A Avenida Doutor Alfredo Bensaúde que poderia ter sido Avenida 25 de Abril

Freguesia dos Olivais
(Foto: Sérgio Dias)

A Avenida Doutor Alfredo Bensaúde poderia ter sido Avenida 25 de Abril caso tivesse sido aceite a sugestão Almerindo Martins da Cruz, endereçada por carta à edilidade.

Esta proposta foi analisada na reunião da Comissão Municipal de Toponímia de 20 de dezembro de 1974 e também incluía o pedido de mudança da Avenida 28 de Maio para Avenida 28 de Setembro e da Avenida dos Combatentes para Avenida das Forças Armadas. O primeiro Edital municipal relativo a toponímia, publicado após o 25 de Abril, de 30 de dezembro de 1979, concretizou a mudança da Avenida 28 de Maio para Avenida das Forças Armadas. Sobre a mudança de topónimo da Avenida Doutor Alfredo Bensaúde a Comissão deliberou que «será futuramente considerada, quando se julgar pertinente». O 25 de Abril acabou por ser topónimo lisboeta por ocasião do aniversário do 25º aniversário do 25 de Abril, como Praça 25 de Abril, atribuída pelo Edital municipal de 22/04/1999, na freguesia de Marvila.

Na sequência de solicitações de J. Sequeira bem como de António Emídio, a Avenida Doutor Alfredo Bensaúde havia sido atribuída à Rua I Circular, no troço compreendido entre a Praça de Acesso à Auto-Estrada do Norte e Moscavide,  por Edital municipal de 21/08/1968, com a legenda «Professor e homem de ciência/1856-1941», estendendo-se hoje entre a Praça José Queirós e a Avenida Cidade do Porto.

Alfredo Bensaúde ( Ponta Delgada/04.03.1858 – 02.01.1941/Ponta Delgada), formado na Escola Técnica Superior de Hanover, na Escola de Minas de Clausthal  onde se fez engenheiro de minas em 1878, e na Universidade de Gottingen onde se doutorou em Mineralogia em 1881, tornou-se a partir de 1884 e até 1910, professor de Mineralogia e Geologia no Instituto Industrial e Comercial de Lisboa e introduziu os métodos laboratoriais no ensino, revolucionando a forma de ensino dessas disciplinas. A ele se deve também a introdução em Portugal do ensino da Cristalografia e das técnicas de Petrografia. A convite de Brito Camacho, que era então Ministro do Fomento, foi o primeiro diretor do Instituto Superior Técnico,  de 1911 a 1922, exercendo também como docente, tendo tido assim a oportunidade de renovar os métodos de ensino da Engenharia no nosso país. A partir de 1924 foi nomeado Diretor Honorário. Das suas diversas publicações são de destacar Da Incongruência Entre a Observação e a Teoria em Alguns Cristais Cúbitos (1884), os seus  Relatórios sôbre vários jazigos minerais de Portugal, os Estudos sobre o sismo do Ribatejo de 23 de Abril de 1909  (1912) com o geólogo Paul Choffat e ainda, as Notas Histórico-Pedagógicas sobre o Instituto Superior Técnico (1922).

Com a morte do seu pai em 1922 retirou-se para Ponta Delgada, para assumir a administração da empresa industrial paterna e escreveu a biografia dele –  Vida de José Bensaúde -, publicada em 1936. Foi casado com Jeanne Oulman Bensaúde, autora de livros pedagógicos e infantis, bem como pai da bióloga Matilde Bensaúde, também desde 2016 homenageada na toponímia de Lisboa numa artéria próxima. 

Refira-se ainda a sua paixão pela construção e restauro de violinos, tendo construído o seu primeiro em 1874 e imprimido diferença nos que fazia através do verniz de produção própria que aplicava, bem como pela simetria na curvatura dos tampos. Chegou mesmo a interromper os estudos no ano letivo de 1874/1875 para aprender a arte de construir violinos. Na área musical também publicou, em 1905,  Uma concepção evolucionista da música e As canções de F. Schubert.

 

 

A Rua do Engenheiro primeiro presidente da CML após o 25 de Abril

Freguesia de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias)

O Engº Caldeira Rodrigues foi o presidente da 1ª Comissão Administrativa da CML após o 25 de Abril de 1974, que assinou os primeiros 5 Editais de Toponímia e desde 2007 o seu nome está na memória das esquinas de Lisboa, numa rua da freguesia de Alvalade.

A Rua Engº. Caldeira Rodrigues foi atribuída pelo Edital municipal de 23/04/2007 ao arruamento identificado como Rua 2.2 à Rua António Albino Machado, com a legenda «Autarca/1925 – 2004», ligando a Rua António Albino Machado à Rua Joaquim Rocha Cabral. Recorde-se que António Albino Machado foi o fundador e 1º presidente da Cooperativa de Habitações Económicas 25 de Abril  e Joaquim Rocha Cabral foi um engenheiro que presidiu à Junta de Freguesia do Campo Grande durante dois mandatos consecutivos (1994-97 e 1998-2001).

O Engº Caldeira Rodrigues numa Conferência de Imprensa dada em dezembro de 1974, no Salão Nobre dos Paços do Concelho de Lisboa
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Joaquim Ângelo Caldeira Rodrigues (Torres Vedras/06.12.1925 – 29.12.2004/Lisboa), foi nomeado Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Lisboa e exerceu essas funções de 2 de setembro de 1974 a 19 de novembro de 1975 , sucedendo ao Delegado da  Junta de Salvação Nacional, João António Lopes da Conceição. Caldeira Rodrigues levou a cabo uma importante reconversão do município, no quadro de uma dinâmica de participação popular, tendo sido determinante a sua intervenção no aliviar de tensões e na resposta imediata a carências básicas da população, como a habitação. Em matéria de toponímia assinou 5 editais que colocaram em Lisboa os nomes de Alves Redol, Avenida dos Bombeiros, Capitão Henrique Galvão, Castro Soromenho, Dr. João Soares, Avenida das Forças Armadas, General Norton de Matos, José Dias Coelho, Julião Quintinha, Luís de Freitas Branco, Maria Isabel Aboim Inglês, Praça das Novas Nações, Rua da República da Bolívia e Calçada Ribeiro dos Santos.

Na época, o Engº Caldeira Rodrigues integrava  a direção do MDP/CDE mas já antes, durante mais de 30 anos, tinha sido um resistente político  que sofreu mesmo a prisão por duas vezes, em 1947 e em 1951. Foi dirigente da Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico, onde se licenciou em Engenharia em 1950 mas também se tornou ativista do MUNAF ( (Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista) e do MUD Juvenil (Movimento de Unidade Democrática), cuja comissão central integrou em 1947, com Mário Soares, Octávio Pato, Salgado Zenha, António Abreu, Fernanda Silva e outros. Em 1950 também aderiu ao Movimento para a Paz, liderado por Maria Lamas e Manuel Valadares.

Enquanto engenheiro, Caldeira Rodrigues desenvolveu uma carreira como especialista de Planeamento e Estruturas Hidráulicas na Hidrotécnica Portuguesa e na Companhia de Águas de Lisboa, para além de ter sido um dos sócios-fundadores da COBA – Consultores para Obras, Barragens e Planeamento, S.A., bem como dirigente da Associação Portuguesa de Projetistas e Consultores, entre 1989 e 1993.

O nome de Joaquim Caldeira Rodrigues está também perpetuado numa rua da sua terra natal e refira-se que Maria João Rodrigues, catedrática do ISCTE que desempenhou as funções de Ministra do Emprego no primeiro Governo de António Guterres, é sua filha.

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias)

As Ruas de 1960 de um Herói da Ocupação e de um Herói do Ultramar

Freguesias de Ajuda e Belém (Foto: Sérgio Dias)

A Rua General João de Almeida – Freguesias de Ajuda e Belém
(Foto: Sérgio Dias)

No ano anterior ao eclodir da Guerra Colonial, em 1960, foram colocados na toponímia de Lisboa dois militares ligados ao domínio português em África: o General João de Almeida e o Major Neutel de Abreu, nas freguesias de Ajuda-Belém e São Domingos de Benfica, tendo o primeiro a legenda de «Herói da Ocupação» e o segundo de «Herói do Ultramar», ambos sugeridos pela Sociedade de Geografia de Lisboa, que incluía também os nomes dos generais Garcia Rosado, Justiniano Padrel, Massano de Amorim e o Coronel Bento Roma.

O General João de Almeida (Guarda/05.10.1873 – 05.05.1953/Lisboa), Herói dos Dembos e da ocupação do Baixo Cubango foi atribuído como topónimo pelo Edital de 28 de outubro de 1960 na Rua Projetada à Calçada do Galvão. Dez anos mais tarde, por edital publicado em 7 de novembro de 1970 foram também integradas neste arruamento a Travessa do Pátio das Vacas e o Largo do Museu Agrícola Colonial, pelo que hoje se estende da Calçada da Ajuda até à Calçada do Galvão.

Freguesias de Ajuda e Belém - Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias de Ajuda e Belém – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

Formado em Filosofia e Matemática pela Universidade de Coimbra, ingressou na Escola do Exército, tendo mais tarde concluído ainda os cursos do Estado Maior do Exército (1903) e da Escola de Engenharia Civil de Paris. Ainda como Capitão, durante as Campanhas de África, comandou em 1907 uma coluna de operações contra os Dembos Rebeldes em Angola que lhe granjeou o epíteto de Herói dos Dembos. No ano seguinte foi nomeado governador interino do distrito de Huíla sendo mais tarde o governador, para além de ter colaborado na ocupação de todo o Baixo Cubango e ajudado o General Roçadas a pacificar a região de Huíla (1909), sendo obra sua a fixação da fronteira meridional de Angola. Também foi Governador e Diretor de obras públicas de Cabo Verde, bem como Governador Geral de Macau (1931).

Em 1919, já coronel e Comandante militar da região de Aveiro, bateu-se pela Monarquia do Norte, ao lado de Paiva Couceiro, a primeira das diversas conspirações em que participou para derrubar a República, já que era Monárquico e simpatizante do Integralismo. João de Almeida foi ainda  Ministro das Colónias durante 3 dias, de 6 a 9 de julho de 1926.

Foi também autor de obras sobre temática colonial – como Carta itinerária de Angola ou A ocupação portuguesa em África na época contemporânea – e sobre a cidade da Guarda – como Roteiro dos monumentos de arquitectura militar do concelho da Guarda ou A Guarda capital da Beira (1937) – , bem como obras didáticas no  âmbito das suas funções de diretor do Instituto de Ensino Normal de Braga. Seguiu ainda uma carreira de administrador de empresas, na Empresa Eléctrica-Oceânica de Aveiro (entre 1920 e 1936), na  Companhia do Papel do Prado (desde 1929) e presidindo à Real Companhia Vinícola do Norte (a partir de 1933).

Foi condecorado como Grande Oficial de Ordem Militar da Torre e Espada, da Ordem Militar de Cristo e da Ordem Militar de Avis (todas em 1929) e a Grã-Cruz da Ordem do Império Colonial (1932) e também pai de 2 militares: os coronéis Alexandre Mendes Leite de Almeida e João Mendes Leite de Almeida. O General João de Almeida está também na toponímia da Damaia (Amadora) como Rua, na Guarda como Avenida e em Angola, em ruas de Luanda e de Benguela.

Freguesia de São Domingos de Benfica -Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de São Domingos de Benfica -Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

O Major Neutel de Abreu, de seu nome completo Neutel Martins Simões de Abreu (Figueiró dos Vinhos/ 1871 – 1945/ Figueiró dos Vinhos) ficou perpetuado na Rua A à Praceta I da Estrada de Benfica ou Rua A ao Largo do Conde de Bonfim pelo Edital de 21/12/1960, e desde que assentou praça no Regimento de Infantaria 11 de Setúbal (1888) esteve em Macau ( 1890) e Angola (1891-1898) até chegar a Moçambique, onde se destacou particularmente a comandar o posto de Moginqual e na chamada Pacificação de Moçambique, sobretudo na campanha que procurou  a submissão dos povos Namarrais do norte de Moçambique (1905-1913), comandada por Massano de Amorim. Participou na fundação, em 1907, daquela que veio a ser a cidade da Nampula- derivada do nome do régulo «Mpula» que significa chuva -, onde residiu mais de trinta anos, e na qual impulsionou o estabelecimento de diversas infraestruturas básicas no território. Reformado por razões de saúde em fevereiro de 1920 (ou 1912), aos 49 anos (ou talvez 41), decidiu dedicar-se à agricultura na sua plantação.

Foi galardoado com a Medalha de Ouro de Serviços Distintos no Ultramar (1916) e a comenda da Ordem Colonial (1941). Tem ainda o seu nome numa escola e numa rua da sua terra natal.

Freguesia de São Domingos de Benfica (Foto: Sérgio Dias)

A Rua Major Neutel de Abreu – Freguesia de São Domingos de Benfica
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua dedicada ao Alferes Malheiro, do 31 de janeiro de 1891 para capitão do exército brasileiro

Freguesia de Alvalade                                                                                             (Foto: Sérgio Dias)

Após desempenhar um papel importante na insurreição de 31 de janeiro de 1891 o Alferes Malheiro teve de fugir para o Brasil, onde foi reconhecido como capitão honorário do exército brasileiro, teve na toponímia de Lisboa a consagração em dois locais distintos.

Primeiro, por Edital municipal de 8 de junho de 1925, cerca de 6 meses após o seu falecimento, deu nome à Avenida do Parque ao Campo Grande, como Avenida Alferes Malheiro e a legenda «Precursor do regime Republicano». Assim se manteve até o Edital de 23 de dezembro de 1948 transformar esta artéria em Avenida do Brasil e o Alferes  Malheiro ficar num limbo durante quase 23 anos para voltar à toponímia como Rua, pelo Edital municipal de 9 de agosto de 1971, no arruamento de ligação entre a Avenida do Brasil e o prolongamento da Rua Marquês do Soveral, tendo como legenda apenas os anos de nascimento e morte.

Refira-se que na zona do Campo Grande havia sido fundado a 7 de dezembro de 1908 o Centro Escolar Republicano Alferes Malheiro, cuja  primeira sede foi na Rua Oriental do Campo Grande, nº 111, passando depois para a Rua Ocidental, nº 225, onde esteve durante 18 anos, para em 1930 mudar novamente, desta feita para o Campo Grande nº 290.

alferes-malheiroAugusto Rodolfo da Costa Malheiro (Porto/19.01.1869-09.12.1924/Lisboa), foi um oficial do Exército português desde 1886, que incorporado no Batalhão de Caçadores 9, teve um papel importante na insurreição de 31 de janeiro de 1891, no Porto, o primeiro movimento para implantação da República em Portugal. Gorada a revolta fugiu para Espanha e daí partiu de Vigo para o Brasil, tendo sido julgado como desertor por um Tribunal Militar. Instalou-se em Minas Gerais onde frequentou o curso de Engenharia e após o concluir envolveu-se na revolução brasileira surgindo na chefia dos alunos da Escola Militar com a intenção de pôr termo à acção dos revoltosos sob o comando de Saldanha da Gama. Foi ferido em combate e, fruto do reconhecimento do Governo brasileiro pelos serviços prestados tornou-se capitão honorário do exército brasileiro. A sua reintegração no Exército Português foi decretada após a Proclamação da República, e dela teve conhecimento o Alferes Malheiro a 22 de novembro de 1910, na cidade da Baía, de onde escreveu uma carta de agradecimento ao então Ministro da Guerra, o General Correia Barreto, e ao Governo Provisório Republicano.

Regressado a Portugal, ocupou o posto de capitão no Regimento de Infantaria 16. Insistiu em acompanhar o batalhão expedicionário a Angola como voluntário, durante a Primeira Guerra Mundial e no pós-guerra,  comandou  em 1919 a Coluna Negra, destinada a combater a Monarquia do Norte,  em Monsanto e no Norte do País.

Deixou parte dos seus bens para o Centro Escolar Eleitoral Republicano Alferes Malheiro, que em 1910 tinha já uma Escola Primária, para ambos os sexos. Em 11 de novembro de 1987, este Centro foi agraciado com a Comenda da Ordem da Liberdade, Grau Membro Honorário, pelo então Presidente da República, Dr. Mário Soares.

Para além de Lisboa, o Alferes Malheiro também está consagrado na toponímia do Porto, com uma Rua do Alferes Malheiro, em Beja, com uma Travessa e na Charneca da Caparica como Rua Augusto da Costa Malheiro.

Freguesia de Alvalade (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do vereador republicano Tomás Cabreira

Freguesia das Avenidas Novas (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias)

Tomás Cabreira que foi vereador na 1ª gestão republicana da Câmara Municipal de Lisboa e  ministro das Finanças em 1914 ficou perpetuado no Bairro da Bélgica, pelo Edital municipal de 30 de junho de 1926, com a legenda «Engenheiro Distinto e Republicano Indefectível».

Foi por esse Edital municipal que nasceu há 90 anos o Bairro da Bélgica, hoje mais conhecido como Rego ou Bairro de Santos. Coube a Tomás Cabreira a Rua B do Bairro da Bélgica, entre a Avenida Santos Dumont e a Rua Particular Neves Piedade que viria a ser a Rua Filipe da Mata no ano seguinte, pelo Edital de  6 de agosto de 1927, perpetuando outro vereador da primeira vereação republicana da CML. A Comissão de Melhoramentos do Bairro da Bélgica havia sugerido à autarquia lisboeta, em 10 de maio de 1926,  que fossem atribuídos nos arruamentos do Bairro nomes alusivos à Bélgica, seguindo o exemplo do já sucedido no Bairro de Inglaterra em 1916. E assim, o Edital municipal de 30/06/1926 fixou o Cardeal Mercier na Rua E do Bairro do Bélgica ( o arcebispo e primaz da Bélgica que publicou em 1915 uma Carta Pastoral incitando ao patriotismo) e o general Leman na Rua D (militar que defendeu Liége contra o invasor alemão e acabou prisioneiro de guerra), e nas restantes artérias colocou ainda o Presidente da CML de 1923 a 1925 (Albano Augusto Portugal Durão) e ainda, a Rua Costa Goodolfim e a Rua Visconde de Menezes, sendo que neste local da cidade estas duas últimas nunca passaram do papel.

Alma Nova, março de 1929

Alma Nova, março de 1929

Tomás António da Guarda Cabreira ( Tavira/23.01.1865 – 04.12.1918/Tavira) foi militar, engenheiro, professor e político. Como seu pai, ingressou no Exército, em 1881, e atingiu o posto de Coronel em 1918. Formou-se também em Engenharia Civil pela Escola do Exército, em 1893, e a partir daí passou a docente das disciplinas de Química Mineral e de Química Orgânica na Escola Politécnica, tendo até publicado Princípios de Estereoquímica (1896) e feito doutoramento em 1916. Foi ainda vogal da Comissão de Explosivos e vogal da Academia de Ciências de Lisboa, tendo ainda, em 1907, fundado a Universidade Popular de Lisboa.

Enquanto político, Tomás Cabreira, republicano e maçónico, fundou o Grupo Republicano de Estudos Sociais,  deputado pelo Algarve na Assembleia Nacional Constituinte (1911), senador da República (1912) e ministro das Finanças (1914), época em que deu a lume A Contribuição Predial e O Problema Financeiro e a sua Solução (ambos em 1912). Destaque-se que foi vereador da Câmara Municipal de Lisboa de 1909 a 1912, na Presidência de Anselmo Braamcamp Freire, tendo como colegas vereadores outros nomes presentes na toponímia de Lisboa como Augusto José Vieira, Barros Queirós, Francisco Grandela ou Miguel Ventura Terra.

Depois de 1914 abandonou a carreira política e o Partido Democrático, de que era dirigente, e fundou a União da Agricultura, Comércio e Indústria, onde exerceu os cargos de vice-presidente e de presidente e ainda editou Posto Agrário e Ensino Móvel (1915), Crédito Comercial e Industrial (1915), O Problema Tributário Português (1916-1917), A Defesa Económica Portuguesa (1917), O Algarve Económico (1918) e postumamente, A Política Agrícola Nacional (1920).

Esteve também ligado ao jornalismo por diversos cargos na Associação dos Jornalistas de Lisboa e na Associação da Imprensa Portuguesa.

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

A Avenida do republicano Elias Garcia

Prédio traçado por Ventura Terra no nº 62 da Avenida Elias Garcia com a Avenida da República cerca de 1906 (Foto: Alberto Carlos Lima, Arquivo Municipal de Lisboa)

Prédio traçado por Ventura Terra no nº 62 da Avenida Elias Garcia com a Avenida da República 
(Foto: Alberto Carlos Lima, cerca de 1906, Arquivo Municipal de Lisboa)

Ventura Terra traçou em 1902 três prédios de rendimento para o republicano Joaquim dos Santos Lima,  na esquina da Avenida José Luciano nº 62 (a partir de 5 de novembro de 1910 passou a ser a Avenida Elias Garcia ) com a Avenida Ressano Garcia nº 46 (Avenida da República também desde 05/11/1910).

O republicano José Elias Garcia que foi Presidente da Câmara Municipal de Lisboa em 1878 passou a dar nome à Avenida José Luciano pelo Edital municipal de 5 de novembro de 1910, o primeiro de toponímia após a proclamação da República, que incluiu mais 9 topónimos destacando-se os que homenagearam a implantação da República – Avenida da República e Avenida Cinco de Outubro– e figuras republicanas, como o Almirante Cândido dos Reis e Miguel Bombarda.

Elias_Garcia José

José Elias Garcia (Almada-Cacilhas/31.12.1830 –  21.06.1891/Lisboa) foi um político republicano que foi deputado, vereador da edilidade alfacinha com o pelouro de instrução pública (entre 1872 e 1890) em que estabeleceu as escolas centrais, o ensino da ginástica, do desenho de ornato,do canto coral das escolas e as bibliotecas populares, bem como foi até o 25º Presidente da Câmara Municipal de Lisboa ( de 2 de janeiro a 18 de agosto de 1878).

Coronel de engenharia foi ainda professor de Mecânica Aplicada na Escola do Exército (a partir de 1857), bem como jornalista, tendo fundado diversos jornais republicanos como O Trabalho (1854), O Futuro (1858-1862), A Política Liberal (1862), e sido o redator principal do Jornal de Lisboa (1865) e do Democracia (1873), para além de ter presidido à Assembleia dos Jornalistas e Escritores Portugueses. Também colaborou na revista de pedagogia Froebel, dirigida por Feio Terenas.

Elias Garcia, a partir do célebre grupo do Pátio do Salema (Clube dos Lunáticos), fundou em 1868 o Partido Reformista, de onde veio a resultar o Centro Republicano Democrático Português (1876) e o Partido Republicano e nessa qualidade foi deputado, eleito pela primeira vez em 1870 por Lisboa, sendo depois também eleito pelo Partido Republicano em 1882-1884, 1884-1887 e 1887-1889 e 1890.  Entre 1883 e 1891 presidiu ao Diretório do Partido Republicano.

Desde 1853 Irmão Péricles na Maçonaria Portuguesa, foi o 1.º e único Grão-Mestre  da Federação Maçónica (1863 a 1869),  Grão-Mestre interino do Grande Oriente Lusitano Unido (1884 a 1886), Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano Unido (1887 a 1889) e o seu túmulo no Cemitério do Alto de São João, construído em 1893-94 pelo Grande Oriente Lusitano em terreno cedido pela CML, ostenta um obelisco encimado por uma estrela de cinco raios.

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Coronel Santos Pedroso do Gazcidla

Freguesia de Benfica (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Benfica
(Foto: Sérgio Dias)

O  Coronel Santos Pedroso foi um militar que integrou o Corpo Expedicionário Português, bem como um político do Estado Novo, cujo percurso profissional terminou como Presidente da Administração da CIDLA e que desde a publicação do  Edital de 4 de março de 1974 está perpetuado na toponímia de Lisboa, na que era a  Rua H à Estrada do Poço do Chão na Quinta das Palmeiras, na Freguesia de Benfica.

António Rodrigues dos Santos Pedroso (Lisboa/14.02.1894 – 14.11.1969/Lisboa), licenciado em Engenharia Civil pelo Instituto Superior Técnico, assentou praça em 1916 e chegou ao posto de Coronel em 1947.  Integrado no Corpo Expedicionário Português embarcou para França em 27 de agosto de 1917, país onde permaneceu até 12 de setembro, desembarcando no dia seguinte em Inglaterra, onde esteve até 20 de janeiro de 1918, voltando para França no dia seguinte e daí regressou a Portugal a 12 de fevereiro de 1919.

Na sua carreira militar desempenhou ainda funções de Promotor de Justiça junto dos 1.º e 2.º Tribunais Militares Territoriais, de Subdirector da Fábrica de Material de Guerra, de Presidente da Comissão de Receção de Material Antiaéreo (1943), de Comandante dos Regimentos de Artilharia Ligeira nº4 de Leiria (1944-1945) e de Artilharia Pesada n.º 1 de Sacavém (1946), de Chefe da Secção Técnica de Defesa Marítima de Lisboa (1946) e de Chefe da 1.ª Repartição da Administração Geral do Exército, sendo a partir de 1952 e até à sua reforma em 1964 o Presidente do Conselho de Administração da CIDLA, empresa criada pela Sacor em 6 de outubro de 1939 e que até 1960 detinha o monopólio da venda de gás butano em Portugal.

No seu percurso político, Santos Pedroso foi Vogal da Comissão Distrital de Lisboa da União Nacional (1934) e participou na organização da 1ª campanha eleitoral do Estado Novo para a Assembleia Nacional, vindo a ser deputado nas Legislaturas I e II, para além de ser Diretor de Instrução do Batalhão n.º 5 da Legião Portuguesa bem como dos serviços de camaradagem da Mocidade Portuguesa e ainda, Presidente da Comissão Administrativa da Junta Geral do Distrito de Lisboa. 

António Rodrigues dos Santos Pedroso foi agraciado com a britânica Military Cross (1918) e condecorado com  os graus de Comendador (1938) e de Grande-Oficial (1950) da Ordem Militar de Avis.

Freguesia de Benfica (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias)

Eugénio dos Santos, duas vezes em ruas de Lisboa

A Rua Eugénio dos Santos cerca de 1952 (Foto: Antonio Passaporte, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua Eugénio dos Santos cerca de 1952
(Foto: António Passaporte, Arquivo Municipal de Lisboa)

Eugénio dos Santos, um dos principais  arquitetos-engenheiros envolvidos nas obras de reconstrução da Baixa Pombalina de Lisboa após o terramoto  de 1755, já foi topónimo de duas artérias diferentes: na que hoje conhecemos como Rua das Portas de Santo Antão e na que hoje ostenta o seu nome nas proximidades do Parque Eduardo VII.

Em retrospetiva, sabemos que foi pelo edital do Governo Civil de Lisboa de 01/09/1859 que a Rua das Portas de Santo Antão e a Rua da Anunciada passaram a constituir um único arruamento sob a denominação de Rua de Santo Antão. Após a implantação da República, a partir de uma proposta do vereador Miguel Ventura Terra de 9 de março de 1911, a artéria tornou-se a Rua Eugénio dos Santos, por edital municipal de 07/08/1911, com a legenda «Architecto», assim homenageando o seu papel fundamental na reconstrução da Baixa lisboeta,  e assim permaneceu por quase 55 anos até que o Edital camarário de 28/05/1956 reverteu a denominação para a que ainda hoje encontramos de Rua das Portas de Santo Antão, ao mesmo tempo que colocava o nome de Eugénio dos Santos na 1ª transversal do Parque Eduardo VII que liga a Avenida António Augusto de Aguiar à Avenida Sidónio Pais e que assim continua hoje.

1º projecto para a estátua equestre da Praça do Comércio, da autoria de Eugénio dos Santos (Arquivo Municipal de Lisboa)

1º projecto para a estátua equestre da Praça do Comércio, da autoria de Eugénio dos Santos
(Arquivo Municipal de Lisboa)

Eugénio dos Santos e Carvalho (Aljubarrota/?.03.1711 – 05.08.1760/Rua da Rosa – Lisboa), oficial de  Infantaria com exercício de Engenheiro, foi admitido na Aula de Fortificações e Arquitectura Militar em 1735, e logo a partir do ano seguinte já trabalhava nas fortificações do Alentejo, nomeadamente em Estremoz e Évora. A partir de 1750 passou a inspector das obras reais e assim foi arquiteto dos Paços da Ribeira e de outro Paços, como o do Senado de Lisboa. Após o terramoto  de 1755, Eugénio dos Santos foi um dos principais obreiros da reedificação da cidade de Lisboa, em estreita colaboração com Manuel da Maia e Carlos Mardel, sendo por isso considerado um precursor do urbanismo e da arquitetura moderna. Executou duas plantas possíveis para a reconstrução da Baixa lisboeta  e a partir da escolhida, Eugénio dos Santos foi também o responsável pelo traçado dos edifícios, bem como pelo plano da Praça do Comércio e da sua estátua equestre.

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Capitão Renato Baptista, engenheiro da Manutenção Militar e da Carta de Lisboa de 1892

Freguesia de Arroios (Foto: Luís Pavão, 2011, Arquivo Municipal de Lisboa)

Freguesia de Arroios
(Foto: Luís Pavão, 2011, Arquivo Municipal de Lisboa)

Através do seu edital de 22/11/1900 a Câmara Municipal de Lisboa prestou homenagem ao Capitão Renato Baptista,  que foi quem em 1892 iniciou o levantamento da Carta da cidade de Lisboa que crescera nessa última década do século XIX, atribuindo o seu nome a um arruamento da cidade até aí designado por prolongamento da Vila Amâncio.

Na última década do século XIX, os limites da cidade de Lisboa já não eram os mesmos do início desse século, já que foram expandindo cada vez mais para Este, Oeste e Norte, situação que levou à necessidade de elaborar uma nova planta que abarcasse os novos limites da capital portuguesa. Foi este levantamento que se iniciou em 1892, por intermédio do engenheiro Renato Baptista. Mais tarde e após a sua morte, a Câmara Municipal de Lisboa adjudicou em 1904 trabalho semelhante ao engenheiro Júlio Silva Pinto, que os terminou em 1911. Já em 1891  o Capitão Renato Baptista comandara a primeira companhia do regimento de Artilharia destacado em Moçambique e no seu relatório África Oriental – Reconhecimento para os estudos do caminho de ferro da Beira a Manica efectuado em 1891, incluiu uma carta dos territórios de Manica e Sofala.

Joaquim Narciso Renato Descartes Baptista (Lisboa/ 05.10.1855 – 02.11.1900/Lisboa), capitão de engenharia desde 1884, lente da cadeira de Arquitetura da Escola do Exército, funcionário do gabinete do Ministro da Guerra e ajudante de campo do rei D. Carlos, foi responsável pela obra do quartel dos alunos da Escola do Exército e pelas reformas nas instalações daquele estabelecimento, assim como pela reconstrução e reconversão do antigo edifício conventual das freiras carmelitas ou Grilas para Manutenção Militar, em 1896-1897, tendo ainda escolhido os equipamentos para as várias fábricas de moagem, bolachas e padaria e oficinas, e publicado uma obra sobre esta matéria, intitulada Manutenção Militar.

O capitão Renato Baptista também traduziu para a língua francesa a Morgadinha de Valflor de Pinheiro Chagas e foi diretor da Associação dos Engenheiros e da Sociedade de Geografia, tendo  sido agraciado ao longo da vida com as Cruzes de Avis, Santiago, Cristo, a Legião de Honra francesa e o Mérito Militar espanhol.

Freguesia de Arroios (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias)

A Avenida de Manuel da Maia da «Carta Topographica da parte mais arruinada de Lisboa»

Freguesias do Areeiro e de Arroios (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias do Areeiro e de Arroios
(Foto: Sérgio Dias)

A Avenida Manuel da Maia homenageia o autor da «Carta Topographica da parte mais arruinada de Lisboa», executada para permitir a reconstrução de Lisboa após o Terramoto de 1755, e que pelo Edital camarário de 25/11/1929 assinado pelo vice-presidente da Comissão Administrativa Carlos Mardel Ferreira assim ficou fixado na «Avenida Nº 3 prolongada com a Nº5, compreendida entre o Largo do Leão e a Rotunda a oriente do Bairro Popular do Arco do Cego [Praça de Londres]».

Avenida Manuel da Maia a óleo no Palácio de Queluz foto António Passaporte AML

Manuel da Maia (Lisboa/1677 – 17.09.1768/Lisboa) foi um engenheiro militar nomeado Engenheiro-Mor na época pombalina, em 1758. Era quem estava à frente dos engenheiros da Academia Militar da Corte e que procedeu ao levantamento de todos os bairros de Lisboa, para aferir das áreas mais sensíveis que precisavam de maiores intervenções, elaborando uma planta geral para a recuperação e reedificação de Lisboa, que estava praticamente em ruínas, a  Carta Topographica da parte mais arruinada de Lisboa na forma, em que se achava antes da sua destruição pra sobre ella se observarem os melhoramentos necessários, na escala de 100 varas [1:1100], abrangendo o sítio onde hoje encontramos o Largo do Corpo Santo e a Rua da Misericórdia até às Igrejas da Sé e de São Cristóvão, e para o norte até ao Largo Trindade Coelho e o Largo de São Domingos.

Manuel da Maia começara como engenheiro militar em 26 de maio de 1698 e foi incumbido em 1701 das fortificações de Lisboa, tendo reforçado a linha de fortes, desde Santa Apolónia até à Torre de São Julião da Barra e em 1718 apresentou a planta da cidade de Lisboa completa. Outra importante obra sua e que resistiu ao Terramoto foi o Aqueduto das Águas Livres cujos estudos lhe demoraram 6 anos e depois delineou, tendo também com Custódio Vieira dirigido a execução da obra, sucedendo-lhe como responsáveis José da Silva Pais, Rodrigo Franco, Carlos Mardel, Miguel Ângelo Blasco, Reinaldo Manuel dos Santos e Francisco António Ferreira. Foi também ele responsável pela construção da estátua equestre de D. José I, na Praça do Comércio.

Refira-se ainda que foi nomeado guarda-mor da Torre do Tombo, em 1745, onde organizou o corpo cronológico desde 1161 até 1698 e salvou o arquivo na altura do Terramoto, assim como traduziu obras de natureza militar e engenharia, por ser conhecedor de Latim, Italiano, Inglês e Francês.

Freguesias do Areeiro e de Arroios (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias do Areeiro e de Arroios
(Planta: Sérgio Dias)