O Beco do Chão Salgado dos Távora

Freguesia de Belém – Beco do Chão Salgado em 1966                                                                       (Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Beco do Chão Salgado guarda em Belém a memória da condenação e da execução dos Távoras,  no dia 13 de janeiro de 1759, no tempo de D. José I e do futuro Conde de Oeiras (15 de julho de 1759) e  Marquês de Pombal (1770) no espaço que vai do nº 124 da Rua de Belém até ao nº 116 da mesma Rua de Belém.

Padrão no Beco do Chão Salgado em 1979
(Foto: Neves Águas, Arquivo Municipal de Lisboa)

Este topónimo remete para a  condenação do Duque de Aveiro e da sua família por alegada participação no atentado contra D. José I em 1758, que conduziu a que o palácio desta família – Palácio Aveiro -, em Belém, fosse confiscado, arrasado e simbolicamente, salgado o seu chão.  No local, foi também erguida em 1759, uma coluna cilíndrica , de 5 metros de altura, com 5 anéis, conhecida como  Padrão ou Obelisco do Chão Salgado, com a seguinte inscrição : «Aqui foram arrasadas e salgadas/ as casas de José de Mascarenhas/ exautorado das honras de duque/d’Aveiro e outras/condemnado pior sentença proferida/na suprema Junta de/Inconfidencia, em 12 de Janeiro/de 1759/Justiçado como um dos chefes/do barbaro e execrando desacato/que na noite de 3 de Setembro/de 1758 se havia commettido/contra a real e sagrada pessoa de/D. José 1º/Neste terreno infame se não poderá/edificar em tempo algum». Todavia, a proibição de construir neste terreno deixou de ser respeitada logo no reinado seguinte – o de D. Maria I – e assim o que resta do sítio do Chão Salgado é nos nossos dias um acanhado beco.

A execução pública dos Távoras, com o rei e a corte presentes, teve lugar num patíbulo erguido na Praça de Belém (conforme é citada nos documentos testemunhais da época),  às 8 horas da manhã do sábado 13 de janeiro de 1759, sendo primeiro degolada a marquesa de Távora, D. Leonor Tomásia, que era uma forma de execução reservada aos membros da nobreza, por ser mais rápida e indolor, sendo depois todos os outros, tendo no final sido queimados e as cinzas deitadas ao Tejo. A condenação da Marquesa de Távora, que tinha um confessor jesuíta, permitia envolver os jesuítas no processo e era uma forma de extinguir a casa de Távora. Vinte e dois anos depois, em 1781, a pedido do marquês de Alorna, familiar dos condenados, uma junta composta por vários desembargadores reanalisou o processo dos Távoras e publicou uma sentença revisória que apontou várias irregularidades e absolveu vários dos condenados, incluindo a marquesa de Távora, embora confirmando a culpabilidade do Duque de Aveiro. Contudo, nunca a rainha D. Maria I confirmou esta revisão da sentença, apesar de desprezar o Marquês de Pombal, tanto mais que lhe retirou todos os poderes e expulsou-o de Lisboa com um decreto proibindo a sua presença a uma distância inferior a 20 milhas (pouco mais de 32 quilómetros) da capital.

O sítio do Chão Salgado recebeu em 1848 uma praça construída no local pela edilidade, para nela colocar um Chafariz que veio substituir o Chafariz da Bola, obra do arqº  Malaquias Ferreira Leal e do escultor Alexandre Gomes, mas que em 1940 foi retirado, por ocasião da Exposição do Mundo Português e sete anos depois, foi colocado no Largo do Mastro.

Freguesia de Belém
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC)

O Carrasco num Beco

Freguesia da Misericórdia
(Foto: José Vicente| Departamento de Património Cultural)

O algoz, executor último de uma pena de morte, está também inscrito na toponímia de Lisboa através do Beco do Carrasco, artéria que existe pelo menos desde 1733 e se abre junto ao nº 77 da Rua do Poço dos Negros, hoje território da Freguesia da Misericórdia.

Francisco Santana, na sua comunicação às 3ªs jornadas de Toponímia de Lisboa, em 1998, recordou a este propósito que «Ligado à morte e, mais, agente dela, o carrasco foi e é também objecto de sentimentos contraditórios: as sociedades pedem-lhe que exerça uma função que consideram necessária mas desprezam-no por a exercer. Mas vá lá, isso não levou a que desaparecessem como topónimos o Beco do Carrasco, ao Poço dos Negros, e o Pátio do Carrasco, ao Largo do Limoeiro». Os carrascos, pagos  pelo Estado, foram muitas vezes também homens que haviam sido eles próprios condenados à forca, que viram sua pena comutada tendo sido profissão. De acordo com o investigador Luís Farinha «A pena de morte é cada vez mais rara, fora do período das Invasões Francesas e da Guerra Civil, de 1826 e 1833. Nesses períodos era mais fácil o carrasco justificar a sua própria existência. A partir os anos 1840, as notícias são caricatas nesse sentido, porque não há carrasco, o carrasco desiste, não há pessoas que estejam dispostas a fazer aquele trabalho.» Com a abolição da pena de morte em Portugal em 1 de julho de 1867 deixou também de existir esta profissão.

Freguesia da Misericórdia – Placa de azulejo
(Foto: José Vicente| Departamento de Património Cultural)

O Beco do Carrasco  fixa neste arruamento um seu morador que exercia essa função. É um topónimo já firmado em 1733 nos registos paroquiais, dado que conforme relata Luís Pastor de Macedo foi neste Beco do Carrasco,  da então Freguesia de Santa Catarina de Monte Sinai,  que em 3 de outubro de 1733, nasceu Diogo Inácio de Pina Manique, filho de Pedro Damião de Pina Manique e Helena Inácia de Faria, personalidade que se viria a notabilizar como Intendente-Geral da Polícia do reinado de D. Maria I, orientado para a repressão das ideias oriundas da Revolução Francesa, designadamente através da proibição de circulação de livros e perseguição a diversos intelectuais.

Para além deste registo o topónimo Beco do Carrasco surge em mais documentos do séc. XVIII, como as descrições paroquiais imediatamente anteriores ao Terramoto de 1755, bem como nas plantas da remodelação paroquial de 1770 e posteriores em que aparece como a artéria paralela à Rua Marcos Marreiros (ou Barreiro ou Marreyro) e à Rua João Brás (ou João Braz), com a diferença de que estas duas artérias surgem já em documentos seiscentistas, mencionadas à Rua da Cruz de São Bento que era então a Rua dos Poços dos Negros que hoje conhecemos. Recordemos  que na passagem do séc. XVI para o XVII foi encomendado um plano de urbanização dos arruamentos da Bica, da Boa Vista e Poço dos Negros ao arquiteto contemporâneo Teodósio de Frias que escolheu uma tipologia da malha regular ordenada por eixos direccionais que articularam a zona com o exterior, formando um traçado em forma de espinha, mais solto na zona do Poço dos Negros/Boa Vista.

Lisboa comporta ainda um Pátio do Carrasco, junto ao Largo do Limoeiro, que amanhã será o tema do nosso artigo.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias| NT do Departamento de Património Cultural)

 

 

Os Becos ou Vielas de Lisboa

Beco dos Beguinhos – Freguesia de São Vicente
(Foto: Mário Marzagão)

Lisboa conta nos nossos dias com 153 Becos, sendo que no decorrer dos séculos alguns deles ganharam o estatuto de travessa por via de alterações urbanísticas ou por solicitação dos residentes.

O Beco é uma rua estreita e curta, muitas vezes sem saída, ou se quisermos numa só palavra, é sinónimo de viela. A toponímia empregue nos becos lisboetas caracteriza-se pelo uso das suas peculiaridades, do tipo de artesãos que lá trabalhavam, das referências geográficas próximas como igrejas ou outras instituições passíveis de rápida identificação e  dos nomes dos seus moradores.

Freguesia de Benfica
(Foto: José Carlos Batista)

Primeiro, falemos da excepção que confirma a regra enunciada no parágrafo anterior: o Beco Pato Moniz, em Benfica, que homenageia um escritor ( 1781-1826) que faleceu no desterro a que o condenaram após a Vilafrancada por ser liberal. Atribuído pelo Edital municipal de 18/06/1926,  foi acompanhado na mesma zona com a atribuição em  Travessas e Largos dos também escritores José Agostinho de Macedo e Curvo Semedo, de três intervenientes no 31 de Janeiro de 1891 – Abade Pais, Sargento Abílio e Miguel Verdial – e do também republicano General Sousa Brandão, para além do compositor Marques Lésbio e do pintor Francisco Resende.

Beco do Quebra Costas – Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Artur Matos)

Dos outros 152 Becos alfacinhas, encontramos 32 relativos às características do próprio local: Beco do Norte ( Carnide ); Beco do CasalBeco da Pedreira da Caneja ( Campo de Ourique ); Beco da Galheta por corruptela de Calheta junto ao Tejo,  Beco do Olival, Beco do Tremoceiro ( Estrela );  Beco do Sabugueiro ( Alcântara ); Beco dos Aciprestes, Beco da Boavista do Alto de Santa Catarina ( Misericórdia); Beco da Achada, Beco do Alfurja, Beco do Funil, Beco da Amendoeira, Beco do Azinhal, Beco das Barrelas, Beco das Canas, Beco Cascalho, Beco do Forno junto ao Largo da Severa, Beco da Lapa,  Beco do Loureiro, Beco da Oliveira,  Beco do Pocinho, Beco do Quebra Costas por ser tão íngreme e dois Becos do Jasmim (todos em Santa Maria Maior ); Beco da Bombarda,  Beco do Monte de S. Gens ( Arroios ); Beco da Laje ( São Vicente e Santa Maria Maior ); Beco da Bica do Sapato, Beco da Era, Beco do Mirante ( São Vicente ); Beco das Taipas  ( Marvila ).

Beco da Mó – São Domingos de Benfica
(Foto: Sérgio Dias)

Referindo as profissões neles exercidas temos 23 : Beco dos Ferreiros ( Santa Clara ); Beco da Mestra ( Carnide ); Beco da Botica ( São Domingos de Benfica ); Beco do Fogueteiro ( Campo de Ourique ); Beco da Bolacha,  Beco dos Contrabandistas, Beco do Funileiro ( Estrela ); Beco dos Armazéns do LinhoBeco do Carrasco ( Misericórdia ); Beco do Almotacé, Beco da Atafona, Beco das Atafonas, Beco dos Cortumes por curtumes, Beco das FarinhasBeco do Imaginário pelo escultor de imagens de santos, Beco das Olarias,  Beco do Surra, Beco dos Surradores, Beco dos Três Engenhos ( Santa Maria Maior ); Beco dos Agulheiros, Beco da Mó, Beco dos Vidros ( São Vicente ); Beco dos Toucinheiros ( Beato ).

Com referências próximas  são 38 : Beco do Vintém das Escolas ( Benfica); Beco da Enfermaria por referência a um pequeno hospital que ali existiu no séc. XIX para os criados da Casa Real ( Belém ); Beco das Fontaínhas ( Alcântara ); Beco do Paiol da pólvora, Beco de Santa Quitéria por referência à Travessa do mesmo nome para substituir o Beco dos Mortos ( Campo de Ourique ); Beco dos Apóstolos que queria dizer jesuítas ( Misericórdia ); Beco da Cruz pela proximidade à  Rua da Cruz dos Poiais, Beco do Forno a São Paulo, Beco da Moeda por estar junto à Casa da Moeda ( Misericórdia ); Beco do Colégio dos Nobres, Beco de Santa Marta do Convento da mesma invocação que hoje vemos como Hospital (Santo António); Beco do Arco Escuro, Beco do Benformoso junto à Rua do Benformoso, Beco da Caridade  por via da Ermida do mesmo nome, Beco do Castelo Beco do Forno do Castelo de São Jorge, Beco dos Cavaleiros para substituir o Beco do Forno junto à Rua dos Cavaleiros, Beco das Cruzes  em Alfama, Beco do Espírito Santo da Ermida da mesma invocação que depois passou a ser dos Remédios, Beco do Forno da Galé junto à Rua da Galé, Beco das Gralhas pela proximidade ao Largo das Gralhas para substituir o Beco do Jasmim, Beco da Guia por mor de um oratório embutido numa parede, Beco do Outeirinho da Amendoeira, Beco do Penabuquel por proximidade ao Arco do Penabuquel da muralha fernandina, Beco de Santa Helena pelo Palácio seiscentista conhecido pelo mesmo nome, Beco de São Francisco por estar junto ao Terreirinho de São Francisco que depois passou a Largo da Achada, Beco de São Miguel pela proximidade à igreja da mesma invocação, Beco do Recolhimento de Nossa Senhora da Encarnação ( Santa Maria Maior ); Beco de São Lázaro junto à Rua do mesmo nome, Beco de São Luís da Pena por mor da Igreja da mesma invocação ( Santa Maria Maior e Arroios); Beco do Forno do Sol junto à Rua do Sol à Graça, Beco do Hospital de Marinha, Beco dos Lóios pela proximidade ao Largo dos Lóios e para substituir o Beco das Cabras, Beco dos Peixinhos por proximidade à Quinta dos Peixinhos, Beco do Salvador da Ermida de Jesus Salvador da Mata, Beco da Verónica pela proximidade à Ermida de Santa Verónica ( São Vicente ); Beco do Grilo dos Conventos dos Agostinhos Descalços ( Beato ) e Beco da Mitra ( Marvila ).

Beco do Penabuquel – Santa Maria Maior
(Foto: Artur Matos)

Com nomes ou alcunhas de moradores e/ou proprietários temos 36 : Beco do Chão Salgado do Palácio do Duque de Aveiro arrasado e salgado o seu chão, Beco de Domingos Tendeiro ( Belém); Beco da Ferrugenta, Beco dos GalegosBeco de João Alves ( Ajuda ); Beco de Estêvão Pinto ( Campolide ); Beco do Batalha,  Beco do Julião ( Campo de Ourique ); Beco do Machadinho  do Tabaco ( Estrela ); Beco do Caldeira por estar próximo da Travessa do Caldeira e substituir o Beco do Esfola Bodes, Beco de Francisco André ( Misericórdia ); Beco do Alegrete por estar junto ao Palácio dos Marqueses do Alegrete, Beco da Barbadela,  Beco do Belo, Beco da Cardosa, Beco do Chanceler de D. Dinis de seu nome Pedro Salgado, Beco dos Clérigos, Beco da Corvinha, Beco dos Fróis, Beco do Garcês, Beco do Guedes, Beco do Maldonado, Beco do Maquinez, Beco de Maria da Guerra, Beco do Marquês de Angeja, Beco do Melo, Beco do Mexias, Beco da Ricarda, Beco do Rosendo que seria Resende, Beco do Vigário ( Santa Maria Maior ); Beco dos Birbantes que esmolavam, Beco do Borralho de António de Moura Borralho, Beco do Félix, Beco de Maria Luísa, Beco do Petinguím ( Arroios ) e Beco da Amorosa ( Beato ).

Outros de ainda indefinida génese e alvo de discussão entre os olisipógrafos são 23: Beco da Ré por ser uma arguida ou um termo naval?( Belém ); Beco do Viçoso por ser alcunha ou um local verdejante, Beco do Xadrez por ser alcunha ou um padrão na arquitetura local? ( Ajuda ); Beco do Monteiro por ser alcunha ou sítio de montado? ( Campolide ); Beco dos Capachinhos por alcunha ou local de feitura de capachos?, Beco das Pirralhas por alcunha ou pela presença de crianças? ( Estrela ); Beco da Rosa por ser nome de moradora ou pela presença da flor? (Misericórdia );  Beco da Bicha por ser alcunha ou um animal?,  Beco do Bugio por se cravarem estacas no chão ou por haver um macaco?, Beco do Carneiro por ser apelido ou alcunha ou animal?, Beco dos Cativos por ter escravos ou presos?, Beco das Flores por ser inócuo ou por ter mesmo flores?, Beco da Formosa por uma mulher ou por uma paisagem bonita?, Beco do Leão por alcunha ou por símbolo?, Beco das Mil Patacas por uma lenda ou por uma comunidade macaense?, Beco dos Paus em sentido literal ou figurado?, Beco dos Ramos em sentido literal ou um apelido?, Beco de São Marçal por um azulejo do santo ou por um oratório dessa invocação? ( Santa Maria Maior ); o Beco da Bempostinha por alcunha ou outra coisa?, o Beco do Índia, o Beco da Índia aos Anjos uma alcunha ou alguém que esteve na Índia?( Arroios ); Beco das Beatas e o Beco dos Beguinhos ( São Vicente ).

Beco do Mexias – Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Mário Marzagão)

As 56 artérias da Ajuda oficializadas em 1916

Freguesia da Ajuda - Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Ajuda – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

A freguesia da Ajuda foi instituída em 1551 mas só em 1762 passou a fazer parte do Concelho de Lisboa. Contudo, de 1852 a 1885 integrou o Concelho de Belém, pelo que houve necessidade de oficializar em Lisboa 56 artérias da Ajuda pelo Edital municipal de 26 de setembro de 1916.

A pedido da Junta de  Freguesia, o vereador Augusto de Magalhães Peixoto apresentou em sessão de câmara uma proposta considerando que «fizeram parte do extinto Concelho de Belem, donde, quando da sua anexação ao de Lisboa,não veiu escrituração alguma referente a deliberações camararias sobre tal assunto, sendo, portanto, conhecidas simplesmente pelos nomes, que o vulgo lhes tem dado», a qual foi aprovada por unanimidade.

Freguesia da Ajuda - Placa Tipo IV (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Ajuda – Placa Tipo IV
(Foto: Sérgio Dias)

E passada a proposta a Edital foram atribuídos 56 topónimos. Assim aconteceu com

  1. o Beco do Cabreira;
  2. o Beco do Viçoso;
  3. a Calçada
  4. e o  Largo da Ajuda;
  5. a Calçada
  6. e a  Travessa da Memória, por D. José I ter sofrido um atentado no local;
  7. a Calçada da Boa- Hora;
  8. a Estrada dos Marcos;
  9. a Estrada de Queluz;
  10. o Largo e a
  11. a Rua do Giestal;
  12. a Rua e a
  13. Travessa de Dom Vasco;
  14. a Rua e a
  15. Travessa do Guarda-Jóias;
  16. a Rua do Jardim Botânico;

    Freguesia da Ajuda – Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

  17. a Rua e a
  18. Travessa do Machado;
  19. a Rua das Mercês;
  20. a Rua e a
  21. Travessa do Mirador;
  22. a Rua Nova do Calhariz;
  23. a Rua dos Quartéis
  24. e a Rua de Traz dos Quartéis;
  25. a Rua da Torre, próxima da Torre Sineira conhecida como Torre do Galo;
  26. o Sítio de Casalinho;
  27. a Travessa do Armador;
  28. a Travessa do Chafariz, por lá existir um chafariz;
  29. a Travessa das Dores, referente à Ermida de Nossa Senhora das Dores;
  30. a Travessa da Ferrugenta;
  31. a Travessa das Florindas;
  32. a Travessa de João Alves;
  33. a Travessa José Fernandes;
  34. a Travessa do Moinho Velho;
  35. a Travessa dos Moinhos;
  36. a Travessa do Pardal;
  37. a Travessa de Paulo Martins;
  38. a Travessa das Verduras;
  39. e o Largo do Conde de Belmonte que era uma via particular e não municipal;

Mas também alguns dos topónimos foram atribuídos com um acrescento de localização ou mesmo uma nova nomenclatura. Assim,

  • Freguesia da Ajuda - Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

    Freguesia da Ajuda – Placa Tipo II
    (Foto: Sérgio Dias)

    40. a Rua das Freiras mudou para Rua das Casas do Trabalho (desde 1963 é a Rua Alexandre de Sá Pinto);

  • 41. a Rua Carlos Príncipe passou a ser a Rua Augusto Gomes Ferreira/Professor da Escola do Exército Inspector dos Incêndios/1854-1900; 
  • 42. a Travessa de Carlos Príncipe foi alterada para Travessa da Ajuda;
  • 43. a Rua da Paz mudou para Rua Brotero/Médico e Botânico/1744 – 1828
  • 44. assim como a outra Rua da Paz para Rua do Laranjal;
  • 45. a Rua dos Fornos da República tornou-se simplesmente Rua dos Fornos;
  • 46. a Rua Aliança Operária, assim atribuída pelo Edital de 14/10/1915, voltou a ser Rua de Santana;
  • 47.a Rua do Mirante tornou-se Calçada do Mirante à Ajuda;
  • 48. a Rua do Meio levou o acrescento à Ajuda;
  • 49. o Beco do Chinelo tornou-se Beco do Xadrez;
  • 50. a Rua da Bica passou a Rua Alegre
  • 51. a Travessa da Estopa ficou como Travessa das Fiandeiras;

Finalmente, foram também modificados outros topónimos para evitar repetições ou nomes que talvez fossem considerados menos próprios, tendo em comum a característica de todos terem sido renomeados com nomes de flores. Foram eles

  • 52. a Estrada do Cemitério foi alterada para Rua das Açucenas;
  • 53. a Travessa da Faustina tornou-se a Travessa da Madressilva;
  • 54.  a Travessa do Carneiro ficou como Travessa da Verbena;
  • 55. a Travessa do Moinho Velho foi mudada para Travessa do Alecrim;
  • 56. outra Travessa do Machado passou a Travessa da Giesta.
Freguesia da Ajuda - Placa Tipo II

Freguesia da Ajuda – Placa Tipo II

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ruas afuniladas

Travessa do Funil em 1949 (Foto: Eduardo Portugal; Arquivo Municipal de Lisboa)

Travessa do Funil em 1949
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

A zona mais antiga de Lisboa, que ainda hoje preserva um emaranhado de ruas estreitas e medievais, está contida na freguesia de Santa Maria Maior que assim possui as três artérias alfacinhas cuja configuração afunilada se fixou também no topónimo.

São elas as já referidas Beco do Funil (entre a Rua de São Tomé e a Rua dos Cegos),  Beco do Alfurja (junto ao nº 44 da Rua da Regueira) sendo Alfurja derivada do árabe al-fujra que significa rua estreita ou o local onde se despejavam os detritos domésticos, e a Travessa do Funil.

Esta Travessa  do Funil, paralela à Travessa do Chão da Feira, está muito próxima do Castelo de São Jorge e será dos primórdios da Lisboa Cristã. Luís Pastor de Macedo aponta como primeiras referências escritas deste topónimo o tombo da freguesia do ano de 1755 como Rua do Funil, tal como as descrições paroquiais de 1769 e 1770, ora como rua ora como beco.

Ainda segundo o mesmo olisipógrafo «O edital do Governo Civil de 1 de Setembro de 1859 dividiu a artéria em duas partes. A superior, desde o pátio de D. Fradique até ao largo do Contador-mor, continuou a denominar-se do Funil mas com a categoria de travessa; a inferior, desde aquele largo até ao de Santa Luzia, passou a denominar-se travessa de Santa Luzia» e assim esta Travessa do Funil liga hoje a Rua do Chão da Feira ao Largo do Contador-Mor.

Travessa do Funil - Freguesia de Santa Maria Maior

Travessa do Funil – Freguesia de Santa Maria Maior

As Cruzes da Toponímia de Lisboa

Rua das Flores de Santa Cruz em 1907 quando era Rua das Flores do Castelo (Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua das Flores de Santa Cruz em 1907 quando era denominada como Rua das Flores do Castelo
(Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

Diz-se que cada um carrega a sua cruz mas Lisboa dos nossos dias carrega 25 na sua toponímia, sendo 2 cruzes simples, dois becos com as suas cruzes, uma calçada, uma estrada, um largo, um pátio e mais 6 ruas e 7 travessas com cruz,  uma rua com cruzeiro e a Rua do Crucifixo. O cristianismo espalhou vários tipos de cruzeiros e cruzes nas ruas, nas estradas ou nos caminhos, de materiais diversos, pedra ou madeira e foram abundantes na cidade de Lisboa, tendo desaparecido progressivamente com as várias modificações urbanísticas que a cidade sofreu ao longo dos tempos.

Já publicámos a Rua de Santa Cruz do Castelo e o Largo de Santa Cruz dos Castelo, mas não a Rua das Flores de Santa Cruz  que era a Rua das Flores do Castelo até o Edital do Governo Civil de 1 de setembro de 1859 a tornar Rua das Flores de Santa Cruz. Todos estes três topónimos recebem o nome da vizinhança à igreja de Santa Cruz da Alcáçova, depois chamada de Santa Cruz do Castelo, que já aparece mencionada num documento de 25 de maio de 1168 e que segundo o olisipógrafo Norberto de Araújo « Assentou neste lugar a mesquita moura, sagrada logo depois da Conquista, e onde entrou, em procissão e cortejo real, Afonso Henriques, na tarde de 25 de Outubro de 1147».

Cruzes da Sé (Foto: Mário Marzagão, 2012)

Cruzes da Sé
(Foto: Mário Marzagão, 2012)

Ainda na freguesia de Santa Maria Maior, um pouco mais abaixo encontramos as Cruzes da Sé,  a fazer a ligação do Largo da Sé com a Rua de São João da Praça e como tal nas costas da Sé. De acordo com Luís Pastor de Macedo,  já aparece referida num livro de óbitos de 1690 e no século XVIII, « Fugitivamente deu-se o nome de Largo da Caridade a uma parte das Cruzes da Sé, naturalmente a que ficava e fica diante da ermida. Hoje, e desde há muitíssimos anos, mas depois do advento do regime republicano, está nela instalada a Junta de Freguesia da Sé e S. João da Praça.»

Já em São Vicente está a Cruz de Santa Helena, entre o Largo do Outeirinho da Amendoeira e a Calçada de São Vicente, designação que deverá ser anterior ao Terramoto de 1755. Tal como o Beco de Santa Helena, a Cruz de Santa Helena referem-se a uma viúva beatificada como Santa Helena, a quem um oficial romano, de nome Constâncio Cloro, se uniu e assim  nasceu Constantino, o primeiro imperador cristão. Diz-se também que Santa Helena foi em peregrinação à Terra Santa e que encontrou a verdadeira Cruz do Salvador.

Em becos, temos o Beco da Cruz, que liga a Rua da Cruz dos Poiais à Rua da Paz, em resultado do Edital do Governo Civil de Lisboa de 01/09/1859 que transformou o Beco das Cabras em Beco da Cruz pela proximidade à Rua da Cruz dos Poiais e, para evitar a confusão com o outro Beco das Cabras existente em Lisboa, mencionado nas descrições paroquiais anteriores ao terramoto de 1755 na freguesia da Stª Marinha, o qual a partir do Edital de 17/10/1924 se passou a denominar Beco dos Lóios. Já entre a Rua da Regueira e a Rua do Castelo Picão encontramos o Beco das Cruzes , sabendo-se que este arruamento já ostentava este topónimo em 1770, por constar nas plantas e descrições das freguesias de Lisboa desse ano.

A Calçada da Cruz da Pedra na década de 40 do séc. XX (Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Calçada da Cruz da Pedra na década de 40 do séc. XX
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

E a ligar a Rua da Madre de Deus à Rua de Santa Apolónia, deparamos com a Calçada da Cruz da Pedra, que deve ter começado por ser Cruz de Pedra. Luís Pastor de Macedo, avança que «referindo-se ao dístico desta serventia pública diz Gomes de Brito: aliás Cruz de Pedra, memória das muitos cruzeiros que se levantavam por Lisboa, e nela existentes, averiguadamente, desde o século XV. Efectivamente, a mais antiga referência a esta rua, que até agora encontrámos, ao anunciar-nos o falecimento de Diogo Lopes Sequeira, sucedido em 28 de Janeiro de 1593, diz-nos que ele era morador á cruz de pedra da madre de Ds.(…). Em 1647 ainda se dizia que fulano morava em o caminho de chellas por cima da Cruz de Pedra, mas desde então e até aos nossos dias, a cruz deixou de ser de pedra e passou a ser da pedra. (…) Quanto à sua existência, propriamente como arruamento, não devia ser muito anterior ao citado ano de 1593.» E Norberto de Araújo acrescenta que «Foi este o caminho de Trânsito para se entrar em Lisboa; o traçado da linha primitiva dos caminhos-de-ferro limitou-se, afinal, a acompanhar esta estrada de conveniência. A muralha desta artéria, sobre o rio, foi construída entre 1769 e 1770, onde ficava o forte da Cruz da Pedra.»

Na zona de Caselas também terá havido uma Calçada da Cruz que hoje identificamos como Estrada da Cruz, entre a  Estrada de Caselas e a Rua Horta e Silva. Foi pelo Edital municipal de 16/01/1929 que a Estrada Velha de Caselas passou a denominar-se Estrada da Cruz. No entanto, em 1908, a Planta da Cidade de Júlio Silva Pinto e Alberto de Sá Correia menciona-a como Calçada da Cruz e em 1959, o Decreto-Lei nº 42 142 que regista a nova divisão administrativa da cidade de Lisboa, na delimitação da então novel Freguesia de São Francisco Xavier designa-a como Calçada da Cruz.

Um pouco mais à direita, no Bairro Social de Caselas deparamos com a Rua da Cruz a Caselas, entre a Rua da Igreja e a Rua Sam Levy (que nasceu do Edital municipal de 15/12/1997 num troço da Estrada de Caselas, compreendido entre a Avenida das Descobertas e a Rua da Cruz a Caselas) .

Em Benfica, apresenta-se o Largo da Cruz da Era  na confluência da Travessa do Açougue em Benfica, Largo Ernesto da Silva, Rua República da Bolívia e a Travessa da Cruz da Era que une a Estrada de Benfica ao Largo da Cruz da Era e que já aparece mencionada em 1908 na planta de Júlio Silva Pinto e Alberto de Sá Correia. Em ambos os casos a Era pode ser uma memória rural de «Hera» como aconteceu com a Rua e a Travessa da Hera, na freguesia da Misericórdia, cuja grafia foi em determinada altura modificada.

Pátios da toponímia oficial temos o Pátio da Cruz, na freguesia de Santa Maria Maior, junto ao nº 15 da Rua da Galé.

Passando às Ruas, apresenta-se na freguesia de Alcântara a Rua da Cruz a Alcântara, nascida entre a Rua do Alvito e a Rua de São Jerónimo (a partir de 21/06/1926 Rua Feliciano de Sousa), que era a Rua da Cruz até o Edital municipal de 08/06/1889 lhe acrescentar «a Alcântara».

Rua da Cruz dos Poiais entre 1898 e 1908 (Foto : Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua da Cruz dos Poiais entre 1898 e 1908
(Foto : Arquivo Municipal de Lisboa)

Existiam três ruas da Cruz em Lisboa, quando o Edital do Governo de Civil de Lisboa de 01/09/1859 as diferenciou como Rua da Cruz dos Poiais, Rua da Cruz da Carreira e Rua da Cruz de Santa Apolónia.

Rua da Cruz dos Poiais, está entre a Rua dos Poiais de São Bento e a Rua de São Marçal, na freguesia da Misericórdia. Segundo Norberto de Araújo a Rua da Cruz dos Poiais também se chamou Rua dos Cardeais. A Cruz  perpetuada é a Cruz da Esperança, erguida na confluência de quatro artérias – a Rua dos Poiais de São Bento, a Calçada da Estrela, a Rua da Paz (que já existia em 1602 com o nome de Travessa da Peixeira) e a Rua da Cruz dos Poiais -,  sendo uma das muitas cruzes demarcatórias que havia pela cidade, onde as vereações aguardavam as novas dos Reis de Portugal para a simbólica entrega das chaves da cidade.

Rua da Cruz da Carreira, na freguesia de Arroios, entre a Rua Gomes Freire e a Travessa de São Bernardino, é anterior ao  terramoto de 1755 segundo Norberto de Araújo que acrescenta «Tomemos de novo pela Rua da Cruz da Carreira – assim chamada em memória de uma cruz demarcatória, e ao mesmo tempo piedosa, que aqui existiu ainda no começo do século passado [o autor refere-se ao século XIX], como tantas em Lisboa -, e passemos por Gomes Freire (a saudosa Carreira dos Cavalos, campestre e arrabaldina) à Estefânia de hoje.»

Sobre a Rua da Cruz de Santa Apolónia, na freguesia de São Vicente, entre a Calçada dos Barbadinhos e a Rua do Vale de Santo António, esclarece Norberto de Araújo o seguinte «Pois estamos no alto da Calçada de Santa Apolónia; sai-nos, agora, à esquerda, a velha Rua da Cruz de Santa Apolónia, que leva à Rua do Mirante. Era esta artéria, que se continuava, directa, da Calçada da Cruz da Pedra, o caminho natural, por Santa Clara e Paraíso, para a Porta da Cruz, uma das importantes entradas de Lisboa, aberta na muralha de D. Fernando, o que já por mais de uma vez tenho assinalado.(…)»

O cruzeiro da Ajuda encontra-se no Museu do Carmo, mas no local permanece a Rua do Cruzeiro, nas freguesias da Ajuda e de Alcântara que antes da publicação do Edital municipal de 08/06/1889 era a Rua Direita do Cruzeiro, embora também se encontrem registos de que terá também sido denominado por Calçada do Cruzeiro, nomeadamente no Roteiro das Ruas de Lisboa de 1890.

O já mencionado Edital do Governo de Civil de Lisboa de 01/09/1859 também acrescentou a quatro Travessas da Cruz em Lisboa um indicador de localização, passando a designarem-se como Travessa da Cruz de Soure (Misericórdia), Travessa da Cruz do Torel (Santo António e Arroios), Travessa da Cruz do Desterro ( por união da Travessa da Cruz e da Travessa Nova da Bica do Desterro, em Arroios) e Travessa da Cruz aos Anjos (Arroios). Mais tarde, pelo Edital do Governo de Civil de Lisboa de 05/08/1867, também a Travessa de Santana, entre a  Travessa da Cruz do Desterro e a Travessa das Salgadeiras passou a ser a Travessa de Santana da Cruz (Arroios).

E por último, na freguesia da Estrela, junto à Travessa dos Brunos, existe a Travessa da Cruz da Rocha que terá sido o antigo Beco dos Brunos. De acordo com a informação municipal nº 121/2ª/O, a planta da cidade de 1910  identifica esta artéria como Beco dos Brunos.

Travessa da Cruz do Desterro em 1903 (Foto: Machado & Souza, Arquivo Municipal de Lisboa)

Travessa da Cruz do Desterro em 1903
(Foto: Machado & Souza, Arquivo Municipal de Lisboa)

As Ruas com Bicas de Água

Rua da Bica de Duarte Belo e inicío da Calçada da Bica Pequena em 1915 (Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua da Bica de Duarte Belo e início da Calçada da Bica Pequena, em 1915
(Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

Durante muito tempo os chafarizes, também vulgarmente conhecidos como bicas, foram fundamentais no abastecimento de água aos lisboetas, restando ainda 9 topónimos que guardam a memória de bicas na cidade. Para além das já publicadas Rua da Bica de Duarte Belo e Calçada da Bica Grande persistem mais 7 de que vamos dar conta, seguindo de ocidente para oriente.

Na Ajuda, encontramos a Rua da Bica do Marquês que havia sido a Rua da Bica mas que por Edital municipal de 26/09/1916 passou a denominar-se Rua Alegre e por novo Edital de 08/02/1918 se tornou a Rua da Bica do Marquês,  com início na Rua de Dom Vasco e fim na Calçada da Ajuda.

Já na freguesia da Misericórdia, no Bairro da Bica, deparamos com a Travessa da Bica Grande, que  liga a Calçada da Bica Grande ao Largo de Santo Antoninho e deriva a sua denominação da Calçada onde nasce, assim como a Calçada da Bica Pequena, por oposição à Calçada anteriormente mencionada, indo desde o  nº 242 da Rua de São Paulo até à Rua da Bica de Duarte Belo.  Norberto de Araújo argumenta até que Bica Grande e Bica Pequena podem ter sido apenas denominações dadas com o sentido de Calçada Grande e Calçada Pequena. No entanto, perto da Calçada da Bica Grande existe um grande tanque setecentista no Pátio do Broas e junto ao nº 32 da Rua da Boavista, está a Bica dos Olhos, propriedade que foi de Duarte Belo e  à qual foram atribuídas propriedade curativas nas maleitas dos olhos, com a data inscrita de 1675 que tanto pode ser a de construção como a de remodelação.

Chegando a Arroios temos a Travessa da Bica aos Anjos, a ligar a Travessa do Forno aos Anjos à Rua dos Anjos, adiantando Norberto de Araújo que tanto esta como as Travessas da Cruz, do Maldonado e do Forno são todas anteriores ao Terramoto.

Em São Vicente a Rua da Bica do Sapato,  entre a Calçada de Santa Apolónia e a Rua dos Caminhos de Ferro, como aponta Norberto de Araújo, «deriva seu nome de uma bica ou fonte que datava de 1674, em 1853 substituida por um Chafariz nº 21, desaparecido também. Hoje [o autor escreve nos anos 30 do século XX] vês cerca do seu local um marco fontenário de recente colocação». Na mesma freguesia oferece-se o Beco da Bica do Sapato cujo topónimo deriva da proximidade à Rua da Bica do Sapato.

E finalmente chegados ao oriente, à freguesia do Parque das Nações, topamos com o Largo das Bicas, entre o Passeio dos Fenícios e o Passeio das Garças, incluído no Edital municipal de 06/05/2015 que oficializou a toponímia herdada da Expo 98.

Rua da Bica do Sapato, 1951 (Foto: Eduardo Portugal)

Rua da Bica do Sapato, 1951
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

 

Ruas com Arcos

Rua do Arco da Torre em 1940 (Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua do Arco da Torre em 1940
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Para além de arcos já desaparecidos ou que não se fixaram na toponímia alfacinha, Lisboa guarda ainda hoje 21 artérias onde estão presentes Arcos que passamos a enumerar, de ocidente para oriente.

Em Belém, encontramos as antigas Rua do Arco da Torre e a Travessa do Arco da Torre, paralelas à Avenida da Torre de Belém. Ora, a antiga Casa do Governador do Forte do Bom Sucesso e onde Almeida Garrett morou em 1852, sita na Rua do Arco da Torre tem justamente um arco que fica fronteiro à Torre de Belém, ou como escreve Luís Pastor de Macedo «Tira o nome do arco que se abre defronte da Rua da Praia do Bom Sucesso e que dá passagem para a Avenida da Índia e para a Torre de Belém.»

Já em Campolide, deparamos com a Rua dos Arcos,  arruamento central do Bairro do Alto da Serafina que ganhou esta denominação por acompanhar parte do percurso dos arcos do Aqueduto das Águas Livres. Esta era a Rua 4 do Bairro da Serafina, atribuída pelo Edital municipal de 15/03/1950, mas popularmente conhecida como Rua dos Arcos e assim ficou oficialmente desde a publicação do Edital de 28/12/1989.

Estendendo-se pelas freguesias de Campolide e Campo de Ourique está a Rua do Arco do Carvalhão, que Norberto de Araújo indica que antes tinha o nome de Rua do Sargento-Mor. O Arco é do Aqueduto e o Carvalhão era o nome pelo qual era conhecido o futuro Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo, que nesta zona possuía terrenos desde a Cruz das Almas até à ribeira de Alcântara com casas, olivais, pedreiras, nomeadamente a da Cascalheira, fornos de cal, moinhos e azenhas.

E ainda em Campolide, temos a Rua do Meio ao Arco do Carvalhão, que já referimos nos artigo «Ruas do Meio».

A Rua do Arco a São Mamede, entre 1898 a 1908 (Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua do Arco a São Mamede, entre 1898 a 1908
(Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

Já nas freguesias de Campo de Ourique e Santo António, deparamos com a Rua do Arco a São Mamede que liga a Rua de São Bento à Rua da Escola Politécnica, que já aparece referida nas plantas da cidade após a remodelação paroquial de 1770.  A ligação desta artéria ao século XVIII fica ainda mais vincada se nos lembrarmos que o seu nome deriva do facto desta artéria ostentar um dos 127 arcos do Aqueduto das Águas Livres que começou a fornecer água à cidade de Lisboa a partir de 1748, aumentando de 6 para 15 litros o volume de água diário que cada cidadão de Lisboa dispunha.  Durante séculos foi conhecida como Rua do Arco e só em 1953, por parecer da Comissão Municipal de Toponímia homologado pelo Vice-Presidente da CML no dia 21 de outubro é que recebeu de acrescento as palavras «a São Mamede».

Já na freguesia da Estrela, na zona da Lapa, encontramos a Rua do Arco do Chafariz das Terras,  denominação que deve ser do final do século XVIII já que a denominação deriva do Chafariz das Terras, construído em 1791, um pouco mais a norte desta artéria. O chafariz que hoje vemos data de 1867. Assim, o topónimo refere um dos arcos do Aqueduto das Águas Livres a partir do qual derivava a água para o chafariz que a ele se encosta.

Ainda na freguesia da Estrela, ligando a Praça da Armada à Rua Vieira da Silva temos a Rua do Arco a Alcântara, cuja denominação se explica por nela existir uma poterna – porta falsa de uma fortificação – do pano de muralha do Baluarte do Sacramento. Este Baluarte contíguo ao Convento do Sacramento, fez parte da projectada defesa de Lisboa do séc. XVII e começou a ser construído em 1650, na Quinta do Marquês de Marialva, que chegava à beira-rio e onde aquele organizara uma conspiração contra Filipe II, diz-se que à sombra de uma alfarrobeira pelo que o baluarte também foi conhecido por Forte de Alfarrobeira. O Terramoto de 1755 quase o destruiu mas ainda aparecia nas plantas de Lisboa da primeira metade do século XIX. Em parte da sua área veio a ser construído em 1865 o Quartel de Marinheiros que deu nome à actual Praça da Armada e na outra parte, cedida à edilidade, foi construída parte da Avenida 24 de Julho.

Seguindo para as freguesias de Santo António e Misericórdia deparamos com o Arco do Evaristo,  arruamento entre a Rua da Mãe D’Água e a Rua D. Pedro V, na zona do Alto do Penalva ou do Marquês de Penalva, que ali morou, e poderá estar ligado à informação que  Luís Pastor de Macedo dá de «(…) Nos verbetes da Câmara Municipal declara-se que esta serventia pública [Alto do Penalva] se denominou também pátio da Evarista o que ainda não achámos confirmado por qualquer outra via.»

Travessa do Arco de Jesus - Placa Tipo II (Foto: Mário Marzagão, 2012)

Travessa do Arco de Jesus – Placa Tipo II
(Foto: Mário Marzagão, 2012)

Ainda na freguesia da Misericórdia está a Travessa do Arco a Jesus,  desde a publicação do Edital municipal de 08/02/1884, a ligar a Travessa da Horta à Rua da Academia das Ciências, em resultado da proximidade ao Convento de Jesus que foi construído em 1615, inaugurado em 1632 e reconstruído depois do Terramoto, com o traço do arqº Joaquim de Oliveira.

Seguimos agora para a a freguesia de Santa Maria Maior onde surge o Arco de Jesus , situado entre o Campo das Cebolas e a Rua de São João da Praça e cuja denominação provém de uma imagem do Menino Jesus colocada sobre o fecho do arco, pelo lado inferior e que já existiria em 1627. Este arco correspondia à Porta da muralha da Cerca moura, onde segundo o Padre Castro, embora não o prove, a cidade foi invadida pelos cruzados que auxiliaram D. Afonso Henriques na tomada de Lisboa aos mouros.

Já entre a Rua dos Bacalhoeiros e a Rua Afonso de Albuquerque apresenta-se o Arco das Portas do Mar que faz referência a uma das portas da muralha (da Cerca Moura de D. Afonso Henriques), a Porta Nova do Mar, e que ainda não existia no século XII.

Também entre a Rua dos Bacalhoeiros e a Rua Afonso de Albuquerque topamos com o Arco da Conceição, que se apresenta em túnel com um escadinha apertada e íngreme e no seu interior existe um oratório a Nossa Senhora da Conceição de onde advém o topónimo. Esta artéria já se denominou Passadiço de Gaspar Pais (1657), Passadiço que sobe da Ribeira para a Cruzes da Sé (1676), Passadiço da Ribeira (1755), Passadiço da Ribeira Velha (1801), Arco da Senhora da Conceição (1804) e Passadiço da Conceição (1807). A designação que hoje vemos vigora desde 1822.

Beco do Arco Escuro - Placa Tipo I (Foto: Sérgio Dias)

Beco do Arco Escuro – Placa Tipo I
(Foto: Sérgio Dias)

E ainda a começar na Rua dos Bacalhoeiros surge o Arco Escuro,  que fazia parte da cerca moura de Lisboa, quiçá a primeira serventia rasgada na muralha, pois já o cruzado R. (também conhecido como Osberno) a ele se referiu na sua carta onde relata a conquista de Lisboa por Afonso Henriques e os cruzados aos mouros. Este Arco também foi vulgarmente conhecido por Postigo da Rua das Canastras, Arco do Armazém Velho ou ainda Arco de São Sebastião.

A partir da artéria anterior nasce 0 Beco do Arco Escuro, topónimo atribuído pelo Edital do Governo Civil de Lisboa de 01/09/1859 ao arruamento com a denominação anterior de Beco do Jardim.

Arco do Rosário era um troço da Rua da Judiaria com início no Largo do Terreiro do Trigo que já aparece assim identificado no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa, de 1858, de Filipe Folque. Antes foi a Porta da Judiaria e passou a Arco do Rosário porventura devido a uma capelinha onde se venerava Nª Sª do Rosário, localizada no cimo do arco, mas que entretanto desapareceu. O Arco do Rosário fez parte integrante da antiga cerca moura e foi reaproveitado para ser uma das 34 portas da cerca nova, denominada de D. Fernando. Resta mencionar que o Arco do Rosário teria uma volta completa, de que hoje apenas se vislumbra meia volta, estando a outra meia aparentemente integrada no prédio que a suporta.

Já entre o Poço do Borratém e a Praça Martim Moniz oferece-se a Rua do Arco do Marquês de Alegrete,  referente ao 1º Marquês de Alegrete, proprietário do palácio que ali ergueu  em 1694. E segundo o olisipógrafo Vieira da Silva, o Arco sobre o qual assentavam dois andares unia dois prédios pertencentes à mesma família e foi construído por volta de 1674, por proposta da Câmara para que «se rompesse a Torre das Portas da Mouraria, com um arco que tenha capacidade de passarem coches». Em 1946 o palácio foi demolido para dar lugar ao espaço que hoje conhecemos como Praça Martim Moniz.

Nas freguesias de Santa Maria Maior e Arroios apresenta-se a Rua do Arco da Graça e a Travessa do Arco da Graça em que a Travessa era um troço da Travessa da Palma, até por Edital camarário de 08/06/1889 passar a denominar-se Travessa do Arco da Graça, por referência à Rua do Arco da Graça onde se inicia, a qual por seu turno advirá de uma imagem de Nossa Senhora da Graça colocada no arco em 1657.

Já entre as freguesias de Santa Maria Maior e São Vicente topamos com as Escadinhas do Arco de Dona Rosa, que ligam a Rua dos Remédios ao Largo do Outeirinho da Amendoeira, perpetuando uma Dona Rosa que ali era proprietária de uma casa que tinha uma capela que mais tarde foi transformada em taberna. De acordo com  Norberto de Araújo «Morta D. Rosa (…) seus herdeiros venderam em 1882 o prédio a Francisco Cândido Máximo de Abreu que dos baixos (incluindo a Capela) fez um armazém de linho.» Em 1889, passou a ser taberna explorada por Jerónimo Pedro do Carmo e em 1924 foi vendida a outros proprietários.

Avançando mais pela freguesia de São Vicente, oferece-se o Arco Grande de Cima, desde o Campo de Santa Clara até ao Largo de São Vicente que terá sido o Arco Grande. Norberto de Araújo informa que « Êste Arco foi erguido em 1808, um pouco adiante do sítio onde se rasgava desde 1373-1375 a Porta ou Postigo de S. Vicente, da Cerca (nova) de D. Fernando. Ligava esse Arco o Convento às suas quintas e jardins, e hoje faz ligação ao Liceu (antigos Paços Patriarcais) à cerca-recreio dos alunos e que atrás vimos.»

Escadinhas do Arco de Dona Rosa em 1962 (Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Escadinhas do Arco de Dona Rosa em 1962
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Ruas do Norte

Rua do Norte na freguesia da Misericórdia (Foto: Rui Pereira)

Rua do Norte na freguesia da Misericórdia
(Foto: Rui Pereira)

O Norte, direção fundamentada no sentido de rotação do planeta e o ponto zero dos quatro pontos cardeais serviu a georreferenciação de algumas de artérias de Lisboa e ainda hoje encontramos oito:  a Rua do Norte na freguesia da Misericórdia, a Rua do Norte e o Beco do Norte na freguesia de Carnide, a Travessa do Norte à Lapa na freguesia da Estrela, a Praça do Norte e a Circular Norte do Bairro da Encarnação, e no Parque das Nações, a Rua do Mar do Norte e a Rua do Pólo Norte.

Sem uma data precisa podemos presumir que a Rua do Norte, no Bairro Alto, seja do século XVI, altura em que foram arruadas as terras do sítio para constituir o Bairro Alto de São Roque. Aliás, Cristóvão Rodrigues de Oliveira no seu Sumário- Lisboa em 1551, já refere a Rua do Norte na então freguesia do Loreto. O topónimo propriamente dito é uma orientação geográfica o que não será de estranhar num bairro que na época era muito habitado por marinheiros, como aliás transparece também no topónimo da rua paralela a esta, a Rua das Gáveas.

Já em Carnide, deparamos com a Rua do Norte e o Beco do Norte, ambos oficializados por Edital municipal de 19/07/1919 com as denominações pelas quais já eram vulgarmente conhecidas, conforme se lê no próprio edital : «Faço saber que a Comissão Executiva desta Câmara, atendendo a que pela anexação do Concelho de Lisboa do extinto concelho de Belém, não foi entregue nesta Câmara a documentação referente à nomenclatura e numeração das vias públicas pertencentes à Freguesia de Carnide, (…) deliberou, em sua sessão de 10 do Julho do corrente, confirmar oficialmente as actuais designações das vias públicas da referida freguesia de Carnide, pelas quaes o vulgo, de há muito, as denominava».

O Beco do Norte à Lapa em 1967 (Foto: Augusto de Jesus Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Beco do Norte à Lapa em 1967
(Foto: Augusto de Jesus Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Travessa do Norte à Lapa, que  liga a Rua de São Domingos à Rua de Buenos Aires, na freguesia da Estrela, nasceu em resultado de uma solicitação dos moradores do arruamento e apresentada à Câmara pela Junta de Freguesia da Lapa, motivada pelo facto da artéria em causa ter entrada e saída e configuração de Travessa e como tal não dever continuar a designar-se Beco, alteração que foi firmada pelo Edital municipal de 30/07/1999.

Beco do Norte deverá ter sido uma designação fixada entre o último quartel do séc. XVI e o século XVIII, já que a zona foi primeiro ocupada por conventos como o convento beneditino de Nossa Senhora da Estrela, fundado em 1572, e foi intensificando-se o povoamento da zona, sobretudo, depois do terramoto de 1755, tendo a  freguesia de Nossa Senhora da Lapa sido instituída em 11/02/1770 por desanexação de Santos-O-Velho. Certo é que em 1854 Francisco Severiano Rebelo Júnior pretendia reedificar um prédio com frente para a rua de Buenos Aires n.º 40 a 45 e para o beco do Norte n.º 11, a partir do traçado do arqº  Malaquias Ferreira Leal e que em 1906 o designado Beco do Norte à Lapa teve um alargamento.

O Bairro Social da Encarnação, na freguesia dos Olivais, foi construído nos anos de 1940 a 1943 e inaugurado em 1946, em resultado de um plano de urbanização da autoria do Arqº Paulino Montez, numa área de cerca de 47 ha, propriedade do Ministério das Obras Públicas e Comunicações. O então designado Bairro-Jardim da Encarnação assume a forma de uma borboleta, orientado a partir de um eixo principal, a Alameda da Encarnação, que define duas área simétricas e termina no largo principal. E nele encontramos a Praça do Norte, atribuída pelo  Edital municipal de 15/03/1950, e a Circular Norte do Bairro da Encarnação gerada pelo Edital de 27/11/1957.

O Bairro da Encarnação era um Bairro Social ou de Casas Económicas, como os outros construído em área isolada da malha urbana da época, mas já de uma arquitetura com princípios das cidades-jardim que então se iam construindo noutros países europeus, pelo que além da toponímia numérica que era tradicional nestes bairros, recebeu alguns topónimos, todos referências de localização, de que a Praça do Norte e a Circular Norte do Bairro da Encarnação são exemplos. Conforme se pode ser na ata da reunião da Comissão Consultiva Municipal de Toponímia de 19 de dezembro de 1949, foram escolhidos «Praça do Norte, Praça das Casas Novas, Rua dos Lojistas, Rua da Portela, Rua da Quinta de Santa Maria, Rua da Quinta do Morgado, Rua da Quinta da Fonte, e ruas números: dois, quatro, seis, oito, dez, doze, catorze, dezasseis, dezoito, vinte, vinte e dois, vinte e quatro, vinte e seis e vinte e oito, e um, três, cinco, sete, nove, onze, treze, quinze, dezassete, dezanove, vinte e um, vinte e três, vinte e cinco, vinte e sete e vinte e nove, aos arruamentos situados, respectivamente, à direita e à esquerda da Alameda da Encarnação.»

A Expo 98, subordinada ao tema Os oceanos: um património para o futuro, nomeou os arruamentos do evento com topónimos ligados aos oceanos, mas também aos Descobrimentos Portugueses, aos aventureiros marítimos reais e até aos da literatura e banda desenhada mundiais, a figuras de relevo para Portugal, a obras de escritores portugueses de alguma forma ligadas ao tema da exposição e ainda alguns ligados à botânica. Com a reconversão da zona em Parque das Nações foram 102 topónimos oficializados pelo Edital de 16/09/2009, a que se juntaram mais 60 topónimos oficializados pelo Edital municipal de 06/05/2015.

Tanto a Rua do Mar do Norte como a Rua do Pólo Norte pertencem ao Edital municipal de 16/09/2009. A Rua do Mar do Norte, que vai da Alameda dos Oceanos ao Passeio do Báltico, refere-se a um mar do Oceano Atlântico, situado entre as costas da Noruega e da Dinamarca a leste, a costa das Ilhas Britânicas a oeste e a Alemanha, Países Baixos, Bélgica e França a sul. A Rua do Pólo Norte, que vai da Avenida do Índico à Rua do Mar da China, refere-se à região que se localiza no extremo Norte do planeta Terra, situado no Oceano Glacial Ártico e cuja determinação, bem como a do Pólo Sul, permite fixar as coordenadas de latitude e de longitude que indicam a localização de qualquer ponto na superfície terrestre.

A Rua do Norte na freguesia de Carnide em 1961 (Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua do Norte na freguesia de Carnide em 1961
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

Ruas do Sol

Largo das Portas do Sol entre 1930 e 1939 (Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Largo das Portas do Sol entre 1930 e 1939
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

O sol de Lisboa mostra na toponímia a importância dada à sua luz pelos habitantes da cidade, ao mesmo tempo que serviu de georreferenciação. Ainda hoje 7 artérias lisboetas exibem este astro no seu nome: o Largo das Portas do Sol, a Rua do Sol à Graça, o Beco do Forno do Sol, a Rua do Sol a Santana, a Rua do Sol a Santa Catarina  e ainda, a Rua do Sol a Chelas e a Rua do Sol ao Rato já antes por nós referidas.

Largo das Portas do Sol , na freguesia de Santa Maria Maior, na confluência do Largo de Santa Luzia e da Rua de São Tomé, é um topónimo de reminiscência medieval, de uma porta das muralhas da cidade, referindo a este propósito Norberto Araújo (Peregrinações em Lisboa, vol. II) na década de trinta do séc. XX: «Porta ou Postas do Sol! Cá temos o lanço da muralha, e uma tôrre ainda erguida, que bem se admira da banda de Alfama, e, em muito boa perspectiva, do interior do desprezado jardim da “Casa dos Arcos”, aqui na Adiça. Vale uma aguarela. Desta Porta vetusta da Cêrca Moura – nada mais há à vista. É gracioso êste Largo – Portas do Sol – do qual descem a Calçada de S. João da Praça, e o evocativo Beco de Santa Helena».

Sabe-se que D. Manuel I em 10 de novembro de 1510 ordenou ao concelho que inspecionasse as casas do cónego Simão,  na rua que vai de S. Tomé para as portas do Sol, para averiguar se prejudicavam a circulação da rua. Cento e quarenta anos depois, a Postura de 05/08/1650 sobre a proibição de venda em lugares públicos assinalava que o alcaide Bernardo Soares devia prender quem vendesse à entrada da porta do Sol, do lado de dentro e de fora.

Pormenor da planta de Filipe Folque de 1858 onde se inclui a Rua do Sol, a Santana

Pormenor da planta de Filipe Folque de 1858 onde se inclui a Rua do Sol, a Santana

A Rua do Sol a Santana e a Rua do Sol à Graça passaram a ter o acrescento da localização pelo edital do Governo Civil de 1 de setembro de 1859, já que entre 1836 e 1878 era este organismo que detinha a competência da denominação das ruas. Por este mesmo edital o Beco do Forno recebeu o acrescento «do Sol».

A Rua do Sol a Santana, na freguesia de Arroios, antes do Edital de 1859 já era mencionada como Rua do Sol ao Campo Santana, como  encontramos num prospeto de maio e junho de 1858 em que Maria Isabel Pires pretendia retificar o prédio com o n.º 25, bem como depois do Edital do Governo Civil, em que registamos numa planta municipal de 16 de novembro de 1892, da autoria de Augusto César dos Santos e Ressano Garcia, as obras a fazer na Rua do Sol ao Campo Santana.

A Rua do Sol à Graça, na freguesia de São Vicente, deriva do nome do local que por sua vez provém do antigo Convento de Nossa Senhora da Graça, ali começado a construir em 1271 e conhecido por Almofala, um pequeno arrabalde mourisco extramuros quando as tropas de D. Afonso Henriques aí acamparam durante o cerco de Lisboa.

A começar na Rua do Sol à Graça e a terminar na Vila Berta fica o Beco do Forno do Sol, também na freguesia de São Vicente. Depois de o Governo Civil de Lisboa lhe acrescentar «Sol» quis em 1868 Manuel Helário Pereira de Carvalho edificar um prédio nos nºs 5 e 7 desta serventia e também em 14 de dezembro de 1908, Joaquim Francisco Tojal recebeu a escritura de autorização para construção de um prédio com serventia pela Travessa da Pereira e Beco do Forno, espaço que corresponde à Vila Berta, propriedade do construtor Tojal.

Beco do Forno do Sol, à Rua dos Sol à Graça (Foto: Mário Marzagão)

Beco do Forno do Sol, à Rua dos Sol à Graça
(Foto: Mário Marzagão)

Já a Rua do Sol ao Rato e a Rua do Sol a Santa Catarina só conseguiram oficialmente o acrescento da localização na década de 50 do século XX, a partir de pareceres da Comissão Municipal de Toponímia, respetivamente, de 10/03/1950 e de 09/06/1952.

No entanto, a Rua do Sol a Santa Catarina (freguesia da Misericórdia), que vai da Travessa de Santa Catarina à Rua de João Brás, já assim devia ser conhecida como tal porque o prospeto de 25 de janeiro de 1859 do prédio que José Esteves Alves quis aumentar, nos n.º 66 e 67 desta serventia, já a denominava Rua do Sol a Santa Catarina. Pela documentação municipal sabemos ainda que em 1897 esta artéria foi sujeita a um alinhamento e obras no pavimento, de acordo com planta de  Augusto César dos Santos  e António Maria Avelar. Aliás, olhando para a foto abaixo, que no máximo limite temporal será de 1908, notamos que a placa toponímica tem inscrito Rua do Sol de Santa Catarina.

Rua do Sol a Santa Catarina entre 1898 e 1908 (Foto: Machado & Souza, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua do Sol a Santa Catarina entre 1898 e 1908
(Foto: Machado & Souza, Arquivo Municipal de Lisboa)