O Arraial da Calçada da Bica Grande

Calçada da Bica Grande – Freguesia da Misericórdia

Pela Calçada da Bica Grande, Beco dos Aciprestes e Travessa do Cabral, prolonga-se o Arraial das Festas de Lisboa 2019 promovido pelo Marítimo Lisboa Clube, coletividade fundada no dia 1 de outubro de 1944, e que também logo em em 1952 foi responsável pela organização da Marcha da Bica conseguindo o seu primeiro 1º Prémio, que repetiu em 1955 e 1958, bem como em 1963 ex-aequo com Marvila, assim como em 1992 e 2003.

A Travessa

A Bica é um conjunto urbano seiscentista e setecentista que como freguesia foi destacada da freguesia dos Mártires  em 1566, como Freguesia de São Paulo, que hoje é parte da freguesia da Misericórdia. A Calçada da Bica Grande, toda em escadinhas, que sobe da Rua de São Paulo até à Travessa do Cabral e nessa subida abre à direita o Beco dos Aciprestes. De acordo com o olisipógrafo Norberto de Araújo Bica Grande e Bica Pequena podem ter sido apenas denominações dadas com o sentido de Calçada Grande e Calçada Pequena, o que até se ajusta à largura e extensão das serventias. Certo é que Filipe Folque no seu Atlas de Lisboa de 1856 já a menciona como Calçada da Bica Grande. Em 1909 foram reformadas as escadas e o cano de esgoto desta Calçada, o mesmo em que datado de 4  de junho, encontramos um pedido de autorização de José Tavares, como presidente da comissão organizadora dos festejos a Santo António, São João e São Pedro, para construir um coreto na Calçada da Bica Grande.

Travessa do Cabral, surge referida em 1706 na Corografia Portuguesa do padre Carvalho da Costa, como Rua do Cabral, mas em 1856, no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque, já figura com o topónimo que conhecemos hoje. Norberto de Araújo explica que o homenageado é o bacharel Manuel Rodrigues Cabral, que nasceu no final do século XVI e morreu em 1632, que seria morador no local apontando, sem garantir certeza, como o seu solar de residência o prédio no nº 35 que torneja para a Calçada da Bica Pequena e ostenta um pórtico nobre. Por seu turno, a investigadora Graça Índias Cordeiro, defende que o topónimo se deve ao embaixador espanhol Cabral. Nesta artéria, no séc. XX, também viveu António Alçada Baptista.

O Beco

E finalmente, junto ao nº 34 da Calçada da Bica Grande nasce o Beco dos Aciprestes, identificado em 1856 por Filipe Folque como Beco do Acipreste. Eventualmente, pode o topónimo ter sido originado pela residência no local de um Arcipreste, o pároco que numa diocese tem poder superior ao dos restantes párocos, e ter havido uma corruptela gráfica. Na Gazeta de Lisboa de 29 de julho de 1829, refere-se uma propriedade foreira da Sé de Lisboa neste arruamento – o nº 1 com os nºs 3 e 4 da Calçada da Bica Grande -, sendo o foro de «80 reis e huma gallinha». Outra hipótese pode ser a proximidade a um cemitério nas suas redondezas, por ser frequente usarem este tipo de árvores.

© CML | DPC | NT | 2019

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O Beco de João Alves de 1917

Freguesia da Ajuda
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Por deliberação e edital municipais, respetivamente de 30 de agosto e 1 de setembro de 1917, o troço de via pública existente a meio da Travessa de João Alves, que principia a nascente e termina a poente da Travessa da Ferrugenta e então se considerou  estar indevidamente incluído nessa Travessa, passou a denominar-se Beco de João Alves, por referência de proximidade à Travessa de João Alves.

Sobre a identidade de João Alves desconhecem-se elementos precisos, embora se possa formular a hipótese de que fosse um morador da zona próxima do Palácio da Ajuda, talvez até um funcionário desse Palácio. A base desta hipótese é que foi a partir de um pedido da Junta da Ajuda que o  vereador Augusto de Magalhães Peixoto apresentou a proposta na sessão da Comissão Executiva de 21 de setembro de 1916 e daí nasceu o Edital municipal que oficializou a Travessa de João Alves em 26 de setembro seguinte. Ora, na mesma proposta e Edital, foram atribuídos outros nomes de moradores do sítio como aconteceu com a Rua e a Travessa do Guarda-Jóias – quer era um empregado da Casa Real encarregado da guarda das jóias-, a Rua e a Travessa do Machado – por mor do capitão Manuel Rodrigues Machado que prestava serviço na Casa Real e que dali até ao Alto das Pulgas possuía a sua Quinta do Machado)- , a Rua e a Travessa de Dom Vasco – memória do porteiro-mor da Casa Real e gentil-homem da Câmara de D. João VI-, a Travessa da Ferrugenta – recordação de Leonor Maria, padeira de Sua Majestade-, bem como a Travessa José Fernandes, a Travessa do Pardal e a Travessa de Paulo Martins, o reposteiro da Casa Real.

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

 

A confirmação em 1919 de 14 topónimos de Carnide belenense

Passados 34 anos sobre a extinção do Concelho de Belém, em 1885, a edilidade alfacinha que o recebera e onde se incluía a jurisdição sobre Carnide, embora sem «a documentação referente à nomenclatura e numeração das vias públicas», resolveu oficializar 14 topónimos dessa recente zona lisboeta, pelo Edital municipal de 19 de julho de 1919.

Tal resolução de oficialização de 14 topónimos proveio da reunião da Comissão Executiva da Câmara de 10 de julho de 1919, na qual o vereador Augusto César de Magalhães Peixoto, propôs a confirmação de 4 Largos, 4 Ruas, 4 Travessas e 2 Becos de Carnide, a saber: o Largo das Pimenteiras (também conhecido então como Largo das Piçarras), o Largo da Praça, o Largo do Jogo da Bola, o Largo (ou Rua) e a Travessa do Malvar, a Rua da Fonte, a Rua e a Travessa do Machado, a Rua e o Beco da Mestra ( ou Rua e Travessa das Mestras), a Rua e o Beco do Norte, a Travessa do Cascão e a Travessa do Pregoeiro. De acordo com as características dos arruamentos a Comissão Executiva da CML também modificou alguns dos limites dos arruamentos, o que também foi publicado no Edital.

Numa planta de Carnide de ano indefinido mas do séc. XIX, a propósito de obras de canalização, encontramos já referidas quase todas estas artérias, a saber: o Largo do Jogo da Bola, o Largo das Pimenteiras, o Largo da Praça (também num alinhamento de 1907), a Rua do Norte, a Travessa e a Rua das Mestras (que a partir de 1919 passarão a Beco e Rua da Mestra), a  Rua e a Travessa do Machado, a Rua da Fonte (também num alinhamento de 1907), a Rua e a Travessa do Malvar e a Travessa do Cascão (também num alinhamento de 1899).

A maioria destes topónimos perpetuam moradores do local mesmo que hoje tenhamos dificuldade em os identificar: o Largo e a Travessa do Malvar, a Rua e a Travessa do Machado, a Rua e o Beco da Mestra, a Travessa do Cascão e a Travessa do Pregoeiro. Juntam-se as referências geográficas da Rua e do Beco do Norte e os topónimos que a partir de um elemento específico do local servem também de referência geográfica e de orientação no espaço: o Largo das Pimenteiras, o Largo da Praça, o Largo do Jogo da Bola e a Rua da Fonte.

Beco dos Lóios para não ser Beco das Cabras

Freguesia de São Vicente
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

O Beco dos Lóios, que faz a ligação da Rua de Santa Marinha à Rua do Salvador, foi o topónimo escolhido para substituir o topónimo Beco das Cabras, por deliberação camarária de 23 de agosto de 1922 e consequente Edital municipal de 17 de outubro de 1924.

O olisipógrafo Luís Pastor de Macedo afirma que «A sua categoria primitiva foi a de travessa – ‘rua q vay junto á travessa dos Cabras’ – e a primeira vez que nos aparece nos registos paroquiais de S. Tomé é em 1705 [no Livro de Óbitos]. Ainda não sabemos que Cabras – apelido ou alcunha – deram o nome à serventia». Ou seja, o primitivo topónimo resultava do nome de gente conhecida localmente. Mas já em 1812 o Padre Carvalho Costa,  na sua Corografia Portuguesa, menciona este arruamento como Beco das Cabras, tal como está na planta de 1858 de Filipe Folque e assim ficou até lhe ser mudado o nome para Lóios, aproveitando uma relativa proximidade ao Largo dos Lóios.

Refira-se que por este mesmo Edital de 1924 também o Beco do Monete passou a ser a Travessa da Madalena, por proximidade à Rua da Madalena. Parece assim ter existido uma vontade municipal de mudar os topónimos que nasceram a partir de alcunhas de moradores locais para os referenciar antes a uma artéria próxima, que nestes dois casos foi de categoria religiosa.

Por sua vez, o Largo dos Lóios, «um pequeno largo que datava de 1677, ano em que fora regulado pela Câmara a pedido dos frades» conforme esclarece Norberto de Araújo, nasceu dos frades lóios do Convento de São Paulo e de Santo Elói ali implantado. Este Convento de Santo Elói foi fundado em 1284 pelo 10º bispo de Lisboa, D. Domingos Jardo, tendo cerca de 1442 sido convertido em Casa dos Cónegos Seculares de S. João Evangelista, S. Clemente e Santo Elói. O Convento foi quase pulverizado aquando do terramoto e em 1834, quando da extinção das ordens  religiosas ainda não estava concluída a sua reconstrução pelo que o terreno acabou por mais tarde servir para lá se instalar a 5ª Companhia da Guarda Municipal, mais tarde Guarda Nacional Republicana.

O topónimo Lóios está também presente em Agualva-Cacém, na Caparica, Évora, Lavradio, Nelas e Santo Antão do Tojal.

Freguesia de São Vicente (Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

O Beco da Mitra junto ao Palácio da Mitra

Em 2014 – Freguesia de Marvila
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

O Beco da Mitra recebe o seu nome da proximidade ao Palácio da Mitra ou Palácio Patriarcal de Marvila, já que nasce na Rua do Açúcar, na esquina com o seu nº 66, e o Palácio, uma construção do séc. XVII que foi residência dos prelados de Lisboa, se situa na Rua do Açúcar nº 64.

É justo supor que este pequeno arruamento surgiu junto do Palácio da Mitra no séc. XX , uma vez na planta de Lisboa de 1908 ainda não surge mencionado o topónimo mas apenas nesta zona da cidade estão a Linha Férrea do Norte e Leste, a Rua do Açúcar, a Rua António Maria Tavares, a Quinta da Quintinha e o Rio Tejo. Mais tarde, este topónimo já aparece mencionado: em 1941, no Guia das Ruas de Lisboa da Tipografia Gonçalves e a Comissão Municipal de Toponímia, na sua reunião de 22 de janeiro de 1945, confirmou esta nomenclatura.

A Mitra de Lisboa já no séc. XIII era detentora de bens em Marvila, tanto mais que as terras dos mouros nessa zona lhe tinham sido doadas. Já o Palácio da Mitra remonta ao princípio do século XVII e sofreu obras de restauro nos séculos XVIII (1716 a 1744) e XIX, tendo ficado conhecido por ser a residência de D. Tomás de Almeida (Lisboa/1670 – 1754/Lisboa), o 1º Patriarca de Lisboa, no período de  1716 a 1754. Note-se que a grade da porta em ferro do palácio ostenta iniciais, sendo que  T.C.P. quer dizer Tomás Cardeal Patriarca e P.D.L.  é Prelado da Diocese de Lisboa, assim como o portão principal exterior de acesso ao Pátio do Palácio está encimado pelo brasão dos Almeidas.

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

Em 1834, com a lei da extinção das ordens religiosas, este Palácio da Mitra foi incorporado na Fazenda Pública e, em 1902 foi comprado por  António Centeno que, por seu turno, o vendeu a um seu sócio para aí instalar a Fábrica Seixas de Metalurgia e Fundição, com escritórios nos salões e a fábrica nas cocheiras, empresa que acabou extinta em 1925. Em abril de 1930, a Câmara Municipal de Lisboa comprou o palácio, terreno e anexos, tendo instalado no terreno o Asilo da Mitra (inaugurado em 1933) e no palácio, a Biblioteca Municipal (inaugurada em 1934). Mais tarde, em 1941, também o Museu da Cidade foi instalado no palácio, onde se manteve até 1973 e, a partir de 1975, o andar inferior foi cedido para sede do Grupo «Amigos de Lisboa».

Em Portugal, «da Mitra» integra a toponímia de Évora, Gondomar, Guarda, Mafra, Óbidos e Santa Marta de Penaguião.

Em 2014 – Freguesia de Marvila
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Olarias em beco, escadinhas, largo e rua

Rua das Olarias –
Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O sítio das Olarias guarda a memória dos oleiros desta zona, reforçada ainda por quatro topónimos:  o Beco das Olarias (freguesia de Santa Maria Maior ), as Escadinhas das Olarias ( freguesias de Santa Maria Maior e de  Arroios ), o Largo das Olarias (freg. de Santa Maria Maior e São Vicente ) e a Rua das Olarias ( freg. de Santa Maria Maior , São Vicente e Arroios ).

Por ordem cronológica, o Largo das Olarias que vai do Largo do Terreirinho à Rua dos Lagares, bem com a Rua das Olarias que une o  Largo das Olarias às Escadas do Monte, são os primeiros topónimos que se fixaram no local. A meio do século XIX, por Edital de 1 de setembro de 1859, o Governo Civil de Lisboa resolveu substituir a denominação Beco das Amoreiras por Beco das Olarias, considerando que o arruamento começa junto ao nº 54 do Largo das Olarias. E no último quartel do séc. XIX, o Edital municipal de 4 de dezembro de 1883 colocou o topónimo Escadinhas das Olarias para substituir o  Beco dos Emprenhadores, o qual de acordo com Luís Pastor de Macedo, «(…) desde 1748 [ visto no Prazo nº 64 da Freguesia dos Anjos], pelo menos, esta serventia denominou-se beco dos Empenhadores», a ligar a Rua das Olarias à Rua do Benformoso.

Beco das Olarias –
Placa de azulejo
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O jornalista e olisipógrafo Norberto de Araújo retrata este sítio da seguinte forma : «Olarias – a palavra o diz – corresponde ao aglomerado de fabricantes de louças de barro, de que esta raiz ou encosta do Monte era fértil. (…) Quando Afonso Henriques tomou Lisboa já por aqui andavam, é claro, os mouros pois deles eram a Cidade e os subúrbios. Por este sítio cultivavam-se terras, em hortas frescas (as almuinhas) e em olivais, que haviam de dar os Lagares (de azeite e não de vinho), e abriam-se barrocais de greda, no desenvolvimento da arte de olaria e cerâmica seguimos para o vale que deu a Mouraria , e da passagem que havia de ser dos Cavaleiros para nascente, isto é: para o sopé da encosta da praça e do Monte, numa planície de relativa extensão, ficou um subúrbio de oleiros, e de cujas primeiras dinastias há vagas noticias, as suficientes para se saber que existiram. No século XVI, no seu começo, o sítio era caracterizadamente dos oleiros, certo como era que pelo primeiro Foral dado a Lisboa em 1179, tempos finais do primeiro Afonso era livre o fabricar “ollas” tanto como o fabricar pão. (…) A urbanização do sitio começou por 1498, em arrabalde definido, depois de D. Manuel tomar conta do “Almocovar” ou cemitério dos mouros (na encosta do Monte do lado da Bombarda), (…) Os lagares foram desaparecendo lei inevitável da urbanização lenta; as olarias resistiram e chegavam no tempo dos Felipes, de Espanha, e, pelo século XVII dentro, ao seu apogeu. Na terceira década de seiscentos havia por aqui oitenta artífices oleiros. Só no século XVIII, com a criação de fábricas já em grande, “modernas”, e com outros horizontes industriais, as olarias entraram em declínio (…)  Presentemente, e desde há três dezenas de anos [Norberto de Araújo escreve em 1938-1939], das olarias do sítio das Olarias não restam vestígios, sendo delas uma reminiscência, aliás importante, a, já citada atrás, Fábrica da Viúva Lamego, no Intendente, que, encostada à Bombarda, fazia parte da área; em 1885 havia ainda duas ou três olarias na Calçada Agostinho de Carvalho, e que agonizavam no começo do nosso século [século XX].»

Freguesias de Santa Maria Maior, de Arroios e de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

#EuropeForCulture

Absolutos Beguinos ou Beguinhos num Beco de São Vicente

Freguesia de São Vicente
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Beco dos Beguinhos  já existia na Freguesia de São Vicente antes do Terramoto de 1755, então denominado Beco dos Beguinos, sendo controversa a origem do topónimo.

Consideremos que Beguino  significa devoto, beato e que no séc. XIII existiu uma seita religiosa com este nome, que acabou sendo considerada herética, tendo os seus  seguidores sido excomungados pelo Concílio de Viena de 1312 e ainda,  perseguidos pela Inquisição, principalmente em França e na Alemanha, devido ao seu espírito livre, antidogmático e pelos seus costumes, considerados dissolutos à época. Em Portugal também foram contestados e a palavra Beguino chegou mesmo a ter a conotação de hipócrita, pelo que, eventualmente, poderia ter dado azo ao nome do Beco.

Mas também existe a hipótese do olisipógrafo Gomes de Brito. O criador dos estudos toponímicos lisboetas defende que se trata do Beco dos Beguinos, e não Biguinos como no séc. XVI ou Biguinhos ou até  Beguinhos,  por assumir a a explicação de Viterbo no seu Elucidário de que o termo viria do inglês begging que significa pedir, mendigar e como tal corresponderia ao beco dos pedintes ou dos penitentes mas sem ligação a nenhum voto.

Gomes de Brito refere ainda que em 1565, um códice do arquivo camarário, dá nota de aí ter residido um tal Luiz,  Begino ou Beguino de alcunha ou de apelido, que  eventualmente poderia  ter dado nome ao local por ter sido o primeiro proprietário da viela.

Freguesia de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Beco da Pedreira da Caneja

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Beco da Pedreira da Caneja, em Campo de Ourique, é um dos termos geológicos presentes na toponímia da cidade, relacionados com a existência de pedreiras de calcários cretácicos, a pedra ornamental mais usada na cidade de Lisboa.

De igual forma, a toponímia de Lisboa comporta ainda a Rua da Cascalheira (Alcântara), a Rua da Pedreira do Fernandinho (Campolide), a Rua das Pedreiras (Belém), as Escadinhas do Santo Espírito da Pedreira (Santa Maria Maior) e ainda, o Largo, a Rua e a Travessa de São Sebastião da Pedreira (Avenidas Novas, Arroios e Santo António).

Já Caneja é um termo de origem desconhecida mas poderia ter sido uma alcunha ou até um apelido da proprietária, sendo certo que caneja é o nome vulgar de um peixe semelhante ao cação, assim designado nomeadamente na Ericeira, embora caneja também denomine o rego entre dois compartimentos de uma salina.

Sobre a data da fixação do Beco da Pedreira da Caneja pode supor-se que seja do século XX.  Na planta de remodelação paroquial de 1780 como na de 1807 de Duarte Fava o topónimo não surgia e a zona apresentava apenas terrenos de cultivo, situação que continua em  1850, apenas acrescida de moinhos de vento nas imediações. O topónimo Beco da Pedreira da Caneja aparece apenas no séc. XX, no Guia das Ruas de Lisboa de 1941, da Tipografia Gonçalves, como um beco sem saída, tal como vemos na planta municipal de 1950 e ainda, no Roteiro actualizado da cidade de Lisboa, Algés, Amadora, Dafundo, Damaia, Moscavide, Pontinha e Venda Nova da Polícia de Segurança Pública de Lisboa, de 1970/71.  Só em 1988, com a denominação de uma Rua Particular como Rua Bombeiro Catana Ramos, para homenagear este bombeiro vítima do incêndio do Chiado, o Beco da Pedreira da Caneja passou à dimensão que hoje lhe encontramos da Rua de Campo de Ourique à Rua Bombeiro Catana Ramos.

Freguesia de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

O Beco dos Birbantes do Convento da Encarnação

Freguesia de Arroios
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Beco dos Birbantes abre-se no Beco de São Luís da Pena e é uma artéria sem saída da freguesia de Arroios.

Este arruamento já aparece referido descrições paroquiais anteriores ao Terramoto de 1755,  na freguesia de Nossa Senhora da Pena, como rua dos Bribantes.  Após a catástrofe o topónimo subsiste mas referenciado como traveça dos Birbantes. Francisco Santana na sua comunicação às 3ªs Jornadas de Toponímia de Lisboa (1998), intitulada «Marginalidade nas Ruas de Lisboa», defendeu que «O Beco dos Birbantes ainda aí está perpetuando a memória de indivíduos de duvidoso comportamento.»

Naõ obstante, a origem rigorosa deste topónimo é desconhecida e os estudiosos aceitam como melhor hipótese de explicação  que os Birbantes se refiram à população indigente que se aglomerava mas proximidades do Convento de Nossa Senhora da Encarnação – situado no Beco de São Luís da Pena e no Largo do Convento da Encarnação – para obter esmola. Este convento foi erguido no séc. XVII, no reinado de Filipe II.

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Beco do Chão Salgado dos Távora

Freguesia de Belém – Beco do Chão Salgado em 1966                                                                       (Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Beco do Chão Salgado guarda em Belém a memória da condenação e da execução dos Távoras,  no dia 13 de janeiro de 1759, no tempo de D. José I e do futuro Conde de Oeiras (15 de julho de 1759) e  Marquês de Pombal (1770) no espaço que vai do nº 124 da Rua de Belém até ao nº 116 da mesma Rua de Belém.

Padrão no Beco do Chão Salgado em 1979
(Foto: Neves Águas, Arquivo Municipal de Lisboa)

Este topónimo remete para a  condenação do Duque de Aveiro e da sua família por alegada participação no atentado contra D. José I em 1758, que conduziu a que o palácio desta família – Palácio Aveiro -, em Belém, fosse confiscado, arrasado e simbolicamente, salgado o seu chão.  No local, foi também erguida em 1759, uma coluna cilíndrica , de 5 metros de altura, com 5 anéis, conhecida como  Padrão ou Obelisco do Chão Salgado, com a seguinte inscrição : «Aqui foram arrasadas e salgadas/ as casas de José de Mascarenhas/ exautorado das honras de duque/d’Aveiro e outras/condemnado pior sentença proferida/na suprema Junta de/Inconfidencia, em 12 de Janeiro/de 1759/Justiçado como um dos chefes/do barbaro e execrando desacato/que na noite de 3 de Setembro/de 1758 se havia commettido/contra a real e sagrada pessoa de/D. José 1º/Neste terreno infame se não poderá/edificar em tempo algum». Todavia, a proibição de construir neste terreno deixou de ser respeitada logo no reinado seguinte – o de D. Maria I – e assim o que resta do sítio do Chão Salgado é nos nossos dias um acanhado beco.

A execução pública dos Távoras, com o rei e a corte presentes, teve lugar num patíbulo erguido na Praça de Belém (conforme é citada nos documentos testemunhais da época),  às 8 horas da manhã do sábado 13 de janeiro de 1759, sendo primeiro degolada a marquesa de Távora, D. Leonor Tomásia, que era uma forma de execução reservada aos membros da nobreza, por ser mais rápida e indolor, sendo depois todos os outros, tendo no final sido queimados e as cinzas deitadas ao Tejo. A condenação da Marquesa de Távora, que tinha um confessor jesuíta, permitia envolver os jesuítas no processo e era uma forma de extinguir a casa de Távora. Vinte e dois anos depois, em 1781, a pedido do marquês de Alorna, familiar dos condenados, uma junta composta por vários desembargadores reanalisou o processo dos Távoras e publicou uma sentença revisória que apontou várias irregularidades e absolveu vários dos condenados, incluindo a marquesa de Távora, embora confirmando a culpabilidade do Duque de Aveiro. Contudo, nunca a rainha D. Maria I confirmou esta revisão da sentença, apesar de desprezar o Marquês de Pombal, tanto mais que lhe retirou todos os poderes e expulsou-o de Lisboa com um decreto proibindo a sua presença a uma distância inferior a 20 milhas (pouco mais de 32 quilómetros) da capital.

O sítio do Chão Salgado recebeu em 1848 uma praça construída no local pela edilidade, para nela colocar um Chafariz que veio substituir o Chafariz da Bola, obra do arqº  Malaquias Ferreira Leal e do escultor Alexandre Gomes, mas que em 1940 foi retirado, por ocasião da Exposição do Mundo Português e sete anos depois, foi colocado no Largo do Mastro.

Freguesia de Belém
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC)