As Escadinhas da Calçada do Duque de Cadaval

Freguesias da Misericórdia e Santa Maria Maior
(Foto: Toze Ribeiro)

A Calçada do Duque, que em escadaria une hoje o Largo Trindade Coelho à Calçada do Carmo, é um topónimo que perpetua um antigo proprietário local, o Duque de Cadaval, sendo o arruamento também conhecido popularmente como Escadinhas do Duque, forma que o guitarrista  António Chainho escolheu para dar título a um tema do seu álbum Guitarradas.

Esta antiga calçada íngreme foi  em meados do século XIX suavizada através da colocação de escadas e a partir daí  ganhou o epíteto de escadinhas. O topónimo Calçada do Duque foi atribuído oficialmente pelo Edital do Governo Civil de 5 de agosto de 1867 que também atribuiu no sítio a Rua do Duque, em ambos os casos por referência às propriedades dos Duques de Cadaval naquela zona. Refira-se ainda que a zona nas traseiras da Rua Primeiro de Dezembro junto à Estação Ferroviária, onde está implantada uma esplanada, corresponde ao Pátio do Palácio do Duque do Cadaval do séc. XIX e também é vulgarmente conhecido como Largo Duque de Cadaval apesar de não ser um topónimo oficial.

Em 1 de setembro de 1887, L. Mendonça e Costa num artigo n’Occidente precisa que «É toda a frente occidental deste lado (…) que vai ser demolida para a construcção da grande estação central dos caminhos de ferro [hoje é denominada Estação Ferroviária do Rossio], testa da linha urbana de Lisboa. (…) sendo um o palacio do sr. Duque do Cadaval, que tem dois andares com 8 janellas de frente cada um (…) nas trazeiras d’estes dois predios estende-se a quinta e jardim pertencente ao primeiro, e que confina com a cêrca da Misericórdia e pateo do Penalva, seguindo, por detraz dos demais predios que formam a parte occidental da rua do Principe [ hoje é a Rua Primeiro de Dezembro], até à calçada do Duque, que também assim se chama por pertencer o seu terreno do lado direito, á velha casa Cadaval».

O 1º Duque de Cadaval

O título de Duque de Cadaval foi criado pelo rei Dom João IV no dia 26 de abril de 1648, a favor de D. Nuno Álvares Pereira de Melo (1638-1727), filho de D. Francisco de Melo, 3.º marquês de Ferreira e um dos sustentáculos da Restauração de 1640. O título continuou a ver reconhecida a sucessão desde a sua instituição em 1648, até à morte do 6º duque, D. Nuno Caetano Álvares Pereira de Melo, em 1837.

O 1º duque também mandou construir uma casa nobre, antes de 1761, na sua quinta de Pedrouços, que era então um arrabalde de Lisboa, que também ficou marcada na toponímia lisboeta como Alto do Duque. Existiu também um Casal Duque de Cadaval, junto à Estrada de Benfica, como documenta a planta de 1909 de Júlio Silva Pinto.

Sobre a Calçada do Duque refira-se ainda o Palácio da Marquesa de Nisa,  na propriedade de Francisco José Caldas Júnior, foi mandado demolir pela Câmara por edital de dezembro de 1835. Neste local morou António Feliciano de Castilho e nasceu em 30 de abril de 1840 Júlio de Castilho. António Florêncio dos Santos adquiriu toda a propriedade e em 8 de janeiro de 1865 aí inaugurou a Escola Académica que em 1927 foi transferida para o Monte Agudo. Em 1900, os  nºs  3, 5 e 7 desta artéria albergavam um café chamado Inferno.

Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior      (Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

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As terras do «Carvalhão» que viria a ser Marquês de Pombal

Alto do Carvalhão – Freguesia de Campolide
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Carvalhão era o nome pelo qual era conhecido Sebastião José de Carvalho e Melo – que viria depois a ser Conde de Oeiras e Marquês de Pombal – nesta zona de Campolide, onde era o proprietários dos terrenos que se estendiam desde a Cruz das Almas até à ribeira de Alcântara e onde se fixou na toponímia local como Alto do Carvalhão, Rua do Arco do Carvalhão e já no século XX, também com a Rua do Meio ao Arco do Carvalhão (Edital de 22/06/1948).

Segundo o olisipógrafo Norberto de Araújo, «do apelido [Carvalhão] derivaram os nomes da Rua actual (da direita) que leva à Cruz das Almas, e da ladeira (à esquerda) só há poucos anos (1933) edificada em forma, e que leva à D. Carlos Mascarenhas», porque ali possuía  casas, terras, olivais, pedreiras como a da Cascalheira, fornos de cal e até moinhos e azenhas. Ainda segundo Norberto de Araújo «antes de ser do Arco do Carvalhão a rua chamava-se do Sargento-Mór.»

Antes do Terramoto de 1755, o Arco do Carvalhão aparece na descrição corográfica da freguesia de Santa Isabel, bem como na planta após a remodelação paroquial de 1770. Cerca de 1779 existiriam casebres na Rua do Arco do Carvalhão que seriam demolidos em 1929 para alargamento do arruamento, ainda de acordo com Norberto de Araújo.

No século XX, em 1807, a planta de Duarte Fava apresentava esta zona como o Arco do Carvalhão. Filipe Folque, na sua planta de 1857 já refere o Arco do Carvalhão, a Estrada do Arco do Carvalhão e o forte do Alto do Carvalhão, sendo que desde 12 de outubro de 1823 que o Chafariz do Arco do Carvalhão (ou da Cruz das Almas), da autoria de Reinaldo Manuel dos Santos, estava a funcionar na Rua do Arco do Carvalhão que foi alargada a partir de 1887, alongada em 1900 e novamente alargada em 1901 bem como de 1914 a 1922.

Sabe-se ainda, por uma escritura de 21 de fevereiro de 1920, que neste ano estavam a ser construídas ruas no Alto do Carvalhão,  numa obra levada a cabo por Gustavo de Araújo Santos Moreira e que, dois anos depois (escritura de 27/01/1924), o mesmo indivíduo obteve licença para abertura e construção de ruas nos terrenos sitos no Alto do Carvalhão cedendo 2571,25 m2 de terreno à Câmara Municipal de Lisboa. A pavimentação das ruas ocorreu dez anos depois como prova a escritura de adjudicação da empreitada de pavimentação das ruas do Alto do Carvalhão a Emílio Hidalgo, com data de 22 de maio de 1934. A partir de 1937 o  Alto do Carvalhão recebeu a construção de  rampas de acesso à Auto-Estrada Lisboa-Cascais, incluindo ainda um viaduto sobre a artéria com data de 1940.

Freguesia de Campolide
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Beco do Chão Salgado dos Távora

Freguesia de Belém – Beco do Chão Salgado em 1966                                                                       (Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Beco do Chão Salgado guarda em Belém a memória da condenação e da execução dos Távoras,  no dia 13 de janeiro de 1759, no tempo de D. José I e do futuro Conde de Oeiras (15 de julho de 1759) e  Marquês de Pombal (1770) no espaço que vai do nº 124 da Rua de Belém até ao nº 116 da mesma Rua de Belém.

Padrão no Beco do Chão Salgado em 1979
(Foto: Neves Águas, Arquivo Municipal de Lisboa)

Este topónimo remete para a  condenação do Duque de Aveiro e da sua família por alegada participação no atentado contra D. José I em 1758, que conduziu a que o palácio desta família – Palácio Aveiro -, em Belém, fosse confiscado, arrasado e simbolicamente, salgado o seu chão.  No local, foi também erguida em 1759, uma coluna cilíndrica , de 5 metros de altura, com 5 anéis, conhecida como  Padrão ou Obelisco do Chão Salgado, com a seguinte inscrição : «Aqui foram arrasadas e salgadas/ as casas de José de Mascarenhas/ exautorado das honras de duque/d’Aveiro e outras/condemnado pior sentença proferida/na suprema Junta de/Inconfidencia, em 12 de Janeiro/de 1759/Justiçado como um dos chefes/do barbaro e execrando desacato/que na noite de 3 de Setembro/de 1758 se havia commettido/contra a real e sagrada pessoa de/D. José 1º/Neste terreno infame se não poderá/edificar em tempo algum». Todavia, a proibição de construir neste terreno deixou de ser respeitada logo no reinado seguinte – o de D. Maria I – e assim o que resta do sítio do Chão Salgado é nos nossos dias um acanhado beco.

A execução pública dos Távoras, com o rei e a corte presentes, teve lugar num patíbulo erguido na Praça de Belém (conforme é citada nos documentos testemunhais da época),  às 8 horas da manhã do sábado 13 de janeiro de 1759, sendo primeiro degolada a marquesa de Távora, D. Leonor Tomásia, que era uma forma de execução reservada aos membros da nobreza, por ser mais rápida e indolor, sendo depois todos os outros, tendo no final sido queimados e as cinzas deitadas ao Tejo. A condenação da Marquesa de Távora, que tinha um confessor jesuíta, permitia envolver os jesuítas no processo e era uma forma de extinguir a casa de Távora. Vinte e dois anos depois, em 1781, a pedido do marquês de Alorna, familiar dos condenados, uma junta composta por vários desembargadores reanalisou o processo dos Távoras e publicou uma sentença revisória que apontou várias irregularidades e absolveu vários dos condenados, incluindo a marquesa de Távora, embora confirmando a culpabilidade do Duque de Aveiro. Contudo, nunca a rainha D. Maria I confirmou esta revisão da sentença, apesar de desprezar o Marquês de Pombal, tanto mais que lhe retirou todos os poderes e expulsou-o de Lisboa com um decreto proibindo a sua presença a uma distância inferior a 20 milhas (pouco mais de 32 quilómetros) da capital.

O sítio do Chão Salgado recebeu em 1848 uma praça construída no local pela edilidade, para nela colocar um Chafariz que veio substituir o Chafariz da Bola, obra do arqº  Malaquias Ferreira Leal e do escultor Alexandre Gomes, mas que em 1940 foi retirado, por ocasião da Exposição do Mundo Português e sete anos depois, foi colocado no Largo do Mastro.

Freguesia de Belém
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC)

O pedido de alteração do topónimo Calçada do Duque de Lafões

Calçada Duque de Lafões – Freguesias de Beato e Marvila
(Fotos: Sérgio Dias)

A Calçada do Duque de Lafões foi alvo de vários pedidos de alterações após o 25 de Abril, por diversas cartas de munícipes endereçadas à edilidade, bem como através da própria Junta de Freguesia do Beato.

Em carta de 14 de fevereiro de 1975, a Junta de Freguesia do Beato « patrocinando pedido dos seus paroquianos»  solicitou a alteração dos topónimos Calçada do Duque de Lafões, Rua João do Nascimento Costa e Rua Dr. Manuel Espírito Santo. A Comissão Municipal de Toponímia chegou mesmo a reunir com representantes dessa Junta de Freguesia e solicitou-lhes que reexaminassem o assunto. Em 1976, a Junta do Beato insistiu no pedido, desta feita apresentando como alternativa o nome de Manuel Rodrigues da Silva, «lutador antifascista, com cerca de 23 anos de prisão, 10 dos quais no Tarrafal, tendo morrido há relativamente pouco tempo em Moscovo, e que habitava na dita Calçada do Duque de Lafões».

Nesta demanda, a Junta de Freguesia do Beato voltou a incluir o pedido de alteração dos topónimos Rua João do Nascimento Costa e Rua Dr. Manuel Espírito Santo, a que a Comissão deu o parecer de que  «O topónimo Calçada do Duque de Lafões é tradicional e, como tal, não deve ser alterado. Não se vê contudo inconveniente em que a Rua João do Nascimento Costa passe a denominar-se Rua Manuel Rodrigues da Silva/ Militante operário/ 1909 – 1968.  Quanto à alteração do topónimo Rua Dr. Manuel Espírito Santo, deverá aguardar-se estudo conjunto, de molde a que em todos os arruamentos da Quinta do Ourives, onde o referido arruamento se situa, venham a consagrar-se nomes de falecidos militantes operários.» Porém, Manuel Rodrigues da Silva só se tornou topónimo por Edital de 24/09/1996, no Impasse DE DF à Quinta dos Inglesinhos à Avenida das Nações Unidas, na freguesia de Carnide,  com a legenda «Político/1909 – 1968» e a Rua João do Nascimento Costa e a Rua Dr. Manuel Espírito Santo nunca foram alteradas, embora nenhum documento municipal justifique o sucedido.

Também um cidadão solicitou repetidas vezes, no ano de 1975,  a  alteração do topónimo Rua João do Nascimento Costa. Chegou mesmo a sugerir que o mesmo passasse a ser Rua Amílcar Cabral, recebendo o parecer « Aguarde-se conhecimento da orientação do Governo e do M.F.A. sobre a atribuição de topónimos que consagrem as figuras de dirigentes dos movimentos de libertação.» Neste caso, Amílcar Cabral acabou mesmo por ser um topónimo lisboeta, numa rua do Lumiar, com a legenda «Político/1924 – 1973», através do Edital municipal de 22/04/1983, na via pública que estava identificada provisoriamente como arruamento A do Plano de Urbanização da Quinta do Lambert ao Lumiar (Unor 32) ou como Impasse 2 à Alameda das Linhas de Torres.

Finalmente, a Calçada do Duque de  Lafões hoje pertença das freguesias do Beato e de Marvila, continuou até hoje como topónimo, a ligar a Rua do Grilo à Estrada de Marvila, por ser um topónimo tradicional, que guarda a memória de ali existir o palácio residencial setecentista do Duque de Lafões, cuja entrada se fazia pelo nº 1 da Calçada do Duque de Lafões.

O título de Duque de Lafões foi criado por D. João V, em 17 de fevereiro de 1718, em favor do seu primo D. Pedro Henrique de Bragança, filho do infante D. Miguel de Bragança que era filho bastardo de D. Pedro II. Sem descendência, o título  passou para o seu irmão, o general D. João Carlos de Bragança de Sousa Ligne Tavares Mascarenhas da Silva, assim feito 2º Duque de Lafões, que foi um dos fundadores e o 1º presidente da Academia das Ciências, sendo 1º secretário o Abade Correia da Serra , ambos opositores do Marquês de Pombal.

Freguesias de Beato e Marvila
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do 2º Conde de Almoster, morto em Angola no final do séc. XIX

Freguesia de São Domingos de Benfica (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de São Domingos de Benfica
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua Conde de Almoster, com a legenda «Herói do Ultramar/1858 – 1897», homenageia na Freguesia de São Domingos de Benfica, João Carlos de Saldanha Oliveira e Daun, o 2º Conde de Almoster que morreu no final do séc. XIX em combate em Angola,  desde a publicação do Edital municipal de 13 de dezembro de 1963, por proposta do então presidente da CML, General França Borges, volvidos que estavam 2 anos e 10 meses sobre o início da Guerra Colonial em Angola.

Até aí esta artéria tinha a designação provisória de Rua C à Travessa de São Domingos de Benfica, ou de Rua projetada à Travessa de São Domingos de Benfica, ou ainda, Rua projetada ao Largo Conde de Ottolini . E com o passar dos anos a via foi aumentando de dimensão. Pelo Edital municipal de 15/04/1969 foi-lhe acrescentado o troço do arruamento ao longo do caminho de ferro, compreendido entre a Rua Inácio de Sousa e a Rua de São Domingos de Benfica, e pelo Edital de 05/06/1972 somou ainda o troço do arruamento, ao longo do caminho de ferro, situado entre as Ruas Inácio de Sousa e Sousa Loureiro.

João Carlos de Saldanha Oliveira e Daun (Barcelos/11.08.1858-12.12.1897/Humbe-Angola), que morreu em combate na mata angolana dos Espinheiros Camafuti, em Humbe, a 12 de Dezembro de 1897, foi o  2º Conde de Almoster, sobrinho do 1º titular, Augusto Carlos de Saldanha de Oliveira e Daun (1822- 1845), sendo-lhe renovado o título  em 1871 por D. Luís I. Concluíra o curso de Cavalaria da Escola do Exército e fora colocado no regimento de Cavalaria nº 4, tendo sido promovido a capitão em 1897, quando integrava o Esquadrão de Dragões do Planalto de Moçâmedes, em Angola, onde faleceu.

O 2º Conde de Almoster era filho do 2º duque de Saldanha, João Carlos Saldanha de Oliveira e Daun e de sua esposa, Júlia Pereira Alves de Sousa Guimarães.

Existe também uma Rua Conde de Almoster em Almoster (Santarém).

Freguesia de São Domingos de Benfica (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de São Domingos de Benfica
(Planta: Sérgio Dias)

A Avenida do Duque d’Ávila e o cinema dos três nomes

Freguesias das Avenidas Novas, de Arroios e do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias das Avenidas Novas, de Arroios e do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

O político liberal e também conde, marquês e duque de Ávila,  desde 1902 que tem assento numa avenida lisboeta onde a partir do primeiro dia do ano de 1930 abriu um cinema que foi sendo denominado  sucessivamente Trianon, Palácio e Avis.

Foi pelo Edital municipal de 29 de novembro de 1902  que nasceu a Avenida Duque d’Ávila, na época situada entre a Estrada do Arco do Cego e a Rua Marquês de Sá da Bandeira e que nos nossos dias começa na Rua Alves Redol e termina na Rua Marquês de Sá da Bandeira e na Rua Marquês de Fronteira. Foi por este Edital da presidência do Conde de Ávila (António José de Ávila – 07.11.1842 – 13.08.1917 – 2º Conde e Marquês de Ávila) que se fixaram nas Avenidas Novas um conjunto de de 15 topónimos referentes essencialmente a políticos regeneradores da Monarquia Constitucional, a saber:  em Avenidas, os nomes dos políticos António de Serpa, Casal Ribeiro, Duque d’Ávila, Hintze Ribeiro (hoje, Avenida Miguel Bombarda), José Luciano (hoje, Avenida Elias Garcia), e em Ruas, os também políticos Andrade Corvo, António Enes, Barros Gomes (hoje, Rua Viriato), Latino Coelho, Luís Bivar ( que passou a Avenida em 1926), Martens Ferrão,  o político e escritor Pinheiro Chagas, o  matemático e cartógrafo Filipe Folque,   e o médico Pedro Nunes.

O Cinema Avis na Avenida Duque d'Avila em 1960 (Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Cinema Avis na Avenida Duque d’Ávila em 1960
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

Já o cinema Trianon abriu portas nesta Avenida no dia 1 de janeiro de 1930, garantindo lugar para 733 espetadores, sendo então uma das maiores salas de Lisboa. Augusto de Ornelas Bruges comprara  para o efeito terreno na Avenida Duque d’Ávila, frente à antiga estação dos elétricos do Arco do Cego. Mais tarde, o cinema  mudou de nome para Palácio e voltou  a ser reaberto em 1956 com a designação de Avis, mantendo-se assim durante mais de 30 anos até encerrar no final dos anos 80 e ser demolido na década seguinte para dar lugar à construção de prédios.

António José de Ávila (Faial/08.03.1806 – 03.05.1881/Lisboa), 1º conde (1864) e 1º marquês (1870) de Ávila e único duque de Ávila e Bolama (1878), foi um político Cartista, cuja carreira acompanhou os altos e baixos motivados pelas guerras liberais. Desempenhou as funções de deputado, conselheiro de Estado efetivo, presidente da Câmara dos Pares, ministro das Finanças, Presidente do Conselho de Ministros por três vezes (1868, 1870/71, 1877/78) e ainda, de embaixador junto das cortes de Paris e de Madrid.

Entrou como sócio da Academia Real das Ciências em março de 1855 e pouco depois foi nomeado vice-presidente, tendo sido também agraciado com inúmeras condecorações portuguesas e estrangeiras, de que se destacam a  Grã-Cruz da Ordem de Nª Srª da Conceição e de S. Tiago, a Ordem da Torre e Espada e a comenda da Ordem de Cristo.

Freguesias das Avenidas Novas, de Arroios e do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias das Avenidas Novas, de Arroios e do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua dos três Condes e dos três Cinemas

O cinema Olympia depois de 1910 (Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

O cinema Olympia depois de 1910, na Rua dos Condes
(Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

Os Condes de Castelo Melhor, da Ericeira e de Povolide, cujos palácios se erguiam nesta zona, justificaram a aplicação do topónimo Rua dos Condes ainda antes do Terramoto de 1755 a esta artéria que no século XX passou a ser a morada de 3 cinemas: o Condes, o Odeon e o Olympia.

O cinema Condes nos anos 50 do séc. XX (Foto: Salvador de Almeida Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

O cinema Condes nos anos 50 do séc. XX
(Foto: Salvador de Almeida Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

O primeiro cinema da Rua dos Condes foi o Olympia que abriu portas em  22 de abril de 1911. Nas proximidades já ali existia um Teatro, embora não o primitivo de 1765 que foi demolido em 1882 mas o novo erguido em 1888 por iniciativa de Francisco de Almeida Grandela. Em 1915, o edifício foi adquirido pela Castello Lopes Filmes que em 1920 abriu o cinema Condes, demolido na década de 50 para dar lugar a um novo Condes que fechou como cinema em 1997. Finalmente, no dia 21 de setembro de 1927 foi inaugurado o Odeon, que em 1931 foi modernizado firmando-se como um exemplar de Art Deco.

A Rua dos Condes  já surge referida nos registos paroquiais da freguesia de São José anteriores ao Terramoto de 1755. No entanto, sobre a origem do topónimo os olisipógrafos divergem. De acordo com Gomes de Brito, tal topónimo é a evocação do 2º e do 3º condes da Ericeira, respetivamente D. Fernando (27.11.1614 – 22.06.1699) e D. Luís de Menezes (22.07.1632 – 26.05.1690), ambos militares e historiadores que ali moraram no palácio dos Condes da Ericeira, construído em 1539. Já Norberto de Araújo, cuja opinião partilhamos,  sugere que o topónimo radica nos diversos palácios de vários condes existentes naquela zona, afirmando: «Neste quarteirão ocupado por vários prédios, entre a Rua dos Condes e a Travessa de Santo Antão, é que se erguia, até 1755, o Palácio primitivo dos Condes de Castelo Melhor. No chão do quarteirão seguinte até à Anunciada, levantava-se o Palácio dos Condes da Ericeira, também destruído e incendiado por ocasião do terramoto. E na Rua das Portas de Santo Antão, onde está o Ateneu Comercial, ficava o Palácio dos Condes de Povolide. Deriva destas circunstâncias o dar-se o nome de Rua dos Condes à serventia que intersetava estas propriedades».

O cinema Odeon em 1960 (Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

O cinema Odeon em 1960, na Rua dos Condes
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

Freguesia de Santo António (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do Cine-Bélgica/Universal e a Duquesa de Palmela

O Cine Bélgica na Rua da Beneficência em 1961 (Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Cine Bélgica na Rua da Beneficência em 1961
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua da Beneficência foi atribuída ainda em vida da 3ª Duquesa de Palmela,  Maria Luísa Holstein, pelo Edital de 18 de dezembro de 1903, que nessa época ligava o Largo do Rego à Palma de Cima, perpetuando as iniciativas beneméritas da homenageada.

Publicidade do Universal no Diário de Lisboa , 7 de janeiro de 1977

Publicidade do Universal no Diário de Lisboa , 7 de janeiro de 1977

Vinte e cinco anos depois, em 1928, abriu portas no nº 175 deste arruamento o Cine-Bélgica, por se situar no Bairro da Bélgica, com uma  lotação de 500 lugares que em  1933 foi também equipado com uma aparelhagem de som. Em 1968 pensaram denominá-lo Cinema Universitário mas ficou a designar-se Cinema Universal e cinco anos depois (1973) já pertencia à Animatógrafo, dirigida pelo produtor e realizador António da Cunha Telles tendo em 1980 dado  lugar ao Rock Rendez-Vous, que encerrou em 27 de julho de 1990.

A Duquesa de Palmela no jornal Tiro e Sport, 15 de setembro de 1909

A Duquesa de Palmela no jornal Tiro e Sport, 15 de setembro de 1909

Hoje a Rua da Beneficência liga a Avenida de Berna à Rua Alberto de Sousa e fixa na memória da cidade Maria Luísa Domingas de Sales de Borja de Assis de Paula de Sousa Holstein (Lisboa/04.08.1841-02.09.1909/Sintra) cuja filantropia lhe concedeu um lugar único no panorama nacional, nomeadamente, na Assistência Nacional aos Tuberculosos, nos Socorros a Náufragos, em asilos, missões ultramarinas, institutos de auxílio à infância e na fundação das Cozinhas Económicas, com a sua prima Maria Isabel Saint-Lèger, tendo sido a sua primeira presidente. A Duquesa de Palmela para além de dama da Rainha D. Amélia dedicou-se também à escultura, havendo trabalhos seus no Museu do Chiado e na Sociedade de Geografia de Lisboa, assim como se interessou pela cerâmica e juntamente com a Condessa de Ficalho fundou a Fábrica do Ratinho no seu próprio palácio. Foi distinguida com a Ordem de Santiago, a Ordem de Santa Isabel, a Ordem de Maria Luísa (Espanha) e a Académica de Mérito da Academia Nacional de Belas-Artes.

Passados 86 anos, pelo Edital de 25 de janeiro de 1989, a edilidade lisboeta voltou a perpetuá-la em Lisboa num arruamento de Alcântara junto à Rua da Cozinha Económica: Rua Maria Luísa Holstein.

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do vassalo herói Egas Moniz no Bairro dos Aliados

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

Com a legenda «Notável e Leal Guerreiro/Século XII» foi Egas Moniz inscrito na Rua nº 2 do Bairro dos Aliados ao Areeiro ou Quinta do Bacalhau, por deliberação camarária de 30/12/1925  e Edital de 16 de janeiro de 1926.

O próprio Edital justifica a atribuição «(…)tendo em consideração que na formação da nacionalidade foram praticados por alguns portugueses actos de tanta grandeza moral, que são e continuarão a ser o legitimo orgulho da nossa raça; que entre todos se destaca, pela beleza do gesto, o acto praticado por Egas Moniz, indo junto do Rei de Leão oferecer a sua vida e da sua esposa e filhos, como resgate da promessa que o seu grande patriotismo não lhe deixava cumprir (…) e que o nome de tão grande vulto, esquecido nas paginas da Historia, bem merece ser exposto numa das arterias da cidade à admiração das gerações presentes e futuras(…)».

A Alameda Dom Afonso Henriques nascerá seis anos mais tarde, em 1932, nas proximidades da Rua Egas Moniz.

Freguesia do Areeiro - Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

Egas Moniz de Riba Douro  (1080?-1146), rico-homem de uma das grandes famílias do Entre Douro e Minho, foi a quem Henrique de Borgonha confiou a educação do seu filho Afonso Henriques, que viria a ser o 1º Rei de Portugal.

Numa época em que os laços de parentesco e os laços de vassalagem faziam da fidelidade pessoal o mais sagrado princípio da vida social e política, eram importantes as histórias exemplares, como a de Egas Moniz enquanto modelo heróico do vassalo, que terá sido difundida provavelmente durante o reinado de D. Afonso III, porque nessa altura os monges de Paço de Sousa, onde estava o túmulo de Egas Moniz, mandaram fazer outra sepultura com novos baixos-relevos que já representavam a jornada do herói a Toledo para se oferecer como vítima ao imperador.

Segundo a lenda, quando em 1127 o rei de Leão, Afonso VII, veio cercar o seu primo D. Afonso Henriques na cidade de Guimarães, com forças muito superiores, reconheceram os cavaleiros portugueses que o seu rei não poderia resistir-lhe. Foram por isso ter com o rei de Leão, e pediram-lhe que levantasse o cerco, prometendo que D. Afonso Henriques lhe prestaria vassalagem e por essa promessa ficou responsável Egas Moniz. Como se sabe D. Afonso Henriques não cumpriu a promessa, nomeadamente invadindo a Galiza e saindo vitorioso, e voltando à lenda foi Egas Moniz  a Toledo, acompanhado pela sua esposa e seus dois filhos, todos com uma corda ao pescoço, oferecer as suas próprias vidas ao rei de Leão, o que fez com que Afonso VII lhe perdoasse.

Certo é que Egas Moniz casou por duas vezes, tendo tido 7 filhos e 2 filhas,  e cerca de 1135 sucedeu ao seu irmão Ermígio Moniz como mordomo-mor, o cargo mais importante junto do rei e ainda recebeu deste enormes doações em terra, ficando possuidor de 21 domínios e de cavaleiros vassalos ao seu serviço.

Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua de Maria Joana Arriaga que morou neste arruamento

Freguesia da Estrela (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Estrela
(Foto: Sérgio Dias)

A Casa de Jacinto Cândido, traçada em  1902 pelo Arqº Ventura Terra e demolida no correr dos tempos, existiu na Rua da Arriaga, topónimo que relembra a primeira moradora da artéria, uma filha de Guilherme Street de Arriaga.

De acordo com Luís Pastor de Macedo,  a primeira casa construída nesta rua, a que nos nossos dias correspondem os números de polícia 31 a 37, pertenceu a uma filha de Guilherme Street de Arriaga e Cunha Brum da Silveira (Lisboa/13.10.1834 – 27.02.1898/Lisboa), 2º Visconde e 1º Conde de Carnide (decreto real de 20/03/1890), e assim terá sido esta moradora que deu azo à fixação do topónimo no séc. XIX. Segundo Norberto Araújo chamava-se Maria Joana Aniceta Francisca de Arriaga, opinião que Gomes de Brito corrobora referindo o Almanach de 1812.

A Rua da Arriaga foi aberta nos terrenos da Quinta de Buenos Aires, que se estendia desde a Rua do Olival até à Cruz de Buenos Aires. Era propriedade de Guilherme Street de Arriaga e Cunha Brum da Silveira, filho primogénito e herdeiro de José Street de Arriaga Brum da Silveira (1805 -1885), 1º visconde de Carnide. As primeiras referências escritas à Rua da Arriaga estão no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque, de 1856, assim como numa planta referente ao estado da artéria de Francisco Goullard, de julho de 1884.

 

Freguesia da Estrela (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias)