A republicana Avenida de Berna da Fundação Gulbenkian

1º Edital de Toponímia após a implantação da República em Portugal

1º Edital de Toponímia após a implantação da República em Portugal

A Avenida de Berna, que hoje identificamos pela presença da Igreja de Nª Srª de Fátima, a Fundação Gulbenkian ou a Universidade Nova de Lisboa,  enquanto topónimo nasceu como Rua Martinho Guimarães, dada pelo Edital municipal de 20/08/1897, para enaltecer o vereador José Martinho da Silva Guimarães, nos mandatos de 1892 a 1901, um dos edis que pugnou junto do Governo para conseguir o empréstimo que viabilizou o arranque das obras das Avenidas Novas.

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Todavia, treze anos depois, com a  implantação da República em Portugal, logo o primeiro Edital municipal após o 5 de outubro de 1910, datado de 5 de novembro de 1910, passou a denominar esta artéria como Rua de Berne. Nesta época, Berna era a capital da Suíça desde 1848 (pela constituição federal desse ano) e, como tal, era a capital de um país que, junto com a França e Portugal, eram as únicas Repúblicas na Europa daquele tempo. Refira-se ainda que no ano seguinte, por Edital de 7 de agosto de 1911, esta Rua de Berne viu a sua categoria mudada para Avenida, tanto mais que o arruamento foi crescendo em extensão ao longo do século XX.

Este primeiro Edital de toponímia da edilidade lisboeta após a implantação da República no país procurou fixar na memória da cidade esse acontecimento, quer através da Avenida da República e da Avenida Cinco de Outubro, quer através dos nomes dos chefes militar e civil republicanos – Cândido dos Reis e Miguel Bombarda -, também em Avenidas. Ressalta também que é logo neste primeiro edital que, além da Rua/Avenida de Berna, são dados mais 2 topónimos que referenciam outra república da época:  a Praça do Brasil e a Praça do Rio de Janeiro.

Finalmente, refira-se que o historiador Lúcio de Azevedo – consagrado na toponímia lisboeta pelo Edital de 14/05/1979  – viveu e faleceu no n.º 9 da Avenida de Berna.

A Avenida de Berna em 1964
(Foto: Artur João Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

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A Rua de Barcelona em retribuição da Carrer de Lisboa

Rua de Barcelona – Freguesia de Carnide
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua de Barcelona foi atribuída pelo Edital municipal de 5 de julho de 2000 na Via M da 3ª. Fase do Bairro Padre Cruz, retribuindo assim a edilidade alfacinha o gesto da cidade de Barcelona, capital da região autónoma da Catalunha, que em 1999 acrescentara à sua lista de artérias a Carrer de Lisboa.

A Rua de Barcelona está localizada junto a três topónimos de professores universitários – Rua Francisco Pereira de Moura, Rua Jorge Vieira e Rua Prof. Maria de Leonor Buescu -, como é característico no Novo Bairro Padre Cruz, na Freguesia de Carnide, tendo os 4 arruamentos sido inaugurados no dia 21 de novembro de 2000, com a presença do Alcalde de Barcelona, Joan Clos e do congénere lisboeta, João Soares.

Esta cidade catalã da famosa e movimentada artéria conhecida como Las Ramblas é também a cidade  onde a tradição e a modernidade coabitam ostentando obras do Gótico e do arquiteto modernista Gaudì, do Castell de Montjuïc  e do Camp Nou do Barça, uma grande metrópole cultural onde a toponímia comporta avingudas, camís, carrerós, carrers e carreteras, jardins, molls, parcs, paseos e passeigs, passatges, plaças e plazas, placetas, portas, torrents e vias.

Entre diversos locais, encontramos a Rua de Barcelona no Mindelo e em Casal de Cambra, a Rúa de Barcelona em Vigo, a Calle Barcelona em Madrid, Girona, Móstoles e Grã Canária, assim como no Brasil temos a Rua Cidade de Barcelona em Joinville, a Rua de Barcelona em Maringá, Paraná, Rio de Janeiro, São Paulo e  Umuarama , uma Travessa de Barcelona em Manaus, a Rue Barcelona em Avinhão (França) e a Barcelona Avenue em Salem, nos Estados Unidos da América.

Rua de Barcelona - Freguesia de Carnide (Planta: Sérgio Dias)

Rua de Barcelona – Freguesia de Carnide
(Planta: Sérgio Dias)

 

A oficialização da Praça da Embaixada de Espanha

Freguesias de Campolide , São Domingos de Benfica e Avenidas Novas (Foto: Sérgio Dias)

A Praça de Espanha foi oficializada pelo Edital municipal de 29 de janeiro de 1979, gravando a memória que o povo de Lisboa tinha deste espaço, associando-a à Embaixada de Espanha que aí permaneceu de 1919 a 1939, e a partir daí passou a ser a residência do embaixador espanhol, no Palácio de Palhavã.

A história dos residentes no Palácio de Palhavã mostra a antiga ligação (a partiu da 2ª metade do séc. XVIII) do mesmo a Espanha. Em 1660, o 2º Conde de Serzedas, Luís Lobo da Silveira, mandou construir um palácio na estrada que ligava o sítio da Pedra ao sítio de Sete Rios, especificamente nos terrenos de um cavaleiro conhecido como de Palhavã, e assim nasceu o Palácio de Palhavã.

Este Palácio passou para os Condes da Ericeira e Marqueses do Louriçal a partir de 1747, que o arrendaram a D. João V para morada dos seus três filhos que por isso ficaram conhecidos como Os Meninos de Palhavã. Depois, entre 1765 e 1769, foi a residência do Marquês de Almodóvar, o Embaixador de Espanha. No início do séc. XIX os terrenos do Palácio foram danificados  pelos franceses que lá montaram acampamento aquando das Invasões mas em 1861, foi adquirido pelo 3º conde de Azambuja ou dos Lumiares, que restaurou o Palácio de acordo com um plano do arqº Possidónio da Silva. Em 1918, os Azambujas resolveram leiloá-lo e acabou arrematado pelo Governo de Espanha, representado por Alejandro de Padilla, então Ministro Plenipotenciário que nele instalou a Embaixada do seu país e assim permaneceu até 1939, quando passou a ser em definitivo a residência do embaixador espanhol e a Embaixada foi transferida para o Palácio Mayer, na Rua do Salitre.

Freguesias de Campolide, São Domingos de Benfica e Avenidas Novas            (Planta: Sérgio Dias)

 

 

 

A Rua Cervantes e o Autoparque Madrid

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Rua Cervantes - Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Rua Cervantes – Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

A ligar a Avenida João XXI à Avenida de Madrid encontramos hoje a Rua Cervantes, atribuída em 1948, hoje paralela ao Autoparque Madrid, um topónimo de 2001.

A Rua Cervantes resultou da publicação do Edital municipal de 29 de julho de 1948, fixada no arruamento identificado então como Rua D2 da Zona compreendida entre a Alameda Dom Afonso Henriques e a Linha Férrea de Cintura. Este Edital resultou da procura da edilidade lisboeta de imprimir algum cosmopolitismo à cidade, com doze topónimos, todos ligados a personalidades de cariz internacional ou a cidades europeias e brasileiras, onde couberam os nomes dos cientistas europeus Pasteur e Marconi, do inventor americano Edison, dos escritores Vítor Hugo (francês), Afrânio Peixoto e João do Rio (brasileiros), bem como Avenidas para Madrid, Paris e Rio de Janeiro, uma praça para Londres, para além da Avenida João XXI que homenageia o único Papa português.

A Rua Cervantes e o Autoparque Madrid - Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

A Rua Cervantes e o Autoparque Madrid – Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

O castelhano Miguel de Cervantes Saavedra (Alcalá de Henares/29(?).09.1547 – 22 ou 23 (?).04.1616/Madrid) foi um romancista, dramaturgo, poeta, soldado e cobrador de impostos, autor do famoso D. Quixote de la Mancha, considerado o primeiro romance moderno, que teve licença de impressão em 26 de setembro de 1604 e alcançou um êxito enorme com 9 edições em 1605: duas em Madrid, três em Lisboa (sem o consentimento do autor) e duas em Valência.

Cervantes enquanto soldado, lutou em Itália (1569), combateu na Batalha de Lepanto (1571), nas Jornadas de Tunes e da Goleta (1573), foi feito cativo por corsários em Argel (1575 – 1580), onde conheceu Manuel de Sousa Coutinho (Frei Luís de Sousa), de quem aliás narrou os amores em Trabajos de Pérsiles y Sesinanda (1616). Regressado a Espanha passou a ser cobrador de impostos e veio para Portugal em 1581 para conseguir entrar na corte de Filipe II de Espanha e I de Portugal, tendo ficado em Lisboa até 1583 e escrito  a ideia «Para festas Milão, para amores Lusitânia».

Em 2001, pelo Edital municipal de 3 de janeiro, o espaço compreendido entre a Avenida de Madrid, Rua Cervantes e Avenida João XXI passou a denominar-se Autoparque Madrid, referindo-se o topónimo à artéria onde se abre o Autoparque, uma nova categoria de via pública essencialmente destinada ao parqueamento automóvel cuja denominação corresponde sempre ao nome da artéria que lhe dá acesso.

Autoparque Madrid - Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Autoparque Madrid – Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

 

O centenário Bairro de Inglaterra nascido em 29 de agosto de 1916

O Bairro de Inglaterra (Planta: Sérgio Dias)

O Bairro de Inglaterra
(Planta: Sérgio Dias)

Há cem anos, pelo Edital municipal de 29 de agosto de 1916, nasceu nas encostas nascentes do Monte Agudo e colinas da Penha de França o Bairro de Inglaterra, com topónimos todos relacionados com esse país, a saber: a Rua Cidade de Cardiff, a Rua Cidade de Liverpool, a Rua Cidade de Manchester, a Rua Newton (que esteve para ser Lord Byron) e a Rua Poeta Milton.

A Rua Cidade Cardiff (Foto: Sérgio Dias)

A Rua Cidade Cardiff
(Foto: Sérgio Dias)

O Bairro de Inglaterra passou a ser a denominação do Bairro de Brás Simões, já que o proprietário desta urbanização e grande comerciante de Lisboa era José Brás Simões de Sousa, que em 13 de outubro de 1913 entregou os seus arruamentos particulares à Câmara Municipal de Lisboa. O antigo nome do bairro derivava do nome do seu proprietário e os topónimos das suas artérias homenageavam familiares do mesmo, como já acontecera no Bairro Andrade e era costume na época. O novo nome espelhou as alianças que Portugal firmou no contexto da I Grande Guerra: ao incluir modernas cidades inglesas na toponímia da capital portuguesa reforçava diplomaticamente a antiga aliança de Portugal com Inglaterra.

Rua Cidade de Liverpool (Foto: Sérgio Dias)

Rua Cidade de Liverpool
(Foto: Sérgio Dias)

Recorde-se que em fevereiro de 1916 a Inglaterra, país aliado de Portugal desde o casamento de D. João I com D. Filipa de Lencastre (em 1387), pediu ao nosso país que fizesse o apresamento de todos os navios alemães que estavam ancorados na costa portuguesa, e assim feito a Alemanha respondeu com uma declaração oficial de guerra a Portugal, em 9 de março de 1916, não obstante os combates entre Portugal e a Alemanha já ocorrerem desde setembro de 1914, tanto na fronteira sul de Angola como na fronteira norte de Moçambique.

Rua Cidade de Manchester (Foto: Sérgio Dias)

Rua Cidade de Manchester
(Foto: Sérgio Dias)

Foi neste contexto que cinco meses volvidos após a declaração de guerra, na reunião de Câmara de 17 de agosto de 1916, por proposta dos vereadores Santos Neto e Feliciano de Sousa, foi deliberado atribuir topónimos relacionados com Inglaterra.

A Rua Cidade de Cardiff tomou o lugar da Rua Maria Gouveia, fixando uma cidade portuária, como Liverpool ou Lisboa, que em 1916 detinha a maioria do trânsito de carvão no mundo.

A Rua Cidade de Liverpool era antes a Rua José de Sousa, trazendo a memória da cidade inglesa cujo porto prosperou graças à presença de inúmeros mercadores oriundos de Londres, após esta ter sofrido a  grande peste de 1664 e o grande incêndio de 1666.

Já a Rua Cidade de Manchester tinha sido a Rua Isabel Leal até este Edital de 1916 trazer para Lisboa esta cidade do Noroeste da Inglaterra, próspera desde a  Revolução Industrial já que nela se aplicou a máquina a vapor na indústria têxtil logo desde 1789, o que a tornou a segunda cidade inglesa ainda no séc. XIX.

Rua Newton (Foto: Sérgio Dias)

Rua Newton
(Foto: Sérgio Dias)

À Rua Aurora foi dado o nome de Rua Lord Byron na proposta apresentada na reunião de Câmara de 17 de agosto de 1916. Mas na reunião da semana seguinte, a 24 de agosto, foi decidido mudar o topónimo para Rua Newton, já que conforme a Ata dessa reunião «Lord Byron, que sendo uma gloria de Inglaterra e um dos cantores das belezas de Cintra, e da propria capital do nosso paiz, tinha comtudo, devido ao seu temperamento, sido um poeta que agravara os portuguezes, como aliás havia procedido pela mesma forma para com os proprios inglezes. Por esse motivo a resolução da Comissão Executiva sofrera reparos por parte de alguns municipes e de um jornal importante da capital.» Assim, o Edital dos topónimos deste Bairro de Inglaterra só foi publicado a 29 de agosto, sendo a Rua Aurora desde aí designada Rua Newton, resultando assim que as duas personalidades inglesas escolhidas fossem uma da área das letras e outra da área das letras.

À Rua Margarida foi atribuído o topónimo Rua Poeta Milton, que além de ser poeta foi também um defensor da República Inglesa.

Passados 18 anos, em 1934, foram de novo pavimentadas a Rua Cidade de Liverpool, a Rua Cidade de Cardiff e a Rua Newton. O mesmo aconteceu com a Rua Poeta Milton, cuja obra foi adjudicada a Artur Fernandes Alves Ribeiro.

Rua Poeta Milton (Foto: Sérgio Dias)

Rua Poeta Milton
(Foto: Sérgio Dias)