Rua Luís Pastor de Macedo

Luís Pastor de Macedo em 1940, discursando nas comemorações do centenário do nascimento de Júlio de Castilho
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua Luís Pastor de Macedo, topónimo atribuído a um arruamento da freguesia do Lumiar por Edital de 1 de Fevereiro de 1972

Luís Pastor de Macedo (1901- 1971), comerciante, autarca, deputado e olisipógrafo. Começou a sua vida profissional no estabelecimento comercial da família, A Casa dos Panos, estabelecimento da Rua dos Fanqueiros que fechou portas já no início do século XXI. Publicou a sua primeira obra olisipográfica O Terramoto de 1755 na freguesia da Madalena em 1929 a que se seguiram algumas dezenas de títulos, alguns dos quais sobre as freguesias da Baixa e da sua envolvente. Colaborou com vários outros autores, nomeadamente com Augusto Vieira da Silva, Gustavo de Matos Sequeira, Norberto de Araújo, Rodrigues Cavalheiro. Colaborou ainda no Diário de Lisboa, n’O Século, na Revista Municipal, nos Anais das Bibliotecas, Arquivo e Museus Municipais, ambos da Câmara Municipal de Lisboa e no Boletim Cultural da Junta Distrital de Lisboa.

A par da sua actividade de comerciante e de olisipógrafo, Luís Pastor de Macedo integrou como vogal a Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Lisboa, entre 1933 e 1935, voltando à autarquia em 1947, como vice-presidente, cargo que manteve até 1959. Na sua actuação enquanto autarca, destaca-se em 1933 a aprovação da sua proposta de criação dos Serviços Culturais, apresentada em Sessão de 11 de Maio. Nos dois períodos em que esteve na Câmara dedicou particular atenção às questões culturais, à realização das festas da cidade e à organização de várias exposições de carácter olisiponense. Foi ainda de sua iniciativa o impulso dado às publicações da autarquia a qual viria a ser a editora de alguns dos seus títulos, bem como de outros olisipógrafos.

A sua dedicação ao conhecimento da Cidade levou-o a ser um dos fundadores do Grupo Amigos de Lisboa, constituído em 1936, e onde desempenhou o cargo de secretário-geral do Grupo, participou activamente nos trabalhos das várias secções que o Grupo então tinha, propôs e promoveu diversas iniciativas para a defesa do património da Cidade e para o conhecimento da sua história e foi um colaborador assíduo da revista Olisipo. Mas a obra pela qual é mais conhecido do grande público é a que se ocupa do estudo da Toponímia de Lisboa – Lisboa de lés-a-lés. Subsídios para o estudo das vias públicas da cidade, publicada pela primeira vez entre 1940 e 1943, e reeditada nos anos sessenta e oitenta do século XX. Organizado em cinco volumes e ordenado alfabeticamente, Lisboa de lés-a-lés procura dar a conhecer a origem de topónimos lisboetas, no seguimento da publicação da obra de Gomes de Brito Ruas de Lisboa.

“Foi da sua leitura, da verificação de que mais alguma coisa haveria a dizer de parte das artérias ali tratadas (…) que nasceu a ideia de a ampliar e aperfeiçoar tanto quanto possível”, nas palavras de Macedo.

O tipo de informação recolhida para os arruamentos varia em quantidade, mas também em qualidade: explicação para o nome, antigo traçado do arruamento, transcrições de outras obras relacionadas com o assunto, referências a moradores e ao comércio local, a ofícios e profissões arruados nesse arruamento, etc. Enfim, todo um conjunto variado de informações úteis a quem se interessa por conhecer a vida da/na cidade, complementando e aprofundando a obra de Brito, ao mesmo tempo que introduz novos topónimos e novas explicações.

Porém, mais ricos do que o livro Lisboa de lés-a-lés são os ficheiros contendo os verbetes que Pastor de Macedo reuniu ao longo da sua vida em número superior a 100 000, que Rodrigues Cavalheiro descreve como “ficheiro portentosamente especializado que, durante meio século, foi pacientemente recolhido, em leituras exaustivas e em investigações pertinazes”, e que se encontra disponível para consulta no Gabinete de Estudos Olisiponenses.

Já perto do fim da vida, em data que desconhecemos, Pastor de Macedo entregou a Ferreira de Andrade os seus ficheiros para que este autor pudesse dar à estampa o projectado Dicionário de Lisboa. Em Agosto de 1970 saía a público o primeiro fascículo do intitulado Grande Dicionário de Lisboa da autoria de Ferreira de Andrade, com prefácio de Rodrigues Cavalheiro e ilustrações de José de Lemos (Lisboa: Olisipo – Ed. De Pub. Turísticas, 1970), que se encontra na Biblioteca Nacional, com 32 páginas a 2 colunas, o qual não passou do termo Académica.

Mas Ferreira de Andrade viria a falecer em Outubro de 1970 e na sequência desta morte, Luís Pastor de Macedo legou à Câmara Municipal de Lisboa os referidos ficheiros. Em sessão de 17 e 28 de Dezembro de 1970, a Câmara deliberou aceitar em legado a ”grande colecção de verbetes elaborados e organizados por aquele olisipógrafo, que representa o produto de trinta anos de trabalho.”, legado que seria destinado ao Gabinete de Estudos Olisiponenses “por constituir um precioso elemento de consulta para os investigadores e estudiosos.”

© CML | DPC | Gabinete de Estudos Olisiponenses | 2019

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A Rua do Presidente da CML em 1918, José Carlos da Maia

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: José Carlos Batista)

José Carlos da Maia foi Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Lisboa,  de 14 de janeiro até 1 de março de 1918,  já que foi nomeado ministro da Marinha de Sidónio Pais a 9 de março, e tendo sido um dos assassinados na Noite Sangrenta de 19 de outubro de 1921 foi  fixado na memória de Lisboa mais de dez anos depois, em Campo de Ourique, através da Rua Carlos da Maia, por via do Edital municipal de 12 de março de 1932.

Conforme o procedimento da época, Carlos da Maia foi nomeado Presidente da Comissão Administrativa da CML pelo Governador Civil de Lisboa, por indicação do Ministro do Interior, então Machado Santos. Ficou responsável pelos Pelouros da Secretaria e Bibliotecas. De acordo com a sua proposta, os outros vogais desse executivo ficaram com as seguintes competências: Álvaro Valadas, professor da Escola Comercial Ferreira Borges, com o pelouro das Águas; o Arqº António do Couto Abreu com o pelouro da Arquitetura; o farmacêutico António Ferreira com os  Jardins e Cemitérios; o professor e advogado António Lino Neto com as Subsistências; o comerciante António Maria Abrantes com a Limpeza e Regas; o industrial Franklin Lamas com a Viação; o Engº Frederico Santos Taveira com os Incêndios; João Pereira da Rosa com o Pelouro da Iluminação; o médico e antigo deputado José da Costa Júnior com os Matadouros; o médico Matias Ferreira de Mira com o Pelouro da Instrução; o comerciante e proprietário Santos Rebelo com o Pelouro das Ruas; o advogado Raul de Almeida Carmo com o Contencioso; o antigo operário Sebastião Eugénio com os Mercados e Lavadouros e o «comercialista» Vladimiro Contreiras com o Pelouro da Contabilidade.

Nesses quase de dois meses, foi proposta de José Carlos Maia a receção nos Paços do Concelho ao Presidente da República – Sidónio Pais – no seu regresso à capital em 18 de janeiro de 1918, com dispensa de ponto para o pessoal ir assistir à chegada na Estação do Rossio; a constituição de uma Comissão para dar pareceres sobre a higiene e estética da capital e uma outra,  também composta por  vereadores, para auditar os serviços da CML e dar pareceres de melhoria.

Na presidência de Carlos da Maia e com o seu voto favorável, entre outras deliberações, os Vogais da Comissão Administrativa passaram a não ser beneficiados pela distribuição dos 100 passes que a Carris tinha acordado com a edilidade; o indeferimento do aumento das tarifas da Carris em 40%; o encerramento das janelas dos carros eléctricos de 1 de novembro a 1 de março; a manutenção do  preço da carne de carneiro nos talhos municipais; o cultivo dos terrenos incultos do Parque Eduardo VII com forragens para o gado do Serviço de Jardins e Edificações, bem como a substituição nos jardins municipais das flores da estação por hortaliças e legumes; a municipalização do pescado para o embaratecer; conclusão urgente da ampliação e modificação do Mercado da 24 de Julho; que o mau tempo não impedisse os operários de receber o seu salário, mesmo que não pudessem trabalhar, tal como acontecia com o encarregado e o apontador; a averiguação do ensino nas associações que diziam ser escolas; a inauguração de um curso noturno para adultos na Escola Central nº 14 do Largo do Leão; a transferência de um professor da escola nº 24 para a nova escola nº 84 ao Rego e outro, da escola nº 2 para a nº 76;  reparação da estação de incêndios de Xabregas e o aumento do nº de bombeiros auxiliares para serviço nos teatros; abertura do novo lavadouro do Alto do Pina e autorização para a autarquia  contrair um empréstimo de 500 contos.

José Carlos da Maia (Olhão/16.03.1878 – 19.10.1921/Lisboa), filho de um Oficial da Marinha, Carlos Augusto da Maia e de Maria da Encarnação Cruz, morava em Lisboa desde bebé, e foi também ele um Oficial da Marinha de Guerra que se destacou enquanto político republicano. Desde novo participou em todas as conspirações contra o regime monárquico com Machado Santos e Cândido dos Reis, tendo participado empenhadamente na implantação da República.

Depois, foi deputado à Assembleia Constituinte de 1911, Governador de Macau de 1914 a 1916, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Ministro da Marinha de Sidónio Pais de 9 de março a 7 de setembro de 1918, Capitão de Porto de Portimão e Ministro das Colónias de José Relvas, de 26 de janeiro a 21 de março de 1919.

Em 1921, quando se encontrava afastado da política ativa, foi assassinado na revolta conhecida como Noite Sangrenta, em 19 de outubro de 1921, tal como o  presidente do Ministério António Granjo e Machado Santos, entre outros.

José Carlos da Maia foi agraciado com a Comenda da Ordem Militar de Avis (11 de março de 1919) e postumamente, com a Grã-Cruz da Ordem Militar da Torre e Espada (11 de Novembro de 1927). A sua  viúva, Berta da Maia, esforçou-se por encontrar os responsáveis pelo assassinato do seu marido quando ele contava 43 anos, tendo sido colocada no mesmo jazigo que fora erigido em 1924 no Cemitério dos Prazeres. Como José Carlos da Maia ou Carlos da Maia, o seu nome integra também a toponímia dos concelhos de Almada (em Porto Brandão e Vale de Cavala), Cascais (na Parede e em São Domingos de Rana), Lagoa, Odemira, Olhão, Portimão, Porto e Setúbal.

Freguesia de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

A Rua Helena Vaz da Silva, do Centro Nacional de Cultura e do Instituto Português de Cinema

Freguesia do Lumiar
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Helena Vaz da Silva que se distinguiu sobretudo como dinamizadora cultural e que foi vice-presidente do organismo de apoio à criação cinematográfica, o Instituto Português de Cinema, em 1980, década de ouro do cinema português, dá o seu nome a um arruamento do Lumiar desde o ano seguinte à sua morte.

Pelo Edital de 20 de novembro de 2003 a Rua E da Malha 15, 7 e 3 do Alto do Lumiar passou a ter o topónimo Rua Helena Vaz da Silva, partindo da confluência da Avenida Álvaro Cunhal, Rua Arnaldo Ferreira, Rua General Vasco Gonçalves e Avenida Eugénio de Andrade para chegar à Avenida David Mourão-Ferreira.

Helena Maria da Costa de Sousa Macedo Gentil (Lisboa/03.07.1939 – 12.08.2002/Lisboa) estudou em colégios católicos e quando terminou o ensino secundário ficou a ensinar Moral e Francês no Colégio das Oblatas, tendo também aos 17 anos conseguido o seu primeiro emprego como correspondente de línguas na Agência de Publicidade Manuel Martins da Hora, onde outrora trabalhou Fernando Pessoa.

Em 1959, casou  com Alberto Vaz da Silva, de quem teve quatro filhos (Francisco, Salvador, Tomás e Helena) e esta decisão pessoal vai marcar a sua carreira futura. O seu círculo de amigos próximos passou a incluir Alçada Baptista, Nuno Bragança, João Bénard da Costa, Pedro Tamen, bem como José Escada, Luís Sousa Costa e Mateus Cardoso Peres. Chegaram a idealizar em 1961 um plano comunitário –  O Pacto – em que 5 casais orientados pelo Padre Manuel Antunes viveriam em comunidade numa quinta com 5 casas e uma cooperativa de ensino, o que nunca se concretizou, mas fizeram nascer em 1963 uma revista, O Tempo e Modo, uma revista católica de oposição ao regime salazarista, dirigida por Alçada Baptista, editada por Pedro Tamen, com chefia de redação de João Bénard da Costa e tendo como principais redatores Nuno Bragança e Alberto Vaz da Silva.

Em 1965, Helena Vaz da Silva assumiu a responsabilidade da edição portuguesa da revista Concilium, para difundir o espírito de Vaticano II, a partir da qual também se organizaram debates e seminários. E três anos depois, em 1968, foi para Paris fazer a sua formação de jornalista. Regressou a Portugal em 1972, para retomar o trabalho na O Tempo e o Modo, onde organizou dois números especiais, um sobre Deus e outro sobre o casamento, tendo este último sido apreendido pela Censura após a publicação. Ainda em 1972 dirigiu a empresa turística algarvia da Quinta da Balaia. Em 1973 entra para o  semanário Expresso, onde até 1976 assumiu a coordenação da «Revista», para além do trabalho de reportagens, crónicas e entrevistas. Depois foi trabalhar para a Direção de Programas Sociais e Políticos da RTP, a que regressou em 1993, para o Conselho de Opinião da RTP. Esteve na Agência ANOP (1977), onde trabalhou como grande repórter e chefe da secção de cultura e educação, para além de se ter associado à revista Raiz e Utopia, fundada em 1977 por António José Saraiva, passando em 1978 a ser a proprietária e diretora da mesma.

Em 1979, iniciou a sua carreira no Centro Nacional de Cultura, onde permaneceu até à sua morte, sendo muito recordada pelos lisboetas pela criação dos Passeios de Domingo, no decorrer da sua Presidência, que foram pioneiros na introdução em Portugal dos itinerários culturais. Em 1980 foi nomeada Vice-Presidente do  Instituto Português de Cinema.

Helena Vaz da Silva foi ainda tradutora, nomeadamente de Yourcenar e deixou obra publicada como Júlio Pomar com Helena Vaz da Silva (1979), Portugal – o último descobrimento (1987), três volumes de Qual Europa (de 1996 a 1999) e Incitações para o Milénio (2001). Colaborou para mais jornais e também fez crónicas para a Antena 1, TSF, Comercial e Rádio Renascença. Integrou ainda a Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses (1987), a Comissão Nacional da UNESCO (de 1989 a 1994), presidiu à Comissão Cidadão e Justiça (1990), foi membro do Conselho de Orientação para os Itinerários Culturais do Conselho da Europa  e do Conselho Estratégico de Lisboa (1992), da Comissão para o Futuro da Televisão em Portugal (1996), do Conselho Geral do Movimento Europeu e finalmente, presidiu ao Grupo de Trabalho sobre Serviço Público de Televisão, a partir de 5 de junho de 2002.

Entre 1994 e 1999 foi deputada no Parlamento Europeu, como independente eleita nas listas do PSD.

Helena Vaz da Silva foi agraciada com a Ordem de Mérito francesa (1982), com o Bordalo de Honra da Casa da Imprensa (1999) e como Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique (2000), para postumamente o ser também com uma placa evocativa colocada pela edilidade alfacinha na casa onde nasceu no Largo Dr. António de Sousa Macedo, nº7 C e a edição pelo  Centro Nacional de Cultura de uma serigrafia de Graça Morais – Helena pelas sete partidas do Mundo – em sua homenagem (2006), com o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural (desde 2013) promovido por Europa Nostra, Centro Nacional de Cultura e Clube Português de Imprensa de Portugal, sendo ainda topónimo em Almada (Charneca da Caparica), na Amadora (Buraca), em Sintra (Mem Martins) e em Valongo.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O maestro Ivo Cruz numa praceta de Benfica

Freguesia de Benfica
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Oito anos após o seu falecimento, junto à artéria da pianista Nina Marques Pereira, em Benfica, nasceu no Impasse A à Rua Nina Marques Pereira a Praceta Maestro Ivo Cruz, em homenagem a este compositor que durante 33 anos dirigiu o Conservatório Nacional de Lisboa. O topónimo nasceu pela publicação do Edital municipal de 15 de outubro de 1993 e a partir de uma sugestão do Sindicato dos Músicos.

Ivo Cruz em 19 de janeiro de 1925
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

O maestro Manuel Ivo Cruz (Brasil – Mato Grosso – Corumbá/19.05.1901 – 08.09.1985/Lisboa), filho de Manuel Pereira da Cruz e de Palmira Machado, um casal de Olhão,  distinguiu-se como compositor, maestro e professor de música. Desde criança viveu em Lisboa e começou a aprender música com António Tomás de Lima e Tomás Borba. Logo a partir de 1921 estudou a  génese da música portuguesa, investigando em arquivos públicos e particulares, sendo também essa uma época em que colaborava regularmente em revistas como a Contemporânea Música, enquanto cursava  Direito na Universidade de Lisboa e que concluiu em 1924. Casou em janeiro do ano seguinte e o casal partiu no dia 19 de janeiro desse ano de 1925, no Vapor Holm da companhia Hugo Stinnes – Holm  para a Alemanha, onde permaneceram 5 anos, enquanto Ivo Cruz estudava Composição, Direção de Orquestra, Estética e História da Música.

O casal regressou a  Portugal em 1931, residindo em Lisboa na Rua do Salitre. Ivo Cruz trabalhava como professor do Conservatório e  organizou a Sociedade Coral de Duarte Lobo, promovendo as primeiras audições modernas de compositores portugueses como Carlos Seixas e João de Sousa Carvalho. Em 1935, dirigia a  Orquestra da Emissora Nacional e dois anos depois fundou a Orquestra Filarmónica de Lisboa, para divulgar o repertório musical português e no ano seguinte, sucedeu a Viana da Mota, como diretor do Conservatório Nacional de Lisboa, função que ocupou durante 33 anos, de 1938 a 1971.

Da sua vasta e diversificada obra musical, de estilo impressionista ao gosto português, sobressaem duas sinfonias, dois concertos para piano e múltiplas canções e peças instrumentais. A sua obra mais conhecida talvez seja a Sinfonia de Amadis, estreada em Lisboa em 1953. Em 1961, entregou a  partitura manuscrita de obras de música sinfónica sobre Lisboa ao presidente da edilidade, general França Borges. E dez anos depois, em 15 de maio de 1971 assinou com o presidente da autarquia, engenheiro Santos e Castro, o contrato para dirigir a Orquestra Filarmónica Municipal.

Reuniu uma importante coleção bibliográfica de temática musical que se encontra integrada na Biblioteca Nacional de Lisboa, como Colecção Ivo Cruz, que inclui o maior conjunto conhecido de autógrafos de João Domingos Bomtempo, tal como dirigiu muitos concertos de festivais ou as temporadas dos Bailados Verde Gaio, dentro e fora do país, sendo ainda diretor dos concertos do Museu do Conde de Castro Guimarães.

Desempenhou ainda funções de Presidente da Associação dos Músicos Portugueses (1933) – em cuja qualidade integrou a Câmara Corporativa -, Presidente do Sindicato Nacional dos Músicos (1936-1948), Vice-presidente da Caixa dos Profissionais de Espectáculos (1936), Vereador da Câmara Municipal de Lisboa (1938 – 1941) sob a presidência de Duarte Pacheco e de Eduardo Rodrigues de Carvalho, deputado em quatro legislaturas ( 1935-1949 ) e membro consultivo do Teatro Nacional de São Carlos e do Instituto de Alta Cultura.

Na sua vida pessoal, casou com Isaura Cavalheiro em 3 de janeiro de 1925, na Igreja de São Sebastião da Pedreira e o Arquivo Municipal de Lisboa possui o álbum desse casamento, fotografado por Eduardo Portugal. Na sequência desse casamento foi pai de Maria Teresa Cavalheiro Cruz (1926)  e do seu segundo casamento com Maria Adelaide Burnay Soares Cardoso (Lalá), foi pai do também maestro Manuel Ivo Soares Cardoso Cruz (1935). Em 1985 publicou, em edição de autor, a sua  autobiografia, intitulada O que fiz e o que não fiz.

O maestro Ivo Cruz foi galardoado com a Comenda da Ordem de S. Tiago, o Grande Oficialato da Ordem de Instrução Pública, a Medalha Municipal de Lisboa (1981) entregue numa sessão de homenagem no São Luiz, bem como a distinção de Cavaleiro da Ordem Espanhola de Afonso o Sábio e da Ordem Brasileira Cruzeiro do Sul, sendo ainda presença das toponímias de Corroios, Mem Martins e Porto.

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Jardim Ferreira de Mira, o médico do Instituto Rocha Cabral

Freguesia de Benfica
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Médico fisiologista da Faculdade de Medicina de Lisboa e historiador da medicina portuguesa, que a partir de 1922 fundou e dirigiu o Instituto Rocha Cabral, Ferreira de Mira dá o seu nome a um jardim lisboeta de Benfica, próximo do Hospital da Luz, 63 anos após o seu falecimento, através da deliberação camarária de 26 de outubro de 2016 e consequente Edital de 10 de novembro, a partir da sugestão do Prof. José Pedro Sousa Dias enquanto membro da Comissão Municipal de Toponímia em representação da Universidade de Lisboa.

Em 1926 na Ilustração Portuguesa

Mathias Boleto Ferreira de Mira (Montijo – Canha/21.02.1875 – 07.03.1953/Lisboa), formado na  Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa em 1898 e discípulo de Mark Athias, foi um médico e professor universitário que também fundou e dirigiu o Instituto Bento da Rocha Cabral a partir de 1922. Começou por exercer medicina no Hospital da Misericórdia da vila de Canha, mas veio viver para Lisboa em 1910 e dois anos depois era já  professor de Fisiologia, na então nova Faculdade de Medicina de Lisboa, a que mais tarde somou a regência da cadeira de Química.

Como investigador científico, Ferreira de Mira teve a oportunidade de fundar e dirigir a partir de 1922 um Instituto de Investigação na área das Ciências Biológicas, com o nome de um transmontano que no Brasil ficou multimilionário –  Bento da Rocha Cabral (1847-1921)- e que  no seu testamento deixou as verbas necessárias para o efeito com a indicação de quem o devia dirigir. O Instituto de Investigação Científica de Bento da Rocha Cabral ficou instalado na casa adquirida e reconstruída em 1902 pelo benemérito e que até aí lhe servira de morada em Lisboa, no nº 14 da Calçada Bento Rocha Cabral – assim denominada desde 1924 já que antes era a Calçada da Fábrica da Louça – e começou a realizar investigação a partir de 1925 com quatro investigadores: o próprio Matias Boleto Ferreira de Mira, o seu filho Manuel Ferreira de Mira (falecido em 1929), Luís Simões Raposo – na toponímia da freguesia do Lumiar desde 25/10/1989- e Fausto Lopo de Carvalho- na toponímia da freguesia de Marvila desde  04/11/1970-, que na década seguinte conseguiu dominar a tuberculose em Portugal. Foi este Instituto que acolheu as primeiras investigações com animais que permitiram a Egas Moniz a descoberta da angiografia e o desenvolvimento da angiopneumografia em conjunto com Almeida Lima e Lopo de Carvalho. Também aqui trabalho como investigadora a  primeira portuguesa doutorada em ciências biológicas, a fitopatologista Matilde Bensaúde.

Matias Ferreira de Mira foi também um membro dirigente da Sociedade Portuguesa de Biologia e, sobretudo nos jornais e revistas Luta de Brito Camacho, Diário de Notícias e Seara Nova, escreveu dezenas de artigos de vulgarização científica, na área da biologia e de outras ciências, assim como redigiu livros didáticos como Lições de Químico-Fisiologia elementar, Exercícios de Química Fisiológica (com Mark Athias) ou Manual de Química Fisiológica. Também deu dezenas de conferências sobre temas científicos e foi o autor da  História da Medicina Portuguesa (1947) e de biografias como a de Brito Camacho (1942), com Aquilino Ribeiro.

Ferreira de Mira foi também um cidadão empenhado na política tendo sido vereador da Câmara Municipal de Lisboa, com o pelouro da Instrução Primária, a partir de 1912, assim como foi  deputado da Primeira República, de 1922 a 1925, por Santarém, eleito com António Tavares Ferreira, Ginestal Machado e João Teixeira de Queiroz Vaz Guedes.

Matias Ferreira de Mira está também presente na toponímia da Charneca da Caparica.

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)