Parque Eduardo VII de Inglaterra

na Freguesia de São Sebastião da Pedreira - na futura Freguesia das Avenidas Novas

Freguesia das Avenidas Novas

Por ocasião da visita de Eduardo VII a Lisboa, em abril de 1903, foi renomeado o Parque da Avenida da Liberdade em Parque Eduardo VII, «em respeitosa homenagem da cidade de Lisboa a Sua Magestade o Rei Eduardo VII d’Inglaterra e Imperador das Indias» como narra o Edital municipal de 17 de abril de 1903.

Este espaço verde foi aberto no início do século XIX como prolongamento da Avenida da Liberdade e ficou conhecido como Parque da Liberdade.

Eduardo VII tinha uma amizade pessoal com o rei D. Carlos de Portugal e esta sua visita a Lisboa reafirmou a aliança luso-inglesa, tanto mais que foi a primeira visita ao estrangeiro que Eduardo VII fez enquanto monarca.

Alberto Eduardo (Buckingham Palace/09.11.1841- 06.05.1910/Buckingham Palace), apenas foi coroado Eduardo VII aos 60 anos, por morte da sua mãe, como mais velho dos filhos varões da Rainha Vitória,e deteve a coroa inglesa de 1901 a 1910 .

Eduardo VII na «Ilustração Portuguesa» de 7 de Novembro de 1904

Eduardo VII na Ilustração Portuguesa de 7 de novembro de 1904

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A singular Avenida Almirante Reis

almirante Reis

Durante todo o primeiro ano da República, os nomes dos heróis republicanos Cândido dos Reis e Miguel Bombarda, a data de 5 de Outubro e a própria República foram fixadas nos principais largos e ruas de cada vila e cidade do país. Num tempo em que a rádio e a televisão eram ainda sonhos e os jornais serviam apenas a minoria da população que sabia ler, as placas toponímicas eram o maior veículo de difusão da República.

A edilidade lisboeta fixou Cândido do Reis na avenida que havia sido de Dona Amélia e que entre 1908 e 1910 era o lugar habitual de ajuntamentos e manifestações dos Republicanos, logo no seu primeiro Edital de toponímia, um mês após a implantação da República (em 5 de novembro de 1910 e resultante de deliberação camarária de 13 de outubro), como Avenida Almirante Reis. Por esse 1º Edital após a proclamação da República foram também fixados na memória da cidade a Avenida Cinco de Outubro, a Avenida da República, a Avenida Miguel Bombarda e a Avenida Elias Garcia.

A grande Avenida Almirante Reis que já fora a Avenida Dona Amélia (edital de 26/06/1903) e antes, Avenida dos Anjos (deliberação camarária de 08/07/1895) para denominar a Avenida no Prolongamento da Rua da Palma até à Estrada da Circunvalação homenageia o militar republicano Carlos Cândido dos Reis (Lisboa/16.01.1852 – 04.10.1910/Lisboa) que, juntamente com Miguel Bombarda e Machado Santos, chefiou o movimento revolucionário do 5 de Outubro de 1910. Cândido dos Reis era também um republicano convicto, anticlerical e carbonário activista tanto que quando fracassou o golpe que aprontara para 28 de janeiro de 1908, dedicou-se logo a preparar nova revolução. Na tarde de 3 de outubro de 1910 impediu o adiamento da revolta declarando: «A Revolução não será adiada. Sigam-me se quiserem. Havendo um só que cumpra o seu dever, esse único serei eu». Na madrugada de 5 de outubro, dirigiu-se aos Banhos de São Paulo para conferenciar com os companheiros e como as notícias não eram boas já que a maior parte das unidades militares comprometidas não tinham chegado a revoltar-se, julgaram perdida a causa republicana e decidiram fugir. Cândido dos Reis suicidou-se na Azinhaga das Freiras, em Arroios e, foi e considerado um dos primeiros mártires da revolução, tendo tido um funeral conjunto com Miguel Bombarda, no dia 6 de outubro de 1910. Refira-se ainda que o Carlos Cândido dos Reis era um dos deputados eleitos na lista republicana para a vereação da Câmara de Lisboa em 1910.

1º Edital de Toponímia após o 5 de Outubro de 1910

1º Edital de Toponímia após o 5 de Outubro de 1910

 

Autoparque, a nova realidade urbana

Autoparque Sabugosa entrada

na Freguesia de Alvalade

A evolução urbanística de Lisboa operada na última década do século XX, com a crescente ocupação de logradouros e pracetas para estacionamento automóvel e, uma solicitação da EMEL (Empresa Pública Municipal de Estacionamento de Lisboa) para a atribuição de topónimos aos logradouros dos parques de estacionamento, levou a Comissão Municipal de Toponímia, na sua reunião de 19.03.1999, a emitir o parecer de se criar uma nova designação toponímica, o Autoparque, para os espaços públicos que servem preferencialmente o parqueamento automóvel.

Nesta sequência, a Comissão também ponderou o estudo da Dr.ª Salete Salvado para fixar no topónimo de cada Autoparque a referência à toponímia da principal entrada do parque de estacionamento e, foi assim possível  pelo Edital de 03/01/2001 atribuir sete Autoparques na cidade de Lisboa, a saber, o Autoparque Areeiro, o Autoparque Campolide, o Autoparque Madrid, o Autoparque Roma, o Autoparque Paris (Nascente), o Autoparque Paris (Poente) e o Autoparque Sabugosa.

Este Autoparque Sabugosa que denomina o espaço compreendido entre as Avenidas de Roma, Estados Unidos da América e a Rua Conde de Sabugosa, é um topónimo que indica a sua maior proximidade à Rua Conde de Sabugosa.

Autoparque Sabugosa

na Freguesia de Alvalade

Paulo VI e João Paulo II em Avenidas de Marvila

paulo VI - placa

Placa Tipo IV

Paulo VI e João Paulo II, dois papas que se deslocaram a Portugal e partilharam a mesma devoção mariana, estão ambos perpetuados na toponímia lisboeta em Avenidas de Marvila, desde o ano da 1ª visita de João Paulo II a Portugal. Aliás, a Avenida João Paulo II, constituiu até à morte desse Papa a exceção à regra da Toponímia alfacinha por assim incluir alguém ainda vivo.

Ambos os topónimos fixados na Zona J de Chelas pelo Edital de 16/11/1982 nasceram de uma proposta apresentada na Assembleia Municipal de Lisboa por Manuel Busquets de Aguilar que foi aprovada por unanimidade em reunião de 29/04/1982.

Paulo VI (Itália/26.09.1897 – 06.08.1978/Itália), nascido Giovanni Battista Enrico Antonio Maria Montini, foi eleito Papa em 21 de Junho de 1963, escolhendo o nome de Paulo para indicar que tinha uma missão mundial renovada de propagar a mensagem de Cristo. Durante 15 anos exerceu o pontificado, continuando os trabalhos do predecessor João XXIII e do Concílio Vaticano II, nomeadamente melhorando as relações ecuménicas com Ortodoxos, Anglicanos e Protestantes. Este Papa gerou alguma incompatibilidade com o Estado Novo já que em 1963 discursou na ONU contra o colonialismo, em 1964 deslocou-se ao Congresso Eucarístico de Bombaim, em 1967 quando veio a Fátima aterrou diretamente em Monte Real e foi hospedado pelo bispo de Leiria e, em 1970 recebeu os três líderes de movimentos de libertação africanos de Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde e, Moçambique. No ano em que veio a Fátima, o vereador Gonçalves Lourenço propôs a atribuição do topónimo Papa Paulo VI, mas tal só se veio a concretizar pelo edital de 16/2/1970 na artéria vulgarmente conhecida por Avenida de Telheiras e, durou até 04/03/1974, quando as comemorações do 25º aniversário do falecimento do Padre Cruz a transformaram em Avenida Padre Cruz e, assim Paulo VI só voltou à toponímia de Lisboa em 1982, na Rua J 1 da Zona J de Chelas.

João Paulo II que veio crismar como Avenida lisboeta as Ruas J4, J7, J9 e J11 da zona J de Chelas (incluindo o Impasse 11 J.7, 13 J.7 e 14 J.7), nasceu Karol Józef Wojtyła (Polónia/18.05.1920 – 02.04.2005/Itália), foi eleito Papa em 16 de Outubro de 1978, e escolheu o nome em homenagem ao seu antecessor, João Paulo I, sendo o 1º papa polaco e o 1º não-italiano desde 1522. Durante 27 anos exerceu o pontificado, que é o 3º mais longo da História da Igreja Católica, tendo visitado 129 países, beatificado 1340 pessoas e canonizado 483 santos, tendo ele próprio sido proclamado Beato em 1 de Maio de 2011.

João Paulo II fez 3 visitas apostólicas a Portugal – em 1982, 1991 e 2000 – , sempre em Maio e sempre com deslocação a Fátima, presidindo na última à beatificação dos pastorinhos  Francisco e Jacinta. Em Lisboa esteve em 1991 e, em 2 de março de 1983 numa escala em Lisboa, em curso para a América Central, fez uma pequena homília para a multidão que o aguardava.

joao paulo II

Placa Tipo IV

A Triste Feia

Triste feia sd Artur Goulart

Triste Feia no século XX (Foto: Artur Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

Triste Feia é a denominação de uma artéria que não é rua, nem travessa, nem largo, nem avenida, na confluência da Rua Maria Pia, Rua da Costa e Rua Prior do Crato, nas proximidades da estação de comboios de Alcântara-Terra.

Após a remodelação paroquial de 1770, já a encontramos nas plantas e descrições das freguesias de Lisboa na «Nova Freguezia do Snr Jezus da Boa Morte» como «Rua da Triste Feya» e igualmente como «rua chamada a Triste-fea». No Atlas de Filipe Folque, a planta nº 39 de 1856 menciona a Triste Feia e a calçada da Triste Feia. E a partir daí, tanto nos levantamentos de Francisco Goulard (1882) como de Silva Pinto e Alberto Correia de Sá (1910) surge sempre designada como Triste Feia.

Tal como a Triste Feia existem em Lisboa outros topónimos que se fixaram na memória de Lisboa sem uma prévia designação do tipo de arruamento como o Caracol da Graça, o Corredor da Torrinha, a Costa do Castelo,  as Cruzes da Sé, o Cunhal das Bolas, as Escolas Gerais, o Paço da Rainha, o Poço do Borratém ou o Telheiro de São Vicente que Appio Sottomayor, na sua comunicação às 3ªs Jornadas de Toponímia de Lisboa, apelidou justamente como «A Toponímia das Ruas que o não são».

E é também nessa comunicação de Appio Sottomayor que encontramos a história da Triste Feia: « E ficou para o fim aquela rua sem indicação de rua que tomo como a mais reveladora da delicada poesia natural que brotava de quem punha nomes aos sítios lisboetas. Fica esta em Alcântara, paredes meias com a estação de Alcântara Terra e é irmã siamesa da Rua da Costa. Chama-se, muito singelamente, Triste Feia. O nome desencantado teve, no entanto, honras de citação pelo poeta António Nobre, quando este escreveu: ‘Ó Lisboa das ruas misteriosas!/ da Triste Feia, de João de Deus,/Beco da Índia, Rua das Formosas/Beco do Fala-Só (os versos meus…)’. Da mulher que foi a Triste Feia não se sabe o nome exacto nem, rigorosamente, o tempo em que viveu. O que se sabe ao certo é que foi o povo, foram os seus vizinhos quem imortalizou as suas características. Diz a tradição que ali moraram três irmãs, sendo duas delas raparigas normais e com o viço próprio dos verdes anos; a terceira, porém, possuía feições tão pouco agradáveis à vista que os rapazes que passavam em busca de conversadas fugiam comentando: ‘que focinho de porca!’, ‘que medonha seresma!’. Claro que as irmãs casaram e ela ficou sozinha, vendo chegar a velhice e agravar-se a fealdade. Mas, ao que rezam as crónicas, a simpatia nada tinha a ver com os atributos físicos. Assim, muita gente vencia a relutância por um ser tão feio e conseguia entabular conversa e até quase travar amizade. Mas a vida da pobre era passada quase sempre sentada à sua porta, numa melancolia doente. O certo é que morreu – e ninguém a esqueceu. Ficou o sítio conhecido pelos desagradáveis atributos da mais notável moradora. E Triste Feia se manteve até hoje, sem o designativo de rua que não precisa.»

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Triste Feia em 2013 (Foto: José Carlos Batista)

Singularidades de uma Toponímia de Lisboa

logo toponimia

Abrimos neste Dia de Finados um espaço sobre a Toponímia de Lisboa porque essa é justamente uma das singularidades que a caracterizam.

A Câmara Municipal de Lisboa foi a primeira autarquia do país a ter uma Comissão Municipal de Toponímia, um órgão consultivo para esta matéria, nascido em 1943 e que nos seus pareceres incluiu a indicação de que apenas se dariam nomes de figuras já falecidas às ruas lisboetas.

Esta Comissão criada por Despacho do Presidente da Câmara Municipal de Lisboa de 26 de outubro de 1943 , realizou a sua primeira reunião em 27 de novembro de 1943 e era composta por quatro elementos: o  Vereador Dr. João Couto que presidia e, os vogais Engº Augusto Vieira da Silva como representante da Academia das Ciências de Lisboa, Luís Pastor de Macedo como representante do Grupo dos Amigos de Lisboa e o Dr. Jaime Lopes Dias que era o Diretor dos Serviços Centrais da CML.

E logo na segunda reunião da Comissão, em 14 de dezembro de 1943, foi estabelecida como uma das bases de trabalho «(…), quanto ao futuro, parecer não merecer a pena estabelecer quaisquer regras a não ser a que determine que só um ano depois do falecimento da pessoa cuja memória se deseja homenagear, é que se poderá tomar qualquer deliberação nêsse sentido.» E desde essa data que na Toponímia de Lisboa apenas se homenageiam pessoas já falecidas, com uma única exceção que consagrou numa Avenida o então papa João Paulo II, por ocasião da sua visita a Lisboa em maio de 1983.