A Rua de São Francisco de Paula e a Rua Presidente Arriaga

A Rua de São Francisco de Paula cerca de 1910
(Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua Presidente Arriaga, homenagem ao 1º Presidente da República Portuguesa constitucionalmente eleito, no arruamento onde ele residira e de onde saiu o seu funeral em 1917, foi um topónimo atribuído pela edilidade lisboeta em 1920, embora para os mais antigos seja ainda conhecida como Rua de São Francisco de Paula por via da Igreja da mesma invocação.

A artéria começou por ser a Rua Direita de São Francisco, topónimo derivado da Igreja de São Francisco de Paula ali fundada em 1719 por  Frei Ascenso Vaquero. Em 1753 e 1754, Frei Francisco de Paula era o Vigário Geral do Convento de São Francisco de Paula e o templo teve obras de melhoramentos, segundo o traçado do arqº Inácio de Oliveira Bernardes e torres atribuídas a Diogo Azzolini,  a expensas de D. Mariana Vitória, mulher de D. José I, cujo túmulo da oficina de Machado de Castro foi colocado na capela-mor e está classificado como Monumento Nacional.

Em 1758, no Cartulário de Plantas e Edifícios da Nova Cidade depois do Terramoto já encontramos alçados de Manuel da Maia para a Rua Nova de São Francisco de Paula que é a denominação que encontramos ainda em 1854 em documentos municipais de prospetos de prédios.

Em 1857 e 1858, na planta de Filipe Folque e em prospetos de prédios o arruamento surge designado como Rua Direita de São Francisco de Paula, situação que se mantém de 1879 a 1881 na planta de  Francisco e César Goullard,  num auto de vistoria a uma chaminé e no levantamento topográfico de Francisco Goullard.

Terá sido no final da década de oitenta do séc. XIX que o topónimo passou a ser Rua de São Francisco de Paula, já que  assim está mencionada em 1887 num orçamento para substituição da cantaria e reconstrução do empedrado dos passeios e valetas da rua, bem como no romance Os Maias de Eça de Queirós, publicado em 1888,  como morada da Casa do Ramalhete.

Em 1920, três anos após o falecimento de Manuel José de Arriaga Brum da Silveira (Horta/08.07.1840 – 05.03.1917/Lisboa) nesta artéria onde morava, a Câmara Municipal de Lisboa atribuiu a Rua Presidente Arriaga, por deliberação camarária de 28 de abril e Edital municipal de 18 de maio, com a a extensa  legenda de «Primeiro Presidente da República Portuguesa Eleito pela Assembleia Nacional Constituinte em 24 de Agosto de 1911/Nasceu em 08.07.1840 e Morreu em 05.03.1917».

Freguesia da Estrela
(Foto: José Carlo Batista)

Anúncios

O Largo de São Roque ou do Cauteleiro que é o Largo Trindade Coelho

O Largo Trindade Coelho no início do séc. XX
(Foto: Paulo Guedes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Começou por ser o Largo de São Roque no séc. XVI. No final dos anos 80 do séc. XX com a colocação no local de uma estátua em homenagem aos cauteleiros passou a ser conhecido como Largo do Cauteleiro e ponto de encontro para incursões na noite do Bairro Alto, mas desde 1913  que o Largo de São Roque se denomina oficialmente Largo Trindade Coelho.

Quando no ano de 1509 grassava  uma grande peste em Lisboa o rei D. Manuel I mandou erguer junto ao cemitério próximo do Convento da Trindade uma ermida a que chamou de São Roque para albergar uma relíquia do santo, oriunda de Veneza. Em 1553 os jesuítas tomaram conta desta ermida e em 1555 iniciaram a construção de um majestoso templo para a substituir nascendo assim a Igreja de São Roque que passou para o topónimo e assim nasceu o Largo de São Roque.

Em 1913 a edilidade alfacinha substituiu alguns hagiotopónimos (topónimos com nomes de santos) por outros relacionados com o regime republicano. As alterações na toponímia foram recorrentes nos anos seguintes ao 5 de outubro de 1910, tendo a primeira ocorrido logo a 5 de novembro desse mesmo ano, data em foram substituídos dez topónimos ligados à monarquia.  Pelo Edital municipal de 18 de outubro de 1913 tiveram lugar as seguintes modificações: o Largo de São Carlos passou a denominar-se Largo do Directório; o Largo do Espírito Santo passou a Largo de Ernesto Silva;  o Largo de Santa Bárbara passou a Largo 28 de Janeiro; a Rua de São José passou a Rua Alves Correia e o Largo de São Roque passou a Largo Trindade Coelho. Note-se que já desde o Edital de 18/11/1910 a Rua Larga de São Roque tinha passado a ser a Rua do Mundo, em  homenagem ao jornal republicano aí sediado, pelo que faz sentido que o largo do seu topo, o antigo Largo de São Roque tenha passado três anos depois a ser o Largo Trindade Coelho que nos jornais defendeu os ideais republicanos mesmo que se tenha suicidado antes de ver implantada a República cujos valores perfilhou e defendeu.

José Francisco de Trindade Coelho (Mogadouro/18.06.1861 – 09.06.1908/ Lisboa), formado em Direito em Coimbra começou por exercer advocacia nessa cidade ao mesmo tempo que começava a escrever nos jornais sob pseudónimo e até fundou  duas publicações: Porta Férrea e Panorama Contemporâneo. Camilo Castelo Branco admirava-o literariamente e conseguiu que ele  ingressasse na magistratura, como Delegado do Procurador Régio na comarca de Sabugal, indo depois para Portalegre, onde fundou dois jornais: Gazeta de Portalegre e Comércio de Portalegre. Depois,  já em Lisboa coube-lhe a tarefa ingrata de fiscalizar a imprensa da capital aquando do Ultimatum e abalado pelas críticas transferiu-se para Sintra (1895) e prosseguiu a sua carreira jurídica em vários tribunais.

Como escritor, Trindade Coelho publicou o livro de contos Os Meus Amores (1891) e o de memórias de Coimbra In Illo Tempore (1902), para além de obras de cariz social como a Cartilha do Povo (1901), o Manual Político do Cidadão Português (1906), o ABC do Povo  (1901) que foi um livro adotado oficialmente nas escolas públicas, bem como mais três Livros de Leitura (1903 a 1905). Também deu a lume obras jurídicas como Recursos Finais em Processo Criminal e Anotações ao Código e Legislação Penal e conseguiu uma presença importante em jornais para além da já referida, com os pseudónimos Belisário e José Coelho, escrevendo nos jornais Portugal, Branco e NegroNovidades, Repórter, O Progressista, O Imparcial, Tirocínio, Beira e Douro, Jornal da Manhã e Diário Ilustrado para além de ter ainda fundado a Revista de Direito e Jurisprudência e a Revista Nova, onde publicou as crónicas «Folhetos para o Povo», tendo através da escrita contribuído para divulgar as ideias republicanas.

No Largo Trindade Coelho, por ser a morada da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, foi inaugurada em 18 de novembro de 1987 – dia do 204º aniversário da Lotaria Nacional – uma estátua de bronze em homenagem aos cauteleiros, da autoria de Fernanda de Assis, que acabou por dar uma nova denominação popular ao arruamento, que começou a ser conhecido como o Largo do Cauteleiro.

Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Travessa do Rosário onde José Malhoa viveu 13 anos

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Travessa do Rosário que liga a Travessa da Conceição da Glória à Rua da Alegria foi a morada do pintor José Malhoa em Lisboa durante os seus últimos 13 anos de vida.

José Malhoa que pintou o célebre quadro O Fado, em duas versões, uma em 1909 e a final em 1910 – mesmo que Lisboa só  tenha visto exposto o quadro em 1917, por até aí ser considerado um tema marginal e impróprio -, viveu no nº 8 da Travessa do Rosário de 1922 a 1933, ano da sua morte.

Foto: Eduardo Portugal, 1954, Arquivo Municipal de Lisboa

Só na planta de Lisboa de 1807 de Duarte Fava é que encontramos esta Travessa do Rosário próxima da Praça da Alegria – já que a cidade alfacinha acolhe também uma Travessa do Rosário a Santa Clara -, o que até faz sentido se recordarmos que o sítio da Alegria passou de rural a urbanizado e aumentou de população apenas após o Terramoto de 1755.

Na primeira metade do século XVIII esta zona era ainda um local de terrenos de cultivo, conforme esclarece Norberto de Araújo«(…) Repizo que na primeira metade do século XVIII tudo por aqui eram terrenos de cultivo, abaixo da quinta ou da cêrca dos Padres da Companhia (Jardim Botânico de hoje), ligados a S. José, razão porque esta zona arrabaldina se chamou também Cotovia de S. José. (Para se entender isto melhor é preciso fechar os olhos, e não ver a Avenida actual)».  Depois do Terramoto de 1755 é que as populações se sentiram atraídas para esta área descampada e pouco povoada: «A Alegria, pois, é posterior ao Terramoto; (…) Com a construção e desenvolvimento do Passeio Público, cresceu a Alegria; com a abertura da Avenida [da Liberdade] tornou-se de maioridade». Repara-se que o Chafariz da Mãe d’Água foi para ali transferido em 1840, oriundo do Passeio Público, denotando também a necessidade de maior abastecimento de água neste local.

Para a explicação do topónimo religioso se ter fixado nesta Travessa podemos levantar a hipótese de ter sido denominação dada pelos Jesuítas ou por uma Irmandade. O Noviciado ou Colégio jesuíta da Cotovia esteve aqui sediado entre 1609 e 1759 e foi até nos terrenos mais próximos desta Travessa do Rosário que a partir de 1873 foi começado a plantar o Jardim Botânico. Por outro lado, um pouco por todo o país eram muito populares as Irmandades do Rosário e em Lisboa, a primeira data de 1478. Existiu mesmo em Lisboa uma Confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, pelo menos desde 1494, instalada na Igreja de São Domingos, sobre a qual precisa Cristóvão Rodrigues de Oliveira em 1551 que «e a confraria de Nossa Senhora do Rosário, repartida em duas, uma de pessoas honradas, e outra dos pretos forros e escravos de Lisboa». Com a perda da independência do país na Dinastia Filipina a irmandade foi impedida de ter existência autónoma, proibição que resultou numa dispersão da devoção por outras igrejas, tendo-se destacado nos séculos XVII e XVIII, a irmandade de Nª. Sª. de Guadalupe dos Homens Pretos, no mosteiro de São Francisco,  assim como as de Nª. Srª. do Rosário dos Homens Pretos, nas igrejas do Salvador, da Graça e da Trindade.

Freguesia de Santo António
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua do Capelão, da Severa e de Fernando Maurício

Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Luís Ponte)

A antiga Rua do Capelão é uma artéria icónica do Fado de Lisboa por nela ter falecido a Severa no séc. XIX, nela ter nascido no séc. XX o fadista Fernando Maurício, conhecido como o Rei do Fado da Mouraria, bem como por ser o título pelo qual é conhecido o Velho Fado da Severa, composto por Frederico de Freitas para a letra de Júlio Dantas para o 1º filme sonoro português – A Severa – em 1931, aí interpretado por Dina Tereza e depois interpretado por inúmeras vozes como Amália, Ada de Castro, Fernanda Maria, Cidália Moreira, Dulce Pontes, Anabela, Lula Pena ou Cuca Roseta.

De acordo com Cristóvão Rodrigues de Oliveira, no seu Sumário de 1551, já nesse ano existia em Lisboa a Rua do Capelão, tal como a Rua da Mouraria, a dos Cavaleiros, a do João do Outeiro e a da Amendoeira. O historiador Pedro de Azevedo apontava em 1900 que o topónimo talvez derivasse do sacerdote da mesquita intitulado capelão, adiantando que o último capelão mouro de Lisboa se chamava Mafamede Laparo. Depois, Norberto de Araújo, nas suas Peregrinações em Lisboa dos anos 30 do séc. XX, defendeu que o nome da rua advinha de «um oratório armado numa parede, com frente à rua, e que merecia a maior devoção aos habitantes do sítio; às tardes, a população reunia-se, e rezava em conjunto deante da imagem

Tem uma placa toponímica especial – isto é, que não se enquadra em nenhum dos modelos dos 6 tipos de placas usadas – com os dizeres «Símbolo da mouraria/matriz do fado» e à entrada da artéria está um monumento contemporâneo que consiste num bloco de mármore, com uma guitarra esculpida e a inscrição «Mouraria Berço do Fado/Inaugurado pelo Exmº Senhor Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Professor Doutor António Carmona Rodrigues», inaugurado no dia 13 de junho de 2006 por iniciativa da antiga Junta de Freguesia do Socorro.

A edilidade lisboeta pegou mesmo num troço da própria Rua do Capelão, compreendido entre o Beco do Forno e a Rua da Guia, para consagrar a Severa na toponímia de Lisboa, através do Edital municipal de 18 de dezembro de 1989.

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua do Convento de Santa Marta de Jesus

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Do Asilo de Santa Marta de Jesus, fundado no séc. XVI, mais tarde instituído como Convento, nasceu a Rua de Santa Marta.

Já no séc. XIX, o Edital do Governo Civil de Lisboa de 01/09/1859 incorporou a Rua de Santa Joana na Rua de Santa Marta. E em 1926, face aos pedidos insistentes da Junta de Freguesia de Camões para substituir a nomenclatura da Rua de Santa Marta, por deliberação de Câmara de 31 de maio de 1926 passou a denominar-se Rua Alexandre Braga, embora quase quatro meses depois, pelo edital municipal de 14 de setembro desse mesmo ano,  voltou a designar-se Rua de Santa Marta, ao mesmo tempo que colocava o topónimo Alexandre Braga «á rua sem nome que, partindo da Rua José Estevam e ao norte do Jardim Constantino, vai ligar-se com a Rua Dona Estefânia».

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Asilo de Santa Marta de Jesus foi criado para acolher e tratar as filhas das vítimas da Grande Peste de Lisboa de 1569, a pedido do Padre António de Monserrate, representante dos Padres de São Roque, da Companhia de Jesus. Depois de 1577, os padres jesuítas pediram a passagem do recolhimento a Mosteiro e em 1583, o arcebispo de Lisboa D. Jorge de Almeida, autorizou a instituição de um convento de religiosas franciscanas clarissas, sob a invocação de Santa Marta, sendo fundadoras 3 religiosas vindas do Convento de Santa Clara de Santarém. Em 1612 teve início a construção da igreja do Convento que está classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1946.

Refira-se que em 1693, residindo a rainha viúva de Inglaterra, D. Catarina de Bragança, no palácio dos Condes de Redondo, contíguo à igreja conventual, foi aberta uma tribuna sobre a capela-mor para que a soberana aí pudesse assistir às celebrações mas que foi fechada assim que D. Catarina se instalou no Paço da Bemposta, originando o topónimo Paço da Rainha.

Na descrição corográfica de arruamentos anteriores ao terramoto, a Rua de Santa Martha surge já na freguesia de S. José. O Convento de Santa Marta foi um de 11 entre os 65 conventos existentes em Lisboa que, não obstante os danos do Terramoto de  1 de novembro de 1755, se mantiveram habitáveis.

Após a extinção das ordens religiosas pelo Decreto de 30 de maio de 1834, o Convento de Santa Marta após a morte da  última religiosa em 15 de dezembro de 1887, foi alvo de obras de adaptação para começar a funcionar ao serviço da saúde em 1890, com a designação de Hospício dos Clérigos Pobres, já que desde o ano anterior havia sido cedido a essa Irmandade, para albergar as vítimas de um grande surto de gripe que alvoroçou a cidade e posteriormente, ficou como hospital de doenças venéreas. Em 1903 passou a ser um Hospital dependente do governo, inicialmente como anexo ao Hospital de São José. Em 1910 foi atribuída oficialmente ao Hospital de Santa Marta a função de Escola Médico Cirúrgica de Lisboa assumindo um importante papel no ensino da Medicina em Lisboa, função que manteve até 1953, data em que a clínica universitária foi transferida para o novel Hospital de Santa Maria, voltando o Hospital de Santa Marta para o grupo dos Hospitais Civis de Lisboa. Foi considerado como uma das principais escolas de Medicina Interna durante a segunda metade do séc. XX com Carlos George, bem como ganhou diferenciação na área cardio-vascular com a inovação trazida por Machado Macedo.

Marta era a irmã de Maria e de Lázaro, que foi ressuscitado por Jesus a seu pedido. A devoção a Santa Marta remonta à época das Cruzadas e partiu de França, onde segundo uma lenda, Marta, Maria e Lázaro teriam terminado os seus dias. Santa Marta era muito popular na comuna francesa de Tarrascon já que, segundo a tradição, aí estrangulara Tarasca, um monstro que devorava animais domésticos e crianças. Santa Marta é a patrona das cozinheiras.

Ainda na Freguesia de Santo António, encontramos mais dois topónimos evocativos de Santa Marta: o Beco de Santa Marta, junto ao nº 26 da Rua de Santa Marta, bem como a Travessa de Santa Marta que o Edital do Governo Civil de Lisboa de 01/09/1859 escolheu para ser a nova denominação da Travessa das Freiras.

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua Bispo de Cochim, D. Joseph Kureethara

Freguesia da Penha de França
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Na freguesia da Penha de França, a ligar a Avenida Infante Dom Henrique à Rua de Xabregas, encontramos a Rua Bispo de Cochim, ali fixada desde a publicação do Edital municipal de 25 de julho de 2001.

A sugestão deste topónimo partiu da investigadora Maria de Lurdes Rosa, do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, e do Patriarcado de Lisboa.

D. Joseph Kureethara (Índia – Chirakal/02.07.1929 – 06.01.1999/Cochim – Índia), nasceu no Estado de Kerala, salientando que a a sua terra natal «foi o local onde os Missionários portugueses iniciaram as suas actividades na Índia». Empenhou-se ao longo da sua vida na preservação do património histórico e religioso da Diocese de Cochim e na defesa da herança cultural portuguesa na Índia, tal como  impulsionou a recolha e conservação de objetos, monumentos e tradições locais. Disso são exemplos a criação em 1995 do Arquivo Histórico da Diocese de Cochim – após trabalho de uma equipa de investigadores portugueses enviados pela Fundação Calouste Gulbenkian e liderada por Maria de Lurdes Rosa -, e do Museu da Diocese de Cochim, nos jardins do Paço Episcopal, também com apoio da Fundação, que só foi possível inaugurar no ano seguinte ao falecimento de D. Joseph Kureethara.

Kureethara estudou em diversas instituições do Padroado Português para depois, em 1950 entrar para a Escola Apostólica Diocesana. Em 1960, foi ainda para Roma para fazer um doutoramento em Direito Canónico na Universidade Urbaniana. Nos seus 70 anos de idade, este prelado ordenado em 18 de março de 1958 somou 40 anos de sacerdócio e 23 anos como Bispo de Cochim, desde 22 de dezembro de 1975, sendo o  33º Bispo da Diocesse de Cochim  e o 2º do clero indiano, a exemplo do seu antecessor. O seu bispado pautou-se pela fundação de muitas instituições, como institutos de assistência social, uma faculdade, algumas escolas, hospitais, casas de repouso, paróquias e igrejas, bem como uma congregação religiosa destinada a mulheres (Irmãs da Sagrada Eucaristia). Empenhou-se também em campanhas de promoção de direitos para as mulheres, idosos e desempregados.

O Bispo de Cochim foi um homem culto, atento, aberto à história e ao diálogo intercultural entre os povos indiano e português, cuja dedicação ao serviço da cultura portuguesa na Índia mereceu ser agraciado com a Ordem do Infante D. Henrique, pelo Presidente Mário Soares, em 1995.

Freguesia da Penha de França
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua do jovem mártir São Ciro

Freguesia da Estrela
(Foto: Sérgio Dias | NT do DPC )

Uma rua da Freguesia da Estrela guarda a memória de São Ciro, mártir do cristianismo aos 3 anos de idade, provavelmente desde o séc. XVII ou XVIII, talvez por devoção de religiosos instalados na zona.

Este arruamento que se estende da Rua de Sant’Ana à Lapa (artéria anterior ao Terramoto de 1755) à Rua de Buenos Aires surge já nas plantas e descrições das freguesias de Lisboa após a remodelação paroquial de 1780, como arruamento divisório da Freguesia do Senhor Jesus da Boa Morte  com a Freguesia de Nossa Senhora da Lapa, assim se mantendo em 1857, nas plantas do Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque.

O topónimo homenageia o mártir cristão que com apenas 3 anos de idade foi morto com sua mãe, consagrada como Santa Julita, no século IV, na Turquia, cabendo a ambos o dia 16 de junho no calendário católico. São Ciro vivia na Turquia quando o imperador Diocleciano começou a perseguir, prender e matar cristãos. Sua mãe terá então fugido com ele para Tarso ou Antioquia (ambas localidades turcas) mas acabaram torturados e mortos no ano 304. Precedido  dos santos mártires exterminados pelo rei Herodes em Belém, Ciro tornou-se o mais jovem mártir do cristianismo.

O culto de São Ciro espalhou-se por toda a cristandade, mas quase sem referir a sua mãe, sendo assim que encontramos muitas igrejas ou localidades dedicadas em sua honra na Síria, na Palestina, em Itália, França, Espanha ou Brasil.

Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

A Rua da Igreja paroquial de Santa Catarina do Monte Sinai em Belver

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias | NT do DPC )

A Rua de Santa Catarina, na Freguesia da Misericórdia, deriva da existência no local da Igreja paroquial de Santa Catarina do Monte Sinai durante cerca de três séculos, de 1559 a 1835.

A ligar a Rua Marechal Saldanha à Rua Fernandes Tomás a Rua de Santa Catarina foi atribuída por deliberação camarária de 18/05/1889 e consequente Edital de 08/06/1889, na que era a Rua do Monte de Santa Catarina. No seu topo encontramos o Miradouro de Santa Catarina, com a característica estátua do Adamastor, ali implantada em 10 de junho de 1927.

Segundo o olisipógrafo Norberto de Araújo «O Alto de Santa Catarina, designação que foi simultânea com a de Belver, mas resistiu, deve a designação à circunstância de neste sítio – exactamente onde está êsse Palacete n.º 2, com pátio guarnecido de gradeamento – ter existido a Igreja paroquial de Santa Catarina do Monte Sinai. No alto dêste cabeço, havia, como atrás disse, desde o século XV uma enorme Cruz de madeira, que servia de guia aos mareantes.»

Freguesia da Misericórdia – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias | NT do DPC )

A Igreja de Santa Catarina do Monte Sinai, de invocação da Santa patrona dos livreiros, começou a ser edificada em 1557, por vontade da Rainha D. Catarina (1507 – 1578), irmã mais nova do Imperador Carlos V e mulher de D. João III (1502 – 1557), que foi Regente do Reino de 1557 a 1562 , durante a menoridade do seu neto, D. Sebastião. Doou a Igreja à Irmandade dos Livreiros, seguindo a sugestão que lhe fora apresentada por Simão Guedes, fidalgo do Conselho do Rei e Juiz da Irmandade dos Livreiros, junto com Miguel de Valença,um frade jerónimo. Segundo Gomes de Brito, «O chão onde se levantou o templo foi gratuitamente cedido pelos herdeiros de Bartholomeu de Andrade, em 1557, e a construção correu quasi exclusivamente por conta da rainha». Em 9 de outubro de 1559, a Igreja de Santa Catarina do Monte Sinai passou a ser paroquial, ficando com parte da área da antiga freguesia dos Mártires. O Terramoto destruiu o templo mas no final de 1757 estava reedificado e só no século seguinte, em 1835, é que ardeu completamente, tendo os restos do templo, pertença da Irmandade dos Livreiros, sido removidos entre 1856 e 1862. Depois dessa data foi construído no local o Palacete fronteiro ao Miradouro de Santa Catarina, mandado erguer por José Pedro Colares Pereira, proprietário da Metalúrgica Vulcano e Colares, que o vendeu no final do séc. XIX ao industrial Alfredo da Silva, passando depois para o seu genro Manuel da Silva. No final do séc. XX este palacete foi  adquirido pela Associação Nacional das Farmácias, que lá instalou o Museu da Farmácia, inaugurado em 1996.

Finalmente, sobre Santa Catarina destaque-se que foi conhecida como A Grande Mártir Santa Catarina ou Catarina de Alexandria, por ser natural da cidade egípcia de Alexandria, e terá sido uma  intelectual notável do início do século IV bem como mártir cristã, decapitada por ordem do Imperador romano Maximino Daia. A Igreja Ortodoxa venera-a como grande mártir e a Igreja Católica como um dos catorze santos auxiliares. Entre 527 e 565, por ordem do Imperador bizantino Justiniano I foi construído no sopé do Monte Sinai, no Egito, o Mosteiro de Santa Catarina.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

A Travessa de Santo Aleixo em homenagem à Madre Maria de Santo Aleixo

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: Sérgio Dias | NT do DPC )

Em Campo de Ourique, a Travessa de Santo Aleixo deve-se a uma homenagem a Madre Maria de Santo Aleixo, de acordo com o olisipógrafo Gomes de Brito.

Gomes de Brito na sua obra Ruas de Lisboa, escreve o seguinte no seu verbete sobre este topónimo: «Acaso por comemoração da Madre Maria de Santo Aleixo [falecida em 4 de novembro de 1689], uma das quatro Religiosas Capuchas Francesas, que a rainha D. Maria Francisca Isabel de Saboia trouxe de Paris em 1666, e que veio a ser a primeira Abadessa do Mosteiro da Sua ordem [ Mosteiro do Santo Crucifixo, conhecido como das Francesinhas], fundado em Lisboa pela Rainha sobredita e começado a habitar em 1667.  Actualmente em ruínas na Rua João das Regras [desde 1950 é a Rua das Francesinhas], esquina da Calçada da Estrêla. O retrato desta Religiosa constitue umas das três gravuras que ornamentam a “Historia da fundação do Real Convento do Santo Christo das religiosas capuchinhas francesas” – 1748, por D. José Barbosa.»

Podemos equacionar que o topónimo desta artéria que hoje vemos a ligar a  Rua Silva Carvalho à Travessa de Cima dos Quartéis tenha sido fixado no séc. XVII ou no seguinte, mas sem certeza. Após o Terramoto, o Reitor de Santa Isabel (que era então a paróquia deste sítio) escrevia em 26 de março de 1758,  que «Esta freguezia fica no suburbio da cidade de Lisboa, a cujo Patriarchado pertence» e não mencionava nomes de arruamentos.

Com segurança, sabemos que a Travessa de Santo Aleixo aparece na planta de Lisboa de Filipe Folque, de 1857, fronteira à Travessa de Jesus Maria José (que desde 1911 é a Travessa do Cabo). Sabemos igualmente que a partir da 2ª metade do séc. XIX esta artéria acolheu vilas operárias, como também aconteceu na Rua de Campo de Ourique e na Rua da Páscoa, para alojar  os trabalhadores das fábricas próximas da Ribeira de Alcântara. E em 1892 e 1896 a Travessa de Santo Aleixo teve obras de pavimentação executadas pela Câmara Municipal de Lisboa.

Refira-se que Santo Aleixo foi um romano rico que fugiu do seu casamento para ser mendigo, sendo depois apontado como Homem de Deus e o seu culto introduzido em Roma  no século XI, por monges orientais. No entanto, foi retirado do hagiológico Calendário Romano Geral em 1969.

Freguesia de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

A Praça do patrono dos animais e do meio ambiente, São Francisco de Assis

Freguesia de Carnide
(Foto: Sérgio Dias | NT do DPC )

O italiano São Francisco de Assis,  santo patrono dos animais e do meio ambiente, está homenageado numa Praça da Freguesia de Carnide, na confluência da Avenida das Nações Unidas, Rua Padre Américo e Estrada do Paço do Lumiar, desde a publicação do Edital Municipal de 28/02/2000, através do qual a Câmara Municipal de Lisboa respondeu favoravelmente ao pedido formulado pelo Seminário da Luz.

São Francisco de Assis nasceu Giovanni di Pietro Bernardone (Assis/05.07.1182 -03.10.1226/Assis) e distinguiu-se por após uma juventude mundana de extravagâncias se ter alistado na guerra de Assis contra Peruggia, para depois integrar o exército papal, ter tentado ser comerciante como seu pai e ainda, ter sido pedreiro na reconstrução de diversas igrejas, para encontrar como razão da sua vida a fundação da Ordem dos Franciscanos, ou Ordem Terceira, uma ordem mendicante virada para uma vida religiosa de completa pobreza, que se pautava por os seus frades não possuírem nada além do absolutamente indispensável, ganharem o seu sustento diariamente pelo trabalho manual e só quando não conseguissem poderiam pedir esmola. O exemplo dos franciscanos renovou o Catolicismo dessa época, por ao imitarem a vida de Cristo desenvolverem uma profunda identificação com os problemas dos seus semelhantes, a ponto de São Francisco de Assis ser canonizado menos de dois anos após falecer, em 16 de julho de 1228, sendo o santo patrono dos animais e do meio ambiente, com o seu dia assinalado a 4 de outubro.

Freguesia de Carnide – Placa Tipo IV
(Foto: Sérgio Dias | NT do DPC )

Em Portugal, os franciscanos estabeleceram-se  por volta de 1217, estando entre os seus primeiros conventos o de Santo Antão dos Olivais, em Coimbra, que após a canonização de Santo António passou a ser Santo António dos Olivais, por ter sido ali que esse santo português vestiu o hábito franciscano.  A população de Lisboa também desde 1217 se tornou devota de São Francisco de Assis, tendo a  presença dos franciscanos nesta cidade sido uma constante. Primeiro, estabeleceram-se no Chiado, onde a Calçada Nova de São Francisco ainda guarda a memória do enorme convento conhecido como Cidade de São Francisco, que se estendia da Rua Capelo ao Largo da Academia Nacional de Belas Artes e da Rua Ivens à Rua Serpa Pinto.  Foi destruído pelo Terramoto de 1755 e os franciscanos refugiram-se na Quinta dos Padres Quentais onde também ficou registado na toponímia o Alto de São Francisco. A partir de 29 de junho de 1940, os franciscanos instalaram-se na propriedade com casa apalaçada, parque e terras de cultivo que lhes foi vendida pelo Sr. Eduardo May de Oliveira, junto ao Largo da Luz, muito próximo da qual está a Praça de São Francisco de Assis.

Refira-se que em 1999, São Francisco de Assis foi eleito pelos leitores de uma revista de relevância internacional – a Times – a pessoa do 2º milénio, como arauto da paz, estratega da tolerância e patrono da ecologia.

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )