A Rua Maria Margarida da Cruz Vermelha e o Carlos Paredes do artista Samina

A Presidente da Secção Auxilar Feminina da Cruz Vermelha Maria Margarida Montenegro Fernandes Tomás de Morais, ainda subsiste como topónimo de uma artéria da freguesia do Lumiar, próxima da Avenida Carlos Paredes, bem como da Avenida David Mourão-Ferreira onde o artista Samina realizou um mural dedicado a esse guitarrista e compositor no âmbito da 3ª edição do Festival de Arte Urbana de Lisboa, que decorreu de 23 a 26 de maio último.

João Samina, nascido em 1989 em Setúbal, desde jovem que entrou no mundo das artes plásticas, atraído sobretudo pelo desenho e pela pintura. Aos 14 anos de idade iniciou-se no mundo da arte urbana, discretamente, espalhando pequenos quadros adesivos pelas ruas. Acompanhou a expansão do movimento da arte urbana e foi crescendo com ele, tendo iniciado a pintura com aerógrafo em 2010, a que depois juntou outros elementos das suas raízes artísticas como o design gráfico, a pintura e a arquitetura, com particular uso do preto e azul ou do preto e vermelho como as suas cores primordiais, para concretizar, sobretudo, retratos humanos. São obra sua o mural alusivo ao Mundial de Futebol de 2018 em Portimão, o Künstler da Praça do Comércio de Coimbra,  ou um Big Brother num painel da Mostra de Arte Urbana 2012, organizada pela Galeria de Arte Urbana na Calçada da Glória.

Maria Margarida na inauguração do Bairro da Cruz Vermelha
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua Maria Margarida foi o topónimo atribuído pelo Edital municipal de 27 de outubro de 1966 à  Rua 1 do Bairro Municipal da Cruz Vermelha, para assim homenagear ainda em vida a Presidente da Secção Auxiliar Feminina da Cruz Vermelha, Maria Margarida Montenegro Fernandes Tomás de Morais. O arruamento foi acrescido ainda da Rua A e do Largo B do Bairro da Cruz Vermelha por determinação do Edital municipal de 25 de junho de 1985.

Ao contrário do que era hábito na toponímia de Lisboa desde a criação da Comissão Municipal de Toponímia no ano de 1943, os arruamentos do Bairro municipal da Cruz Vermelha, dados pelo Edital municipal de 27 de outubro de 1966, receberam o nome de pessoas ainda vivas, a saber, o de seis mulheres da Secção Auxiliar Feminina da Cruz Vermelha que naquela década haviam promovido uma campanha nacional de angariação de fundos para a construção do Bairro, tendo perante as câmaras da RTP solicitado um escudo  a cada telespetador – um escudo equivale a cerca de meio cêntimo dos nossos dias -, para se proceder ao realojamento das famílias cujas barracas na Quinta da Feiteira (à Charneca do Lumiar), tinham sido destruídas por um incêndio em 15 de julho de 1963.  As beneméritas ficaram identificadas exclusivamente pelos seus nomes próprios: Rua Maria Carlota (de Maria Carlota Saldanha Pinto Basto), Rua Maria Emília (de Maria Emília Moreira Sena Martins), Rua Maria Helena (de Maria Helena Monteiro de Barros Spínola, mulher de António de Spínola), Rua Maria Ribeiro (de Maria Ribeiro Espírito Santo Silva de Melo) e Rua Maria Teresa (de Maria Teresa Assis Palha Holstein Beck) e esta Rua Maria Margarida. Nos restantes arruamentos a edilidade lisboeta completou a toponímia necessária com a Rua das Duas Marias, a Rua das Três Marias, a Rua das Quatro Marias, a Rua das Cinco Marias e o Largo das Seis Marias.

Da toponímia inicial do Bairro municipal da Cruz Vermelha, popularmente conhecido como das Marias, hoje restam a Rua Maria Carlota e esta Rua Maria Margarida, assim como as outras «Marias» que se juntaram depois: a Rua Maria Albertina (Edital municipal de 25 de junho de 1985) e as Ruas Maria Alice, Maria do Carmo Torres e Maria José da Guia ( Edital municipal de 5 de julho de 2000).

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Maria do Carmo Torres e Glam unidas pelo Fado nas ruas do Lumiar

(Foto: © Bruno Cunha, 2019 |DPC |DMC |CML )

Maria do Carmo Torres e Catarina Glam,  são duas mulheres unidas pelo Fado e pelo  Festival de Arte Urbana de Lisboa, no Lumiar. Maria do Carmo Torres, voz fadista perpetuada em topónimo numa rua desta zona e Catarina Glam pela sua intervenção mural  centrada na figura de uma fadista.

Glam é o nome artístico de Catarina Monteiro, nascida em 1985, cuja paixão pelas cores e formas a fez enveredar desde o ano 2000 pelo graffiti e pintura de murais. Esta licenciada em Design de Comunicação  pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa que já participou no MURO’16 também transitou, gradualmente, para a execução de  esculturas em papel e madeira, peças e personagens que desenvolveu para várias entidades e inúmeras exposições e festivais. A sua estética assenta na geometria e no seu interesse pela carpintaria criando assim criar personagens em sólidos geométricos, para além de trabalhar também a  reciclar materiais.

Da sua obra, destaquem- se os seus trabalhos em festivais como o MS Artville de Hamburgo e o Iminente Festival em Lisboa ( ambos em 2017), assim como desde 2015 no Walk&Talk dos Açores,  International From Waste To Art Exhibition de Baku, Ruelles de Lyon, Loures Arte Pública, Sm’arte Festival de Bragança,  UPFest de Bristol,  Tons de Primavera de Viseu, Trashplant Festival e Festival Boreal (ambos em Tenerife), Putrica de Freamunde, Super Bock Super Rock, Poesia na Rua  da Amadora, Festival Pitoresco de Vila Real e o Arte Pública de Leiria. Refiram-se também as suas exposições Silver Kings & Paper Toys (2014) e Glam Baby Show(er) (2016), em Lisboa, bem como a sua participação na Amarte no Mercado do Bairro Alto, Meeting Art [Point] nos Armazéns do Chiado, Garagem – Centro Difusor de Artes na Cervejaria Ramiro, The Exhibitionists na Funarte Gallery, Merc’Art no Timeout Market e no Lx Factory, ou Super Bock Coruja no Timeout Market, para além de fora de Lisboa ter marcado presença na Lá Vai Ela de Mala Posta no Centro Cultural Malaposta, na Movie Posters da Incrível Almadense, na Marias dos Tamancos  de Estarreja, na 100 Dollar Bills Y’all na Circus Gallery do Porto ou na Mar Motto em Sesimbra.

Maria do Carmo Alves Torres foi uma cantadeira de fado nascida na piscatória vila algarvia da Fuzeta (Olhão), no dia 8 de janeiro de um dos primeiros anos do século XX,  que ainda em bebé foi morar para Setúbal e seguiu o percurso de trabalhar numa fábrica de conservas de peixe. Em paralelo, fazia teatro amador e foi assim que aos 19 anos ( supõe-se que seja à roda de 1926) se estreou como intérprete  do garoto das filhoses numa revista de amadores levada à cena no Salão Recreio do Povo, em Setúbal, de onde seguiu para outra revista no Casino de Setúbal, onde imitou o conhecido pescador António Gouga, tendo sido obrigada pelos aplausos a cantar 7 vezes seguidas e daí passou para uma revista no Casino Estoril.

Após o suicídio do seu filho de 16 anos a castiça intérprete acabou por fixar-se em Lisboa, no 2º andar do n.º 119 da Travessa dos Fiéis de Deus. Teve depois uma filha a que chamou Maria Carolina. Na capital, trabalhava como empregada de balcão no Café-Restaurante Sul-América e um dia em que acabou por substituir a cantadeira Maria Virgínia, o diretor Mendes Leal e Alfredo Madeira proporcionaram-lhe a aquisição do carteira profissional e a partir daí, cantou o fado nas esperas de touros do Campo Pequeno, nos teatros e salões de festas dos cinemas, em festas de caridade e nas particulares como as da Condessa de Ficalho, bem como até na então denominada Emissora Nacional. Do seu reportório foram sucessos O SonhoMaria da Graça,  Não Me PersigasMaria da EsperançaCarta em Verso, Fado da Amora, Os beijos são como as rosas e O Que é de Mais Faz Mal, sendo Adriano Reis o seu letrista favorito. A partir de 1934, integrou a Embaixada do Fado, organizada por Maria do Carmo Alta e dirigida por Alberto Reis, que se exibiu no Porto e fez uma digressão pelo Brasil, Argentina e Uruguai, incluindo o guitarrista ArmandinhoBerta Cardoso, Branca Saldanha, Lina Duval, Filipe Pinto, Joaquim Pimentel e Eugénio Salvador, entre outros.

Cantou nas diversas casas especializadas de fado lisboetas como o Retiro da Severa (Rua António Maria Cardoso, n.º 5), o Solar da Alegria (Praça da Alegria, n.º 56, num prédio já desaparecido), o Café Luso (no n.º 27 da Avenida da Liberdade, de onde passou em 01/11/1939 para o n.º 131 da mesma Avenida e ainda mais tarde, para a Travessa da Queimada, n.º 8), o Café Mondego (Rua da Barroca, 124), o Retiro dos Marialvas (Rua da Barroca, 122 a 126), a Adega da Lucília (Rua da Barroca, 54) antes de se chamar O Faia e o Solar do Marceneiro (ao fundo da Calçada de Carriche).

No final de 1944 apadrinhou a estreia artística de Deolinda Rodrigues e cerca de 7 anos depois,  após 1951, de acordo com o estudioso Eduardo Sucena retirou-se do fado, para casa de uma irmã e faleceu nessa mesma década em Leça do Bailio.

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Maria Alice e Third no Festival de Arte Urbana de Lisboa – MURO’19

(Foto: © Bruno Cunha, 2019 |DPC |DMC |CML )

A Rua Maria Alice tem ao longo de sete prédios, a intervenção de Third no MURO’19 – Festival de Arte Urbana de Lisboa, para narrar em pintura a história de Glória Mendes Leal de Carvalho, a fadista Maria Alice e a primeira a gravar um disco em Portugal, que desde o ano 2000 está perpetuada como topónimo da Freguesia do Lumiar.

Já o artista Third  é Nuno Príncipe Palhas, nascido em Vila Nova de Gaia em 1979, e que cedo revelou uma paixão pela cultura hip hop e a partir de 1996 se dedicou à pintura mural, a par do seu trabalho de designer têxtil para uma marca de streetwear. Expressa-se hoje através da arte urbana e da ilustração, com um estilo reconhecível pelo seu realismo, quer na forte presença dos retratos, como por exemplo a sua Carmen Miranda, quer nas estruturas tridimensionais que cria num hábil jogo de luz e sombra, sejam criaturas fantásticas ou robóticas.

De forma resumida, destaque-se que pintou obras em Águeda com o Colectivo Rua, um dragão para o Estádio do Dragão, participou no Festival de Arte Mural de Cascais, Festival de Murals i Art Rural a Penelles ( Catalunha -Espanha), Festival Sebastianas de Paços de Ferreira, o Míscaros – Festival do Cogumelo (Alcaide – Fundão), o mural inspirado na poesia de José Régio para a GAU na Calçada da Glória (em 2015),  para o Parque do Corgo (Vila Real) ou o Tons da Primavera de Viseu. Ainda recentemente expôs na 60-62 Art Gallery do Porto e ainda este ano vai participar na Exposição CAIS Urbana.

Maria Alice foi o nome artístico de Glória Mendes Leal de Carvalho (Figueira da Foz/01.09.1904 – 13.02.1996/Lisboa), a cantora de voz fina, maviosa e castiça  que foi muito popular na década de 30 do século XX  a ponto de ter gravados vários discos na editora Valentim de Carvalho. Foi também a segunda mulher do editor Valentim de Carvalho que aliás foi quem lhe escolheu o nome artístico, fazendo uso do nome da sua primeira mulher.

Desde os 3 anos de idade que Glória residia em Lisboa e em 1928 estreou-se numa Festa do Fado da Velha Guarda, no retiro Ferro de Engomar, na Estrada de Benfica. Continuou a cantar em Lisboa, em retiros, festas de beneficência, esperas de toiros, bem como integrou duas digressões ao Brasil. Os seus maiores sucessos foram Fado TristePerseguiçãoCrueldadeFado da TraiçãoFado da PerdidaFado-TangoA Voz do PovoA Minha SinaHumildadeVida Triste ou Esse Olhar Dá-me Tristeza. Retirou-se da carreira artística após o seu casamento com Valentim de Carvalho, nos anos quarenta do século XX.

Esta Rua Maria Alice,  que liga a Rua Maria do Carmo Torres à Avenida David Mourão Ferreira, nasceu do Edital municipal de 5 de julho de 2000, ao mesmo tempo que a Rua Maria José da Guia e a Rua Maria do Carmo Torres no Bairro da Cruz Vermelha. Este bairro conhecido popularmente como Bairro das Marias, recebeu mais estes três topónimos marianos, todos de fadistas, todos por sugestão de Appio Sottomayor enquanto membro da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa. Aliás, a designação popular do Bairro resultava da sua toponímia comportar apenas Marias, fosse através dos nomes próprios das senhoras da Secção Auxiliar Feminina da Cruz Vermelha – de cuja iniciativa foram angariados os fundos que permitiram a construção do Bairro Municipal da Cruz Vermelha-, fosse de jogos de nomes como a Rua das Duas Marias, a Rua das Três Marias, a Rua das Quatro Marias, a Rua das Cinco Marias e o Largo das Seis Marias. Na década de oitenta do séc. XX, foi também atribuída no local a Rua Maria Albertina.

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A cantora Maria Albertina e a pantomima gráfica de Pantónio no 3ª Festival de Arte Urbana de Lisboa

Pantónio no MURO’19
(Foto : © CML | DMC | DPC | José Vicente, 2019)

Unidos pelo movimento, o 3º Festival de Arte Urbana de Lisboa, a decorrer desde ontem no Lumiar, integra as presenças da cantora e atriz de revista Maria Albertina, por ser nome de rua local, e Pantónio, o artista do movimento de pantomima gráfica, por executar uma intervenção mural com uma espécie de andorinhas fantásticas nas proximidades da Rua Maria Alice.

Pantónio é o nome artístico de António Correia, natural da Terceira nos Açores, nascido em 1975, que após um percurso bem sucedido em Marketing e Publicidade, decidiu dedicar-se ao que lhe dá mais prazer:  intervir em espaços públicos pela arte, com uma paleta de cores restrita – sobretudo preto, branco e  azul –  e inspirada nas cores da sua ilha natal ( o azul do mar, o branco das nuvens e o preto das rochas vulcânicas), de que resulta uma pantomima gráfica de emoções, uma intensa ideia de constante movimento presente em cada uma das suas obras visuais. As suas obras caracterizam-se por um fluxo de linhas fluídas sugerindo uma grande liberdade de movimentos, semelhantes aos seus gestos quando as pinta a pincel e trincha como se fora um lápis o que usa na mão.

Pantónio já trabalhou em Lisboa, Amadora, Fundão e internacionalmente, nas cidades de Paris,  Averdon, Nantes, Bayonne, Grenoble, Marselha  (todas em França), Pescara (Itália) e Berlim.

Maria Albertina em 1936, por Amarelhe

Maria Albertina, voz do vira e do fado de Lisboa, bem como do elenco de operetas e revistas alfacinhas, ficou como topónimo de uma rua do Bairro da Cruz Vermelha por solicitação do Grupo Folclórico As Tricanas de Ovar, cerca de três meses após o seu falecimento, através do Edital municipal de 25 de junho de 1985, com a legenda «Cantadeira/1909 – 1985».

Maria Albertina Soares de Paiva (Ovar/05.01.1909- 27.03.1985/Lisboa), conhecida pelo nome artístico de Maria Albertina, viveu grande parte da sua vida na capital, onde se estreou em 16 de julho de 1931, no Teatro Maria Vitória, na opereta História do Fado, ao lado de Berta Cardoso. Nos anos trinta conquistou inúmeros prémios como o Guitarra de Ouro (julho de 1932), o prémio Capacete de Ouro (setembro de 1932), venceu o concurso Qual a mais famosa artista do teatro português? (1936) e ganhou o  título de Melhor Cantadeira num concurso da Rádio Luso. Em 1934,  na revista Vista Alegre, com Carlos Ramos fez o célebre quadro «O Fado de Malhoa», a que se seguiram em 1935 os sucessos de Viva a folia!, Bola de neve, O Rapa, Sardinha assada e no ano seguinte, À vara larga, Feira de Agosto, a opereta Coração de Alfama, Há festa na Mouraria, Maria Rita e Água vai em 1937. Em 1941 Maria Albertina entrou na Grande Marcha de Lisboa e a partir da década 60, e durante mais de 20 anos, cantou n’ O Faia, na Rua da Barroca nºs 54-56, no Bairro Alto.

Cantou ainda no Retiro da Severa no Luna Parque, nos teatros Ginásio e Maria Vitória, no Grémio Alentejano e no Maxim’s, no Solar da Alegria e no Salão de Chá do Café Chave d’Ouro, em esperas de touros em Vila Franca de Xira, e também em casas particulares como a da Duquesa de Palmela, do banqueiro Ricardo Espírito Santo e nos palácios do Conde da Torre e de Fontalva, para além de ter participado em digressões pelo Brasil, Argentina, Espanha, E.U.A, Canadá e Paris.

Os seus maiores sucessos musicais foram Voz do Povo,  Meu Filho e Bailarico Saloio e sobretudo, o vira Tricanas de Ovar (1936) de Lopes Costa) criado para o teatro de revista e que em 1966 o locutor Jorge Alves exibiu no programa da RTP Melodias de Sempre. Em 1998, foi editado em CD uma compilação de 16 faixas das suas músicas.

Participou ainda no cinema em A Canção de Lisboa (1933) de Cottinelli Telmo, cantando o fado mouraria Fado dos beijos quentes; em Bocage (1936) para cantar Bailarico Saloio e ainda integrou o elenco de Vendaval Maravilhoso (1949), ambos filmes de Leitão de Barros.

Em nota final, refira-se que Maria Albertina foi mãe do apresentador de rádio e televisão Cândido Mota.

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MURO’19: A bola de San Spiga a rolar no Grupo Desportivo do Bairro da Cruz Vermelha ou das Marias

San Spiga, artista argentino focado no futebol e no sorriso, vai fazer rolar as suas tintas para intervir nas paredes exteriores do Grupo Desportivo e Recreativo do Bairro da Cruz Vermelha, junto à extinta Rua das Três Marias, no Bairro também conhecido popularmente como «Bairro das Marias»,  no âmbito do MURO’19, 3ª edição do Festival de Arte Urbana de Lisboa que desta vez junta arte urbana com sonoridades que a toponímia local ligada à música sugere.

San Spiga é o nome artístico de Santiago Spigariol, nascido em 1981 na Argentina. Este artista  multifacetado, adepto do lema «faz-se, aprende-se», é também desenhador gráfico, professor universitário e investigador da Universidade de Buenos Aires, bem como sócio e diretor criativo da empresa The Brandbean. Tem obra pedagógica e de investigação publicada, tendo despendido dois anos em viagem pelas universidade de desenho mais prestigiadas do mundo para entrevistar alunos e docentes orgulhosos da sua vocação.  O mundo visual  de San Spiga, bem humorado e de sorriso desenhado é feito com paixão e essa vocação natural cria a marca da diferença da sua obra. Já esteve em Lisboa a participar no MURO’16.

A Rua das Três Marias em 1970
(Foto: João H. Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua das Três Marias era a Rua 7 do Bairro Municipal da Cruz Vermelha, atribuída pelo Edital municipal de 27 de outubro de 1966, como os restantes topónimos do Bairro da Cruz Vermelha.

Ao contrário do que era hábito na toponímia de Lisboa desde a criação em 1943 da Comissão Municipal de Toponímia, através do Edital de 27 de outubro de 1966 a Câmara Municipal de Lisboa atribuiu aos arruamentos do Bairro da Cruz Vermelha o nome de pessoas ainda vivas: o de seis mulheres da Secção Auxiliar Feminina da Cruz Vermelha que naquela mesma década promoveram uma campanha nacional de angariação de fundos para a construção do Bairro, tendo até perante as câmaras da RTP solicitado um escudo  a cada telespetador – um escudo equivale a cerca de meio cêntimo dos nossos dias -, para se proceder ao realojamento das famílias cujas barracas na Quinta da Feiteira (à Charneca do Lumiar), tinham sido destruídas por um incêndio em 15 de julho de 1963.  As beneméritas ficaram identificadas exclusivamente pelos seus nomes próprios: Rua Maria Carlota (de Maria Carlota Saldanha Pinto Basto), Rua Maria Emília (de Maria Emília Moreira Sena Martins), Rua Maria Helena (de Maria Helena Monteiro de Barros Spínola, mulher de António de Spínola), Rua Maria Margarida (de Maria Margarida Montenegro Fernandes Tomás de Morais, a presidente da Secção Feminina da Cruz Vermelha), Rua Maria Ribeiro (de Maria Ribeiro Espírito Santo Silva de Melo) e Rua Maria Teresa (de Maria Teresa Assis Palha Holstein Beck). Nos restantes arruamentos a edilidade lisboeta fez nascer a Rua das Duas Marias, a Rua das Três Marias, a Rua das Quatro Marias, a Rua das Cinco Marias e o Largo das Seis Marias.

Desta toponímia inicial do Bairro da Cruz Vermelha, popularmente conhecido como das Marias, hoje restam a Rua Maria Carlota e a Rua Maria Margarida. E as outras «Marias» que se juntaram depois: a Rua Maria Albertina (Edital municipal de 25 de junho de 1985) e as Ruas Maria Alice, Maria do Carmo Torres e Maria José da Guia ( Edital municipal de 5 de julho de 2000).

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RAF e Helena Vaz da Silva no MURO’19

A Rua Helena Vaz da Silva

No talude da Rua Helena Vaz da Silva vai estar presente RAF  com uma intervenção artística com 450 metros de extensão, no âmbito da realização do MURO’19 – Festival de Arte Urbana de Lisboa.

Rui Ferreira é o nome civil de RAF, criador das Produções Artísticas da RAF ART Lda., também tatuador e fundador da MU Workspace Creative Cowork, na Alta de Lisboa. Estudou na Escola Secundária Artística António Arroio e já em 2013 colaborou com a Galeria de Arte Urbana | GAU, ao participar no «Rostos do Muro Azul», na Rua das Murtas.

Área da intervenção artística de RAF para o MURO’19

Helena Vaz da Silva, mulher de cultura e jornalista do Centro Nacional de Cultura e do Instituto Português de Cinema, é topónimo de Rua do Alto do Lumiar desde a publicação do Edital municipal de 20 de novembro de 2003, numa artéria que parte da confluência da Avenida Álvaro Cunhal, Rua Arnaldo Ferreira, Rua General Vasco Gonçalves e Avenida Eugénio de Andrade para chegar à Avenida David Mourão-Ferreira.

Helena Maria da Costa de Sousa Macedo Gentil (Lisboa/03.07.1939 – 12.08.2002/Lisboa), nascida alfacinha no nº7 C do Largo Dr. António de Sousa Macedo, estudou em colégios católicos e quando terminou o ensino secundário ficou a ensinar Moral e Francês no Colégio das Oblatas, tendo também aos 17 anos conseguido o seu primeiro emprego como correspondente de línguas na Agência de Publicidade Manuel Martins da Hora, onde outrora trabalhara Fernando Pessoa. Em 1959, casou com Alberto Vaz da Silva, de quem teve quatro filhos (Francisco, Salvador, Tomás e Helena) e esta decisão pessoal vai marcar a sua carreira profissional futura já que o  seu círculo de amigos próximos passou a incluir Alçada Baptista, Nuno Bragança, João Bénard da Costa, Pedro Tamen, bem como José Escada, Luís Sousa Costa e Mateus Cardoso Peres. Concretizaram juntos em 1963 a revista católica de oposição ao regime salazarista, O Tempo e Modo, dirigida por Alçada Baptista, editada por Pedro Tamen, com chefia de redação de João Bénard da Costa e tendo como principais redatores Nuno Bragança e Alberto Vaz da Silva.

Em 1965, Helena Vaz da Silva assumiu a responsabilidade da edição portuguesa da revista Concilium, para difundir o espírito de Vaticano II, a partir da qual também se organizaram debates e seminários. E três anos depois, em 1968, foi para Paris fazer a sua formação de jornalista. Regressou a Portugal em 1972, para retomar o trabalho na O Tempo e o Modo, onde organizou dois números especiais, um sobre Deus e outro sobre o casamento, tendo este último sido apreendido pela Censura após a publicação. Ainda em 1972 dirigiu a empresa turística algarvia da Quinta da Balaia. Em 1973 ingressa no semanário Expresso, onde até 1976 assumiu a coordenação da «Revista», para além do trabalho de reportagens, crónicas e entrevistas. Depois foi trabalhar para a Direção de Programas Sociais e Políticos da RTP, a que regressou em 1993, para o Conselho de Opinião da RTP. Esteve na Agência ANOP (1977), onde trabalhou como grande repórter e chefe da secção de cultura e educação, para além de se ter associado à revista Raiz e Utopia, fundada em 1977 por António José Saraiva, passando em 1978 a ser a proprietária e diretora da mesma.

De 1979 até à sua morte presidiu ao Centro Nacional de Cultura, sendo muito recordada pelos lisboetas pela criação dos Passeios de Domingo, iniciativa de itinerários culturais pioneira em Portugal. Em 1980 foi nomeada Vice-Presidente do organismo de apoio à criação cinematográfica, o Instituto Português de Cinema.

Do vasto currículo de Helena Vaz da Silva refira-se que foi tradutora, nomeadamente de Yourcenar e deixou obra publicada como Júlio Pomar com Helena Vaz da Silva (1979), Portugal – o último descobrimento (1987); fez crónicas para a Antena 1, TSF, Comercial e Rádio Renascença; integrou a Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses (1987) e a Comissão Nacional da UNESCO (de 1989 a 1994); foi deputada no Parlamento Europeu, como independente eleita nas listas do PSD (1994-1999); presidiu à Comissão Cidadão e Justiça (1990); foi membro do Conselho de Orientação para os Itinerários Culturais do Conselho da Europa, do Conselho Estratégico de Lisboa (1992), da Comissão para o Futuro da Televisão em Portugal (1996), do Conselho Geral do Movimento Europeu e ainda, presidiu ao Grupo de Trabalho sobre Serviço Público de Televisão, a partir de 5 de junho de 2002.

A intervenção de RAF na Rua Helena Vaz da Silva
(Foto: Bruno Cunha| DPC| 2019)

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A Rua Maria José da Guia, Tamara Alves e Ozearv no MURO’19

A 3ª edição do Festival de Arte Urbana de Lisboa, o MURO’19, na proximidade da Rua Maria José da Guia, junta Tamara Alves e Ozearv numa intervenção artística conjunta no muro do estacionamento, ligando assim a arte urbana à música presente na toponímia local. Tamara Alves & Ozearv realizarão também um workshop no local.

Tamara Alves, nascida em 1983 é uma artista multifacetada que se exprime da pintura à  ilustração, das tatuagens à arte mural urbana, com o denominador comum de uma visão erótica de um corpo contemporâneo com limites expandidos: sem órgãos, uma paixão bruta, um devir animal. Desde o ano 2000 que participa em diversos projetos, exposições individuais e coletivas, afirmando-se como uma das mulheres mais conhecidas da arte urbana.

José Carvalho, nascido em 1980, é o nome civil do artista Ozearv, licenciado em Artes Plásticas pela Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha. Desde 1996 que tem integrado diversos projetos individuais e coletivos, políticos e humanitários, como membro da primeira geração de artistas de arte urbana portugueses. O seu trabalho para a arte mural procura o espaço, o movimento e a cor das cidades e os seus contrastes, através de técnicas que vão do aerosol ao stencil, da ilustração à fotografia, para «preencher o branco que existe no dia-a-dia de cada um de nós». Já em 2017, na 2ª edição do MURO, integrou o «Incursões pela Arte» em que pintou com os alunos da Escola Básica de Marvila.

A Rua Maria José da Guia,  que liga a Rua Pedro Queirós Pereira à Rua Maria Carlota, nasceu do Edital municipal de 5 de julho de 2000, junto com a Rua Maria Alice e a Rua Maria do Carmo Torres no Bairro da Cruz Vermelha. Este bairro conhecido popularmente como Bairro das Marias, recebeu mais estes três topónimos marianos, todos de fadistas, todos por sugestão de Appio Sottomayor enquanto membro da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa.

Maria José da Guia

Maria José dos Santos Guia de Freitas (Angola/16.10. 1929 – 02.09.1992/Espanha) que usou o nome artístico de Maria José da Guia, ficou famosa no Fado na década de quarenta do século XX. Aos quatros anos foi morar para Alfama e aí começou a cantar, tendo  até sido mascote da Marcha de Alfama. A sua carteira profissional data de 1944 e a sua voz sustentava-se num corpo vestido de negro e xaile traçado.

Maria José da Guia cantou em várias casas de fado do Bairro Alto e de Alfama, tendo integrado os elencos do Café Luso, do Retiro da Severa, do Faia ou da Adega Machado. Celebrizou fados como Lisboa Antiga – com letra de José Galhardo e música de Raúl Ferrão -, Casa Portuguesa ( letra de Gustavo de Matos Sequeira e Reinaldo Ferreira com música de Artur Fonseca), Grão de Arroz ( letra e música de Belo Marques), Sempre que Lisboa Canta ( letra de Aníbal Nazaré e música de Carlos Rocha), Bairro Divino (letra e música de Álvaro Duarte Simões), Ciúme duma Verdade (letra de Fernando Peres e música de Jaime Santos, Victor Ramos e Santos Moreira),  Fado da Minha Saudade ( letra de Fernando Peres e música de Francisco José Marques), Um Golpe de Vento (letra de Linhares Barbosa e música de Nuno Meireles) ou o fado Severa ou a Marcha dos Centenários (letra de Norberto de Araújo e música de Raúl Ferrão).

No Fado, Maria José da Guia foi madrinha artística de Ada de Castro mas também passou pela rádio e televisão, assim como participou em várias revistas dos Teatros Maria Vitória, Variedades e ABC, no Parque Mayer, para além de ter cantado no filme O Homem do Dia (1958) de Henrique Campos. Na vida pessoal, Maria José da Guia casou com Amadeu José de Freitas, profissional do relato desportivo nos jornais, na rádio e na televisão, com quem teve dois filhos.

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A Rua Maria Carlota do Bairro da Cruz Vermelha e a cianotipia da Agência Calipo no MURO’19

(Foto: © Bruno Cunha| CML| DPC| 2019)

O pátio nas traseiras dos prédios da Rua Maria Carlota, no antigo Bairro da Cruz Vermelha ou das Marias,  junto à Associação dos Moradores do Bairro da Cruz Vermelha,  é o palco da Agência Calipo no MURO’19 para a realização de wokshops de cianotipia, que têm decorrido nos sábados e domingos deste mês e assim sucederá também nos próximos dias 18, 19, 25 e 26 de maio.

A Agência Calipo junta fotógrafos de distintas linguagens visuais e técnicas fotográficas, que partilham entre si o conhecimento, a discussão de ideias e sobretudo, a vontade de produzir trabalho de qualidade, desde 2014. São eles Alice Wr, Filipe Canário, João José Bica, José Vicente, Luís Vintém, Manuel Falcão Malzbender, Marcin Górski, Mário Tavares e Rui Cartaxo Rodrigues.

Já a Rua Maria Carlota, que foi antes da publicação do Edital identificada como Rua 10 do Bairro Municipal da Cruz Vermelha e hoje liga a Rua Maria do Carmo Torres à Rua Maria José da Guia,  homenageia Maria Carlota de Saldanha Pinto Basto, nascida em Lisboa, na então freguesia da Lapa, em 13 de junho de 1945, filha de Tomás Ferreira Pinto Basto e Maria Carlota da Câmara de Saldanha, sendo irmã de Maria Ana de Saldanha Pinto Basto e de Teresa de Jesus de Saldanha Pinto Basto. Era uma das senhoras da Cruz Vermelha que contribuíram para o nascimento do Bairro da Cruz Vermelha.

Por edital de 27 de outubro de 1966, ao contrário do que era hábito na toponímia da cidade, a Câmara Municipal de Lisboa atribuiu aos arruamentos do Bairro da Cruz Vermelha o nome de pessoas ainda vivas, sendo neste particular o de seis mulheres da Secção Auxiliar Feminina da Cruz Vermelha que naquela mesma década promoveram uma campanha nacional de angariação de fundos para a construção do Bairro, tendo até perante as câmaras da RTP solicitado um escudo  a cada telespetador – um escudo equivale a cerca de meio cêntimo dos nossos dias -, para se proceder ao realojamento das famílias cujas barracas na Quinta da Feiteira (à Charneca do Lumiar), tinham sido destruídas por um incêndio em 15 de julho de 1963.  As beneméritas ficaram identificadas apenas pelos seus nomes próprios: Rua Maria Carlota (de Maria Carlota Saldanha Pinto Basto), Rua Maria Emília (de Maria Emília Moreira Sena Martins), Rua Maria Helena (de Maria Helena Monteiro de Barros Spínola, mulher de António de Spínola), Rua Maria Margarida (de Maria Margarida Montenegro Fernandes Tomás de Morais, a presidente da Secção Feminina da Cruz Vermelha), Rua Maria Ribeiro (de Maria Ribeiro Espírito Santo Silva de Melo) e Rua Maria Teresa (de Maria Teresa Assis Palha Holstein Beck), acrescentando ainda nos arruamentos restantes do Bairro, a Rua das Duas Marias, a Rua das Três Marias, a Rua das Quatro Marias, a Rua das Cinco Marias e o Largo das Seis Marias, pelo que não é de estranhar que popularmente o Bairro também fosse conhecido como o «Bairro das Marias».

Desta toponímia inicial do Bairro hoje restam apenas esta Rua Maria Carlota e a Rua Maria Margarida. Nos anos oitenta do século passado, pelo Edital municipal de 25 de junho de 1985 foi acrescentada a Rua Maria Albertina, em homenagem a uma cantora de temas populares e de fado, pelo que quando o Bairro cresceu em mais três arruamentos, o Edital municipal de 5 de julho de 2000, colocou lá os nomes de mais três cantoras e fadistas, todas marianas: Maria Alice, Maria do Carmo Torres e Maria José da Guia.

Nos anos sessenta do séc. XX, a edilidade lisboeta adquiriu um terreno de seis hectares da Quinta da Feiteira para aí ser edificado o Bairro da Cruz Vermelha correspondendo à campanha então lançada. A inauguração oficial teve lugar em 13 de dezembro de 1966, com a entrega de chaves de 230 fogos, não só às famílias vítimas do incêndio que despoletou a contrução do Bairro, mas também a outras que a campanha «Dez Tostões para uma Casa» do jornal Diário de Notícias permitiu acrescentar. No ano seguinte, em janeiro, a CML adjudicou a construção do grupo escolar do Bairro a António Augusto Freire e a inauguração oficial teve lugar a 27 de outubro, com a presença do Presidente de então da edilidade, António Vitorino França Borges. Ainda em 1967, em outubro, foi também adjudicada a construção do edifício com  salão de festas e já em janeiro de 1968 foi adjudicada também a construção de uma creche, a  José Matias e em 1969, foi a vez da biblioteca.

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Rua Irisalva Moita

Rua Irisalva Moita, topónimo atribuído a um arruamento da freguesia do Lumiar por Edital de 17 de Março de 2017

Irisalva Constância da Nóbrega Neves Moita (1924-2009), olisipógrafa, arqueóloga, funcionária da Câmara Municipal de Lisboa. Licenciada em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, dedicou-se à Arqueologia, e à Museologia. Começou a sua actividade profissional como bolseira do Instituto de Alta Cultura (de 1951 a 1974), onde procedeu a trabalhos arqueológicos e históricos pioneiros sobre a cultura dolménica e, posteriormente, em 1959, sobre a cultura castreja, em território nacional, tendo em vista o levantamento das respectivas cartas arqueológicas. Em simultâneo frequenta o estágio para Conservadores Adjuntos de Museus, Palácios e Monumentos Nacionais, que conclui em 1955 defendendo a dissertação a “Ante-projecto para a Secção de Arqueologia do futuro Museu Etnológico do Dr. Leite de Vasconcelos”. Em 1954, ocupou brevemente o lugar de Conservadora dos Museus Municipais da Câmara Municipal de Lisboa, ao qual regressa em 1958 e onde permanecerá até à sua reforma em 1994, tendo passado em 1971, ao cargo de Conservadora Chefe. Foi membro de várias instituições culturais, entre as quais, da Associação Portuguesa de Museologia, do Centro Nacional de Cultura, da Academia Nacional de Belas Artes e do Grupo Amigos de Lisboa, do qual foi vice-presidente em 1990. Colaborou na obra Monumentos e edifícios notáveis do distrito de Lisboa, editada pela Junta Distrital de Lisboa, com dezenas de entradas e, entre outros, na Revista Municipal; em Olisipo: Boletim do Grupo Amigos de Lisboa, Revista de Portugal, Revista Ocidente, e Arqueólogo Português.

O seu grande contributo para um aprofundado conhecimento de Lisboa está ligado ao carácter inovador das suas escavações em solo urbano. Em 1959 conduz uma prospecção de terreno e sondagens arqueológicas, em Vila Pouca, na Serra de Monsanto, concluindo que se tratava de um povoado neolítico. No ano seguinte com o início dos trabalhos para a abertura da estação de Metro no Rossio, Irisalva Moita é nomeada responsável pela recolha e identificação dos vestígios do Hospital Real de Todos-os-Santos, naquela que é considerada a sua primeira grande intervenção em solo urbano. Em 1961, o mesmo ocorre na Praça da Figueira, sendo Irisalva a responsável pelo trabalho no cemitério luso-romano posto a descoberto. É ainda por insistência sua que a autarquia decide suspender os trabalhos em 1962, permitindo que uma outra equipa tivesse tempo para aprofundar a investigação arqueológica. Anos mais tarde, entre 1965 e 1967, Irisalva Moita voltaria a terreno urbano, para dar continuidade às escavações do Teatro Romano, na Rua de S. Mamede. Na impossibilidade de poder proceder à conclusão da escavação (uma vez que as ruínas se estendiam sob propriedades privadas que o município não conseguiu adquirir) Irisalva Moita protegeu a área escavada deixando-a preservada de modo a que mais tarde se pudesse a ela retornar. O que de facto aconteceu a partir do início do século XXI. Esta é aliás uma das suas mais conhecidas facetas: a constante devoção à defesa da preservação do património histórica de Lisboa quer como cidadã, quer como membro de diversas Comissões, entre as quais a Municipal de Arte e Arqueologia, a de Preservação do Património Arquitectónico, Artístico e Urbanístico, a de Defesa do Património Cultural e Ambiental ou a de Estética Citadina.

Para além da Arqueologia, Irisalva Moita desenvolveu uma notável actividade como museóloga, sendo da sua autoria o programa para o Museu da Cidade (actual Museu de Lisboa) no Palácio Pimenta, adquirido pela Câmara em 1962 mas que só abriria ao público em 1979. Já em 1958 apresentara um plano para o Museu Etnológico Dr. Leite de Vasconcelos, e em 1970, numa conferência no Museu de Arte Antiga, apresenta Fundamentos dum museu de Lisboa, defendendo ao longo da vida a criação e reestruturação de museus regionais e locais. Representou os museus na dependência das autarquias no grupo Museus da UNESCO, foi vogal da Comissão Organizadora do Instituto de Salvaguarda do Património Cultural e Natural, e representante dos Museus Municipais no Conselho Consultivo do Instituto Português do Património Cultural. Enquanto dirigiu os Museus Municipais de Lisboa, planeou, organizou e coordenou dezenas de exposições e os respectivos catálogos dos quais devemos salientar O Povo de Lisboa (1979), Lisboa e o Marquês de Pombal (1982), Lisboa Quinhentista. A imagem e a vida na cidade (1983) e D. João V e o Abastecimento de Água a Lisboa (1990). Em 1994, coordenou a edição de O livro de Lisboa para o qual redige dois capítulos (“Das origens pré-históricas ao domínio romano” e “Lisboa no século XVI”), o qual viria a ser a sua última grande obra, mas que veio colmatar uma enorme lacuna na bibliografia olisiponense, até então ainda muito dependente dos primeiros olisipógrafos. Ao reunir num único volume, a colaboração de diversos especialistas, e alternando textos gerais com textos que apresentam casos específicos para cada época, mais uma vez Irisalva Moita deu o seu pioneiro contributo para a renovação dos Estudos Olisiponenses.

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Rua Julieta Ferrão

Em 1952, na inauguração da exposição sobre D. João da Câmara
(Foto: Firmino Marques da Costa, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua Julieta Ferrão, topónimo atribuído a um arruamento da freguesia das Avenidas Novas por Edital de 10 de Agosto de 1978

Julieta Bárbara Ferrão (1899-1974), conservadora dos Museus Municipais da Câmara Municipal de Lisboa. Pertenceu à Sociedade Nacional de Belas Artes, à Cruzada das Mulheres Portuguesas, à Associação Feminina Portuguesa para a Paz e ao Grupo Amigos de Lisboa. A vida de Julieta Ferrão está intimamente ligada à do museu Rafael Bordalo Pinheiro uma vez que era afilhada e sobrinha por afinidade de Artur Ernesto Santa Cruz Magalhães, coleccionador da obra daquele artista, colecção iniciada em 1895.

Ao longo da sua vida Cruz Magalhães reuniu originais, objectos pessoais, correspondência e periódicos de Bordalo, decidindo criar de raiz um museu dedicado ao artista. Assim, a partir de 1813 começa a criar o museu cujo plano inicial incluía três salas para a exposição da colecção, uma escola primária feminina e uma casa para a professora. Desde o início que Julieta participa no projecto ajudando o padrinho principalmente na aquisição de peças e convencendo outros coleccionadores a doá-las. A sua formação escolar fizera-se no ensino particular, tendo ainda aulas de violino e de escultura com Raul Xavier e crescera num ambiente imbuído de ideais republicanos, fazendo amizade com muitas das figuras femininas republicanas conhecidas, como Sara Benoliel, Ana de Castro Osório, Maria Lamas e Elina Guimarães, por exemplo. O museu é inaugurado a 6 de Agosto de 1916, tendo apenas as 3 salas previstas no projecto. Num dos registos de Ferrão assinala-se que em pouco mais de 4 anos, o museu recebera mais de 7000 visitantes e rendera uma quantia considerável que fora distribuída por várias associações filantrópicas, entre as quais a Cruz Vermelha e a Cruzada das Mulheres Portuguesas. Desde o início, Julieta Ferrão está à frente da instituição em parceria com Cruz de Magalhães e rapidamente se apercebe que o museu teria de crescer. Em 1919 contava já 9 salas e a ideia da escola feminina fora abandonada. Em 1920, cria-se o Grupo de Amigos Defensores do museu, do qual foi secretária, substituindo Cruz Magalhães sempre que necessário. Em 1922 publica a 1ª monografia sobre o museu, embora, já antes disso tivesse colaborado em vários periódicos. Em simultâneo, não descura a sua aprendizagem, tornando-se assinante de várias revistas europeias da especialidade, como, por exemplo, a Museum, ou a Musées et Monuments, ao mesmo tempo que realiza algumas viagens pela Europa conhecendo outros museus.

Em 1924, Cruz Magalhães doa o museu à Câmara Municipal, sendo condição da doação a manutenção de Julieta Ferrão como sua directora. Integrada nos quadros de pessoal da edilidade, Julieta dava assim início a uma carreira formal de conservadora. Dizia de si própria que sofria de “doença bordaliana, ou seja, de rafaelite aguda”, tal a sua dedicação ao museu e à figura de Bordalo. A sua obra será um reflexo dessa “doença”: Rafael Bordalo Pinheiro e a Crítica (1924); Guia do Museu Rafael Bordalo Pinheiro (1927) Rafael Bordalo Pinheiro e a Faiança das Caldas (1933). Nos seus relatórios sobre o museu não deixa de fazer uma análise crítica às necessidades do mesmo: pugna pela instalação de um alarme de incêndios, por uma maior segurança, pelo aumento de pessoal, e sobretudo pela aquisição de peças ainda em vida do último pintor que trabalha com o mestre Bordalo. Paralelamente organiza exposições, colabora em periódicos, como o Modas e Bordados, A Capital, O Século, Diário de Notícias, e Revista Municipal, entre muitos outros. Apesar de já exercer a função de conservadora de museu, ingressa no primeiro curso de Conservador, organizado por João Couto, director do Museu Nacional da Arte Antiga.

Em 1942 a Câmara Municipal, no seguimento de uma reorganização dos Serviços Culturais, cria o Serviço dos Museus Municipais, sendo Julieta Ferrão a primeira mulher a desempenhar esse cargo. A sua obra alarga-se para além de Rafael publicando Lisboa, Lisbon, Lisbonne (1952), A conquista de Lisboa por um caldense (1955), Vieira Lusitano (1956), colabora na Nova Colecção da Arte Portuguesa (1956) e Há 70 Anos (1962) ao mesmo tempo que organiza ou colabora na organização de dezenas de exposições dos museus municipais. Em 1969 reforma-se por ter atingido a idade máxima. Mas a Câmara viria a convidá-la, no ano seguinte, para integrar a Comissão Municipal de Toponímia, cargo que desempenhou até à sua morte e mais uma vez sendo a primeira mulher a integrar a comissão.

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