A Avenida sonhada por Rosa Araújo e as Marchas Populares criadas por Leitão de Barros

Freguesias de Santo António e de Santa Maria Maior

A Avenida da Liberdade, o sonho de Rosa Araújo dotar Lisboa com um boulevard parisiense, concretizado no último quartel do séc. XIX, veio a ser palco do desfile das Marchas Populares a partir de 1934, evento criado por Leitão Barros  dois anos antes no Parque Mayer.

José Gregório Rosa Araújo (Lisboa/1840-1893/Lisboa), enquanto presidente da Câmara Municipal de Lisboa defendia a abertura na cidade de uma grande Avenida ao estilo parisiense e concretizou esse sonho entre 1879 e 1886, destruindo o famoso Passeio Público, elegante jardim fechado, tomando o topónimo Avenida da Liberdade o lugar do Passeio Público e das Ruas Oriental e Ocidental do Passeio, por deliberação camarária de 18 de agosto de 1879. Na Câmara a escolha desta opção foi renhida mas as obras de demolição começaram no dia 24 de julho de 1879 e nos últimos dias de 1882 as grades do Passeio Público começaram a ser arrancadas. O traçado desta Avenida da Liberdade, aprovado entre 1877 e 1879 pela Câmara Municipal de Lisboa, retomou propostas urbanísticas anteriores que conceberam a Avenida como prolongamento do Passeio Público, mas com limite na futura Rotunda do Marquês de Pombal.

Com 90 metros de largura e 1273 de comprimento, a Avenida da Liberdade foi inaugurada em 1886, no mesmo ano em que as ruas Barata Salgueiro e Castilho foram calcetadas e iluminadas e, no dia 25 de maio desse ano foi ela o palco de um grande desfile com Infantaria e Cavalaria que o futuro rei D. Carlos quis mostrar à sua noiva no dia do casamento.

No princípio do séc. XX, este novo boulevard que herdara algumas árvores e estatuária do Passeio Público, era já palco de passeios de domingo da burguesia lisboeta e a área escolhida para edifícios de prestigiados arquitetos. Em 1922, instalou-se o Hotel Tivoli, traçado por Norte Júnior e, dois anos depois foi a vez do Cinema Tivoli, de Raúl Lino. Em 1 de julho de 1936, inaugurou-se o Hotel Vitória, da autoria de Cassiano Branco, o arquiteto do Éden Teatro. Quatro anos mais tarde, em 24 de setembro de 1940, foi o jornal Diário de Notícias que se mudou das suas instalações do Bairro Alto para o alto da Avenida da Liberdade, sob um traçado do Arqº Pardal Monteiro.

Em 1932

Em 1932, Leitão de Barros, o «pai das marchas populares», criou esse novo evento em forma de concurso e publicitou-o no jornal que dirigia, o Notícias Ilustrado. Nesse ano, apenas os núcleos bairristas ( ou ranchos, como então eram designados) do Alto do Pina, Bairro Alto e Campo de Ourique desfilaram no Capitólio, no Parque Mayer. Campo de Ourique, com os seus trajes minhotos, foi o vencedor desta 1ª edição. A Marcha do Alto do Pina obteve o  prémio da categoria Pitoresco e a Marcha do Bairro Alto ganhou o prémio Alegria. As Marchas Populares foram a resposta de Leitão de Barros ao desafio de Campos Figueira de Gouveia ( diretor do Parque Mayer), de garantir  um espetáculo capaz de mobilizar a atenção dos lisboetas.

Em 1934, assim como no ano seguinte, o olisipógrafo e então vereador Luís Pastor de Macedo era o responsável pelas Festas da Cidade na autarquia lisboeta e participaram então 12  bairros e 800 marchantes, cada um com a sua marcha inspirada num costume local ou característica do seu bairro. Ao desfile das Marchas Populares desde a Praça do Comércio até ao Parque Eduardo VII, já assistiram 300 mil pessoas. No ano seguinte, em 1935, já estava criada uma Comissão Executiva das Festas de Lisboa e pela primeira vez  todas as marchas cantaram uma composição comum – a Grande Marcha de Lisboa -, sendo a primeira Lá Vai Lisboa, de Raúl Ferrão e Norberto de Araújo, tendo-se sagrado vencedora a Marcha de Benfica, para além da Madragoa ter apresentado uma Marcha Infantil.

Depois, a Guerra Civil Espanhola e a Segunda Guerra Mundial, acabaram por forçar a algum interregno, à excepção apenas de 1940 – com a celebração dos Centenários da Independência- assim como de  1947, com a comemoração do 8.º Centenário da Conquista de Lisboa aos Mouros. As Marchas Populares regressaram em 1950 e o olisipógrafo e jornalista Norberto de Araújo voltou a participar na organização das mesmas assinando a letra da Grande Marcha desse ano, interpretada por Amália Rodrigues, A Noite de Santo António, com música de Raúl Ferrão. O evento começou também a ter a assistência de altos dirigentes do Estado e a ser apadrinhado por vedetas da rádio e do teatro, para cada marcha. Em 1952, o percurso do desfile passa a ser o que temos hoje:  da Praça Marquês de Pombal à Praça dos Restauradores. Voltou a instabilidade na realização do evento e o desfile da Marchas só ocorreu sem interrupções de 1963 a 1970, sendo nesse último ano que a  a televisão começou a transmitir o evento. São também deste período o aparecimento dos carros alegóricos (1965) e das «mascotes» – crianças que acompanham a marcha vestidas como os marchantes – (1969), assim como a primeira vez da Marcha Infantil da Voz do Operário (1966) que depois só voltou a partir de 1990. As Marchas Populares tornaram-se  uma iniciativa em declínio na década de setenta e  após o 25 de Abril até se interromperam para voltarem depois em 1979, para novas intermitências até voltarem de forma regular a partir de 1988.

© CML | DPC | NT | 2019

 

 

Anúncios

As Ruas do Arraial do Centieirense

Freguesia do Parque das Nações

A Rua da Centieira e a Avenida de Pádua vão ser o palco do Arraial Popular promovido pelo Grupo Recreativo Centieirense e a Junta de Freguesia do Parque das Nações, no local em que ambas as artérias se encontram.

O Grupo Recreativo Centieirense está sediada na Rua da Centieira nº 88 e foi constituído enquanto associação recreativa em 9 de outubro de 1975.

Freguesia do Parque das Nações

A Rua da Centieira é um topónimo que deve derivar da Quinta da Centieira que ali existiu, tal como havia uma Estrada da Centieira junto a esta quinta e à Quinta Ché, conforme surge na planta topográfica de Lisboa de Silva Pinto, de 1907. A Rua da Centieira é a parte da Estrada da Centieira que sobreviveu enquanto arruamento.

Nessa planta de 1907 podemos ver que outros topónimos desta zona eram a Estrada do Patacão, a Rua do Vale Formoso de Cima, a Quinta dos Paios -que era propriedade de Henrique Bastos-, a Quinta do Brincão, a Quinta do Desterro, a Quinta Nova, a Rua Direita dos Olivais, a Azinhaga do Casal das Rolas, a Rua do Vale Formoso de Baixo, o Casal das Rolas, a Azinhaga dos Manicotes, a Quinta dos Manicotes, a Quinta dos Ingleses e a Quinta do Vale Formoso de Baixo, delineando assim o carácter rural do local.

Por diversas escrituras municipais sabemos também que entre 1906 e 1917 se procedeu ao alargamento da Centieira fosse ela ainda Estrada ou já designada Rua, tendo cedido terrenos para esse efeito Henrique Bastos. Em 1932, para alargamento da Rua da Centieira, também cederam terrenos à Câmara José Lopes Júnior – da sua Quinta Ché – e Albino Marques e sua mulher. E depois, nos anos cinquenta, percebemos a industrialização do arruamento com venda de terreno à UTIC – União de Transportadores para Importação e Comércio (1953) e à SACOR – Sociedade Anónima de Combustíveis e Óleos Refinados (1958) que estava na zona de Cabo Ruivo desde 1940, ao mesmo tempo que a edilidade – em 1956 – comprava prédios e o Pátio Joaquim Pereira a Joaquim Pereira Junior  e a Maria das Dores Pereira.

Segundo José Pedro Machado, no seu Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, centieira é topónimo de diversos locais em Portugal e deriva de uma ave denominada centieiro, que é também nome de uma localidade no Bombarral.

Já a Avenida de Pádua foi atribuída pelo Edital  municipal de 10 de novembro de 1966 no arruamento de acesso ao Cemitério dos Olivais, também conhecido como Rua E, mas desconhecem-se as razões dessa escolha. A única Ata da Comissão Consultiva Municipal de Toponímia que menciona o assunto é a de 7 de novembro de 1966, na qual apenas se expressa o seguinte : « Processos números 13184/65, 13852/65, 14032/65 e 14052/65, originados por requerimentos de Sociedade Lorilleux-Lefranc [ empresa produtora de tintas para processos gráficos, vernizes e secantes, sediada no lote 67 desse arruamento]e outros, solicitando que seja atribuída denominação definitiva ao arruamento de acesso ao Cemitério dos Olivais. A Comissão foi de parecer que à referida artéria seja atribuído o nome de Avenida de Pádua.»

© CML | DPC | NT | 2019

Muzai na Escola Nuno Cordeiro da Avenida David Mourão-Ferreira, no MURO’19

Muzai na Escola Nuno Cordeiro: A Balada de Seu Ciro e Dona Elvira
(Foto: © José Vicente| CML| DPC| 2019

No âmbito do MURO’19 foi Muzai o escolhido para deixar a sua intervenção artística – A Balada de Seu Ciro e Dona Elvira – na empena da Escola Básica Nuno Cordeiro, sediada na Avenida David Mourão-Ferreira, nesta 3ª edição Festival de Arte Urbana de Lisboa em que a arte urbana se une à música e à literatura presente no espaço, quer através da toponímia, quer de concertos e peças artísticas que unem a pintura a sonoridades.

O brasileiro Muzai usa o fio condutor da simplicidade do seu traço e de cores puras, fortes e contrastadas, para produzir arte urbana. Procura uma poética visual de fantasia e sonho, como que resgatando a criança interior do interior do homem. Nascido em Minas Gerais, em 1968, como Fabrício Alves, desde criança que era apaixonado por banda desenhada e licenciou-se pela Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Uberlândia. Desde 2009 que se tornou o artista Muzai, após ter visitado São Paulo e ter ficado impressionado com o impacto da arte urbana na cidade em contraste com as antigas ruas cinzentas. Começou o seu percurso pela arte urbana mural na sua cidade natal.

David Mourão-Ferreira, escritor romancista, novelista, contista, dramaturgo e poeta que também escreveu para fado, professor universitário de literatura, ensaísta, jornalista e cronista, tradutor e crítico literário é o homenageado nesta longa Avenida onde se encontra a Escola Básica Nuno Cordeiro em cuja empena Muzai pintou a sua obra de caras, guitarra e ternura.

A Avenida David Mourão-Ferreira foi o topónimo dado à Rua 3 da Malha 14,6,1,2 e 3 do Alto do Lumiar através da publicação do Edital municipal de 22 de julho de 2005 e que encontramos desde a rotunda onde confluem a Avenida Carlos Paredes e a Rua General Vasco Gonçalves até ao Eixo Central (no troço entre Rotunda 2 e a Av. Nuno Krus Abecassis). Com a Rua José Cardoso Pires e a Avenida Carlos Paredes define quase um círculo em cujo espaço interior decorre o MURO’19.

O escritor David de Jesus Mourão-Ferreira (Lisboa/24.02.1927-16.06.1996/Lisboa), filho de David Ferreira – secretário do diretor da Biblioteca Nacional – e de Teresa de Jesus Mourão-Ferreira, homem de múltiplas facetas notabilizou-se como poeta do amor e da sensualidade, como uma personalidade que tanto na vida como na escrita celebrou o amor, o erotismo e o corpo em palavras. Nasceu e viveu até aos 15 anos no Bairro da Lapa, frequentou o Colégio Moderno e já nas brincadeiras de infância fazia peças de teatro e jornais que o seu irmão mais novo – Jaime Alberto – ilustrava. Licenciou-se em 1951 em Filologia Românica, na Faculdade de Letras de Lisboa, onde veio a ser professor e catedrático de Teoria da Literatura e Literatura Portuguesa.

Com Alain Oulman, David Mourão-Ferreira levou os seus poemas também para o fado e para a voz de Amália, em que se destacam Barco Negro (1954), Abandono, Solidão,  Espelho Quebrado, Primavera, Anda o Sol na Minha Rua, Nome de Rua ou Maria Lisboa (1961). Depois, também produziu letras para Simone de Oliveira ou Luís Cília, apesar de ter sido alvo de uma campanha de difamação, assim como de um processo judicial por  ter subscrito a apresentação da Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, organizada por Natália Correia (em 1965), bem como por no ano seguinte ter prefaciado a tradução de A Filosofia da Alcova do Marquês de Sade.

Começou a sua vida literária na poesia com a A Viagem (1950) a que somou, entre outros, Tempestade de Verão (1954) que foi Prémio Delfim Guimarães, Os Quatro Cantos do Tempo (1958), A Arte de Amar (1962), Cancioneiro de Natal (1971) que foi Prémio Nacional de Poesia, Matura Idade (1973), Sonetos do Cativo (1974), Os Ramos e os Remos (1985), No Veio de Cristal (1988) que foi Grande Prémio Inasset de Poesia, Nos Passos de Pessoa (1988) que ganhou o Prémio Jacinto Prado Coelho e a antologia erótica Música de Cama (1994).

São também de destacar as novelas Gaivotas em Terra (1959) que conquistaram o Prémio Ricardo Malheiros e são topónimo de uma artéria do Parque das Nações, a peça O Irmão (1965) que foi Prémio de Teatro da Casa da Imprensa, os contos Os Amantes (1968), As Quatro Estações (1980) galardoada com prémio da Associação Internacional dos Críticos Literários, o romance Um Amor Feliz (1986) – que recebeu o Prémio de Narrativa do Pen Clube Português, o Prémio D. Dinis da Fundação da Casa de Mateus, o Prémio de Ficção Município de Lisboa, o Grande Prémio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores e a Medalha Oskar Nobiling da Academia Brasileira de Letras -, Duas Histórias de Lisboa (1987) e o CD Um Monumento de Palavras.

Colaborou também em jornais e revistas, como o Diário Popular ou a revista Seara Nova (onde em 1945 publicara os seus primeiros poemas), para além de ter sido um dos fundadores da revista literária Távola Redonda (1950-1954) que dirigiu com António Manuel Couto Viana e Luís de Macedo. Em 1967, tinha a rubrica «Poesia para Todos» no Diário de Lisboa e após o 25 de Abril dirigiu A Capital e foi diretor-adjunto de O Dia. Na década de sessenta do séc. XX também foi o autor do programa Música e Poesia na Emissora Nacional e de Hospital das Letras e Imagens da Poesia Europeia na RTP, tendo nos anos setenta criado também O Dom de Contar para a televisão.

Desempenhou ainda as funções de Secretário de Estado da Cultura (nos anos de 1976, 1977 e 1979), sendo seu o despacho que criou a Companhia Nacional de Bailado. A partir de 1981 dirigiu o Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Fundação Calouste Gulbenkian e depois, presidiu à Associação Portuguesa de Escritores (1984 – 1986) e ao Pen Club Português (1991).

© CML | DPC | NT e GAU | 2019

A Avenida Carlos Paredes e Utopia no MURO’19

Avenida Carlos Paredes
(Freguesia do Lumiar)

O MURO’19 que vai decorrer de 23 a 26 de maio na freguesia do Lumiar tem como tema a Música aproveitando a toponímia do local específico onde vai decorrer, em que a Avenida Carlos Paredes serve como o braço de uma guitarra portuguesa em que os outros arruamentos com topónimos ligados à música, de ambos os lados, funcionam como o corpo do instrumento.

Esta 3ª edição do Festival de Arte Urbana de Lisboa comportará ainda, em 3 espaços distintos, a criação de uma peça única em resultado do trabalho conjunto de um músico e de um street artist.

Utopia, de seu nome Oliveiros junior, é um artista brasileiro, natural de São Paulo, que desde 1997 realiza arte urbana usando uma mistura de materiais, de formas e de cores que tornam o seu estilo único. No MURO’19, vai ter intervenção na Avenida Carlos Paredes, na EB 2+3 do Alto Lumiar, onde está sediado também o Agrupamento Escolar, bem como em mais duas escolas da zona (a EB Nuno Cordeiro e a EB Padre José Manuel Rocha e Melo).

O mestre da guitarra portuguesa Carlos Paredes está homenageado nesta artéria que antes de ter topónimo era identificada como Avenida 2 do Plano de Urbanização no Alto do Lumiar. Ficou Avenida Carlos Paredes, a primeira da cidade a ser dedicada a um nome ligado à Música, através da publicação do Edital municipal de 6 de outubro de 2005, próxima da Alameda da Música e de outras ruas com topónimos de compositores, instrumentistas e cantores, com que a edilidade pretendeu criar um Bairro da Música através da toponímia em 2004.

Carlos Paredes (Coimbra/16.02.1925 – 23.07.2004/Lisboa), guitarrista ímpar da cultura portuguesa, filho, neto e bisneto de vultos da guitarra portuguesa – Artur, Gonçalo e António Paredes -, estudou  este instrumento logo a partir dos 4 anos. Aos 9 anos veio residir para Lisboa, estudou no Liceu Passos Manuel e chegou a frequentar o primeiro ano do Curso industrial do Instituto Superior Técnico. Porém, em 1949, apresentou-se em parceria com o seu pai no programa semanal deste na Emissora Nacional e nesse mesmo ano tornou-se arquivista de radiografias do Hospital de São José. Em 1958 aderiu ao Partido Comunista Português e por denúncia de colegas de trabalho, foi preso pela PIDE em setembro e libertado só 18 meses depois, com a consequente expulsão da função pública. Mas  Carlos Paredes vai tornar-se uma figura reconhecida nacional e internacionalmente como músico, tanto como executante, quer como compositor e ainda como um dos grandes responsáveis pela divulgação e popularidade da guitarra portuguesa. Usou uma guitarra de Coimbra e a afinação do Fado de Coimbra mas a sua vida em Lisboa inspirou-lhe inúmeras das suas composições.

A sua discografia soma os singles  Mudar de VidaAntónio Marinheiro e Balada de Coimbra(todos em 1972); os EP’s Carlos Paredes (1957), Porto SantoDivertimento e  Variações em Ré Menor (todos em 1968); bem como os álbuns Guitarra Portuguesa (1967), Movimento Perpétuo(1971), Carlos Paredes-Meister der portugiesischen Guitarre (1977, na RDA), O Oiro e o Trigo (1980, na RDA), Concerto em Frankfurt (1983), Espelho de Sons ( 1988), Na Corrente (1996), Canção para Titi (2000).  Acompanhou e/ou produziu ainda discos de poemas de  Ary dos Santos (1969), da cantora Cecília de Melo(1971), de Manuel Alegre(1974), para além de colaborações com Adriano Correia de Oliveira (1975), António Vitorino de Almeida (1986), Charlie Haden (1990) ou Madredeus (1992).

Para o cinema fez a banda sonora da curta Rendas de Metais Preciosos (1960) de Cândido Costa Pinto, de Os Verdes Anos (1962)  e Mudar de vida (1966) de Paulo Rocha, de P.X.O. (1962) de Pierre Kast, de Fado corrido (1964) de Jorge Brum do Canto, As pinturas do meu irmão Júlio (1965) de Manoel de Oliveira, Crónica do esforço perdido (1966) de António de Macedo, A cidade (1968) e The Columbus route (1969) de José Fonseca e Costa, Tráfego e estiva (1968) de Manuel Guimarães, bem como do documentário Na corrente (1969) de  Augusto Cabrita. Colaborou também com o Teatro Moderno de Lisboa, o Teatro Experimental de Cascais, o Grupo de Teatro de Campolide, o  Teatro Na Caixa e Vasco Wallenkamp também usou a sua música para a criação do bailado Danças para Uma Guitarra (1982).

Após o 25 de Abril de 1974, Carlos Paredes  foi reintegrado nos quadros do Hospital de São José e o anúncio televisivo diário das primeiras eleições livres para a Assembleia Constituinte tinha música sua. A sua última actuação em público ocorreu em outubro de 1993, na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, acompanhado por Luísa Amaro.

© CML | DPC | NT e GAU | 2019

O emissor do Porto Alto, a Casa da Moeda e a Avenida de António José de Almeida

A partir das 3H15, uma coluna de nove viaturas militares da EPE de Tancos segue para Lisboa, para ocupar a Casa da Moeda, onde chega cerca das 18 horas, depois de horas a defender o emissor do Rádio Clube Português no Porto Alto.

Cerca das 3:15 do dia 25 de abril de 1974 uma coluna motorizada da EPE- Escola Prática de Engenharia saiu de Tancos com destino a Lisboa e a intenção de ocupar a Casa da Moeda. Contudo, cerca das 8:50, estacionou no centro emissor de Onda Média de 120 kw do Rádio Clube Português, no Porto Alto, para reforçar a sua defesa, pelo que só por volta das 18 horas ocupou a Casa da Moeda, na Avenida de António José de Almeida nº 42.

As Companhias de Caçadores 4241 e 4246 do Campo de Instrução Militar de Santa Margarida encontraram-se na Ponte da Golegã com a coluna da Escola Prática de Engenharia de Tancos e entregaram-lhe munições. A 4246 seguiu para a Ponte de Vila Franca de Xira e as outras duas, comandadas pelo capitão miliciano Luís Pessoa, acorreram a defender as instalações do Porto Alto, onde estavam as antenas do Rádio Clube Português, garantindo assim a transmissão. Às 8 horas da manhã, o governo do Estado Novo ainda  ordenou o corte de energia elétrica e dos telefones ao Rádio Clube Português, tanto nos estúdios da Rua Sampaio Pina como nas antenas do Porto Alto, situação que só foi normalizada às 19:00 horas e assim entraram em funcionamento geradores automáticos que asseguraram a emissão e a EPE permaneceu mais tempo no local e apenas às 18 horas ocupou a Casa da Moeda -Imprensa Nacional.

Desde 1972 que a Casa da Moeda havia tido uma fusão com a Imprensa Nacional sendo em 25 de abril de 1974 a INCM – Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Cerca de 30 anos antes,  sob o traçado de 1933 do Arqº Jorge Segurado, abriu em 1941 a nova sede da Casa da Moeda na Avenida de António José de Almeida, oriunda da Rua de São Paulo, onde estava desde 1720 estando essa memória guardada no local através do Beco e da Rua da Moeda.

Já a Avenida de António José de Almeida nasceu do Edital municipal de 18 de julho de 1933. Quatro anos mais tarde,  em 31 de dezembro de 1937, foi inaugurada nesta artéria uma estátua a homenagear este Presidente da República, da autoria do escultor Leopoldo de Almeida e do Arqº Pardal Monteiro. E quatro anos depois abriu a Casa da Moeda.

Cerca de quinze dias após o falecimento de António José de Almeida determinou a edilidade, através do Edital de 12/11/1929 que a  a Avenida 12 do Novo Bairro no seguimento da Avenida Almirante Reis (hoje, Avenida Guerra Junqueiro) se denominasse Avenida Dr. António José de Almeida. Mas em 1933, a autarquia mudou o topónimo para o prolongamento da Avenida Miguel Bombarda, entre a Avenida dos Defensores de Chaves e a Avenida de Manuel da Maia, onde ainda hoje a encontramos.

António José de Almeida (Penacova – Vale da Vinha/27.07.1866 – 31.10.1929/Lisboa), formado em 1895 em Medicina pela Universidade de Coimbra, aderiu logo nessa época ao Partido Republicano e ao longo da sua vida exerceu medicina em Angola, São Tomé e Príncipe e Lisboa. Fez a sua vida como político: deputado pelo círculo oriental de Lisboa (1906); Ministro do Interior do Governo Provisório (1910-1911), fundou o Partido Republicano Evolucionista (24 de fevereiro de 1912); defendeu a participação de Portugal na Guerra logo em 1914; foi Chefe do Governo da União Sagrada e Ministro das Colónias (1916-1917); foi o único Presidente da I República a cumprir integralmente o seu mandato, de 1919 a 1923. Refira-se ainda que António José de Almeida proferiu um discurso no funeral de Rafael Bordalo Pinheiro (1905), e postumamente, em 1934, foram coligidos os seus principais artigos e discursos e publicados em 3 volumes sob o título Quarenta anos de vida literária e política.

A Casa da Moeda na Avenida de António José de Almeida, nos anos 50 do séc. XX
(Foto: António Passaporte, Arquivo Municipal de Lisboa)

© CML | DPC | NT e GEO | 2019

O 25 de Abril e a Avenida Ribeira das Naus ou do Arsenal

A Avenida da Ribeira das Naus foi o palco de momentos tensos na manhã de 25 de Abril de 1974, com o pelotão de RC 7 às 7H30 horas, a fragata Almirante Gago Coutinho posicionada no Tejo às 9 horas e as tropas do major Pato Anselmo cerca de meia hora depois a confrontarem-se com os militares do Movimento das Forças Armadas.

As forças da EPC – Escola Prática de Cavalaria comandadas pelo capitão Maia (como nesse dia foi denominado) assumiram o controlo da Praça do Comércio e artérias adjacentes antes das 6 da manhã. Às 7:30 horas chegou à Avenida da Ribeira das Naus um pelotão de reconhecimento Panhard do RC 7 – Regimento de Cavalaria 7, comandado pelo  tenente-coronel Ferrand de Almeida que acabou por se render meia hora depois. Às 9 horas, tomou posição intimidatória no Tejo a  fragata Almirante Gago Coutinho mas até ao meio-dia, quando se afastou para o Mar da Palha, nunca abriu fogo. A artilharia do Movimento das Forças Armadas, estacionada no Cristo-Rei, também recebeu ordens do Posto de Comando para afundar a fragata caso esta abrisse fogo. A partir das 9:35 horas dois carros de combate M47, comandados pelo major Pato Anselmo, tomaram posições na Avenida da Ribeira das Naus e outros dois na Rua do Arsenal, mas cerca de uma hora depois essas tropas passaram-se para o Movimento dos Capitães, graças ao civil e ex-alferes miliciano Fernando Brito e Cunha. De seguida,  o brigadeiro Junqueira dos Reis dirigiu as tropas  que lhe restavam da Rua do Arsenal para a Avenida da Ribeira das Naus e ordenou ao alferes miliciano Fernando Sottomayor (do RC 7) que abrisse fogo sobre Salgueiro Maia mas este recusou obedecer pelo que foi detido. Repetiu a ordem ao cabo apontador José Alves Costa mas este fechou-se dentro do carro de combate. O oficial-general foi então para a Rua do Arsenal mas todos os cabos se recusaram a abrir fogo. Às 10:20, o capitão Tavares de Almeida, o major Jaime Neves e os alferes milicianos Maia Loureiro e David e Silva negociaram a rendição do major Pato Anselmo na Avenida da Ribeira das Naus, e esta acabou por acontecer.

Tanto a Avenida da Ribeira das Naus como a Rua do Arsenal foram palco de acontecimentos tensos no dia 25 de Abril de 1974. Também ambos os topónimos partilham a mesma origem: o Arsenal da Marinha, descendente das tercenas de D. Manuel I.

A doca seca do Arsenal da Marinha foi atulhada em 1939 para permitir a construção da Avenida da Ribeira das Naus, paralela à Rua do Arsenal. Este novo arruamento teve topónimo atribuído em 1948, pelo Edital municipal de 22 de junho.

A zona marginal do Tejo, entre a Praça do Município e a Igreja da Conceição Velha, era a Ribeira até que com D. Manuel I passou a ser o local das tercenas onde se construíram os navios necessários, a ponto de o rei  ter mandado construir o seu Paço mesmo ao lado para melhor verificar esses trabalhos. O terramoto de 1755 destruiu esse importante complexo naval mas a sua reconstrução iniciou-se logo em 1759, sob o traçado de Eugénio dos Santos.  Durante muito tempo o local foi conhecido como Ribeira das Naus, sendo extensivo ao Arsenal da Ribeira das Naus, depois designado Arsenal Real da Marinha e a partir de 1910 ficou apenas Arsenal da Marinha. Em 1936, o Arsenal começou a ser transferido para as instalações navais do Alfeite e terminou a sua laboração em 1939 quando se começou a construir a Avenida da Ribeira das Naus.

Refira-se ainda que no mesmo ano de 1948, pelo Edital de 29 de Abril, foram atribuídos mais topónimos evocativos do antigo Império Português, mas em Belém, onde em 1940 havia decorrido a Exposição do Mundo Português. Foram atribuídos a Praça do Império, a Avenida da Índia, a Praça de Goa, a Praça de Damão, a Praça de Dio, a Rua Soldados da Índia, assim como topónimos de figuras ligadas à Expansão Portuguesa, como navegadores – Avenida Dom Vasco da Gama, Rua Dom Cristóvão da Gama, Rua Dom Jerónimo Osório, Rua Fernão Mendes Pinto -, representantes das autoridades de Portugal – Rua Dom Lourenço de Almeida, Rua Tristão da Cunha – , historiadores da época – Rua Damião de Góis, Rua Fernão Lopes de Castanheda -, bem como cientistas – Rua Duarte Pacheco Pereira – e missionários – Rua São Francisco Xavier – e o próprio rei dessa época do Império Português com a Praça Dom Manuel I. Refira-se que ainda em 1948, a 29 de dezembro, a edilidade lisboeta colocou uma lápide nesta Avenida da Ribeira das Naus na qual se podia ler «Neste local construíram-se as naus que descobriram novas terras e novos mares e levaram a todo o mundo o nome de Portugal».

(Foto: Flama, 3 de maio de 1974)

© CML | DPC | NT e GEO | 2019

O Aeroporto da Portela e a Avenida Almirante Gago Coutinho

Nova Iorque era o nome de código do Aeroporto que foi controlado às 4:20 pela coluna da EPI-Escola Prática de Infantaria, comandada pelo capitão Rui Rodrigues, incluindo o Aeródromo Base nº 1 (Figo Maduro). O capitão Costa Martins emitiu um comunicado NOTAM, interditando o espaço aéreo português e desviando o tráfego para os aeroportos de Las Palmas e Madrid.

Em 25 de Abril de 1974, o Aeroporto de Lisboa ficava no final da Avenida Almirante Gago Coutinho, topónimo de homenagem ao pioneiro da aviação e alfacinha que viveu na Rua da Esperança – Carlos Alberto Viegas Gago Coutinho (Lisboa/17.02.1869-18.02.1959/Lisboa) -, que tentou adaptar à aeronavegação os processos e instrumentos da navegação marítima, tendo criado em 1919 o famoso sextante que ostenta o seu nome e que, com Sacadura Cabral, realizou de 30 de março a 17 de junho de 1922, a 1ª travessia aérea do Atlântico Sul, entre Lisboa e o Rio de Janeiro. Assim era Avenida Almirante Gago Coutinho desde a publicação do Edital municipal de 2 de janeiro de 1960, com a legenda «Sábio e Herói da Navegação Aérea».

Em 23 de julho de 1956, o Aero-Club de Portugal sugeriu à  Câmara Municipal de Lisboa a atribuição do nome Avenida Gago Coutinho – Sacadura Cabral à Avenida do Aeroporto mas, seguindo as regras usuais da toponímia lisboeta tal não foi possível, uma vez que o almirante ainda estava vivo e Sacadura Cabral já era topónimo de uma artéria da capital desde a publicação do Edital de 14 de setembro de 1926. No dia seguinte ao falecimento de Gago Coutinho, o Vereador Dr. Baêta Henriques sugeriu em reunião de Câmara a atribuição do seu nome à Avenida do Aeroporto, o que após vários trâmites se concretizou pelo Edital municipal de 2 de janeiro de 1960.

Como topónimo, havia sido antes a Avenida do Aeroporto, atribuída por Edital municipal de 17 de fevereiro de 1947 à via pública no prolongamento da Avenida Almirante Reis que começava na Praça do Areeiro e findava junto do edifício do Aeroporto da Quinta da Portela de Sacavém, traçado por Francisco Keil do Amaral.  No final  do ano de 1988, justamente o seu troço final, o troço da Avenida Almirante Gago Coutinho compreendido entre a Praça do Aeroporto (vulgarmente conhecida como Rotunda do Relógio) e o Edifício-Gare do Aeroporto de Lisboa, passou a denominar-se Alameda das Comunidades Portuguesas pelo Edital municipal de 9 de dezembro de 1988.

Já no nossos séc. XXI, pelo Edital de 6 de maio de 2015, Gago Coutinho passou a ser mais um topónimo duplicado em Lisboa  por herança da Expo 98 – à semelhança de Fernando Pessoa -, através da Praça Gago Coutinho ao Parque das Nações. Também o Aeroporto de Lisboa, inicialmente construído na periferia da cidade, na época em que Lisboa terminava no Areeiro, se encontra hoje envolvido pelo espaço urbano e desde 15 de maio de 2016 que se denomina Aeroporto Humberto Delgado, o General Sem Medo, opositor de Salazar, que em campanha eleitoral para a Presidência da República disse em conferência de imprensa sobre o seu opositor «Obviamente, demito-o».

(Foto: Flama, 3 de maio de 1974)

© CML | DPC | NT e GEO | 2019

A necrópole romana de Entrecampos

A primeira epígrafe descoberta, em foto, no artigo de Manoel Joaquim Campos de 1904

No subsolo de Entrecampos, no espaço do antigo Mercado Geral de Gados, que a partir de 1961 se transformaria na antiga Feira Popular de Lisboa – definida entre a Avenida da República e a Avenida Cinco de Outubro, com a Avenida das Forças Armadas a norte e a Rua Cordeiro de Sousa a sul  – , foram recolhidos indícios da possível existência de uma necrópole romana, provavelmente dos séculos I a III, no decorrer de obras de requalificação do espaço, ocorridas entre 1902 e 1903.

Quando funcionários do município lisboeta procediam então ao arranjo da Avenida da República (à época e desde 1897 denominada Avenida Ressano Garcia), designadamente à remoção de um talude junto ao antigo edifício do Mercado Geral de Gados  (traçado por Domingos Parente em 1888 e alterado por Machado Faria e Maia), foram encontradas duas inscrições funerárias da época romana, assim como alguns ossos humanos.  A presença deste registo arqueológico sugere ainda que algures nas imediações deveria de existir uma villa ou grande propriedade agrícola, à qual pertenceria esta necrópole. Igualmente podemos deduzir que este espaço também já seria atravessado por uma via ou caminho que seguiria para Norte, eventualmente em direção ao município confinante de Eburobritio (Óbidos).

A primeira epígrafe descoberta, em desenho, na Epigrafia de Lisboa de A. Vieira da Silva

Uma das lápides foi encontrada em posição horizontal, a um metro e meio de profundidade, com a inscrição para baixo pelo que a mesma não foi danificada na ocasião da sua descoberta. A cerca de 2 metros estava um crânio que se desfez mal um trabalhador lhe pegou. Segundo Manoel Joaquim Campos, nesta lápide de 55 cm x 45 cm e com 3 mm de espessura, podia ler-se « D(iis) M (anibus) – LICINA – HELENE – ANN (orum) XL – H(ic) S(ita) E(st)», que A. Vieira da Silva traduziu como: «Aos deuses Manes. Licínia Helena, [falecida aos]  40 anos de idade, está sepultada aqui.»

Dias depois foi encontrada outra lápide com inscrição.  Esta segunda epígrafe, também com 3 mm de espessura, mas com dimensões de 108 cm x 51cm (à frente) e 59 cm (atrás), foi lida por A. Vieira da Silva como «[S]aturn[o] [Sacr]um. Bist [onio?] [A ?]vito, An(norum) XXII. [Ju]nia, J (ulii) F(ilia), Tusca, Fratri. [Fel?]iciae, M(arci) F (iliae), Tuscae, Matri.», assim como traduzida por « Monumento sacro a Saturno. Júnia Tusca, filha de Júlio, [erigiu este monumento] ao [seu] irmão Bistónio (?) Avito (?), [falecido aos] 22 anos de idade. [A mesma Júnia Tusca dedicou também o monumento] a [sua] mãe Felícia (?) Tusca, filha de Marco.» O engº Vieira da Silva referiu ainda que Bistónia era uma povoação da antiga Trácia, próxima de Abdera.

Ambas foram entregues em 1903 no Museu Nacional de Arqueologia, criado por Decreto de 20 de dezembro de 1893 como Museu Etnológico Português, por proposta de Leite de Vasconcelos.

O Mercado Geral de Gados no início de Novecentos
(Foto: Paulo Guedes, Arquivo Municipal de Lisboa)

© CML | DPC | NT e CAL – Centro de Arqueologia de Lisboa | 2019

 

Trinta anos da Avenida Presidente Wilson em Lisboa, de 1918 a 1948

A Avenida Presidente Wilson em 1919
(Ilustração Portuguesa, 16 de Junho de 1919)

A Avenida Presidente Wilson existiu em Lisboa durante 30 anos, de 1918 a 1948, em homenagem ao Presidente dos Estados Unidos da América que declarou guerra à Alemanha em 1917, Thomas Woodrow Wilson.

Essa artéria foi somando topónimos ao logo do tempo. Foi a Rua Duque de Terceira que nascia na Rua 24 de Julho e pelo Edital municipal de 28 de Dezembro de 1889 passou a ser denominada Rua Dom Carlos I, ainda em vida do homenageado. Após a implantação da República, por Edital de 5 de novembro de 1910, passou a ser a Avenida das Cortes, em louvor deste  órgão de representação nacional, o órgão do poder legislativo.  Depois, o Presidente dos Estados Unidos da América, Thomas Wilson, fez a entrada formal do seu país na I Guerra Mundial, com a declaração de guerra à Alemanha em abril de 1917 e logo no ano seguinte, por deliberação camarária de 19 de setembro e consequente Edital de 24 de setembro de 1918, a edilidade lisboeta trocou o nome da Avenida das Cortes por Avenida do Presidente Wilson, em vida do presidente homenageado que faleceria cerca de 6 anos depois.

Thomas Woodrow Wilson (E.U.A. – Staunton/28.12.1856-03.02.1924/Washington – E.U.A.), foi o Presidente dos Estados Unidos da América de 1912 a 1921 e enquanto tal, foi o responsável pela declaração de guerra à Alemanha em 1917. Cerca de dois meses após o Presidente Wilson ser um topónimo lisboeta foi assinado o Armistício, em Compiègne, em 11 de novembro de 1918, e a Ilustração Portuguesa noticiou na sua edição seguinte, de dia 18 de novembro , «Acabou a guerra, acabou a guerra! Foi o grito unanime, vibrante de entusiasmo, louco de alegria, que reboou no dia 11 por toda a cidade, ao saber-se que o ‘Seculo’ afixára, no seu placard e nos placards das suas sucursaes, o radiograma recebido ás 10 horas sobre a assinatura do armisticio que, finalmente, se realizará às 5 horas da madrugada d’esse dia.

Em 1919, este presidente dos Estados Unidos da América  recebeu o Prémio Nobel da Paz, pelo seu papel crucial na fundação da Sociedade das Nações, também conhecida por Liga das Nações, cujo papel seria o de assegurar a paz e por isso se extinguiu após deflagrar a II Guerra Mundial, tomando depois o seu papel a ONU – Organização das Nações Unidas.

Voltando à Avenida Presidente Wilson, passados 30 anos sobre o seu Edital de atribuição, em 1948, a edilidade lisboeta decidiu alterar este topónimo para Avenida D. Carlos I, ao mesmo tempo que atribuía ao Presidente Wilson uma Rua – a Rua D1 do plano de urbanização da zona compreendida entre a Alameda Dom Afonso Henriques e a linha férrea de cintura – na então freguesia de São João de Deus (hoje, freguesia do Areeiro), tudo através do Edital municipal de 23 de dezembro de 1948.

A Avenida Presidente Wilson em 1930
(Foto: Ferreira da Cunha, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Avenida Carlos Pinhão, entre Beato e Marvila

Freguesia de Marvila, Areeiro e Beato
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

O jornalista desportivo, cronista de Lisboa e escritor, Carlos Pinhão nasceu no Beato e em criança circulou por essa freguesia e pela vizinha Marvila, pelo que depois da autarquia lisboeta ter decidido dar o seu nome a uma artéria lisboeta na reunião de câmara de 20 de janeiro de 1993, a Junta de Freguesia de Marvila propôs que fosse atribuído a uma das novas artérias em construção naquela Freguesia e, assim o  Edital municipal de 12 de abril de 1995 atribuiu à a Via Central de Chelas-Olaias o topónimo Avenida Carlos Pinhão.

A Bola, 16 de junho de 1993

Carlos Alberto da Silva Pinhão (Lisboa/04.05.1925 – 15.01.1993/Lisboa) nasceu na freguesia do Beato e chegou a frequentar o curso de Direito na Universidade de Lisboa até ao terceiro ano, mas abandonou quando corria o ano de 1944, para aceitar um lugar no jornal desportivo Os Sports, que viria a dar origem ao Mundo Desportivo. Onze anos depois, em 1955, tornou-se redator de A Bola e permaneceu na «Bíblia dos jornais portugueses» até morrer, mostrando a sua mestria na arte de escrever bem como um sorriso cúmplice com os leitores na sua prosa clara. Ficou célebre a sua rubrica «A duas colunas» e foi considerado o responsável pela introdução da crónica e do conto no jornalismo desportivo. Na notícia da morte de Carlos Pinhão, Vítor Serpa, diretor d’A Bola afirmou que «os textos do Pinhão eram peças notáveis de diálogos permanentes com o leitor».

Pinhão também colaborou com outros títulos nacionais como o Diário Popular, Século Ilustrado e Público, bem como na imprensa regional, para além de ter sido correspondente dos  jornais Marca (Espanha), France Soir (França) e Les Sports (Bélgica).

Carlos Pinhão foi também cronista, poeta e prosador, escolhendo o desporto e a cidade de Lisboa como os seus temas principais. Começou por publicar títulos com humor como Entrevistas sem Entrevistado – com prefácio de Raul Solnado -, O Meu Barbeiro (1968) ou Londres sem Tamisa Ou O Homem Que Dormia No Chão (1969). Na temática desportiva, publicou Os Magriços, (1966), Futebol de A a Z (1976), O Lançamento do Díscolo – Realidade e Alienação em Desporto (1980), assim como Carlos Lopes (1992) e Humberto Coelho: narrativa (1993), com desenhos de João Fazenda.

O seu primeiro livro publicado para crianças foi Bichos de Abril (1977), que teve êxito imediato. Depois deu a lume, entre muitos, Gaivotas Com Óculos (1979), O Professor do Pijama Azul (1981), uma alegoria divertida contra o racismo intitulada Era uma vez um Coelho Francês (1981), A Onda Grande e Boa (1982), O Coelho Atleta e a sua Escola de Desporto (1983), O Senhor que não Sabia Contar Histórias  e Vovô Bicho(ambos em 1984), Lua Não, Muito Obrigado (1986) ou Sete Setas (1987), somando mais de uma dezena de livros para crianças. O último foi Abril Futebol Clube (1991). Postumamente, em 1994, saiu ainda João Campeão. Carlos Pinhão havia sonhado em criar uma coleção para o desporto intitulada «Agora Que Sou Crescido» mas faleceu antes de a concretizar.

Refira-se que a também jornalista desportiva Leonor Pinhão é sua filha.

Carlos Pinhão foi agraciado com o Prémio Júlio César Machado pelas suas crónicas no Público sobre Lisboa e a título póstumo, com a Medalha de Mérito Desportivo do Ministério da Educação ( 2 de fevereiro de 1993), o Grau de Comendador da Ordem de Mérito  (9 de junho de 1993) e a Medalha de Ouro do Concelho de Oeiras (1 de junho de 1994). Pinhão foi também um dos a quem José do Carmo Francisco dedicou Os Guarda-Redes Morrem ao Domingo (2002) e o seu nome integra ainda a toponímia da Amadora, Azeitão (Setúbal),  Beja, Corroios (Seixal), Évora, Mem Martins e Queluz (ambos em Sintra), Samora Correia (Benavente), Vialonga (Vila Franca de Xira).