Do Beco do Cemitério à Travessa da igreja barroca da Pena

A Travessa da Pena em 1901
(Foto: Machado & Souza, © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

Na quarta-feira dia 7 de novembro de 1866 um Edital do Governo Civil de Lisboa mudou o topónimo Beco do Cemitério para Travessa da Pena, por solicitação de «alguns proprietarios , e outros indivíduos residentes no beco do Cemiterio, freguezia da Pena, districto do Bairro Alto».

Assim, «o beco denominado do Cemiterio, contiguo á calçada de Santa Anna» passou a fazer referência à Igreja paroquial de Nossa Senhora da Pena que foi também invocação da própria Freguesia até 2012. Hoje, este arruamento sem saída que encontramos a nascer junto ao nº 179 da Calçada de Santana, pertence à Freguesia de Arroios.

Entre 1564 e 1570, o cardeal D. Henrique, então Arcebispo de Lisboa, criou seis paróquias a partir da Paróquia de Santa Justa, entre elas a de Sant’Ana, com sede na igreja quinhentista do Mosteiro de Santa Ana das Religiosas da Ordem Terceira de São Francisco. Contudo, dissidências entre as religiosas do Mosteiro e os fregueses da Irmandade do Santíssimo Sacramento operaram a criação de uma nova igreja, no cimo da Calçada de Santana, para onde se mudaram em 25 de março de 1705, dia da Encarnação, dando depois à nova Igreja Paroquial a invocação de Nossa Senhora da Pena, benzida pelo bispo de Bona. Segundo Nuno Saldanha, no seu artigo sobre esta matéria no Dicionário da História de Lisboa , «É sobretudo a Manuel Antunes, ao mesmo tempo mestre pedreiro e tesoureiro da Irmandade, que se devem as obras de edificação da nova fábrica, que, a partir de 1703, contrai um empréstimo para a compra de um conjunto de casas situadas na Rua do Adro, local onde se ergueria a futura capela-mora da igreja».

Neste templo de estilo barroco joanino trabalharam nas suas talhas Claude Laprade, Manuel Quaresma, Domingos da Costa e Santos Pacheco; bem como Jerónimo da Silva, André Gonçalves, João Nunes de Abreu e António Lobo  nas suas telas e pinturas, para além de Luís Baptista e Pedro Alexandrino, após o sismo de 1755, que causou danos na frontaria e interior da igreja mas permitindo reedificação, obra que se prolongou até 1793. Contudo, o templo reabriu ao culto em 1763 e no período entre 1755 e 1763 a paróquia funcionou, sucessivamente, no Colégio de Santo Antão dos Jesuítas (hoje, Hospital de São José) e na Ermida dos Perdões do Palácio Mitelo.

Freguesia de Arroios

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Do Beco das Moscas à Travessa de São João da Praça e da Rua do Chinelo à Travessa Nova de Santos

O Beco das Moscas na planta de Filipe Folque de 1858 e a Travessa São João da Praça na planta de 1909 de Silva Pinto

O Edital do Governo Civil de Lisboa do sábado 17 de outubro de 1863, transformou o Beco das Moscas na Travessa de São João da Praça, assim como  a Rua do Chinelo na Travessa Nova de Santos, a pedido de «alguns proprietarios de predios, e outros individuos, residentes» nesses arruamentos, alterando os topónimos comuns por referências religiosas dos locais onde se inseriam.

O Beco das Moscas já aparece em 1858 no levantamento cartográfico de Lisboa executado por Filipe Folque e  de acordo com o Edital do Governo Civil de 1863 «dá serventia do Caes de Santarem para o largo da egreja parochial de S. João da Praça», pelo que se entende que o novo topónimo faça referência à essa igreja e à artéria próxima que é a Rua de São João da Praça., que já em 1551 era a Rua Direita de São João, conforme o Sumário de Cristóvão Rodrigues de Oliveira. A Travessa de São João da Praça, hoje na Freguesia Santa Maria Maior, passou a fazer menção ao templo medieval que de acordo com Norberto de Araújo   «data do princípio do século XIV, pelo menos, e teve como orago S. João Degolado, ou seja S. João Baptista», embora tenha sido completamente destruído com o terramoto de 1755 surgindo no seu lugar um novo construído em 1789.

Já a Travessa Nova de Santos resulta de uma segunda intervenção do Governo Civil de Lisboa naquele arruamento. A artéria denominada Rua do Noronha,  «na Freguezia de Santos o velho», passou pelo primeiro Edital do Governo Civil de Lisboa, de 1 de setembro de 1859, a designar-se  Rua do Chinelo como era vulgarmente conhecida, mas quatro anos volvidos, mudou novamente o seu nome, desta feita para referir a invocação local desde logo presente no topónimo da freguesia: Santos, dos Santos Mártires Veríssimo, Máxima e Júlia.

Esta Travessa Nova de Santos que é hoje território sob a administração da Freguesia da Estrela, teve o seu calcetamento reparado em junho de 1886; assim como sabemos que pelo menos em junho de 1910 acolheu Festejos dos Santos Populares com a artéria ornamentada para esse efeito bem como em 1919 teve o seu traçado de via alinhado.

Travessa Nova de Santos na Freguesia da Estrela

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A Rua Nova da Trindade de 1836 com os acrescentos de 1859 e 1863

A Rua Nova da Trindade no início do séc. XX
(Foto: Beatriz Chaves Bobone, © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

A antiga Portaria do Carro, o loteamento do Convento da Santíssima Trindade e a Travessa do Secretário de Guerra deram o espaço que permitiu abrir a Rua Nova da Trindade em 1836 e concluir a sua extensão em 1863, com o Edital do Governo Civil de Lisboa de 6 de junho de 1863.

Conforme o olisipógrafo Gustavo de Matos Sequeira, «A Portaria do Carro, ficava, como o leitor já sabe, onde corre o leito da rua Nova da Trindade, junto à entrada da travessa de João de Deus». Depois, em 1836, suprimido o convento é aberta a Rua Nova da Trindade, no prolongamento da Travessa do Secretário da Guerra.

De seguida, o primeiro Edital do Governo Civil de Lisboa – de 1 de setembro de 1859 – uniu a Rua Nova da Trindade e a Travessa de João de Deus (apenas a parte no seguimento daquela) num arruamento único com a denominação de Rua Nova da Trindade.  Quatro anos depois, sendo o Marquês de Sabugosa o Governador Civil, outro Edital de 6 de junho de 1863, a pedido de «alguns proprietarios de predios, e outros individuos residentes na travessa do Secretario de Guerra, freguezia do Sacramento, districto do Bairro -Alto desta cidade», acrescentou a Travessa do Secretário da Guerra à Rua Nova da Trindade, «favoravel à pretenção dos supplicantes, no sentido de que a referida travessa se considere, como realmente é, prolongamento e continuação da rua nova da Trindade».

Freguesia de Santa Maria Maior

Este topónimo evoca o Convento da Santíssima Trindade,  fundado por D. Afonso II  em 1218, para a Ordem da Santíssima Trindade do Resgate dos Cativos, religiosos franceses, vulgarmente conhecidos por Trinitários, que se estabeleceram assim em Lisboa numa zona envolvida por um olival, na franja urbana da cidade e  que originou diversos topónimos nesta zona que ficou conhecida como Trindade. Após o terramoto de 1755 a reconstrução do mosteiro prolongou-se por décadas, acompanhando o edifício parte do lado oriental da Rua Larga de São Roque (hoje, Rua da Misericórdia) e com a fachada principal virada a sul, nela se abrindo a portaria para o lado norte do Largo da Trindade e a nova igreja do convento localizava-se no local onde está o prédio que albergou a Livraria Barateira. Em 1833 foram dispersos os frades e em 1834, o convento foi loteado e vendido. O refeitório do antigo edifício conventual é o vestígio que ainda hoje podemos encontrar como salão grande da Cervejaria Trindade.

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Régio na  Comissão dos Escritores, Jornalistas e Artistas Democráticos do MUD e a Rua da Trindade

Excerto do protesto da Comissão dos Escritores, Jornalistas e Artistas Democráticos do MUD-Movimento de Unidade Democrática
(Imagem: © CER)

José Régio não era um cidadão alheio aos acontecimentos sociais e assim, teve envolvimento político quando as situações críticas da vida nacional o justificavam, tanto que em 1945 integrou a  Comissão dos Escritores, Jornalistas e Artistas Democráticos do MUD-Movimento de Unidade Democrática, que tinha a sua sede no 3º andar do n° 15 da Rua da Trindade.

Em novembro de 1946, esta Comissão entregou uma missiva ao Presidente da República, em que protestavam o seguinte: «Passado ano e meio sobre a vitória das Nações Unidas, que significou para quase todos os países civilizados a liquidação do fascismo, nas suas formas mais odiosas e mais vis; passado mais dum ano sobre o discurso do Chefe do Governo Português, em que se prometia à opinião pública nacional mais larga expressão dos seus direitos civis e políticos – sentem-se os signatários no dever intelectual e moral de vir protestar perante V. Exª e perante o país contra as opressões, as arbitrariedades e as violências que continuam sendo praticadas, sob o signo da autoridade constituída, contra cidadãos que exercem aqueles mesmos direitos e, o que é talvez pior, contra a dignidade humana e a cultura.» E terminavam com uma justificação do seguinte teor: «Como portugueses e trabalhadores do espírito assiste-nos o direito de chamar a atenção de V. Exª e da Nação para as violências cometidas – contra a lei, contra o senso de justiça, contra a dignidade da cultura – em prejuízo de intelectuais portugueses cuja pessoas e cujas obras constituem um património honroso da comunidade nacional a que pertencemos. É em nome desse direito que formulamos este protesto reclamando Justiça e Liberdade.»

Docente no Liceu de Portalegre, José Régio participava na Comissão Concelhia do MUD de Portalegre desde 1945 e em 1949, integrou também a Comissão Distrital de Portalegre da campanha de Norton de Matos à Presidência da República, assim como mais tarde, em 1958, vai aderir à candidatura de Humberto Delgado.

A Rua da Trindade onde a Comissão dos Escritores, Jornalistas e Artistas Democráticos do MUD-Movimento de Unidade Democrática tinha sede, é uma artéria que hoje começa no Largo do Carmo e segue até atingir a Rua Nova da Trindade. Como o nome indica, é este um topónimo que deriva do Convento da Santíssima Trindade, fundado por D. Afonso II  em 1218, para a Ordem da Santíssima Trindade do Resgate dos Cativos, religiosos franceses, vulgarmente conhecidos por Trinitários, que se estabeleceram assim em Lisboa numa zona envolvida por um olival, na franja urbana da cidade. A mesma origem é partilhada com os topónimos Largo da Trindade, Rua Nova da Trindade e Travessa da Trindade, que se encontram nesta área.

Do antigo convento masculino de religiosos que se dedicavam ao resgate dos cativos portugueses nas cidades de Marrocos e da Argélia, resta hoje parte da estrutura abobada e pilares do refeitório na sala pública da Cervejaria Trindade. O convento recebeu significativos benefícios e privilégios do poder régio, nomeadamente, da Rainha Santa Isabel, a que não será estranho Estêvão Soeiro, frade trinitário que era o confessor da Rainha. No século XIV, a muralha fernandina dividiu o Mosteiro, ficando uma parcela dentro de muros, a qual foi urbanizada nos inícios do século XVI – a Vila Nova do Olival-, e uma exterior, a Herdade de São Roque, urbanizada mais tarde, em meados desse mesmo século. A partir de 1561 o convento foi ampliado, com capacidade para albergar 110 frades, estando entre eles, Frei Nicolau de Oliveira, autor do Livro das Grandezas de Lisboa. O terramoto de 1755 atingiu o edifício conventual e a sua reconstrução prolongou-se por décadas mas o seu lado oriental acompanhava a Rua Larga de São Roque (hoje, Rua da Misericórdia), a fachada principal estava virada a sul e nela se abria a portaria para o lado norte do Largo de São Roque (hoje, Largo Trindade Coelho) e a nova igreja do convento localizava-se no prédio da já desaparecida Livraria Barateira.

Em 1834, com a extinção das ordens religiosas os frades trinitários mudaram-se para a sua casa de Sintra, e o Estado vendeu os terrenos para prédios e uma fábrica de cerveja (a Trindade), para além de, no ano seguinte, ser demolida mais uma parte do antigo convento para permitir a abertura da Rua Nova da Trindade.

Freguesia de Santa Maria Maior

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A Rua do Carmo e «Benilde ou A Virgem-Mãe» de Régio

Capa da 1ª edição
(Imagem: © CER)

Há 72 anos, em 1947, foi publicada a 1ª edição da peça Benilde ou A Virgem-Mãe, de José Régio, pela sucursal do Porto da Portugália, aberta dois anos antes, em 1945.  A sede da editora Portugália era no nº 75  da Rua do Carmo, hoje na Freguesia de  Santa Maria Maior, e nesse mesmo ano, a peça foi levada à cena pela Companhia Amélia Rey Colaço – Robles Monteiro, no palco do Teatro D. Maria II, na Praça D. Pedro IV que tão próxima está da Rua do Carmo.

A Portugália Editora foi fundada em 1942 por Agostinho Fernandes e em  21 de março de 1945 abriu uma sucursal no Porto, na Rua de Santo António nº 212. A Livraria Portugália, que lhe estava associada, fora fundada em 1918 na Rua do Carmo nº 75,  e foi liquidada em 1954, enquanto a Portugália Editora passou a ser gerida por Pedro de Andrade e Henrique Pinto, que nos anos quarenta passou a deter também escritórios no 3º andar do nº 13 da Avenida da Liberdade.

Benilde ou A Virgem Mãe é uma peça de José Régio que mostra uma jovem Benilde a viver num solar no Alentejo, com o pai e uma velha criada da família, a quem o médico da casa confirma que está grávida e no contexto daquela época a explicação da rapariga para o seu estado é uma  intervenção divina. Em 1947, ano da sua publicação, estreou ao público a  25 de novembro de 1947, no Teatro Nacional D. Maria II, com Maria Barroso no papel de Benilde. Mais tarde, em setembro e outubro de 1974, também Manoel de Oliveira a adaptou para o seu filme homónimo, estreado em 21 de novembro de 1975 no Apolo 70.

A Rua do Carmo, hoje da Freguesia de Santa Maria Maior, nasceu do Edital municipal de 8 de junho de 1889, como novo topónimo da Rua Nova do Carmo, então pertença das freguesias da Conceição e do Sacramento.

Norberto de Araújo, nas suas Peregrinações em Lisboa, refere que a Rua do Carmo deve o seu nome à proximidade ao Convento de Nossa Senhora do Vencimento do Monte do Carmo, precisando que « (…) principiou por se chamar Rua Nova do Carmo, artéria rasgada depois do Terramoto de 1755 na encosta conventual, e que não corresponde a qualquer serventia antes existente.» Por seu turno,  Luís Pastor de Macedo na sua Lisboa de Lés a Lés, defende que esta artéria também teria sido a Calçada do Rubim, que viu mencionada no Almanaque de Lisboa de 1800 e acrescenta «Podemos dizer onde era: nos limites das freguesias do Sacramento e da Conceição Nova; e podemos dizer que nome tem hoje: Rua do Carmo.»

Freguesia de Santa Maria Maior

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Há festa nas ruas da Mouraria

Pelas ruas antigas da Mouraria, Rua do Capelão, Rua João do Outeiro, Rua da Guia, Rua Marquês Ponte de Lima e Largos do Terreirinho e da Severa, se espraia o Arraial do Grupo Desportivo da Mouraria, no âmbito das Festas de Lisboa 2019.

Fundado em 1936 o Grupo Desportivo da Mouraria é também responsável também pela organização da Marcha da Mouraria.

As ruas da Mouraria onde decorre este arraial são das mais antigas de Lisboa. Cristóvão Rodrigues de Oliveira, no seu Sumário de 1551, já mostra a existência nesse ano de 1551 da Rua do Capelão, da Rua da Mouraria, da Rua dos Cavaleiros, da Rua João do Outeiro e da Rua da Amendoeira.

Sobre a Rua do Capelão, já em 1900 o historiador Pedro de Azevedo apontava que o topónimo talvez derivasse do sacerdote da mesquita intitulado capelão e nos anos 30 do séc. XX, o olisipógrafo Norberto de Araújo ,defendeu que o nome da rua advinha de «um oratório armado numa parede, com frente à rua, e que merecia a maior devoção aos habitantes do sítio; às tardes, a população reunia-se, e rezava em conjunto deante da imagem.» Neste arruamento nasceu a Severa e o fadista Fernando Maurício, para além deste topónimo ser o título pelo qual é conhecido o Velho Fado da Severa, composto por Frederico de Freitas para letra de Júlio Dantas para o 1º filme sonoro português – A Severa – , realizado por Leitão de Barros e estreado em 1931.

E foi de um troço da própria Rua do Capelão, compreendido entre o Beco do Forno e a Rua da Guia, que a edilidade lisboeta já no século XX – através do Edital municipal de 18 de dezembro de 1989 – consagrou na toponímia de Lisboa a primeira fadista, Maria Severa Onofriana, com o Largo da Severa.

A Rua João do Outeiro, segundo Norberto de Araújo, perpetua a memória de um abastado proprietário da Ilha de S. Miguel do séc. XVI, que resolveu vir para Lisboa acabar os seus dias naquela zona da Mouraria. Ainda segundo o mesmo jornalista e olisipógrafo, a Rua da Guia fixou-se dois séculos depois em parte do que havia sido Rua do Capelão, porque por volta de 1752 aqui ter existido um oratório armado numa parede que merecia muita devoção dos moradores do sítio.

A Rua Marquês Ponte de Lima foi dada por Edital municipal de 27 de maio de 1902 à Rua João Carlos d’Oliveira (nascida do Edital municipal de 8 de setembro de 1899), para homenagear D. José Maria Xavier de Lima Vasconcelos Brito Nogueira Teles da Silva (Almeida/12.11.1807 – 21.12.1877/Lisboa), o proprietário do Palácio da Rosa, o 3º marquês de Ponte Lima e 20º morgado de S. Lourenço de Lisboa entre outros títulos que possuía, que como militar no exército dos Liberais fez as campanhas de 1827 e 1828, emigrou para os Açores para juntar-se aos que sustentavam a Carta Constitucional e em 1834 tomou assento na Câmara dos Pares.

Finalmente, o Largo do Terreirinho já existia em 1548, de acordo com informação recolhida pelo olisipógrafo Luís Pastor de Macedo que recolheu. Após a remodelação paroquial de 1770 surge o arruamento mencionado como «Praça do Terreirinho» na freguesia do Socorro.

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O arraial da ADCEO na Rua da Quinta de Santa Maria e Circular Norte do Bairro da Encarnação

Freguesia dos Olivais

No Bairro da Encarnação, o arraial das Festas de Lisboa 2019 faz-se na Rua Quinta de Santa Maria e na Circular Norte, por serem a morada da ADCEO – Associação Desportiva e Cultural da Encarnação e Olivais que desde a sua fundação em 10 de março de 1990 tem a sua sede no lote 7 da Rua da Quinta de Santa Maria e Circular Norte e assim participa nas festas da cidade.

A ADCEO nasceu da fusão do Centro de Recreio Popular do Bairro da Encarnação (fundado em 16 de maio de 1946), do Clube Atlético e Recreativo da Encarnação (fundado em 28 de fevereiro de 1948) e do Centro de Cultura e Desporto da Quinta do Morgado (fundado em 1 de junho de 1975) e investe na promoção da cultura, da educação, do desporto e do recreio.

O Arraial da ADCEO em 2019
(Foto: José António Estorninho)

A maioria dos topónimos do Bairro da Encarnação, urbanização da autoria do Arqº Paulino Montez, construída de 1940 a 1943 – numa área de cerca de 47 ha de terrenos do então Ministério das Obras Públicas e Comunicações -, nasceram pelo Edital municipal de 15 de março de 1950. No quinhentista sítio da Panasqueira – cuja memória ainda se mantinha em 1939 numa Azinhaga da Panasqueira – foi inaugurado em 1946 o Bairro da Encarnação, o qual procurou reproduzir um pretenso modelo de aldeia portuguesa, mas com a forma de uma borboleta que pode ser admirada por vista aérea, sendo a Alameda da Encarnação o eixo principal das duas asas simétricas de borboleta do Bairro-Jardim da Encarnação.

A Rua da Quinta de Santa Maria, que faz a ligação da Circular Norte à Avenida Cidade do Porto, é uma das doze do Bairro da Encarnação que hoje encontramos a fugir à regra de ter toponímia numérica como era uso nos bairros sociais de então, e se pode ver justamente no Edital municipal de 15/03/1950 também aplicada nos Bairros de Casas Económicas do Alto da Ajuda, do Alto da Serafina, da Calçada dos Mestres, de Caselas e das Terras do Forno. O Bairro da Encarnação, cuja arquitetura já continha  princípios das cidades-jardim que então se iam construindo noutros países europeus, além da toponímia numérica que era tradicional nestes bairros, recebeu alguns topónimos, mesmo se todos esses são referências de localização, conforme se pode ser na ata da reunião da Comissão Consultiva Municipal de Toponímia de 19 de dezembro de 1949: «Praça do Norte, Praça das Casas NovasRua dos Lojistas, Rua da Portela, Rua da Quinta de Santa Maria, Rua da Quinta do Morgado, Rua da Quinta da Fonte, e ruas números: 2, 4, 6, 8, 10, 12, 14, 16, 18, 20, 22, 24, 26 e 28, e 1, 3, 5, 7, 9, 11, 13, 15, 17, 19, 21, 23, 25, 27 e 29,  aos arruamentos situados, respectivamente, à direita e à esquerda da Alameda da Encarnação.» Pelo Edital foram ainda atribuídos os topónimos Rua dos Eucaliptos e Rua das Escolas. A Rua da Quinta de Santa Maria foi arborizada entre 1956 e 1971.

Já as Circulares do Bairro da Encarnação, são atribuídas depois, através do Edital municipal de 27 de novembro de 1957, cabendo à  Rua K e à Rua J passarem a ser a Circular Norte e a Circular Sul, georreferências à Praça do Norte e à Praça das Casas Novas.

A Rua da Quinta de Santa Maria e a Circular Norte

 

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O Largo do Salvador, o convento e o seu arraial

Freguesia de Santa Maria Maior

Durante este mês de junho o Largo do Salvador é um palco das Festas de Lisboa’19, centro do arraial organizado pelo Centro Cultural Dr. Magalhães Lima, que aqui está sediado no que em tempos foi a igreja do Convento do Salvador, construído sobre a ermida de Jesus Salvador da Mata que deu a origem ao topónimo.

Encontramos o Largo do Salvador na confluência da Rua do Castelo Picão,  Rua da Regueira e Rua Guilherme Braga, tal como nas proximidades a Rua e o Beco com o mesmo topónimo e todos colhem a sua denominação do antigo sítio do Salvador da Mata, da Lisboa medieval logo após a conquista da cidade aos mouros (1147), da primitiva ermida de Jesus Salvador da Mata que evolui para ser a igreja paroquial de São Salvador em 1189 e em 1209 foram criadas em Alfama as Freguesias do Salvador e a  de São João da Praça.

O olisipógrafo Norberto de Araújo esclarece que «Estamos no Largo do Salvador. E do Salvador – porquê? Neste sítio, que no comêço da Lisboa era de todo silvestre, em encosta que acompanhava pelo exterior uma parte da muralha moura, apareceu – segundo rezam as lendas – em certa manhã, espetado no chão do matagal, um crucifixo, e perto dêle uma imagem de N. Senhora com o Menino. Milagre era; naquêle tempo devoto, primeiros anos após a conquista, a notícia correu célere por Lisboa. Logo se ergueu uma ermidinha a Jesus Salvador da Mata, porque mata cerrada era tudo isto por aqui. A ermida teve, pouco depois de erguida, grande concorrência de mulheres penitentes que junto dela fizeram um Recolhimento, já levantado em 1240. O sítio foi-se desbravando, povoando, dando uma pequena freguesia, o que se explica, porque a Ermida era do priorado.» 

O pequeno recolhimento das Beatas de São Salvador da Mata deu origem à fundação do Convento feminino do Salvador em 1391/1392, da Ordem dos Pregadores, pelo bispo do Porto D. João Esteves, no espaço que hoje é do Largo do Salvador. O Convento também foi denominado do Santíssimo Rei Salvador de Lisboa, de São Salvador e do Santo Rei Salvador. Em finais do séc. XVI foi a vez de ser também construído neste Largo o Palácio dos Condes de São Miguel ( ou Palácio dos Condes de Arcos de Valdevez) que se ligou ao Mosteiro pelo denominado Arco do Salvador, estrutura que resistiu ao Terramoto de 1755.

O Mosteiro encerrou em 1884 por morte da última freira e a igreja desvinculada do culto. O Largo do Salvador teve obras de remodelação em 1961, no âmbito da reestruturação de Alfama. A parte da igreja foi entregue à Junta de Freguesia local que por sua vez cedia o espaço ao Centro Cultural Dr. Magalhães Lima desde a sua fundação em 5 de outubro de 1975. Na outra parte do antigo mosteiro feminino dominicano hoje lá encontramos o Hotel Convento do Salvador.

Freguesia de Santa Maria Maior

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Cordoeiros, Santo Antoninho e um arraial na Bica

O Largo de Santo Antoninho (à esquerda) e a Rua dos Cordoeiros (à direita)

No mês de Santo António e dos Santos Populares, encontramos um dos arraiais da Bica a espraiar-se justamente pelo Largo de Santo Antoninho e também pela Rua dos Cordoeiros, promovido pelo Grupo Desportivo Zip Zip, uma associação nascida em 17 de agosto de 1974, com sede na Rua dos Cordoeiros nºs 9 a 15.

O Largo de Santo Antoninho existe na confluência da Calçada da Bica Pequena, Rua dos Cordoeiros e Travessa da Bica Grande, atravessado pelo Elevador da Bica desde que este foi  inaugurado no dia 28 de junho de 1892. As memórias paroquiais de 1758, da freguesia de São Paulo, «cituada esta freguezia em hua praya, da qual se descobre a villa de Almada, e as povoações de Casilhas, Fonte da Pipa, e parte de Caparica», na situação após Terramoto já mencionam este arruamento, mas como Terreirinho de Santo António. Depois, algures no séc. XIX mas ainda antes da implantação do funicular o Terreirinho passou a Largo e Santo António a Santo Antoninho. Em 1852, no traçado de um prédio no n.º 2 a 5 que João Venâncio Nunes pretendia acrescentar, surge como Largo do Terreirinho de Santo Antoninho. Na planta de 1856 de Filipe Folque é já Largo de Santo Antoninho tal como em 12 de abril de 1875, a deliberação de câmara para lhe colocar a cortina do lado ocidental e uma grade de ferro o refere também como Largo de Santo Antoninho.

Curioso é encontrarmos nos documentos municipais, em 1903 e 1905, pedidos de autorização para realizar festas no arruamento, no mês de junho. Em 6 de junho de 1903 é um termo que assina Bento Fernando Lopes, como representante dos moradores do Largo de Santo Antoninho, obrigando-se às condições com que lhes foi concedida a autorização para vedar o mesmo largo e abrir buracos no chão para a ornamentação dos festejos. Em 20 de maio de 1905 é um termo assinado por Bellmiro dos Santos, como representante do Grupo Recreativo do Largo de Santo Antoninho, solicitando  licença para vedar um recinto no mesmo largo e colocação de um coreto e mastros para a promoção de bailes durante o mês de junho.

Já a Rua dos Cordoeiros que liga o Largo de Santo Antoninho à Calçada Salvador Correia de Sá, parece ser uma artéria pelo menos do final do século XVI, já que o Sítio da Bica, na vertente das encostas de Santa Catarina e das Chagas, foi cavado por efeito de um desmoronamento de terras restrito ao local, ocorrido em 22 de julho de 1597 e que se repetiu 25 anos mais tarde. Na planta de 1856 de Filipe Folque está registada a Rua dos Correeiros a terminar na  Calçada de São João Nepomuceno. Os cordoeiros que fabricavam cordas para velas e bandeiras ficaram perpetuados em diversa toponímia lisboeta, enumerando Luís Pastor de Macedo as artérias de Lisboa que evocaram este ofício: «Os cordoeiros ou as cordoarias deram o nome, em Lisboa, às seguintes serventias públicas, pelo menos: à travessa da Cordoaria, na freguesia de Santo Estêvão, nos meados do século XVI, às ruas da Cordoaria Nova e da Cordoaria Velha na freguesia dos Mártires, esta última já classificada de Velha em 1477, à rua dos Cordoeiros que ainda existe compartilhada pelas freguesias de Santa Catarina e de S. Paulo, e à rua dos Cordoeiros em Pedrouços que também mantém ainda este nome. Sabemos ainda que os cordoeiros, em 1821, abancavam no terreiro de S. Pedro de Alcântara e que em 1552 havia na cidade 25 tendas daquele ofício». Refira-se ainda que a existência da Cordoaria Nacional, antiga Real Fábrica da Cordoaria da Junqueira, criado pelo Marquês de Pombal por decreto de 1771.

Freguesia da Misericórdia

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O 25 de Abril, o Colégio Militar e o Largo da Luz

Ao Colégio Militar chegou às 04H00 do dia 23 de abril o cabo da linha de transmissões para daí seguir para o último ponto – o Posto de Comando do MFA – e às 21H30 do dia 25 de abril de 1974, foi também o local da refeição quente do dia, de almôndegas com massa, da coluna militar da EPC – Escola Prática de Cavalaria.

Para a linha telefónica militar (ponto-a-ponto) necessária ao Posto de Comando do MFA, instalado no RE 1- Regimento de Engenharia n° 1, na Pontinha, foi instalado cabo telefónico aéreo pelo seguintes pontos: Regimento de Transmissões (Rua de Sapadores) – Pupilos do Exército (Estrada de Benfica) – Colégio Militar (Largo da Luz) –  Posto de Comando do MFA (Pontinha). O então tenente-coronel Garcia dos Santos – responsável pelas transmissões do Movimento das Forças Armadas- assinara o pedido urgente da linha telefone militar na zona dos Pupilos do Exército que foi autorizada pelo Estado Maior do Exército em 15 de abril de 1974. Clandestinamente, deu-se seguimento ao processo a partir das 20:00 horas do dia 22 de abril de 1974, com um cabo aéreo de 5 pares com 2.000 metros, primeiro até ao Colégio Militar  onde chegou às 4 horas do dia 23, para depois, com um novo cabo de 3.000 metros chegar até ao RE 1, tendo chegado à Porta d’Armas às 6 horas do dia 24 de abril e após diversos testes, à sala do Posto de Comando cerca das 18 horas.

Já no dia 25 de abril, cerca das 21h horas, a Chaimite Bula oriunda do Largo do Carmo a transportar os membros do Governo deposto, escoltada pela coluna da Escola Prática de Cavalaria, chegaram ao RE 1 – Regimento de Engenharia, na Pontinha, onde estava instalado o Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas. E cerca de meia hora depois, por volta das 21:30, esta coluna militar da EPC instalou-se no Colégio Militar, onde lhe foi servida uma refeição quente:  almôndegas com massa.

Findo o jantar, às 22:30, o major Monge, o capitão Salgueiro Maia e os tenentes Alfredo Assunção e Santos Silva dirigiram-se com as viaturas blindadas para a Calçada da Ajuda, onde conseguiram a rendição dos regimentos de Cavalaria 7 e Lanceiros 2, tendo sido presos os comandantes dessas unidades.  À meia-noite e meia, forças da EPC escoltaram a Junta de Salvação Nacional na deslocação à RTP. À 1:30 de dia 26, as forças que acompanharam Salgueiro Maia à Ajuda ficaram a pernoitar no Regimento de Cavalaria 7. Às 2 horas, a coluna que fez a escolta até à RTP regressou ao Colégio Militar para passar a noite.

Refira-se ainda que dos envolvidos no 25 de Abril de 1974, foram  alunos do Colégio Militar os seguintes: General António de Spínola e  General Francisco da Costa Gomes (Junta de Salvação Nacional); Major José Sanches Osório, Tenente-coronel Nuno Fisher Lopes Pires, Capitão Luís Macedo (Posto de Comando do MFA); Furriel João Gomes Pereira Carmona, Capitão Mário Delfim Tavares de Almeida, Alferes Miguel Sequeira Marcelino (da coluna da EPC do Capitão Salgueiro Maia); bem como Tenente Américo Henriques, Major António Carlos de Magalhães Arnão Metelo, Capitão Duarte Nuno Pinto Soares, Capitão Francisco Faria Paulino, Capitão Francisco Sousa Lobo, Tenente –Coronel João de Almeida Bruno, Tenente José Balula Cid, Capitão José Bernardo do Canto e Castro, Capitão José Fernandes Décopete dos Santos Coelho, Capitão Mário Alfredo Brandão Rodrigues dos Santos, Major Pedro Pezarat Correia, Capitão-Tenente Vasco Fernando Leote de Almeida e Costa (dados recolhidos em NRP Cacine).

O Colégio Militar estava, em abril de 1974 como hoje, sediado no Largo da Luz, topónimo que também surge repetido nas proximidades na Azinhaga da Luz, Estrada da Luz e Travessa da Luz, todos por referência comum a Santa Maria da Luz.

Conta uma lenda que Nossa Senhora, aureolada de luz, terá aparecido a um natural de Carnide, de seu nome Pêro Martins. Das  sucessivas vezes prometeu livrá-lo do cativeiro com o compromisso de ao regressar a Carnide erigir na Fonte da Machada uma ermida dedicada a Santa Maria da Luz, cuja imagem até encontraria perto daquele local. Pêro Martins  foi libertado e regressou a Portugal em 1463, após o que encontrou a imagem de Nossa Senhora da Luz nas cercanias da Fonte da Machada e se empenhou em recolher contribuições dos seus vizinhos, assim como a licença do Bispo de Lisboa, para construir a ermida, na qual a imagem foi solenemente entronizada no dia 8 de setembro de 1464. Pêro Martins foi sepultado na ermida em 1466 e esta foi depois anexada à igreja de São Lourenço de Carnide, cujo pároco ficou com o encargo de manter o culto e dar continuidade às festividades religiosas em honra de Nossa Senhora da Luz, a 8 de setembro, as quais persistiram até aos nossos dias no decorrer desse mês.

O Colégio Militar, no Largo da Luz, cerca de 1960
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

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