Alterações de topónimos tradicionais rejeitadas: Largo do Pote de Água, Largo da Graça e Praça do Comércio

O Largo do Pote de Água – Freguesia de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias)

O Largo do Pote de Água, em Alvalade, a Praça do Comércio em Santa Maria Maior e o Largo da Graça, na freguesia de São Vicente, são topónimos que foram alvo de pedidos de alteração pós-25 de Abril mas que por serem topónimos tradicionais mereceram parecer negativo da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa.

Na reunião de 20 de dezembro de 1974 foi analisada uma carta de Maria Augusta Barbosa, solicitando a alteração do topónimo Largo do Pote de Água. Mais tarde, na de 22 de julho de 1975 foi a vez da carta de Francisco Cota sugerir que a Praça do Comércio passasse a Praça do Povo. Em ambos os casos, por serem alterações de topónimos tradicionais, mereceram o parecer negativo da Comissão Municipal de Toponímia pelo que nunca foi redigida proposta para ser levada a sessão de câmara que caso aprovada expediria um Edital formalizando o nascimento de um novo topónimo.

O sítio do Pote de Água, deu o seu nome à Quinta do Pote de Água, que foi destruída pelo terramoto de 1755 e também daí advieram os topónimos Largo e Travessa do Pote de Água que ainda hoje encontramos. O Largo ficou fixado na memória da cidade pelos seus moradores e o Edital municipal de 21 de dezembro de 1960 colocou-o na Rua 1 à Avenida do Brasil.  Quase nove anos depois, pelo Edital municipal de 23/05/1969, juntou-se a Travessa do Pote de Água, a partir de um pedido do serviço municipal de Escrivania para atribuição de topónimo ao arruamento que ligava a Avenida do Brasil com o Largo do Pote de Água e o Largo João Vaz. A localização da Quinta do Pote de Água, aparece nas memórias paroquiais publicadas em Lisboa na 2ª metade do século XVIII (plantas e descrições pelas freguesias), na Freguesia de Santo André, da seguinte forma: «pela Estrada da Charneca athé a Quinta do Pote de Agoa inclusive, q hoje he de Joseph Antonio Ferreira» e, esclarece mais adiante que a Quinta «foi dos Padres Jezuitas.»

O Largo da Graça – Freguesia de São Vicente                                                  (Foto: Ana Luísa Alvim)

O pedido de alteração do Largo da Graça chegou à reunião da Comissão de 15 de junho de 1976, numa carta do Grupo Escolar Republicano Almirante Reis que avançava com  o nome de Alfredo Pedro Guisado para a substituição, e que mereceu um desfecho semelhante aos anteriores, porque embora «reconhecendo a justiça de ser consagrada na toponímia citadina a figura do doutor Alfredo Guisado, notável republicano e homem de letras, a Comissão emite parecer desfavorável por entender que o topónimo existente é tradicional e não deve, por isso, ser alterado. Na devida oportunidade, e logo que se consiga arruamento condigno, será prestada homenagem a essa individualidade.» O Largo da Graça foi um espaço definido como tal após 1700, cujo nome deriva do antigo Convento de Nossa Senhora da Graça, começado a construir em 1271 naquele local, então conhecido por Almofala, pequeno arrabalde mourisco extramuros onde as tropas de D. Afonso Henriques acamparam durante o cerco de Lisboa. A Almofala mourisca tornou-se no Bairro da Graça, topónimo repetido no Largo, na Calçada, no Caracol, na Rua,  e demais topónimos que a ecoam na Rua da Bela Vista, na Rua e na Travessa do Arco, na Rua do Cardal, na Rua do Sol, na Travessa de Santo António e na Travessa do Olival. Por seu lado,  Alfredo Guisado chegou à toponímia lisboeta em 1977,  através do Edital de 10 de outubro que o colocou numa Rua de São Domingos de Benfica.

Outras sugestões de topónimos ou pedidos de alterações foram rejeitados pela Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa neste período histórico por colidirem com os princípios pelos quais se o órgão consultivo se regia.

A sugestão de Margarida Stella Bulhão Pato Maia Rebelo,  para a atribuição do nome de José Afonso a uma artéria, apreciada na reunião de  20 de dezembro de 1974, foi recusada por contrariar a regra de atribuição de topónimos apenas a falecidos. Recusa análoga teve nessa mesma reunião uma carta anónima que sugeria a restituição do nome de Alferes Malheiro à Avenida do Brasil, pelos óbvios inconvenientes que acarretaria aos residentes das duas artérias assim fixadas desde há 40 anos. No entanto, o jornal A Capital de 10 de fevereiro de 1975 insistiu na proposta, pelo que a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa, reunida quatro dias depois, deu parecer para o assunto ser arquivado.

Por último, na reunião de 14 de fevereiro de 1975, analisou-se o pedido de substituição do topónimo Avenida Casal Ribeiro, remetido por  Miguel Araújo Rato Fernandes, que foi rejeitado, com o parecer de que «esta Comissão entende que não é de alterar o referido topónimo, visto a figura homenageada não ser o “Casal Ribeiro” deputado à Assembleia, mas sim o primeiro conde de Casal Ribeiro – José Maria Caldeira do Casal Ribeiro.»

A Praça do Comércio em 25 de Abril de 1974
(Foto: Fernando Baião, «O Século Ilustrado», 28.04.1974)

 

Sete novos topónimos na freguesia do Lumiar

Pelo Edital nº 38/2017, de 17/03/2017,  foram atribuídos sete novos topónimos na freguesia do Lumiar:  Largo Gérard Castello-Lopes, Rua Irisalva Moita, Rua Isabel Magalhães Colaço, Rua Joaquim Rodrigo, Largo Michel’Angelo Lambertini, Rua Padre Manuel Antunes e Rua Pedro Bandeira Freire.

A Senhora da Boa-Hora da Baixa para a Ajuda

O Largo da Boa-Hora à Ajuda em 1943
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Calçada da Boa-Hora, o Largo  e a Travessa da Boa-Hora à Ajuda são três topónimos que resultam da deslocação dos Eremitas Descalços de Santo Agostinho do seu Convento no Largo da Boa Hora, junto à Rua Nova do Almada, na Baixa lisboeta, para o lugar do Espargal, em Belém, após o  terramoto de 1755.

A Ordem dos Eremitas Descalços de Santo Agostinho estabeleceu-se em Portugal em 1663, com a proteção da rainha D. Luísa de Gusmão, e uma das suas comunidades estava instalada em Lisboa, desde 1677, no Convento da Boa Hora, que havia sido fundado em 1633 por D. Luís de Castro do Rio para os padres dominicanos irlandeses e foi mais tarde aproveitado para ser quartel do 1º Batalhão dos Voluntários do Comércio (1834) e Tribunal da Boa Hora (1843). O terramoto de 1 de novembro de 1755 deixou o convento em ruínas e logo em 1756 passaram os frades para um novo Convento da Boa Hora em Belém, no lugar do Espargal , cuja igreja foi dedicada a Nª Srª da Boa Hora e Stª Rita em 7 de abril de 1766. Com a extinção das ordens religiosas em 1834, a igreja do Convento da Boa Hora, no actual Largo da Boa-Hora à Ajuda, acolheu logo no ano seguinte a paróquia de Nª Srª da Ajuda.

O Palácio Ega, no nº 30 da Calçada da Boa-Hora
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Calçada da Boa-Hora, encontra-se hoje repartida pelas freguesias de Alcântara , Belém , Ajuda, delimitada entre a Rua da Junqueira e o Largo da Boa-Hora, conforme Edital municipal de 26 de setembro de 1916, que oficializou topónimos herdados do extinto concelho de Belém. Já também na alçada da edilidade lisboeta foram em 1887-1888 construídos canos de esgoto para esta Calçada.  Refira-se ainda que no nº 30 desta Calçada encontramos o Palácio da Ega que dá sede ao Arquivo Histórico Ultramarino desde 1931.

Ao Largo e à Travessa da Boa-Hora foi acrescentada a expressão «à Ajuda», para evitar equívocos com o Largo da Boa-Hora (Freguesia de Santa Maria Maior) e a Travessa da Boa-Hora (Freguesia da Misericórdia), através do Edital municipal de 8 de junho de 1889.

O Largo da Boa-Hora à Ajuda é o espaço na confluência da Travessa do Moinho de Vento, Rua do Machado, Travessa da Boa-Hora à Ajuda e Calçada da Boa-Hora. Em 1883, a Administração dos Correios e Telégrafos solicitou autorização ao presidente da Câmara de Belém para lá colocar um marco postal.  A partir de desde 1890 passou a funcionar nas antigas dependências do Convento, neste largo, o Hospital Militar de Belém, que se especializou em doenças infecto-contagiosas.

Já a Travessa da Boa-Hora à Ajuda une o Largo da Boa-Hora à Ajuda à Calçada da Ajuda. Segundo Luís Pastor de Macedo, esta artéria foi designada no séc. XVIII «por Travessa da Abegoaria, e algum tempo depois por Travessa do Teixeira, nome que lhe foi dado pelo tenente José Teixeira, mais tarde sargento-mor, e que foi proprietário da abegoaria que dera à travessa o nome anterior. Depois foi ainda a Rua das Piteiras, porque o povo, coerente, via que parte da serventia era marginada por piteiras.»

O Largo, a Travessa da Boa-Hora à Ajuda e a Calçada da Boa-Hora
(Planta: Sérgio Dias)

A Senhora da Saúde que ficou das Necessidades em 5 topónimos de Lisboa

O Largo das Necessidades - Freguesia da Estrela (Foto: Sérgio Dias)

O Largo das Necessidades – Freguesia da Estrela
(Foto: Sérgio Dias)

A Ermida de Nª Srª das Necessidades, erguida em 1607, fixou-se na memória de Lisboa em 5 topónimos: a Calçada das Necessidades, o Largo das Necessidades, a Rampa das Necessidades, a Rua das Necessidades e a Travessa das Necessidades, todos na Freguesia da Estrela.

A Ermida da Nª Sr.ª das Necessidades foi construída em 1607 para abrigar uma imagem da Senhora da Saúde roubada na Ericeira por devotos ali refugiados da peste de 1580. A irmandade que cuidou do templo e o ampliou era de marítimos da carreira da Índia. depois de 1613, Pedro de Castilho, conselheiro de D. João IV comprou as casas ligadas à ermida e transformou-as na sua residência, tendo mais tarde ficado com o assento da ermida e mandou erigir a capela-mor, obra terminada em 1659. Depois, D. João V comprou o local, grato à Senhora das Necessidades pelas melhoras da paralisia de que padecera, e resolveu ampliar a ermida, erguer para si  um palácio no local – que foi Paço Real até 1910 – e ainda construir um hospício e um convento que em 1744 doou à Congregação do Oratório: Convento de São Filipe de Néri e Convento de Nossa Senhora das Necessidades. Com a extinção das ordens religiosas em 1834, o edifício do convento foi anexado para os serviços da Casa Real e em 1950 foi transformado em sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

A Calçada das Necessidades liga o Largo do Rilvas à Rua do Possolo. Em documentação municipal já a encontramos referida em 1861 no plano de um prédio que João António da Luz Robim pretendia aumentar, nos n.º 2 a 6 da Calçada das Necessidades, assim como em 1884 « sobre a necessidade de providências rápidas para a construção de um cano geral de esgoto para que o cano de despejos do prédio n.º 2 da rua do Borga não continue a verter as imundices para a calçada das Necessidades.»

O Largo das Necessidades encontra-se na confluência da Rua das Necessidades, Rua Capitão Afonso Pala e Calçada do Sacramento. Antes foi o Largo das Cortes, conforme planta de 1856 de Filipe Folque, dado que em 1820 foi o local escolhido para as primeiras Cortes Constituintes. Em 1883 já o encontramos como Largo das Necessidades em diversas informações municipais propondo melhoramentos para o local.

A Rua das Necessidades era a  antiga Rua Direita das Necessidades até o Edital municipal de 22/08/1881 lhe retirar a palavra «Direita» e delimitá-la da Travessa do Sacramento a Alcântara ao Largo das Necessidades.

A Rampa das Necessidades vai da Praça da Armada à Rua das Necessidades e em outubro de 1890, assim está registada numa planta municipal referente ao estado da Rua da Correnteza de Baixo, da Rampa das Necessidades e do Beco dos Contrabandistas, .

Finalmente, a Travessa das Necessidades une a Travessa do Sacramento a Alcântara ao Largo do Rilvas. Foi revestida com macadame em 1877.

O topónimo Necessidades na Freguesia da Estrela (Planta: Sérgio Dias)

O topónimo Necessidades na Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

A Senhora do Monte de S. Gens em 5 artérias

A Ermida de Nossa Senhora do Monte, no Largo do Monte (Foto: Artur Pastor, anos 80 do séc. XX, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Ermida de Nossa Senhora do Monte, no Largo do Monte
(Foto: Artur Pastor, anos 80 do séc. XX, Arquivo Municipal de Lisboa)

No ponto mais alto do Bairro da Graça, a Ermida de Nossa Senhora do Monte e de S. Gens foi fundada no próprio ano da tomada de Lisboa aos mouros, em 1147, e dela derivaram os 5 topónimos que ainda hoje encontramos: a Calçada do Monte, as Escadas do Monte, o Largo do Monte, a Rua da Senhora do Monte e a Travessa do Monte.

Norberto de Araújo precisa que «O Bairro do Monte, urbanizado, data de 1902, embora anteriormente existisse na sua Calçada, no seu alto de S. Gens, e num ou noutro arruamento impreciso. (…) Data desta época o Bairro (novo) do Monte, definindo-se, em plano de urbanização, as Ruas de S. Gens e da Senhora do Monte, esta já existente antes, como natural descida do alto de S. Gens à Rua da Graça. (…)».  Desta urbanização de 1902, encontramos a escritura de concessão  de licença municipal a Higino de Magalhães Mendonça para construir a Rua da Senhora do Monte, datada de 21 de junho de 1901, bem como a escritura de entrega de rua a 21 de novembro de 1903. Este Higino de Mendonça era pintor e  herdeiro de Damasceno Monteiro (por ser sobrinho da esposa dele), pelo que assim separou a ermida das restantes propriedades e no local procedeu ao parcelamento e à urbanização do Bairro do Monte, bem como à construção do seu palacete na Rua da Senhora do Monte, que nos anos 60 foi substituído por dois prédios mais modernos.

Em 1903, o Edital municipal de 18 de dezembro atribuíu o  topónimo Rua da Senhora do Monte, à via entre a Rua da Graça e a Calçada do Monte e, por este mesmo edital foi  deu  também nas proximidades a Rua de S. Gens, tanto mais que desde o ano anterior a Ermida tinha tido obras e passara para a Coroa com o título de Real Ermida de Nossa Senhora e S. Gens.

Aliás, a Ermida de Nossa Senhora do Monte que encontramos no Largo do Monte, foi erigida no Monte de S. Gens e também consagrada a este padroeiro dos atores cómicos, que terá sido o 1º bispo de Lisboa e martirizado em 284 no sopé do monte, nas Olarias, segundo a tradição. A cadeira de pedra de S. Gens foi colocada na Ermida em consideração às suas virtudes milagrosas no aumento da fertilidade e numa boa hora no parto. Em 1243 foi construído um segundo ermitério dos frades Agostinhos Calçados para o qual foi deslocada a cadeira, bem como o obelisco para o Largo do Monte.  A Ermida e o ermitério sofreram com o Terramoto de 1755 e a igreja foi reedificada com risco de Honorato José Cordeiro, mantendo a cadeira no interior. Em 1815, os Agostinhos plantaram árvores no Largo do Monte que duraram até ao ciclone de Lisboa de 1941. Com a extinção das ordens religiosas em 1834, o Estado vendeu toda a propriedade (ermida e quinta) a Clemente José Monteiro, cuja viúva, Henriqueta de Mendonça  casou em segundas núpcias com Damasceno Monteiro, o qual criou em 1857 uma nova Irmandade de Nossa Senhora do Monte e S. Gens, tendo no ano seguinte os devotos lisboetas  oferecido uma imagem de Nossa Senhora do Monte para o altar-mor. O herdeiro, Higino de Mendonça, parcelou e urbanizou a zona no início do séc. XX, como acima referimos.

A Calçada do Monte será a mais antiga já que, como frisa Norberto de Araújo, «A empinada Calçada do Monte, defronte do Largo, é, como estás vendo, a resultante de um caminho ou vereda que nos séculos velhos dividia a Cerca do Convento da Graça da encosta poente do Monte de S. Gens.» Por seu turno,  o Largo do Monte está ao cimo da Calçada do Monte, razão para o Edital municipal de 17/10/1924 ter integrado no Largo do Monte o prédio nº 1 da Calçada do Monte.

Já as Escadas do Monte, partilhadas pelas freguesias de São Vicente  e de Arroios, ligam a Rua Damasceno Monteiro à Rua das Olarias, desde a publicação do Edital do Governo Civil de 11 de janeiro de 1876. Em 1893, no nº 6 foi erguida uma vila operária.

Por último, a Travessa do Monte, liga o Largo da Graça à Calçada do Monte e já aparece num prospeto do prédio que Nuno António de Jesus pretendia construir na Travessa de Nossa Senhora do Monte, n.º 17 a 19, em 28 de junho de 1860.

Freguesia de São Vicente (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias)

 

O Largo da Senhora da Anunciada que ocupou o Convento de Santo Antão

O Largo da Anunciada em 1960 (Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Largo da Anunciada em 1960
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Largo da Anunciada, com que hoje deparamos na confluência da Avenida da Liberdade, Rua das Portas de Santo Antão e Rua de São José, na freguesia de Santo António, é um topónimo que advém do seiscentista Mosteiro de Nossa Senhora da Anunciada que ocupou o Convento de Santo Antão por determinação do rei D. Manuel, em cujo lugar encontramos agora a Igreja paroquial de São José da Anunciada.

Norberto de Araújo refere o Largo da Anunciada como «invocação de ressonância lisboeta, que deriva do nome do Convento que neste sítio existiu. No local, onde está a paroquial de S. José, para norte e para nascente, caindo sôbre as hortas, onde hoje passa a Avenida, levantava-se o Mosteiro, com sua Igreja e Cêrca, das religiosas dominicanas; a Casa fôra reedificada, por D. Manuel, em 1539, sôbre um anterior Convento de frades agostinhos descalços de Santo Antão, que datava de 1400 -, e foi dele que derivou o nome à Rua das Portas de Santo Antão. As religiosas da Anunciada já tinham desde 1519 a sua casa conventual, na Mouraria (Coleginho) – em local que fôra de uma mesquita moura. No citado ano de 1539 os frades e as freiras trocaram a sede das suas casas: assim os agostinhos de Santo Antão foram para o Coleginho, e as religiosas da Anunciada vieram para êste sítio, que passou por isso a ser chamado de Anunciada; a Rua é que se manteve fiel a Santo Antão.»

largo-da-anunciadaEm 1496 o rei D. Manuel  expulsou do país os mouros  e os judeus, e nessa sequência fez mercê da Mesquita da Mouraria – onde hoje é a Rua Marquês de Ponte de Lima – ao Hospital Real de Todos os Santos, que a aforou para conseguir algum lucro. Mas como os foreiros não pagavam o devido o rei anulou o contrato e converteu a mesquita em templo dedicado a Nossa Senhora da Anunciada que entregou, no ano de 1511, a mulheres que viviam em recolhimento segundo a Ordem Terceira de São Francisco. Oito anos mais tarde, em 1519, foi transformado em convento de freiras dominicanas,  da Ordem dos Pregadores, com orago de Nossa Senhora da Sagrada Anunciação.

Contudo, dada a insalubridade do local e a devassa da vida claustral pelas casas vizinhas na encosta do Castelo, trocaram de morada em 1539, com os monges do Convento de Santo Antão, na zona norte extramuros de Lisboa, no ~espaço que hoje é o Largo da Anunciada, na estrada que ia das Portas de Santo Antão ao lugar de Nossa Senhora da Luz,  a antiga Corredoura. Parte dessa antiga estrada é ainda hoje a Rua de São José, que constituía o limite nascente da cerca do Convento da Anunciada. Por outro lado,  D. João III cedeu em 1553 o Convento de Santo Antão da Mouraria aos jesuítas, para ser o seu primeiro colégio em Lisboa.

Para as religiosas serem acolhidas condignamente no Convento da Anunciada, este recebeu obras  patrocinada por Fernão Álvares de Andrade,  fidalgo da Casa Real e proprietário das casas em frente ao convento. Em 1542, D. João III, padroeiro do Convento da Anunciada, autorizou a cedência da capela-mor da igreja para panteão de Fernão Álvares de Andrade, de sua mulher Isabel de Paiva e de seus descendentes. A divisão dos dormitórios em celas foi custeada pela rainha D. Catarina e por D. Joana de Noronha, filha do 2º conde de Linhares, D. Francisco de Noronha, que acabou por lá se recolher junto das suas 4 irmãs religiosas. No último quartel do século XVI o Convento da Anunciada era considerado um dos principais da corte, onde professavam numerosas filhas da nobreza, algumas delas escritoras e artistas.

Excerto da planta de Filipe Folque de 1858 (Arquivo Municipal de Lisboa)

Excerto da planta de Filipe Folque de 1858
(Arquivo Municipal de Lisboa)

O Terramoto de 1755 arruinou o Convento e a Igreja, tendo falecido 16 pessoas, entre elas uma filha do Marquês de Távora, e as freiras abandonaram o espaço para se fixarem em 1756 no Convento de Santa  Joana, na Rua de Santa Marta, por determinação de D. José I. Em 1765, as  religiosas da Anunciada venderam os terrenos da cerca, por 6.400.000 réis, à Irmandade do Santíssimo Sacramento da freguesia de São José – que desde 1567 tinha sede na igreja de São José dos Carpinteiros-, responsável pelo loteamento e urbanização dessa área a partir do final do século XVIII e pela construção da igreja paroquial de São José da Anunciada que se iniciou em 1856, no local do antigo Convento da Anunciada, sendo aberta ao culto em 15 de agosto de 1883.

Freguesia de Santo António (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Planta: Sérgio Dias)

Santa Maria da Luz em 4 artérias de Carnide

Freguesia de Carnide (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Carnide
(Planta: Sérgio Dias)

Carnide acolhe a Azinhaga, o Largo e a Travessa da Luz, bem como a Estrada da Luz que divide com São Domingos de Benfica, em homenagem a Santa Maria da Luz por mor de uma ermida ali erguida no séc. XV.

Largo da Luz - Freguesia de Carnide (Foto: Sérgio Dias)

Largo da Luz – Freguesia de Carnide
(Foto: Sérgio Dias)

Segundo uma lenda, Nossa Senhora terá aparecido sucessivas vezes, aureolada de luz, a um natural de Carnide, de seu nome Pêro Martins, provavelmente da carreira das armas, prometendo livrá-lo do cativeiro e, recomendando-lhe que de regresso a Carnide erigisse na Fonte da Machada uma ermida dedicada a Santa Maria da Luz, cuja imagem encontraria perto daquele local. Pêro Martins acabou por ser libertado e regressado a Portugal em 1463 dirigiu-se às cercanias da Fonte da Machada e encontrou a imagem de Nossa Senhora da Luz, pelo que se empenhou em recolher as contribuições dos seus vizinhos, bem como a licença do Bispo de Lisboa, para construir a ermida, na qual a imagem foi solenemente entronizada no dia 8 de setembro de 1464.

D. Afonso V, o Bispo de Lisboa e alguns fidalgos fizeram logo parte da Irmandade da ermida. Pêro Martins foi nela sepultado em 14 de março de 1466. A ermida veio depois a ser anexada à igreja de São Lourenço de Carnide, cujo pároco ficou com o encargo de manter o culto e de dar continuidade às festividades religiosas em honra de Nossa Senhora da Luz, a 8 de setembro, as quais persistiram até aos nossos dias, tal como a Feira da Luz, realizada no Largo da Luz desde o século XVI.

Travessa da Luz - Freguesia de Carnide (Foto: Sérgio Dias)

Travessa da Luz – Freguesia de Carnide
(Foto: Sérgio Dias)

Em 1862, quando Carnide pertencia à  Câmara Municipal de Belém, o Largo da Luz era designado como Praça da Luz. Em 1970, foram instaladas as primeiras cabines telefónicas do Largo e nos dias de hoje está contido entre a Estrada do Paço Lumiar, a Azinhaga das Carmelitas e a Estrada da Luz.

Azinhaga da Luz - Freguesia de Carnide (Foto: Sérgio Dias)

Azinhaga da Luz – Freguesia de Carnide
(Foto: Sérgio Dias)

Na Planta Topográfica de Lisboa de 1908, de Júlio Silva Pinto e Alberto de Sá Correia, são referenciados o Largo da Luz, a Estrada da Luz, o Real Colégio Militar, a Quinta de Nossa Senhora da Luz e a Azinhaga da Luz. No entanto, a Azinhaga da Luz foi oficializada pelo Edital municipal de 4 de março de 1974  como o arruamento de ligação entre a Azinhaga do Serrado e a Azinhaga das Carmelitas.

A Estrada da Luz foi sendo alargada no decorrer dos tempos, mas sobretudo no período de 1915 a 1919, com a a edilidade  a comprar e permutar várias parcelas de terreno necessárias para o efeito, sendo que em 1919 Branca da Gonta Colaço e o seu marido, Jorge Colaço, cederam mesmo um terreno para o alargamento. Hoje, a Estrada da Luz vai da  Estrada das Laranjeiras à Avenida General Norton de Matos.

Já a Travessa da Luz, foi uma atribuição por Edital municipal de 9 de junho de 1928, à antiga Travessa das Bruxas, com o propósito de apagar um topónimo que deve ter sido considerado menos próprio. Em 1972 foi arborizada e ajardinada e hoje liga a Estrada da Luz à Rua Fernando Namora.

Estrada da Luz - Freguesias de Carnide e de São Domingos de Benfica (Foto: Sérgio Dias)

Estrada da Luz – Freguesias de Carnide e de São Domingos de Benfica
(Foto: Sérgio Dias)

 

Dez Heróis do Ultramar em Olivais Velho, Benfica e Alcântara

Freguesia dos Olivais - Olivais Velho (Planta: Sérgio Dias)

Os 5 topónimos de «Heróis do Ultramar» em Olivais Velho, na Freguesia dos Olivais 
(Planta: Sérgio Dias)

Dez anos após o início da Guerra Colonial, a edilidade lisboeta colocou através de um único Edital (22 de junho de 1971), de acordo com a legenda, dez «Heróis do Ultramar» em Olivais Velho, Benfica e Alcântara, «falecidos no Ultramar, em combate ao terrorismo», conforme se lê no despacho do Presidente da Câmara de então, Engº Santos e Castro.

Este procedimento está justificado na Ata da reunião da Comissão Consultiva Municipal de Toponímia de 16 de junho de 1971 da seguinte forma: «Despacho de Sua Excelência o Presidente, solicitando parecer sobre a consagração na toponímia de Lisboa, dos nomes dos seguintes militares falecidos no Ultramar, em combate ao terrorismo : major aviador Figueiredo Rodrigues, alferes Mota da Costa, Carvalho Pereira e Santos Sasso, furriel Galrão Nogueira, soldados Rosa Guimarães, Santos Pereira e Purificação Chaves e marinheiros Correia Gomes e Manuel Viana. Considerando justificar-se plenamente uma homenagem à memória de tão heróicos militares e, tendo em vista a circunstância de os soldados e marinheiros não terem patente, a Comissão emite parecer favorável à consagração dos seus nomes». 

Os seis topónimos fixados em Olivais Velho foram a Rua Alferes Mota da Costa/Herói de Ultramar/1937 – 1961, o Largo Américo Rosa Guimarães/Herói de Ultramar/1945 – 1967,  a Rua Furriel Galrão Nogueira/Herói de Ultramar/ 1941 – 1965, a Rua Alferes Carvalho Pereira/Herói de Ultramar/1941 – 1966, a Rua Alferes Santos Sasso/Herói do Ultramar/1941 – 1965 e a Rua Major Figueiredo Rodrigues/Herói de Ultramar/ 1939 – 1969.

Manuel Jorge Mota da Costa (Porto – freg. Cedofeita/14.05.1937 – 14.05.1961/Angola), alferes paraquedista da 1.ª Companhia de Caçadores Paraquedistas do Batalhão de Caçadores 21 em Angola onde chegou a 17 de abril de 1961 e onde faleceu  menos de um mês depois no Bungo, aos 24 anos, condecorado a título póstumo com a Medalha de Prata de Valor Militar com palma, ficou no Impasse 1 do Plano de Urbanização de Olivais Velho. O soldado Américo Rosa Guimarães (Oeiras/21.09.1945 -05.10.1967/Angola), condecorado postumamente com a Medalha de Cobre de Valor Militar com palma, também faleceu  em Angola, aos 22 anos, e foi fixado no  Impasse 2 do Plano de Urbanização de Olivais Velho.

Os outros quatro militares fixados em Olivais Velho faleceram na Guiné. O Furriel Galrão Nogueira (1941 – 1965/Guiné), falecido aos 24 anos, foi perpetuado no Impasse B do Plano de Urbanização de Olivais Velho. Ao alferes miliciano de Infantaria José Alberto de Carvalho Pereira (Lisboa/13.02.1941 – 12.03.1966/Guiné), falecido aos 25 anos e condecorado a título póstumo com a Medalha de Cruz de Guerra de 3ª classe, coube-lhe o Impasse 3 do Plano de Urbanização de Olivais Velho.  O também alferes miliciano de Infantaria Mário Henrique dos Santos Sasso (Lisboa – freg. de Stª Engrácia/14.12.1941 – 05.12.1965/Guiné), da Companhia de Caçadores n.º 728, condecorado com a medalha de Cruz de Guerra de 3ª classe a 2 de julho de 1965 e falecido aos 23 anos, ficou no  Impasse 3′ do Plano de Urbanização de Olivais Velho. E por último, o major piloto aviador António de Figueiredo Rodrigues (Penalva do Castelo/01.01.1939 – 12.07.1969/Guiné) , falecido aos 30 anos,  foi colocado na Rua A do Plano de Urbanização de Olivais Velho.

Em Benfica, homenagearam-se 3 militares falecidos na Guiné nos anos de 1964 e 1965, com a Rua José dos Santos Pereira/Herói do Ultramar/ 1943 – 1964, a Rua José da Purificação Chaves/Herói do Ultramar/1942 – 1964 e a Rua Manuel Correia Gomes/ Herói do Ultramar/1936 – 1965.

O soldado José dos Santos Pereira (Torres Vedras – A-dos-Cunhados/19.09.1943 – 15.12.1964/Guiné) faleceu aos 21 anos e foi condecorado, a título póstumo, com a Medalha da Cruz de Guerra de 2ª classe,  tendo sido perpetuado na Rua C, à Estrada do Calhariz de Benfica (Quinta de Santa Teresinha). O soldado condutor Francisco José da Purificação Chaves (Loures/08.08.1942 – 24.01.1964/Guiné),  falecido aos 21 anos na Ilha do Como e condecorado a título póstumo com a Medalha de Cruz de Guerra de 1ª Classe,  ficou no Impasse I à Estrada do Calhariz de Benfica. O marinheiro fuzileiro especial Manuel Correia Gomes (Vila Verde-Turiz/15.02.1936 – 14.03.1965/Guiné), falecido aos 29 anos e condecorado a título póstumo com a Medalha de Cruz de Guerra de 2ª classe, foi fixado no arruamento de acesso entre a Estrada do Calhariz de Benfica e o arruamento paralelo ao caminho de ferro (Quinta de Santa Teresinha).

Também encontramos a Rua José dos Santos Pereira, em Maceira, no Concelho de Torres Vedras, de onde este soldado era natural, bem como a Rua Francisco José Purificação Chaves em Loures, concelho de nascimento do soldado.

Finalmente, em Alcântara ficou a Rua Manuel Maria Viana/Herói de Ultramar/1944 – 1968, na Rua A à Travessa da Galé, também conhecida por Rua A à Avenida da Índia. O marinheiro fuzileiro especial Manuel Maria Viana (Odemira – S. Teotónio/07.08.1944 – 16.08.1968/Angola), integrado no Destacamento n.º 2 de Fuzileiros Especiais faleceu aos 24 anos e foi condecorado a título póstumo com a Medalha de Cobre de Valor Militar, com palma. Em 1971 a Escola de Fuzileiros criou também o  Prémio Manuel Viana, em sua honra, a  ser atribuído anualmente ao aluno com melhor classificação nos cursos de aplicação do 1.º grau.

A maioria destes topónimos – oito –  são exclusivos de Lisboa e não se encontram na toponímia de mais nenhum local do país, excepto nos 2 casos mencionados de homenagem prestada na terra natal.

Freguesia de Benfica (Planta: Sérgio Dias)

Os 5 topónimos de «Heróis do Ultramar» na Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias)

O Largo do Governador da Guiné do séc. XIX, Honório Barreto, em Lisboa desde 1964

Freguesia do Beato (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Beato
(Foto: Sérgio Dias)

Na Guiné, a Guerra Colonial foi iniciada a 23 de janeiro de 1963, com o ataque do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde) ao quartel de Tite e no ano seguinte, o Edital de 23 de julho de 1964, atribuiu o Largo Honório Barreto na Freguesia do Beato, por via de uma sugestão da Sociedade de Geografia de Lisboa feita cerca de 11 anos antes, em homenagem  a um Governador da Guiné do séc. XIX, que era natural daquele território.

Em 22 de janeiro de 1953, Luís Nunes da Ponte proferiu uma conferência na Sociedade de Geografia de Lisboa intitulada «Honório Pereira Barreto, heróico governador negro da Guiné» e na reunião da Comissão Municipal de Toponímia de 12 de outubro desse ano, foi  analisado o pedido da Sociedade de Geografia de Lisboa, no qual solicitava que « o nome de Honório Barreto – heróico governador negro da Guiné – e, bem assim, os nomes de Caldas Xavier e Artur de Paiva, sejam atribuídos a artérias da capital» tendo então avançado « que o nome de Honório Barreto denomine a primeira transversal do Parque Eduardo VII, que liga a Avenida António Augusto de Aguiar à Avenida Sidónio Pais». Contudo, o Edital de 28/05/1956 atribuiu a essa mesma artéria a denominação de Rua Eugénio dos Santos que ainda hoje vigora. Assim, só pelo Edital de 23/07/1964 foi fixado o nome de Honório Barreto na toponímia de Lisboa, desta feita na freguesia do Beato, no cruzamento da Rua João do Nascimento Costa com a Calçada da Picheleira.

10-honorio-barretoHonório Pereira Barreto (Guiné – Cacheu/24.04.1813 – 16 ou 24 ou 26.04.1859/Bissau – Guiné), estudou em Portugal até ao falecimento de seu pai, em 1829, e foi um militar que chegou ao posto de tenente-coronel e a Governador da Guiné.

Era filho do caboverdiano, João Pereira Barreto Jr. –  Sargento-Mor e maior comerciante de Cacheu – e da guineense, Rosa de Carvalho Alvarenga,  conhecida por Dona Rosa de Cacheu ou Nha Rosa, uma reconhecida autoridade local. Aliás, Honório Barreto geriu com a sua mãe o negócio de família em Cacheu, onde os principais produtos dos seus negócios mercantis eram escravos obtidos dos Soninké/Mandinga e dos Bijagó.

Este Governador da Guiné manteve o controlo português da área e ainda estendeu territorialmente a sua influência. Desempenhou as funções de Provedor de Cacheu (1834) Capitão-Mor de Cacheu por três vezes (1834 – 1835, 1846 a 1848 e 1852), Governador da Praça de Cacheu (1852 -1854), e Capitão-Mor de Bissau por cinco vezes (1837 –  1839, 1840 – 1841, 1853 – 1854, 1855 – 1858 e de 1858 até à sua morte).

Conseguiu através de luta armada, mas também comprando terrenos, que Bolama e Casamansa não ficassem na posse dos ingleses e reconstruiu Bolama após os incêndios dos britânicos (1839). Em 1843 publicou a sua Memória sobre o Estado Actual da Senegâmbia Portuguesa, Causa da sua Decadência e Meios de a Fazer Prosperar. Também acabou com a sublevação dos Papéis de Bissau (1853) e as investidas dos Nagos (1856) enquanto cedia graciosamente à coroa portuguesa um território seu, na região dos Felupes de Varela (1857).

Honório Barreto foi galardoado com o grau de Comendador da Ordem Militar de Cristo e com o grau de Cavaleiro da Ordem Militar da Torre e Espada, assim como teve a sua efígie em notas da Guiné de 1.000$00 (30 de abril de 1964) e 500$00 (27 de julho de 1971), bem como em selos e ainda deu o seu nome a uma corveta de guerra da Marinha Portuguesa em 1971.

Freguesia do Beato (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Beato
(Foto: Sérgio Dias)

Dois antigos Heróis do Ultramar feitos topónimos em novembro de 1961

Freguesia de São Vicente (Foto: Sérgio Dias)

Rua General Justiniano Padrel – Freguesia de São Vicente
(Foto: Sérgio Dias)

Dois antigos «Heróis do Ultramar», conforme consta nas legendas, um na Guiné e Angola e outro em Timor, tornaram-se topónimos de São Vicente e da Penha de França, pelo Edital municipal de 10 de novembro de 1961: a Rua General Justianiano Padrel e o Largo Alferes Francisco Duarte.

A Guerra Colonial iniciara-se há 9 meses em Angola e a toponímia de Lisboa exaltou dois militares que combateram pela manutenção da soberania portuguesa nas colónias, no decorrer do séc. XIX e princípios do séc. XX.

A Rua General Justiniano Padrel nasceu num troço da Rua do Barão de Monte Pedral, por sugestão da Sociedade de Geografia, que também incluía os nomes dos generais Garcia Rosado, Massano de Amorim, João de Almeida, major Neutel de Abreu e coronel Bento Roma a que a Comissão Municipal de Toponímia deu parecer favorável e assim, na sua reunião de 3 de novembro de 1961, esclareceu que «A Comissão foi de parecer que o troço da Rua do Barão de Monte Pedral, desde a sua confluência com a Rua B, passe a denominar-se Rua General Justiniano Padrel, e que a Rua do Barão de Monte Pedral principie na Calçada dos Barbadinhos e abranja a referida Rua B, devendo os respectivos letreiros toponímicos serem escritos da seguinte maneira: Rua General Justiniano Padrel, Herói do Ultramar – 1846 – 1911».

O homenageado, Lourenço Justiniano Padrel (no mar entre Cabo Verde e Guiné/08.01.1846 – 20.06.1911/Luanda) foi um militar que se distinguiu nas Campanhas Militares nas antigas colónias, nomeadamente, no ataque a Caconda (Guiné-Bissau) e no cerco da Fortaleza de Humbe (Angola) onde foi cercado por 10 mil guerreiros e os venceu. Deixou publicado A expedição ao Humbe (1892) e foi agraciado com os graus de cavaleiro, oficial e comendador da Torre e Espada.

O Largo Alferes Francisco Duarte foi gerado na confluência da Rua Sebastião Saraiva Lima e da Praça Paiva Couceiro, no espaço conhecido como Praceta à Rua Sebastião Saraiva Lima, no qual se integrou também o troço do Caminho de Baixo da Penha que tinha os nºs 313 a 329, a partir de uma sugestão do coronel Marino da Cunha Sanches Ferreira dirigida à edilidade por carta.

O alferes Francisco Duarte (?/08.12.1862 – 12.07.1899/Bobonaro – Timor) era «conhecido em Timor pelo cognome de “Arbiru”» – conforme refere a Ata da reunião da Comissão Municipal de Toponímia de 3 de novembro de 1961 – palavra de tétum que significa «homem invencível, homem que nunca descansa». Francisco Duarte estava em  Timor (hoje, Timor Lorosae) desde 1892 e foi um  dirigente militar do distrito cafeicultor de Maubara. Distinguiu-se sobretudo nas campanhas militares que decorreram entre 1893 e 1896, nomeadamente em Lamaquitos, Obulo, Maerobo, Manufai e Deribate, ganhando fama de violento pacificador das revoltas timorenses. Este militar galardoado com a Ordem da Torre e Espada faleceu em combate e foi sepultado no cemitério de Santa Cruz em Díli.

O Largo Alferes Francisco Duarte em 1964 (Foto: Augusto de Jesus Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Largo Alferes Francisco Duarte em 1964
(Foto: Augusto de Jesus Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)