A Travessa do Convento de Santa Mónica e da Cadeia das Mónicas

Freguesia de São Vicente
(Foto: Sérgio Dias)

A Travessa das Mónicas, topónimo derivado de um convento quinhentista convertido em cadeia, recebeu após o 25 de Abril um requerimento para que o topónimo fosse alterado mas a Comissão Municipal de Toponímia manteve o princípio de não alterar topónimos tradicionais, salvo « haja maior manifestação popular tendente à alteração toponímica».

Na reunião de 20 de dezembro de 1974, a Comissão Municipal de Toponímia analisou um requerimento de António Ferreira de Oliveira solicitando que o topónimo Travessa das Mónicas fosse alterado e emitiu o parecer de que «entende que se trata de um topónimo tradicional que, em princípio, não deve ser alterado. No entanto, admite que possa vir a reconsiderar, desde que haja maior manifestação popular tendente à alteração toponímica».

Freguesia de São Vicente – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

A Travessa das Mónicas, entre a Rua de São Vicente e o Largo da Graça, deve o seu nome ao Convento de Santa Mónica ali fundado em  1585/1586 por D. Maria Abranches, em propriedade de seu pai D. Álvaro de Abranches –  capitão-mor de Azamor -,destinado às religiosas eremitas descalças de Santo Agostinho. Sofreu danos consideráveis com o Terramoto de 1755 mas foi reconstruído. Após a extinção das ordens religiosas de  1834 e com a morte da última religiosa em 1870 o Estado instalou no Convento a Casa da Correcção dos Rapazes em 1871, que ao ser transferida para Caxias em 1901 deu lugar a uma casa similar para raparigas, que em 1912 passaram para o Colégio de São Patrício à Costa do Castelo, dando espaço para cinco anos mais tarde, em 1917, passar a ser uma cadeia para mulheres, que aliviasse a sobrelotação da Cadeia do Aljube, que ficou conhecida como Cadeia das Mónicas e assim funcionou até 1953, quando a  população prisional foi transferida para a então nova Cadeia Central de Mulheres em Tires. A partir de 1961 voltou a ser usada como a parte feminina da Cadeia Comarcã de Lisboa, passando em 2005 para os reclusos em Regime Aberto Voltado para o Exterior (RAVE) do Estabelecimento Prisional de Lisboa. No decurso de todas estas modificações na população que foi albergada no edifício manteve-se o painel de azulejos  do século XVIII representando Santa Mónica.

A poeta Sophia de Mello Breyner Andresen e o seu marido, Francisco Sousa Tavares, ambos presentes na toponímia de Lisboa, residiram nesta artéria.

Freguesia de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias)

Alterações de topónimos tradicionais rejeitadas: Largo do Pote de Água, Largo da Graça e Praça do Comércio

O Largo do Pote de Água – Freguesia de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias)

O Largo do Pote de Água, em Alvalade, a Praça do Comércio em Santa Maria Maior e o Largo da Graça, na freguesia de São Vicente, são topónimos que foram alvo de pedidos de alteração pós-25 de Abril mas que por serem topónimos tradicionais mereceram parecer negativo da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa.

Na reunião de 20 de dezembro de 1974 foi analisada uma carta de Maria Augusta Barbosa, solicitando a alteração do topónimo Largo do Pote de Água. Mais tarde, na de 22 de julho de 1975 foi a vez da carta de Francisco Cota sugerir que a Praça do Comércio passasse a Praça do Povo. Em ambos os casos, por serem alterações de topónimos tradicionais, mereceram o parecer negativo da Comissão Municipal de Toponímia pelo que nunca foi redigida proposta para ser levada a sessão de câmara que caso aprovada expediria um Edital formalizando o nascimento de um novo topónimo.

O sítio do Pote de Água, deu o seu nome à Quinta do Pote de Água, que foi destruída pelo terramoto de 1755 e também daí advieram os topónimos Largo e Travessa do Pote de Água que ainda hoje encontramos. O Largo ficou fixado na memória da cidade pelos seus moradores e o Edital municipal de 21 de dezembro de 1960 colocou-o na Rua 1 à Avenida do Brasil.  Quase nove anos depois, pelo Edital municipal de 23/05/1969, juntou-se a Travessa do Pote de Água, a partir de um pedido do serviço municipal de Escrivania para atribuição de topónimo ao arruamento que ligava a Avenida do Brasil com o Largo do Pote de Água e o Largo João Vaz. A localização da Quinta do Pote de Água, aparece nas memórias paroquiais publicadas em Lisboa na 2ª metade do século XVIII (plantas e descrições pelas freguesias), na Freguesia de Santo André, da seguinte forma: «pela Estrada da Charneca athé a Quinta do Pote de Agoa inclusive, q hoje he de Joseph Antonio Ferreira» e, esclarece mais adiante que a Quinta «foi dos Padres Jezuitas.»

O Largo da Graça – Freguesia de São Vicente                                                  (Foto: Ana Luísa Alvim)

O pedido de alteração do Largo da Graça chegou à reunião da Comissão de 15 de junho de 1976, numa carta do Grupo Escolar Republicano Almirante Reis que avançava com  o nome de Alfredo Pedro Guisado para a substituição, e que mereceu um desfecho semelhante aos anteriores, porque embora «reconhecendo a justiça de ser consagrada na toponímia citadina a figura do doutor Alfredo Guisado, notável republicano e homem de letras, a Comissão emite parecer desfavorável por entender que o topónimo existente é tradicional e não deve, por isso, ser alterado. Na devida oportunidade, e logo que se consiga arruamento condigno, será prestada homenagem a essa individualidade.» O Largo da Graça foi um espaço definido como tal após 1700, cujo nome deriva do antigo Convento de Nossa Senhora da Graça, começado a construir em 1271 naquele local, então conhecido por Almofala, pequeno arrabalde mourisco extramuros onde as tropas de D. Afonso Henriques acamparam durante o cerco de Lisboa. A Almofala mourisca tornou-se no Bairro da Graça, topónimo repetido no Largo, na Calçada, no Caracol, na Rua,  e demais topónimos que a ecoam na Rua da Bela Vista, na Rua e na Travessa do Arco, na Rua do Cardal, na Rua do Sol, na Travessa de Santo António e na Travessa do Olival. Por seu lado,  Alfredo Guisado chegou à toponímia lisboeta em 1977,  através do Edital de 10 de outubro que o colocou numa Rua de São Domingos de Benfica.

Outras sugestões de topónimos ou pedidos de alterações foram rejeitados pela Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa neste período histórico por colidirem com os princípios pelos quais se o órgão consultivo se regia.

A sugestão de Margarida Stella Bulhão Pato Maia Rebelo,  para a atribuição do nome de José Afonso a uma artéria, apreciada na reunião de  20 de dezembro de 1974, foi recusada por contrariar a regra de atribuição de topónimos apenas a falecidos. Recusa análoga teve nessa mesma reunião uma carta anónima que sugeria a restituição do nome de Alferes Malheiro à Avenida do Brasil, pelos óbvios inconvenientes que acarretaria aos residentes das duas artérias assim fixadas desde há 40 anos. No entanto, o jornal A Capital de 10 de fevereiro de 1975 insistiu na proposta, pelo que a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa, reunida quatro dias depois, deu parecer para o assunto ser arquivado.

Por último, na reunião de 14 de fevereiro de 1975, analisou-se o pedido de substituição do topónimo Avenida Casal Ribeiro, remetido por  Miguel Araújo Rato Fernandes, que foi rejeitado, com o parecer de que «esta Comissão entende que não é de alterar o referido topónimo, visto a figura homenageada não ser o “Casal Ribeiro” deputado à Assembleia, mas sim o primeiro conde de Casal Ribeiro – José Maria Caldeira do Casal Ribeiro.»

A Praça do Comércio em 25 de Abril de 1974
(Foto: Fernando Baião, «O Século Ilustrado», 28.04.1974)

 

A Rua de São Lázaro ou 20 de Abril de 1911

A Rua Vinte de Abril em 1927 (à esquerda)
Foto: Eduardo Portugal (Arquivo Municipal de Lisboa)

Na 2ª reunião da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa após o 25 de Abril, em 20 dezembro de 1974, foi analisada uma carta  Alberto Bastos Flores que entre diversos pedidos solicitava a alteração da Rua de São Lázaro para  Rua Vinte Abril, data da assinatura da Lei da Separação da Igreja e do Estado em 1911.

O topónimo São Lázaro está ligado à Gafaria do mesmo nome, uma das mais antigas instituições públicas de assistência de Lisboa, estando documentada pelo menos desde 1220. O hospital foi criado para nele serem acolhidos e isolados os leprosos, denominados então como gafos, gafados ou doentes do mal de São Lázaro, começando pelos oriundos da Gafaria de Lisboa – que se situava onde hoje encontramos a esquina da Rua Vítor Cordon com o Largo da Academia Nacional de Belas Artes -, desta feita sob a responsabilidade dos cavaleiros hospitalários de São Lázaro, ordem religioso-militar fundada em Jerusalém em 1098. No séc. XIV era este Hospital administrado pelo Senado da Câmara Municipal de Lisboa, sob direção da Coroa. No séc. XIX, o Decreto de 11 de novembro de 1844 entregou a administração deste Hospital à Comissão Administrativa da Misericórdia de Lisboa e ao Hospital Real de S. José.  Em 1918, face à falta de condições, o Enfermeiro Mor, Dr. Lobo Alves, mandou transferir os gafos para os Pavilhões do Hospital do Rego, de onde saíram em definitivo a partir de 1947, para a Leprosaria Rovisco Pais, na Tocha (hoje, um Centro de Medicina de Reabilitação).

Afonso Costa (ao centro da mesa) assina a Lei da Separação da Igreja do Estado, em 20 de abril de 1911
(Foto: Anselmo Franco, Arquivo Municipal de Lisboa)

Já a Rua Vinte de Abril nasceu por via do edital municipal de 14 de outubro de 1915, ou seja, no período da I República, na Rua de São Lázaro, no âmbito da comemoração do 4º aniversário da Lei da Separação da Igreja e do Estado,  da autoria de Afonso Costa, enquanto ministro da Justiça. Dela importa destacar os primeiros 4 artigos que definiam os valores fundamentais da separação de um estado laico de um estado religioso:  liberdade de consciência para os portugueses e estrangeiros (1º); religião católica deixa de ser religião do estado (2º); ninguém pode ser perseguido por motivos de religião (3º); a república não reconhece, não sustenta, nem subsidia culto algum (4º).

Mais tarde, no processo de eliminar os topónimos republicanos, na maior parte das vezes substituindo-os pelos anteriores, a edilidade lisboeta nomeada pelo Estado Novo, voltou a denominá-la como Rua de São Lázaro pelo Edital de 19 de agosto de 1937,  justificando que «algumas destas ruas (que foram alteradas, como esta) não conseguiram com a moderna toponímia apagar na memória da população a sua designação anterior».

A Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa pós-25 de Abril acabou por não voltar a alterar o topónimo tomando em conta os inconvenientes que acarretaria para os munícipes.

Freguesias de Santa Maria Maior e Arroios
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

Sete novos topónimos na freguesia do Lumiar

Pelo Edital nº 38/2017, de 17/03/2017,  foram atribuídos sete novos topónimos na freguesia do Lumiar:  Largo Gérard Castello-Lopes, Rua Irisalva Moita, Rua Isabel Magalhães Colaço, Rua Joaquim Rodrigo, Largo Michel’Angelo Lambertini, Rua Padre Manuel Antunes e Rua Pedro Bandeira Freire.

As Cruzes de Santa Maria Maior

Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Mário Marzagão, 2012)

Estendendo-se do Largo da Sé à Rua de São João da Praça fica o arruamento denominado Cruzes da Sé, por se situar nas costas da Igreja de Santa Maria Maior, a Sé Catedral de Lisboa, classificada como Monumento Nacional desde 1910.

A fixação deste topónimo na memória de Lisboa tem de ser posterior à edificação da Igreja de Santa Maria Maior. Esta começou a ser construída pouco depois de 1147, ou seja, após a tomada de Lisboa por Afonso Henriques, provavelmente assente sobre uma mesquita que, por sua vez, também terá sido erguida sobre um primitivo templo cristão visigodo.

O topónimo Cruzes da Sé aparece documentalmente referido num livro de óbitos de 1690. De acordo com o olisipógrafo Luís Pastor de Macedo, no decorrer do século XVIII, « Fugitivamente deu-se o nome de Largo da Caridade a uma parte das Cruzes da Sé, naturalmente a que ficava e fica diante da ermida [da Caridade].» Ainda segundo este olisipógrafo terá sido arruamento onde se fixaram tintureiros como aconteceu na Calçada do Carmo, Praça da Alegria e Travessa do Desterro.

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias)

A Senhora do Monte do Carmo entre a Penha de França e a Procissão

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias)

A Travessa do Monte do Carmo,  paralela à Rua da Escola Politécnica, liga hoje a Rua Cecílio de Sousa [ antiga Rua da Procissão do Corpo de Deus] à Calçada Engenheiro Miguel Pais [antes Calçada de João do Rio, e ainda antes Rua e primitivamente, Calçada da Penha de França], na freguesia de Santo António.

O topónimo pode estar relacionado com uma Ermida ou com um hospício, já que o cura Joachim Ribeiro de Carvalho, na sua memória da paróquia das Mercês, datada de 26 de abril de 1758, regista que «Ha mais nesta parochia, e na rua Fermosa della [é a que hoje conhecemos como Rua de O Século] huma Ermida de Nossa Senhora do Monte do Carmo, anexa desta parochia que he de Manoel de Sampayo e Pina, cavaleiro professo na ordem de Christo, (…) e no altar mor em hum nicho se venera a imagem da May Santissima do Monte do Carmo e lhe fas a sua festa todos os annos em o seu dia e teve esta Ermida seu principio no ano de mil e sete centos e trinta e dous (…) Há mais nesta freguezia quatro hospicios (…); outro dos Religiozos de Nossa Senhora do Monte do Carmo, de Pernambuco; outro dos Religiozos de Santo Antonio do Ryo de Janeiro;(…)».

Na planta de Lisboa após a remodelação paroquial de 1770, na freguesia de «N. Sª das Merces» surge este arruamento como Rua dos Nobres, já nessa época como hoje, paralela à Rua Direita do Colégio dos Nobres [hoje, Rua da Escola Politécnica]. Mais de 40 anos depois, na planta do Duque de Wellington de 1812, a artéria já aparece referida como Senhora do Carmo, indo da Rua da Penha de França à Rua da Procissão, com indicação tracejada de que poderia continuar, assim como em novembro de 1857 a planta de Filipe Folque a designa como Travessa da Senhora do Carmo.

A partir da década de sessenta do séc. XIX, encontramos o arruamento sempre com o topónimo de Travessa do Monte do Carmo: em 1864 no prospeto do prédio que Henry Ramel pretendia aumentar no n.º 65 da rua do Monte Olivete e a fazer esquina para a Travessa do Monte do Carmo; no levantamento topográfico de Francisco Goullard de 1882; bem como na Planta Topográfica de Lisboa de 1911, de Júlio Silva Pinto e Alberto Sá Correia. A primeira Comissão Municipal de Toponímia, criada em 1943, procedeu à confirmação ou alteração dos topónimos existentes na cidade, tendo na sua reunião de 11 de dezembro de 1945 confirmado o topónimo Travessa do Monte do Carmo.

Freguesia de Santo António
(Planta: Sérgio Dias)

De Santo Antoninho e da Vitória à misteriosa Senhora da Piedade

Travessa da Piedade – Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias)

A Senhora da Piedade tomou conta de duas artérias lisboetas quando a Travessa de Santo Antoninho passou a Rua Nova da Piedade assim como a Travessa da Vitória, que lhe estava próxima, foi transformada em Travessa da Piedade, embora se desconheça se tais acontecimentos se devem a uma ermida local ou a um registo de azulejos representando Nossa Senhora da Piedade, já que após o Terramoto de 1755 se tornaram comuns em Lisboa os registos de azulejos representando em conjunto Nossa Senhora da Piedade, Santo António e São Marçal e a Rua de São Marçal é uma artéria vizinha cuja denominação data pelo menos de 1769.

Outra hipótese que se pode formular para a origem do topónimo radica na proximidade à antiga Patriarcal, onde existia uma Irmandade da Senhora da Piedade desde  1716, conforme a memória do cura André de Oliveira sobre a paróquia da Patriarcal, em 7 de abril de 1758: «Consta mais da Irmandade da Senhora da Piedade, que instituhio o Padre Bernardo Pinto dos Santos no anno de mil, e sete centos, e dezaseis com hum grande numero de Irmãos.»

Sobre a Rua Nova da Piedade, que liga a Praça das Flores à Rua de São Bento, afirma Luís Pastor de Macedo que «O vulgo, durante algum tempo, designou-a por travessa de Santo Antoninho, conforme se vê num anúncio publicado em 1831 na “Gazeta de Lisboa”». Mas em 1857, no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa, de Filipe Folque,  já surge como Rua Nova da Piedade, tendo sido os passeios laterais do arruamento construídos em 1877.

Rua Nova da Piedade – Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias)

Ainda segundo o olisipógrafo Pastor de Macedo, «Houve nesta rua dois moradores que não podemos deixar de mencionar: o insigne pianista e compositor João Domingos Bomtempo e o jornalista e escritor Silva Pinto, o dedicado amigo do infeliz poeta Cesário Verde».

Já a Travessa da Piedade era a Travessa da Vitória até o Governo Civil de Lisboa determinar a alteração do nome, pelo seu Edital de 1 de setembro de 1859, seguindo a sua filosofia bem manifesta nesse documento de designar as travessas com o mesmo topónimo que a rua mais próxima.

Esta artéria que liga a Travessa da Palmeira à Rua Nova da Piedade foi em parte macadamizada em março de 1875. Cinco anos depois, os moradores da Travessa da Piedade e imediações fizeram um requerimento à edilidade a pedir para a calçada ser substituída por macadame na Travessa da Piedade, desde a Rua de São Marçal até à esquina da Travessa da Palmeira, devido ao transtorno que a referida calçada causava aos condutores de gado. E doze anos depois a artéria sofreu novas obras no pavimento, seguindo um plano delineado pelos funcionários municipais Ressano Garcia e Augusto César dos Santos.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias)

Os Remédios da Senhora da Ermida do Espírito Santo

Escadinhas dos Remédios, nos anos 40 do séc. XX
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Capela de Nossa Senhora dos Remédios, com o seu portal manuelino, edificada no séc. XVI e profundamente alterada no séc. XVIII deu origem a três topónimos nas freguesias de Santa Maria Maior e São Vicente: as Escadinhas dos Remédios, a Rua dos Remédios e a Travessa dos Remédios.

A Ermida de Nossa Senhora dos Remédios chamava-se do Espírito Santo mas Norberto de Araújo esclarece como se passou de um orago a outro ao relatar que «Nesta Ermida do Espírito Santo havia um poço, onde certo dia apareceu uma imagem de Nossa Senhora, a qual apesar de ser tirada da água, vinha enxuta em sua pintura e tecido. Milagre foi! E acorriam os pescadores e famílias a implorar à Virgem remédio a seus males, e Nossa Senhora os curava. Daí a receber a imagem a invocação de Nossa Senhora dos Remédios foi um salto.»

A Rua dos Remédios, ainda segundo Norberto de Araújo, foi até 1859 a Rua das Portas da Cruz , aludindo a uma das mais importantes portas naturais de Lisboa que ali existia, que se integrou na Cerca de D. Fernando, embora pelo menos no seu troço inicial fosse  no séc. XVIII denominada como Calçada dos Remédios.

Já as Escadinhas dos Remédios, pertença apenas da Freguesia de Santa Maria Maior, ligam o Beco da Lapa à Rua dos Remédios, desde a publicação do Edital municipal de 24/12/1879.

E finalmente, a Travessa dos Remédios que se abre junto ao nº 171 da Rua dos Remédios e não tem saída, foi o resultado de nova categoria dada pelo Edital de 13/12/1882 ao Beco dos Remédios, que ainda antes disso era conhecido como Beco do Frois.

Freguesias de Santa Maria Maior e São Vicente
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua de Nossa Senhora dos Remédios das Janelas Verdes

Convento de Nossa Senhora dos Remédios, na Rua das Janelas Verdes, antes de 1895
(Foto: Francesco Rocchini, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua dos Remédios à Lapa, que liga a Rua da Lapa à Rua Garcia de Orta, nasceu na antiga Rua de Nossa Senhora dos Remédios, pela proximidade ao Convento do nº 118 da artéria que conhecemos como Rua das Janela Verdes.

Recuando do presente para o passado temos que foi o Edital do Governo Civil de Lisboa de 1 de setembro de 1859 que denominou Rua dos Remédios à Lapa a até aí designada Rua dos Remédios, para evitar equívocos com a Rua dos Remédios em Santo Estevão.

Antes desta data, de acordo com   Luís Pastor de Macedo, a artéria « Aparece em 1759 sob o nome de rua de Nossa Senhora dos Remédios, nome que depois se simplificou para rua dos Remédios.» Seguindo Gomes de Brito, o olisipógrafo adianta também que o nome desta artéria foi dado «em homenagem a Nossa Senhora dos Remédios, padroeira do convento de carmelitas descalços, fundado em 1582 na rua larga que vai de Santos para Alcântara (actual rua das Janelas Verdes)», também conhecido como Convento dos Marianos, que corresponde ao ano de morte da fundadora da Ordem, Teresa de Jesus. No entanto, o Convento dos Marianos dos Religiosos Carmelitas Descalços com a invocação de Nossa Senhora dos Remédios na sua igreja, sob o traçado de Filippo Terzi, apenas ficou concluído em 1606 e a igreja em 1613.

O movimento reformador da Ordem do Carmo foi iniciado em Espanha, em 1562, por Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz, mas  em 1580 separaram-se definitivamente os Calçados dos Descalços. A nova Ordem dos Carmelitas Descalços, também conhecidos como  Frades Marianos, veio rapidamente estabelecer-se em Portugal, logo no ano de 1581, com o apoio régio de Filipe II de Espanha e I de Portugal.

O Convento dos Marianos serviu de Hospital Militar em 1856 e 1857 aquando da epidemia de febre amarela, e sucessivamente foi fábrica de velas, Igreja Presbiteriana e Igreja Evangélica Lusitânia. E na antiga cerca do Convento, no nº 2 da Rua dos Remédios à Lapa, instalou-se no primeiro quartel do séc. XX uma fábrica de pregos, acompanhando a crescente industrialização da zona nessa época.

Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua de Nossa Senhora do Amparo de Benfica

Freguesia de Benfica
(Foto: Sérgio Dias)

Pelo menos desde o séc. XIV que a invocação de Nossa Senhora do Amparo se regista em Benfica, tendo-se tornado topónimo lisboeta a pedido da Junta de Freguesia da Benfica, através do Edital municipal de 8 de fevereiro de 2001.

Esta artéria que une a Avenida Grão Vasco à Rua Olivério Serpa fixa na memória da cidade o orago da Igreja paroquial de Benfica que é Nossa Senhora do Amparo. Um templo mais antigo (podem ter existido dois ou três, contando com o que hoje vemos), existia pelo menos desde o século XIV, com a mesma invocação de Nossa Senhora do Amparo, no sítio do Tojal, pois em 1391 foi então doado ao mosteiro lisboeta do Salvador, pelo bispo do Porto, D. João Esteves. Em 1586 foi instituída a Irmandade de Nossa Senhora do Amparo. Em 1620, um documento mostra-nos que a paróquia  de Nossa Senhora do Amparo estava instalada numa ermida ou numa igreja, situada no local onde se ergueu o templo atual, construído entre 1750 e 1809, sobre o chamado Adro da Igreja, que ainda existia em 1863.

Segundo um outro documento conservado no arquivo paroquial, foi a 10 de dezembro de 1809 que se iniciaram as cerimónias da sagração da Comunidade Paroquial de Nossa Senhora do Amparo de Benfica, as quais se prolongaram até à festa da Padroeira, no dia 18 de dezembro. Contudo, as obras continuaram, sendo que entre 1811 e 1813 procedeu-se ao arranjo do guarda-vento e em 1840, ergueu-se a torre do lado nascente e nela se montou um relógio em 1923.

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias)