Do Largo do Matadouro público ao Largo da Escola Municipal nº 1

O Largo da Escola Municipal no início do séc. XX
(Foto: Paulo Guedes, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Largo da Escola Municipal, na confluência da Rua de São Lázaro, Rua Nova do Desterro e Rua do Saco, consagra desde a publicação do Edital municipal de 8 de agosto de 1889 a Escola Municipal nº 1, ali construída 14 anos antes – em 1875 – no local onde fora o matadouro público que havia dado ao local o nome de Largo do Matadouro.

Sobreposição da planta de Filipe Folque de 1858 com a dos nossos dias para se ver o Largo da Escola Municipal no Largo do Matadouro

Como se pode ver  na planta de Filipe Folque de 1858, o espaço deste Largo da Escola Municipal era o Largo do Matadouro, contíguo ao Matadouro público instalado entre a Rua das Forçureiras [vendedoras de forçuras que eram  os bofes e os intestinos das reses] e o Beco do Saco [hoje Rua do Saco] que não deve ser confundido com o Largo do Matadouro que mais tarde alojou o Matadouro Municipal e hoje conhecemos como Praça José Fontana.

Dois anos depois da abertura da Escola nº 1, um ofício de 25 de junho de 1877, do professor António Simões Lopes, pedia à Câmara providências para um muro com apenas 5 a 6 cm de altura do lado do edifício escolar, pelo perigo dos alunos caírem para o lado da rua. Também oito anos depois, em 5 de agosto de 1883, nasceu encostada a esta Escola Municipal nº 1 a então Biblioteca Municipal de São Lázaro.

O Serviço de Instrução fora criado na Câmara Municipal de Lisboa dois anos antes desta Escola nº 1, em 16 de setembro de 1873, sucedendo ao «Pelouro das escolas municipaes de artes e industria, e Beneficencia» que existia desde 1852. Este Serviço dependia do Pelouro da Instrução que teve como primeiro vereador José Elias Garcia, que desempenhou essas funções em 1873-1875 e 1878-1881, com competências no domínio da instrução primária e das bibliotecas municipais.

Quando da atribuição do Largo da Escola Municipal, em 8 de agosto de 1889, era vereador Augusto José da Cunha que manteve as funções até ao final desse ano. Três anos depois, em 1892, a responsabilidade da instrução primária passou para o Estado e o Pelouro da Instrução municipal foi extinto, ficando apenas uma delegação na 1ª Repartição do Serviço de Fazenda Municipal que durou até setembro de 1913, porque o Decreto de 29 de junho de 1913 procedera à descentralização do ensino primário e a Câmara Municipal de Lisboa voltou a ter responsabilidades na área da instrução primária até 1918, quando o Decreto de 12 de julho transferiu novamente a responsabilidade da instrução primária para o Estado, o que gerou contestação por parte de alguns vereadores.

Em 1919, por proposta do vereador Vladimiro Contreiras, a Instrução passou a inserir-se nos serviços da Secretaria Geral da edilidade, na 2ª Secção da 3ª Repartição (Instrução, Estatística, Bibliotecas e Arquivos), à qual competia as direções das bibliotecas municipais e dos estabelecimentos de instrução pública.  Em 1921, com uma reorganização dos Serviços Municipais, a Instrução passou para a 6ª Repartição dos Serviços Técnicos, de Bibliotecas, Museus, Arquivos e Escolas. Em  1924, o Pelouro passou a denominar-se Pelouro da Instrução e Assistência, responsável pela instrução primária e pela assistência do município, sendo Alexandre Ferreira o vereador, até junho de 1926.

Freguesia dos Arroios
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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O setecentista Largo das Duas Igrejas e o Largo do Chiado de 1925

O Largo das Duas Igrejas num bilhete postal de 1906

Largo das Duas Igrejas é um topónimo setecentista que perdurou até aos dias de hoje, como as duas igrejas que o originaram, apesar de oficialmente o arruamento se designar Largo do Chiado desde 1925.

Era aqui a Porta ou Portas de Santa Catarina, construída na muralha fernandina entre 1373 e 1375, com as suas duas torres. Depois do séc. XVI as Portas de Santa Catarina coexistiram com a denominação Chiado, já que segundo Norberto de Araújo «Depois do século XVI essas designações foram simultaneamente usadas, havendo contudo um período, pelo menos, de distinção: Porta (ou Portas) de Santa Catarina – era o actual Largo do Chiado; Rua das Portas ou Rua Direita de Santa Catarina – era o troço da actual Rua Garrett, até onde se rompe a Rua Ivens de hoje; Rua do Chiado se chamava apenas ao troço desde esta confluência até ao topo, isto é: ao Convento do Espírito Santo, depois Palácio Barcelinhos, e hoje Armazéns do Chiado.»

As Portas de Santa Catarina foram demolidas entre 1702 a 1707 e o local começou a ser  conhecido como Praça do Loreto, embora com o tempo tenha passado a ser mais usada a denominação Largo das Duas Igrejas por referência aos dois templos ali existentes: a Igreja italiana de Nossa Senhora do Loreto (de 1518 e restaurada em 1785) e a Igreja de Nossa Senhora da Encarnação (de 1708 e restaurada em 1784). O Cartulário Pombalino menciona a artéria como Rua das Duas Igrejas. De 1771 a 1853, o o Largo das Duas Igrejas tinha em si implantado o Chafariz do Loreto,  encimado pela estátua de Neptuno,  da autoria de Machado de Castro, que hoje está no centro do Largo de Dona Estefânia.

Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior (Foto: NT do DPC)

Já no séc. XX, em 1925, a edilidade lisboeta atribuiu a este arruamento a denominação de Largo do Chiado, com a legenda «António Ribeiro Chiado – Poeta do Século XVI», através da publicação dos Editais de 28 de abril e 19 de maio, homenageando assim o autor do Auto das Regateiras, tendo também a vereação municipal ali erguido uma estátua da autoria de Costa Mota (tio), inaugurada em 18 de dezembro desse mesmo ano de 1925.

Refira-se que António Ribeiro, conhecido como Poeta Chiado, apesar de ter professado na Ordem dos Franciscanos, abandonou a vida religiosa e veio viver para Lisboa, tornando-se conhecido como poeta popular e boémio, sendo até mencionado no Auto de El Rei Seleuco de Camões, o poeta maior para os republicanos. António Ribeiro Chiado dedicou-se sobretudo à poesia jocosa e à sátira sobre  a vida social do período em que viveu, sendo que em 1925 faria sentido para a vereação republicana a proximidade entre os poetas Camões e Chiado ser repetida na toponímia da cidade.

O Largo do Chiado nos anos 70 do séc. XX 

O Largo e a Praça símbolos do poder municipal

Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Largo do Pelourinho do séc. XVIII , posterior ao Terramoto, passou no final do séc. XIX a ser a Praça do Município mas ambos os topónimos simbolizam o poder municipal e se o topónimo oficial é o segundo  certo é também que o primeiro  ainda sobrevive na linguagem vulgar para designar o espaço.

O olisipógrafo Norberto de Araújo esclarece até que «Pelourinho era um símbolo da autonomia municipal; onde ele estava – estava o Senado ou suas casas. Tinha uma significação de justiça aplicada nas execuções, mas só queremos vê-lo apenas na sua representação de autoridade municipalista e não na sua expressão fatídica.»

Já nas descrições paroquiais anteriores ao terramoto de 1755 surge o Largo do Pelourinho na freguesia de Santa Madalena para passar a Praça do Pelourinho no Atlas de Filipe Folque de 1856 e  voltando a ser designado Largo do Pelourinho nos livros da despesa e da receita para a reedificação dos Paços do Concelho entre 1866 a 1880, nos orçamentos para construção de passeios no arruamento em fevereiro de 1875, bem como no levantamento topográfico de Francisco e César Goullard de 1879 a 1881 ou no requerimento de Pinto Magalhães e Companhia a  pedir a concessão de licença para colocação de mosaicos nacionais nos passeios do Largo do Pelourinho, à semelhança da concessão feita para os passeios da Rua da Conceição.

E em 1886, o Edital camarário de 24 de março torna o Largo do Pelourinho em Praça do Município, marcando a localização dos Paços do Concelho da Câmara Municipal de Lisboa. Ainda segundo Norberto Araújo «Entre 1770 e 1774 construiu-se nesta Praça, que a reedificação da Cidade tornou possível, um edifício para a Câmara Municipal, (…). A Câmara ocupava apenas uma parte do “seu” Palácio – pois para a câmara fora destinado, havendo-se instalado no edifício a Junta do Crédito Público, o Banco de Lisboa (1822), convertido em Banco de Portugal em 1846, a Administração do Contrato do Tabaco, a Companhia das Lezírias, a Companhia Fidelidade, etc. Também parte do edifício (de 1795 a 1807) serviu de habitação a D. Maria I, e à família real, após o incêndio do Paço (Velho) da Ajuda. Na noite de 19 para 20 de Novembro de 1863 rebentou um terrível incêndio, que durou oito dias – dos maiores que Lisboa tem visto – e reduziu tudo a cinzas. (…) O arquitecto Domingos Parente da Silva foi encarregado do risco, e as obras começaram em 29 de Outubro de 1866, só se concluindo em 1875.  Alterado várias vezes no plano inicial, o edifício da Câmara de Lisboa é este que aqui se ostenta na Praça do Município».

Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O pombalino Largo do Caldas e o Largo Adelino Amaro da Costa dos anos 80

O traçado pombalino para o Palácio de João Rodrigues Caldas no Terreiro do Ximenes, assinado pelo Conde de Oeiras (depois Marquês de Pombal) e por De Blasco.

O Largo Adelino Amaro da Costa, dado nos anos 80 do séc. XX, é o topónimo oficial do pombalino Largo do Caldas que continua a persistir na memória dos lisboetas.

Pelo menos desde XVI existia no espaço deste arruamento o palacete da família do castelhano Rodrigues Caetano Ximenes,  que em 1476 tinha vindo para Portugal, pelo que chamava ao local Chão de Alcamim mas também Terreiro ou Terreirinho do Ximenes. Segundo Norberto de Araújo o arruamento também foi denominado como Praça da Bela Vista e um pouco antes do Terramoto como Largo do Conde de São Vicente.

Pelo menos desde 1858 seria designado como Largo do Caldas, uma vez que assim consta no levantamento topográfico de Lisboa de Filipe Folque. O topónimo deriva do Palácio urbano pós-terramoto, dos irmãos João e Luís Rodrigues Caldas, edificado entre 1765 e 1775 onde antes fora o Palácio do Ximenes, sendo o traçado desenhado a tinta da china e aguarela assinado pelo Conde de Oeiras (título de 1759 que após a criação do título Marquês de Pombal, em 1769, passou a ser subsidiário deste) e  de Blasco (seria Miguel Ângelo de Blasco ?…). O palácio com uma planta em L irregular, na frente virada para o Largo do Chão do Loureiro, foi edificada em 1766 uma ermida pública sob invocação de Nossa Senhora da Conceição, cuja autorização de culto foi dada a 1 de dezembro de 1766. Os irmãos  Caldas Rodrigues – João e Luís (Viana do Castelo – Badim/22.03.1721 – 25.05.1787) eram contratadores gerais de tabacos do reino.

Segundo Luís Pastor de Macedo, a partir de 1766 morou no Palácio pombalino dos Caldas o francês Jácome Ratton,  industrial amigo e admirador de Pombal e lá lhe nasceram três dos seus filhos.

No séc. XX, coabitando com as irmãs Caldas Machado e por cedência destas, viveu também num quarto no 3º andar, desde 1927, o padre Francisco Rodrigues da Cruz, conhecido como Padre Cruz, que ali  faleceu com 89 anos de idade em 1949, sendo que passados 10 anos e no âmbito do centenário do nascimento do Padre Cruz, a edilidade lisboeta tenha descerrado uma lápide comemorativa no prédio. Por morte das três últimas proprietárias – as irmãs Maria da Assunção, Joana Francisca e Catarina-, solteiras e sem filhos, o Palácio passou por herança para o Seminário dos Olivais.

Adelino Manuel Lopes Amaro da Costa (Lisboa/18.04.1943 – 04.12.1980/Camarate), Ministro da Defesa quando faleceu no desastre de aviação que também vitimou o Primeiro-Ministro Francisco Sá Carneiro, veio dar o seu nome ao Largo do Caldas desde a publicação do Edital de 5 de abril de 1982. Uma proposta dos vereadores da Aliança Democrática foi aprovada por maioria na reunião de Câmara de 22 de dezembro de 1980, para serem atribuídos os nomes de ambos os políticos a ruas de Lisboa, tendo a Comissão Municipal de Toponímia sugerido para o efeito, em 13 de janeiro de  1981, as duas alamedas interiores do Campo Grande. Todavia, acabou por vingar a designação de locais do então Vereador do Pelouro da Cultura, Dr. João Martins Vieira que sugeriu a alteração de denominação do antigo Largo do Caldas para Largo Dr. Adelino Amaro da Costa e, da  antiga Praça do Areeiro para Praça Dr. Francisco Sá Carneiro.

Licenciado em Engenharia Civil pelo Instituto Superior Técnico em 1966, Adelino Amaro da Costa foi também sub-Diretor e Diretor do Gabinete de Estudos e Planeamento do Ministério da Educação (1973 – 1974) tendo em 1974 sido um dos fundadores do Centro Democrático Social (CDS), com Diogo Freitas do Amaral,  e o seu primeiro secretário-geral.  De 1975 a 1980 foi deputado e líder do Grupo Parlamentar do CDS (1976 – 1978), Ministro de Defesa Nacional no Governo presidido por Sá Carneiro e com ele faleceu  quando ambos se deslocavam ao Porto para um comício de campanha eleitoral para as presidenciais desse ano.

O Largo Adelino Amaro da Costa – Freguesia de Santa Maria Maior

O Largo de São Roque ou do Cauteleiro que é o Largo Trindade Coelho

O Largo Trindade Coelho no início do séc. XX
(Foto: Paulo Guedes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Começou por ser o Largo de São Roque no séc. XVI. No final dos anos 80 do séc. XX com a colocação no local de uma estátua em homenagem aos cauteleiros passou a ser conhecido como Largo do Cauteleiro e ponto de encontro para incursões na noite do Bairro Alto, mas desde 1913  que o Largo de São Roque se denomina oficialmente Largo Trindade Coelho.

Quando no ano de 1509 grassava  uma grande peste em Lisboa o rei D. Manuel I mandou erguer junto ao cemitério próximo do Convento da Trindade uma ermida a que chamou de São Roque para albergar uma relíquia do santo, oriunda de Veneza. Em 1553 os jesuítas tomaram conta desta ermida e em 1555 iniciaram a construção de um majestoso templo para a substituir nascendo assim a Igreja de São Roque que passou para o topónimo e assim nasceu o Largo de São Roque.

Em 1913 a edilidade alfacinha substituiu alguns hagiotopónimos (topónimos com nomes de santos) por outros relacionados com o regime republicano. As alterações na toponímia foram recorrentes nos anos seguintes ao 5 de outubro de 1910, tendo a primeira ocorrido logo a 5 de novembro desse mesmo ano, data em foram substituídos dez topónimos ligados à monarquia.  Pelo Edital municipal de 18 de outubro de 1913 tiveram lugar as seguintes modificações: o Largo de São Carlos passou a denominar-se Largo do Directório; o Largo do Espírito Santo passou a Largo de Ernesto Silva;  o Largo de Santa Bárbara passou a Largo 28 de Janeiro; a Rua de São José passou a Rua Alves Correia e o Largo de São Roque passou a Largo Trindade Coelho. Note-se que já desde o Edital de 18/11/1910 a Rua Larga de São Roque tinha passado a ser a Rua do Mundo, em  homenagem ao jornal republicano aí sediado, pelo que faz sentido que o largo do seu topo, o antigo Largo de São Roque tenha passado três anos depois a ser o Largo Trindade Coelho que nos jornais defendeu os ideais republicanos mesmo que se tenha suicidado antes de ver implantada a República cujos valores perfilhou e defendeu.

José Francisco de Trindade Coelho (Mogadouro/18.06.1861 – 09.06.1908/ Lisboa), formado em Direito em Coimbra começou por exercer advocacia nessa cidade ao mesmo tempo que começava a escrever nos jornais sob pseudónimo e até fundou  duas publicações: Porta Férrea e Panorama Contemporâneo. Camilo Castelo Branco admirava-o literariamente e conseguiu que ele  ingressasse na magistratura, como Delegado do Procurador Régio na comarca de Sabugal, indo depois para Portalegre, onde fundou dois jornais: Gazeta de Portalegre e Comércio de Portalegre. Depois,  já em Lisboa coube-lhe a tarefa ingrata de fiscalizar a imprensa da capital aquando do Ultimatum e abalado pelas críticas transferiu-se para Sintra (1895) e prosseguiu a sua carreira jurídica em vários tribunais.

Como escritor, Trindade Coelho publicou o livro de contos Os Meus Amores (1891) e o de memórias de Coimbra In Illo Tempore (1902), para além de obras de cariz social como a Cartilha do Povo (1901), o Manual Político do Cidadão Português (1906), o ABC do Povo  (1901) que foi um livro adotado oficialmente nas escolas públicas, bem como mais três Livros de Leitura (1903 a 1905). Também deu a lume obras jurídicas como Recursos Finais em Processo Criminal e Anotações ao Código e Legislação Penal e conseguiu uma presença importante em jornais para além da já referida, com os pseudónimos Belisário e José Coelho, escrevendo nos jornais Portugal, Branco e NegroNovidades, Repórter, O Progressista, O Imparcial, Tirocínio, Beira e Douro, Jornal da Manhã e Diário Ilustrado para além de ter ainda fundado a Revista de Direito e Jurisprudência e a Revista Nova, onde publicou as crónicas «Folhetos para o Povo», tendo através da escrita contribuído para divulgar as ideias republicanas.

No Largo Trindade Coelho, por ser a morada da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, foi inaugurada em 18 de novembro de 1987 – dia do 204º aniversário da Lotaria Nacional – uma estátua de bronze em homenagem aos cauteleiros, da autoria de Fernanda de Assis, que acabou por dar uma nova denominação popular ao arruamento, que começou a ser conhecido como o Largo do Cauteleiro.

Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Largo do Chafariz de Dentro do Museu do Fado

Freguesia de Santa Maria Maior                                                         (Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Desde a sua inauguração em 25 de setembro de 1998 que o Museu do Fado está sediado no Largo do Chafariz de Dentro, arruamento de Alfama com muitos séculos, na confluência da Rua do Terreiro do Trigo, Rua Jardim do Tabaco, Rua dos Remédios e Rua de São Pedro, que o olisipógrafo Norberto de Araújo considera «o Rossio de tôda a Alfama, e melhor diria o seu Terreiro do Paço pois muitos séculos não há que o mar aqui chegava».

Placa Tipo I

Freguesia de Santa Maria Maior – Placa Tipo I                                                            (Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O chafariz que está em funcionamento desde o séc. XIII, ganhou o nome de Dentro porque no século XIV ficava entre muralhas mas também foi vulgarmente conhecido como Chafariz de Alfama. A Cerca Fernandina tinha então uma porta para este Largo que recolheu o nome do chafariz. Antes, de acordo com uma referência documental de 1280, chamar-se-ia Chafariz dos Cavalos já que as suas águas jorravam da boca de uns cavalos de bronze que adornavam a frontaria mas, segundo o cronista Fernão Lopes estas bicas foram roubadas pelos castelhanos, aquando do cerco de Lisboa de 1384. Em 1494, o chafariz teve alguns arranjos, mas foi em 1622 que tiveram lugar as obras de monta, de que ficou a memória na inscrição da frontaria: «Êste Chafariz mandou a Câmara desta Cidade reformar no ano de 1622, sendo presidente dela João Furtado de Mendonça do Conselho de Sua Majestade (…) o qual se reformou com o dinheiro do real d’água». Em 1694 também o Largo recebeu grandes obras de saneamento e urbanização.

Alfama afamada pelas suas boas e abundantes águas, teve neste Largo do Chafariz de Dentro um espaço onde no séc. XIV as populações locais acorriam para abastecimento de água, mas também para o mercado regular e feiras periódicas que se estendiam para a Rua de São Pedro e para a praia. A urbanização do Largo em 1622 e em 1694 tornou-o um espaço mais cosmopolita e de relação com o exterior.

Freguesia de Santa Maria Maior                        (Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Largo da Graça no fado Meu amor de longe

Meu amor de longe por Raquel Tavares

No Largo da Graça já nasceu o dia
Ouço um passarinho, vou roubar-lhe a melodia
Meu amor de longe ligou
Abençoada alegria

Junto ao miradouro, pombos e estrangeiros
Vão a cirandar como fazem o dia inteiro
Meu amor de longe já vem
Pôs carta no correio

Barcos e gaivotas do Tejo
Vejam o que eu vejo, é o sol que vai brilhar
Meu amor de longe está
Prestes a chegar

Talhado para mim
Mal o conheci, eu achei-o desse modo
Logo pude perceber o fado que ia ter
Por ver nele o fado todo
Chega de tragédias e desgraças
Tudo a tempo passa, não há nada a perder
Meu amor de longe voltou
Só para me ver

Fiz um rol de planos para recebê-lo
Fui pintar as unhas, pôr tranças no cabelo
Meu amor de longe há-de vir
Beijar-me no castelo

Eu a procurá-lo, ele a vir afoito
Carro dos Prazeres, número 28
Meu amor de longe saltou
Iluminou a noite

Vamos celebrar ao Bairro Alto
Madrugada, baile no Cais do Sodré
Meu amor de longe sabe bem
Como é que é

Talhado para mim
Mal o conheci, eu achei-o desse modo
Logo pude perceber o fado que ia ter
Por ver nele o fado todo
Chega de tragédias e desgraças
Tudo a tempo passa, não há nada a perder
Meu amor de longe voltou
Só para me ver

O Largo da primeira fadista, Severa

Freguesia de Santa Maria Maior – Placa Tipo I
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Maria Severa Onofriana, a 1ª fadista, está consagrada desde 18 de dezembro de 1989 no Largo da Severa, tendo para o efeito a edilidade lisboeta usado um troço da Rua do Capelão, compreendido entre o Beco do Forno e a Rua da Guia, por ter sido uma artéria onde ela morara e falecera.

Por a antiga Rua do Capelão ser também a artéria de nascimento de Fernando Maurício, ambos os fadistas têm placas colocadas neste Largo da Severa, nos prédios dos nºs 2 e 1, descerradas por Amália Rodrigues no dia 3 de junho de 1989, numa homenagem da antiga Junta de Freguesia do Socorro e o  «sentir da população da Mouraria».  Vizinha da Rua do Capelão, a Rua João do Outeiro também acolhe a Casa Fernando Maurício, desde 12 de julho de 2015.

A Severa, sem data, Aguarela de Alberto de Souza

De seu nome completo Maria Severa Onofriana (Lisboa/26.07.1820-30.11.1846/Lisboa), era filha de Ana Gertrudes Severa e de Severo Manuel de Sousa, nascida no  nº33 da Rua Vicente Borga, onde está desde 26 de julho de 2013 uma placa onde se pode ler «Neste local onde sua mãe tinha uma taberna segundo a tradição nasceu em 26 de Julho de 1820 a mítica fadista Maria Severa Onofriana». A 12 de setembro desse ano foi batizada na Paróquia dos Anjos, hoje da freguesia de Arroios.

Severa também viveu no Bairro Alto, na Travessa do Poço da Cidade, bem como na Rua da Graça e no Pátio do Carrasco, ao Limoeiro. O último Conde de Vimioso – D. Francisco de Paula de Portugal e Castro – terá sido o seu grande amor e instalou-a em mais três moradas lisboetas: na Rua da Bemposta, na Rua da Amendoeira e ainda no seu palácio do Campo Grande.

Maria Severa cantou fado primeiro na Madragoa, depois no Bairro Alto e na Mouraria –  nas Tabernas da Rosária dos Óculos,  do Manuel Jerónimo, do Cegueta, do Manhoso, todas na Rua do Capelão – , assim como no café do antigo forcado Joaquim Silva à Rua do Saco e ainda,  em festas aristocráticas dada a sua ligação ao Conde de Vimioso.

Todavia, Severa Onofriana faleceu aos 26 anos de idade na Rua do Capelão e o que se sabe dela resulta de breves relatos de contemporâneos, como Luís Augusto Palmeirim, Miguel Queriol e Bulhão Pato.

A figura da Severa foi amplamente  cantada em letras de fados, divulgada pelo romance de Júlio Dantas e da peça homónima  levada à cena no São Luiz nesse mesmo ano de 1901 e, com reposições sucessivas em diversos palcos e adaptações em   operetas, para além de filmes, ficando assim famosa e um símbolo do fado.

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

O Largo do Nautilius das «Vinte mil léguas submarinas»

Freguesia do Parque das Nações
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Largo do Nautilius, no Parque das Nações, liga a Rua Pedro e Inês ao Passeio de Ulisses e foi um dos 102 topónimos oficializados pelo Edital municipal de 16 de setembro de 2009, após a reconversão da zona da EXPO 98 em Parque das Nações e a sua integração no território do concelho de Lisboa.

Nautilius é o nome de um submarino movido a electricidade, ficcionado por Júlio Verne em 1869, como protagonista da sua obra Vinte mil léguas submarinas (no original, Vingt mille lieues sous les mers). O livro foi originalmente publicado em forma de uma série no periódico Magasin d’Éducation et de Récréation, de março de 1869 a junho de 1870. O enredo situa-se em 1866 quando o capitão Nemo que construiu o Nautilius convida a expedição do professor Pierre Aronnax, especialista em  criaturas marinhas, a fazer a bordo uma jornada pelo fundo dos oceanos na qual vão percorrer vinte mil léguas.

Este topónimo é uma herança da Expo 98, subordinada ao tema “Os oceanos: um património para o futuro”, na qual os arruamentos do evento foram denominados  com topónimos ligados aos oceanos, aos Descobrimentos Portugueses, aos aventureiros marítimos da literatura e banda desenhada mundial, a figuras de relevo para Portugal, a escritores portugueses ou obras de sua autoria ligadas ao mar e ainda mais alguns ligados à botânica.

Freguesia do Parque das Nações
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Largo do Jacinto Gonçalves dos Transportes Jacintho

Freguesia de Alcântara
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Largo do Jacinto, no Bairro Social da Quinta do Jacinto, deriva do nome de Jacintho Gonçalves, que no séc. XIX, naquele sítio teve as primeiras cocheiras da sua empresa de transportes  de tração animal, denominada Jacintho, primeiro, de mercadorias e depois, de passageiros.

As suas primeiras cocheiras estavam no então designado Pátio do Jacinto e mais tarde, foram transferidas para a Calçada da Tapada nº 58. Jacinto Gonçalves já transportava passageiros nos seus Choras pelo menos desde 1864 sendo que a partir de julho de 1892 encontramos os documentos municipais de «pagamento de taxas das licenças dos seus carros de carreira» desde julho desse ano. Os Choras, das empresas Rippert, Chora, Salazar, Florindo ou Jacintho eram mais concorridos que os carros Americanos por praticarem preços mais económicos e assegurarem as viagens entre a Mouraria, o Intendente e Belém.

O Bairro Social da Quinta do Jacinto, situado entre a Calçada da Tapada e o Estádio da Tapadinha, foi construído nesta zona de Alcântara em 3 fases, entre 1946 e 1958, no que foi uma das primeiras realizações da Câmara Municipal de Lisboa para alojar população carenciada. Na sua primeira fase teve casas unifamiliares, para depois no início dos anos 60 –nas 2ª e 3ª fases – incluir prédios de 3 e 4 pisos  mas mantendo o carácter ruralista com hortas sociais cultiváveis em redor dos edifícios.

A toponímia do Bairro foi determinada após uma visita ao local da Comissão Consultiva Municipal de Toponímia, que na sua reunião de 8 de junho de 1951 «Emitiu o parecer de que a rua principal que circunda o bairro se denomine: Rua da Quinta do Jacinto e o pequeno largo à entrada e à direita da mesma rua: Largo do Jacinto. Pelo que respeita à denominação das restantes ruas, a Comissão foi de parecer que sejam designadas por números, de forma que às ruas orientadas no sentido Nascente-Poente sejam atribuídos números ímpares e às ruas com a orientação Sul-Norte números pares.» e assim ficou tudo fixado pelo Edital municipal de 19 de junho de 1951.

Estes Bairros Sociais eram implantados em zonas isoladas, assemelhando-se de alguma forma ao modelo de aldeia portuguesa e estimulando um estilo de vida rural, o apego à casa, à família e ao Estado. Por outro lado, a atribuição de números às ruas em vez de nomes distinguia os Bairros de Casas Económicas dos restantes bairros citadinos.

Freguesia de Alcântara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)