A Rua da Cooperativa de Caselas e a Rua Sara Afonso

Freguesia de Belém
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Desde 1988 que a Rua Sara Afonso é o topónimo oficial da artéria que antes era vulgarmente conhecida por Rua da Cooperativa de Caselas, razão para que nos últimos 29 anos as duas denominações tenham coexistido no Bairro de Caselas.

Como era hábito fazer-se para os bairros sociais na década de 50 do século passado  também o Bairro de Caselas, traçado por  Couto Martins e construído em 1949, recebeu toponímia numérica para os seus arruamentos pelo Edital municipal de 15 de março de 1950. Entretanto, chegados os anos 80, a então Junta de Freguesia de São Francisco Xavier (hoje o território é pertença administrativa da Junta de Freguesia de Belém) solicitou à edilidade que fossem atribuídos topónimos aos arruamentos do Bairro de Caselas e assim sucedeu através do Edital municipal de 20 de abril de 1988 que atribuiu 12 topónimos em ruas, sendo 7 de mulheres, a saber:  a pintora Sara Afonso e 1ª mulher a frequentar as tertúlias de A Brasileira (Rua da Cooperativa de Caselas), a médica Carolina Ângelo e  1ª mulher a votar em Portugal (Rua 1), a republicana setecentista Leonor Pimentel (Rua 2), a pedagoga Alice Pestana (Rua 3),  Virgínia Quaresma a 1ª jornalista portuguesa (Rua 4), a 1ª notária portuguesa Aurora de Castro (Rua 6) e a escritora Olga Morais Sarmento (Rua 7).

Talvez por a Rua Sara Afonso não ter substituído um topónimo numérico, conforme era anseio dos moradores, mas antes um topónimo que popularmente lhe fora dado pelos residentes se tenha mantido na memória  da população do Bairro de Caselas.

Imagem relacionada

Família, 1937 (óleo sobre tela)

A Rua Sara Afonso, que liga a  Rua Carolina Ângelo à Rua Padre Reis Lima, homenageia  Sarah Affonso (Lisboa/ 13.05.1899 – 14.12.1983/Lisboa) a pintora alfacinha que foi uma das últimas discípulas de Columbano na Escola de Belas Artes de Lisboa, a que somou duas estadias em Academias livres de Paris (1923-1924 e 1928-1929) e a frequência das tertúlias de A Brasileira, nos anos trinta do séc. XX, que até aí eram território masculino.

Sara desenvolveu um estilo oriundo do imaginário popular minhoto, zona onde viveu dos 4 aos 15 anos, a que aliou uma intensa temática de noivados, maternidades e famílias, assim integrando a   segunda geração de pintores modernistas portugueses, com Bernardo Marques, Mário Eloy ou Carlos Botelho. Acabou  por  abandonar a pintura no final da década de quarenta, tendo ainda sido galardoada com o Prémio Amadeo de Sousa Cardoso (1944) do SNI. Na década seguinte regressou à ilustração de obras de literatura infantil com A Menina do Mar de Sophia de Mello Breyner Andresen, para além de na sua carreira ter colaborado no grafismo das revistas Presença e Eva. A sua obra pictórica está representada no Museu do Chiado, no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, bem como nos Museus de Bragança e de Amarante, tendo sido agraciada com Ordem de Santiago de Espada (1981). Dá também nome à Escola Básica e Jardim de Infância sita na Rua Almada Negreiros, nos Olivais.

Na sua vida pessoal, casou em 1934 com José de Almada Negreiros, passando a usar o nome de Sarah Affonso de Almada Negreiros, tendo tido dois filhos (José Afonso e Ana Paula) e residido no nº 42 da Rua de São Filipe Nery.

Freguesias de Belém
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua Maria José da Guia no «Bairro das Marias»

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Bairro da Cruz Vermelha, conhecido popularmente como Bairro das Marias, recebeu no ano 2000 mais três topónimos marianos, todos de fadistas, todos por sugestão de Appio Sottomayor enquanto membro da Comissão Municipal de Toponímia e um desses três foi a Rua Maria José da Guia.

A Rua Maria José da Guia,   com início na Rua Pedro Queirós Pereira e fim na Rua Maria Carlota do Bairro da Cruz Vermelha, nasceu do Edital municipal de 5 de julho de 2000, junto com a Rua Maria Alice e a Rua Maria do Carmo Torres, ambas homenageando também fadistas, tendo a cerimónia de inauguração ocorrido em 27 de junho de 2001.

Maria José dos Santos Guia de Freitas (Angola/16.10. 1929 – 02.09.1992/Espanha) que usou Maria José da Guia como nome artístico foi uma das protagonistas nascidas para o Fado na década de 40 do século XX. Desde os quatro anos que morava em Alfama e foi nesse Bairro que começou a cantar tendo até sido mascote da Marcha de Alfama. A sua carteira profissional data de 1944 e a sua voz sustentada num corpo vestido de negro e xaile traçado cantou por várias casas de fado do Bairro Alto e de Alfama, sendo de referir o ter integrado os os elencos do Café Luso, do Retiro da Severa, do Faia ou da Adega Machado.

Maria José da Guia celebrizou fados como Coimbra ou Lisboa Antiga – ambos com letra de José Galhardo e música de Raúl Ferrão -, Casa Portuguesa ( letra de Matos Sequeira e Reinaldo Ferreira com música de Artur Fonseca), Sempre que Lisboa Canta ( letra de Aníbal Nazaré e música de Carlos Rocha), Barro Divino (letra e música de Álvaro Duarte Simões), Ciúme duma Verdade (letra de Fernando Peres e música de Jaime Santos, Victor Ramos e Santos Moreira),  Fado da Minha Saudade ( letra de Fernando Peres e música de Francisco José Marques), Um Golpe de Vento (letra de Linhares Barbosa e música de Nuno Meireles), Grão de Arroz ( letra e música de Belo Marques), a Marcha dos Centenários (letra de Norberto de Araújo e música de Raúl Ferrão), Não é Preciso (letra de José António Sabrosa e música de Guilherme Pereira da Rosa) ou A Saudade que me deste (letra de Fernando Peres e música de António Bragança).

No Fado, Maria José da Guia foi ainda madrinha artística de Ada de Castro mas também passou pela rádio e televisão, assim como participou em várias revistas dos Teatros Maria Vitória, Variedades e ABC, no Parque Mayer, para além de ter entrado no filme O Homem do Dia (1958) de Henrique Campos.

Na vida pessoal, Maria José da Guia casou com Amadeu José de Freitas, profissional do relato desportivo nos jornais, na rádio e na televisão, com quem teve dois filhos.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua da pintora Maluda que é nome de fado

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A pintora Maluda dá o seu nome a uma Rua da freguesia de Santa Clara desde 2007 e  também a um fado que Carlos Zel lhe dedicou no seu álbum de 1993.

Maria de Lurdes Ribeiro, que se fixou na nossa memória como Maluda,  deu nome à Rua 1 ou arruamento projetado ao Bairro das Galinheiras oito anos após o seu falecimento, por via do Edital municipal de 27 de abril de 2007, nascendo assim a Rua Maluda (Maria de Lurdes Ribeiro), com a legenda «Pintora/1934 – 1999». O mesmo documento municipal colocou também o escultor Barata Feyo na Rua 2 e  a fadista Berta Cardoso na Rua 3.

Autorretrato de 1968

Maria de Lurdes Ribeiro (Índia – Pangim/15.11.1934 – 10.02.1999/Lisboa) começou na pintura como retratista autodidata, integrada no grupo Os Independentes, ainda em Lourenço Marques, onde viveu a partir de 1948. Depois, estudou em Lisboa (1963)  e Paris (1964), cidade onde trabalhou na Académie Grande Chaumiére com os pintores Jean Augame e Michel Rodde, altura em que se começou a interessar por composições da paisagem urbana. Também estudou em Londres e na Suíça (1977).

Maluda radicou-se em Lisboa no ano de 1967 e logo no seguinte pintou os seus primeiros óleos da cidade. Dois anos depois, concretizou a sua primeira exposição individual, na Galeria do Diário de Notícias e a partir daí desenvolveu uma obra artística que somou retratos – com destaque para os de Amália Rodrigues, Ana Zanatti e Aquilino Ribeiro -, serigrafias, tapeçarias, cartazes, painéis murais, ilustrações e selos de correio. Em 1970, inaugurou a sua casa-atelier na Rua das Praças, na fronteira da Madragoa com a Lapa. Depois pintou sobretudo Lisboa, a sua luz e o lado geométrico e contrastante da cidade, tendo ficado famosas as suas séries Quiosques de Lisboa e As Janelas de Lisboa. A série dos quiosques foi mesmo consagrada numa coleção de selos editada pelos CTT e ganhou o prémio mundial Melhor Selo em Washington (1987) – para o selo do famoso Quiosque Tivoli da Avenida da Liberdade- bem como ganhou em Perigueux (1989), desta vez pelo seu selo Évora Património Mundial. Em 1984 montou exposições individuais em Nova Iorque, Washington e Dallas ao mesmo tempo que participou na Bienal Ibérica em Campo Maior. Em 1993, o fadista Carlos Zel incluiu no seu álbum Fados o Fado Maluda, com letra de Rosa Lobato de Faria e música de Carlos da Maia.

Maluda foi galardoada com o Prémio de Pintura da Academia Nacional de Belas Artes (1979), com os poemas Persiana para Janela de Maluda (I e II) de Alexandre O’Neill em 1981,  com o Prémio Bordalo da Casa da Imprensa (1994),  a Ordem do Infante (1998) pelo então Presidente da República Jorge Sampaio, para além de, em 2001, José-Augusto França eleger o seu quadro Portel (de 1986) como um dos 100 Quadros Portugueses do Século XX. Refira-se ainda que em testamento, a artista instituiu o Prémio Maluda a atribuir pela Sociedade Nacional de Belas Artes.

Freguesia de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Largo da primeira fadista, Severa

Freguesia de Santa Maria Maior – Placa Tipo I
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Maria Severa Onofriana, a 1ª fadista, está consagrada desde 18 de dezembro de 1989 no Largo da Severa, tendo para o efeito a edilidade lisboeta usado um troço da Rua do Capelão, compreendido entre o Beco do Forno e a Rua da Guia, por ter sido uma artéria onde ela morara e falecera.

Por a antiga Rua do Capelão ser também a artéria de nascimento de Fernando Maurício, ambos os fadistas têm placas colocadas neste Largo da Severa, nos prédios dos nºs 2 e 1, descerradas por Amália Rodrigues no dia 3 de junho de 1989, numa homenagem da antiga Junta de Freguesia do Socorro e o  «sentir da população da Mouraria».  Vizinha da Rua do Capelão, a Rua João do Outeiro também acolhe a Casa Fernando Maurício, desde 12 de julho de 2015.

A Severa, sem data, Aguarela de Alberto de Souza

De seu nome completo Maria Severa Onofriana (Lisboa/26.07.1820-30.11.1846/Lisboa), era filha de Ana Gertrudes Severa e de Severo Manuel de Sousa, nascida no  nº33 da Rua Vicente Borga, onde está desde 26 de julho de 2013 uma placa onde se pode ler «Neste local onde sua mãe tinha uma taberna segundo a tradição nasceu em 26 de Julho de 1820 a mítica fadista Maria Severa Onofriana». A 12 de setembro desse ano foi batizada na Paróquia dos Anjos, hoje da freguesia de Arroios.

Severa também viveu no Bairro Alto, na Travessa do Poço da Cidade, bem como na Rua da Graça e no Pátio do Carrasco, ao Limoeiro. O último Conde de Vimioso – D. Francisco de Paula de Portugal e Castro – terá sido o seu grande amor e instalou-a em mais três moradas lisboetas: na Rua da Bemposta, na Rua da Amendoeira e ainda no seu palácio do Campo Grande.

Maria Severa cantou fado primeiro na Madragoa, depois no Bairro Alto e na Mouraria –  nas Tabernas da Rosária dos Óculos,  do Manuel Jerónimo, do Cegueta, do Manhoso, todas na Rua do Capelão – , assim como no café do antigo forcado Joaquim Silva à Rua do Saco e ainda,  em festas aristocráticas dada a sua ligação ao Conde de Vimioso.

Todavia, Severa Onofriana faleceu aos 26 anos de idade na Rua do Capelão e o que se sabe dela resulta de breves relatos de contemporâneos, como Luís Augusto Palmeirim, Miguel Queriol e Bulhão Pato.

A figura da Severa foi amplamente  cantada em letras de fados, divulgada pelo romance de Júlio Dantas e da peça homónima  levada à cena no São Luiz nesse mesmo ano de 1901 e, com reposições sucessivas em diversos palcos e adaptações em   operetas, para além de filmes, ficando assim famosa e um símbolo do fado.

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

A Rua da primeira catedrática de Química, Branca Edmée Marques

Freguesias de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Branca Edmée Marques  foi a primeira catedrática de Química do nosso país, em 1966, pelo que dá nome a uma artéria da Cidade  Universitária, na freguesia de Alvalade, desde 2009.

O topónimo nasceu a  partir de uma proposta do Professor José Pedro Sousa Dias, membro da Comissão Municipal de Toponímia em representação da Universidade de Lisboa e a Comissão escolheu a Rua Interior da Alameda da Universidade entre a Avenida Prof. Aníbal Bettencourt e a Avenida Gama Pinto, que a deliberação de câmara de 02/09/2009 aprovou e assim foi a Rua Branca Edmée Marques fixada pelo Edital municipal de 16/09/2009. Pelo mesmo Edital mais 3 arruamentos da zona da Universidade Clássica de Lisboa ganharam nomes de investigadores, a saber, os do matemático António Aniceto Monteiro, do geólogo Paul Choffat e da pedagoga Teresa Ambrósio.

Branca Edmée Marques (Lisboa/14.04.1899 – 19.07.1986/Lisboa), filha de Berta Rosa Marques e de Alexandre Théodor Roux, licenciada em Ciências Físico-Químicas pela Faculdade de Ciências de Lisboa no ano de 1925, começou nesse mesmo ano a ser professora dessa Faculdade, onde regeu vários cursos teóricos, entre os quais os de Químicas Orgânica e Análise Química, embora só tenha chegado a Catedrática em 1966, e foi a 1ª mulher em Portugal a atingir essa categoria na área da Química.

Ainda antes de concluir a sua licenciatura, no ano letivo de 1923-24, a convite de Aquiles Machado, estagiou no Laboratório de Química Analítica no Instituto Superior Técnico sob orientação de Charles Lepierre.   Depois, com uma bolsa atribuída pela Junta de Educação Nacional, de 1931 a 1935 fez trabalho de investigação em física nuclear no Laboratoire Curie do Instituto do Rádio, primeiro sob a orientação de Marie Curie e depois da morte desta, em 1934, sob a de André Debierne, doutorando-se em 1935 na Faculdade de Ciências de Paris, com a tese intitulada «Nouvelles Recherches sur le Fractionnement des Sels de Baryum Radifère».

Em 1936, já de volta a Portugal, foi-lhe reconhecida a equiparação do seu Doctorat d’État ao grau de Doutor em Ciências Físico-Químicas das Universidades Portuguesas em 13 de Junho de 1936, tendo criado o Laboratório de Radioquímica, que dirigiu que até à sua jubilação, o qual originaria o Centro de Estudos de Radioquímica  da Comissão de Estudos de Energia Nuclear (em 1953), o 1º centro de investigação em Química da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, hoje extinto.

Branca Edmée Marques publicou 6 trabalhos nos Comptes Rendus de l’Académie des Sciences de Paris, quatro dos quais ainda antes do seu doutoramento e em 1936 publicou 3 artigos no Journal de Chimie Physique, todos na área dos seus estudos sobre o bário radífero. Refira-se ainda que escreveu uma breve biografia de Marie Curie para a revista Ciência, e outra de Jean Perrin, a convite do Instituto Francês em Portugal, no primeiro aniversário da morte do grande cientista.

No centésimo aniversário do nascimento de Madame Curie, Branca Edmée Marques foi convidada pelo Instituto de Rádio de Paris para as cerimónias de homenagem que se realizaram na Universidade de Paris, em outubro de 1967, na qualidade de antiga colaboradora da nobelizada Maria Sklodowska Curie.

Branca Edmée Marques foi casada com o naturalista, geólogo e professor da Faculdade de Ciências António da Silva e Sousa Torres (1876-1958).

Freguesias de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua da professora de canto e cantora lírica Maria Júdice da Costa

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC )

A cantora lírica e  professora de Canto, Maria Júdice da Costa, desde 1987 dá nome a uma rua do Bairro dos Sete Céus, na freguesia de Santa Clara.

A atribuição deste topónimo resultou de uma sugestão de topónimos para o Bairro dos Sete Céus feita pelo munícipe Manuel Cabaço, tendo a Rua Maria Júdice da Costa ficado no Impasse 5 do Bairro dos Sete Céus, a unir a Rua dos Sete Céus à Rua António Aleixo, com a legenda «Cantora/1870 – 1960», através do Edital municipal de 30 de janeiro de 1987. Nas restantes artérias do bairro ficaram os poetas Ruy Cinatti (Impasse 1), Vasco de Lima Couto (Impasse 3) e António Aleixo (Impasse 6), o músico do séc. XVII João Lourenço Rebelo (Impasse 2) e o fadista Joaquim Cordeiro (Impasse 4).

Maria Bárbara Bicker Júdice da Costa (Lisboa/12.06.1870-16.05.1960/Lisboa) foi uma atriz e cantora lírica que a partir de 1933 se tornou professora de Canto. Iniciou a sua formação artística aos nove anos no Conservatório Nacional, no curso de Piano. Contudo, um de seus professores apercebendo-se dos seus dotes vocais, convenceu-a a mudar e nos dez anos seguintes estudou Canto e  aulas de declamação com o ator João Rosa, tendo se estreado no Teatro de S. Carlos em 31 de janeiro de 1890, na ópera La Gioconda. Em junho partiu para Itália começando uma longa carreira internacional que passou por Roma, Nápoles,  Moscovo, México, Madrid, Buenos Aires, Amesterdão, Málaga, Trieste, Barcelona e Palma de Maiorca, tendo sido considerada então  a maior intérprete feminina de Wagner. Em 1933 regressou ao teatro lírico interpretando zarzuelas e óperas em três novas gloriosas temporadas no Teatro de S. Carlos.

Também no teatro dramático Maria Júdice da Costa se estreou a 30 de julho de 1921 na companhia de Amélia Rey Colaço – Robles Monteiro, na peça Os sedutores.  No ano seguinte, junto com a sua filha Brunilde, integrou a digressão ao Brasil do espectáculo A Casaca Encarnada de Vitoriano Braga, produzido pela companhia de Lucinda Simões.

No cinema, começou em 1921 no Amor de Perdição de Georges Pallu, na pele de Rita Preciosa, a que se seguiram Mulheres da Beira (1923) como Madre Abadessa e Fátima Milagrosa (1928), ambos de Rino Lupo.

Maria Júdice da Costa foi casada durante vinte anos com o barítono italiano Gugliemo Caruson, de quem teve 3 filhos, entre os quais Brunilde Júdice, também inscrita na toponímia de Lisboa.

Freguesia de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua do Convento de Santa Marta de Jesus

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Do Asilo de Santa Marta de Jesus, fundado no séc. XVI, mais tarde instituído como Convento, nasceu a Rua de Santa Marta.

Já no séc. XIX, o Edital do Governo Civil de Lisboa de 01/09/1859 incorporou a Rua de Santa Joana na Rua de Santa Marta. E em 1926, face aos pedidos insistentes da Junta de Freguesia de Camões para substituir a nomenclatura da Rua de Santa Marta, por deliberação de Câmara de 31 de maio de 1926 passou a denominar-se Rua Alexandre Braga, embora quase quatro meses depois, pelo edital municipal de 14 de setembro desse mesmo ano,  voltou a designar-se Rua de Santa Marta, ao mesmo tempo que colocava o topónimo Alexandre Braga «á rua sem nome que, partindo da Rua José Estevam e ao norte do Jardim Constantino, vai ligar-se com a Rua Dona Estefânia».

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Asilo de Santa Marta de Jesus foi criado para acolher e tratar as filhas das vítimas da Grande Peste de Lisboa de 1569, a pedido do Padre António de Monserrate, representante dos Padres de São Roque, da Companhia de Jesus. Depois de 1577, os padres jesuítas pediram a passagem do recolhimento a Mosteiro e em 1583, o arcebispo de Lisboa D. Jorge de Almeida, autorizou a instituição de um convento de religiosas franciscanas clarissas, sob a invocação de Santa Marta, sendo fundadoras 3 religiosas vindas do Convento de Santa Clara de Santarém. Em 1612 teve início a construção da igreja do Convento que está classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1946.

Refira-se que em 1693, residindo a rainha viúva de Inglaterra, D. Catarina de Bragança, no palácio dos Condes de Redondo, contíguo à igreja conventual, foi aberta uma tribuna sobre a capela-mor para que a soberana aí pudesse assistir às celebrações mas que foi fechada assim que D. Catarina se instalou no Paço da Bemposta, originando o topónimo Paço da Rainha.

Na descrição corográfica de arruamentos anteriores ao terramoto, a Rua de Santa Martha surge já na freguesia de S. José. O Convento de Santa Marta foi um de 11 entre os 65 conventos existentes em Lisboa que, não obstante os danos do Terramoto de  1 de novembro de 1755, se mantiveram habitáveis.

Após a extinção das ordens religiosas pelo Decreto de 30 de maio de 1834, o Convento de Santa Marta após a morte da  última religiosa em 15 de dezembro de 1887, foi alvo de obras de adaptação para começar a funcionar ao serviço da saúde em 1890, com a designação de Hospício dos Clérigos Pobres, já que desde o ano anterior havia sido cedido a essa Irmandade, para albergar as vítimas de um grande surto de gripe que alvoroçou a cidade e posteriormente, ficou como hospital de doenças venéreas. Em 1903 passou a ser um Hospital dependente do governo, inicialmente como anexo ao Hospital de São José. Em 1910 foi atribuída oficialmente ao Hospital de Santa Marta a função de Escola Médico Cirúrgica de Lisboa assumindo um importante papel no ensino da Medicina em Lisboa, função que manteve até 1953, data em que a clínica universitária foi transferida para o novel Hospital de Santa Maria, voltando o Hospital de Santa Marta para o grupo dos Hospitais Civis de Lisboa. Foi considerado como uma das principais escolas de Medicina Interna durante a segunda metade do séc. XX com Carlos George, bem como ganhou diferenciação na área cardio-vascular com a inovação trazida por Machado Macedo.

Marta era a irmã de Maria e de Lázaro, que foi ressuscitado por Jesus a seu pedido. A devoção a Santa Marta remonta à época das Cruzadas e partiu de França, onde segundo uma lenda, Marta, Maria e Lázaro teriam terminado os seus dias. Santa Marta era muito popular na comuna francesa de Tarrascon já que, segundo a tradição, aí estrangulara Tarasca, um monstro que devorava animais domésticos e crianças. Santa Marta é a patrona das cozinheiras.

Ainda na Freguesia de Santo António, encontramos mais dois topónimos evocativos de Santa Marta: o Beco de Santa Marta, junto ao nº 26 da Rua de Santa Marta, bem como a Travessa de Santa Marta que o Edital do Governo Civil de Lisboa de 01/09/1859 escolheu para ser a nova denominação da Travessa das Freiras.

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua da Igreja paroquial de Santa Catarina do Monte Sinai em Belver

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias | NT do DPC )

A Rua de Santa Catarina, na Freguesia da Misericórdia, deriva da existência no local da Igreja paroquial de Santa Catarina do Monte Sinai durante cerca de três séculos, de 1559 a 1835.

A ligar a Rua Marechal Saldanha à Rua Fernandes Tomás a Rua de Santa Catarina foi atribuída por deliberação camarária de 18/05/1889 e consequente Edital de 08/06/1889, na que era a Rua do Monte de Santa Catarina. No seu topo encontramos o Miradouro de Santa Catarina, com a característica estátua do Adamastor, ali implantada em 10 de junho de 1927.

Segundo o olisipógrafo Norberto de Araújo «O Alto de Santa Catarina, designação que foi simultânea com a de Belver, mas resistiu, deve a designação à circunstância de neste sítio – exactamente onde está êsse Palacete n.º 2, com pátio guarnecido de gradeamento – ter existido a Igreja paroquial de Santa Catarina do Monte Sinai. No alto dêste cabeço, havia, como atrás disse, desde o século XV uma enorme Cruz de madeira, que servia de guia aos mareantes.»

Freguesia da Misericórdia – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias | NT do DPC )

A Igreja de Santa Catarina do Monte Sinai, de invocação da Santa patrona dos livreiros, começou a ser edificada em 1557, por vontade da Rainha D. Catarina (1507 – 1578), irmã mais nova do Imperador Carlos V e mulher de D. João III (1502 – 1557), que foi Regente do Reino de 1557 a 1562 , durante a menoridade do seu neto, D. Sebastião. Doou a Igreja à Irmandade dos Livreiros, seguindo a sugestão que lhe fora apresentada por Simão Guedes, fidalgo do Conselho do Rei e Juiz da Irmandade dos Livreiros, junto com Miguel de Valença,um frade jerónimo. Segundo Gomes de Brito, «O chão onde se levantou o templo foi gratuitamente cedido pelos herdeiros de Bartholomeu de Andrade, em 1557, e a construção correu quasi exclusivamente por conta da rainha». Em 9 de outubro de 1559, a Igreja de Santa Catarina do Monte Sinai passou a ser paroquial, ficando com parte da área da antiga freguesia dos Mártires. O Terramoto destruiu o templo mas no final de 1757 estava reedificado e só no século seguinte, em 1835, é que ardeu completamente, tendo os restos do templo, pertença da Irmandade dos Livreiros, sido removidos entre 1856 e 1862. Depois dessa data foi construído no local o Palacete fronteiro ao Miradouro de Santa Catarina, mandado erguer por José Pedro Colares Pereira, proprietário da Metalúrgica Vulcano e Colares, que o vendeu no final do séc. XIX ao industrial Alfredo da Silva, passando depois para o seu genro Manuel da Silva. No final do séc. XX este palacete foi  adquirido pela Associação Nacional das Farmácias, que lá instalou o Museu da Farmácia, inaugurado em 1996.

Finalmente, sobre Santa Catarina destaque-se que foi conhecida como A Grande Mártir Santa Catarina ou Catarina de Alexandria, por ser natural da cidade egípcia de Alexandria, e terá sido uma  intelectual notável do início do século IV bem como mártir cristã, decapitada por ordem do Imperador romano Maximino Daia. A Igreja Ortodoxa venera-a como grande mártir e a Igreja Católica como um dos catorze santos auxiliares. Entre 527 e 565, por ordem do Imperador bizantino Justiniano I foi construído no sopé do Monte Sinai, no Egito, o Mosteiro de Santa Catarina.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

O Largo Associação Ester Janz em Marvila

Largo Associação Ester Janz – Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias | NT do DPC )

Fundada em 1982, para prestar apoio educativo aos filhos dos funcionários do grupo das Empresas dos austríacos Janz,  a Associação Ester Janz passou em 1 de agosto de 2005 a dar nome a um Largo da Freguesia de Marvila, na confluência da Rua Fernando Maurício com a Rua Armandinho, próximo da sede da Associação.

Associação Ester Janz – Freguesia de Marvila

Bruno Janz, casado com Ester Janz,  fundou em 1915 a Empresa Bruno Janz,  na Avenida Infante D. Henrique, junto à nova rotunda, que resultou do prolongamento da Avenida Estados Unidos da América. Esta empresa familiar foi continuada pelo seu filho, netos e bisnetos, tendo à data da atribuição do topónimo cerca de 600 trabalhadores, muitos deles com 20, 30, 40 e até 50 anos de casa e moradores da freguesia de Marvila.

Logo nesse início do séc.XX e da empresa Bruno Janz, a sua esposa Ester Janz manifestava preocupações sociais em prol da melhoria de vida da mulher trabalhadora para obstar às dificuldades que estas tinham em conseguir conciliar a profissão com a vida familiar. Assim, em 7 de julho de 1982 foi possível à neta, Teresa Janz, concretizar o sonho da avó com a Associação Ester Janz, construída em edifício próprio e como uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS), dedicada à educação dos filhos dos funcionários do grupo das Empresas Janz. Das 28 crianças iniciais passou-se para 60, decorridos cinco anos, já que em 1987, mediante protocolo assinado com a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, a Associação acolheu pela primeira vez também crianças moradoras nas imediações das empresas do grupo e cujo rendimento do agregado familiar era baixo, aumentando a valência de  infantário para também escola do 1º Ciclo e  expandindo-se à comunidade em geral, sendo em 1990 já 438 crianças, granjeando o apoio da Junta de Freguesia de Marvila e da Câmara Municipal de Lisboa, nomeadamente através da cedência de terrenos para a construção e a ampliação das instalações.

Ester Janz faleceu em 1977 e os fundadores da Associação com o seu nome, funcionários e acionistas das Empresas Janz quiseram prestar-lhe esta homenagem a que a edilidade lisboeta acedeu dando o seu nome a uma arruamento da Freguesia para cujo bem estar contribuiu.

Largo Associação Ester Janz – Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

A americana Helen Keller numa Avenida junto ao Centro com o seu nome

Freguesias da Ajuda e de Belém                                                                       (Foto: José Carlos Batista)

Helen Keller foi uma americana deficiente desde os 19 meses de vida que procurou ajudar a melhorar a qualidade de vida de outros deficientes, afirmando que  «As melhores e mais belas coisas do mundo não podem ser vistas nem tocadas, mas o coração as sente», estando perpetuada desde 1987  numa Avenida próxima do Centro Helen Keller.

A Avenida Helen Keller foi atribuída pela edilidade lisboeta através do Edital de 7 de setembro de 1987, ao arruamento construído no prolongamento da Avenida Dr. Mário Moutinho  (Edital de 17/02/1970) e, ambos os topónimos estão relacionados com o Centro Helen Keller, uma escola inclusiva para alunos invisuais e normovisuais.

Em 1936, o médico oftalmologista Mário Moutinho criou a Liga Portuguesa da Profilaxia da Cegueira (LPPC)  e acalentava o sonho de criar em Portugal uma clínica de reeducação de diminuídos visuais, o que veio a ser concretizado pelo seu filho, médico da mesma especialidade, a partir de 1955  no edifício que é hoje o nº 20 da da Avenida Dr. Mário Moutinho, nascendo assim uma instituição pioneira do ensino integrado em Portugal. Em março de 1956, quando Helen Keller veio a Portugal a convite da LPPC, passou a instituição a designar-se Centro Infantil Helen Keller.

Helen Keller (Alabama/27.06.1880 – 01.06.1968/Connecticut) ficou cega, surda e muda desde os 19 meses de vida e foi graças à persistência da sua percetora Ana Sullivan. Helen aprendeu a ler num alfabeto de cegos, conseguiu depois compreender 5 línguas, concluir estudos superiores, publicar a sua autobiografia A história da minha vida (1902) e fazer carreira profissional a escrever artigos para o Ladies Home Journal. Fortemente motivada pela sua experiência de vida, Helen Keller tornou-se defensora das pessoas portadoras de deficiência e empreendeu uma cruzada humanitária a favor dos que eram como ela, através da escrita, de conferências que proferiu e contribuindo para a criação de muitas instituições de reeducação dos cegos, surdos e mudos.

Refira-se ainda que em Lisboa existe também a Rua Luís Braille, dedicada ao francês que inventou o sistema de escrita e leitura para cegos que ficou com o seu nome – o Braille – que foi inaugurada em 2004 no âmbito do Ano Europeu das Pessoas com Deficiência.

Freguesias da Ajuda e de Belém                                                          (Foto: José Carlos Batista)