Absolutos Beguinos ou Beguinhos num Beco de São Vicente

Freguesia de São Vicente
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Beco dos Beguinhos  já existia na Freguesia de São Vicente antes do Terramoto de 1755, então denominado Beco dos Beguinos, sendo controversa a origem do topónimo.

Consideremos que Beguino  significa devoto, beato e que no séc. XIII existiu uma seita religiosa com este nome, que acabou sendo considerada herética, tendo os seus  seguidores sido excomungados pelo Concílio de Viena de 1312 e ainda,  perseguidos pela Inquisição, principalmente em França e na Alemanha, devido ao seu espírito livre, antidogmático e pelos seus costumes, considerados dissolutos à época. Em Portugal também foram contestados e a palavra Beguino chegou mesmo a ter a conotação de hipócrita, pelo que, eventualmente, poderia ter dado azo ao nome do Beco.

Mas também existe a hipótese do olisipógrafo Gomes de Brito. O criador dos estudos toponímicos lisboetas defende que se trata do Beco dos Beguinos, e não Biguinos como no séc. XVI ou Biguinhos ou até  Beguinhos,  por assumir a a explicação de Viterbo no seu Elucidário de que o termo viria do inglês begging que significa pedir, mendigar e como tal corresponderia ao beco dos pedintes ou dos penitentes mas sem ligação a nenhum voto.

Gomes de Brito refere ainda que em 1565, um códice do arquivo camarário, dá nota de aí ter residido um tal Luiz,  Begino ou Beguino de alcunha ou de apelido, que  eventualmente poderia  ter dado nome ao local por ter sido o primeiro proprietário da viela.

Freguesia de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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O Beco da Pedreira da Caneja

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Beco da Pedreira da Caneja, em Campo de Ourique, é um dos termos geológicos presentes na toponímia da cidade, relacionados com a existência de pedreiras de calcários cretácicos, a pedra ornamental mais usada na cidade de Lisboa.

De igual forma, a toponímia de Lisboa comporta ainda a Rua da Cascalheira (Alcântara), a Rua da Pedreira do Fernandinho (Campolide), a Rua das Pedreiras (Belém), as Escadinhas do Santo Espírito da Pedreira (Santa Maria Maior) e ainda, o Largo, a Rua e a Travessa de São Sebastião da Pedreira (Avenidas Novas, Arroios e Santo António).

Já Caneja é um termo de origem desconhecida mas poderia ter sido uma alcunha ou até um apelido da proprietária, sendo certo que caneja é o nome vulgar de um peixe semelhante ao cação, assim designado nomeadamente na Ericeira, embora caneja também denomine o rego entre dois compartimentos de uma salina.

Sobre a data da fixação do Beco da Pedreira da Caneja pode supor-se que seja do século XX.  Na planta de remodelação paroquial de 1780 como na de 1807 de Duarte Fava o topónimo não surgia e a zona apresentava apenas terrenos de cultivo, situação que continua em  1850, apenas acrescida de moinhos de vento nas imediações. O topónimo Beco da Pedreira da Caneja aparece apenas no séc. XX, no Guia das Ruas de Lisboa de 1941, da Tipografia Gonçalves, como um beco sem saída, tal como vemos na planta municipal de 1950 e ainda, no Roteiro actualizado da cidade de Lisboa, Algés, Amadora, Dafundo, Damaia, Moscavide, Pontinha e Venda Nova da Polícia de Segurança Pública de Lisboa, de 1970/71.  Só em 1988, com a denominação de uma Rua Particular como Rua Bombeiro Catana Ramos, para homenagear este bombeiro vítima do incêndio do Chiado, o Beco da Pedreira da Caneja passou à dimensão que hoje lhe encontramos da Rua de Campo de Ourique à Rua Bombeiro Catana Ramos.

Freguesia de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

O Beco dos Birbantes do Convento da Encarnação

Freguesia de Arroios
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Beco dos Birbantes abre-se no Beco de São Luís da Pena e é uma artéria sem saída da freguesia de Arroios.

Este arruamento já aparece referido descrições paroquiais anteriores ao Terramoto de 1755,  na freguesia de Nossa Senhora da Pena, como rua dos Bribantes.  Após a catástrofe o topónimo subsiste mas referenciado como traveça dos Birbantes. Francisco Santana na sua comunicação às 3ªs Jornadas de Toponímia de Lisboa (1998), intitulada «Marginalidade nas Ruas de Lisboa», defendeu que «O Beco dos Birbantes ainda aí está perpetuando a memória de indivíduos de duvidoso comportamento.»

Naõ obstante, a origem rigorosa deste topónimo é desconhecida e os estudiosos aceitam como melhor hipótese de explicação  que os Birbantes se refiram à população indigente que se aglomerava mas proximidades do Convento de Nossa Senhora da Encarnação – situado no Beco de São Luís da Pena e no Largo do Convento da Encarnação – para obter esmola. Este convento foi erguido no séc. XVII, no reinado de Filipe II.

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Beco do Chão Salgado dos Távora

Freguesia de Belém – Beco do Chão Salgado em 1966                                                                       (Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Beco do Chão Salgado guarda em Belém a memória da condenação e da execução dos Távoras,  no dia 13 de janeiro de 1759, no tempo de D. José I e do futuro Conde de Oeiras (15 de julho de 1759) e  Marquês de Pombal (1770) no espaço que vai do nº 124 da Rua de Belém até ao nº 116 da mesma Rua de Belém.

Padrão no Beco do Chão Salgado em 1979
(Foto: Neves Águas, Arquivo Municipal de Lisboa)

Este topónimo remete para a  condenação do Duque de Aveiro e da sua família por alegada participação no atentado contra D. José I em 1758, que conduziu a que o palácio desta família – Palácio Aveiro -, em Belém, fosse confiscado, arrasado e simbolicamente, salgado o seu chão.  No local, foi também erguida em 1759, uma coluna cilíndrica , de 5 metros de altura, com 5 anéis, conhecida como  Padrão ou Obelisco do Chão Salgado, com a seguinte inscrição : «Aqui foram arrasadas e salgadas/ as casas de José de Mascarenhas/ exautorado das honras de duque/d’Aveiro e outras/condemnado pior sentença proferida/na suprema Junta de/Inconfidencia, em 12 de Janeiro/de 1759/Justiçado como um dos chefes/do barbaro e execrando desacato/que na noite de 3 de Setembro/de 1758 se havia commettido/contra a real e sagrada pessoa de/D. José 1º/Neste terreno infame se não poderá/edificar em tempo algum». Todavia, a proibição de construir neste terreno deixou de ser respeitada logo no reinado seguinte – o de D. Maria I – e assim o que resta do sítio do Chão Salgado é nos nossos dias um acanhado beco.

A execução pública dos Távoras, com o rei e a corte presentes, teve lugar num patíbulo erguido na Praça de Belém (conforme é citada nos documentos testemunhais da época),  às 8 horas da manhã do sábado 13 de janeiro de 1759, sendo primeiro degolada a marquesa de Távora, D. Leonor Tomásia, que era uma forma de execução reservada aos membros da nobreza, por ser mais rápida e indolor, sendo depois todos os outros, tendo no final sido queimados e as cinzas deitadas ao Tejo. A condenação da Marquesa de Távora, que tinha um confessor jesuíta, permitia envolver os jesuítas no processo e era uma forma de extinguir a casa de Távora. Vinte e dois anos depois, em 1781, a pedido do marquês de Alorna, familiar dos condenados, uma junta composta por vários desembargadores reanalisou o processo dos Távoras e publicou uma sentença revisória que apontou várias irregularidades e absolveu vários dos condenados, incluindo a marquesa de Távora, embora confirmando a culpabilidade do Duque de Aveiro. Contudo, nunca a rainha D. Maria I confirmou esta revisão da sentença, apesar de desprezar o Marquês de Pombal, tanto mais que lhe retirou todos os poderes e expulsou-o de Lisboa com um decreto proibindo a sua presença a uma distância inferior a 20 milhas (pouco mais de 32 quilómetros) da capital.

O sítio do Chão Salgado recebeu em 1848 uma praça construída no local pela edilidade, para nela colocar um Chafariz que veio substituir o Chafariz da Bola, obra do arqº  Malaquias Ferreira Leal e do escultor Alexandre Gomes, mas que em 1940 foi retirado, por ocasião da Exposição do Mundo Português e sete anos depois, foi colocado no Largo do Mastro.

Freguesia de Belém
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC)

O Carrasco num Beco

Freguesia da Misericórdia
(Foto: José Vicente| Departamento de Património Cultural)

O algoz, executor último de uma pena de morte, está também inscrito na toponímia de Lisboa através do Beco do Carrasco, artéria que existe pelo menos desde 1733 e se abre junto ao nº 77 da Rua do Poço dos Negros, hoje território da Freguesia da Misericórdia.

Francisco Santana, na sua comunicação às 3ªs jornadas de Toponímia de Lisboa, em 1998, recordou a este propósito que «Ligado à morte e, mais, agente dela, o carrasco foi e é também objecto de sentimentos contraditórios: as sociedades pedem-lhe que exerça uma função que consideram necessária mas desprezam-no por a exercer. Mas vá lá, isso não levou a que desaparecessem como topónimos o Beco do Carrasco, ao Poço dos Negros, e o Pátio do Carrasco, ao Largo do Limoeiro». Os carrascos, pagos  pelo Estado, foram muitas vezes também homens que haviam sido eles próprios condenados à forca, que viram sua pena comutada tendo sido profissão. De acordo com o investigador Luís Farinha «A pena de morte é cada vez mais rara, fora do período das Invasões Francesas e da Guerra Civil, de 1826 e 1833. Nesses períodos era mais fácil o carrasco justificar a sua própria existência. A partir os anos 1840, as notícias são caricatas nesse sentido, porque não há carrasco, o carrasco desiste, não há pessoas que estejam dispostas a fazer aquele trabalho.» Com a abolição da pena de morte em Portugal em 1 de julho de 1867 deixou também de existir esta profissão.

Freguesia da Misericórdia – Placa de azulejo
(Foto: José Vicente| Departamento de Património Cultural)

O Beco do Carrasco  fixa neste arruamento um seu morador que exercia essa função. É um topónimo já firmado em 1733 nos registos paroquiais, dado que conforme relata Luís Pastor de Macedo foi neste Beco do Carrasco,  da então Freguesia de Santa Catarina de Monte Sinai,  que em 3 de outubro de 1733, nasceu Diogo Inácio de Pina Manique, filho de Pedro Damião de Pina Manique e Helena Inácia de Faria, personalidade que se viria a notabilizar como Intendente-Geral da Polícia do reinado de D. Maria I, orientado para a repressão das ideias oriundas da Revolução Francesa, designadamente através da proibição de circulação de livros e perseguição a diversos intelectuais.

Para além deste registo o topónimo Beco do Carrasco surge em mais documentos do séc. XVIII, como as descrições paroquiais imediatamente anteriores ao Terramoto de 1755, bem como nas plantas da remodelação paroquial de 1770 e posteriores em que aparece como a artéria paralela à Rua Marcos Marreiros (ou Barreiro ou Marreyro) e à Rua João Brás (ou João Braz), com a diferença de que estas duas artérias surgem já em documentos seiscentistas, mencionadas à Rua da Cruz de São Bento que era então a Rua dos Poços dos Negros que hoje conhecemos. Recordemos  que na passagem do séc. XVI para o XVII foi encomendado um plano de urbanização dos arruamentos da Bica, da Boa Vista e Poço dos Negros ao arquiteto contemporâneo Teodósio de Frias que escolheu uma tipologia da malha regular ordenada por eixos direccionais que articularam a zona com o exterior, formando um traçado em forma de espinha, mais solto na zona do Poço dos Negros/Boa Vista.

Lisboa comporta ainda um Pátio do Carrasco, junto ao Largo do Limoeiro, que amanhã será o tema do nosso artigo.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias| NT do Departamento de Património Cultural)

 

 

Os Becos ou Vielas de Lisboa

Beco dos Beguinhos – Freguesia de São Vicente
(Foto: Mário Marzagão)

Lisboa conta nos nossos dias com 153 Becos, sendo que no decorrer dos séculos alguns deles ganharam o estatuto de travessa por via de alterações urbanísticas ou por solicitação dos residentes.

O Beco é uma rua estreita e curta, muitas vezes sem saída, ou se quisermos numa só palavra, é sinónimo de viela. A toponímia empregue nos becos lisboetas caracteriza-se pelo uso das suas peculiaridades, do tipo de artesãos que lá trabalhavam, das referências geográficas próximas como igrejas ou outras instituições passíveis de rápida identificação e  dos nomes dos seus moradores.

Freguesia de Benfica
(Foto: José Carlos Batista)

Primeiro, falemos da excepção que confirma a regra enunciada no parágrafo anterior: o Beco Pato Moniz, em Benfica, que homenageia um escritor ( 1781-1826) que faleceu no desterro a que o condenaram após a Vilafrancada por ser liberal. Atribuído pelo Edital municipal de 18/06/1926,  foi acompanhado na mesma zona com a atribuição em  Travessas e Largos dos também escritores José Agostinho de Macedo e Curvo Semedo, de três intervenientes no 31 de Janeiro de 1891 – Abade Pais, Sargento Abílio e Miguel Verdial – e do também republicano General Sousa Brandão, para além do compositor Marques Lésbio e do pintor Francisco Resende.

Beco do Quebra Costas – Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Artur Matos)

Dos outros 152 Becos alfacinhas, encontramos 32 relativos às características do próprio local: Beco do Norte ( Carnide ); Beco do CasalBeco da Pedreira da Caneja ( Campo de Ourique ); Beco da Galheta por corruptela de Calheta junto ao Tejo,  Beco do Olival, Beco do Tremoceiro ( Estrela );  Beco do Sabugueiro ( Alcântara ); Beco dos Aciprestes, Beco da Boavista do Alto de Santa Catarina ( Misericórdia); Beco da Achada, Beco do Alfurja, Beco do Funil, Beco da Amendoeira, Beco do Azinhal, Beco das Barrelas, Beco das Canas, Beco Cascalho, Beco do Forno junto ao Largo da Severa, Beco da Lapa,  Beco do Loureiro, Beco da Oliveira,  Beco do Pocinho, Beco do Quebra Costas por ser tão íngreme e dois Becos do Jasmim (todos em Santa Maria Maior ); Beco da Bombarda,  Beco do Monte de S. Gens ( Arroios ); Beco da Laje ( São Vicente e Santa Maria Maior ); Beco da Bica do Sapato, Beco da Era, Beco do Mirante ( São Vicente ); Beco das Taipas  ( Marvila ).

Beco da Mó – São Domingos de Benfica
(Foto: Sérgio Dias)

Referindo as profissões neles exercidas temos 23 : Beco dos Ferreiros ( Santa Clara ); Beco da Mestra ( Carnide ); Beco da Botica ( São Domingos de Benfica ); Beco do Fogueteiro ( Campo de Ourique ); Beco da Bolacha,  Beco dos Contrabandistas, Beco do Funileiro ( Estrela ); Beco dos Armazéns do LinhoBeco do Carrasco ( Misericórdia ); Beco do Almotacé, Beco da Atafona, Beco das Atafonas, Beco dos Cortumes por curtumes, Beco das FarinhasBeco do Imaginário pelo escultor de imagens de santos, Beco das Olarias,  Beco do Surra, Beco dos Surradores, Beco dos Três Engenhos ( Santa Maria Maior ); Beco dos Agulheiros, Beco da Mó, Beco dos Vidros ( São Vicente ); Beco dos Toucinheiros ( Beato ).

Com referências próximas  são 38 : Beco do Vintém das Escolas ( Benfica); Beco da Enfermaria por referência a um pequeno hospital que ali existiu no séc. XIX para os criados da Casa Real ( Belém ); Beco das Fontaínhas ( Alcântara ); Beco do Paiol da pólvora, Beco de Santa Quitéria por referência à Travessa do mesmo nome para substituir o Beco dos Mortos ( Campo de Ourique ); Beco dos Apóstolos que queria dizer jesuítas ( Misericórdia ); Beco da Cruz pela proximidade à  Rua da Cruz dos Poiais, Beco do Forno a São Paulo, Beco da Moeda por estar junto à Casa da Moeda ( Misericórdia ); Beco do Colégio dos Nobres, Beco de Santa Marta do Convento da mesma invocação que hoje vemos como Hospital (Santo António); Beco do Arco Escuro, Beco do Benformoso junto à Rua do Benformoso, Beco da Caridade  por via da Ermida do mesmo nome, Beco do Castelo Beco do Forno do Castelo de São Jorge, Beco dos Cavaleiros para substituir o Beco do Forno junto à Rua dos Cavaleiros, Beco das Cruzes  em Alfama, Beco do Espírito Santo da Ermida da mesma invocação que depois passou a ser dos Remédios, Beco do Forno da Galé junto à Rua da Galé, Beco das Gralhas pela proximidade ao Largo das Gralhas para substituir o Beco do Jasmim, Beco da Guia por mor de um oratório embutido numa parede, Beco do Outeirinho da Amendoeira, Beco do Penabuquel por proximidade ao Arco do Penabuquel da muralha fernandina, Beco de Santa Helena pelo Palácio seiscentista conhecido pelo mesmo nome, Beco de São Francisco por estar junto ao Terreirinho de São Francisco que depois passou a Largo da Achada, Beco de São Miguel pela proximidade à igreja da mesma invocação, Beco do Recolhimento de Nossa Senhora da Encarnação ( Santa Maria Maior ); Beco de São Lázaro junto à Rua do mesmo nome, Beco de São Luís da Pena por mor da Igreja da mesma invocação ( Santa Maria Maior e Arroios); Beco do Forno do Sol junto à Rua do Sol à Graça, Beco do Hospital de Marinha, Beco dos Lóios pela proximidade ao Largo dos Lóios e para substituir o Beco das Cabras, Beco dos Peixinhos por proximidade à Quinta dos Peixinhos, Beco do Salvador da Ermida de Jesus Salvador da Mata, Beco da Verónica pela proximidade à Ermida de Santa Verónica ( São Vicente ); Beco do Grilo dos Conventos dos Agostinhos Descalços ( Beato ) e Beco da Mitra ( Marvila ).

Beco do Penabuquel – Santa Maria Maior
(Foto: Artur Matos)

Com nomes ou alcunhas de moradores e/ou proprietários temos 36 : Beco do Chão Salgado do Palácio do Duque de Aveiro arrasado e salgado o seu chão, Beco de Domingos Tendeiro ( Belém); Beco da Ferrugenta, Beco dos GalegosBeco de João Alves ( Ajuda ); Beco de Estêvão Pinto ( Campolide ); Beco do Batalha,  Beco do Julião ( Campo de Ourique ); Beco do Machadinho  do Tabaco ( Estrela ); Beco do Caldeira por estar próximo da Travessa do Caldeira e substituir o Beco do Esfola Bodes, Beco de Francisco André ( Misericórdia ); Beco do Alegrete por estar junto ao Palácio dos Marqueses do Alegrete, Beco da Barbadela,  Beco do Belo, Beco da Cardosa, Beco do Chanceler de D. Dinis de seu nome Pedro Salgado, Beco dos Clérigos, Beco da Corvinha, Beco dos Fróis, Beco do Garcês, Beco do Guedes, Beco do Maldonado, Beco do Maquinez, Beco de Maria da Guerra, Beco do Marquês de Angeja, Beco do Melo, Beco do Mexias, Beco da Ricarda, Beco do Rosendo que seria Resende, Beco do Vigário ( Santa Maria Maior ); Beco dos Birbantes que esmolavam, Beco do Borralho de António de Moura Borralho, Beco do Félix, Beco de Maria Luísa, Beco do Petinguím ( Arroios ) e Beco da Amorosa ( Beato ).

Outros de ainda indefinida génese e alvo de discussão entre os olisipógrafos são 23: Beco da Ré por ser uma arguida ou um termo naval?( Belém ); Beco do Viçoso por ser alcunha ou um local verdejante, Beco do Xadrez por ser alcunha ou um padrão na arquitetura local? ( Ajuda ); Beco do Monteiro por ser alcunha ou sítio de montado? ( Campolide ); Beco dos Capachinhos por alcunha ou local de feitura de capachos?, Beco das Pirralhas por alcunha ou pela presença de crianças? ( Estrela ); Beco da Rosa por ser nome de moradora ou pela presença da flor? (Misericórdia );  Beco da Bicha por ser alcunha ou um animal?,  Beco do Bugio por se cravarem estacas no chão ou por haver um macaco?, Beco do Carneiro por ser apelido ou alcunha ou animal?, Beco dos Cativos por ter escravos ou presos?, Beco das Flores por ser inócuo ou por ter mesmo flores?, Beco da Formosa por uma mulher ou por uma paisagem bonita?, Beco do Leão por alcunha ou por símbolo?, Beco das Mil Patacas por uma lenda ou por uma comunidade macaense?, Beco dos Paus em sentido literal ou figurado?, Beco dos Ramos em sentido literal ou um apelido?, Beco de São Marçal por um azulejo do santo ou por um oratório dessa invocação? ( Santa Maria Maior ); o Beco da Bempostinha por alcunha ou outra coisa?, o Beco do Índia, o Beco da Índia aos Anjos uma alcunha ou alguém que esteve na Índia?( Arroios ); Beco das Beatas e o Beco dos Beguinhos ( São Vicente ).

Beco do Mexias – Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Mário Marzagão)

As 56 artérias da Ajuda oficializadas em 1916

Freguesia da Ajuda - Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Ajuda – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

A freguesia da Ajuda foi instituída em 1551 mas só em 1762 passou a fazer parte do Concelho de Lisboa. Contudo, de 1852 a 1885 integrou o Concelho de Belém, pelo que houve necessidade de oficializar em Lisboa 56 artérias da Ajuda pelo Edital municipal de 26 de setembro de 1916.

A pedido da Junta de  Freguesia, o vereador Augusto de Magalhães Peixoto apresentou em sessão de câmara uma proposta considerando que «fizeram parte do extinto Concelho de Belem, donde, quando da sua anexação ao de Lisboa,não veiu escrituração alguma referente a deliberações camararias sobre tal assunto, sendo, portanto, conhecidas simplesmente pelos nomes, que o vulgo lhes tem dado», a qual foi aprovada por unanimidade.

Freguesia da Ajuda - Placa Tipo IV (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Ajuda – Placa Tipo IV
(Foto: Sérgio Dias)

E passada a proposta a Edital foram atribuídos 56 topónimos. Assim aconteceu com

  1. o Beco do Cabreira;
  2. o Beco do Viçoso;
  3. a Calçada
  4. e o  Largo da Ajuda;
  5. a Calçada
  6. e a  Travessa da Memória, por D. José I ter sofrido um atentado no local;
  7. a Calçada da Boa- Hora;
  8. a Estrada dos Marcos;
  9. a Estrada de Queluz;
  10. o Largo e a
  11. a Rua do Giestal;
  12. a Rua e a
  13. Travessa de Dom Vasco;
  14. a Rua e a
  15. Travessa do Guarda-Jóias;
  16. a Rua do Jardim Botânico;

    Freguesia da Ajuda – Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

  17. a Rua e a
  18. Travessa do Machado;
  19. a Rua das Mercês;
  20. a Rua e a
  21. Travessa do Mirador;
  22. a Rua Nova do Calhariz;
  23. a Rua dos Quartéis
  24. e a Rua de Traz dos Quartéis;
  25. a Rua da Torre, próxima da Torre Sineira conhecida como Torre do Galo;
  26. o Sítio de Casalinho;
  27. a Travessa do Armador;
  28. a Travessa do Chafariz, por lá existir um chafariz;
  29. a Travessa das Dores, referente à Ermida de Nossa Senhora das Dores;
  30. a Travessa da Ferrugenta;
  31. a Travessa das Florindas;
  32. a Travessa de João Alves;
  33. a Travessa José Fernandes;
  34. a Travessa do Moinho Velho;
  35. a Travessa dos Moinhos;
  36. a Travessa do Pardal;
  37. a Travessa de Paulo Martins;
  38. a Travessa das Verduras;
  39. e o Largo do Conde de Belmonte que era uma via particular e não municipal;

Mas também alguns dos topónimos foram atribuídos com um acrescento de localização ou mesmo uma nova nomenclatura. Assim,

  • Freguesia da Ajuda - Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

    Freguesia da Ajuda – Placa Tipo II
    (Foto: Sérgio Dias)

    40. a Rua das Freiras mudou para Rua das Casas do Trabalho (desde 1963 é a Rua Alexandre de Sá Pinto);

  • 41. a Rua Carlos Príncipe passou a ser a Rua Augusto Gomes Ferreira/Professor da Escola do Exército Inspector dos Incêndios/1854-1900; 
  • 42. a Travessa de Carlos Príncipe foi alterada para Travessa da Ajuda;
  • 43. a Rua da Paz mudou para Rua Brotero/Médico e Botânico/1744 – 1828
  • 44. assim como a outra Rua da Paz para Rua do Laranjal;
  • 45. a Rua dos Fornos da República tornou-se simplesmente Rua dos Fornos;
  • 46. a Rua Aliança Operária, assim atribuída pelo Edital de 14/10/1915, voltou a ser Rua de Santana;
  • 47.a Rua do Mirante tornou-se Calçada do Mirante à Ajuda;
  • 48. a Rua do Meio levou o acrescento à Ajuda;
  • 49. o Beco do Chinelo tornou-se Beco do Xadrez;
  • 50. a Rua da Bica passou a Rua Alegre
  • 51. a Travessa da Estopa ficou como Travessa das Fiandeiras;

Finalmente, foram também modificados outros topónimos para evitar repetições ou nomes que talvez fossem considerados menos próprios, tendo em comum a característica de todos terem sido renomeados com nomes de flores. Foram eles

  • 52. a Estrada do Cemitério foi alterada para Rua das Açucenas;
  • 53. a Travessa da Faustina tornou-se a Travessa da Madressilva;
  • 54.  a Travessa do Carneiro ficou como Travessa da Verbena;
  • 55. a Travessa do Moinho Velho foi mudada para Travessa do Alecrim;
  • 56. outra Travessa do Machado passou a Travessa da Giesta.
Freguesia da Ajuda - Placa Tipo II

Freguesia da Ajuda – Placa Tipo II

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ruas afuniladas

Travessa do Funil em 1949 (Foto: Eduardo Portugal; Arquivo Municipal de Lisboa)

Travessa do Funil em 1949
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

A zona mais antiga de Lisboa, que ainda hoje preserva um emaranhado de ruas estreitas e medievais, está contida na freguesia de Santa Maria Maior que assim possui as três artérias alfacinhas cuja configuração afunilada se fixou também no topónimo.

São elas as já referidas Beco do Funil (entre a Rua de São Tomé e a Rua dos Cegos),  Beco do Alfurja (junto ao nº 44 da Rua da Regueira) sendo Alfurja derivada do árabe al-fujra que significa rua estreita ou o local onde se despejavam os detritos domésticos, e a Travessa do Funil.

Esta Travessa  do Funil, paralela à Travessa do Chão da Feira, está muito próxima do Castelo de São Jorge e será dos primórdios da Lisboa Cristã. Luís Pastor de Macedo aponta como primeiras referências escritas deste topónimo o tombo da freguesia do ano de 1755 como Rua do Funil, tal como as descrições paroquiais de 1769 e 1770, ora como rua ora como beco.

Ainda segundo o mesmo olisipógrafo «O edital do Governo Civil de 1 de Setembro de 1859 dividiu a artéria em duas partes. A superior, desde o pátio de D. Fradique até ao largo do Contador-mor, continuou a denominar-se do Funil mas com a categoria de travessa; a inferior, desde aquele largo até ao de Santa Luzia, passou a denominar-se travessa de Santa Luzia» e assim esta Travessa do Funil liga hoje a Rua do Chão da Feira ao Largo do Contador-Mor.

Travessa do Funil - Freguesia de Santa Maria Maior

Travessa do Funil – Freguesia de Santa Maria Maior

As Cruzes da Toponímia de Lisboa

Rua das Flores de Santa Cruz em 1907 quando era Rua das Flores do Castelo (Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua das Flores de Santa Cruz em 1907 quando era denominada como Rua das Flores do Castelo
(Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

Diz-se que cada um carrega a sua cruz mas Lisboa dos nossos dias carrega 25 na sua toponímia, sendo 2 cruzes simples, dois becos com as suas cruzes, uma calçada, uma estrada, um largo, um pátio e mais 6 ruas e 7 travessas com cruz,  uma rua com cruzeiro e a Rua do Crucifixo. O cristianismo espalhou vários tipos de cruzeiros e cruzes nas ruas, nas estradas ou nos caminhos, de materiais diversos, pedra ou madeira e foram abundantes na cidade de Lisboa, tendo desaparecido progressivamente com as várias modificações urbanísticas que a cidade sofreu ao longo dos tempos.

Já publicámos a Rua de Santa Cruz do Castelo e o Largo de Santa Cruz dos Castelo, mas não a Rua das Flores de Santa Cruz  que era a Rua das Flores do Castelo até o Edital do Governo Civil de 1 de setembro de 1859 a tornar Rua das Flores de Santa Cruz. Todos estes três topónimos recebem o nome da vizinhança à igreja de Santa Cruz da Alcáçova, depois chamada de Santa Cruz do Castelo, que já aparece mencionada num documento de 25 de maio de 1168 e que segundo o olisipógrafo Norberto de Araújo « Assentou neste lugar a mesquita moura, sagrada logo depois da Conquista, e onde entrou, em procissão e cortejo real, Afonso Henriques, na tarde de 25 de Outubro de 1147».

Cruzes da Sé (Foto: Mário Marzagão, 2012)

Cruzes da Sé
(Foto: Mário Marzagão, 2012)

Ainda na freguesia de Santa Maria Maior, um pouco mais abaixo encontramos as Cruzes da Sé,  a fazer a ligação do Largo da Sé com a Rua de São João da Praça e como tal nas costas da Sé. De acordo com Luís Pastor de Macedo,  já aparece referida num livro de óbitos de 1690 e no século XVIII, « Fugitivamente deu-se o nome de Largo da Caridade a uma parte das Cruzes da Sé, naturalmente a que ficava e fica diante da ermida. Hoje, e desde há muitíssimos anos, mas depois do advento do regime republicano, está nela instalada a Junta de Freguesia da Sé e S. João da Praça.»

Já em São Vicente está a Cruz de Santa Helena, entre o Largo do Outeirinho da Amendoeira e a Calçada de São Vicente, designação que deverá ser anterior ao Terramoto de 1755. Tal como o Beco de Santa Helena, a Cruz de Santa Helena referem-se a uma viúva beatificada como Santa Helena, a quem um oficial romano, de nome Constâncio Cloro, se uniu e assim  nasceu Constantino, o primeiro imperador cristão. Diz-se também que Santa Helena foi em peregrinação à Terra Santa e que encontrou a verdadeira Cruz do Salvador.

Em becos, temos o Beco da Cruz, que liga a Rua da Cruz dos Poiais à Rua da Paz, em resultado do Edital do Governo Civil de Lisboa de 01/09/1859 que transformou o Beco das Cabras em Beco da Cruz pela proximidade à Rua da Cruz dos Poiais e, para evitar a confusão com o outro Beco das Cabras existente em Lisboa, mencionado nas descrições paroquiais anteriores ao terramoto de 1755 na freguesia da Stª Marinha, o qual a partir do Edital de 17/10/1924 se passou a denominar Beco dos Lóios. Já entre a Rua da Regueira e a Rua do Castelo Picão encontramos o Beco das Cruzes , sabendo-se que este arruamento já ostentava este topónimo em 1770, por constar nas plantas e descrições das freguesias de Lisboa desse ano.

A Calçada da Cruz da Pedra na década de 40 do séc. XX (Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Calçada da Cruz da Pedra na década de 40 do séc. XX
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

E a ligar a Rua da Madre de Deus à Rua de Santa Apolónia, deparamos com a Calçada da Cruz da Pedra, que deve ter começado por ser Cruz de Pedra. Luís Pastor de Macedo, avança que «referindo-se ao dístico desta serventia pública diz Gomes de Brito: aliás Cruz de Pedra, memória das muitos cruzeiros que se levantavam por Lisboa, e nela existentes, averiguadamente, desde o século XV. Efectivamente, a mais antiga referência a esta rua, que até agora encontrámos, ao anunciar-nos o falecimento de Diogo Lopes Sequeira, sucedido em 28 de Janeiro de 1593, diz-nos que ele era morador á cruz de pedra da madre de Ds.(…). Em 1647 ainda se dizia que fulano morava em o caminho de chellas por cima da Cruz de Pedra, mas desde então e até aos nossos dias, a cruz deixou de ser de pedra e passou a ser da pedra. (…) Quanto à sua existência, propriamente como arruamento, não devia ser muito anterior ao citado ano de 1593.» E Norberto de Araújo acrescenta que «Foi este o caminho de Trânsito para se entrar em Lisboa; o traçado da linha primitiva dos caminhos-de-ferro limitou-se, afinal, a acompanhar esta estrada de conveniência. A muralha desta artéria, sobre o rio, foi construída entre 1769 e 1770, onde ficava o forte da Cruz da Pedra.»

Na zona de Caselas também terá havido uma Calçada da Cruz que hoje identificamos como Estrada da Cruz, entre a  Estrada de Caselas e a Rua Horta e Silva. Foi pelo Edital municipal de 16/01/1929 que a Estrada Velha de Caselas passou a denominar-se Estrada da Cruz. No entanto, em 1908, a Planta da Cidade de Júlio Silva Pinto e Alberto de Sá Correia menciona-a como Calçada da Cruz e em 1959, o Decreto-Lei nº 42 142 que regista a nova divisão administrativa da cidade de Lisboa, na delimitação da então novel Freguesia de São Francisco Xavier designa-a como Calçada da Cruz.

Um pouco mais à direita, no Bairro Social de Caselas deparamos com a Rua da Cruz a Caselas, entre a Rua da Igreja e a Rua Sam Levy (que nasceu do Edital municipal de 15/12/1997 num troço da Estrada de Caselas, compreendido entre a Avenida das Descobertas e a Rua da Cruz a Caselas) .

Em Benfica, apresenta-se o Largo da Cruz da Era  na confluência da Travessa do Açougue em Benfica, Largo Ernesto da Silva, Rua República da Bolívia e a Travessa da Cruz da Era que une a Estrada de Benfica ao Largo da Cruz da Era e que já aparece mencionada em 1908 na planta de Júlio Silva Pinto e Alberto de Sá Correia. Em ambos os casos a Era pode ser uma memória rural de «Hera» como aconteceu com a Rua e a Travessa da Hera, na freguesia da Misericórdia, cuja grafia foi em determinada altura modificada.

Pátios da toponímia oficial temos o Pátio da Cruz, na freguesia de Santa Maria Maior, junto ao nº 15 da Rua da Galé.

Passando às Ruas, apresenta-se na freguesia de Alcântara a Rua da Cruz a Alcântara, nascida entre a Rua do Alvito e a Rua de São Jerónimo (a partir de 21/06/1926 Rua Feliciano de Sousa), que era a Rua da Cruz até o Edital municipal de 08/06/1889 lhe acrescentar «a Alcântara».

Rua da Cruz dos Poiais entre 1898 e 1908 (Foto : Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua da Cruz dos Poiais entre 1898 e 1908
(Foto : Arquivo Municipal de Lisboa)

Existiam três ruas da Cruz em Lisboa, quando o Edital do Governo de Civil de Lisboa de 01/09/1859 as diferenciou como Rua da Cruz dos Poiais, Rua da Cruz da Carreira e Rua da Cruz de Santa Apolónia.

Rua da Cruz dos Poiais, está entre a Rua dos Poiais de São Bento e a Rua de São Marçal, na freguesia da Misericórdia. Segundo Norberto de Araújo a Rua da Cruz dos Poiais também se chamou Rua dos Cardeais. A Cruz  perpetuada é a Cruz da Esperança, erguida na confluência de quatro artérias – a Rua dos Poiais de São Bento, a Calçada da Estrela, a Rua da Paz (que já existia em 1602 com o nome de Travessa da Peixeira) e a Rua da Cruz dos Poiais -,  sendo uma das muitas cruzes demarcatórias que havia pela cidade, onde as vereações aguardavam as novas dos Reis de Portugal para a simbólica entrega das chaves da cidade.

Rua da Cruz da Carreira, na freguesia de Arroios, entre a Rua Gomes Freire e a Travessa de São Bernardino, é anterior ao  terramoto de 1755 segundo Norberto de Araújo que acrescenta «Tomemos de novo pela Rua da Cruz da Carreira – assim chamada em memória de uma cruz demarcatória, e ao mesmo tempo piedosa, que aqui existiu ainda no começo do século passado [o autor refere-se ao século XIX], como tantas em Lisboa -, e passemos por Gomes Freire (a saudosa Carreira dos Cavalos, campestre e arrabaldina) à Estefânia de hoje.»

Sobre a Rua da Cruz de Santa Apolónia, na freguesia de São Vicente, entre a Calçada dos Barbadinhos e a Rua do Vale de Santo António, esclarece Norberto de Araújo o seguinte «Pois estamos no alto da Calçada de Santa Apolónia; sai-nos, agora, à esquerda, a velha Rua da Cruz de Santa Apolónia, que leva à Rua do Mirante. Era esta artéria, que se continuava, directa, da Calçada da Cruz da Pedra, o caminho natural, por Santa Clara e Paraíso, para a Porta da Cruz, uma das importantes entradas de Lisboa, aberta na muralha de D. Fernando, o que já por mais de uma vez tenho assinalado.(…)»

O cruzeiro da Ajuda encontra-se no Museu do Carmo, mas no local permanece a Rua do Cruzeiro, nas freguesias da Ajuda e de Alcântara que antes da publicação do Edital municipal de 08/06/1889 era a Rua Direita do Cruzeiro, embora também se encontrem registos de que terá também sido denominado por Calçada do Cruzeiro, nomeadamente no Roteiro das Ruas de Lisboa de 1890.

O já mencionado Edital do Governo de Civil de Lisboa de 01/09/1859 também acrescentou a quatro Travessas da Cruz em Lisboa um indicador de localização, passando a designarem-se como Travessa da Cruz de Soure (Misericórdia), Travessa da Cruz do Torel (Santo António e Arroios), Travessa da Cruz do Desterro ( por união da Travessa da Cruz e da Travessa Nova da Bica do Desterro, em Arroios) e Travessa da Cruz aos Anjos (Arroios). Mais tarde, pelo Edital do Governo de Civil de Lisboa de 05/08/1867, também a Travessa de Santana, entre a  Travessa da Cruz do Desterro e a Travessa das Salgadeiras passou a ser a Travessa de Santana da Cruz (Arroios).

E por último, na freguesia da Estrela, junto à Travessa dos Brunos, existe a Travessa da Cruz da Rocha que terá sido o antigo Beco dos Brunos. De acordo com a informação municipal nº 121/2ª/O, a planta da cidade de 1910  identifica esta artéria como Beco dos Brunos.

Travessa da Cruz do Desterro em 1903 (Foto: Machado & Souza, Arquivo Municipal de Lisboa)

Travessa da Cruz do Desterro em 1903
(Foto: Machado & Souza, Arquivo Municipal de Lisboa)

As Ruas com Bicas de Água

Rua da Bica de Duarte Belo e inicío da Calçada da Bica Pequena em 1915 (Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua da Bica de Duarte Belo e início da Calçada da Bica Pequena, em 1915
(Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

Durante muito tempo os chafarizes, também vulgarmente conhecidos como bicas, foram fundamentais no abastecimento de água aos lisboetas, restando ainda 9 topónimos que guardam a memória de bicas na cidade. Para além das já publicadas Rua da Bica de Duarte Belo e Calçada da Bica Grande persistem mais 7 de que vamos dar conta, seguindo de ocidente para oriente.

Na Ajuda, encontramos a Rua da Bica do Marquês que havia sido a Rua da Bica mas que por Edital municipal de 26/09/1916 passou a denominar-se Rua Alegre e por novo Edital de 08/02/1918 se tornou a Rua da Bica do Marquês,  com início na Rua de Dom Vasco e fim na Calçada da Ajuda.

Já na freguesia da Misericórdia, no Bairro da Bica, deparamos com a Travessa da Bica Grande, que  liga a Calçada da Bica Grande ao Largo de Santo Antoninho e deriva a sua denominação da Calçada onde nasce, assim como a Calçada da Bica Pequena, por oposição à Calçada anteriormente mencionada, indo desde o  nº 242 da Rua de São Paulo até à Rua da Bica de Duarte Belo.  Norberto de Araújo argumenta até que Bica Grande e Bica Pequena podem ter sido apenas denominações dadas com o sentido de Calçada Grande e Calçada Pequena. No entanto, perto da Calçada da Bica Grande existe um grande tanque setecentista no Pátio do Broas e junto ao nº 32 da Rua da Boavista, está a Bica dos Olhos, propriedade que foi de Duarte Belo e  à qual foram atribuídas propriedade curativas nas maleitas dos olhos, com a data inscrita de 1675 que tanto pode ser a de construção como a de remodelação.

Chegando a Arroios temos a Travessa da Bica aos Anjos, a ligar a Travessa do Forno aos Anjos à Rua dos Anjos, adiantando Norberto de Araújo que tanto esta como as Travessas da Cruz, do Maldonado e do Forno são todas anteriores ao Terramoto.

Em São Vicente a Rua da Bica do Sapato,  entre a Calçada de Santa Apolónia e a Rua dos Caminhos de Ferro, como aponta Norberto de Araújo, «deriva seu nome de uma bica ou fonte que datava de 1674, em 1853 substituida por um Chafariz nº 21, desaparecido também. Hoje [o autor escreve nos anos 30 do século XX] vês cerca do seu local um marco fontenário de recente colocação». Na mesma freguesia oferece-se o Beco da Bica do Sapato cujo topónimo deriva da proximidade à Rua da Bica do Sapato.

E finalmente chegados ao oriente, à freguesia do Parque das Nações, topamos com o Largo das Bicas, entre o Passeio dos Fenícios e o Passeio das Garças, incluído no Edital municipal de 06/05/2015 que oficializou a toponímia herdada da Expo 98.

Rua da Bica do Sapato, 1951 (Foto: Eduardo Portugal)

Rua da Bica do Sapato, 1951
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)