A Rua do ourives e arquiteto alemão do Convento de Mafra, João Frederico Ludovice

Freguesia de Benfica
(Foto: Sérgio Dias | NT do DPC )

O arquiteto alemão a quem se atribui o traçado do Convento de Mafra está desde 1964 perpetuado numa artéria de Benfica, a Rua João Frederico Ludovice, com a legenda «Arquitecto-Mor/1670 – 1752».

Foi a Rua 75 – 78 da Célula 4 de Benfica escolhida pela edilidade alfacinha para acolher a Rua João Frederico Ludovice e fixada pelo Edital municipal de 26/11/1964, que também colocou na mesma freguesia, mas no Bairro de Santa Cruz, a Rua da Venezuela. Na década seguinte a Rua João Frederico Ludovice recebeu o Mercado de Benfica.

Refira-se que alguns estudiosos contestam a autoria de João Frederico Ludovice para o Convento de Mafra, atribuindo-lhe apenas o papel de mestre das obras do mesmo, mas vamos neste artigo manter a explicação usual até ser provada outra.

Johann Friedrich Ludwig ( Alemanha – Castelo de Honhardt/19.03.1670 – 18.01.1752/Lisboa) ficou a cargo de seu tio e padrinho que o familiarizou com a arquitetura quando contava 14 anos, após a morte do seu pai. Aos 19 anos começou a estudar  com o Mestre Ourives N. A. Kienle de Jugeren. Quatro anos depois, em 1693,  assentou praça e tomou parte na Guerra de Pflaz, tendo feito campanha até ao fim da guerra (1697), como oficial de Engenharia e assim orientou trabalhos de engenharia em Regensburg e adquiriu conhecimentos e experiência no campo da arquitetura militar e artilharia.

Em 1697 emigrou  para Itália, onde em Roma estudou escultura e arquitetura  e alterou o seu apelido para Ludovici. A sua vasta erudição granjeou-lhe a simpatia dos jesuítas que o converteram ao Catolicismo, ao mesmo tempo que trabalhava ao serviço Companhia de Jesus,  na Igreja del Gesú em Roma, na fundição e cinzelagem da imagem do Santo Inácio de Loyola (da autoria de Groos) e de várias alfaias litúrgicas.

Em 1700 veio para Lisboa, a convite dos jesuítas e instalou-se na Rua dos Canos (nas traseiras da Rua da Palma), relativamente próxima do Colégio dos Jesuítas de Santo Antão – onde é hoje o Hospital de São José – com um contrato de exclusividade por 7 anos com os Jesuítas, comprometendo-se a elaborar um novo sacrário bem como várias outras alfaias. Contudo, em 1701, é pronunciada uma sentença contra Ludovice, pelo não cumprimento do contrato de exclusividade para com a Companhia de Jesus, sendo D. Pedro II que intercedeu a seu favor, pagando as custas da sentença, e convencendo os Jesuítas a permitir que Ludovice trabalhasse pontualmente para algumas Igrejas do Padroado Real, ou mesmo do Paço. Como ourives são atribuídas a Ludovice a autoria dos Sacrário de Prata da Igreja de Santo Antão; da Custódia da Sé de Lisboa e da Capela da Bemposta; do Frontal e Banqueta de prata do Convento do Carmo; do conjunto de Peanhas da Sé de Coimbra; de alfaias várias para a Capela Real do Paço da Ribeira, para a Igreja de São Vicente de Fora e Convento de Mafra.

João Frederico Ludovice começou também a fazer trabalhos de arquitetura. Trabalhou para D. João V na reestruturação do antigo Paço da Ribeira e transformou a sua antiga Capela Manuelina na Igreja Patriarcal. O Decreto de 26 de setembro de 1711 deste monarca prometeu a a construção de um Mosteiro em Mafra e abriu algo semelhante a um concurso público para o efeito, que Ludovice ganhou, apesar da concorrência de alguns famosos arquitectos italianos como Filipo Juvara e Antonio Canevari. Assim, entre 17 de novembro de 1717 e 1730, Ludovice dirigiu as obras de construção do Convento e a Casa do Risco, que servia a obra e se encontrava instalada no local, tendo-lhe sucedido no cargo o seu filho. Quase vinte depois, por decreto régio de 14 de setembro de 1750, e já com D. José I, foi nomeado Arquiteto-mor do Reino,  com patente, soldo e graduação de Brigadeiro de Infantaria.

São também obra sua em Lisboa a ornamentação das ruas – com pórticos, colunas e arcarias  – para a Procissão do Corpo de Deus (em diversos anos à volta de 1719); o Altar-Mor de São Vicente de Fora, tendo sido nomeado em 1720 Arquiteto das Obras de São Vicente de Fora;  o traçado de umas Portas de Santo Antão mais altas e largas (1727); a capela-mor (1748) da lisboeta Igreja de São Domingos, a qual resistiu ao terramoto;  bem como para si construiu em Benfica a Quinta de Alfarrobeira – hoje na Rua António Saúde -, concluída em 1727, mas em cuja capela já em 1720 contraíra segundas núpcias com a irmã de Luís António Verney. Também na Rua Direita de São Pedro de Alcântara, ao cimo da Calçada da Glória, ergueu em 1747 um palácio de cinco pisos e janelas avarandadas para sua residência, onde veio a falecer e foi sepultado na Igreja de São Roque.

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

A Rua do mestre biscainho do manuelino João de Castilho

Freguesia da Ajuda
(Foto: Sérgio Dias | NT do DPC )

Na freguesia da Ajuda está desde 1915 a Rua João de Castilho, a consagrar o arquiteto espanhol que dirigiu as obras do Convento de Cristo e do Mosteiro dos Jerónimos e assim ganhou o epíteto de mestre do Manuelino.

A Rua João de Castilho, que hoje encontramos a ligar a Travessa da Memória à Rua General Massano de Amorim, foi atribuída pelo Edital municipal de 13/12/1915 no espaço que era vulgarmente chamado Bairro Novo da Memória.

Juan de Castillo ou João de Castilho (Merindad de Trasmiera – Cantábria/ c. 1470 — 1552/Tomar) foi educado nos estaleiros das catedrais de Burgos e de Sevilha e veio fixar-se em Portugal a partir de 1508. No nosso país foi responsável pela renovação da Sé de Braga (1508), a finalização da Igreja Matriz de Vila do Conde (1511-1513), as obras da Sé de Viseu e do Paço Real da Ribeira, da continuação do Convento de Cristo em Tomar  (1513- 1515 e 1533-1552) e do Mosteiro dos Jerónimos (desde 1516 e até 1530, sucedendo a Diogo Boitaca e terminada por Diogo de Torralva), bem como do Mosteiro de Alcobaça (1519 – 1528), do Mosteiro da Batalha (1529), da reconfiguração da Fortaleza de Mazagão (1541-1542) na marroquina cidade hoje denominada El Jadida e ainda, da construção da Ermida de Nossa Senhora da Conceição em Tomar (1550).

Considerado o mais hábil mestre do manuelino este arquiteto biscainho foi nomeado mestre-de-obras do rei em 1528  e a partir do ano seguinte mudou para um estilo mais classista, sendo reputado como o maior arquiteto do séc. XVI em Portugal e um dos maiores do Renascimento europeu. Ao mesmo tempo, o seu percurso assinala a promoção gradual do mestre pedreiro medieval para arquiteto – no sentido moderno da palavra –, com o correspondente reconhecimento e ascensão social. D. João III agraciou o arquiteto como o título de Cavaleiro da Casa Real em 1533 e os seus filhos, foram detentores de alta formação e exerceram funções de embaixadores, juízes, cronistas ou escrivão. Por exemplo, António de Castilho, o filho mais velho,  era doutor em Leis e moço fidalgo da Casa Real, tendo sido   alcaide-mor de Mora,  guarda-mor da Torre do Tombo e cronista-mor do reino, enquanto João de Castilho, foi escrivão da Câmara.

Refira-se finalmente que segundo o historiador de arte Pedro Dias, terá sido também  João de Castilho o autor da traça global dos túmulos de D. Afonso Henriques e D. Sancho I (1518), no Mosteiro de Santa Cruz , cuja construção foi dirigida pelo seu irmão, Diogo de Castilho, assim como se sabe que o arquiteto tinha casas de residência em Belém, em frente do Mosteiro, em 1524, que lhe tinham sido aforadas pelos frades Jerónimos.

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

A Rua Frederico George, membro da 2ª Comissão Municipal de Toponímia pós 25 de Abril

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

O arqº Frederico George integrou a 2ª Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa pós 25 de Abril, a de 1976, e passou a dar o seu nome a uma Rua de Telheiras, na freguesia do Lumiar, dois anos após o seu falecimento.

Esta 2ª Comissão Municipal de Toponímia foi designada por despacho de 14 de junho de 1976 e realizou a sua primeira reunião no dia seguinte. De acordo com as Atas, era presidida pelo Dr. Augusto de Azeredo Costa Santos e tinha como membros o Dr. Fernando Castelo Branco em representação da CML, e mais três personalidades convidadas: o Dr. Jacinto Baptista, o Prof. Dr. José Augusto França e o Prof. Arqtº Frederico George. No último mês de 1976, passou a ser presidida pelo Dr. Orlando Martins Capitão contando com o Dr. Fernando Castelo Branco e o Prof. Arqtº Frederico George como membros.

Um princípio essencial definido por esta Comissão, na esteira do já defendido pela primeira pós 25 de Abril, foi o de não alterar toponímia tradicional, como se pode ler na Ata da reunião de 15 de junho de 1976: «O professor doutor José Augusto França, lembrou a existência de nomenclaturas tradicionais na toponímia de Lisboa, e propôs que, só em casos muito excepcionais, se encarasse a hipótese da sua alteração, não só pelas razões que lhes deram origem, como ainda porque essas alterações provocam sempre grandes inconvenientes, quer para os munícipes, quer para os próprios serviços. Submetida à votação, foi a referida proposta aprovada por unanimidade.»

A Rua Frederico George, com a legenda «Arquitecto e Pintor/1915 – 1994», situada  a partir da confluência da Rua Prof. Prado Coelho e a Rua Armindo Rodrigues até chegar à Rua Daniel Santa Rita, foi atribuída por Edital municipal de 24/09/1996 à Rua B do Alto da Faia e Rua A de Telheiras Norte III. Mais tarde, juntar-se-ão nas proximidades, também em Ruas, os arqºs Daniel Santa Rita (16/02/2005) e Conceição Silva (Edital de 01/08/2005).

autorretrato de Frederico George de 1939

Frederico Henrique George (Lisboa/15.11.1915- 26.01.1994/Lisboa), nascido na freguesia de Santa Isabel, filho de pai inglês e mãe portuguesa, estudou à noite na Escola de Artes Decorativas António Arroio e formou-se em pintura (1936) e em arquitetura (1950) pela Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, seguindo uma carreira de cenógrafo, arquiteto, designer e professor universitário.

É obra sua na cidade de Lisboa o Museu da Marinha (1962) e o Planetário Calouste Gulbenkian (1965) , em Belém, zona onde já havia participado nas pinturas murais da Exposição do Mundo Português (1940), bem como com Manuel Magalhães e Daciano Costa, o Hotel Penta (1975) ou o edifício de escritórios do Metropolitano de Lisboa (1983), a recuperação do Palácio Pancas Palha (1991) e o Pavilhão Gimnodesportivo do Casal Vistoso (1992). Frederico George também desenvolveu os planos de recuperação do Palácio Fronteira (1958 e 1988) e diversos projetos de análise do território e urbanismo para a Câmara Municipal de Lisboa e para o Ministério das Obras Públicas (1969 a 1976) como os blocos de habitação social em Olivais Sul de 1961-1963; executou as Exposições comemorativas do V Centenário do Infante D. Henrique (1958-1960), o Pavilhão de Portugal na Exposição Comemorativa do IV Centenário da cidade do Rio de Janeiro (1964) e com Daciano Costa, traçou o Pavilhão de Portugal da Expo Internacional de Osaka (1970).

Como professor, Frederico George começou nas escolas de ensino técnico de Lisboa e Setúbal e a partir de 1940 na Escolas de Artes Decorativas António Arroio – onde veio a introduzir o ensino do Design – para a partir de 1957, ser Professor do Curso de Arquitetura da Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, desempenhando assim um importante papel pedagógico na formação dos artistas da geração seguinte. Sofreu um interregno de 1948 a 1955, período em que foi exonerado da docência por ter subscrito a candidatura do General Norton de Matos à presidência da República. Também no seu atelier reuniu um conjunto de colaboradores que continuaram o seu legado, particularmente no desenvolvimento e ensino do Design em que foi pioneiro, como Daciano Costa, Fernando Conduto e Sena da Silva. Refira-se ainda que Frederico George participou na 1.ª Exposição de Design Português (em 1971) e defendeu com empenho a profissionalização do Designer em Portugal. Em 1972 foi encarregue pelo Ministério da Educação do estudo para a reforma do ensino de arquitetura e, em 1992, foi ainda o responsável pela criação de novos cursos universitários. Colaborou no Inquérito à Arquitectura Popular Portuguesa, editado em 1961 e publicou Considerações sobre o Ensino da  Arquitectura, a sua dissertação de 1963. 

Na sua vertente de pintor, iniciada na década de 40 do séc. XX com quadros figurativos e estrutura de raiz cubista, marcou presença na II Exposição Geral de Artes Plásticas (1947) e Salão da Primavera da Sociedade Nacional de Belas-Artes tendo alcançado, entre outros, o Prémio Luciano Freire da Academia Nacional de Belas Artes (1936), a 1ª Medalha da SNBA (1945), o Prémio Columbano  (1946) e o Prémio Silva Porto (1947), ambos  do SNI. A sua obra está representada no Museu do Chiado e na Fundação Calouste Gulbenkian. Frederico George foi também galardoado com o oficialato da Ordem de Cristo (1941), a Grã Cruz da Ordem de Mérito (1989), o Prémio  de Arquitectura da AICA (1994) e o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Técnica de Lisboa (2001).

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias)

A Travessa Possidónio da Silva nascida de um caso de polícia

A Travessa Possidónio da Silva em 1946 (Foto: Fernando Martinez Pozal, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Travessa Possidónio da Silva em 1946
(Foto: Fernando Martinez Pozal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Logo no ano seguinte à sua morte o arquiteto e arqueólogo Possidónio da Silva, que tanto defendeu a preservação do património cultural português, teve o seu nome dado a uma Rua de Lisboa, mas  110 anos e 9 dias após o seu nascimento teve também de ser o topónimo de uma Travessa para se resolver um caso de polícia.

O caso conta-se da seguinte forma: a Seção da Polícia Municipal em 26 de abril de 1916 fez uma informação à câmara dando conta de 4 requerimentos de proprietários que solicitavam numeração para os seus prédios na Rua Possidónio da Silva, aos quais não se podia dar andamento porque «a numeração das propriedades situadas no mencionado local, encontra-se irregularissima e para se poder efectuar a sua regularisação, torna-se indispensavel que a Ex.mª Camara determine que seja desanexado da dita via publica um troço de terreno, que forma uma travessa, onde existe um chafariz e uma ponte, compreendendo também os predios com os nºs 37 a 71, a qual começa, do lado do Nascente da Rua Possidonio da Silva e termina na Parada dos Prazeres, podendo, caso a Ex.mª Camara assim o entender, dár-se ao dito troço de terreno o nome de Travessa de Possidonio da Silva, publicando-se depois o competente edital, em harmonia com o que a Ex.mª Camara resolver». 

Os vereadores presentes na sessão de câmara de 4 de maio de 1916 aprovaram a sugestão por unanimidade e, consequentemente, por Edital municipal de 16 de maio de 1916 nasceu a Travessa Possidónio da Silva, ficando resolvido o caso de numeração de polícia a contento dos proprietários. Mais tarde, por via do falecimento em 1966 do Comandante dos Sapadores Bombeiros de Lisboa, e dada a carestia de novas ruas na cidade a Travessa Possidónio da Silva passou, pelo Edital de 22/06/1971, a designar-se como Rua Coronel Ribeiro Viana.

Branco e Negro, 5 de abril de 1896

Branco e Negro, nº 1, 5 de abril de 1896

Joaquim Possidónio Narciso da Silva  (Lisboa/07.05.1806 – 03.03.1896/Lisboa)  já havia sido homenageado em 1897 com o seu nome na antiga Rua da Fonte Santa, por ser essa a morada do  Albergue dos Inválidos do Trabalho que ele havia ali fundado em 1891, para apoiar a classe operária inválida. Mas Possidónio da Silva desempenhou também um papel determinante como precursor do ensino e da investigação arqueológica bem como na salvaguarda e valorização do património histórico-artístico e monumental português.

Devido à invasão napoleónica em 1807, ele foi com a sua família para o Rio de Janeiro onde passou parte da sua juventude. Regressou em 1821 e estudou com Domingos Sequeira, Maurício Sendim e Germano de Magalhães seguindo aos dezoitos anos para Paris para estudar Arquitetura e, cinco anos mais tarde, foi para Roma. Em 1831 regressou a Paris e trabalhou no Palais Royal e no Palácio das Tulherias. Retornou em definitivo a Portugal em 1833 tendo então publicado O que foi e é a architectura, e o que aprendem os architectos fora de Portugal. Possidónio tornou-se o arquiteto da Casa Real, com intervenção nas obras dos Palácios de São Bento para o adaptar a Parlamento (1833), da Ajuda (1834 e 1861), das Necessidades (1844-1846) e o Palácio do Alfeite (antes de 1857). Trabalhou também na remodelação do Teatro de São Carlos e do Palácio do Manteigueiro – na esquina da Rua da Horta Seca com a Rua da Emenda- a que acrescentou a autoria de muitos estabelecimentos comerciais da Baixa lisboeta, assim como o projeto de uns banhos públicos na zona do Passeio Público (1835).

Paralelamente, desde 1850 que Possidónio da Silva se interessava pelos monumentos megalíticos em Portugal,  após ter participado na escavação de um dólmen entre Sintra e Colares.  Escavou mais duas antas na zona de Tomar  e acabou por depois conseguir apoio do Governo para o primeiro levantamento dos monumentos nacionais, enquanto nos jornais redigia artigos a defender a necessidade de preservar o património arquitetónico português. Em 1858, D. Pedro V encarregou-o de proceder a um estudo técnico dos monumentos nacionais. Participou em 1867 na 2ª sessão do Congresso Internacional de Antropologia e Arqueologia Pré-Histórica, em Paris, tendo em 1878 publicado Noções Elementares de Archeologia, uma síntese dos métodos de escavação estratigráfica e sectorial.

Joaquim Possidónio da Silva fundou em 1863 e presidiu à Associação dos Arquitectos Civis Portugueses que passou a designar-se Real Associação dos Arquitectos Civis e Arqueólogos Portugueses, antes de se cindir, já depois da morte de Possidónio, para originar as que hoje conhecemos como Ordem dos Arquitetos e Associação do Arqueólogos Portugueses.  Assim nasceu em  1866 um museu arqueológico, depois instalado nas ruínas do Convento do Carmo, bem como um boletim da associação, a partir de 1865. Possidónio foi ainda membro de diferentes academias e sociedades nacionais e estrangeiras como o Instituto de França e a Société française d’archéologie.

Em 1882 o escultor francês Anatole Vasselot fez um busto de bronze de Possidónio da Silva mas este nunca permitiu a divulgação da sua imagem em nenhum meio até à sua morte e assim, este busto  foi colocado sobre um pedestal de pedra  na Praceta da Rua Possidónio da Silva e inaugurado em 5 de julho de 1968.

A Travessa Possidónio da Silva em 1961 (Foto: Artur João Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Travessa Possidónio da Silva em 1961
(Foto: Artur João Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

 

A Rua de Maria Joana Arriaga que morou neste arruamento

Freguesia da Estrela (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Estrela
(Foto: Sérgio Dias)

A Casa de Jacinto Cândido, traçada em  1902 pelo Arqº Ventura Terra e demolida no correr dos tempos, existiu na Rua da Arriaga, topónimo que relembra a primeira moradora da artéria, uma filha de Guilherme Street de Arriaga.

De acordo com Luís Pastor de Macedo,  a primeira casa construída nesta rua, a que nos nossos dias correspondem os números de polícia 31 a 37, pertenceu a uma filha de Guilherme Street de Arriaga e Cunha Brum da Silveira (Lisboa/13.10.1834 – 27.02.1898/Lisboa), 2º Visconde e 1º Conde de Carnide (decreto real de 20/03/1890), e assim terá sido esta moradora que deu azo à fixação do topónimo no séc. XIX. Segundo Norberto Araújo chamava-se Maria Joana Aniceta Francisca de Arriaga, opinião que Gomes de Brito corrobora referindo o Almanach de 1812.

A Rua da Arriaga foi aberta nos terrenos da Quinta de Buenos Aires, que se estendia desde a Rua do Olival até à Cruz de Buenos Aires. Era propriedade de Guilherme Street de Arriaga e Cunha Brum da Silveira, filho primogénito e herdeiro de José Street de Arriaga Brum da Silveira (1805 -1885), 1º visconde de Carnide. As primeiras referências escritas à Rua da Arriaga estão no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque, de 1856, assim como numa planta referente ao estado da artéria de Francisco Goullard, de julho de 1884.

 

Freguesia da Estrela (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

Na Rua de São Bento Ventura Terra remodelou o Palácio das Cortes

@ palacio de são bento ventura terra

Na Rua de São Bento que corre ao longo de 4 freguesias – Estrela , Misericórdia , Santo António e Campo de Ourique – encontramos o edifício da Assembleia da República, cujo hemiciclo foi traçado por Ventura Terra e inaugurado em 1903.

Sobre a arquitetura monacal do Convento de São Bento foi depois construído o Palácio das Cortes, uma remodelação do Arqº Possidónio da Silva e aí reuniram as Cortes pela primeira vez em 15 de agosto de 1834. Mas em 1895 ocorreu um incêndio na Sala das Sessões e no ano seguinte Ventura Terra ganhou o concurso para a a remodelação do edifício das Cortes na Câmara dos Deputados e Parlamento que foi inaugurado em 1903.

O Palácio de São Bento, antes das obras de restauro de Ventura Terra (Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

O Palácio de São Bento, antes das obras de restauro de Ventura Terra
(Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

O nome do sítio de São Bento data do séc. XVI por referência ao Convento de frades beneditinos que vieram de Tibães. Estes frades já instalados na área compraram em 1596 terras da Quinta da Saúde onde construíram o Convento de São Bento, que por tal também foi conhecido por Convento da Saúde. Sabe-se que o convento já estava ocupado em 1598 apesar da obra só ter ficado concluída em 1615. Dado o local não ter sofrido com o Terramoto, o Arquivo da Torre do Tombo foi transferido do Castelo de São Jorge para este convento em 1757.

Segundo o olisipógrafo Norberto Araújo, nas suas Peregrinações em Lisboa, da Rua dos Poços dos Negros até ao Largo passado o Arco de São Bento, o topónimo Rua de S. Bento seria antigo. Dali para cima até ao Rato, considerava ser do séc. XVIII já que eram os Olivais de São Bento e antes Rua Nova de Colónia. Segundo outro olisipógrafo, Luís Pastor de Macedo, na sua Lisboa de Lés-a-Lés, o troço superior da Rua de S. Bento poderia anteriormente ter sido designado como Rua de São Bento às Trinas, por referência às Trinas do Rato.

Nesta Rua de São Bento existiu um estúdio de cinema da Portugalia Filmes que depois passou a ser da associação Triângulo Vermelho; nasceu Alexandre Herculano no Pátio do Gil que se abre no n.º 458 desta artéria; e viveram o político regenerador Hintze Ribeiro e a fadista Amália Rodrigues.

Freguesias da Estrela , da Misericórdia , de Santo António e de Campo de Ourique (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias da Estrela , da Misericórdia , de Santo António e de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua de Pardal Monteiro, Arquiteto que teve Ventura Terra como referência

A Estação do Cais do Sodré de Pardal Monteiro, fotografada pelo próprio em 1928 (Arquivo Municipal de Lisboa)

A Estação do Cais do Sodré de Pardal Monteiro, fotografada pelo próprio em 1928 (Arquivo Municipal de Lisboa)

O Arqº Pardal Monteiro que teve Ventura Terra como figura de referência passou em 1978 a dar nome a uma artéria da freguesia de Marvila, no Bairro dos Lóios.

Miguel Ventura Terra, um dos mais destacados arquitetos do início do século XX em Portugal era uma figura venerada no círculo familiar de Pardal Monteiro e este, ainda durante a frequência da Escola de Belas Artes de Lisboa, onde foi aluno de José Luís Monteiro, trabalhou no atelier do primeiro.   Pardal Monteiro foi também o responsável pela cantaria do prédio traçado por Ventura Terra na Avenida António Augusto de Aguiar nº 3-D, para o escultor Artur Prat, que recebeu uma Menção Honrosa do Prémio Valmor em 1913.

Com a legenda «Arquitecto/1897-1957», Pardal Monteiro teve o seu nome fixado na Via Envolvente da Zona N2 de Chelas pelo Edital municipal de 10/08/1978, tal como mais 11 arquitetos, todos em ruas, a partir de uma proposta do Arqº Francisco Silva Dias, que era então membro da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa, a saber :  Adães Bermudes, Adelino Nunes, Álvaro Machado, Cassiano Branco, Domingos Parente, José Luís Monteiro, Keil do Amaral, Luís Cristino da Silva, Miguel Nogueira Júnior, Norte Júnior e Pedro José Pezerat.

Rua Pardal Monteiro - Freguesia de Marvila (Foto: Pedro Letria, 1998, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua Pardal Monteiro – Freguesia de Marvila
(Foto: Pedro Letria, 1998, Arquivo Municipal de Lisboa)

Porfírio Pardal Monteiro (Pêro Pinheiro/06.02.1897 –  16.12.1957/Lisboa) foi o autor em Lisboa de arquiteturas tão emblemáticas como a Estação do Cais do Sodré (1925-1928), o conjunto arquitetónico de 7 edifícios do Instituto Superior Técnico (1927-41) como uma Acrópole sobre o vale da Avenida Almirante Reis e exemplo do Modernismo Português, o Instituto Nacional de Estatística (1931), a Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Fátima que foi Prémio Valmor 1938, o monumento a António José de Almeida (1937) com Leopoldo de Almeida, as Estações Marítimas de Alcântara (inaugurada em 1943) e da Rocha do Conde de Óbidos (edificada entre 1945 e 1948), o Laboratório Nacional de Engenharia Civil (1949), os hotéis Tivoli, Mundial e Ritz (1952 – 1959), a Cidade Universitária (através das  Faculdade de Direito, Faculdade de Letras e Reitoria, a partir de 1952) e, com outros arquitetos, a Biblioteca Nacional (1954-61), tendo sido estes dois últimos projetos terminados pelo seu sobrinho António Pardal Monteiro. Traçou ainda na capital um edifício na Avenida da República, nº 49 (1920) que foi Prémio Valmor 1923 e outro no nº 54 que foi Menção Honrosa do Prémio Valmor 1930,  o Templo da Igreja Adventista de Lisboa (1923) na Rua Joaquim Bonifácio, o  Palacete Vale Flor na Calçada de Santo Amaro (1925) que foi Prémio Valmor 1928, uma moradia na Avenida Cinco de Outubro nºs 207-215 que foi Prémio Valmor 1929, o edifício da Ford Lusitana (1930) na Rua Castilho e já demolido,  o edifício do Diário de Notícias na Avenida da Liberdade que foi Prémio Valmor 1940, o edifício de habitação na Avenida Sidónio Pais nº 16 que foi Prémio Municipal de Arquitetura 1947, o edifício da A Nacional/Companhia Industrial de Portugal e Colónias (1952) na Avenida Infante Dom Henrique nº 255 com a Rua do Beato nº 21.

Pardal Monteiro começou por trabalhar em 1919 na Repartição das Construções Escolares do Ministério da Instrução e depois, no serviço de arquitetura da Caixa Geral de Depósitos (1920-1929), assim como na Exposição do Mundo Português de 1940, em Belém,  a partir do plano coordenado pelo arquiteto Cottineli Telmo, sendo seu o Pavilhão e Esfera dos Conhecimentos. Foi também professor desde 1920 e  catedrático desde 1942,  da cadeira de Arquitetura do curso de Engenharia Civil do Instituto Superior Técnico .

Pardal Monteiro desempenhou ainda os cargos de Secretário da Direção da Sociedade de Arquitectos Portugueses (1919-1922),  vogal do Conselho Superior de Belas Artes, da Comissão Municipal de Arte e Arqueologia da CML, da Junta Nacional de Educação, do Conselho Superior das Obras Públicas, de Presidente do Conselho Diretor (1936-1944)  e da Mesa da Assembleia Geral (1948 e 1951)  do Sindicato Nacional dos Arquitectos, para além de ter sido membro honorário da Academia de São Fernando de Madrid, do Real Instituto dos Arquitectos Britânicos e do Instituto de Arquitectos do Brasil tendo sido ainda, a título póstumo, sido agraciado com a Comenda da Ordem Militar de Santiago da Espada (em 5 de janeiro de 1962).

 

Freguesia de Marvila (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias)

A Avenida do republicano Elias Garcia

Prédio traçado por Ventura Terra no nº 62 da Avenida Elias Garcia com a Avenida da República cerca de 1906 (Foto: Alberto Carlos Lima, Arquivo Municipal de Lisboa)

Prédio traçado por Ventura Terra no nº 62 da Avenida Elias Garcia com a Avenida da República 
(Foto: Alberto Carlos Lima, cerca de 1906, Arquivo Municipal de Lisboa)

Ventura Terra traçou em 1902 três prédios de rendimento para o republicano Joaquim dos Santos Lima,  na esquina da Avenida José Luciano nº 62 (a partir de 5 de novembro de 1910 passou a ser a Avenida Elias Garcia ) com a Avenida Ressano Garcia nº 46 (Avenida da República também desde 05/11/1910).

O republicano José Elias Garcia que foi Presidente da Câmara Municipal de Lisboa em 1878 passou a dar nome à Avenida José Luciano pelo Edital municipal de 5 de novembro de 1910, o primeiro de toponímia após a proclamação da República, que incluiu mais 9 topónimos destacando-se os que homenagearam a implantação da República – Avenida da República e Avenida Cinco de Outubro– e figuras republicanas, como o Almirante Cândido dos Reis e Miguel Bombarda.

Elias_Garcia José

José Elias Garcia (Almada-Cacilhas/31.12.1830 –  21.06.1891/Lisboa) foi um político republicano que foi deputado, vereador da edilidade alfacinha com o pelouro de instrução pública (entre 1872 e 1890) em que estabeleceu as escolas centrais, o ensino da ginástica, do desenho de ornato,do canto coral das escolas e as bibliotecas populares, bem como foi até o 25º Presidente da Câmara Municipal de Lisboa ( de 2 de janeiro a 18 de agosto de 1878).

Coronel de engenharia foi ainda professor de Mecânica Aplicada na Escola do Exército (a partir de 1857), bem como jornalista, tendo fundado diversos jornais republicanos como O Trabalho (1854), O Futuro (1858-1862), A Política Liberal (1862), e sido o redator principal do Jornal de Lisboa (1865) e do Democracia (1873), para além de ter presidido à Assembleia dos Jornalistas e Escritores Portugueses. Também colaborou na revista de pedagogia Froebel, dirigida por Feio Terenas.

Elias Garcia, a partir do célebre grupo do Pátio do Salema (Clube dos Lunáticos), fundou em 1868 o Partido Reformista, de onde veio a resultar o Centro Republicano Democrático Português (1876) e o Partido Republicano e nessa qualidade foi deputado, eleito pela primeira vez em 1870 por Lisboa, sendo depois também eleito pelo Partido Republicano em 1882-1884, 1884-1887 e 1887-1889 e 1890.  Entre 1883 e 1891 presidiu ao Diretório do Partido Republicano.

Desde 1853 Irmão Péricles na Maçonaria Portuguesa, foi o 1.º e único Grão-Mestre  da Federação Maçónica (1863 a 1869),  Grão-Mestre interino do Grande Oriente Lusitano Unido (1884 a 1886), Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano Unido (1887 a 1889) e o seu túmulo no Cemitério do Alto de São João, construído em 1893-94 pelo Grande Oriente Lusitano em terreno cedido pela CML, ostenta um obelisco encimado por uma estrela de cinco raios.

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do criador do Supremo Tribunal de Justiça, Mouzinho da Silveira

Freguesia de Santo António (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua Mouzinho da Silveira, atribuída por deliberação camarária de 6 de maio de 1882 no Bairro Barata Salgueiro, em homenagem ao jurisconsulto que fundou o Supremo Tribunal de Justiça, tem no seu nº 12 uma obra de Ventura Terra, de 1907: a casa do médico João Silvestre de Almeida (1865-1936), com vitrais Arte Nova e um mural de Veloso Salgado.

Pela mesma deliberação camarária foram também atribuídos na mesma área, por unanimidade, a Rua Barata Salgueiro, a Rua Alexandre Herculano, a Rua Castilho, a Rua Passos Manuel ( que em 1887 passou a designar-se Rua Rosa Araújo) e a Praça do Marquês de Pombal.

Mouzinho da Silveira 1925Mouzinho da Silveira 1994

De seu nome completo José Xavier Mouzinho da Silveira (Castelo de Vide/12.07.1780 – 04.04.1849/Lisboa) foi um político da revolução liberal e jurisconsulto que criou o Supremo Tribunal de Justiça. Como legislador conseguiu em 1832 algumas das mais profundas modificações nas áreas da fiscalidade e da justiça como a abolição do dízimo, a supressão da hereditariedade dos cargos públicos e de outros privilégios, a liberdade de ensino a casas particulares permitindo a criação de Academias e Grémios, sendo também sua a primeira reforma administrativa liberal.

Formado em Direito em 1802, foi juiz em Marvão, Setúbal e Portalegre e a partir de 1821, administrador das Alfândegas e foi na Vilafrancada Ministro da Fazenda (maio e junho de 1823) para no ano seguinte, durante a Abrilada ser preso se tornar um intransigente defensor da Carta Constitucional pelo que também se exilou em Paris em 1828. Participou na guerra civil de 1832-34, tendo sido ministro da Fazenda e da Justiça, durante a Regência dos Açores de D. Pedro IV,  de março a dezembro de 1832. Regressou ao Parlamento em 1834 e a dirigir as Alfândegas do Sul em 1835 mas voltou a exilar-se em 1836 após a Revolução de Setembro. Regressou em 1839 como deputado mas retirou-se da vida política a partir do ano seguinte para ser apenas um abastado proprietário rural.

Mouzinho da Silveira está homenageado na Sala dos Passos Perdidos da Assembleia da República numa pintura a óleo de Columbano, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Lisboa numa pintura a óleo de José Rodrigues (1866) e também o Museu Grão Vasco possui um retrato  de Mouzinho da autoria de Columbano.

Freguesia de Santo António (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Planta: Sérgio Dias)

Veloso Salgado, pintor do Politeama de Ventura Terra, numa Rua de um Bairro de Pintores

Freguesia das Avenidas Novas (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias)

José Maria Veloso Salgado, pintor da 2ª geração do naturalismo e colaborador de Ventura Terra em várias obras como o Politeama,  dá desde 1960 o seu nome  a uma artéria do Bairro de Santos que em matéria toponímica é sobretudo um bairro de pintores.

Veloso Salgado faleceu em 1945 e logo em 16 de julho de 1948, a Comissão Consultiva Municipal de Toponímia tomou conhecimento de uma carta de uma Comissão de antigos discípulos do mestre  Veloso Salgado pedindo que a um novo arruamento de Lisboa fosse dado o seu nome e de uma outra da Sociedade Nacional de Belas Artes, datada de 05/07/1948, solicitando que a um dos Bairros residenciais de Lisboa se desse a denominação de Bairro dos Artistas e que às suas ruas se dessem nomes de artistas, sugerindo os escultores Soares dos Reis, Teixeira Lopes e Simões de Almeida, os arquitetos Ventura Terra e José Luís Monteiro, e ainda, os pintores José Malhoa, Carlos Reis, Veloso Salgado e Roque Gameiro. Doze anos mais tarde, na reunião da Comissão de 9 de junho de 1960, deliberou esta «que os nomes de Carlos Reis, Veloso Salgado e Francisco de Holanda, denominem, respectivamente, as ruas L, J e I do chamado Bairro Santos à Rua da Beneficência. Aos nomes dos dois primeiros deverá acrescentar-se a legenda: pintores, bem como as datas do nascimento e morte; e quanto a Francisco de Holanda deverá colher-se elementos sobre a sua biografia» e assim a Rua J do chamado Bairro Santos passou a designar-se Rua Veloso Salgado, com a legenda «Pintor/1864 – 1945», pelo Edital municipal de 16/09/1960 que também fixou no bairro a Rua Carlos Reis e a Rua Francisco de Holanda.

Veloso Salgado no seu Atelier em 1912 (Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

Veloso Salgado (de barba) no seu Atelier, em 1912
(Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

José Maria Veloso Salgado (Galiza-Orense/02.04.1864 – 12.12.1945/Lisboa) era amigo de Ventura Terra, a ponto de ter pintado Victória Affonso Lindo, a mãe do arquiteto. Trabalharam juntos na edificação do Teatro Politeama, exemplar representativo da Arte do Ferro, que Miguel Ventura Terra traçou em 1912-1913  e Veloso Salgado decorou com pinturas. Curiosamente, o Politeama foi erguido na Rua Eugénio dos Santos (Rua das Portas de Santo Antão desde 1956) na sequência de uma proposta de Miguel Ventura Terra enquanto Vereador da CML em 1911. Já antes, em 1907, quando Ventura Terra delineou a casa de João Silvestre de Almeida, na Rua Mouzinho da Silveira nº 12, incluiu na sua decoração vitrais Arte Nova  e uma pintura mural de Veloso Salgado.

Veloso Salgado habitava em Lisboa com um tio litógrafo desde os seus 10 anos, na antiga Rua de S. Francisco (hoje Rua Ivens). Em 1887 naturalizou-se português e formou-se em 1887 na Academia de Belas-Artes de Lisboa tendo sido aluno de Ferreira Chaves e Simões de Almeida e em 1890 vencido o  o concurso de pintura da Câmara Municipal de Lisboa. Em 1888 foi como bolseiro para Paris – com atelier na Rue Denfert-Rochereau no mesmo prédio que Teixeira Lopes de quem se tornou amigo-   e Itália, tendo regressado a Lisboa em 1895,  e em  dezembro nomeado professor interino de Pintura Histórica da Escola de Belas Artes e em 1897 passou a efetivo,  derrotando entre outros Columbano. Com a reforma do ensino artístico, em 1901, passou a repartir a sua cadeira de Pintura Histórica com Columbano e Maria Keil do Amaral foi sua aluna.

Sobretudo como retratista e pintor histórico Veloso Salgado deixou vasta obra pictórica, de que se destacam os quadros A morte de Catão (1887), Amor e Psique (1891), Jesus (1892) e Jesus no DesertoCoroação de D. João IV, Vasco da Gama em presença do Samorim (1898), Sufrágio (1911) e os retratos do conselheiro Venceslau de Lima (1891), de Braamcamp Freire (1894), do escultor Teixeira Lopes  e de António Cândido, estando representado em Lisboa no Museu do Chiado, no Museu Militar e na Escola Médico-Cirúrgica, bem como no Palácio da Bolsa no Porto, na Casa Museu Teixeira Lopes em Vila Nova de Gaia, e no Museu José Malhoa nas Caldas da Rainha.

Em 1926 foi homenageado pela Escola de Belas Artes de Lisboa com o descerramento de uma lápide na sala de pintura onde ensinava e, em 1934, ao atingir o limite de idade para o exercício da docência, foi homenageado pela Escola de Belas Artes do Porto, embora continuasse a lecionar. No decurso do seu processo de aposentação (entre 1937 e 1941), a Sociedade Nacional de Belas Artes realizou uma exposição retrospetiva da sua obra (1939) e só em 1940 Veloso Salgado deixou de pintar.

Veloso Salgado recebeu várias distinções como oficial da Ordem de Santiago,  1ª Medalha do Grémio Artístico de Lisboa (1894), Prémio Anunciação da Academia de Belas Artes (1886), cavaleiro da Ordem Nacional da Legião de Honra Francesa (1902), eleito Académico de Mérito da Academia de Belas Artes de Lisboa (1894) e da Academia Portuense de Belas Artes (1907) e medalha de honra da Sociedade Nacional de Belas-Artes de Lisboa (1911). No primeiro aniversário da sua morte, em 1946, a Sociedade Nacional de Belas Artes promoveu uma sessão comemorativa da efeméride, e a Câmara Municipal de Lisboa descerrou uma lápide evocativa no n.º 99 da Rua da Quintinha, casa onde vivera e falecera.

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)