O historiador da cartografia portuguesa, Avelino Teixeira da Mota, numa Avenida de Lisboa

Freguesia de Marvila
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Avelino Teixeira da Mota, historiador da cartografia portuguesa a quem o jornalista Norberto Lopes apelidou de «Um Sábio Ignorado», está inscrito na toponímia de Lisboa, numa Avenida de Marvila, passados que eram dois anos  sobre o seu falecimento, através do Edital municipal de 28 de fevereiro de 1984.

Resultado de imagem para avelino teixeira da mota Reflexos do Tratado de Tordesilhas na Cartografia Náutica do Século XVI Avelino Teixeira da Mota (Lisboa/22.09.1920 – 10.04.1982/Lisboa), filho de Avelino da Mota e de Isaura Teixeira, estudou na Escola Primária Oficial N.º 44 e seguiu para o Liceu Passos Manuel até 1938 e nesse mesmo ano, entrou para a Faculdade de Ciências para frequentar as disciplinas necessárias à admissão na Escola Naval (Álgebra, Física, Química e Desenho), onde foi aceite em 15 de setembro de 1939 e assim assentou praça na Armada. Terminado o curso em 1943 ficou com o posto de Segundo Tenente.

Como oficial da Marinha, esteve na Guiné (de 1945 e 1957), primeiro como Ajudante-de-campo do Governador da Guiné, Sarmento Rodrigues, para de 1948 a 1957 integrar a Missão Geo-Hidrográfica da Guiné . Foi também deputado pela Guiné, entre 1957 e 1961. A partir de 1953 foi também incumbido de realizar o inventário e reprodução fotográfica da cartografia antiga portuguesa dos territórios ultramarinos e a partir de 1958, passou a dirigir o Centro de Estudos de Cartografia Antiga da Junta de Investigações do Ultramar, até 1982. Em 1964, era Vogal do Conselho Ultramarino e em 1970 e 1971, foi o chefe do estado-maior do Comando Naval de Angola. Passou à reserva no ano de 1976, quando era presidente do Tribunal da Marinha, no posto de contra-almirante.

Avelino Teixeira da Mota exerceu também como docente, na Escola Naval de 1959 a 1964 e, na Faculdade de Letras de Lisboa,  de 1965 a 1969, como professor de História da Expansão Portuguesa. Com Armando Cortesão, publicou em 1960 duas obras: Portugaliae Monumenta Cartographica Tabularum Grographicarum Lusitanorum Specimen. Da sua obra publicada sobressaem Dom João de Castro, navegador e hidrógrafo (1949), Fernão Vaz: explorador ignorado do Golfo da Guiné e Topónimos de Origem Portuguesa na Costa Ocidental de África desde o Cabo Bojador ao Cabo de Santa Catarina (ambos em 1950), Cinco séculos de cartografia das Ilhas de Cabo Verde (1961), A Cartografia Antiga da África Central e a Travessia entre Angola e Moçambique 1500-1860 (1964), O cosmógrafo Bartolomeu Velho em Espanha (1966), Evolução dos roteiros portugueses durante o século XVI (1969), D. João Bemoim e a expedição portuguesa ao Senegal em 1489 (1971), A África ocidental em Os Lusíadas (1972), Duarte Coelho, capitão-mor de Armadas no Atlântico (1531-1535) (1972), Reflexos do Tratado de Tordesilhas na Cartografia Náutica do Século XVI (1973), A África no planisfério português anónimo “Cantino”: 1502 (1977), Acerca de algumas recentes reuniões internacionais de interesse para a História Marítima (1977) e postumamente, Bartolomeu Dias: Descobridor do Cabo de Boa-Esperança (1988).

Pertenceu a várias instituições nacionais e estrangeiras, entre as quais foi membro da Academia Portuguesa de História, a partir de 1954, sócio da Academia das Ciências de Lisboa desde 1959, académico da Academia  Portuguesa de História (1962), bem como Presidente da Comissão do Infante D. Henrique da Sociedade de Geografia e da Academia de Estudos da Marinha (1979 a 1982).

Para além de Lisboa, Teixeira da Mota está homenageado na toponímia de Oeiras e de Lagos.

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

 

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A Avenida da Vieira da Silva que era Maria Helena

Freguesia do Lumiar
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

No Dia Internacional da Mulher de 1993 foi inaugurada a Avenida Maria Helena Vieira da Silva, no Lumiar, em homenagem à pintora considerada um  expoente maior da pintura contemporânea, com as suas originais geometrias.

Vieira da Silva faleceu em 6 de março de 1992 e logo em 26 de agosto a edilidade lisboeta deliberou atribuir o seu nome a esta Avenida que nasce junto à Alameda das Linhas de Torres e onde a artista ficou fixada pela publicação do Edital municipal de 15 de setembro. Para evitar equívocos na toponímia de Lisboa recordamos que em Lisboa existem também a Rua Engenheiro Vieira da Silva, em Arroios, dedicada ao engenheiro olisipógrafo que integrou a 1ª Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa em 1943, bem como a Rua Vieira da Silva, na freguesia da Estrela, em homenagem ao tipógrafo e jornalista que foi o 2º Presidente da Direção do Centro Promotor dos Melhoramentos das Classes Laboriosas.

Autorretrato de 1930

Maria Helena Vieira da Silva (Lisboa/13.06.1908 – 06.03.1992/Paris) nasceu filha única de Marcos Vieira da Silva e de Maria do Céu da Silva Graça  e tendo estudado de 1919 a 1927, apesar de ter tido aulas de música, preferiu a pintura, tendo assim estudado  desenho com Emília Santos Braga e pintura com Armando Lucena, professor na Escola de Belas Artes de Lisboa, bem como modelagem com Rogério de Andrade. A partir de 1926, com outros alunos de Belas Artes, também assistiu às aulas de Anatomia do Professor Henrique Vilhena na Faculdade de Medicina. Nesse mesmo ano foi viver com a mãe para o nº 3 do Alto de São Francisco.

Ainda com a a mãe, seguiu para Paris em 1928, para se aperfeiçoar com mestres como o escultor Bourdelle e nessa cidade começou a expôr no ano de 1933, por ocasião da edição do livro Kô et Kô. No entretanto, em 1929, estudou na Academia Escandinava com o escultor Despiau mas optou pela pintura e foi então estudar com Dufresne, Waroquier, Friesz, assim como gravura no atelier de Stanley W. Hayter e arte aplicada com Fernand Léger. Conheceu o pintor húngaro Arpad Szénes e com ele se casou em 1930, tendo passado a habitar na  Villa des Camélias.

Maria Helena Vieira da Silva tornou-se uma das artistas abstratas mais celebradas na Europa do pós-guerra, com as suas originais composições geometrizadas. Até aí, em 1935 e 1936, o casal esteve em Portugal, expondo telas de ambos, no atelier de Lisboa. Em 1939,  Vieira da Silva, Arpad Szénes e Étienne Hajdu , sensibilizados com a guerra espanhola, expuseram com fins beneméritos na Galeria Jeanne-Bucher em Paris e ainda nesse ano voltam a viver em Portugal, partindo no seguinte para o Brasil já que o Estado português negou a nacionalidade portuguesa aos artistas apesar de Arpad se ter convertido ao catolicismo e de terem contraído casamento religioso. Finda a II Guerra regressaram a Paris e ambos se naturalizaram franceses em 1956.

Para além do desenho, ilustração e pintura, Vieira da Silva também se dedicou à  cenografia, à tapeçaria e ao vitral, sendo de igual forma o seu percurso artístico associado a importantes encomendas de  arte pública. Também a paisagem urbana de Lisboa integra a obra da pintora, como no caso da decoração da estação do Metropolitano de Lisboa da Cidade Universitária, inaugurada em 1988, assim como parte da estação do Rato, inaugurada em 1997. Para mais, a capital acolhe ainda a Fundação Arpad Szènes- Vieira da Silva, criada em 1990 e que abriu ao público em 3 de novembro de 1994, na antiga Fábrica das Sedas da Praça das Amoreiras.

Recordem-se ainda os cartazes de Maria Helena Vieira da Silva, como aqueles dois com a frase «A Poesia está na Rua», feitos a pedida da sua amiga Sophia de Mello Breyner para serem editados pela Gulbenkian para comemorar o 25 de Abril de 1974, ou um outro que Vieira concebeu para a UNESCO para comemorar o Ano da Paz em 1986.

Maria Helena Vieira da Silva foi agraciada como Sócia Honorária do Grémio Literário de Lisboa, Sócia Honorária da Academia de Belas Artes de Lisboa,  com a Grã-Cruz da Ordem de Sant’Iago de Espada (1977), o filme  Ma femme chamada Bicho (1978) – realizado por José Álvaro Morais e sobre o casal a partir da ideia do pintor Jorge Martins-, como membro  da Academia das Ciências das Artes e das Letras de Lisboa (1984), o Grande Prémio Antena I (1986), a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade (1988), a Medalha da Cidade de Lisboa (1988), a Medalha de Honra da Cidade do Porto (1989) e também as mais altas condecorações francesas, estando a sua obra representada no Museu do Chiado- Museu Nacional de Arte Contemporânea, no Museu da Fundação Calouste Gulbenkian, assim como no Centre Pompidou de Paris,  no  Guggenheim de Nova Iorque e na Tate Gallery de Londres.

A artista consta ainda da toponímia de Abrantes, Entroncamento, Grândola, Lagos, Leça da Palmeira (Matosinhos), Montemor-o-Novo, Odivelas, Rio de Mouro, Santo António dos Cavaleiros, Tapada das Mercês (Sintra), Tavira e do Vale da Amoreira (Moita).

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A republicana Avenida de Berna da Fundação Gulbenkian

1º Edital de Toponímia após a implantação da República em Portugal

1º Edital de Toponímia após a implantação da República em Portugal

A Avenida de Berna, que hoje identificamos pela presença da Igreja de Nª Srª de Fátima, a Fundação Gulbenkian ou a Universidade Nova de Lisboa,  enquanto topónimo nasceu como Rua Martinho Guimarães, dada pelo Edital municipal de 20/08/1897, para enaltecer o vereador José Martinho da Silva Guimarães, nos mandatos de 1892 a 1901, um dos edis que pugnou junto do Governo para conseguir o empréstimo que viabilizou o arranque das obras das Avenidas Novas.

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Todavia, treze anos depois, com a  implantação da República em Portugal, logo o primeiro Edital municipal após o 5 de outubro de 1910, datado de 5 de novembro de 1910, passou a denominar esta artéria como Rua de Berne. Nesta época, Berna era a capital da Suíça desde 1848 (pela constituição federal desse ano) e, como tal, era a capital de um país que, junto com a França e Portugal, eram as únicas Repúblicas na Europa daquele tempo. Refira-se ainda que no ano seguinte, por Edital de 7 de agosto de 1911, esta Rua de Berne viu a sua categoria mudada para Avenida, tanto mais que o arruamento foi crescendo em extensão ao longo do século XX.

Este primeiro Edital de toponímia da edilidade lisboeta após a implantação da República no país procurou fixar na memória da cidade esse acontecimento, quer através da Avenida da República e da Avenida Cinco de Outubro, quer através dos nomes dos chefes militar e civil republicanos – Cândido dos Reis e Miguel Bombarda -, também em Avenidas. Ressalta também que é logo neste primeiro edital que, além da Rua/Avenida de Berna, são dados mais 2 topónimos que referenciam outra república da época:  a Praça do Brasil e a Praça do Rio de Janeiro.

Finalmente, refira-se que o historiador Lúcio de Azevedo – consagrado na toponímia lisboeta pelo Edital de 14/05/1979  – viveu e faleceu no n.º 9 da Avenida de Berna.

A Avenida de Berna em 1964
(Foto: Artur João Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Avenida Brasília da Torre de Belém

nas Freguesias de Alcântara e de Santa Maria de Belém – nas futuras Freguesias de Alcântara e de Belém

Freguesias de Alcântara e de Belém                                                           (Foto: José Carlos Batista)

Cerca de três meses depois da inauguração em 21 de abril de 1960 da cidade de Brasília como capital do Brasil,  Lisboa perpetuou-a numa Avenida alfacinha próxima da linha do Tejo, através do Edital municipal de 20 de julho de 1960,  que era a via pública a sul do caminho-de-ferro, paralela à Avenida da Índia, entre a passagem de nível de Alcântara-Mar e a Avenida da Torre de Belém aberta em 1945.

Este topónimo nasceu de um pedido do Almirante Sarmento Rodrigues – Ministro do Ultramar de Salazar, de 1950 a 1955 – ao Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, que era então António Vitorino França Borges, para se fixar em Lisboa a nova capital brasileira que iria suceder ao Rio de Janeiro (1763 a 1960), que por sua vez já sucedera a Salvador (1549 a 1763).

Em 1956, Juscelino Kubitschek – o Presidente do Brasil de 1956 a 1961 – convidou o arquiteto brasileiro das formas curvas, Oscar Niyemer, para projetar os edifícios públicos da nova capital brasileira, que ficaram concluídos antes de 1960, enquanto o plano da cidade, em forma de borboleta, foi ganho pelo  arquiteto Lúcio Costa.

Brasília é Património Histórico e Cultural da Humanidade desde 1987 e em 2008 foi Capital Ibero-Americana da Cultura.

Freguesias de Alcântara e de Belém         
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

#EuropeForCulture

A Avenida da Universidade Técnica

Freguesia da Ajuda
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Como nos anos setenta do século passado a Câmara Municipal de Lisboa consagrara a Alameda da Universidade também no dealbar do novo século fixou na toponímia da cidade a Universidade Técnica de Lisboa, através da Avenida da Universidade Técnica, no Pólo Universitário da Ajuda.

A pedido da própria Universidade Técnica a edilidade lisboeta denominou a Rua B do Pólo Universitário da Ajuda como Avenida da Universidade Técnica, através do Edital municipal de 19 de abril de 2004, que também colocou nas restantes Ruas  nomes de professores  ligados à instituição e às faculdades ali instaladas: os veterinários  Ildefonso Borges Rua Joaquim Fiadeiro, o professor de Medicina Social e Antropologia Cultural Almerindo Lessa e ainda, o pintor Sá Nogueira, professor de arquitetos e designers.

Criada em 1930, a Universidade Técnica de Lisboa aglutinou a Escola Superior de Medicina Veterinária (depois, Faculdade de Medicina Veterinária), o Instituto Superior de Agronomia, o Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (depois, Instituto Superior de Economia e Gestão) e o Instituto Superior Técnico. Somaram-se o Instituto Superior de Estudos Ultramarinos em 1961, o Instituto Nacional de Educação Física em 1976 e a Faculdade de Arquitetura em 1979.

Em 2004, no ano de atribuição do topónimo, a Universidade Técnica de Lisboa integrava a Faculdade de Medicina Veterinária (FMV), o Instituto Superior de Agronomia (ISA), o Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), o Instituto Superior Técnico (IST), o Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), a Faculdade de Motricidade Humana (FMH) e a Faculdade de Arquitectura (FA).

Na década de 90 do século XX, a instalação do Instituto Superior de Agronomia, do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, da Faculdade de Medicina Veterinária e da Faculdade de Arquitectura, no Pólo Universitário do Alto da Ajuda, contíguo à Tapada, a Monsanto, ao Casalinho da Ajuda e à envolvente do Palácio da Ajuda, contribuiu em muito para a consolidação e a requalificação desta área de Lisboa, para além do ensino e da investigação científica, ao fazer acorrer diariamente a esta zona da cidade várias centenas de cidadãos, entre estudantes, professores, investigadores e frequentadores de actividades científicas e culturais da Universidade.

No ano de 2013, a partir do Decreto-Lei n.º 266-E/2012, de 31 de dezembro, operou-se a fusão da Universidade Técnica de Lisboa com a Universidade de Lisboa, ficando ambas as Universidades novamente unidas sob o nome de Universidade de Lisboa.

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

#EuropeForCulture

 

A longa Avenida de Cabo Ruivo a Marechal Gomes da Costa

Freguesias do Parque das Nações, dos Olivais, de Marvila e de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Um troço da 2ª Circular que começava em Cabo Ruivo foi conhecido como Avenida de Cabo Ruivo até oficialmente ganhar o nome de Avenida Marechal Gomes da Costa, no ano de 1966, mas ambos os topónimos, o popular e o oficial, continuaram até hoje na boca dos lisboetas.

Conforme se pode observar na planta de Lisboa de Júlio Silva Pinto existia em 1907 uma Quinta de Cabo Ruivo. Em 1944, o arqtº municipal Perez Fernandez realizou um estudo arquitetónico para o viaduto da 2ª circular em Cabo Ruivo e a partir de 1960 começou a execução do troço da 2ª Circular no lanço da rotunda da Praça do Aeroporto e Cabo Ruivo

E pelo Edital de 27 de maio de 1966, um longo troço da 2ª Circular que começava em Cabo Ruivo, na Avenida Marginal (Rua Cintura do Porto de Lisboa) e terminava na Praça do Aeroporto passou a ser a Avenida Marechal Gomes da Costa. Este topónimo resultou de uma sugestão da Liga dos Combatentes da Grande Guerra e do filho do homenageado, 37 anos após o falecimento do Marechal, e 40 anos menos um dia depois do golpe de Estado de 28 de maio de 1926 de que Gomes da Costa foi um dos mentores para de seguida ser Presidente da República, de 17 de junho a 9 de julho de 1926.

Freguesias do Parque das Nações, dos Olivais, de Marvila e de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

De seu nome completo Manuel de Oliveira Gomes da Costa (Lisboa/14.01.1863 – 17.12.1929/Lisboa)  foi um militar que após um interregno iniciado em 1921 regressou à politica no 28 de maio de 1926, lançando em Braga o grito «Às armas, Portugal!» e comandando as tropas que do norte chegaram a Lisboa.  Em 17 de junho um golpe de Estado depôs o comandante Mendes Cabeçadas e foi Gomes da Costa que assumiu a presidência da República nesse mesmo dia, da qual também acabou por ser deposto, em 9 de julho, por outro golpe de Estado.

O Marechal Gomes da Costa na Praça do Comércio em 1926
(Foto: Amadeu Ferrari, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Avenida do Aeroporto que passou a Avenida Almirante Gago Coutinho

A Avenida do Aeroporto nos anos 50 do séc. XX
(Foto: Mário de Oliveira, Arquivo Municipal de Lisboa)

Ainda hoje se chama Avenida do Aeroporto à Avenida Almirante Gago Coutinho – em homenagem ao aviador entretanto falecido – mas quando se começou a pensar num aeroporto para Lisboa a artéria era conhecida como prolongamento da Avenida Almirante Reis e depois dele implantado, passou a denominar-se Avenida do Aeroporto para, volvidos 13 anos, ser designada como Avenida Almirante Gago Coutinho, topónimo que 23 anos mais tarde o escritor Mário de Carvalho colocou no título de uma obra sua – A inaudita guerra da Avenida Gago Coutinho e outras histórias (1983) – mesmo que meia dúzia de anos depois, em dezembro de 1989, a Avenida tenha sido encurtada para ceder uma parte à nova Alameda das Comunidades.

Na década de vinte do século Vinte começou a falar-se da necessidade de um aeródromo para Lisboa e a sua construção foi mesmo decidida em março de 1928, para a Portela de Sacavém, considerada a localização «ideal, dada a ausência de aglomerados urbanos circundantes e, simultaneamente, a proximidade do centro da cidade (5km) e do porto fluvial». Todavia,  só na década de trinta se começou a construir  o Aeroporto e só na década seguinte abriu ao tráfego, em 15 de outubro de 1942.

Cinco anos depois do Aeroporto estar em funcionamento, ponderando a edilidade atribuir o nome de Avenida do Aeroporto à primitiva Avenida Alferes Malheiro, a Comissão Municipal de Toponímia foi de parecer na sua reunião de 3 de fevereiro de 1947  que o topónimo fosse antes dado ao prolongamento da Avenida Almirante Reis, entre a Praça do Areeiro e o Aeroporto da Portela, o que se veio a concretizar pelo Edital municipal de 17/02/1947.

Nove anos depois, em 1956 o Aero-Club de Portugal sugeriu à Câmara atribuição do nome «Avenida Gago Coutinho – Sacadura Cabral» à Avenida do Aeroporto. Porém, a Comissão Municipal de Toponímia discordou porque « deverá seguir-se a orientação até agora adoptada de só se consagrarem na toponímia da cidade nomes de individualidades que tenham falecido há alguns anos, lembrando, entretanto, que o nome de Sacadura já se encontra atribuído a uma avenida da capital.»

Passados três anos,  em 18 de fevereiro de 1959 faleceu Gago Coutinho, e no dia seguinte o vereador Dr. Baêta Henriques interveio na reunião de Câmara para que  o nome de Gago Coutinho fosse dado à Avenida do Aeroporto e apesar da Comissão de Toponímia contrapor que  fosse «atribuído a uma praça ou avenida de maior projecção do que a Avenida do Aeroporto e, possivelmente, junto ao Tejo, na freguesia da Ajuda ou Alcântara, onde aquele ilustre homem de ciência nasceu e viveu a maior parte da sua vida e partiu para a grande viagem que lhe deu renome Universal» o Edital municipal de 2 de janeiro de 1960 mudou o topónimo Avenida do Aeroporto para Avenida Almirante Gago Coutinho, com a legenda «Sábio e Herói da Navegação Aérea». Finalmente, mesmo no final do ano de 1989 a Avenida Almirante Gago Coutinho ficou com menor dimensão, já que o troço desta Avenida compreendido entre a Praça do Aeroporto e o Edifício do Aeroporto de Lisboa passou a denominar-se Alameda das Comunidades Portuguesas, pelo Edital municipal de 9 de dezembro de 1989.

Gago Coutinho por Amarelhe, no Sempre Fixe de 27 de maio de 1926

Carlos Alberto Viegas Gago Coutinho (São Brás de Alportel ou Lisboa/17.02.1869-18.02.1959/Lisboa), registado na lisboeta freguesia de Belém como tendo nascido a 17 de fevereiro de 1869 e que durante largo tempo viveu na Madragoa, na Rua da Esperança, foi um almirante da Marinha Portuguesa, geográfo e cartógrafo que fez também incursões na História Náutica a partir de 1925,  que se notabilizou como pioneiro da aviação, sobretudo por ter realizado com Sacadura Cabral a 1ª travessia aérea do Atlântico Sul, entre Lisboa e o Rio de Janeiro, de 30 de março a 17 de junho de 1922, no hidroavião Lusitânia.

A partir de 1917, incentivado por Sacadura Cabral que entretanto conhecera em Moçambique, tentou adaptar à aeronavegação os processos e instrumentos da navegação marítima, tendo criado em 1919 o famoso sextante de bolha artificial que ostenta o seu nome,  comercializado pela empresa alemã Plath. E foi para testar essas ferramentas de navegação aérea que Sacadura Cabral e Gago Coutinho realizaram em 1921 a travessia aérea Lisboa-Funchal.

Membro do Grande Oriente Lusitano da Maçonaria Portuguesa, Doutor Honoris Causa pela Universidade de Lisboa e pela Faculdade de Engenharia do Porto, bem como Medalha de Ouro da Sociedade de Geografia de Lisboa, Gago Coutinho foi também agraciado com a Ordem Militar de Avis (1919, 1920 e 1926), a Ordem Militar da Torre e Espada (1922), a Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1922), a Ordem do Império Colonial (1943), a Ordem Militar de Cristo (1947), para além de ser topónimo em inúmeras localidades portuguesas e brasileiras, de que mencionamos como exemplo Avenidas em Montemor-o-Novo e na brasileira de São Paulo; Largos em Carnaxide, Loulé, Sesimbra, Sines, Vila Viçosa; Praças no Barreiro, Mação, Moura, Sacavém e em Salvador da Bahia ou Santos; Ruas em Albufeira, Caldas da Rainha, Casal de Cambra, Coimbra, Faro, Lagos, Maia, Matosinhos, Montijo, Olhão, Pinhal Novo,  Quarteira, São Brás de Alportel, Setúbal, Vendas Novas, ou no Brasil em Campinas, Cuiabá, Curitiba, Londrina, Recife, Rio de Janeiro, São José do Rio Preto, São Paulo ou Uberlândia, para além de uma Rua na moçambicana Maputo e outra em Las Palmas, nas Ilhas Canárias; assim como Travessas na Covilhã,  Ermesinde, Marco de Canavezes, Nisa, Quinta do Conde, Trofa ou Valongo.

A Avenida Almirante Gago Coutinho nos dias de hoje – Freguesias do Areeiro e de Alvalade

A Avenida do pintor de «O Fado»

Freguesia de Campolide
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Avenida José Malhoa perpetua desde 1972 em Lisboa o pintor do quadro O Fado, aumentando o tamanho da artéria que lhe era dedicada na cidade desde 1955, por sugestão do Museu José Malhoa, das Caldas da Rainha.

José Malhoa começou por estar consagrado em Lisboa numa Rua de Alvalade, no ano do seu centenário de nascimento. O Edital municipal de 20 de outubro de 1955 identificou as ruas do Bairro de Alvalade com topónimos de figuras ligadas à cultura e às artes e assim, a Rua 55 A do Sítio de Alvalade passou a denominar-se Rua José Malhoa. Mas passados 17 anos,  esta artéria passou a ser a Rua General Pimenta de Castro, pelo Edital municipal de 8 de janeiro de 1972, que também transferiu o nome de José Malhoa para um arruamento maior, no prolongamento da Rua Ramalho Ortigão, desde o viaduto sobre a Avenida Calouste Gulbenkian até Sete Rios, ganhando a categoria de Avenida.

Este topónimo havia sido sugerido à Comissão Consultiva Municipal de Toponímia pelo então denominado Museu Provincial de José Malhoa – o único museu criado de raiz pelo Estado Novo – , em 1954, já que no ano seguinte seria o de centenário do nascimento do artista caldense. Mais tarde,  na sua reunião de 23 de dezembro de 1970 a Comissão deparou-se com um despacho do Presidente da CML «solicitando parecer sobre a transferência do topónimo que consagrou o nome de José Malhoa, para um arruamento de maior categoria» e quase um ano depois, na reunião de 20 de outubro de 1971,  outro despacho do Presidente da CML pedia «parecer sobre a denominação do arruamento em construção no prolongamento da Rua Ramalho Ortigão», tendo então a Comissão considerado «que a considerável extensão do arruamento, sua localização e importância bem justificam o nome de uma grande individualidade; Considerando ainda que o nome de José Malhoa identifica hoje um pequeno arruamento; A Comissão é de parecer que o arruamento em construção no prolongamento da Rua Ramalho Ortigão, desde o viaduto sobre a Avenida Calouste Gulbenkian, até Sete Rios, se denomine Rua José Malhoa/Pintor/1855 – 1933».

Branco e Negro, 21 junho de 1896

José Vital Branco Malhoa (Caldas da Rainha/28.04.1855 – 26.10.1933/Figueiró dos Vinhos) liga-se ao Fado por em 1909 (1ª versão) e em 1910 (versão final) ter pintado o quadro O Fado, um óleo sobre tela (150  × 183 ) hoje no Museu de Lisboa, que se tornou uma imagem icónica desse estilo de música, a ponto de ser recriada em filmes e mesmo se inicialmente foi mal recebida em Portugal, por causa da sua temática considerada marginal e assim, o quadro foi exposto pela primeira vez em Buenos Aires, em 1910, na Exposição Internacional de Arte do Centenário da República da Argentina, com o título Bajo el Encanto, onde conseguiu a Medalha de Ouro e só foi exposto em Lisboa em 1917. A característica  pintura de costumes de Malhoa produziu outras obras emblemáticas como As Cócegas (1904), Os Bêbados (1907) ou Outono (1918).

Apesar de diplomado pela Academia Real de Belas Artes, onde foi discípulo de Vítor Bastos, Tomás da Anunciação e Miguel Lupi, até ao  sucesso de A Seara Invadida exposta em Madrid, em 1881, lhe renovar as esperanças de carreira, José Malhoa dedicou-se ao comércio para seu sustento. Foi assim que depois aderiu ao naturalista Grupo do Leão. Em Lisboa, pintou os tetos da sala de concerto do Conservatório Real de Lisboa, do Supremo Tribunal de Justiça e do Gabinete Real da Escola Médica de Lisboa, bem como os medalhões do teto dos Paços do Concelho de Lisboa (1889). No concurso que a Câmara Municipal de Lisboa abriu em 1887 para um quadro representando A partida de Vasco da Gama para a Índia, o seu esboceto recebeu a primeira classificação entre os concorrentes, sendo nessa ocasião Malhoa agraciado com o grau de cavaleiro da Ordem de Cristo (1888). Malhoa pintou ainda composições históricas de pendor decorativo para o Palácio da Ajuda (1890), Assembleia Constituinte (1891) e  Museu Militar (1907). Foi Presidente da Sociedade Nacional das Belas Artes em 1918. A sua obra está representada nos lisboetas Museu de Lisboa – Palácio Pimenta e Museu de Arte Contemporânea – Museu do Chiado,  bem como no Museu José Malhoa das Caldas da Rainha.

Refira-se que José Malhoa mandou construir  a sua casa em Lisboa sob traçado do Arqº. Norte Júnior, que foi Prémio Valmor 1905 e hoje conhecemos como Casa-Museu Doutor Anastácio Gonçalves, já que este proprietário posterior a legou ao Estado. A decoração a fresco das fachadas foi executada por Mário Eloy, segundo modelos do próprio Malhoa e de António Ramalho e as esculturas foram obra de Costa Mota. Pertenceu, mais tarde, a Anastácio Gonçalves que a legou ao Estado.

Freguesia de Campolide
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Avenida da Muito Notável Vila da Praia da Vitória em 11 de agosto de 1829

Freguesias das Avenidas Novas e de Arroios
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Muito Notável Vila da Praia da Vitória, conforme o título que lhe foi concedido por Carta Régia de 12 de janeiro de 1837, em reconhecimento por ter tomado partido pelas tropas liberais contra a esquadra absolutista de D. Miguel, em 11 de Agosto de 1829, contribuindo assim para a vitória dos liberais de D. Pedro, está perpetuada em Lisboa desde a publicação do Edital municipal de 28 de junho de 1906, nas Avenidas Novas de Ressano Garcia junto à Praça que homenageia o chefe militar de D. Pedro, o Marechal Saldanha.

Este topónimo nasceu como Avenida da Praia da Vitória mas a partícula «da» foi suprimida em 1951, a partir de um parecer da Comissão Municipal de Toponímia de 13 de abril que o  Vice-Presidente da edilidade homologou no dia 16. Também a sua dimensão inicial ia da Rua de Dona Estefânia à Praça Duque de Saldanha, tendo a partir de 1945 sido ampliada até à Avenida 5 de Outubro.

A Ilha Terceira (Açores) está dividida em  dois  concelhos, sendo Praia da Vitória a sede do concelho mas a sua colocação na toponímia lisboeta mais do que uma referência de geografia regional radica numa homenagem ao apoio dado a D. Pedro contra D. Miguel em 1829. Aliás, a Avenida Praia da Vitória aquando da sua atribuição – 1906 – desembocava na Praça Duque de Saldanha que assim era designada desde 22 de agosto de 1902, em homenagem ao Marechal Saldanha, o chefe do Estado-Maior do Exército de D. Pedro, substituindo o anterior nome de Praça Mouzinho de Albuquerque.

Refira-se que os outros dois topónimos lisboetas que claramente celebram a vitória liberal de D. Pedro sobre o absolutista D. Miguel também se encontram juntos numa mesma zona da cidade desde o último quartel do séc. XIX, desaguando um no outro: a Avenida 24 de Julho que arriba à Praça do Duque da Terceira. A primeira nasceu como Rua em 13 de setembro de 1878 e em 22 de outubro de 1928 passou a Avenida, enquanto a Praça Duque de Terceira passou a ser a nova denominação da Praça dos Remolares ou Romulares pelo Edital municipal de 28 de dezembro de 1889.

Freguesias das Avenidas Novas e de Arroios
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A americana Helen Keller numa Avenida junto ao Centro com o seu nome

Freguesias da Ajuda e de Belém                                                                       (Foto: José Carlos Batista)

Helen Keller foi uma americana deficiente desde os 19 meses de vida que procurou ajudar a melhorar a qualidade de vida de outros deficientes, afirmando que  «As melhores e mais belas coisas do mundo não podem ser vistas nem tocadas, mas o coração as sente», estando perpetuada desde 1987  numa Avenida próxima do Centro Helen Keller.

A Avenida Helen Keller foi atribuída pela edilidade lisboeta através do Edital de 7 de setembro de 1987, ao arruamento construído no prolongamento da Avenida Dr. Mário Moutinho  (Edital de 17/02/1970) e, ambos os topónimos estão relacionados com o Centro Helen Keller, uma escola inclusiva para alunos invisuais e normovisuais.

Em 1936, o médico oftalmologista Mário Moutinho criou a Liga Portuguesa da Profilaxia da Cegueira (LPPC)  e acalentava o sonho de criar em Portugal uma clínica de reeducação de diminuídos visuais, o que veio a ser concretizado pelo seu filho, médico da mesma especialidade, a partir de 1955  no edifício que é hoje o nº 20 da da Avenida Dr. Mário Moutinho, nascendo assim uma instituição pioneira do ensino integrado em Portugal. Em março de 1956, quando Helen Keller veio a Portugal a convite da LPPC, passou a instituição a designar-se Centro Infantil Helen Keller.

Helen Keller (Alabama/27.06.1880 – 01.06.1968/Connecticut) ficou cega, surda e muda desde os 19 meses de vida e foi graças à persistência da sua percetora Ana Sullivan. Helen aprendeu a ler num alfabeto de cegos, conseguiu depois compreender 5 línguas, concluir estudos superiores, publicar a sua autobiografia A história da minha vida (1902) e fazer carreira profissional a escrever artigos para o Ladies Home Journal. Fortemente motivada pela sua experiência de vida, Helen Keller tornou-se defensora das pessoas portadoras de deficiência e empreendeu uma cruzada humanitária a favor dos que eram como ela, através da escrita, de conferências que proferiu e contribuindo para a criação de muitas instituições de reeducação dos cegos, surdos e mudos.

Refira-se ainda que em Lisboa existe também a Rua Luís Braille, dedicada ao francês que inventou o sistema de escrita e leitura para cegos que ficou com o seu nome – o Braille – que foi inaugurada em 2004 no âmbito do Ano Europeu das Pessoas com Deficiência.

Freguesias da Ajuda e de Belém                                                          (Foto: José Carlos Batista)