O Banco de Portugal e a Rua do Comércio

(Imagem: República, 25 de abril de 1974, 3ª edição )

Cerca das 5:45 as forças da EPC comandadas por Salgueiro Maia instalaram-se  na Praça do Comércio, assumindo simbolicamente o poder dos Ministérios e cercando outros pontos estratégicos próximos, como o Banco de Portugal, Bruxelas de nome de código.

No dia 25 de Abril, a coluna da EPC- Escola Prática de Cavalaria comandada por Salgueiro Maia, chega à Baixa de Lisboa, cerca os ministérios e ocupa a Praça do Comércio (Toledo, de nome de código), bem como outros pontos estratégicos da zona, como o Banco de Portugal na Rua do Comércio e a Rádio Marconi, na paralela Rua de São Julião. Instruendos da Escola Prática de Cavalaria pertencentes ao 5º pelotão de atiradores tomaram posição entre a Praça do Município, Rua do Comércio e  Largo de São Julião. Ao Posto de Comando instalado na Pontinha comunicou Salgueiro Maia «maior de Charlie Oito ao Posto de Comando: Ocupámos Toledo e controlamos Bruxelas e Viena.» Conforme  Salgueiro Maia declarou na altura ao jornalista Adelino Gomes,  «Estamos aqui para derrubar o Governo».

A Rua do Comércio, sede do Banco de Portugal – banco central da República Portuguesa – nasceu como Rua Nova de El Rei, pelo primeiro diploma de toponímia de Lisboa, de 5 de novembro de 1760, e passou a ser a Rua do Comércio pelo primeiro Edital de toponímia da Câmara Municipal de Lisboa, após a implantação da República em Portugal, em 5 de novembro de 1910.

O decreto régio de D. José I de 5 de novembro de 1760 consagrou as denominações da Baixa Pombalina e nele foi atribuído o topónimo Rua Nova de El Rei. No século seguinte, por Edital municipal de 8 de junho de 1889, foi retirado o atributo «Nova» e passou a denominar-se Rua de El Rei. E finalmente, pelo primeiro Edital camarário de 5 de novembro de 1910, um mês após a implantação da República, tornou-se a Rua do Comércio e assim ficou até aos nossos dias.

Em Lisboa, como no resto do país, as placas toponímicas serviram o propósito de divulgação dos valores e figuras republicanas, pelo que se procurou na época substituir os topónimos relacionados com a Monarquia. Assim, temos nesse primeiro Edital de 1910, em Lisboa, a Rua do Comércio a substituir a Rua de El Rei, a Avenida Almirante Reis a renomear a Avenida Rainha Dona Amélia, a Avenida Cinco de Outubro a ser a nova denominação da Avenida António Maria de Avelar, a Avenida Miguel Bombarda a tomar o lugar da Avenida Hintze Ribeiro, a Avenida da República a ficar na Avenida Ressano Garcia, a Avenida Elias Garcia a substituir a Avenida José Luciano, a Praça Afonso de Albuquerque a renomear a Praça D. Fernando, a Rua dos Fanqueiros a ser a nova designação da Rua da Princesa e a Rua da Prata a tomar o lugar da Rua Bela da Rainha.

(Imagem: Diário Popular, 25 de abril de 1974)

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A Rua do comerciante e vereador lisboeta Sebastião Saraiva Lima

Freguesia da Penha de França
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Vinte e quatro anos após o falecimento de Sebastião Saraiva Lima, republicano com um importante papel no associativismo dos comerciantes lisboetas, ficou este perpetuado na Rua particular municipalizada a Manuel Joaquim Saraiva no Bairro do Poço dos Mouros junto com o seu prolongamento no Bairro municipalizado a Joaquim Rodrigues Gadanho «até ao seu terço», graças à deliberação da Comissão Executiva da CML de 31 de outubro de 1917, a partir da proposta do vereador Abílio Trovisqueira que justificou a atribuição do topónimo «como prova de gratidão pelos serviços prestados por este ilustre republicano», de que publicou o consequente Edital municipal, de 12 de novembro de 1917, que lhe fixou a legenda «Propagandista dos Princípios Associativos/1857 – 1893».

Na sessão de câmara de 1 de novembro de 1917, o Vereador Feliciano de Sousa aplaudiu a resolução da Comissão Executiva « que com Leão de Oliveira, Magalhães Lima e outros vultos do partido republicano fizeram, em tempos idos, parte da minoria republicana na Camara Municipal de Lisboa. Enaltece depois os serviços prestados á Republica e á cidade por aquele prestante cidadão que a morte arrebatara do convivio dos que muito lhe queriam.»

Freguesia da Penha de França – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Sebastião Correia Saraiva Lima (Águeda-Mourisca do Vouga/28.12.1857 – 11.06.1893/Lisboa), falecido aos 36 anos, era um comerciante republicano que foi Presidente da Associação de Lojistas de Lisboa em 1888, para além de outros cargos dirigentes que nessa mesma associação exerceu em outros anos. A Associação Comercial de Lojistas de Lisboa fora fundada em 1 de janeiro de 1870, na Rua do Norte nº 145 – 1º e vinte anos depois, quando estava sediada no Palácio Bessone na Rua do Ferragial de Cima, em 1890, Saraiva Lima foi um dos principais impulsionadores do boicote aos produtos britânicos com que o comércio de Lisboa participou no movimento nacional de protesto contra o Ultimato Inglês. Já o Diário Ilustrado de 31 de dezembro de 1897 noticiou a sessão solene de inauguração do seu retrato na Associação de Lojistas de Lisboa, no decorrer da qual uma carta de Manuel Gomes Duarte sugeriu que se pedisse à CML a atribuição do seu nome ao Largo da Abegoaria (é o Largo Rafael Bordalo Pinheiro desde 11 de fevereiro de 1915).

Sebastião Saraiva Lima também assumiu, por duas vezes, as funções de vereador na Câmara Municipal de Lisboa. A primeira foi em 1890, graças aos votos do Partido Republicano Português no qual militava e também aos votos de inúmeros comerciantes que o admiravam e assim ficou na companhia dos vereadores republicanos Teófilo Braga e Elias Garcia. Esta vereação terminou dissolvida mas após várias Comissões Administrativas, Sebastião Saraiva Lima foi novamente eleito para os anos de 1892 e 1893, junto com Leão de Oliveira, outro republicano.

O seu nome está também presente na toponímia do seu concelho natal: em Águeda, na Trofa.

Freguesia da Penha de França
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua do arquiteto Adães Bermudes, vereador da CML em 1918 e 1919

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O arquiteto portuense Adães Bermudes, foi também vereador da Câmara Municipal de Lisboa em 1918 e 1919, tendo sido perpetuado como topónimo de uma rua de Marvila em 1978, com mais onze arquitetos.

Republicano assumido e membro da Maçonaria, Adães Bermudes foi vereador da Comissão Administrativa da CML de 15 de março de 1918 a 21 de  fevereiro de 1919, a que sucedeu à presidida pelo também republicano José Carlos da Maia, que saiu para ser ministro da Marinha de Sidónio Pais em março de 1918 e fez com que pedisse a exoneração dos vereadores republicanos Matias Ferreira de Mira, Raul de Almeida Carmo, António Ferreira e António do Couto Abreu, tendo sido então designados em 15 de março de 1918, para os mesmos cargos, o presidente da Sociedade de Ciências Médicas Zeferino Falcão para Presidente da edilidade, o tenente-coronel de engenharia José Tavares de Araújo e Castro, o advogado Carlos Barbosa e Adães Bermudes, a quem coube o Pelouro da Arquitetura e a 4ª Repartição. Nesta Comissão Administrativa serviu como presidente de 10 de maio  até 4 de julho de 1918, a partir do que será presidente  José Tavares de Araújo e Castro, bem como nos impedimentos deste, tendo assim assinado como vogal-presidente os Editais que permitiram à Companhia de Carris de Ferro de Lisboa aumentar os preços das tarifas das carreiras durante os dias da semana excepto ao domingo, durante 3 meses, bem como aumentar a lotação em 50%, assim como o que determinou iguais condições para a  Nova Companhia dos Ascensores Mecânicos de Lisboa (23 de maio de 1918); o dos termos da cobrança dos impostos municipais a partir de 15 de julho para os relativos ao 2º semestre de 1918,  (1 de junho de 1918); a atribuição da Rua da Paz e outras desanexações e integrações toponímias na Ajuda ( 11 de novembro de 1918).

O Occidente, 20 de maio de 1913

Arnaldo Redondo Adães Bermudes (Santo Ildefonso – Porto/29.09.1863 – 18.02.1947/Paiões- Rio de Mouro) foi um arquiteto formado pela Academia Portuense de Belas Artes (entre 1880 e 1886), Escola de Belas-Artes de Lisboa e pela École des Beaux-Arts de Paris. Destacou-se como um expoente do movimento da Arte Nova e criou em 1898 um modelo de escola que foi difundido em todo o país e identificado como Escola Adães Bermudes. Traçou o Bairro de casas económicas do Arco do Cego, em 1897,  de acordo com o conceito cidade-jardim. Como arquiteto já antes lhe dedicámos um artigo mas sintetizamos agora que a sua obra em Lisboa soma um edifício Arte Nova concebido em 1908 para a Avenida Almirante Reis (na época, era a Avenida Dona Amélia) que foi distinguido com o Prémio Valmor; o restauro do Mosteiro dos Jerónimos, do Museu Nacional de Arte Antiga e do Museu Nacional de Belas Artes; o mausoléu dos benfeitores da Santa Casa da Misericórdia  no Cemitério do Alto de São João (1908); o Instituto Superior de Agronomia (1910); a Escola Normal Primária de Lisboa (1913), em Benfica;  e o Monumento ao Marquês de Pombal (1914), em equipa com Francisco Santos e António do Couto.

O Edital de 10 de agosto de 1978, proposto pela primeira Comissão Municipal de Toponímia que integrou um arquiteto – o  arqº Frederico George -, procurou criar pela toponímia um «bairro de arquitetos», até aí quase ausentes da toponímia lisboeta. A Adães Bermudes coube a  a Rua 14 da Zona N 2 de Chelas e os outros onze escolhidos foram Adelino Nunes (ruas 2 e 3), Álvaro Machado (arruamento de ligação entre a via envolvente e a rua 6), Cassiano Branco (ruas 4 e 5), Domingos Parente (rua 13), José Luís Monteiro (ruas 11B e 12), Keil do Amaral (ruas 1, 6 e 7), Luís Cristino da Silva (via comercial), Miguel Nogueira Júnior(rua 11), Norte Júnior (ruas 8 e 11A), Pardal Monteiro (via envolvente) e Pedro José Pezerat (rua 10).

Adães Bermudes foi pai do arquiteto Jorge Bermudes, irmão mais velho de Félix Bermudes e assim, também tio de Cesina Bermudes.

Está também presente na toponímia de Rio de Mouro (no concelho de Sintra), localidade onde faleceu e foi sepultado.

Freguesia de Marvila
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Rua do Presidente da CML em 1918, José Carlos da Maia

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: José Carlos Batista)

José Carlos da Maia foi Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Lisboa,  de 14 de janeiro até 1 de março de 1918,  já que foi nomeado ministro da Marinha de Sidónio Pais a 9 de março, e tendo sido um dos assassinados na Noite Sangrenta de 19 de outubro de 1921 foi  fixado na memória de Lisboa mais de dez anos depois, em Campo de Ourique, através da Rua Carlos da Maia, por via do Edital municipal de 12 de março de 1932.

Conforme o procedimento da época, Carlos da Maia foi nomeado Presidente da Comissão Administrativa da CML pelo Governador Civil de Lisboa, por indicação do Ministro do Interior, então Machado Santos. Ficou responsável pelos Pelouros da Secretaria e Bibliotecas. De acordo com a sua proposta, os outros vogais desse executivo ficaram com as seguintes competências: Álvaro Valadas, professor da Escola Comercial Ferreira Borges, com o pelouro das Águas; o Arqº António do Couto Abreu com o pelouro da Arquitetura; o farmacêutico António Ferreira com os  Jardins e Cemitérios; o professor e advogado António Lino Neto com as Subsistências; o comerciante António Maria Abrantes com a Limpeza e Regas; o industrial Franklin Lamas com a Viação; o Engº Frederico Santos Taveira com os Incêndios; João Pereira da Rosa com o Pelouro da Iluminação; o médico e antigo deputado José da Costa Júnior com os Matadouros; o médico Matias Ferreira de Mira com o Pelouro da Instrução; o comerciante e proprietário Santos Rebelo com o Pelouro das Ruas; o advogado Raul de Almeida Carmo com o Contencioso; o antigo operário Sebastião Eugénio com os Mercados e Lavadouros e o «comercialista» Vladimiro Contreiras com o Pelouro da Contabilidade.

Nesses quase de dois meses, foi proposta de José Carlos Maia a receção nos Paços do Concelho ao Presidente da República – Sidónio Pais – no seu regresso à capital em 18 de janeiro de 1918, com dispensa de ponto para o pessoal ir assistir à chegada na Estação do Rossio; a constituição de uma Comissão para dar pareceres sobre a higiene e estética da capital e uma outra,  também composta por  vereadores, para auditar os serviços da CML e dar pareceres de melhoria.

Na presidência de Carlos da Maia e com o seu voto favorável, entre outras deliberações, os Vogais da Comissão Administrativa passaram a não ser beneficiados pela distribuição dos 100 passes que a Carris tinha acordado com a edilidade; o indeferimento do aumento das tarifas da Carris em 40%; o encerramento das janelas dos carros eléctricos de 1 de novembro a 1 de março; a manutenção do  preço da carne de carneiro nos talhos municipais; o cultivo dos terrenos incultos do Parque Eduardo VII com forragens para o gado do Serviço de Jardins e Edificações, bem como a substituição nos jardins municipais das flores da estação por hortaliças e legumes; a municipalização do pescado para o embaratecer; conclusão urgente da ampliação e modificação do Mercado da 24 de Julho; que o mau tempo não impedisse os operários de receber o seu salário, mesmo que não pudessem trabalhar, tal como acontecia com o encarregado e o apontador; a averiguação do ensino nas associações que diziam ser escolas; a inauguração de um curso noturno para adultos na Escola Central nº 14 do Largo do Leão; a transferência de um professor da escola nº 24 para a nova escola nº 84 ao Rego e outro, da escola nº 2 para a nº 76;  reparação da estação de incêndios de Xabregas e o aumento do nº de bombeiros auxiliares para serviço nos teatros; abertura do novo lavadouro do Alto do Pina e autorização para a autarquia  contrair um empréstimo de 500 contos.

José Carlos da Maia (Olhão/16.03.1878 – 19.10.1921/Lisboa), filho de um Oficial da Marinha, Carlos Augusto da Maia e de Maria da Encarnação Cruz, morava em Lisboa desde bebé, e foi também ele um Oficial da Marinha de Guerra que se destacou enquanto político republicano. Desde novo participou em todas as conspirações contra o regime monárquico com Machado Santos e Cândido dos Reis, tendo participado empenhadamente na implantação da República.

Depois, foi deputado à Assembleia Constituinte de 1911, Governador de Macau de 1914 a 1916, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Ministro da Marinha de Sidónio Pais de 9 de março a 7 de setembro de 1918, Capitão de Porto de Portimão e Ministro das Colónias de José Relvas, de 26 de janeiro a 21 de março de 1919.

Em 1921, quando se encontrava afastado da política ativa, foi assassinado na revolta conhecida como Noite Sangrenta, em 19 de outubro de 1921, tal como o  presidente do Ministério António Granjo e Machado Santos, entre outros.

José Carlos da Maia foi agraciado com a Comenda da Ordem Militar de Avis (11 de março de 1919) e postumamente, com a Grã-Cruz da Ordem Militar da Torre e Espada (11 de Novembro de 1927). A sua  viúva, Berta da Maia, esforçou-se por encontrar os responsáveis pelo assassinato do seu marido quando ele contava 43 anos, tendo sido colocada no mesmo jazigo que fora erigido em 1924 no Cemitério dos Prazeres. Como José Carlos da Maia ou Carlos da Maia, o seu nome integra também a toponímia dos concelhos de Almada (em Porto Brandão e Vale de Cavala), Cascais (na Parede e em São Domingos de Rana), Lagoa, Odemira, Olhão, Portimão, Porto e Setúbal.

Freguesia de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

Jardim Ferreira de Mira, o médico do Instituto Rocha Cabral

Freguesia de Benfica
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Médico fisiologista da Faculdade de Medicina de Lisboa e historiador da medicina portuguesa, que a partir de 1922 fundou e dirigiu o Instituto Rocha Cabral, Ferreira de Mira dá o seu nome a um jardim lisboeta de Benfica, próximo do Hospital da Luz, 63 anos após o seu falecimento, através da deliberação camarária de 26 de outubro de 2016 e consequente Edital de 10 de novembro, a partir da sugestão do Prof. José Pedro Sousa Dias enquanto membro da Comissão Municipal de Toponímia em representação da Universidade de Lisboa.

Em 1926 na Ilustração Portuguesa

Mathias Boleto Ferreira de Mira (Montijo – Canha/21.02.1875 – 07.03.1953/Lisboa), formado na  Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa em 1898 e discípulo de Mark Athias, foi um médico e professor universitário que também fundou e dirigiu o Instituto Bento da Rocha Cabral a partir de 1922. Começou por exercer medicina no Hospital da Misericórdia da vila de Canha, mas veio viver para Lisboa em 1910 e dois anos depois era já  professor de Fisiologia, na então nova Faculdade de Medicina de Lisboa, a que mais tarde somou a regência da cadeira de Química.

Como investigador científico, Ferreira de Mira teve a oportunidade de fundar e dirigir a partir de 1922 um Instituto de Investigação na área das Ciências Biológicas, com o nome de um transmontano que no Brasil ficou multimilionário –  Bento da Rocha Cabral (1847-1921)- e que  no seu testamento deixou as verbas necessárias para o efeito com a indicação de quem o devia dirigir. O Instituto de Investigação Científica de Bento da Rocha Cabral ficou instalado na casa adquirida e reconstruída em 1902 pelo benemérito e que até aí lhe servira de morada em Lisboa, no nº 14 da Calçada Bento Rocha Cabral – assim denominada desde 1924 já que antes era a Calçada da Fábrica da Louça – e começou a realizar investigação a partir de 1925 com quatro investigadores: o próprio Matias Boleto Ferreira de Mira, o seu filho Manuel Ferreira de Mira (falecido em 1929), Luís Simões Raposo – na toponímia da freguesia do Lumiar desde 25/10/1989- e Fausto Lopo de Carvalho- na toponímia da freguesia de Marvila desde  04/11/1970-, que na década seguinte conseguiu dominar a tuberculose em Portugal. Foi este Instituto que acolheu as primeiras investigações com animais que permitiram a Egas Moniz a descoberta da angiografia e o desenvolvimento da angiopneumografia em conjunto com Almeida Lima e Lopo de Carvalho. Também aqui trabalho como investigadora a  primeira portuguesa doutorada em ciências biológicas, a fitopatologista Matilde Bensaúde.

Matias Ferreira de Mira foi também um membro dirigente da Sociedade Portuguesa de Biologia e, sobretudo nos jornais e revistas Luta de Brito Camacho, Diário de Notícias e Seara Nova, escreveu dezenas de artigos de vulgarização científica, na área da biologia e de outras ciências, assim como redigiu livros didáticos como Lições de Químico-Fisiologia elementar, Exercícios de Química Fisiológica (com Mark Athias) ou Manual de Química Fisiológica. Também deu dezenas de conferências sobre temas científicos e foi o autor da  História da Medicina Portuguesa (1947) e de biografias como a de Brito Camacho (1942), com Aquilino Ribeiro.

Ferreira de Mira foi também um cidadão empenhado na política tendo sido vereador da Câmara Municipal de Lisboa, com o pelouro da Instrução Primária, a partir de 1912, assim como foi  deputado da Primeira República, de 1922 a 1925, por Santarém, eleito com António Tavares Ferreira, Ginestal Machado e João Teixeira de Queiroz Vaz Guedes.

Matias Ferreira de Mira está também presente na toponímia da Charneca da Caparica.

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Luciano Freire, o pintor-restaurador que dirigiu o Museu dos Coches, numa Rua do Rego

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Esta artéria que em Lisboa guarda a memória de Luciano Freire, notável pintor-restaurador da geração de 1890 que dirigiu o Museu dos Coches, nasceu no Plano de arruamentos da Quinta do Lagar Novo ao Rego, através do Edital municipal de 17 de Abril de 1934, que ali colocou mais sete topónimos de pintores para além do próprio Luciano Freire, a saber, Praça Nuno Gonçalves, Rua Cristóvão de Figueiredo, Rua Frei Carlos, Rua Gregório Lopes, Rua Jorge Afonso, Rua José Malhoa (que nunca saiu do papel da planta) e Rua Sanches Coelho.

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua Luciano Freire era a Rua G do Plano de arruamentos da Quinta do Lagar Novo ao Rego e hoje liga a Praça Nuno Gonçalves à  Rua Alfredo Roque Gameiro, e homenageia Luciano Martins Freire (Lisboa/11.06.1864 – 28.01.1934/Lisboa), nascido na então freguesia da Encarnação (hoje, da Misericórdia), filho de Domingos Martins e de Virgínia Gomes Freire.

Luciano concluiu o curso de Pintura Histórica na Academia Real de Belas Artes em 1886,  onde foi discípulo de Miguel Lupi, Ferreira Chaves, Silva Porto e Tomás da Anunciação.  Logo no ano seguinte expôs pela primeira vez, na Sociedade Promotora de Belas Artes, um D. Sebastião, que pertence à Câmara Municipal de Lisboa, fase em que também pintou temas históricos nos estuques do Museu Militar. No final dessa década dedicou-se antes ao retrato e  à pintura de género, de que são exemplos as suas telas Catraeiros (1894) – que lhe valeu o titulo de académico de mérito da Academia Real de Belas Artes de Lisboa e ficou perdido num naufrágio em 1901, no regresso da Exposição Universal de Paris de 1900 -, Bucólica (1896) ou Desolação (1900), de evocação simbolista como já surgia em Perfume dos Campos (1899) – um dos raros exemplos da estética arte nova na pintura portuguesa – e  Eterno Escravo. Luciano Freire esteve em Paris e Londres e conheceu os progressos técnicos e culturais, tanto nas fábricas como no cinema, ficando a saber como eram as últimas correntes estéticas simbolistas, pelo que também não será de estranhar que  tenha sido o autor de temas expressamente relacionados com o mundo fabril (Gasómetro e Fábrica de Gás Lisboa, em Belém) e ferroviário (Construção da Linha de Cascais).

A sua obra encontra-se no  Museu Nacional de Arte Contemporânea-Museu do Chiado e está também representado no Museu José Malhoa, nas Caldas da Rainha.

Luciano Freire foi também professor de Modelo Vivo na Escola de Belas Artes, até aos seus 69 anos, entre 1896 e 1933, para além de a partir de 1889, trabalhar também como ilustrador de O Occidente.

Luciano Freire fotografado em 28 de maio de 1924 por Eduardo Portugal
(Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

Era ainda um reconhecido restaurador de pinturas antigas, até a  nível internacional, sobretudo da pintura quatrocentista e quinhentista, somando mais de 500 obras restauradas, de onde sobressaem os famosos Painéis de São Vicente (entre 1909 e 1910). Luciano Freire fez  um aturado estudo e investigação sobre técnicas de conservação e restauro de pintura. Com os historiadores e críticos de arte Ramalho Ortigão, José Pessanha e José de Figueiredo, organizou também a Comissão de Inventariação e Beneficiação da Pintura Antiga de Portugal, organismo instituído em abril de 1910 e no qual se salientou como restaurador. Entretanto, Luciano Freire aderiu ao movimento republicano e participou no inventário dos bens dos paços reais e das congregações religiosas, tendo sido em 1911 nomeado diretor do Museu Nacional dos Coches, aberto em 1905, mantendo uma colaboração empenhada nos processos de organização e funcionamento do Museu Nacional de Arte Antiga, tanto no programa de restauro da colecção de pintura como no papel de diretor substituto de José de Figueiredo. A política de aquisição e de ofertas pessoais , seguida por Luciano Freirena para o Museu dos Coches, este passou a dispor também de desenhos, gravuras e material gráfico com os estudos e projetos para viaturas.

Luciano Freire exerceu ainda as funções de  secretário da Academia de Belas Artes (1900-1910) e de vogal, vice-presidente e presidente do Conselho de Arte e Arqueologia da 1.ª Circunscrição Artística (1911 e 1932), um  organismo do Ministério da Instrução Pública com a responsabilidade da salvaguarda, classificação, conservação e restauro do património artístico, histórico e arquitetónico português, pelo que conviveu com Columbano Bordalo Pinheiro, Veloso Salgado, João Vaz, Ernesto Condeixa, José Malhoa e Carlos Reis.

Refira-se que existiu uma proposta do Ministro da Instrução Pública de 27 de março de 1933, para que Luciano Freire recebesse a condecoração de Grande Oficial da Ordem da Instrução Pública mas esta nunca chegou a ser atribuída.

Na toponímia, o artista está presente como Rua Luciano Freire em Paio Pires, como Travessa Luciano Freire na Aroeira (Almada) e como Rua Luciano Martins Freire em Barcarena.

Freguesia das Avenidas Novas – Placa Tipo II
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A republicana Avenida de Berna da Fundação Gulbenkian

1º Edital de Toponímia após a implantação da República em Portugal

1º Edital de Toponímia após a implantação da República em Portugal

A Avenida de Berna, que hoje identificamos pela presença da Igreja de Nª Srª de Fátima, a Fundação Gulbenkian ou a Universidade Nova de Lisboa,  enquanto topónimo nasceu como Rua Martinho Guimarães, dada pelo Edital municipal de 20/08/1897, para enaltecer o vereador José Martinho da Silva Guimarães, nos mandatos de 1892 a 1901, um dos edis que pugnou junto do Governo para conseguir o empréstimo que viabilizou o arranque das obras das Avenidas Novas.

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Todavia, treze anos depois, com a  implantação da República em Portugal, logo o primeiro Edital municipal após o 5 de outubro de 1910, datado de 5 de novembro de 1910, passou a denominar esta artéria como Rua de Berne. Nesta época, Berna era a capital da Suíça desde 1848 (pela constituição federal desse ano) e, como tal, era a capital de um país que, junto com a França e Portugal, eram as únicas Repúblicas na Europa daquele tempo. Refira-se ainda que no ano seguinte, por Edital de 7 de agosto de 1911, esta Rua de Berne viu a sua categoria mudada para Avenida, tanto mais que o arruamento foi crescendo em extensão ao longo do século XX.

Este primeiro Edital de toponímia da edilidade lisboeta após a implantação da República no país procurou fixar na memória da cidade esse acontecimento, quer através da Avenida da República e da Avenida Cinco de Outubro, quer através dos nomes dos chefes militar e civil republicanos – Cândido dos Reis e Miguel Bombarda -, também em Avenidas. Ressalta também que é logo neste primeiro edital que, além da Rua/Avenida de Berna, são dados mais 2 topónimos que referenciam outra república da época:  a Praça do Brasil e a Praça do Rio de Janeiro.

Finalmente, refira-se que o historiador Lúcio de Azevedo – consagrado na toponímia lisboeta pelo Edital de 14/05/1979  – viveu e faleceu no n.º 9 da Avenida de Berna.

A Avenida de Berna em 1964
(Foto: Artur João Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

O setecentista Largo das Duas Igrejas e o Largo do Chiado de 1925

O Largo das Duas Igrejas num bilhete postal de 1906

Largo das Duas Igrejas é um topónimo setecentista que perdurou até aos dias de hoje, como as duas igrejas que o originaram, apesar de oficialmente o arruamento se designar Largo do Chiado desde 1925.

Era aqui a Porta ou Portas de Santa Catarina, construída na muralha fernandina entre 1373 e 1375, com as suas duas torres. Depois do séc. XVI as Portas de Santa Catarina coexistiram com a denominação Chiado, já que segundo Norberto de Araújo «Depois do século XVI essas designações foram simultaneamente usadas, havendo contudo um período, pelo menos, de distinção: Porta (ou Portas) de Santa Catarina – era o actual Largo do Chiado; Rua das Portas ou Rua Direita de Santa Catarina – era o troço da actual Rua Garrett, até onde se rompe a Rua Ivens de hoje; Rua do Chiado se chamava apenas ao troço desde esta confluência até ao topo, isto é: ao Convento do Espírito Santo, depois Palácio Barcelinhos, e hoje Armazéns do Chiado.»

As Portas de Santa Catarina foram demolidas entre 1702 a 1707 e o local começou a ser  conhecido como Praça do Loreto, embora com o tempo tenha passado a ser mais usada a denominação Largo das Duas Igrejas por referência aos dois templos ali existentes: a Igreja italiana de Nossa Senhora do Loreto (de 1518 e restaurada em 1785) e a Igreja de Nossa Senhora da Encarnação (de 1708 e restaurada em 1784). O Cartulário Pombalino menciona a artéria como Rua das Duas Igrejas. De 1771 a 1853, o o Largo das Duas Igrejas tinha em si implantado o Chafariz do Loreto,  encimado pela estátua de Neptuno,  da autoria de Machado de Castro, que hoje está no centro do Largo de Dona Estefânia.

Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior (Foto: NT do DPC)

Já no séc. XX, em 1925, a edilidade lisboeta atribuiu a este arruamento a denominação de Largo do Chiado, com a legenda «António Ribeiro Chiado – Poeta do Século XVI», através da publicação dos Editais de 28 de abril e 19 de maio, homenageando assim o autor do Auto das Regateiras, tendo também a vereação municipal ali erguido uma estátua da autoria de Costa Mota (tio), inaugurada em 18 de dezembro desse mesmo ano de 1925.

Refira-se que António Ribeiro, conhecido como Poeta Chiado, apesar de ter professado na Ordem dos Franciscanos, abandonou a vida religiosa e veio viver para Lisboa, tornando-se conhecido como poeta popular e boémio, sendo até mencionado no Auto de El Rei Seleuco de Camões, o poeta maior para os republicanos. António Ribeiro Chiado dedicou-se sobretudo à poesia jocosa e à sátira sobre  a vida social do período em que viveu, sendo que em 1925 faria sentido para a vereação republicana a proximidade entre os poetas Camões e Chiado ser repetida na toponímia da cidade.

O Largo do Chiado nos anos 70 do séc. XX 

A Rua de São Francisco de Paula e a Rua Presidente Arriaga

A Rua de São Francisco de Paula cerca de 1910
(Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua Presidente Arriaga, homenagem ao 1º Presidente da República Portuguesa constitucionalmente eleito, no arruamento onde ele residira e de onde saiu o seu funeral em 1917, foi um topónimo atribuído pela edilidade lisboeta em 1920, embora para os mais antigos seja ainda conhecida como Rua de São Francisco de Paula por via da Igreja da mesma invocação.

A artéria começou por ser a Rua Direita de São Francisco, topónimo derivado da Igreja de São Francisco de Paula ali fundada em 1719 por  Frei Ascenso Vaquero. Em 1753 e 1754, Frei Francisco de Paula era o Vigário Geral do Convento de São Francisco de Paula e o templo teve obras de melhoramentos, segundo o traçado do arqº Inácio de Oliveira Bernardes e torres atribuídas a Diogo Azzolini,  a expensas de D. Mariana Vitória, mulher de D. José I, cujo túmulo da oficina de Machado de Castro foi colocado na capela-mor e está classificado como Monumento Nacional.

Em 1758, no Cartulário de Plantas e Edifícios da Nova Cidade depois do Terramoto já encontramos alçados de Manuel da Maia para a Rua Nova de São Francisco de Paula que é a denominação que encontramos ainda em 1854 em documentos municipais de prospetos de prédios.

Em 1857 e 1858, na planta de Filipe Folque e em prospetos de prédios o arruamento surge designado como Rua Direita de São Francisco de Paula, situação que se mantém de 1879 a 1881 na planta de  Francisco e César Goullard,  num auto de vistoria a uma chaminé e no levantamento topográfico de Francisco Goullard.

Terá sido no final da década de oitenta do séc. XIX que o topónimo passou a ser Rua de São Francisco de Paula, já que  assim está mencionada em 1887 num orçamento para substituição da cantaria e reconstrução do empedrado dos passeios e valetas da rua, bem como no romance Os Maias de Eça de Queirós, publicado em 1888,  como morada da Casa do Ramalhete.

Em 1920, três anos após o falecimento de Manuel José de Arriaga Brum da Silveira (Horta/08.07.1840 – 05.03.1917/Lisboa) nesta artéria onde morava, a Câmara Municipal de Lisboa atribuiu a Rua Presidente Arriaga, por deliberação camarária de 28 de abril e Edital municipal de 18 de maio, com a a extensa  legenda de «Primeiro Presidente da República Portuguesa Eleito pela Assembleia Nacional Constituinte em 24 de Agosto de 1911/Nasceu em 08.07.1840 e Morreu em 05.03.1917».

Freguesia da Estrela
(Foto: José Carlo Batista)