e até 1989 dirigiu o Instituto Pré Universitário Internacional da mesma; e encarregou-se da cátedra de História Medieval Política e Institucional da Universidade Autónoma de Lisboa (1986 a 2000).

A Câmara Municipal de Lisboa já em 1982 lhe atribuiu a Medalha de Prata de Mérito Municipal.

Freguesia dos Olivais
(Planta: Sérgio Dias)

A Praça de São Paulo, do obelisco e dos quiosques

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias)

Na confluência da Rua de São Paulo, Rua da Ribeira Nova, Rua Nova do Carvalho e Travessa de São Paulo, encontramos a Praça com a invocação do mesmo apóstolo, que chegou até a ser o nome da freguesia, e que desde 1849 conta com um chafariz em forma de obelisco e desde o final do séc. XX, também com quiosques.

O nome deriva da Igreja de São Paulo que no centro da Praça foi edificada no séc. XV, provavelmente em 1412, de acordo com uma inscrição latina incrustada no templo, sendo que os alvarás para instituição da freguesia de São Paulo são de 1566 e de 1568. O terramoto de 1755 que destruiu grande parte desta zona ribeirinha, fazendo milhares de mortos, destruiu também a Igreja que foi substituída em 1768 por uma nova, traçada pelo Arq.º Remígio Francisco de Abreu, a poente da original e virada a nascente.

Segundo o olisipógrafo Norberto de Araújo, o sítio de São Paulo «Foi de seu princípio ribeirinho, sítio mercadejador, piedoso e turbulento. (…) Remonta ao quinhentismo, extra-muros. Em 1550 não contava como freguesia; existia como formigueiro de mareantes» e avança que «A velha igreja paroquial de S. Paulo já existia em 1572, seguramente [por estar representada na estampa de Braunio datada desse ano] , mas a inscrição latina colocada sobre a porta do templo antigo deixa entender que a igreja fora construída em 1412».

Em 1609, uma postura publicada no porto de Belém no dia 27 de abril , refere já as Praças de São Paulo e do Corpo Santo, bem como a Praça do Pelourinho Velho e a Rua Nova.

Freguesia da Misericórdia – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

Dois elementos icónicos desta praça rodeada de prédios pombalinos são o seu chafariz em forma de obelisco e os seus quiosques, todos nela inseridos no decorrer do séc. XIX.

O chafariz era um pedido insistente dos moradores para melhor abastecimento de água na freguesia, pelo menos desde 1821, atendendo ainda às muitas instituições presentes ao seu redor, como a setecentista Casa da Moeda assim como a realização de uma feira no local. Finalmente, em 1848 os fregueses pediram à Câmara Municipal de Lisboa a construção do chafariz, com água encanada do Chafariz da Esperança e os vereadores aprovaram a construção do chafariz, com a água do Chafariz  do Loreto, aproveitando para o efeito o projeto setecentista de Reinaldo Manuel dos Santos com adaptação ao gosto da época pelo Arq.º Malaquias Ferreira Leal, tendo sido inaugurado em 29 outubro de 1849, como Chafariz nº 28, sendo desde o início estabelecido que a bica do lado da frontaria da igreja apenas servisse «as gentes do mar».

Os quiosques instalados na Praça terão sido dois, a fazer fé nos registos fotográficos e documentais.

Sabe-se que aquele conhecido como Quiosque Castanheira, no lado oposto à Igreja, nasceu cerca de 1870, com alvará atribuído em 1881, como propriedade da família Castanheira, ostentando colunas dóricas em ferro forjado e painéis de vidro pintado a ouro sobre grená onde se publicitavam as bebidas populares do estabelecimento:  capilé, gazosa, pirolito e castanheira. Em 2013, foi vendido pela família Castanheira à cadeia Quiosque de Refresco.

Sabemos também que em 1884 António Joaquim Fernandes arrendou terrenos para a colocação de dois quiosques, sendo um na Praça dos Remolares e outro na Praça de São Paulo. Desconhecemos a sua localização mas talvez fosse o mais próximo da igreja já que no ano seguinte surgem requerimentos do Juiz Francisco S. Carneiro e outros, bem como dos paroquianos da freguesia de S. Paulo, ambos a apelarem para que «seja removido para outro local mais próprio, o quiosque que foi colocado no largo de S. Paulo, frente à Igreja» porque «irá causar ajuntamentos à porta da referida igreja». De igual forma se conhece que, em agosto de 1907, três pessoas de apelido Grima trespassaram a exploração de um quiosque na Praça de S. Paulo a João Gomes da Costa, o qual, em março do ano seguinte o trespassou a Rosa da Cruz.

Esta Praça de São Paulo foi remodelada em 1913 quando a Freguesia passou a ter a denominação de Marquês de Pombal, situação que durará até 1959, ano em que voltará a designar-se São Paulo até em 2012, para desde então integrar o território da Freguesia da Misericórdia.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

O Largo da Trindade do Mundo do Livro

O Largo da Trindade em 1970
(Foto: João H. Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Largo da Trindade, abaixo da artéria que serve de morada à Cervejaria que guarda a memória da Ordem da Santíssima Trindade do Resgate dos Cativos, para além de acolher uma das fachadas do Teatro da Trindade de 1867, acomoda também uma loja de comércio de livros desde 1945:  O Mundo do Livro.

O topónimo Trindade presente neste Largo, bem como nos arruamentos vizinhos – Rua da Trindade, Travessa da Trindade e Rua Nova da Trindade – deriva da presença outrora no local do Convento e Igreja dos religiosos franceses da Ordem da Santíssima Trindade do Resgate dos Cativos de que resta o refeitório do Convento na sala pública da Cervejaria Trindade.

Estes  frades vocacionados para resgatar os prisioneiros aos mouros, chegaram a Lisboa em 1218 e instalaram-se na Ermida de Stª Catarina do Padroado Real, tendo começado a  a erguer o seu próprio convento entre 1283 e 1294, que foi ampliado em 1560 e recomposto após o terramoto de 1755. Com a extinção das ordens religiosas em 1834 os frades passaram para a sua casa de Sintra e o estado vendeu e/ou arrendou os terrenos em 1836, tendo dois lotes sido arrendados por Manuel Moreira Garcia, de origem galega, para neles montar a Fábrica de Cerveja da Trindade.

No espaço onde hoje encontramos o Largo da Trindade estava nos finais do séc. XV, por aqui,  o Postigo da Trindade da Cerca Fernandina de Lisboa que foi destruído em 1682 para melhor circulação dos coches, conforme resolução do Senado municipal em 26 de agosto desse ano.

Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

A Travessa do Convento de Santa Mónica e da Cadeia das Mónicas

Freguesia de São Vicente
(Foto: Sérgio Dias)

A Travessa das Mónicas, topónimo derivado de um convento quinhentista convertido em cadeia, recebeu após o 25 de Abril um requerimento para que o topónimo fosse alterado mas a Comissão Municipal de Toponímia manteve o princípio de não alterar topónimos tradicionais, salvo « haja maior manifestação popular tendente à alteração toponímica».

Na reunião de 20 de dezembro de 1974, a Comissão Municipal de Toponímia analisou um requerimento de António Ferreira de Oliveira solicitando que o topónimo Travessa das Mónicas fosse alterado e emitiu o parecer de que «entende que se trata de um topónimo tradicional que, em princípio, não deve ser alterado. No entanto, admite que possa vir a reconsiderar, desde que haja maior manifestação popular tendente à alteração toponímica».

Freguesia de São Vicente – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

A Travessa das Mónicas, entre a Rua de São Vicente e o Largo da Graça, deve o seu nome ao Convento de Santa Mónica ali fundado em  1585/1586 por D. Maria Abranches, em propriedade de seu pai D. Álvaro de Abranches –  capitão-mor de Azamor -,destinado às religiosas eremitas descalças de Santo Agostinho. Sofreu danos consideráveis com o Terramoto de 1755 mas foi reconstruído. Após a extinção das ordens religiosas de  1834 e com a morte da última religiosa em 1870 o Estado instalou no Convento a Casa da Correcção dos Rapazes em 1871, que ao ser transferida para Caxias em 1901 deu lugar a uma casa similar para raparigas, que em 1912 passaram para o Colégio de São Patrício à Costa do Castelo, dando espaço para cinco anos mais tarde, em 1917, passar a ser uma cadeia para mulheres, que aliviasse a sobrelotação da Cadeia do Aljube, que ficou conhecida como Cadeia das Mónicas e assim funcionou até 1953, quando a  população prisional foi transferida para a então nova Cadeia Central de Mulheres em Tires. A partir de 1961 voltou a ser usada como a parte feminina da Cadeia Comarcã de Lisboa, passando em 2005 para os reclusos em Regime Aberto Voltado para o Exterior (RAVE) do Estabelecimento Prisional de Lisboa. No decurso de todas estas modificações na população que foi albergada no edifício manteve-se o painel de azulejos  do século XVIII representando Santa Mónica.

A poeta Sophia de Mello Breyner Andresen e o seu marido, Francisco Sousa Tavares, ambos presentes na toponímia de Lisboa, residiram nesta artéria.

Freguesia de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias)

Alterações de topónimos tradicionais rejeitadas: Largo do Pote de Água, Largo da Graça e Praça do Comércio

O Largo do Pote de Água – Freguesia de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias)

O Largo do Pote de Água, em Alvalade, a Praça do Comércio em Santa Maria Maior e o Largo da Graça, na freguesia de São Vicente, são topónimos que foram alvo de pedidos de alteração pós-25 de Abril mas que por serem topónimos tradicionais mereceram parecer negativo da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa.

Na reunião de 20 de dezembro de 1974 foi analisada uma carta de Maria Augusta Barbosa, solicitando a alteração do topónimo Largo do Pote de Água. Mais tarde, na de 22 de julho de 1975 foi a vez da carta de Francisco Cota sugerir que a Praça do Comércio passasse a Praça do Povo. Em ambos os casos, por serem alterações de topónimos tradicionais, mereceram o parecer negativo da Comissão Municipal de Toponímia pelo que nunca foi redigida proposta para ser levada a sessão de câmara que caso aprovada expediria um Edital formalizando o nascimento de um novo topónimo.

O sítio do Pote de Água, deu o seu nome à Quinta do Pote de Água, que foi destruída pelo terramoto de 1755 e também daí advieram os topónimos Largo e Travessa do Pote de Água que ainda hoje encontramos. O Largo ficou fixado na memória da cidade pelos seus moradores e o Edital municipal de 21 de dezembro de 1960 colocou-o na Rua 1 à Avenida do Brasil.  Quase nove anos depois, pelo Edital municipal de 23/05/1969, juntou-se a Travessa do Pote de Água, a partir de um pedido do serviço municipal de Escrivania para atribuição de topónimo ao arruamento que ligava a Avenida do Brasil com o Largo do Pote de Água e o Largo João Vaz. A localização da Quinta do Pote de Água, aparece nas memórias paroquiais publicadas em Lisboa na 2ª metade do século XVIII (plantas e descrições pelas freguesias), na Freguesia de Santo André, da seguinte forma: «pela Estrada da Charneca athé a Quinta do Pote de Agoa inclusive, q hoje he de Joseph Antonio Ferreira» e, esclarece mais adiante que a Quinta «foi dos Padres Jezuitas.»

O Largo da Graça – Freguesia de São Vicente                                                  (Foto: Ana Luísa Alvim)

O pedido de alteração do Largo da Graça chegou à reunião da Comissão de 15 de junho de 1976, numa carta do Grupo Escolar Republicano Almirante Reis que avançava com  o nome de Alfredo Pedro Guisado para a substituição, e que mereceu um desfecho semelhante aos anteriores, porque embora «reconhecendo a justiça de ser consagrada na toponímia citadina a figura do doutor Alfredo Guisado, notável republicano e homem de letras, a Comissão emite parecer desfavorável por entender que o topónimo existente é tradicional e não deve, por isso, ser alterado. Na devida oportunidade, e logo que se consiga arruamento condigno, será prestada homenagem a essa individualidade.» O Largo da Graça foi um espaço definido como tal após 1700, cujo nome deriva do antigo Convento de Nossa Senhora da Graça, começado a construir em 1271 naquele local, então conhecido por Almofala, pequeno arrabalde mourisco extramuros onde as tropas de D. Afonso Henriques acamparam durante o cerco de Lisboa. A Almofala mourisca tornou-se no Bairro da Graça, topónimo repetido no Largo, na Calçada, no Caracol, na Rua,  e demais topónimos que a ecoam na Rua da Bela Vista, na Rua e na Travessa do Arco, na Rua do Cardal, na Rua do Sol, na Travessa de Santo António e na Travessa do Olival. Por seu lado,  Alfredo Guisado chegou à toponímia lisboeta em 1977,  através do Edital de 10 de outubro que o colocou numa Rua de São Domingos de Benfica.

Outras sugestões de topónimos ou pedidos de alterações foram rejeitados pela Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa neste período histórico por colidirem com os princípios pelos quais se o órgão consultivo se regia.

A sugestão de Margarida Stella Bulhão Pato Maia Rebelo,  para a atribuição do nome de José Afonso a uma artéria, apreciada na reunião de  20 de dezembro de 1974, foi recusada por contrariar a regra de atribuição de topónimos apenas a falecidos. Recusa análoga teve nessa mesma reunião uma carta anónima que sugeria a restituição do nome de Alferes Malheiro à Avenida do Brasil, pelos óbvios inconvenientes que acarretaria aos residentes das duas artérias assim fixadas desde há 40 anos. No entanto, o jornal A Capital de 10 de fevereiro de 1975 insistiu na proposta, pelo que a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa, reunida quatro dias depois, deu parecer para o assunto ser arquivado.

Por último, na reunião de 14 de fevereiro de 1975, analisou-se o pedido de substituição do topónimo Avenida Casal Ribeiro, remetido por  Miguel Araújo Rato Fernandes, que foi rejeitado, com o parecer de que «esta Comissão entende que não é de alterar o referido topónimo, visto a figura homenageada não ser o “Casal Ribeiro” deputado à Assembleia, mas sim o primeiro conde de Casal Ribeiro – José Maria Caldeira do Casal Ribeiro.»

A Praça do Comércio em 25 de Abril de 1974
(Foto: Fernando Baião, «O Século Ilustrado», 28.04.1974)