A Rua Eugénio Salvador, o ator-dançarino e futebolista

Freguesia de Carnide
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Eugénio Salvador, que trabalhou sobretudo em teatro de comédia,  foi também ator de cinema no período longo de 1930 a 1992, em cerca de uma vintena de filmes, e desde a publicação do Edital municipal de 7 de setembro de 1993 que é o topónimo da que era a Rua A do Bairro da Horta Nova, no troço compreendido entre o lote 11 e a Estrada do Paço do Lumiar.

Foto: Artur Bourdain de Macedo, Arquivo Municipal de Lisboa

Eugénio Salvador Marques da Silva (Lisboa/31.03.1908 – 01.01.1992/Lisboa), filho do cenógrafo e empresário teatral Luís Salvador Marques da Silva e de Eugénia Maria Dias,  formou-se em Arte de Representar no Conservatório de Lisboa,  e depois especializou-se em comédia, o género que nunca mais abandonou, para além de ser dançarino e coreógrafo. Fez a sua estreia profissional em 1928, no Teatro Maria Vitória, na peça O Grão de Bico,   construindo-se como uma figura importante do teatro de revista, conseguindo ser compère, ator, encenador, diretor de cena, bailarino, ensaiador coreográfico e artista de variedades. No teatro, somou mais de 100 peças na sua carreira, de 1949 a 1988.

Destaque-se que em 1951, para a inauguração do Teatro Monumental, com a opereta de Strauss As três valsas, Eugénio Salvador para além de ator foi o ensaiador coreográfico, nomeadamente de Laura Alves, assim como seis anos depois, foi o encenador da comédia musical João Valentão (1957), onde dirigiu Mariana Vilar. Passou também pela televisão em programas como A TV Através dos Tempos ou A Feira.

No cinema, Eugénio Salvador começou logo em 1930,  numa rábula com Chaby Pinheiro e Beatriz Costa no Lisboa, Crónica Anedótica, de Leitão de Barros, realizador com quem também trabalhou no Maria Papoila (1937). Depois, integrou os elencos de mais cerca de 20 longas-metragens, em que contracenou diversas vezes com Milú e António Silva. Esteve em Cais do Sodré (1946) de Alejandro Perla. Com Perdigão Queiroga,  fez Fado, História d’uma Cantadeira (1948), Sonhar É Fácil (1951), Madragoa (1952), Os Três da Vida Airada (1952) em que também coreografou, As Pupilas do Senhor Reitor (1961) e O Parque das Ilusões (1963). Foi ator de Sol e Touros (1949) de José Buchs, de Eram Duzentos Irmãos (1952) de Armando Vieira Pinto, Um Marido Solteiro (1952) de Fernando Garcia, O Comissário de Polícia (1953) de Constantino Esteves,  Vidas Sem Rumo (1956) de Manuel Guimarães, Aqui Há Fantasmas (1964) e Bonança & C.a (1969), ambos de Pedro Martins e por último, em Aqui D’El Rei! (1992) de António Pedro Vasconcelos. Refira-se que com Henrique Campos fez ainda Duas Causas (1953), A Maluquinha de Arroios (1970) e O Destino Marca a Hora (1970).

Refira-se ainda que Eugénio Salvador foi também um exímio dançarino, que ficou conhecido a partir da sua parelha Lina & Salvador, que por exemplo, se exibia nos intervalos das sessões de filmes duplos, no Cinema Éden. Casou com o seu par, Lina Duval, de quem teve um filho (António Manuel Salvador Marques). Mais tarde, foi casado com a atriz Odete Antunes.

Por último, diga-se que o futebol, também fez parte da vida de Eugénio Salvador, jogando a extremo-esquerdo desde a  inauguração do Campo das Amoreiras do Sport Lisboa e Benfica, em 13 de dezembro de 1925. Nesse  clube fez 43 jogos e marcou 20 golos, entre outubro de 1927 e junho de 1934.

Eugénio Salvador é também topónimo nos concelhos de Almada (uma Rua, uma Travessa e uma Praceta na Charneca de Caparica), Amadora (São Brás), Cascais (Parede), Montijo, Seixal (Arrentela), Odivelas (Pontinha) e Oeiras (Queijas).

Freguesia de Carnide
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Anúncios

Pedro Bandeira Freire, fundador do Quarteto, numa Rua do Lumiar

Freguesia do Lumiar
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Com a legenda «Fundador do Cinema Quarteto/1939 – 2008», ficou Pedro Bandeira Freire a ser o topónimo da Rua Particular à Alameda das Linhas de Torres, desde a publicação do Edital municipal de 17 de março de 2017.

O cinéfilo Pedro Bandeira Freire, que fundou o Cinema Quarteto em 1975, ficou assim perpetuado na artéria da Freguesia do Lumiar que une a Alameda das Linhas de Torres à Rua Fernando Vaz, nas proximidades de diversos topónimos ligados ao Cinema, que ali foram sendo atribuídos desde que a Rua da Tobis Portuguesa ali nasceu em 1993.

Pedro Bandeira Freire (Lisboa/02.08.1939 – 16.04.2008/Lisboa), aluno do Colégio Militar, foi uma figura marcante da cultura lisboeta, que com o escritor Almeida Faria como sócio  fundou o cinema Quarteto, o primeiro complexo de quatro salas em Lisboa e no país,  com 716 lugares, em 21 novembro de 1975, no nº 16 da Rua Flores do Lima, traçado pelo Arqt.º Nuno San-Payo.

O Quarteto que usava  justamente o slogan «4 Salas / 4 Filmes», graças à programação de Pedro Bandeira Freire divulgou o mais importante cinema europeu e americano dos anos 70 e deu a conhecer em Portugal realizadores como Scorsese, Godard ou Fassbinder. Na memória dos lisboetas ficaram a exibição de A Religiosa (1967) de Jacques Rivette, um dos mais espantosos sucessos cinematográficos do pós 25 de Abril e o 2º maior êxito do Quarteto; a estreia de Martin Scorcese em Portugal com  Taxi Driver  , a partir de 15 de abril de 1977; o All That Jazz (1980) de Bob Fosse, em exclusivo e nas quatro salas, o maior êxito de sempre do Quarteto; até às maratonas de 24 horas de cinema.

Sempre amante de cinema, Pedro Bandeira Freire realizou a curta-metragem Os Lobos (1978) e o episódio televisivo O Lobisomem (1979); foi ator no Passarinho da Ribeira (1959) de Augusto Fraga e em A Bela e a Rosa (1983) de Lauro António, assim como em A Crónica dos Bons Malandros (1984), de Fernando Lopes, a partir do livro homónimo de Mário Zambujal; bem como argumentista de A Balada da Praia dos Cães (1987) de José Fonseca e Costa, a partir do romance de José Cardoso Pires; para além de ter sido crítico de cinema a partir dos anos 60,  jurado em festivais de cinema nacionais e estrangeiros, como o Internationale Filmfestspiele Berlin, colaborador da imprensa, rádio e televisão – escreveu textos para o concurso da RTP A Visita da Cornélia (1977)-, tendo exercido inclusivamente funções de consultor de cinema na RTP.

Sempre ligado à cultura de Lisboa e conhecido pelo seu sentido de humor, Pedro Bandeira Freire também  fundou a Livraria Opinião e escreveu vários livros de poesia –  como A Cidade e a Criação (1973), A linguagem do gesto (1974), Do Olhar à Palavra (1975) -, o romance Boca a boca (1998), e peças de teatro, publicadas quase na totalidade na colecção de teatro da SPA (Sociedade Portuguesa de Autores) – como O Embaixador Sem Medo (1974), As Lágrimas e os Tubarões Assinalados (1975)-Teatro, Nome de Jogo (1975) que foi Prémio Nacional da SPA ou a comédia musical Felizardo e Companhia. Modas e Confecções (1978) com Raul Solnado -, escreveu letras de canções para nomes como Simone de Oliveira e ainda deixou o volume de memórias Entrefitas e Entretelas (2007).

Pedro Bandeira Freire foi pai de Diogo, a criança que todos lembramos num cartaz do 25 de Abril a colocar um cravo no cano de uma G3.

Imagem relacionada

A Rua Chianca de Garcia, o realizador de «Aldeia da Roupa Branca»

Freguesia de Marvila
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Chianca de Garcia, o realizador de Aldeia da Roupa Branca, está desde 1984 como topónimo da Freguesia de  Marvila, tal como Artur Duarte, outro cineasta alfacinha, nas Rua L 2 e  Rua L 3 da Zona L de Chelas, pelo Edital municipal de 28 de fevereiro de 1984, tendo ambos resultado de sugestão da Cinemateca Portuguesa que a edilidade lisboeta consagrou.

Eduardo Augusto Chianca da Silva Garcia (Lisboa/14.05.1898 – 28.01.1983/Rio de Janeiro- Brasil), para além de cineasta foi também dramaturgo e jornalista, pelo que mesmo depois de se radicar no Brasil no ano de 1940, de lá continuou a enviar as suas crónicas para o  vespertino Diário de Lisboa.

Chianca de Garcia lançou em 1928, com António Lopes Ribeiro e Boto de Carvalho, a revista Imagem, em cujas páginas o segundo se bateu pelo cinema sonoro em Portugal e o primeiro acabou por dirigir a 2ª série da publicação. Como representante da imprensa cinematográfica, Chianca integrou a Comissão que em 1930 estudou e apresentou ao Ministério do Interior a proposta de criação de um estúdio para a produção de fonofilmes e para a resolução do «problema cinematográfico nacional», sendo em 1932,  um dos fundadores da Tóbis Portuguesa.

Animatógrafo, 24 de março de 1941

Como cineasta, Chianca de Garcia começou ainda no tempo do mudo, com Ver e Amar (1930). A sua obra cinematográfica prosseguiu com  Trevo de Quatro Folhas (1936) e Rosa do Adro (1938). E em 1939, consegue o seu maior sucesso com Aldeia da Roupa Branca (1939), protagonizada por Beatriz Costa, com argumento seu, planificação de José Gomes Ferreira e diálogos de Ramada Curto. Depois de radicado no Brasil, no Rio de Janeiro, são da sua autoria e dessa época as películas Pureza (1940)- a partir de um romance de José Lins do Rego – , a comédia 24 horas de sonho (1941) e o nunca concluído A Portuguesinha que pretendia fazer com Beatriz Costa. Chianca foi ainda um dos pioneiros da televisão brasileira e foi o realizador televisivo da telenovela Coração Delator (1953) para a TV Tupi.

Ainda no cinema, colaborou na realização de A Canção de Lisboa (1933) de Cottinelli Telmo – o 1º filme sonoro realizado em Portugal -, dirigiu a produção de As Pupilas do Senhor Reitor (1935) de Leitão de Barros e foi o argumentista de Appassionata (1954) do cineasta brasileiro Fernando Barros.

No teatro, com Norberto Lopes escreveu a peça A Filha do Lázaro (1923), que subiu ao palco do Politeama. Em 1937, com Tomás Ribeiro Colaço, também escreveu a revista Água Vai!, representada no Trindade. No Brasil, também foi responsável pela montagem de diversos espectáculos no Casino da Urca, no Rio de Janeiro e, por indicação de Óscar Niemeyer, organizou um cortejo histórico comemorativo do quarto centenário da Baía para a cerimónia de inauguração da cidade de Brasília (21 de abril de 1960).

Chianca de Garcia é também topónimo dos concelho de Almada, Seixal e Sintra.

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Artur Ramos, o primeiro realizador da RTP, numa Rua de Santa Clara

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Artur Ramos, o primeiro realizador efetivo da televisão portuguesa, três anos passados sobre o seu falecimento passou a dar nome a uma artéria do Vale da Ameixoeira, na Freguesia de Santa Clara.

A Rua Artur Ramos foi fixada no arruamento projetado junto à Quinta da Atalaia à Rua 6B do Vale da Ameixoeira, por intermédio do Edital municipal de 16 de setembro de 2009, com a legenda «Encenador e Realizador/1926 – 2006». Pelo mesmo Edital foram perpetuados em ruas do Vale da Ameixoeira mais dois nomes ligados ao teatro, a saber, a atriz Glicínia Quartin e o compositor de teatro de revista Frederico de Brito.

O lisboeta Artur Manuel Moreira Ramos (Lisboa/20.11.1926 – 09.01.2006/Lisboa) foi o primeiro realizador efetivo da televisão portuguesa e o responsável pelas emissões experimentais da RTP, em Palhavã, logo em 1956. A partir de 1951, cursara Realização e Montagem do IDHEC, em Paris, com uma bolsa do governo francês, cuja prova final foi a sua curta-metragem Le Bel indiférent (1954) e no ano seguinte trabalhou na televisão francesa como assistente de realização. Como cineasta,  sobressaiem os seus filmes Pássaros de Asas Cortadas (1962) e A Noite e a Madrugada (1983), a partir das obras de Luiz Francisco Rebello e Fernando Namora, bem como a série adaptada para a RTP de Retalhos da Vida de Um Médico (de 1978 a 1980), tal como Resposta a Matilde (1986) em colaboração com Diniz Machado.  Foi ainda o cineasta autor da média-metragem Before Breakfast  (1961) de E. O’Neill para a ORTF; de L’ Anglaise (1963) para a Paris Match Television; da curta Tragédia do Monte Pereira (1975); de séries de 3 episódios para a RTP: a documental Um Passeio pelo Teatro Português (1987) e A Relíquia (1987) de Eça de QueirozBâton e Vem aí o Pai Natal (ambas em 1988).

Artur Ramos também fez uma carreira muito importante de realizador de teatro televisivo. Para a RTP, logo em 1957, começa a especializar-se em teatro televisivo e escolheu obras de Tchekhov, Garrett, Anselmo Lopes Vieira, Bernard Shaw, Calderón de la Barca, Carlos Selvagem, Cervantes, Claude Spaak, Gervásio Lobato, Gil Vicente, João Pedro de Andrade, John Synge, Lope de Vega, Maeterlinck, Mark Twain, Miguel Barbosa, Oscar Wilde, Pierre Barbier, Teresa Rita,  Thortnton Wilder. Em 1958, realizou também a experiência inédita de transmitir peças teatrais em direto de cenários naturais , com o Amor Posto à Prova  de Marivaux na escadaria do Seminário dos Olivais e, O Doente Imaginário de Molière no Palácio Centeno.

Como encenador, Artur Ramos fundou as companhias teatrais GAT-Grupo de Ação Teatral e a do Teatro Maria Matos, para além de se ter destacado  por ter sido quem primeiro estreou em Portugal Os Dias Felizes, de Samuel Beckett, no ano de 1968. Trabalhou para o Teatro Nacional em 1961, 1967 e 1969; para Solnado no Teatro Villaret em 1965 e 1966; bem como na dramaturgia de ópera, no Grupo Experimental de Ópera de Câmara (1963, 1968 e 1969) que fundou. Em 1972, foi proibida a sua A Mãe, bem como Auschwitz, Oratório em 11 cantos foi retirada de cena pela PIDE. No ano seguinte, ganhou o 1º prémio do concurso da FNAT, com o Retábulo do Flautista, pelo Grupo Teatro da Oliva (de São João da Madeira), de imediato proibida pela censura. Voltou ao teatro a partir de 1977, para encenar nos Bonecreiros, no Teatro da Bugiganga, na Casa da Comédia, no Teatro Nacional, no Grupo de Teatro de Campolide já estabelecido em Almada, no Teatro São Carlos, na Companhia Teatro Estúdio de Lisboa e no Teatro Experimental de Cascais.

Como cidadão, Artur Ramos aderiu ao PCP em 1957, o que lhe valeu em 1961 o despedimento político da RTP, justificado pelo pacifismo da realização da peça O Herói e o Soldado de Bernard Shaw. Em 1969, na primavera marcelista, regressou à RTP como free-lancer e assim realizou mais peças, de António Chiado, Francisco Manuel de Melo, Gil Vicente, Mrozeck, Paddy Chayeefsky, Reginald Rose, A. Miller, Manuel da Fonseca e Brecht. Após o 25 de Abril, foi nomeado Diretor de Programa da RTP, até agosto desse ano, passando depois a dirigir o Departamento de Programas Teatrais. Após o 25 de novembro de 1975 voltou a ser despedido da RTP por motivos políticos e reintegrado em 1986, por sentença judicial.

Este lisboeta, que foi pai de outra cara conhecida da televisão portuguesa – Helena Ramos -, estudou no Liceu Camões e licenciou-se em Filologia Germânica na Faculdade de Letras de Lisboa. Foi ainda crítico de teatro na Seara Nova, tradutor, dirigente da Sociedade Portuguesa de Autores e professor das Escolas de Teatro e Cinema do Conservatório Nacional (1982) e de um curso na Escola de Teatro do Centro Cultural de Évora (1986).

Freguesia de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

A Rua Vitorino Nemésio, das ilhas, se bem me lembro

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Vitorino Nemésio da açoriana Ilha Terceira, escritor e professor da Faculdade de Letras, de rosto conhecido pelo seu programa televisivo Se bem me lembro, está desde o ano do seu falecimento perpetuado numa artéria da freguesia de Santa Clara.

Foi pelo Edital municipal de 20 de novembro de 1978 que passou a ser o topónimo da Rua B da Quinta de Santa Clara à Ameixoeira, o mesmo que colocou na Rua A o também escritor Jorge de Sena.

Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva (Ilha Terceira-Praia da Vitória/19.12.1901 – 20.02.1978/Lisboa), filho de Vitorino Gomes da Silva e de Maria da Glória Mendes Pinheiro, notabilizou-se como professor universitário e escritor.

Na sua carreira académica foi também diretor da Faculdade de Letras de Lisboa, de 1956 a 1958, bem como agraciado como Doutor Honoris Causa pelas Universidades de Montpellier e Ceará, sendo também sócio efetivo da Academia das Ciências de Lisboa. Cumpriu o serviço militar, como voluntário, a partir de 1919 e concluiu o liceu em Coimbra, em 1921. Inscreveu-se em Direito em Coimbra mas, três anos mais tarde, trocou pelo curso de Ciências Histórico-Filosóficas, e no ano seguinte, passou para o curso de Filologia Românica. Em 1930 transferiu-se para a Faculdade de Letras de Lisboa onde concluiu, em 1931, o curso de Filologia Românica, e desde logo começou a ensinar Literatura Italiana e, mais tarde, Literatura Espanhola. Doutorou-se em 1934 com a tese A Mocidade de Herculano até à Volta do Exílio. Também foi professor na Universidade Livre de Bruxelas, entre 1937 e 1939, assim como no Brasil, em 1958. Publicou diversos ensaios de que se salientam Sob os Signos de Agora (1932), Relações Francesas do Romantismo Português (1936) ou Conhecimento de Poesia (1958).

Na carreira literária, pontificou na revista Presença a partir de 1930 e tanto foi poeta como cronista ou romancista. É o autor de obras incontornáveis como o romance Mau Tempo no Canal (1944) –  galardoado com o Prémio Ricardo Malheiros – ou as crónicas de Corsário das Ilhas (1956) tendo sido o seu primeiro livro de poemas: Canto Matinal (1916). Na poesia, destaquem-se também Eu, Comovido a Oeste (1940), Limite de idade (1972), Sapateia Açoriana, Andamento Holandês e Outros Poemas (1976) e o póstumo Caderno de Caligraphia e outros Poemas a Marga (2003), tal como na ficção Varanda de Pilatos (1926) ou Quatro prisões debaixo de armas (1971).

Na televisão ficou célebre pelo seu programa semanal Se bem me lembro, de 1970 a 1975, onde de postura e forma descontraída, durante meia hora em horário nobre, discorria sobre mentalidades e cultura em geral. Mas na comunicação social tinha uma história longa: fundou e dirigiu Estrela d’Alva. Revista Literária Ilustrada e Noticiosa (1916), a Revista Portugal (1937) e dirigiu o jornal O Dia entre 11 de dezembro de 1975 a 25 de outubro de 1976; com Branquinho da Fonseca e Gaspar Simões fundou a revista Tríptico (1924) e com Paulo Quintela, Cal Brandão e Sílvio Lima, Gente Nova. Jornal Republicano Académico (1927); foi redator de A Pátria, A Imprensa de Lisboa, Última Hora (1921), do Humanidade de Coimbra (1925); e ainda colaborou na revista Bizâncio (1923), na Seara Nova (1928), em O Diabo (1935), regularmente com uma rubrica no Diário Popular (1946), na revista Vértice (1947) e também regularmente na revista Observador (1971).

Foi agraciado com o Grande Oficialato da Ordem da Infante D. Henrique (1961) e da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1967) de que também recebeu,  a título póstumo, a Grã-Cruz (1978). Foi ainda Prémio Nacional de Literatura em 1965 e Prémio Montaigne em 1974.

Está também homenageado na toponímia de sul a norte de Portugal: em Abrantes, Albufeira, Alcabideche, Alhos Vedros, Amadora, Amora (Seixal), Arcozelo, Arrifana (Santa Maria da Feira), Azeitão, Baixa da Banheira, Beja, Braga, Campo Maior, Carcavelos, Cascais, Charneca da Caparica, Coimbra, Corroios, Eixo (Aveiro), Entroncamento, Ermesinde, Esmoriz, Estoril, Évora, Famões (Odivelas), Fânzeres (Gondomar), Ferreira do Alentejo, Figueira da Foz, Fontinhas (Praia da Vitória), Gaio-Rosário, Loures, Lousã, Maia, Mangualde, Matosinhos, Mem Martins, Montijo, Odivelas, Oeiras, Ovar, Palmela, Parede (Cascais), Pinhal Novo, Portalegre, Porto, Porto Martins (Praia da Vitória), Póvoa de Santa Iria, Póvoa de Santo Adrião (Odivelas), Queluz, Quinta do Conde (Sesimbra), Ramada (Odivelas), Regadas (Fafe), Rio de Mouro, Rio Tinto (Gondomar), São Mamede Coronado, Samora Correia, São Domingos de Rana, São João da Madeira, São João da Talha (Loures), São Julião do Tojal (Loures), Sobrado (Valongo), Sobreda (Almada), Trofa, Valbom (Gondomar), Vila Nova da Barquinha, Vila Praia de Âncora, Vilar de Andorinho (Vila Nova de Gaia) e Vilar do Paraíso (Vila Nova de Gaia).

David Mourão-Ferreira, o «escrevivente» do amor feliz, na toponímia de Lisboa

Freguesia do Lumiar
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Poeta, romancista, novelista, contista, dramaturgo, professor, ensaísta, cronista, tradutor e crítico literário, assim era David Mourão-Ferreira que tanto na vida como na escrita celebrou o amor, o erotismo e o corpo em palavras porque, como ele dizia, tinha «o ofício de escreviver»: precisava de viver para escrever e de escrever para viver.

David Mourão-Ferreira começou por ser o topónimo de uma Rua lisboeta através do Edital Municipal de 18 de novembro de 2003, aquela que hoje conhecemos como Rua da Quinta das Conchas, mas por se entender que o escritor devia estar consignado num arruamento de maior extensão passou o seu nome para uma Avenida – que era a Rua 3 da Malha 14,6,1,2 e 3 do Alto do Lumiar, também na freguesia do Lumiar, pelo Edital de 22 de julho de 2005, ficando a unir a Rotunda onde confluem a Avenida Carlos Paredes e a Rua General Vasco Gonçalves ao Eixo Central. 

Com David Mourão-Ferreira são dez os escritores que estão homenageados em Avenidas de Lisboa: Carlos Pinhão, Eugénio de Andrade, Fernando Pessoa, Guerra Junqueiro, José Régio, Júlio Dinis, Miguel Torga, o Poeta Mistral e Vergílio Ferreira.

David de Jesus Mourão-Ferreira (Lisboa/24.02.1927-16.06.1996/Lisboa), filho de David Ferreira – secretário do diretor da Biblioteca Nacional – e de Teresa de Jesus Mourão-Ferreira, apesar das suas múltiplas facetas ficou mais conhecido como o poeta do amor  e da sensualidade. Nasceu e viveu até aos 15 anos no bairro da Lapa, frequentou o Colégio Moderno e já nas brincadeiras de infância fazia peças de teatro e jornais que o seu irmão mais novo –  Jaime Alberto – ilustrava. Licenciou-se em 1951 em Filologia Românica, na Faculdade de Letras de Lisboa,  onde veio a ser professor e catedrático de Teoria da Literatura e Literatura Portuguesa.

Começou a sua vida literária na poesia com a A Viagem (1950) a que somou, entre outros, Tempestade de Verão (1954) que foi Prémio Delfim Guimarães, Os Quatro Cantos do Tempo (1958), In Meae ou A Arte de Amar (1962), Cancioneiro de Natal (1971) que foi Prémio Nacional de Poesia, Matura Idade  (1973),  Sonetos do Cativo (1974), Os Ramos e os Remos (1985), No Veio de Cristal (1988) que foi Grande Prémio Inasset de Poesia, Nos Passos de Pessoa (1988) que ganhou o Prémio Jacinto Prado Coelho e uma antologia erótica: Música de Cama (1994).

São também de destacar as novelas Gaivotas em Terra (1959) com o Prémio Ricardo Malheiros, a peça O Irmão (1965) que foi Prémio de Teatro da Casa da Imprensa, os contos Os Amantes (1968), As Quatro Estações (1980) premiada pela Associação Internacional dos Críticos Literários, o romance Um Amor Feliz (1986) que recebeu o  Prémio de Narrativa do Pen Clube Português, o Prémio D. Dinis da Fundação da Casa de Mateus, o Prémio de Ficção Município de Lisboa, o Grande Prémio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores e a Medalha Oskar Nobiling da Academia Brasileira de Letras. Refira-se ainda  Duas Histórias de Lisboa (1987) e o CD Um Monumento de Palavras que David Mourão-Ferreira gravou com a sua voz.

Com o contributo determinante de Alain Oulman, David Mourão-Ferreira levou os seus poemas também para o fado e para a voz de Amália, destacando-se Barco Negro (1954), AbandonoEspelho Quebrado, SombraAnda o Sol na Minha Rua, Nome de Rua ou Maria Lisboa (1961). Depois, fez também letras para  Simone de Oliveira, Francisco Pessoa, Mercês da Cunha Rego, Dário de Barros ou Luís Cília, apesar de ter sido alvo de uma campanha de difamação e de um processo judicial, por ter subscrito a apresentação da Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, organizada por Natália Correia e prefaciado a tradução de A Filosofia da Alcova do Marquês de Sade.

Colaborou em jornais e revistas, como o Diário Popular ou a Seara Nova onde em 1945 publicou os seus primeiros poemas-, para além de ter sido um dos fundadores da revista literária Távola Redonda (1950-1954)  que dirigiu com António Manuel Couto Viana e Luís de Macedo. Em 1967, tinha a rubrica «Poesia para Todos» no Diário de Lisboa e após o 25 de Abril dirigiu A Capital e foi diretor-adjunto de O Dia. Na Emissora Nacional foi o autor de Música e Poesia nos anos 60, década em que para a RTP fez Hospital das Letras e Imagens da Poesia Europeia, assim como nos anos 70, O Dom de Contar.

Desempenhou ainda as funções de Secretário de Estado da Cultura (nos anos de 1976, 1977 e 1979), sendo dele o despacho que criou a Companhia Nacional de Bailado. A partir de 1981 dirigiu o Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Fundação Calouste Gulbenkian e presidiu à Associação Portuguesa de Escritores (1984 – 1986) e ao  Pen Club Português (1991).

Do primeiro casamento nos anos 50, com Maria Eulália , sobrinha de Valentim de Carvalho, teve dois filhos: David João e Adelaide Constança. Em 1966 voltou a casar, com Maria do Pilar de Jesus Barata.

Foi agraciado como Chevalier de L´Ordre des Arts et des Lettres (1973), a Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco (1976), como Grande Oficial (1981) e a Grã-Cruz (1996) da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, o título de Cidadão Honorário de Cascais e a Medalha de Ouro da Câmara Municipal de Oeiras (1996), o Prémio de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores (1996) e a abertura da Cátedra David Mourão-Ferreira na Universidade italiana de Bari (2005).

Em Lisboa, dá também o seu nome a uma biblioteca na freguesia do Parque das Nações. O escritor integra também a toponímia de Alcabideche, Alhos Vedros, Amadora, Amora (Seixal), Barcarena, Beja, Braga, Caparica, Cascais, Corroios, Eixo (Aveiro), Évora, Fafe, Faro, Odivelas, Pombal (Leiria), Portimão, Póvoa de Santa Iria, Prior Velho, Quinta do Anjo, Regadas (Braga), Rio Tinto, Santa Iria de Azóia, Santarém, Santo António dos Cavaleiros, São Domingos de Rana, São Julião do Tojal, Sesimbra, Sobreda (Almada), Vialonga e Vila Nova da Barquinha.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

A Rua do maestro Tavares Belo que regeu a Orquestra RTP no 1º Festival da Canção

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Na urbanização da antiga Quinta de Santa Susana e dos Castelinhos nasceu a Rua Tavares Belo – maestro e compositor que regeu a Orquestra RTP no 1º Festival da Canção (1964) -, como topónimo da Rua Projetada à Estrada de São Bartolomeu, por via do Edital municipal de 3 de dezembro de  2012.

Nas proximidades já existia desde 2001 a Rua Fernando Cabral, a homenagear também um maestro.

Armando Alberto Tavares Belo (Faro/20.11.1911 – 13.12.1993/Cascais), foi um maestro e compositor que se distinguiu especialmente na área da música ligeira, tendo composto para e/ou acompanhado artistas como Alice Amaro, Anita Guerreiro, Beatriz Costa, Corina Freire, Deolinda Rodrigues, Laura Alves, Luís Piçarra, Madalena Iglésias, Maria ClaraMaria de Lourdes Resende, Max ou Simone de Oliveira, entre outros.

Praticamente autodidata, salvo umas aulas particulares de música que teve até aos 9 anos, profissionalizou-se  aos 17 anos como pianista, no Café Montanha de Faro, para depois integrar orquestras que trabalhavam no Casino da Figueira da Foz,  Casino Estoril e no lisboeta Maxime. De 1946 e até 1974, foi o regente principal da Orquestra de Variedades da Emissora Nacional, convidado que foi pelo maestro Belo Marques para o substituir. Tavares Belo também criou uma orquestra de swing que nos  anos 40 e 50 conseguiu assinalável êxito. Em 1964, dirigiu a Orquestra da RTP no 1º Festival RTP da Canção e três anos depois, no Olympia de Paris, dirigiu a orquestra das Olimpíadas da Canção, com artistas portugueses, como Amália Rodrigues e Carlos Paredes. Compôs ainda obras de cariz erudito, de que são exemplo dois concertos para piano e orquestra, assim como as bandas sonoras dos filmes Duas Causas (1952) e Rosa de Alfama (1953), ambos de Henrique Campos, bem como música para 15 histórias infantis de Odette de Saint-Maurice.

O maestro Tavares Belo foi agraciado com o grau de Oficial da Ordem do Infante D. Henrique e as medalhas de Mérito Municipal das cidades de Lisboa e  de Faro. Está também presente na toponímia de Faro, Fernão Ferro e Parede.

Freguesia de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua do compositor basco Shegundo Galarza

Freguesia do Lumiar
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Shegundo Galarza, compositor basco que com a sua orquestra de violinos esteve presente na televisão portuguesa desde o seu começo e celebrizou o restaurante Mónaco, está desde o ano do seu falecimento perpetuado numa artéria da Freguesia do Lumiar, no núcleo dedicado à toponímia musical.

A Rua Shegundo Galarza, que termina junto à Rua Ferrer Trindade, foi o topónimo dado à junção da Rua B com a  Rua 7.1 do Alto do Lumiar num único arruamento. Tal aconteceu através da publicação do Edital municipal de 15 de dezembro de 2003, que nas proximidades atribuiu também a ruas os nomes dos compositores Belo Marques e Nóbrega e Sousa, dos cantores Luís Piçarra e Arminda Correia e da violoncelista Adriana de Vecchi.

Shegundo Ramón Galarza Arace (Espanha – Guipuzcoa/07.09.1924 – 04.01.2003/Lisboa), maestro e compositor de origem basca, filho único de um comerciante, desde 1948 começou a residir em Lisboa e em mais de 50 anos de carreira deixou uma marca de qualidade na música ligeira portuguesa.

Concluiu o conservatório de Bilbau,  ganhou um prémio de piano e aos 18 anos começou a percorrer a Europa em concertos. Chegou a Portugal aos 24 anos e a partir de 25 de novembro de 1948 passou a atuar diariamente no Casino Estoril, até maio de 1950. Nessa década tocou ainda em diversos restaurantes portugueses, de Luanda, da então Lourenço Marques (hoje Maputo), de Joanesburgo (1952 -1954) até se estabelecer no Restaurante Mónaco (novembro de 1956 a 1974), de que era sócio com o empresário galego Manuel Outerelo Costa, e que em Portugal introduziu o jantar dançante.

Em paralelo, integrou as mais prestigiadas orquestras ligeiras portuguesas e teve a sua e um conjunto em nome próprio. Logo em 1956, a RTP convidou-o, por via do maestro José Atalaya, a protagonizar um programa semanal, com a sua orquestra de violinos, que atingiu 100 emissões e ao longo da sua carreira colaborou com a RTP em programas de música e em arranjos musicais de várias longas metragens e de centenas de documentários.

Gravou os seus 3 primeiros discos para a editora Melodia (1951) com temas de Frederico Valério e seus, mostravam desde logo os vários mundos do músico, que sempre acompanhou as tendências internacionais do seu tempo; mais 6 para a editora Decca  (1952 -1954), assinou a gravação de 4 com a editora Estoril, gravação Fado Rossio para a Fonomat, de Lisboa,  em 1959. Como solista ou com a sua orquestra de violinos, gravou cerca de 50 discos em em Portugal e em Espanha, para editoras como a Alvorada, Belter, Estoril, Marfer, Orfeu, RCA, Roda e Voz do Dono. Em 1996, Shegundo Galarza gravou um disco em que interpretava, ao piano, temas como Lisboa Antiga, Madeira, Açores, Moçambique, Aldeia da Roupa Branca e em 2001 editou Sorrisos do Tempo.

Como orquestrador trabalhou para o Festival Eurovisão da Canção ou da OTI – tendo dirigido a orquestra da Eurovisão para Playback de Carlos Paião (1981) – e trabalhado com outros inúmeros artistas como Amália, Cândida Branca FlorDoutor Lello Minsk, Frei Hermano da Câmara, Herman José, Jorge Fontes, José Cid, Lara Li, Madalena Iglésias, Marco Paulo, Maria da Fé, Maria de Lurdes Resende, Max, Natália de Andrade, Paulo de Carvalho, Quim Barreiros, TonichaTony de Matos ou Tozé Brito.

Na sua vida pessoal, foi pai da enfermeira Teresa Galarza (1952) e do também músico Ramón Galarza (1957).

Shegundo Galarza foi homenageado com uma festa dos 50 anos de carreira em Portugal (1998) no Casino Estoril e está presente também na toponímia de Paço de Arcos.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

O Jardim do ensaísta Eduardo Prado Coelho, nos Olivais

Freguesia dos Olivais
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

O ensaísta,  crítico literário, cronista  e professor universitário Eduardo Prado Coelho, autor de Tudo o que não escrevi, e falecido há 11 anos, dá o seu nome a um jardim dos Olivais, junto à Avenida Dr. Francisco Luís Gomes desde o ano passado, por via da publicação do Edital municipal de 19 de junho de 2017.

Eduardo Prado Coelho em 1998
(Foto: Nacho Doce, Arquivo Municipal de Lisboa)

Eduardo de Almeida do Prado Coelho (Lisboa/29.03.1944 – 25.08.2007/Lisboa), filho de  Dália dos Reis de Almeida e do Prof. Jacinto Prado Coelho – também presente na toponímia de Lisboa – licenciou-se em Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa e nesta mesma universidade fez o seu doutoramento com a tese «A Noção de Paradigma nos Estudos Literários» para se tornar um professor universitário e ensaísta cuja obra mais destacada foi o seu diário Tudo o que não escrevi (1992).

Enquanto docente exerceu na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, entre 1970 e 1983, e partir do ano seguinte no Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade Nova de Lisboa. Foi ainda professor convidado no Curso de Comunicação Social e Cultural da Universidade Lusófona, de mestrados do ISCTE e ainda do Departamento de Estudos Ibéricos da Universidade da Sorbonne, Paris III (1988).

Eduardo Prado Coelho desempenhou ainda funções públicas como Diretor-Geral de Acção Cultural do Ministério da Cultura (1975 e 1976), conselheiro cultural na Embaixada de Portugal em Paris (entre 1989 e 1998), comissário de Literatura e Teatro na Europália Portuguesa (1990), diretor do Instituto Camões em Paris (1997 e 1998) e comissário da participação portuguesa no Salon du Livre (2000). Por outro lado, também integrou o Conselho Diretivo do Centro Cultural de Belém, o Conselho Superior do ICAM – Instituto do Cinema, Audiovisual e Multimédia,  o Conselho de Opinião da RDP e da RTP, para além de como colaborador do Centro Nacional de Cultura ter organizado os encontros Um Livro um Autor.

Da sua vasta colaboração em jornais e revistas refira-se a sua crónica diária no Público – «O Fio do Horizonte» – durante dez anos até à data da sua morte, tendo sido colaborador deste jornal desde o primeiro número. Dos seus ensaios destacam-se O Reino Flutuante A Palavra Sobre a Palavra (ambos em 1972), A Letra Litoral : ensaios sobre a literatura e seu ensino (1978), Os Universos da Crítica : paradigmas nos estudos literários (1982), Vinte anos de cinema português : 1962-1982 (1983), A Mecânica dos Fluidos : literatura, cinema, teoria e A “nouvelle critique” em Portugal (ambos em 1984), A Noite do Mundo (1988), O Cálculo das Sombras (1997), assim como no ano de 2004 O Fio da Modernidade, Diálogos sobre a fé com D. José Policarpo, Dia Por Ama, com Ana Calhau e A Razão do Azul, para em  2006 sair Nacional e Transmissível.

Na sua vida pessoal foi viveu com Maria Eduarda Colares – com quem teve uma filha, a jornalista Alexandra Prado Coelho – , Teresa Coelho, Maria da Conceição Caleiro e Maria Manuel Viana.

Foi galardoado com o Prémio P.E.N. Clube Português de Ensaio (1985), o Grande Prémio de Literatura Autobiográfica da Associação Portuguesa de Escritores (1996), a Medalha de Mérito Cultural (1997) o Grande Prémio de Crónica João Carreira Bom e o Prémio Arco-íris da Associação ILGA Portugal (ambos em 2004), para além de integrar a toponímia de Albufeira, Amora (Seixal) e Carnaxide.

[Agradecemos a  Maria Manuel Viana a gentil validação de texto]

Freguesia dos Olivais
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

Prof. Veiga Ferreira, o arqueólogo Do Paleolítico ao Romano, numa Rua do Lumiar

Freguesia do Lumiar
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

O  Professor Veiga Ferreira, o arqueólogo autor do programa de televisão Do Paleolítico ao Romano, está desde 1998 na toponímia de uma Rua da Freguesia do Lumiar: na artéria formada pelo Impasse A entre a Rua Prof. Aires de Sousa e a Azinhaga das Galhardas mais a Rua A, entre a Rua Prof. Barbosa Sueiro e a Rua Prof. Pinto Peixoto.

Octávio Reinaldo Santos da Veiga Ferreira (Lisboa/28.03.1917 – 14.04.1997/Lisboa) foi um arqueólogo, geólogo e paleontólogo, precursor da prática da interdisciplinaridade, que se dedicou especialmente ao período Calcolítico e ao Campaniforme – patente desde logo no seu primeiro artigo: «Acerca da Cultura do vaso campaniforme em Portugal» (1954)-, tendo ficado particularmente conhecido do público pela sua obra de síntese «Portugal pré-histórico – seu enquadramento no Mediterrâneo» (1981), sucesso que repetiu no ano seguinte ao apresentar na RTP o programa intitulada «Do Paleolítico ao Romano», a que se seguiu o programa com o título «Os Romanos Entre Nós» (1983).

Licenciado em Engenharia Técnica de Minas (1941), consegue o seu primeiro trabalho, em topografia, em regime de tarefa para a Câmara Municipal de Lisboa e em 1942 passou a trabalhar para a Comissão Reguladora do Comércio de Metais, assim como decidiu frequentar o curso de Pré-História  de  Henri Breuil, na Faculdade de Letras de Lisboa, onde conheceu George Zbyszewski com quem viria a desenvolver  um longo e frutuoso trabalho de campo que começou na estação arqueológica de Vila Pouca (Monsanto).  Em março de 1944 ingressou como técnico na Direção Geral de Minas e Serviços Geológicos de onde transitará em 1950, a convite de Zbyszewski, para os Serviços Geológicos de Portugal. Com José Formosinho e Abel Viana trabalhou na escavação a partir de 1945 da necrópole de Caldas de Monchique, demonstrando pela 1ª vez a evolução arquitetónica e de artefatos do Neolítico médio até ao Calcolítico, a partir do que publicou o seu 1º trabalho de arqueologia: «A estação pré-histórica do Buço Preto ou Esgravatadoiro», em 1946.

A partir de 1950, com Leonel Trindade , diretor do Museu Regional de Torres Vedras, fez durante mais de 20 anos prospecção arqueológica e descobriram, por exemplo, as necrópoles pré-históricas de Cabeço da Arruda, Cova da Moira e Serra da Vila. A partir de 1952 foi destacado pelos Serviços Geológicos para trabalhar nos concheiros mesolíticos de Muge, com Jean Roche. Com Abel Viana e Ruy Freire de Andrade investigou os testemunhos da mineração romana de Aljustrel, em 1954, e a partir deste ano, em equipa com Zbyszewski, fez a arqueologia da antiga cidade romana de Egitania, durante 15 anos. Em 1957, com Fernando Almeida, escavou diversos dólmens da Beira Baixa; com Albuquerque e Castro e Abel Viana, estendeu os estudos do Megalitismo à bacia do Vouga; com  Camarate França estudou o monumento Calcolítico de Samarra (em Sintra) e com Afonso do Paço, as estações pré-históricas de Fontalva (Alto Alentejo) . Da colaboração com Vera Leisner e George Zbyszewski resultaram dados do dólmen de Casaínhos (Loures), da sepultura da Praia das Maçãs (Sintra), dos hipogeus de Palmela, dos monumentos megalíticos de Trigache e A-da-Beja (1959) e as primeiras datas de radiocarbono de megálitos portugueses (1963).

Ainda na década de sessenta, publicou as pinturas rupestres da serra dos Louções a que juntará as insculturas rupestres de Mora em 1977 e da Citânia de Santa Luzia em 1981. Com Camarate França e Jean Roche avançou no estudo do Paleolítico Superior,  na Gruta das Salemas e na Gruta Nova da Columbeira, a do 1º dente de neandertal descoberto. No ano de 1964 editou o 1º estudo monográfico sobre o povoado fortificado calcolítico do Zambujal (Torres Vedras) e dedicou memórias necrológicas a Abel Viana (1964), Afonso do Paço (1968 e 1970), Maxime Vaultier (1970) e Joaquim Fontes (1971). Em 11 de maio de 1965 doutorou-se na Sorbonne com a tese «La culture du vase campaniforme au Portugal», sob orientação de Jean Piveteau. Em 1967, com outros professores, fundou a Associação de Estudos Arqueológicos e Etnológicos, onde ministrou cursos livres a partir de 1972: Introdução à Arqueologia e Especialização em Pré-História. De 1968 a 1972, com Vítor Guerra, inventariou os monumentos megalíticos da Figueira da Foz  e em 1969 publicou a Correspondência epistolar entre Martins Sarmento e Nery Delgado.

Nos anos 70, publicou  o monumento do Escoural, com Manuel Farinha dos Santos, enquanto no Pai Mogo (Lourinhã), com K. Spindler, escavou a única tholos calcolítica em Portugal. De 1967 até 1973 foi conservador de Arqueologia do Museu dos Serviços Geológicos, a título gratuito, pelo que publicou o Guia descritivo da Sala de Arqueologia do Museu dos Serviços Geológicos (1982). Em 1971 foi Vice-Presidente da Associação de Arqueólogos Portugueses e de 1973 a 1976 foi Arqueólogo-Consultor da Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais e escavou o acampamento neolítico de Cabrosa (1976) e da tholos de Tituaria, em Mafra (1978). Nesta década aumentou também a sua atividade como docente, através de um curso de iniciação à Arqueologia Pré-Histórica no Museu de Etnologia Dr. Joaquim Manso e de um curso piloto do Património Cultural de Prospeção Arqueológica de pós-graduação para licenciados, ambos em 1976, assim como dois anos depois foi convidado pelo Prof. Oliveira Marques para ser professor de Pré-História da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Nascido em Alcântara, Octávio Veiga Ferreira viveu grande parte da sua infância em Terrugem, até aos 11 anos se fixar em Lisboa. Aos 15 acompanhou as escavações de Manuel Heleno na necrópole pré-histórica de Carenque.  Na sua vida particular, casou com Maria Luísa Fernandes Bastos em 1941. Dela teve 2 filhas – Seomara (1942) e Ana Maria (1945) – cujo padrinho foi o Doutor Zbyszewski. Em 1945 subscreveu as listas de apoio do MUD – Movimento de Unidade Democrática , o que lhe custou ser chamado a prestar declarações na PIDE e o congelamento das promoções nos 16 anos seguintes, isto é, até 1962.

No território nacional, o Prof. Veiga Ferreira só está homenageado na toponímia de Lisboa mas foi agraciado com as Medalhas de Mérito de Rio  Maior e de Cascais, a Medalha de Ouro do Oeiras e com um monumento inspirado num cromeleque no jardim de Rio Maior.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)