A Rua do industrial da CUF, Alfredo da Silva

Freguesia da Ajuda
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O empresário e industrial Alfredo da Silva, sobretudo conhecido pela sua obra na CUF, desde a publicação do Edital municipal de 21 de dezembro de 1960 que dá o seu nome à Rua D à Quinta do Almargem ou à Calçada da Boa-Hora, com a legenda «Industrial/1871 – 1942», oito anos após o ofício nº 485/52 do Sindicato Nacional dos Comercialistas solicitar a inclusão do nome de Alfredo da Silva na toponímia de Lisboa.

Imagem relacionada

Alfredo da Silva (Lisboa/30.06.1871 – 22.08.1942/Sintra) era filho de um rico comerciante de Lisboa, Caetano Isidoro da Silva,  com casa comercial e morada no n.º 185 da Rua Bela da Rainha [Rua da Prata desde novembro de 1910], e de Emília Augusta Laymée Ferreira, de ascendência francesa, pelo que estudou no Liceu Francês até à morte do seu pai em 1885. Dois anos depois matriculou-se no Curso Superior de Comércio do Instituto Industrial e Comercial de Lisboa,  sendo que em 1890 já detinha o encargo de gerir a herança da família e três anos depois, em 1893,  era por herança acionista um dos administradores do Banco Lusitano e da Companhia Aliança Fabril (CAF), que fabricava sabões e velas em Alcântara e de que era administrador Henry Burnay.

No ano seguinte, em 19 de abril de 1894, casou-se com Maria Cristina Resende Dias de Oliveira, tendo como padrinho o banqueiro João Baptista Dotti, um dos principais acionistas da CAF. A filha nascida desse casamento – Amélia de Resende Dias de Oliveira da Silva- casará com Manuel Augusto José de Mello, o genro que depois comandará a CUF, empresa que pertencerá por esta aliança familiar ao Grupo Mello.

Henry Burnay era administrador da CAF mas também da CUF (Companhia União Fabril) e após um incêndio da primeira, conjugou a sua vontade com a de Alfredo da Silva para a fusão das duas, união que foi formalizada em 22 de abril de 1898 sob o nome de CUF e que se desenvolveu produzindo adubos em grande escala, aproveitando a ideia do Estado potenciar o cultivo de cereais no Alentejo.

Acionista da Carris também por herança paterna, Alfredo da Silva foi convidado pela empresa em 1892 a fazer uma visita a algumas cidades da Europa para estudo dos melhores sistemas de tracção mecânica, tendo o seu relatório apontado para o que viriam a ser os Eléctricos da Carris, tendo o primeiro circulado no dia 31 de agosto de 1901 da Praça do Comércio a Algés.  Alfredo da Silva  foi diretor da Carris entre 1896 e 1899, com Zófimo Consiglieri Pedroso e Carlos Krus.

Alfredo da Silva diversificou os seus negócios em várias áreas e tornou-se um dos industriais mais ricos de Portugal. Esteve na criação da Tabaqueira do Poço do Bispo (1927) e na produção de tecidos para sacas de adubos, arrecadou a exploração do Porto de Lisboa no Estaleiro da Rocha do Conde de Óbidos (1936),  entrou na navegação e nos territórios africanos para controlar o transporte e matérias-primas, comprou o Banco Totta e a Companhia de Seguros Império, investiu na metalurgia.

Como diversos industriais do final do séc. XIX e principio do séc. XX, também Alfredo da Silva  se mostrou interessado em fixar os seus trabalhadores nas cercanias das suas fábricas, através da construção de  bairros operários, mercearias, padarias e até posto médico, de que foi exemplo maior o Barreiro, onde instalou fábricas de adubos a partir de 1907, assim como chegou mesmo a abrir uma escola para ambos os sexos em 1927. Todavia Alfredo da Silva geriu a CUF à distância quando se refugiou em Espanha e França após ter sido vitima de três atentados fracassados, tendo o último sido de outubro de 1921 e a sua ausência de Portugal até 1927.

Envolveu-se na política  ao ser eleito deputado  regenerador em 1906 e apoiante de João Franco; ao apoiar Sidónio Pais (1918) e depois o Estado Novo, tendo conquistado um lugar na Câmara Corporativa logo em 1935 e opôs-se frontalmente à lei das 8 horas de trabalho diário. No ano seguinte, conseguiu que fosse adjudicada à CUF a concessão do Estaleiro da Rocha Conde de Óbidos que será o embrião da Lisnave.

Alfredo Silva foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem Civil do Mérito Agrícola e Industrial (1932), como Sócio Honorário do Ginásio Clube Figueirense (1933) e com a atribuição do seu nome a agrupamentos escolares do Barreiro e de Rio de Mouro, bem como uma Avenida no Barreiro e outra em Rio de Mouro (no Bairro da Tabaqueira), assim como ruas em  Alfragide e São Domingos de Rana.

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

#EuropeForCulture

Anúncios

A Rua do presidente da Associação Promotora da Indústria Fabril, Fradesso da Silveira

Freguesia de Alcântara
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Fradesso da Silveira, que no séc. XIX foi presidente da Associação Promotora da Indústria Fabril, executou um inquérito à indústria fabril e promoveu a Biblioteca das Fábricas, veio em 1888, treze anos após a sua morte,  a substituir o topónimo da Rua Alexandre Herculano, em Alcântara, um dos pólos industriais da Lisboa dessa época.

Em 1878, o Governo Civil de Lisboa determinou pelo seu Edital de 18 de janeiro atribuir a denominação Rua Alexandre Herculano ao «prolongamento do novo atêrro marginal do Tejo, desde a ponte sôbre a Ribeira de Alcântara até ao Largo das Fontaínhas», atendendo assim ao pedido da Câmara Municipal de Belém para homenagear o primeiro presidente daquele município. Nove anos passados, a deliberação da Câmara Municipal de Lisboa do último dia do ano de 1887 e o consequente Edital de 10 de janeiro de 1888, alterou esse topónimo para Rua Fradesso da Silveira, tanto mais que desde 6 de maio de 1882 que também dera existência em Lisboa a uma nova Rua Alexandre Herculano, agora no Bairro Barata Salgueiro, junto à Avenida da Liberdade.

Fradesso da Silveira n’ O Diário Illustrado, 16 de novembro de 1873

Joaquim Henriques Fradesso da Silveira (Lisboa/14.04.1825 – 26.04.1875/Lisboa) distinguiu-se como industrial e fundador a Gazeta das Fábricas mas sobretudo como presidente da Associação Promotora da Indústria Fabril de Lisboa, tendo promovido a edição da Biblioteca das Fábricas, que coligia pequenos e elucidativos opúsculos dos trabalhos que levara a cabo como Comissário Régio para o inquérito à indústria fabril.

Posteriormente, Fradesso da Silveira transferiu-se para a área das estatísticas industriais na Direcção-Geral de Estatística para além de se ter dedicado às questões do fomento industrial e da competitividade, tendo exercido também as funções de vogal do Conselho Geral do Comércio, Agricultura e Manufaturas. Na década de 1860 era também membro da secção industrial do Conselho Geral das Alfândegas, tendo realizado vários inquéritos destinados a avaliar a competitividade da indústria portuguesa face às suas congéneres europeias.

Fradesso da Silveira assentara praça na marinha em 1842 – onde foi condiscípulo de Carlos Testa – e em 1844 passou para a Infantaria do Exército, tendo depois conseguido por concurso a regência da cadeira de Física e Química da Escola Politécnica, onde se manteve até 1853 e à qual voltou em 1860, levando esta docência a fazê-lo publicar o Manual do curso de química elementar professado na Escola Politécnica (1846) e Lições de Óptica (1848).  Também dirigiu o Observatório Meteorológico de Lisboa, anexo à Escola Politécnica. Em 1853, desempenhou as funções de chefe da Repartição de Pesos e Medidas (da Comissão Central de Pesos e Medidas) o que lhe permitiu contribuir decisivamente para a adoção do sistema métrico em todo o país.

Joaquim Fradesso da Silveira que foi  casado com Maria Amália Cordeiro Feyo, filha do 1º Visconde de Fontainhas, também ao longo da sua vida manteve uma ligação próxima à imprensa escrita já que editou a  Revista Popular (1849-1851), organizou o Almanaque Popular,  o Diário Mercantil e a Gazeta do Povo, para além de colaborar na Revista Universal Lisbonense, no Jornal do Comércio e no Diário de Notícias, tendo sido ainda, enquanto membro do Partido Histórico, deputado por Lisboa em 1865 e 1866.

Freguesia de Alcântara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

#EuropeForCulture

O pombalino Largo do Caldas e o Largo Adelino Amaro da Costa dos anos 80

O traçado pombalino para o Palácio de João Rodrigues Caldas no Terreiro do Ximenes, assinado pelo Conde de Oeiras (depois Marquês de Pombal) e por De Blasco.

O Largo Adelino Amaro da Costa, dado nos anos 80 do séc. XX, é o topónimo oficial do pombalino Largo do Caldas que continua a persistir na memória dos lisboetas.

Pelo menos desde XVI existia no espaço deste arruamento o palacete da família do castelhano Rodrigues Caetano Ximenes,  que em 1476 tinha vindo para Portugal, pelo que chamava ao local Chão de Alcamim mas também Terreiro ou Terreirinho do Ximenes. Segundo Norberto de Araújo o arruamento também foi denominado como Praça da Bela Vista e um pouco antes do Terramoto como Largo do Conde de São Vicente.

Pelo menos desde 1858 seria designado como Largo do Caldas, uma vez que assim consta no levantamento topográfico de Lisboa de Filipe Folque. O topónimo deriva do Palácio urbano pós-terramoto, dos irmãos João e Luís Rodrigues Caldas, edificado entre 1765 e 1775 onde antes fora o Palácio do Ximenes, sendo o traçado desenhado a tinta da china e aguarela assinado pelo Conde de Oeiras (título de 1759 que após a criação do título Marquês de Pombal, em 1769, passou a ser subsidiário deste) e  de Blasco (seria Miguel Ângelo de Blasco ?…). O palácio com uma planta em L irregular, na frente virada para o Largo do Chão do Loureiro, foi edificada em 1766 uma ermida pública sob invocação de Nossa Senhora da Conceição, cuja autorização de culto foi dada a 1 de dezembro de 1766. Os irmãos  Caldas Rodrigues – João e Luís (Viana do Castelo – Badim/22.03.1721 – 25.05.1787) eram contratadores gerais de tabacos do reino.

Segundo Luís Pastor de Macedo, a partir de 1766 morou no Palácio pombalino dos Caldas o francês Jácome Ratton,  industrial amigo e admirador de Pombal e lá lhe nasceram três dos seus filhos.

No séc. XX, coabitando com as irmãs Caldas Machado e por cedência destas, viveu também num quarto no 3º andar, desde 1927, o padre Francisco Rodrigues da Cruz, conhecido como Padre Cruz, que ali  faleceu com 89 anos de idade em 1949, sendo que passados 10 anos e no âmbito do centenário do nascimento do Padre Cruz, a edilidade lisboeta tenha descerrado uma lápide comemorativa no prédio. Por morte das três últimas proprietárias – as irmãs Maria da Assunção, Joana Francisca e Catarina-, solteiras e sem filhos, o Palácio passou por herança para o Seminário dos Olivais.

Adelino Manuel Lopes Amaro da Costa (Lisboa/18.04.1943 – 04.12.1980/Camarate), Ministro da Defesa quando faleceu no desastre de aviação que também vitimou o Primeiro-Ministro Francisco Sá Carneiro, veio dar o seu nome ao Largo do Caldas desde a publicação do Edital de 5 de abril de 1982. Uma proposta dos vereadores da Aliança Democrática foi aprovada por maioria na reunião de Câmara de 22 de dezembro de 1980, para serem atribuídos os nomes de ambos os políticos a ruas de Lisboa, tendo a Comissão Municipal de Toponímia sugerido para o efeito, em 13 de janeiro de  1981, as duas alamedas interiores do Campo Grande. Todavia, acabou por vingar a designação de locais do então Vereador do Pelouro da Cultura, Dr. João Martins Vieira que sugeriu a alteração de denominação do antigo Largo do Caldas para Largo Dr. Adelino Amaro da Costa e, da  antiga Praça do Areeiro para Praça Dr. Francisco Sá Carneiro.

Licenciado em Engenharia Civil pelo Instituto Superior Técnico em 1966, Adelino Amaro da Costa foi também sub-Diretor e Diretor do Gabinete de Estudos e Planeamento do Ministério da Educação (1973 – 1974) tendo em 1974 sido um dos fundadores do Centro Democrático Social (CDS), com Diogo Freitas do Amaral,  e o seu primeiro secretário-geral.  De 1975 a 1980 foi deputado e líder do Grupo Parlamentar do CDS (1976 – 1978), Ministro de Defesa Nacional no Governo presidido por Sá Carneiro e com ele faleceu  quando ambos se deslocavam ao Porto para um comício de campanha eleitoral para as presidenciais desse ano.

O Largo Adelino Amaro da Costa – Freguesia de Santa Maria Maior

A antiga Praça do Areeiro e Francisco Sá Carneiro

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Desde 1982 que a Praça do Areeiro – cerca de um ano e meio após a trágica morte de Francisco de Sá Carneiro – se denomina oficialmente Praça Francisco Sá Carneiro, embora a maioria da população a continue a designar pelo antigo topónimo fixado em 1947, a ponto de a Comissão Municipal de Toponímia no seu parecer de 11 de novembro de 1994 ter aditado à legenda  deste topónimo «Antiga Praça do Areeiro».

Cronologicamente, o Edital municipal de 17/02/1947 instituiu que «a via pública situada no término da Avenida Almirante Reis, conhecida por Praça do Areeiro, toma a referida denominação», sendo o topónimo derivado da antiga Quinta do Areeiro que Júlio Silva Pinto ainda em 1908 representava na sua planta de Lisboa.  Após a morte do então Primeiro-Ministro, Francisco Sá Carneiro, em 4 de dezembro de 1980 a deliberação camarária de 22 de dezembro de 1980 e o consequente Edital municipal de 5 de abril de 1982 alteraram a denominação Praça do Areeiro para Praça Francisco Sá Carneiro, cuja legenda é desde 1994 a seguinte: «1934 – 1980/Antiga Praça do Areeiro».

No seguimento das dramáticas mortes de Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa, que na época eram o Primeiro-Ministro e o Ministro da Defesa, foi aprovada por maioria na reunião de Câmara de 22 de dezembro de 1980 uma proposta dos vereadores da Aliança Democrática  para serem atribuídos os seus nomes a ruas de Lisboa. A Comissão Municipal de Toponímia sugeriu para o efeito, em 13 de janeiro de 1981, as duas alamedas interiores do Campo Grande. Todavia, acabou por vingar o local sugerido pelo então Vereador do Pelouro da Cultura, Dr. João Martins Vieira, que mudou a antiga Praça do Areeiro para Praça Dr. Francisco Sá Carneiro e o antigo Largo do Caldas para Largo Dr. Adelino Amaro da Costa.  Em 19 de julho de 1991, data do 57º aniversário de nascimento de Francisco Sá Carneiro, foi inaugurado na praça como o nome deste político um monumento em sua homenagem, da autoria de Mestre Soares Branco, conseguido através de subscrição pública lançada pelo jornal O Dia .

Francisco Manuel Lumbrales de Sá Carneiro (Porto/19.07.1934 – 04.12.1980/Camarate), advogado que se empenhou com paixão numa carreira política, foi fundador e o primeiro Secretário Geral do PPD (Partido Popular Democrático) em maio de 1974. Em 1979, o já então denominado PSD (Partido Social Democrata), por coligação com o CDS e o PPM, formaram a AD (Aliança Democrática) que através das eleições legislativas intercalares alcançou o governo do qual Sá Carneiro foi primeiro-ministro (o VI Governo Constitucional) até falecer, com 46 anos, vítima de um controverso acidente aéreo.

Formado em Direito pela Universidade de Lisboa em julho de 1956, Francisco Sá Carneiro exerceu advocacia no Porto e dirigiu a  Revista dos Tribunais a partir de 1961. Viveu por muitos anos em Lisboa, na Rua Dom João V, já que nos anos do fim do marcelismo, de 1969 a 1973,  foi deputado independente da chamada Ala Liberal, propondo com o deputado Pinto Balsemão uma Lei de Imprensa que reduzia a Censura (1970), assim como uma revisão constitucional (1970) num projeto conjunto com Mota Amaral, acabando mesmo por se confessar social-democrata e renunciar ao cargo de deputado em 26 de janeiro de 1973. Após o 25 de Abril foi ministro sem pasta no I Governo Provisório de Adelino da Palma Carlos, deputado à Assembleia Constituinte e depois na Assembleia da República, sendo o líder da bancada parlamentar do PPD/PSD.

A título póstumo foi condecorado com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo (1981), da Ordem Militar da Torre e Espada (1986) e da Ordem da Liberdade (1990), bem como com uma Sessão Solene de homenagem na Assembleia da República(1990), a Medalha de Ouro da Ordem dos Advogados (2006) e a Ordem do Infante D. Henrique (2017), para além de o seu nome ter sido dado ao Aeroporto Internacional da sua cidade natal (1990).

A Praça do Areeiro nos anos 40 do séc. XX
(Foto: António Passaporte, Arquivo Municipal de Lisboa)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Rua do Conselheiro Mariano de Carvalho, professor da Escola Politécnica

Freguesia dos Olivais
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Mariano Cirilo de Carvalho, professor de Matemática da Escola Politécnica, jornalista e político, foi consagrado ainda em vida, dez meses após se demitir do cargo de Ministro da Fazenda, na Rua do Conselheiro Mariano de Carvalho, na última década do século XIX, nos  Olivais, artéria que hoje começa hoje junto ao nº 365 da Avenida Infante Dom Henrique  e se estende até à Praça da Viscondessa dos Olivais (em virtude de alterações urbanísticas ocorridas na zona foi eliminado o troço entre a Avenida Infante Dom Henrique e a Avenida D. João II).

Foi por deliberação camarária de 25 de novembro de 1892 e consequente Edital municipal de dia 30 que a Rua Direita, que da Praça da Viscondessa dos Olivais seguia para o nascente até à Praia do Tejo, se passou a denominar Rua do Conselheiro Mariano de Carvalho, tendo o mesmo Edital  consignado também em Ruas da mesma freguesia os nomes de Conselheiros de Estado que haviam sido ministros ou governadores na mesma época, a saber, a Rua do Conselheiro Dias Ferreira, a Rua do Conselheiro Ferreira do Amaral, a Rua do Conselheiro Lopo Vaz e a Rua do Conselheiro Teles de Vasconcelos.

N’ O Berro, 29 de março de 1896,  caricaturado por Celso Hermínio

Mariano Cirilo de Carvalho (Alenquer-Abrigada/25.06.1836 – 19.10.1905/Estoril), formado em Farmácia e em Matemática pela Escola Politécnica de Lisboa, distinguiu-se como  professor de Matemática dessa mesma Escola a partir da década de sessenta do séc. XIX, tendo sido também vogal do Conselho Superior de Instrução Pública.

Mariano de Carvalho foi  também jornalista, começando logo a partir de 1864 no Gazeta de Portugal mas chegou até a fundar títulos como o Notícias, o Novidades, o Correio Português e o Diário Popular. Em paralelo, ainda se dedicou à tradução, tendo sido o primeiro tradutor para português de Júlio Verne (nas obras Aventuras de três russos e de três ingleses,Viagem ao centro da terra, O país das peles, A galera Chanceler).

Filiado no Partido Reformista foi deputado de 1870 a 1880, eleito pelos círculos da Chamusca, do Porto, de Timor e do Cartaxo, tendo em 1900 sido deputado independente. Em 1876, por fusão do Reformista com o Partido Histórico, passou a representar o Partido Progressista. Foi ainda Ministro da Fazenda (1886-1889; 1891-1892) com José Luciano e com João Crisóstomo, época que publicou as obras Reorganização das Finanças Portuguesas – Relatório e Proposta de Lei (1887),  A Questão dos Tabacos (1889) e Os Planos Financeiros (1893).

Mariano de Carvalho conseguiu ainda ser o Comissário português à Exposição de Paris de 1890, presidente da Câmara Municipal de Setúbal e Comissário régio no Banco Nacional Ultramarino.

Por último, refira-se que Mariano de Carvalho foi um empenhado defensor da construção da linha de caminho de ferro para Cascais, tendo mesmo apresentado um plano de construção de um porto franco naquela vila, bem como de uma linha férrea que pela Quinta Marinha, seguisse até Colares.

Freguesia dos Olivais
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Praça Sócrates da Costa no Beato

Freguesia do Beato
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Na freguesia do Beato está a Praça Sócrates da Costa que homenageia o licenciado em Direito que também foi professor liceal, consagrado com a legenda «Figura de relevo da Índia Portuguesa/1898 – 1959» desde janeiro de 1960.

Foi pelo Edital municipal de 2 de janeiro de 1960 que a Praceta I à Calçada do Carrascal passou a ter a denominação de Praça Sócrates da Costa, em homenagem a Jerónimo Salvador Constantino Sócrates da Costa (Margão – Índia/28.03.1898 – 10.11.1959/?), licenciado em Direito que prosseguiu uma carreira profissional como professor do ensino secundário, notário e subdelegado do Procurador da República da Comarca de Caminha e, após se ter fixado na Índia, como notário da Comarca de Goa.

Na política, ocupou os cargos de  Vogal da Comissão Distrital da União Nacional de Viana do Castelo, Presidente da Comissão Provincial da União Nacional da Índia, Comissário Colonial e Comissário Nacional Adjunto da Mocidade Portuguesa da Índia, Presidente da Câmara Municipal de Goa, e deputado parlamentar da Índia nas V (1949-1953), VI (1953-1957) e VII Legislaturas (1957-1961).

Deixou publicações várias como a da sua Conferência no Instituto Vasco da Gama intitulada «O Estado Novo e a Constituição Política da República Portuguesa» (1940), «Goa na História da Civilização» (1947) editada pela Repartição Central de Estatística e Informação de Goa ou a obra que compila os seus discursos proferidos enquanto deputado da então Índia portuguesa na Assembleia Nacional – «Índia: discursos proferidos na Assembleia Nacional em 1 de Março de 1950» -, publicada pela União Nacional.

Foi casado com Maria Adosinda Guimarães Mendes, a quem o Decreto-Lei  43970 ( de 19/10/1961) atribuiu uma pensão mensal vitalícia de 5 mil escudos.

Freguesia do Beato
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

A Rua do Professor de Medicina Tropical e de Letras Silva Teles

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Professor de Medicina Tropical e do Curso Superior de Letras que também foi Reitor da Universidade de Lisboa (1928) e Ministro da Instrução Pública (1929), o Dr. Silva Teles está inscrito na toponímia das  Avenidas Novas desde a publicação do Edital municipal de 17 de abril de 1934, a ligar a Rua Tenente Espanca à  Rua da Beneficência.

Francisco Xavier da Silva Teles (Goa/02.09.1860 – 21.05.1930/Lisboa) que fixou residência em Lisboa no ano de 1900, enquanto docente exerceu como professor da cadeira de Higiene e Climatologia na Escola de Medicina Tropical desde 1902, como professor das cadeiras de Geografia (1904), Geografia Económica Geral e Especial, Geografia Económica de Portugal e suas Colónias e Geografia Económica do Brasil, no Curso Superior de Letras. Em 1911 passou a acumular como professor do Instituto Superior do Comércio de Lisboa e em 1927 foi também professor da cadeira de Administração Colonial, cargo que acumulou com os de diretor da Escola de Medicina Tropical de Lisboa para no ano seguinte, a 24 de fevereiro, ser nomeado Reitor da Universidade de Lisboa e no ano que se seguiu, Ministro da Instrução Pública, de 8 de julho a 11 de setembro, já que demitiu por discordâncias de orientação política.

Formado em medicina na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa (1880), tornou-se Médico Naval, tendo começado em Moçambique, fundado o laboratório bacteriológico do Hospital da Marinha em 1895 e terminado com o posto de Capitão-de-mar-e-guerra (1918).

Estudou na École d’Anthropologie de Paris, onde se aperfeiçoou em técnicas antropométricas, tendo publicado diversos estudos e regido um curso de Antropologia na Academia de Estudos Livres de Lisboa, para o qual preparou um programa de observações antropológicas que a Sociedade de Geografia de Lisboa usou depois em trabalhos de campo na Serra da Estrela, associação sob a égide da qual organizou o I Congresso Colonial (1901), temática em que também tinha estudos publicados.

Refira-se ainda que  Silva Teles foi deputado do Partido Progressista e em 1908, um dos fundadores da Liga de Educação Nacional, assim como foi Secretário Geral da Sociedade de Geografia durante 12 anos e Sócio Correspondente da Academia de Ciências de Lisboa. Em 1924 também participou no Guia de Portugal dirigido por Raúl Proença.

Agraciado foi com os graus de Cavaleiro, Oficial e Comendador da Ordem Militar de Avis (1919), com o grau de Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, para além da Medalha de Prata de Comportamento Exemplar, da Medalha de Ouro de Comportamento Exemplar e da Medalha de Bronze de Filantropia e Caridade.

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua do Professor de Coimbra e político, Carlos Alberto da Mota Pinto

Freguesias de Campo de Ourique e de Santo António
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Carlos Alberto da Mota Pinto foi um político e vice-reitor da Universidade de Coimbra que desde o ano do seu falecimento, através do Edital municipal de  29/08/1985, passou a dar nome a uma artéria hoje pertença das freguesias de Campo de Ourique e Santo António, que era a Rua A do plano de Reordenamento das Amoreiras, compreendida entre a Rua José Gomes Ferreira e a Avenida Engº Duarte Pacheco, com a legenda «Professor Universitário e Político/1936 – 1985».

Carlos Alberto da Mota Pinto (Pombal/25.07.1936 – 07.05.1985/Coimbra), licenciou-se  em Direito pela Universidade de Coimbra, tendo nessa instituição sido Professor catedrático desde 1975, bem como docente de Teoria Geral do Direito Civil, Direito das Obrigações, Direitos Reais  e Direito Público da Economia, tendo ainda sido Vice Reitor e Presidente do Conselho Diretivo da Faculdade de Direito, para além de ter sido também professor da Universidade Católica. É de destacar ainda o seu manual de Teoria Geral do Direito Civil.

Enquanto político, Mota Pinto junto com Francisco Sá Carneiro, Pinto Balsemão e Magalhães Mota fundou após o 25 de Abril o PPD (PSD) e foi Deputado logo na Assembleia Constituinte e depois, na Assembleia da República, tendo sido presidente do Grupo Parlamentar do PSD e mandatário nacional do candidato da AD, general Soares Carneiro, à presidência da República, em 1980. Liderou o Partido Social Democrata em 1983 a 1984, na chamada “Troika“, com Nascimento Rodrigues e Eurico de Melo, bem como a Comissão Política Nacional do partido, entre 1984 e 1985, passando depois a Presidente do partido. Foi ainda Ministro do Comércio e Turismo no I Governo constitucional de Mário Soares (25 de março de 1977 a 30 de janeiro de 1978 ), Primeiro-Ministro no  IV Governo constitucional nomeado por iniciativa presidencial de Ramalho Eanes ( 22 de novembro de 1978 a 1 de agosto de 1979) e ainda Vice-Primeiro-Ministro e Ministro da Defesa no IX Governo constitucional de Pinto Balsemão (9 de junho de 1983 a 15 de fevereiro de 1985).

Carlos da Mota Pinto foi agraciado com um Doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Coimbra (1982), a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo (1981), a Grã- Cruz da Ordem da Instrução Pública (1985, póstuma), a Grã-Cruz de Isabel a Católica (Espanha), a Grã-Cruz de Ouro da Ordem do Mérito da Áustria, a Grã-Cruz da Ordem de Danburg do Reino da Dinamarca, bem como Grande-Oficial do Mérito Civil da Itália (1985).

Freguesias de Campo de Ourique e de Santo António
(Planta: Sérgio Dias| NT

 

A Rua do Prémio Nobel da Paz Isaac Rabin

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias | NT do DPC )

Desde a publicação do Edital municipal de 24 de setembro de 1996 que Isaac Rabin dá nome a uma Rua da Freguesia do Lumiar, no ano seguinte a ter sido assassinado, dois anos após ter sido foi Prémio Nobel da Paz e três anos após ter celebrado um Acordo de Paz com a Palestina.

A atribuição deste topónimo resultou de uma moção de pesar, aprovada por unanimidade pela Câmara lisboeta em 15 de novembro de 1995, tendo a Comissão Municipal de Toponímia  designado para o efeito a Rua C à Alameda Mahatma Gandhi, na Urbanização do Paço do Lumiar e inaugurado oficialmente o arruamento em 14 de março de 1997.

Yitzhak Rabin  (Jerusalém/01.03.1922 – 04.11.1995/Telavive), filho de mãe russa e pai norte-americano, foi o primeiro chefe de governo israelita a ter nascido já no território que se tornaria Israel em 1948. Foi assassinado no decorrer de uma manifestação de paz em Telavive, na Praça dos Reis (hoje Praça Yitzhak Rabin), com 3 tiros nas costas, pelo judeu radical de extrema-direita Yigal Amir que se opunha aos Acordos de Paz celebrados com a Palestina.

Na cronologia dos acontecimentos para o estabelecimento da Paz entre Israel e a Pelestina, foi assinada em Oslo a 20 de agosto de 1993 uma Declaração de Princípios (Oslo I) que a 13 de setembro, na Casa Branca, Rabin e Arafat selaram publicamente com um aperto de mão.  A 4 de maio do ano seguinte, no Cairo, Rabin assina o Acordo de Paz. A 24 de julho, junta-se o rei Hussein da Jordânia a assinar a paz entre Israel e a Jordânia, que termina 46 anos de estado de guerra e foi formalizada  em 26 de outubro, mês em que também foi anunciado o Prémio Nobel da Paz para Arafat, Rabin e Peres que foi entregue em dezembro seguinte.

Mas no essencial, o percurso de vida de Isaac Rabin acompanhou o da formação do Estado Israel. Foi soldado do Palmah e combateu na Guerra da Independência (1948-1949); chefiou o Comando do Norte (1956) e o Estado-Maior das Forças Armadas Israelitas (1964- 1967); participou na Guerra dos 6 Dias (iniciada no dia 5 de junho de 1967), finda a qual Israel tinha triplicado o seu território. Depois, assumiu funções políticas como embaixador nos Estados Unidos da América (1968-1973); de líder do Partido Trabalhista (Ha-Avoda) e deputado trabalhista no parlamento (1973); Ministro do Trabalho de Golda Meir (março de 1974) e Ministro da Defesa (1985- 1990) na coligação Likud-Trabalhistas; Primeiro-Ministro em 1974-1977 e de novo, também de 1992 a 1995, período no qual em 1993, em detrimento de uma Terra de Israel Maior preferiu celebrar um Acordo de Paz com Arafat, representante palestiano da OLP, e do qual resultou no ano seguinte de 1994 ser agraciado com Prémio Nobel da Paz, juntamente com Yasser Arafat e Shimon Peres ( era o Ministro dos Negócios Estrangeiros de Rabin) para em 28 de setembro de 1995, Rabin assinar com Arafat um segundo acordo mais significativo (Oslo II), trazendo assim a Paz.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

 

O Príncipe dos Poetas Brasileiros numa Praça de Arroios

A Praça Olegário Mariano em 1964
(Foto: Artur João Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Praça Olegário Mariano foi um topónimo sugerido à edilidade lisboeta pelo Diário de Notícias, na sua edição de 15 de dezembro de 1958, para homenagear o poeta brasileiro que vinte anos antes fora eleito o Príncipe dos Poetas Brasileiros, igualmente conhecido como Poeta das Cigarras e como João da Avenida, enquanto cronista.

O Edital municipal de 4 de maio de 1959 colocou o topónimo na artéria até aí era identificada como Praceta da Rua Pascoal de Melo, cinco anos após o homenageado deixar de ser o embaixador do Brasil em Portugal.

Óleo sobre tela de 1928, por Candido Portinari, na Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras

Olegário Mariano Carneiro da Cunha (Recife/24.03.1889- 28.11.1958/Rio de Janeiro) foi um poeta, político e diplomata brasileiro que em 1938 foi eleito, num  concurso promovido pela revista Fon-Fon,  como Príncipe dos Poetas Brasileiros. Inicialmente parnasianista e simbolista, iniciou a sua vida literária aos 22 anos com Angelus, publicado em 1911. Depois, nos 23 livros seguintes adquiriu uma tendência intimista e ficou conhecido como o Poeta das Cigarras  por serem um de seus temas favoritos. Além da obra poética editada em livros a partir de 1911, e enfeixada nos dois volumes de Toda uma vida de poesia (1957), Olegário Mariano também publicou sob o pseudónimo de João da Avenida, durante anos, nas revistas Careta e Para Todos,  crónicas mundanas em versos humorísticos que mais tarde foram reunidas em dois livros sob os títulos Ba-ta-clan (1924) e Vida, caixa de brinquedos (1937). Em 23 de dezembro de 1926 sucedeu a Mário de Alencar na cadeira 21 da Academia Brasileira de Letras.

Nascido no mesmo ano da Proclamação da República (1889), filho de Olegária Carneiro da Cunha e de José Mariano Carneiro da Cunha, ambos heróis pernambucanos da Abolição da Escravatura e da República, também Olegário Mariano se sentiu motivado pela política tendo sido deputado à Assembleia Constituinte de 1934 e em 1937 à Câmara dos Deputados.

A sua ligação a Portugal começou em 1940, como ministro plenipotenciário nos Centenários de Portugal, seguida da sua nomeação como delegado da Academia Brasileira na Conferência Interacadémica de Lisboa para o Acordo Ortográfico de 1945 e finalmente, foi o embaixador do Brasil em Portugal nos anos de 1953 e 1954.

Na sua carreira desempenhou ainda as funções de inspetor do ensino secundário e censor de Teatro, de secretário de embaixada na Bolívia, de tabelião de  notas e oficial do 4.° Ofício de Registro de Imóveis do Rio de Janeiro.

E resta-nos deixar um poema do seu tema predileto:

Cigarra

Figurinha de outono!
Teu vulto é leve, é sensitivo,
Um misto de andorinha e bogari.
Num triste acento de abandono,
A tua voz lembra o motivo
De uma canção que um dia ouvi.

Quando te expões ao sol, o sol te impele
Para o rumor, para o bulício e tu, sorrindo,
Vibras como uma corda de guitarra…
É que o sol, quando queima a tua pele,
Dá-te o grande desejo boêmio e lindo
De ser flor, de ser pássaro ou cigarra

Cigarra cor de mel. Extraordinária!
Cigarra! Quem me dera
Que eu fosse um velho cedro adusto e bronco,
E tu, nessa alegria tumultuária,
Viesses pousar sobre o meu tronco
Ainda tonta do sol da primavera.

Terias glórias vegetais sendo vivente.
Mas um dia de lívidos palores,
Tu, cigarra, que vieste não sei donde,

Morrerias de fome lentamente
No teu leito de liquens e de flores
No aconchego sutil da minha fronde.

E eu, na dor de perder-te, no abandono,
Sem ter roubado dessa mocidade,
Do teu corpo de flor um perfume sequer,
Morreria de tédio e de saudade…
Figurinha de Outono!
Cigarra que o destino fez mulher!

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )