A Emissora Nacional e a Rua do Quelhas

A Capital, 25 de abril de 1974, edição das 12 horas

Ocupada pelas 3h15 por uma Companhia da Carreira de Tiro da Serra da Carregueira, com cerca de 100 militares comandados pelos capitães Luís Pimentel e Frederico Morais, para servir como emissora de reserva do MFA e evitar que o regime a pudesse utilizar em seu favor.

No dia 25 de Abril de 1974, estava instalada no nº 2 da Rua do Quelhas a Emissora Nacional, a antena de rádio pública em Portugal, ali sediada desde a sua inauguração oficial no dia 4 de agosto de 1935, tendo a ocupação de Tóquio sido confirmada ao Posto de Comando do MFA às 3:15 horas. Às 8:30 foi lido pela primeira vez na Emissora Nacional, um comunicado do MFA.

Quelhas era o nome pelo qual era conhecido D. Francisco Xavier Pedro de Sousa, proprietário de uma quinta naquele lugar e na qual morava, do qual, de acordo com Norberto de Araújo, deriva o topónimo que foi dado ao Caminho Novo após o terramoto de 1755. Segundo o olisipógrafo, «Depois do terramoto é que começou a chamar-se-lhe Rua do Quelhas, o tal D. Francisco de Sousa que por aqui fôra grande senhor. Por essa época começou o verdadeiro povoamento lento e seguro deste sítio, a justificar a urbanização do começo do século passado [refere-se ao séc. XIX]».

O Caminho Novo, ainda de acordo com Norberto de Araújo, fora obra do Machadinho – José Pinto Machado – na Quinta do Quelhas: «Aquele Pinto Machado, que tinha o seu palácio na Rua do Machadinho- diminuitivo que nasceu do apelido do fidalgo -, foi quem fez rasgar, depois de 1758, uma serventia já desenhada desde 1680 – “Caminho Novo” – na quinta de D. Francisco Xavier Pedro de Sousa, por alcunha o “Quelhas”, quinta na qual o fidalgo tinha sua casa, que bem pode ter sido aquela onde assentou o palácio dos Pinto Machados.»

Na segunda metade do séc. XIX, um Edital do Governo Civil de Lisboa de 16 de janeiro de 1863, fez a Rua do Quelhas aumentar de tamanho já que uma parte da Travessa do Pasteleiro (a compreendida entre as esquinas do Caminho Novo e Rua do Machadinho e a extremidade superior que entesta com a Rua do Quelhas) foi incorporada na Rua do Quelhas.

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O Rádio Clube Português e a Rua Sampaio Pina

A Rua Sampaio e Pina no dia 25 de abril de 1974
(Foto: Ana Haterly, Arquivo Municipal de Lisboa)

Ocupado pelas 3H20 pelos oficiais major José da Costa Neves, major Delfim Campos Moura, major João Sacramento Gomes, capitão Artur Mendonça de Carvalho, capitão José Correia Pombinho, capitão José Santos Coelho, capitão Nuno dos Santos Ferreira e capitão Nuno dos Santos Silva, com o apoio de uma Companhia do Batalhão de Caçadores nº5.

Esta ação pretendia fazer do Rádio Clube Português a emissora do MFA, para emitir os seus comunicados. Às 04H26, o jornalista Joaquim Furtado leu o primeiro comunicado.

No nº 24 da Rua Sampaio e Pina estava sediado o Rádio Clube Português em 25 de abril de 1974. E às 3 horas da madrugada uma companhia do Batalhão de Caçadores nº 5 saiu do quartel – onde hoje encontramos a Universidade Nova de Lisboa – para garantir a segurança do local que se tornaria a emissora do MFA.

O topónimo Rua Sampaio e Pina foi atribuído pela Câmara Municipal presidida pelo Conde d’Ávila (António José de Ávila), através do Edital de 18 de dezembro de 1903, à via pública ainda então a ser construída entre a Rua Castilho e a Rua José da Silva Carvalho (que foi na maior parte substituída pela reformulação da Rua Castilho e artérias adjacentes em 1915 dando origem em 1920 a uma nova Rua Silva Carvalho noutro local de Lisboa). A edilidade homenageava assim Manuel Inácio de Sampaio de Pina Freire, que em 24 de julho de 1833 reconheceu D. Maria II como monarca legítima da Coroa portuguesa.

Manuel Inácio de Sampaio e Pina Freire (07.08.1778 – 1856), 1º Visconde de Lançada, prestou relevantes serviços aos liberais, com a maior dedicação e coragem no dia 24 de julho de 1833, tornando possível ao Marechal Duque de Terceira após vencer a batalha da Cova da Piedade – com tropas onde se incluía os Caçadores 2 e 3 – atravessar o Tejo com as suas tropas e encontrarem já içada no Castelo de S. Jorge a bandeira azul e branca dos Liberais. Esteve  presente nesse dia 24 de julho de 1833 no Auto de aclamação e reconhecimento do governo legítimo de D. Maria II e da Carta Constitucional, nos Paços do Concelho de Lisboa, conforme noticia a Gazeta de Lisboa de 26 de julho de 1833.

Filho de Inácio José de Sampaio e Pina Freire de Andrade e Angélica Inácia Pereira de Aguirre, foi um administrador colonial português, enquanto governador-geral da capitania do Ceará, de 19 de março de 1812 a 1820 – razão para no centro de Fortaleza (Brasil) existir uma Rua Governador Sampaio -, assim como governador-geral da capitania de Goiás, de 1820 a 1822, onde em 14 de agosto de 1821 sofreu uma fracassada tentativa de deposição.

Visconde de Lançada por Decreto de 10 de janeiro de 1849 de D. Maria II, foi também membro do Conselho de Sua Majestade, Tenente-General, Fidalgo Cavaleiro da Casa Real e Membro do Tribunal do Tesouro Público, agraciado como Comendador da Ordem de Cristo e Cavaleiro da Ordem de São Bento de Avis.

Em Lisboa, segundo Júlio de Castilho, possuía o Palácio onde em 1880 se instalou o jornal O Século. Também conforme os arquivos municipais, detinha um prédio nos n.ºs 53 e 58 «no sítio das Janelas Verdes» em 1839, bem como na Rua do Olival nº 5, onde em 1836 foi intimidado pela Câmara Municipal de Lisboa a entulhar o fosso da sua casa no prazo de 24 horas que também lhe lavrou um auto sobre o estado da porta do n.º 5 A.

Na sua vida pessoal, Sampaio e Pina casou-se, em 1 de fevereiro de 1826, com Helena Teixeira Homem de Brederode, de quem teve dois filhos: Inácio Júlio de Sampaio Pina Freire e António de Sampaio Pina de Brederode, que casou com Maria Luísa Holstein, 3.ª duquesa de Palmela.

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A Rua Sampaio e Pina no dia 25 de abril de 1974
(Foto: Ana Haterly, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Quartel do Batalhão de Caçadores nº 5 e a Rua Marquês de Fronteira

Pelas 3h00,  saiu do quartel do Batalhão de Caçadores nº 5 uma força constituída por duas Companhias de Caçadores: uma para ocupar o Quartel-General do Governo Militar de Lisboa, e outra para garantir a segurança do Rádio Clube Português.

Estas ações envolveram cerca de 200 militares, comandados pelo major José Cardoso Fontão, capitão João Bicho Beatriz e tenente Mascarenhas. O capitão Carlos Joaquim Gaspar assumiu o comando da Unidade.

Na madrugada de 25 de abril de 1974, para ocupar o Quartel-General do Governo Militar de Lisboa e garantir a segurança do Rádio Clube Português, duas companhias deixaram o Quartel do Batalhão de Caçadores nº 5, a pé, pelo portão da Rua Marquês de Fronteira, topónimo que guarda a memória de um militar que fez toda a campanha das lutas liberais até ao seu fim em 24 de julho de 1833.

Desde 1910 que o Batalhão de Caçadores nº 5 estava instalado no edifício e quinta do antigo Colégio jesuíta da Imaculada Conceição de Jesus, vulgarmente conhecido como Colégio dos Jesuítas de Campolide e ali fundado em 1858 no que antes fora a Quinta da Torre de Estêvão Pinto e onde hoje encontramos a Universidade Nova de Lisboa.

O 7º marquês de Fronteira, D. José Trazimundo, foi perpetuado na toponímia lisboeta pelo Edital municipal de 3 de outubro de 1903 na então «Via pública situada entre a Avenida Duque de Ávila e a Rua D. Carlos de Mascarenhas.» D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto (Lisboa/04 ou 11.01.1802 – 19.02.1881/Lisboa), 8º conde da Torre, 5º marquês de Alorna e 7º marquês de Fronteira foi um militar que fez toda a campanha das lutas liberais, tendo-se reformado no posto de marechal-de-campo. Logo em 1820 foi ajudante  de campo do  general Sepúlveda, em cujo estado-maior se conservou até à queda do governo constitucional. Não tendo aderido à Vilafrancada acabou preso na Torre de Belém, após o que obteve licença para sair do reino e então percorreu parte da Europa com a sua mulher, apenas regressando depois de ser outorgada a Carta Constitucional, em 1826. Foi  ajudante de campo do general Conde de Vila Flor na Ilha Terceira, desembarcou no Mindelo (8 de julho de 1832) e participou na batalha de Ponte Ferreira e das Antas. Acompanhou o Duque de Terceira na expedição ao Algarve e Alentejo, e esteve na batalha de Cacilhas (23 de julho de 1833) e no desembarque em Lisboa (24 de julho de 1833).

D. José Trazimundo Foi também par do reino (a partir de 1826), deputado por Lisboa (1837), deputado por Bragança (1838), governador civil de Lisboa (com pequenas interrupções, de 12 de maio de 1846 a 1 de maio de 1851), mordomo-mor da Casa Real (1861),  mordomo-mor da casa da rainha D. Maria Pia (1862), tendo ainda publicado as suas Memórias do Marquês da Fronteira e Alorna.

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Júlio de Castilho duas vezes topónimo lisboeta: em Largo e em Jardim

Júlio de Castilho com o fotógrafo José Artur Leitão Bárcia
(Foto: José A. Leitão Bárcia, Arquivo Municipal de Lisboa)

No último dia desta semana, 8 de fevereiro de 2019, completam-se cem anos da morte do Mestre da Olisipografia Júlio de Castilho, o autor  de obras tão importantes e pioneiras como Lisboa antiga – Primeira parte: 0 Bairro Alto (1879) – que teve uma 2ª edição ampliada em 5 tomos-,  Lisboa antiga – Segunda parte: Bairros orientais (1884 – 1890) – em 7 tomos – ou A Ribeira de Lisboa, descrição histórica da margem do Tejo desde a Madre de Deus até Santos o Velho (1893), pelo que foi considerado o fundador dos estudos olisiponenses.

De acordo com Raquel Henriques da Silva, na sua palestra de abertura de «Uma casa em Lisboa – Homenagem a José Sarmento Matos» no passado dia 22 de janeiro – dia de São Vicente, o padroeiro de Lisboa – , Lisboa tem uma disciplina própria que mais nenhuma cidade tem que é a Olisipografia que Júlio de Castilho inventou. Por isso mesmo, recomendou a reedição anotada de toda a obra de Mestre Castilho.

Júlio de Castilho (Lisboa/30.04.1840- 08.02.1919/Lisboa), era filho do escritor António Feliciano de Castilho que nascera no Bairro Alto, e por isso ao investigar para escrever as memórias de seu pai acabou por escrever a sua primeira obra sobre a história da cidade de Lisboa, dedicada a esse Bairro. Também por essa condição de nascimento foi o 2º visconde de Castilho e viveu a maior parte da sua vida no Lumiar, vindo a ter o seu nome consagrado no Largo contíguo à artéria onde morava, já que residente do n.º 11 da Travessa do Prior ( hoje n.º 26 da Rua Pena Monteiro),  junto ao Largo da Duquesa, este último topónimo passou a ser o Largo Júlio de Castilho, por Edital municipal de 2 de março de 1925, com a legenda «Erudito Escritor e Historiador/1840 – 1919».

Logo no ano do seu falecimento, havia sido  homenageado com a colocação de uma lápide na sua casa no Lumiar, por iniciativa dos seus amigos José Artur Leitão Bárcia, Miguel Trancoso e António César Mena Júnior.

Largo da Duqueza, depois Largo Júlio de Castilho
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

E quatro anos após a atribuição do Largo com o seu nome, o fundador da Olisipografia, foi também homenageado com a criação do Jardim de Júlio de Castilho, onde a Comissão Administrativa da CML inaugurou  um busto do olisipógrafo, da autoria do escultor Costa Mota (sobrinho), no dia 25 de julho de 1929, integrado num miradouro sobre Alfama, conhecido como Miradouro de Santa Luzia, cerimónia a que compareceram outros olisipógrafos como Gustavo de Matos Sequeira ou o Engº Augusto Vieira da Silva, assim como o fotógrafo José  Artur Leitão Bárcia.

Em 1939, a Câmara Municipal de Lisboa lançou ainda o Prémio Júlio de Castilho e no ano seguinte (1940), no centenário do nascimento de Júlio de Castilho,  promoveu no Palácio Galveias uma Exposição ilustrativa da obra deste olisipógrafo.

Busto de Júlio de Castilho
(Foto: José A. Leitão Bárcia, Arquivo Municipal de Lisboa)

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A Rua da Bica da Guarda pessoal do Marquês de Pombal, dada em 1918

Freguesia da Ajuda
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Na presidência de José Carlos da Maia na edilidade lisboeta, nasceu numa artéria da Ajuda a Rua da Bica do Marquês sobre a Rua Alegre, com a publicação do Edital municipal de 8 de fevereiro de 1918, que assim fixou na toponímia lisboeta a proximidade de uma bica de água ao quartel da Companhia da Guarda do Marquês de Pombal.

Este arruamento era só denominado como Rua da Bica até o Edital municipal de 26 de setembro de 1916 preferir antes designá-la como Rua Alegre. Contudo, este nome não vingou porque passados menos de dois anos, a Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Lisboa, presidida por Carlos da Maia, voltou a mudar-lhe o nome, retomando a antiga denominação de Rua da Bica, através do Edital de 1918 acima referido, mas transformando esta artéria que une a Rua de Dom Vasco à  Calçada da Ajuda na memória mais explicativa de Rua da Bica do Marquês.

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Saliente-se que foi no quarteirão que termina com o prédio da antiga Farmácia Mendes Gomes que existiu o Pátio da Guarda, um conjunto de casebres dispostos em forma de U, que era o quartel da Companhia da Guarda do Marquês de Pombal, uma guarda de proteção pessoal do Conde de Oeiras (título de 1759) e Marquês de Pombal (título de 1769). Onde hoje são instalações da Junta de Freguesia da Ajuda – Calçada da Ajuda nº 236 – eram as antigas cavalarias da Companhia da Guarda do Marquês. O Pátio da Guarda também foi denominado Pátio do Bonfim, por nele ter vivido o Conde de Bonfim.

Jardim do Marquês de Marialva ou do Campo Pequeno

Lápide do Jardim Marquês de Marialva, nos anos 50 do séc. XX (Foto: Fernando Martinez Pozal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Em pleno Campo Pequeno encontramos o Jardim do Marquês de Marialva que ali nasceu no início do século XX.

Aquando da construção da Avenida Ressano Garcia (depois, Avenida da República), entre 1897 e 1903, foi organizado este Jardim, em quatro espaços equilibrados, a rodear a praça de touros que ali fora inaugurada em 1892. Com muitas árvores frondosas tornou-se frequentado nos dias de verão, assim como espaço de reunião dos aficionados para discutir as touradas, antes e depois das corridas. Mais tarde, por volta dos anos quarenta, foi acrescido de um parque infantil.

O Marquês de Marialva neste Jardim celebrado é o 4º, de seu nome completo Pedro José de Alcântara de Menezes Noronha Coutinho (09.11.1713-22.02.1799), filho de Diogo de Noronha e Joaquina Maria de Menezes ( 3ª marquesa de Marialva), conhecido como estribeiro-mor da Coudelaria Real de Alter do Chão, assim nomeado por D. José I, e nessa condição criador do sistema de equitação que ficou conhecido como arte de Marialva, em atenção ao seu nome nobiliárquico.

Na segunda metade do século XVIII foi considerado o melhor cavaleiro de Portugal do seu tempo, tendo tido um papel decisivo no aperfeiçoamento da Picaria Real e da arte equestre portuguesa, sendo conhecido pela chamada arte de Marialva de que foi  sucessora a Escola Portuguesa de Arte Equestre. Foi mesmo retratado demonstrando exercícios da alta escola no tratado de cavalaria do séc. XVIII, a  Luz da Liberal e Nobre Arte da Cavallaria (1790), da autoria de Manuel Carlos de Andrade (1755-1817).

D. João V fundara em 1748   a Coudelaria de Alter, para o Alter-Real ( sub-raça do cavalo Lusitano), um apuramento ordenado pelo próprio rei. Na segunda metade do séc. XVIII, D. José I ampliou a iniciativa de seu pai, estruturou a Coudelaria e deu-lhe o primeiro regime coudélico, para assim iniciar o período áureo da Coudelaria e do Alter-Real, sob orientação de D. Pedro de Alcântara e Menezes.

Este 4º Marquês de Marialva foi marido de Eugénia de Assis Mascarenhas, com quem teve seis filhos.

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Jardim com o busto de Júlio de Castilho

Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Rui Mendes)

Com um miradouro sobre Alfama, a partir do Largo de Santa Luzia, encontramos o Jardim que desde o dia 25 de julho de 1929 se inaugurou com um busto do olisipógrafo Júlio de Castilho, da autoria do escultor Costa Mota (sobrinho).

Falecido dez anos antes, no dia 8 de fevereiro de 1919, o olisipógrafo Júlio de Castilho, havia sido já consagrado na toponímia de Lisboa por via do Edital municipal de 2 de março de 1925, com o Largo Júlio de Castilho, o largo mais próximo da rua onde morara no Lumiar, acrescido da legenda «Erudito Escritor e Historiador/1840 – 1919».

A inauguração em 25 de julho de 1929
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Quatro anos mais tarde, em 25 de julho de 1929, a Comissão Administrativa da CML inaugurou o busto de Júlio de Castilho neste pequeno jardim também conhecido por Jardim de Santa Luzia, pela proximidade à Igreja de São Brás ou de Santa Luzia, erguida sobre a muralha da antiga cerca. O miradouro resultou de uma iniciativa de Quirino da Fonseca, para fornecer à cidade uma panorâmica geral de Alfama e do Rio Tejo, sendo que o assunto esteve alguns anos em discussão. Raul Proença no seu Guia de Portugal afirma no seu 1º volume, publicado pela primeira vez em 1924,  afirma que «Pela parte detrás da igreja existe, suportado pela muralha que desce a calçada de S. João da Praça, contornando-a, um troço de terreno, hoje inculto» e defende que «Como o templo não tem nenhum valor, poder-se-ia arrasar todo esse terreno e transformá-lo num jardim público, o que não só ofereceria aos habitantes uma janela aberta sobre o Tejo como também teria a vantagem de evitar o futuro desaparecimento do mais importante trecho de muralha goda que Lisboa possui.» Mais tarde, o espaço somou um painel de azulejos representando A Tomada do Castelo de São Jorge aos Mouros por Dom Afonso Henriques e outro painel com a a antiga Praça do Comércio (da autoria de António Quaresma e produzidos na Fábrica Viúva Lamego)  e ainda um outro, com uma vista de Lisboa com barcos no Tejo (desenho de Martins Barata e pintado em 1939 por Victoria Pereira).

Júlio de Castilho (Lisboa/30.04.1840- 08.02.1919/Lisboa), 2.º visconde de Castilho por ser filho primogénito de António Feliciano de Castilho (também perpetuado em Lisboa na Rua Castilho), é considerado um percursor dos estudos olisiponenses, tendo acumulado ao logo da vida uma importante coleção pessoal de documentos sobre o tema, que se encontra depositada na Biblioteca Nacional.

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rotunda e a Praça Marquês de Pombal

Freguesia de Santo António
(Foto: Rui Mendes)

A Praça Marquês de Pombal está assim oficialmente denominada desde há 135 anos, ou seja, desde 1882, embora popularmente seja  ainda hoje conhecida como Rotunda, tanto pela sua configuração pouco comum na época, como por esta denominação ter sido reforçada na memória dos lisboetas pelo nome da estação de Metropolitano de Lisboa, que durou de 1959 até 1998.

A Praça Marquês de Pombal é uma homenagem a Sebastião José de Carvalho e Melo (Lisboa/13.05.1699 – 08.05.1782/Pombal), o estadista que coordenou a reconstrução de Lisboa após o terramoto de 1755,  feita no século seguinte pela  deliberação de câmara de 6 de maio de 1882, ou seja, na data do centenário do falecimento do Marquês e quase no dia do 183º aniversário do seu nascimento. O espaço escolhido foi a confluência da Avenida da Liberdade com a Rua Fontes (hoje, Avenida Fontes Pereira de Melo) e o Parque da Avenida da Liberdade (hoje,  Parque Eduardo VII), ou seja, no topo da Baixa lisboeta reconstruída. Quatro anos depois, conforme documento de 2 de novembro de 1886 a Câmara ainda estava a negociar com diversos proprietários os preços das expropriações para completar a execução da Praça Marquês de Pombal.

Já o nome popular de Rotunda a individualizava por então as Rotundas serem pouco frequentes, por ter sido o local de concentração dos Republicanos no 5 de Outubro de 1910 e por ter sido o nome da estação do Metropolitano de Lisboa neste local, inaugurada em 29 de dezembro de 1959, e na qual confluíam ambos os troços do então novo sistema de transporte, quer Sete Rios-Restauradores quer Entrecampos- Restauradores; só a partir de 1998, a estação, já com duas linhas diferentes, passou a denominar-se Marquês de Pombal.

No dia do 235º aniversário de nascimento do Marquês de Pombal ( 13 de Maio de 1934), graças a uma subscrição pública, foi inaugurada no centro da Praça Marquês de Pombal um monumento em sua honra onde a figura feminina simboliza a Lisboa reconstruída. Esta obra resultou do traçado dos arquitetos Adães Bermudes e António do Couto bem como da escultura de Francisco dos Santos, Simões de Almeida e Leopoldo de Almeida.

Freguesias de Santo António
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

As Escadinhas da Calçada do Duque de Cadaval

Freguesias da Misericórdia e Santa Maria Maior
(Foto: Toze Ribeiro)

A Calçada do Duque, que em escadaria une hoje o Largo Trindade Coelho à Calçada do Carmo, é um topónimo que perpetua um antigo proprietário local, o Duque de Cadaval, sendo o arruamento também conhecido popularmente como Escadinhas do Duque, forma que o guitarrista  António Chainho escolheu para dar título a um tema do seu álbum Guitarradas.

Esta antiga calçada íngreme foi  em meados do século XIX suavizada através da colocação de escadas e a partir daí  ganhou o epíteto de escadinhas. O topónimo Calçada do Duque foi atribuído oficialmente pelo Edital do Governo Civil de 5 de agosto de 1867 que também atribuiu no sítio a Rua do Duque, em ambos os casos por referência às propriedades dos Duques de Cadaval naquela zona. Refira-se ainda que a zona nas traseiras da Rua Primeiro de Dezembro junto à Estação Ferroviária, onde está implantada uma esplanada, corresponde ao Pátio do Palácio do Duque do Cadaval do séc. XIX e também é vulgarmente conhecido como Largo Duque de Cadaval apesar de não ser um topónimo oficial.

Em 1 de setembro de 1887, L. Mendonça e Costa num artigo n’Occidente precisa que «É toda a frente occidental deste lado (…) que vai ser demolida para a construcção da grande estação central dos caminhos de ferro [hoje é denominada Estação Ferroviária do Rossio], testa da linha urbana de Lisboa. (…) sendo um o palacio do sr. Duque do Cadaval, que tem dois andares com 8 janellas de frente cada um (…) nas trazeiras d’estes dois predios estende-se a quinta e jardim pertencente ao primeiro, e que confina com a cêrca da Misericórdia e pateo do Penalva, seguindo, por detraz dos demais predios que formam a parte occidental da rua do Principe [ hoje é a Rua Primeiro de Dezembro], até à calçada do Duque, que também assim se chama por pertencer o seu terreno do lado direito, á velha casa Cadaval».

O 1º Duque de Cadaval

O título de Duque de Cadaval foi criado pelo rei Dom João IV no dia 26 de abril de 1648, a favor de D. Nuno Álvares Pereira de Melo (1638-1727), filho de D. Francisco de Melo, 3.º marquês de Ferreira e um dos sustentáculos da Restauração de 1640. O título continuou a ver reconhecida a sucessão desde a sua instituição em 1648, até à morte do 6º duque, D. Nuno Caetano Álvares Pereira de Melo, em 1837.

O 1º duque também mandou construir uma casa nobre, antes de 1761, na sua quinta de Pedrouços, que era então um arrabalde de Lisboa, que também ficou marcada na toponímia lisboeta como Alto do Duque. Existiu também um Casal Duque de Cadaval, junto à Estrada de Benfica, como documenta a planta de 1909 de Júlio Silva Pinto.

Sobre a Calçada do Duque refira-se ainda o Palácio da Marquesa de Nisa,  na propriedade de Francisco José Caldas Júnior, foi mandado demolir pela Câmara por edital de dezembro de 1835. Neste local morou António Feliciano de Castilho e nasceu em 30 de abril de 1840 Júlio de Castilho. António Florêncio dos Santos adquiriu toda a propriedade e em 8 de janeiro de 1865 aí inaugurou a Escola Académica que em 1927 foi transferida para o Monte Agudo. Em 1900, os  nºs  3, 5 e 7 desta artéria albergavam um café chamado Inferno.

Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior      (Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)