A oficialização da Travessa das Amoreiras a Arroios

A Travessa das Amoreiras na Planta de Lisboa de 1909 de Júlio Silva Pinto e Alberto Sá Correia

A Travessa das Amoreiras na Planta de Lisboa de 1909 de Júlio Silva Pinto e Alberto Sá Correia

Em 15 de abril de 1916 a artéria que era conhecida como Travessa das Amoreiras foi oficializada por Edital municipal como Travessa das Amoreiras a Arroios, para evitar equívocos com outras artérias da cidade, tanto na Ajuda como acima do Rato, na zona também conhecida como Amoreiras.

Esta Travessa das Amoreiras terá nascido no final do séc. XIX. Com data de 16 de fevereiro de 1892 encontramos um projeto de ligação direta da Estrada de Sacavém com a Estrada das Amoreiras através de uma Rua Particular cujo traçado corresponde à Travessa das Amoreiras a Arroios. E a informação municipal nº 1473 de 29 de junho de 1943, no processo 24560/43 da Repartição de Urbanismo e Expropriações, esclarece mesmo que «em 06/09/1894, foi aprovada a abertura de uma rua particular que tem hoje a designação de Travessa das Amoreiras a Arroios.»

Em 1909 a  Planta Topográfica de Lisboa de  Júlio Silva Pinto e Alberto Sá Correia, desenha a Travessa das Amoreiras a começar na Estrada das Amoreiras que antes se designara da Charneca (que no troço compreendido entre os Largos de Arroios e do Leão será no final de 1916 a Rua Carlos José Barreiros) e a fazer a passagem para a Estrada de Sacavém (cujo troço que começa na esquina da Igreja de Arroios e termina no limite da Freguesia de Arroios passou a ser a Rua Alves Torgo).

Entende-se assim que este topónimo é atribuído por referência e proximidade à antiga Estrada das Amoreiras. Como esta Estrada das Amoreiras também foi conhecida como Estrada da Charneca percebemos que faria ligação até ao  Campo das Amoreiras , topónimo atribuído pelo Edital de 12 de outubro de 1891 ao arruamento que também era conhecido como Largo da Charneca, Rocio da Charneca ou Largo das Amoreiras.

Freguesia de Arroios                                                                                        (Planta: Sérgio Dias)

A junção das Ruas Oriental e Ocidental do Campo Grande ocorreu há um século

Freguesias das Avenidas Novas, Alvalade e Lumiar (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias das Avenidas Novas, Alvalade e Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

O Campo Grande, que hoje pertence às Freguesias das Avenidas Novas, Alvalade e Lumiar, tem este topónimo fixado desde há 100 anos, através da publicação do Edital municipal de 19 de janeiro, o 2º Edital de toponímia de 1916, que assim juntou as Ruas Oriental e Ocidental do Campo Grande num único topónimo.

Chamado anteriormente Campo de Alvalade, este sítio foi escolhido durante séculos para a edificação de solares nobres e algumas vezes destinado à concentração de tropas, como as que D. Sebastião levou para Alcácer Quibir. O arvoredo que transformou o Campo Grande num dos parques mais aprazíveis de Lisboa foi mandado plantar no reinado de D. Maria I.

O Campo Grande nas primeiras décadas do séc. XX (Foto: Paulo Guedes, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Campo Grande nas primeiras décadas do séc. XX
(Foto: Paulo Guedes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Nove anos depois da junção as Ruas Oriental e Ocidental do Campo Grande, voltaram a ser topónimos separados pelo Edital de 07/05/1925. A Rua Ocidental do Campo Grande, apesar de já não existir  formalmente, passou a denominar-se Avenida Sacadura Cabral. Nesse mesmo ano, à Rua Oriental foi dado nome de outro aviador através da Avenida Óscar Monteiro Torres (por deliberação camarária de 02/06/1925) e já uns meses antes (por deliberação camarária de 15/02/1925) a Rua do topo norte do Campo Grande tinha ficado com a denominação de Rua António Stromp. Só que no ano seguinte, na sessão da Câmara de 26/08/1926 (e edital de 14/09/1926)  foi resolvido manter no Campo Grande a sua antiga denominação de Campo Grande.

Passados mais nove anos, uma nova deliberação da Câmara de 16/05/1935, fez com que as antigas Ruas do Oriental e Ocidental do Campo Grande passassem a denominar-se como o mesmo topónimo do jardim do local: Campo 28 de Maio. Esta decisão foi reafirmada no edital de 02/10/1939 tornando público o despacho da Presidência segundo o qual foi rectificada a deliberação da Câmara de 16/05/1933 e o edital de 18/05/1935, que atribuiu a denominação de Campo 28 de Maio às antigas Ruas Oriental e Ocidental do Campo Grande, passando a referida denominação de Campo 28 de Maio a substituir a de Campo Grande, que compreendia as antigas Ruas Oriental e Ocidental, depois Avenida Óscar Monteiro Torres e Sacadura Cabral, o próprio parque e ainda a Rua António Stromp.

Já na década de quarenta do século XX, o Edital municipal de 23/12/1948, voltou a denominar como Campo Grande o então Campo 28 de Maio. Na década seguinte, a antiga Praça Mouzinho de Albuquerque também foi integrada no Campo Grande, por edital municipal de 23/03/1954. E nos anos 80 do século XX, após a morte de Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa, a edilidade chegou a equacionar dividir novamente o Campo Grande em duas artérias para os homenagear mas acabou por criar uma solução alternativa.

Freguesias das Avenidas Novas, Alvalade e Lumiar                                           (Planta: Sérgio Dias)

A memória rural e fabril da Rua do Alvito e do Éden Cinema Alcântara

O Éden Cinema Alcântara, na Rua do Alvito, em 1966 (Foto: Artur João Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Éden Cinema Alcântara, na Rua do Alvito, em 1966
(Foto: Artur João Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua do Alvito faz referência a uma propriedade de exploração rural medieval, denominada Casal ou Casais do Alvito. O dono dos Casais do Alvito era Estêvão da Guarda, escrivão do rei D. Dinis e também ele, trovador. Mais tarde, passaram essas terras para o clérigo Afonso Rodrigues que os perdeu a favor do rei. Em 1645, querendo  D. João IV adquirir a Quinta da Ninfa e o Casal do Rio Seco, indemnizou por isso o conde de Basto e o enfiteuta André Jorge através da cedência do Casal do Alvito.

O Alvito situa-se em Alcântara, uma freguesia que foi progressivamente mudando de área rural para zona fabril chegando ao séc. XIX como um populoso bairro industrial. Foi para esta população que abriu portas em 1918 o Éden Cinema Alcântara na Rua do Alvito, com uma lotação de 568 espectadores. Fechou em 1971. Era considerado um Cinema Piolho, por exibir sessões contínuas e se dirigir a um público essencialmente jovem e popular, e de igual forma foi assim rotulado o Salão Lisboa (1916) na Mouraria.

Alvito é também um topónimo presente no Bairro ali construído em 1936/37, sob traçado cubista de Paulino Montez e adquirido pela Caixa de Socorros e Reformas dos Operários Assalariados da CML (criada em 1897), e classificado como Bairro-Jardim.

Freguesia de Alcântara (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Alcântara
(Planta: Sérgio Dias)

Frutas na Toponímia de Lisboa

Rua Direita da Ameixoeira - Placa Tipo II - Freguesia de Santa Clara (Foto: Sérgio Dias)

Rua Direita da Ameixoeira – Placa Tipo II – Freguesia de Santa Clara
(Foto: Sérgio Dias)

A toponímia de Lisboa perpetua diversas frutas, através dos nomes de árvores de fruta que são memórias rurais da cidade de Lisboa: a ameixoeira, a amendoeira, a cerejeira, a figueira, a laranjeira, o limoeiro e a pereira.  E estas memórias resultam de muitos séculos em que era o povo que dava nomes aos lugares para os identificar distintamente dos outros, até a Portaria de 27/09/1843 pela primeira vez atribuir esta prerrogativa ao Governo Civil, tendo o de Lisboa publicado o 1º edital de matéria toponímica em 1 de setembro de 1859.

A Ameixoeira foi até ao século XX uma freguesia de carácter rural e quando fez o seu brasão (em 1993) integrou nele duas verdes ameixoeiras (também denominadas ameixeiras ou ameixieiras). O topónimo do sítio passou para a Estrada da Ameixoeira (freguesias de Santa Clara e Lumiar) e para a Rua Direita da Ameixoeira (Santa Clara). A Estrada da Ameixoeira une a Rua Alexandre Ferreira ao Largo do Ministro e até 1928, por ser um  lugar retirado, nela se realizaram dezenas de duelos, como o que opôs Afonso Costa ao Conde de Penha Garcia, em 14 de julho de 1908. Já Rua Direita era a designação comum usada para a rua principal de um lugar e assim aconteceu com a Rua Direita da Ameixoeira, que assim já assim era denominada vulgarmente até ser oficializada pelo Edital municipal de 16/06/1928, que procedeu de igual forma para os outros topónimos antigos do lugar como o Largo do Ministro, o Largo do Terreiro, o Beco dos Ferreiros e a Travessa de Santo António.

Contudo, a origem do topónimo Ameixoeira poderá não ser a árvore da ameixa. Sabe-se que em 1147 por altura da reconquista de Lisboa, a Ameixoeira tinha o nome latino de Muchinis. No séc. XIII, aparece como Moyxieira e até ao séc. XVII era conhecida como Mixoeira (derivada de um nome mouro: Mixio ou Mixo), mas também era denominada como Ameijoeira (pela quantidade de ameijoas fósseis no local) e ainda como Funchal (pela tradição de numa batalha entre mouros e cristãos em que estes últimos encontraram uma imagem de Nossa Senhora escondida num funchal).

Com amendoeira Lisboa guarda quatro topónimos: o Beco e a Rua da Amendoeira (Freguesia de Santa Maria Maior), mais o Beco do Outeirinho da Amendoeira (Santa Maria Maior) e o Largo do Outeirinho da Amendoeira (São Vicente).

Luís Pastor de Macedo refere que «Actualmente [década de quarenta do séc. XX], existe apenas um beco com o nome de Amendoeira. Fica na freguesia do Socorro, começando e terminando, depois de fazer uma curva, na rua com o mesmo nome.» Norberto de Araújo aponta as raízes rurais:  «A Amendoeira é uma nesga estreita de casas pequenas e onde, à direita, e a meio, se encontra um quintal, restos silvestres da Mouraria antiga, sobre os quais se debruça um muro que pertence ao pátio do Coleginho.» Serão assim topónimos anteriores ao terramoto de 1755 e tanto mais que as descrições paroquiais de Lisboa referem  «rua da Amendoeyra» na freguesia de Nª Srª do Socorro, «rua da Amendoeira» na «freguezia de S.George» ou «freguezia de S. Jorze», e depois outra vez como rua da Amendoeira na freguesia de Nª Srª do Socorro. Ainda segundo Pastor de Macedo, na Rua da Amendoeira morou no séc. XIX Ana Gertrudes, conhecida pela alcunha da Barbuda, a mãe da Severa. 

O Beco do Outeirinho da Amendoeira, que se desdobra em escadas da Rua do Vigário ao Beco dos Paus, de acordo com Luís Pastor de Macedo, radica em que « O outeiro que no diminutivo originou o nome deste beco, supomos vê-lo num documento do ano de 1465: “… a Johane anes almocreue e assua molher Catarina aluarez moradores em a dicta cidade [de Lisboa] na freguesia santo steuam emprazaromlhes huma casa térrea q elles [os Clérigos Ricos] han hu chamam o outeiro hu esta ho hulmeiro com huu quintall q tem diante e huua palmeira e huua parreira, etc.» Nas plantas da freguesia após a remodelação paroquial de 1780 já aparece em Santo Estêvão «o becco intitullado o Outeiro da Amendoeira».

Já o Largo do Outeirinho da Amendoeira, que vai do Campo de Santa Clara à Cruz de Santa Helena, teria sido a Rua do Arco Pequeno segundo Norberto Araújo: « Sigamos agora por esta rua, que é o princípio do largo do Outeirinho da Amendoeira, antiga do Arco Pequeno, sob o muro do Pátio de S. Vicente; assentou aqui o Postigo do Arcebispo, da muralha de D. Fernando, depois configurado num arco, desaparecido há relativamente poucos anos[em relação à década de quarenta do séc. XX].» 

Calçadinha da Figueira - Freguesia do Lavaodois (Foto: Mário Marzagão)

Calçadinha da Figueira – Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Mário Marzagão)

Na Freguesia de Carnide, onde ainda sobrevivem alguns dos antigos traços da ruralidade do sítio, encontramos a Azinhaga dos Cerejais e a Azinhaga das Cerejeiras, sendo que a própria categoria de Azinhaga denota a sua origem rural.

Da árvore dos figos, para além da Praça da Figueira e do Poço do Borratém, Lisboa guarda ainda em Alfama a Calçadinha da Figueira, que liga a Calçadinha de São Miguel à Rua Norberto de Araújo, como herança da presença árabe na cidade. No levantamento de 1858 de Filipe Folque a Calçadinha da Figueira aparece identificada como Calçada da Figueira.

No norte da cidade, a Quinta das Laranjeiras de Estêvão Augusto de Castilho, fez nascer o topónimo Laranjeiras cuja referência mais antiga data de 1671 e daí se gerou tanto a Estrada como a Rua das Laranjeiras, sendo que esta última antes do Edital municipal de  19/07/1919 se designava Azinhaga da Ponte Velha.

Já no lado ocidental de Lisboa, na Freguesia da Ajuda, temos uma Rua do Laranjal nascida como tal há quase 100 anos. Primeiro, foi Rua da Paz, a que o Edital municipal de 18 de junho de 1889 acrescentou «à Ajuda» e depois, o Edital municipal de 26 de setembro de 1916 tornou-a Rua do Laranjal.

Travessa da Laranjeira - Freguesia da Misericórdia (Foto: Sérgio Dias)

Travessa da Laranjeira – Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias)

E em plena Bica deparamos com a Travessa da Laranjeira, que como a sua paralela Travessa do Sequeiro fixa memórias rurais do local. Pastor de Macedo refere que «O padre Carvalho da Costa, em 1712, dá-lhe o nome de ‘travessa do Laranjeiro’ (…) Supomos porém, que se trata duma gralha tipográfica da ‘Corografia Portuguesa’, depois copiada, irreflectidamente pelo autor do ‘Mapa de Portugal’» e ainda segundo este olisipógrafo foi nesta artéria que nasceu o jornalista Eduardo Fernandes, conhecido como Esculápio.

Já o limoeiro trouxe um Largo e uma Rua do Limoeiro, ambos na freguesia de Santa Maria Maior. Supõe-se que o sítio do Limoeiro  aluda a uma árvore no local mas o Largo do Limoeiro está indubitavelmente ligado a uma cadeia que aí funcionava desde o tempo de  D. João II e cujos cárceres encerraram gente como poeta Correia Garção (em 1771), o poeta Bocage (1797), o pintor Domingos Sequeira (1808) e o escritor Almeida Garrett (1827) mas que desde dezembro de 1979 acolhe as instalações do Centro de Estudos Judiciários.

Finalmente, a Travessa da Pereira, na Freguesia de São Vicente, «Data dos fins do século XVIII (1799) e foi aberta na quinta do Alcaide Fidalgo», de acordo com Pastor de Macedo que ainda acrescenta que « aqui nasceu em 3 de Novembro de 1828 o actor Isidoro e aqui viveu, segundo parece, aí pelos meados do século passado [séc. XIX], o desiquilibrado José Maria Leal de Gusmão , autor do poema Rei só Deus, e que foi um dos excêntricos relacionados por Luiz Augusto Palmeirim. A qualificação que primitivamente deram a esta serventia foi a de rua».

Travessa da Pereira - Freguesia de São Vicente (Planta: Sérgio Dias)

Travessa da Pereira – Freguesia de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias)

A Estrela na Travessa do Salitre

A Travessa do Salitre em 1961 (Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Travessa do Salitre, morada do Parque Mayer, em 1961
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

«A Estrela», um conto de Vergílio Ferreira, inspirou um musical infantil levado a palco pela companhia II Acto, com João Frizza, Marco Mercier e FF, que em 2012 foi exibido no Teatro Maria Vitória, no Parque Mayer, com entrada pela  Travessa do Salitre.

A Travessa do Salitre nasceu pelo edital municipal de 28/05/1897 como nova denominação da antiga Travessa das Vacas que havia sido alargada em 1895. O olisipógrafo Norberto de Araújo resumiu a história  toponímica desta artéria assim: «Vamos passar da Alegria para o Salitre através da Travessa deste nome, e que foi logo a seguir ao Terramoto a Travessa das Vacas [assim surge referida nas plantas e descrições paroquiais após a remodelação paroquial de 1770] , e que no principio desse século [ XVIII] se chamava Travessa da Cotovia e antes, no século XVI, Travessa do Monturo.» O topónimo deriva, tal como a Rua do Salitre, das nitreiras da Horta dos frades Cartuxos ou Brunos, que existiram no fim da Calçada do Salitre.

Neste arruamento existiu o Teatro do Salitre, de 27 de novembro de 1782 até 1857, reabrindo em 1858 como Teatro Variedades mas acabando por ser demolido em 1879. Teve também esta artéria uma praça de touros, construída entre 1777 e 1780, e que na segunda década de oitocentos revertia uma parte das suas receitas para a Casa Pia de Lisboa e que apenas terminou quando em 3 de julho de 1831 se inaugurou a Praça de Touros do Campo de Santana e assim passou a circo de cavalinhos e de diversos espectáculos, sendo abandonada de 1865 a 1875 e demolida em 1880.

Freguesia de Santo António (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Planta: Sérgio Dias)

De Cata-que- Farás à Rua Direita do Alecrim

Freguesia da Misericórdia

Freguesia da Misericórdia

Esta artéria que hoje liga a Praça Duque de Terceira à Praça de Luís de Camões é um topónimo antigo, que data do século XVII, e sobre o qual o olisipógrafo Luís Pastor de Macedo precisa que : “(…) a rua do Conde nos fins do século XVII foi também designada por rua Direita do Conde, aparecendo pela primeira vez em 1693 a denominação da rua Direita do Alecrim. Depois do terramoto, além de ter tido o nome de rua das Duas Igrejas, conforme diz Castilho e Gomes de Brito menciona, teve também, segundo o mesmo autor, o nome de rua Larga do Loreto, nome que aliás não lhe vemos dar, uma única vez que seja, nos registos paroquiais. No fim do século XV era a estrada que vay ter a Cata que farás.”

Este topónimo insere-se na antiga tradição popular de designar os locais pelas suas particularidades naturais e tanto mais que no espaço territorial da hoje Freguesia da Misericórdia, a partir de 1513, foi feita uma divisão de propriedades em talhões e hortas que os topónimos guardaram na memória de Lisboa como a Calçada, a Rua e a Travessa do Ferragial, a Rua da Horta Seca, a Travessa da Laranjeira ou na Rua das Flores que é paralela à Rua do Alecrim.

Placa Tipo II - Freguesia da Misericórdia

Placa Tipo II – Freguesia da Misericórdia

O Campo Pequeno do seiscentista Palácio Galveias

Freguesias das Avenidas Novas e do, Areeiro

Freguesias das Avenidas Novas e do Areeiro                                       (Foto: Rui Mendes)

Em 2001, o Palácio Galveias foi palco de uma exposição retrospetiva de Luís Dourdil, de 6 de abril a 17 de junho, numa homenagem da edilidade lisboeta ao pintor e assim, o Campo Pequeno, morada do seiscentista Palácio Galveias entra no roteiro toponímico alfacinha deste pintor.

O sítio do Campo Pequeno era no início do século XVI  um logradouro público, um espaço a descoberto na periferia da cidade, no qual se realizavam exercícios militares, tendo sido o local onde se treinou o exército de D. Sebastião antes de ir para Alcácer-Quibir, bem como lugar para feiras improvisadas. Teve também, no século XVIII, uma Praça de Touros provisória que a definitiva só foi inaugurada em 18 de agosto de 1892 a partir do plano traçado pelo arqº António José Dias da Silva.  E assim, durante vários séculos foi conhecido como Campo Pequeno ou Largo do Campo Pequeno.

Ainda antes da implantação da República em Portugal, embora a vereação da edilidade lisboeta fosse já republicana, por deliberação camarária de 1 de outubro e edital de 8 de outubro de 1908, o Campo Pequeno passou a Largo Doutor Afonso Pena, para homenagear aquele que era então o Presidente da República brasileira, função que exerceu entre 15 de novembro de 1906 e 14 de junho de 1909, data do seu falecimento. Quarenta anos depois, o edital de 23/12/1948 retirou a referência ao único Presidente do Brasil inscrito na toponímia de Lisboa substituindo-a pelo topónimo antigo.

Freguesias das Avenidas Novas e do Areeiro (Foto: Rui Mendes)                        

Freguesias das Avenidas Novas e do Areeiro
(Foto: Rui Mendes)

A Rua da Horta Seca quinhentista

Freguesia da Misericórdia (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias)

Luís Dourdil foi galardoado em 1965 com o Prémio de Desenho da Casa da Imprensa,  instituição que reside no nº20 da Rua da Horta Seca, uma artéria da Freguesia da Misericórdia.

Esta Rua que liga a Praça Luís de Camões à Rua das Chagas mantém viva a memória rural quinhentista da herdade de Santa Catarina, como aliás defendeu Norberto de Araújo: «A Rua das Flores já existia antes do Terramoto, no troço até à Rua do Ataíde, ambas seiscentistas. E de igual modo existia a Rua da Horta Seca, designação, que, tal a das Flores, e a das Parreiras (sôbre a qual assentou a Rua da Emenda) evocam os tempos de quinhentos em que por aqui eram quintas e chãos rústicos da herdade de Santa Catarina». As herdades de Santa Catarina e da Boa Vista foram vendidas pela viúva de Guedelha Palaçano a D. Luís de Atouguia em 1498 e, em 1551,  a Freguesia do Loreto já registava 8.697 habitantes e tinha dois postos, um no Vale das Chagas e outro na Calçada da Boa Vista.

Nesta artéria foi instalado um recolhimento de mulheres em 1587, o Recolhimento de Nossa Senhora da Natividade das Convertidas, dirigido por Jesuítas.

Freguesia da Misericórdia - Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Misericórdia – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Misericórdia

Freguesia da Misericórdia

A Rua da Oliveira ao Carmo onde se imprimia a «Orpheu»

(Foto: Arquivo Municipal de Lisboa, sem autor, sem data)

(Foto: Arquivo Municipal de Lisboa, sem autor, sem data)

A Rua da Oliveira ao Carmo tem uma ligação umbilical com a revista Orpheu por ser nesta artéria que era impressa, na Tipografia do Comércio, e a partir dela via a luz do dia.

A Rua da Oliveira ao Carmo, hoje no território da freguesia de Santa Maria Maior, unindo o Largo do Carmo à Calçada do Duque, era no ano da Orpheu (1915) pertença da freguesia do Sacramento e, 56 anos antes,  o Edital do Governo Civil de Lisboa de 1 de setembro de 1859, precisara que a Rua da Oliveira passava a denominar-se Rua da Oliveira do Carmo, no critério de não criar equívocos com outras Ruas da Oliveira na cidade. Em 1948, um parecer da Comissão Municipal de Toponímia, homologado pelo Presidente substituto, Luís Pastor de Macedo, em 18/06/1948, tornou a denominação da artéria em Rua da Oliveira ao Carmo.

Folha de rosto da Orpheu nº 1

Folha de rosto da Orpheu nº 1

Os dois números da Orpheu publicados em 1915 foram impressos na Tipografia do Comércio que se encontrava no nº 10 da Rua da Oliveira do Carmo. A redação estava sediada na Livraria Brasileira, no nº 190 da  Rua Áurea  (vulgarmente conhecida como Rua do Ouro) e o  diretor do 1º número, Luís de Montalvor, morava no nº 17 do Caminho do Forno do Tijolo (que desde a publicação do Edital de 17/10/1924  é a Rua Angelina Vidal).

O topónimo de reminiscências rurais «Oliveira» existe ainda hoje em mais 3 artérias lisboetas: nas Escadinhas da Oliveira, junto a esta Rua da Oliveira ao Carmo já que nasceu de um troço desta rua por Edital de 20/09/1920;  no Beco da Oliveira (na freguesia de Santa Maria Maior) e na Travessa da Oliveira à Lapa, para além do Largo da Oliveirinha (freguesias de Santo António e Misericórdia) e da Rua das Oliveirinhas (São Vicente).

Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior – Placa de Azulejo
(Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior

Freguesia de Santa Maria Maior

Da Cruz das Almas à Rua de Campolide

Freguesias de Campolide e de São Domingos de Benfica (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias de Campolide e de São Domingos de Benfica
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua de Campolide que hoje se estende da Rua do Arco do Carvalhão à Avenida Columbano Bordalo Pinheiro foi atribuída por uma deliberação camarária de  30/01/1908 na via até aí conhecida como Estrada de Campolide e, ainda antes, como Cruz das Almas, por via da Ermida da Cruz das Almas fundada em 1756.

Mais precisamente, a Rua de Campolide engloba as antigas Estrada de Campolide (antes Cruz das Almas),  Estrada de Campolide de Cima e Estrada de Campolide de Baixo, com fim no antigo Largo de Sete Rios.

Embora o sítio de Campolide seja de urbanização desenvolvida apenas a partir do século XVIII, com a chegada de gente para a construção do Aqueduto, o termo Campolide é antiquíssimo, sendo que na crónica da conquista de Lisboa aos mouros já aparece Campolet ou Campolit. De acordo com o olisipógrafo Norberto de Araújo «Não significa isto, porém, que Campolide não fosse povoado desde há duzentos anos, mas com carácter rústico arrabaldino – aprazível sítio -, e em aglomerados soltos, dos quais o mais assinalado se encontrava no prolongamento da estrada, agora Rua de Campolide, muito além das barreiras (hoje ponto terminal da linha dos eléctricos), sensivelmente no trôço de encosta, entre o actual edifício das Irmãzinhas e o Quartel de Caçadores 5, no local das casas de Estêvão Pinto. No século XVIII, contido entre quintas muradas, estrada de passagem obrigatória – Campolide existia sem definição nem classificação. Algumas das suas casas, hoje de pé ou transformadas atestam quanto te digo».

As origens rurais do sítio de Campolide como distinto de produtor de vinhos e produtos agrícolas também justificaram que só se tornasse freguesia na remodelação administrativa de  7 de fevereiro de 1959.

Campolide é um termo que está presente em mais dois topónimos lisboetas, ambos na freguesia de Campolide: o Campus de Campolide (Edital de 05/07/2000) e o Autoparque Campolide (Edital de 03/01/2001).

A Ermida da Cruz das Almas na Rua de Campolide, 1945  (Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Ermida da Cruz das Almas na Rua de Campolide, 1945
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)