O Largo Associação Ester Janz em Marvila

Largo Associação Ester Janz – Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias | NT do DPC )

Fundada em 1982, para prestar apoio educativo aos filhos dos funcionários do grupo das Empresas dos austríacos Janz,  a Associação Ester Janz passou em 1 de agosto de 2005 a dar nome a um Largo da Freguesia de Marvila, na confluência da Rua Fernando Maurício com a Rua Armandinho, próximo da sede da Associação.

Associação Ester Janz – Freguesia de Marvila

Bruno Janz, casado com Ester Janz,  fundou em 1915 a Empresa Bruno Janz,  na Avenida Infante D. Henrique, junto à nova rotunda, que resultou do prolongamento da Avenida Estados Unidos da América. Esta empresa familiar foi continuada pelo seu filho, netos e bisnetos, tendo à data da atribuição do topónimo cerca de 600 trabalhadores, muitos deles com 20, 30, 40 e até 50 anos de casa e moradores da freguesia de Marvila.

Logo nesse início do séc.XX e da empresa Bruno Janz, a sua esposa Ester Janz manifestava preocupações sociais em prol da melhoria de vida da mulher trabalhadora para obstar às dificuldades que estas tinham em conseguir conciliar a profissão com a vida familiar. Assim, em 7 de julho de 1982 foi possível à neta, Teresa Janz, concretizar o sonho da avó com a Associação Ester Janz, construída em edifício próprio e como uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS), dedicada à educação dos filhos dos funcionários do grupo das Empresas Janz. Das 28 crianças iniciais passou-se para 60, decorridos cinco anos, já que em 1987, mediante protocolo assinado com a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, a Associação acolheu pela primeira vez também crianças moradoras nas imediações das empresas do grupo e cujo rendimento do agregado familiar era baixo, aumentando a valência de  infantário para também escola do 1º Ciclo e  expandindo-se à comunidade em geral, sendo em 1990 já 438 crianças, granjeando o apoio da Junta de Freguesia de Marvila e da Câmara Municipal de Lisboa, nomeadamente através da cedência de terrenos para a construção e a ampliação das instalações.

Ester Janz faleceu em 1977 e os fundadores da Associação com o seu nome, funcionários e acionistas das Empresas Janz quiseram prestar-lhe esta homenagem a que a edilidade lisboeta acedeu dando o seu nome a uma arruamento da Freguesia para cujo bem estar contribuiu.

Largo Associação Ester Janz – Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

Forcas e fogueiras no Campo de Santa Bárbara, hoje Largo

Largo de Santa Bárbara – Freguesia de Arroios
(Foto: Luís Pavão, 2011, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Largo de Santa Bárbara começou por ser o Campo de Santa Bárbara e pelo menos desde o séc. XV foi lugar de execuções pela forca e pelo fogo.

Ao certo, encontramos um documento de 16 de agosto de 1450, de D. Afonso V, em que manda o corregedor em Lisboa atender aos  montantes gastos pelo concelho na cerca feita em redor da forca de Santa Bárbara. Depois, em 19 de maio de 1500, D. Manuel I determina que as execuções por fogo devem ter lugar no Rossio de Santa Bárbara ou noutro local do exterior da cidade. Após o Terramoto de 1755 foi também no Campo de Santa Bárbara que se ergueram as forcas onde foram executados aqueles que aproveitando a confusão gerada pela catástrofe roubaram os bens das vítimas.

Alguns indícios parecem também apontar para que o Campo de Santa Bárbara tenha sido designado também como Campo da Forca na época de D. João V. Nos documentos municipais encontramos uma petição de 1700 de Manuel Antunes, morador a São Lázaro que diz ter umas casas em frente do muro da forca dos padres Bernardos [no Desterro]; em  1702, o  secretário de Estado Mendo de Fóios Pereira, no seu aviso sobre os locais de depósito dos lixos da cidade determina que os lixos da Mouraria podem ser depositados no Campo da Forca ou nas covas perto da Calçada do Monte, sendo que os restantes escolhidos são sempre locais relativamente próximos da origem do lixo; em 1705, Francisca João, proprietária de casas situadas na rua dos Anjos junto ao Campo da Forca, solicitou uma vistoria para construir outra casa no mesmo local; e em 1712, Bernardino de Andrade faz uma petição para aforar um chão junto a Fontaínha do Campo, antigo Campo da Forca.

O Campo de Santa Bárbara na planta de 1858 de Filipe Folque (carregue na imagem para ver em tamanho maior)

O Campo de Santa Bárbara era nos arrabaldes da cidade de Lisboa, era  no campo. Por isso, em 20 de abril de 1523, D. João III ordenou mesmo à Câmara de Lisboa que devido à peste passasse temporariamente  a reunir em Santa Bárbara, certamente com melhores e bons ares. Em 1573, D. Sebastião determinou que não se fizessem aforamentos sem o seu consentimento no Campo de Santa Bárbara. No século seguinte ainda era um lugar de hortas, quintas, olivais, fontaínhas e arroios de água. No séc. XVIII, de 1703 a 1749, deparamos com inúmeros aforamentos e vistorias no Campo de Santa Bárbara. Já no séc. XIX, a planta de Lisboa de Filipe Folque, de 1858, continua a denominá-lo Campo de Santa Bárbara. Em 11 de dezembro de 1874, a Câmara aprovou que lá fosse feita calçada e em 1878 a planta de Francisco Goullard mantém a designação de Campo de Santa Bárbara. Cinco anos depois, em 1881, Francisco Goullard já usa Largo de Santa Bárbara numa planta do local, assim como a Câmara aprova a expropriação parcial da quinta de Santa Bárbara, situada na Travessa da Cruz do Tabuado, para a abertura da nova rua que há-de ligar o Largo de Santa Bárbara com a dita travessa, bem como para a construção de uma escola municipal e ainda nesse ano, os Diretores da Companhia Carris de Ferro de Lisboa solicitam à edilidade a aprovação do projeto n.º 1 para a conclusão da 3ª linha de caminho de ferro americano, traçada do Largo do Intendente pela Rua Direita dos Anjos até ao Largo de Santa Bárbara, e daqui pela rua nova traçada até à avenida Estefânia, terminando nas portas da cidade. Em 1910, a planta do levantamento de Silva Pinto também  já identifica o Largo de Santa Bárbara. Três anos depois, o Edital municipal de 18/10/1913 altera-lhe o nome para Largo 28 de Janeiro, data do movimento de 1908 com o propósito de proclamar a república que acabou gorado e ficou conhecido como a Janeirada. Quase 24 anos depois novo Edital camarário de 19/08/1937, volta a designá-lo Largo de Santa Bárbara. Este mesmo edital, removeu outros topónimos dados pela vereação republicana, a saber, atribuiu a Rua da Misericórdia que havia sido a Rua do Mundo (edital de 18/11/1910) e antes Rua de São Roque (edital de 08/06/1889), assim como  atribuiu Rua das Trinas à Rua Sara de Matos (edital de 17/10/1924) que antes fora a Rua das Trinas de Mocambo.

Finalmente, a origem do topónimo radica na proximidade à antiga Ermida de Santa Bárbara, sendo que no séc. XVII foi erguida uma nova Capela de Santa Bárbara, por Inácio Lopes de Moura, no seu palácio.  D. António Caetano de Sousa, no seu Agiológio lusitano de 1744 , explica que « ‎Neste Campo de Santa Barbara, naõ havia outra Ermida, mais que a antiga de que falamos; porque a que hoje vemos dedicada a Santa Barbara, he obra moderna, que em nossos dias edificou Ignacio Lopes de Moura, desembargador dos Agravos, grande devoto de Santa Barbara (…) em cujo louvor compoz hum livrinho , que imprimio em Lisboa, no anno de 1701, intitulado “Flores de Devoção colhidas no Campo de Santa Bárbara”, a que deu nome à Ermida antiga.»

Com o mesmo topónimo existe ainda a Rua de Santa Bárbara, a ligar o Largo de Santa Bárbara ao Largo do Conde de Pombeiro, que de acordo com o olisipógrafo Luís Pastor de Macedo «deveria ter sido rasgada nos fins do primeiro ou no princípio do segundo quartel do século XVIII. A primeira vez que a topamos é em 1727 sob o nome de rua Nova de Santa Bárbara [Livro V de óbitos – Anjos] e a prova de que ela deveria ter sido então aberta é que pouco depois ainda era a “rua nova que se abrio de novo e vay da Bemposta para o campo de Stª Barbara (1737) ».

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

Um Largo, uma Rua e uma cadeia ligadas a um limoeiro

O Largo e a Rua do Limoeiro – Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Toze Ribeiro)

Supõe-se que terá existido um limoeiro que deu nome ao Largo e à Rua do Limoeiro e que a partir desta toponímia local a Cadeia erguida no séc. XV, no fronteiro Largo de São Martinho, ganhou a mesma denominação. A partir da existência secular dessa prisão foi então Limoeiro que passou a ser sinónimo de cárcere.

Assim, tanto o Largo do Limoeiro – na confluência do Largo de São Martinho com a Rua do Limoeiro – , como a Rua do Limoeiro – que liga o Largo do Limoeiro ao Largo de Santa Luzia -, arruamentos sobranceiros a Alfama, da Freguesia de Santa Maria Maior, possuem uma história que se confunde com a do Paço a-par-de-São Martinho.

Em 1186 foi construída a Igreja de São Martinho (demolida em 1838) e algures no reinado de D. Afonso III ( entre 1248 e 1279) foi construído em frente um Paço Real que por isso ficou conhecido como o Paço a-par-de-São Martinho. A partir de 1338, quando lá foi instalada a oficina de fabrico de moeda passou a ser denominado como Paços da Moeda e em 1383, nele morreu o Conde Andeiro  às mãos do Mestre de Avis, futuro D. João I. No início do século XV, o local designava-se como Paços do Infante herdeiro, por ser a residência do futuro rei D. Duarte, estando também lá instaladas as Comendadeiras de Santos-o-Velho enquanto esperavam o seu novo convento.

Com D. João II, o Paço de S. Martinho ficou também sede do Desembargo do Paço – com a Casa da Suplicação e a Casa do Cível – nos pisos superiores, enquanto em baixo funcionavam as prisões (a Cadeia da Cidade e a Cadeia da Corte), sendo então conhecido  como Paço do Limoeiro ou simplesmente, Limoeiro, denominação que vai a partir daqui perdurar. D. Manuel I mandou executar obras de melhoramentos no edifício do Limoeiro.  Em 1642, D. João IV fez um decreto a ordenar o despejo da cadeia do Limoeiro devido às doenças ali existentes e a transferência dos castelhanos lá presos. Depois, na 1ª metade do séc. XVIII, D. João V  também promoveu beneficiações nas instalações, segundo o plano do arq. Volkmar Machado, mas o Terramoto de 1755 arruinou a maioria das instalações e implicou a deslocação dos  seus 500 presos e em definitivo, dos tribunais lá instalados. Entre 1758 e 1759 a Cadeia da Corte já estava reabilitada. Era no Limoeiro que os condenados ao degredo nos territórios ultramarinos aguardavam o dia do embarque. Oliveira Martins refere também que nos tempos miguelistas  a cadeia ficou sobrelotada. Nos finais do século XIX e inícios do século XX, a Penitenciária de Lisboa, de 1885, era insuficiente e apesar de se multiplicarem as críticas à cadeia do Limoeiro esta manteve-se em funcionamento, mesmo após os incêndios de 1918 e de 1933 e durante as diversas obras de remodelação nos anos 30, 40 e 60. O Limoeiro apenas encerrou como cadeia em julho de 1974, acolhendo depois, transitoriamente, alguns portugueses retornados das antigas colónias. Finalmente, no último mês do ano de 1979, as instalações foram atribuídas ao Centro de Estudos Judiciários, espaço dedicado à formação de magistrados.

Saliente-se ainda que estiveram presos na Cadeia do Limoeiro os poetas Correia Garção (em 1771) e Bocage (1797), o pintor Domingos Sequeira (1808) e o escritor Almeida Garrett (1827). Em 1767 também lá estiveram Domingos da Cunha, António João, Policarpo José e António Francisco, carreiros da obra do Arsenal e Praça do Comércio, por ordem do Meirinho da Cidade, e que requereram a liberdade «uma vez que apenas se propuseram descansar um pouco dos trabalhos que têm com os desentulhos da cidade todos os dias».

Para a história da toponímia lisboeta fica que a Rua do Limoeiro seria a antiga Rua Direita do lugar do Limoeiro a ligar a Sé de Lisboa à Igreja de Santa Luzia, sendo que um documento de 1543 a denomina Rua Direita do Limoeiro. Luís Pastor de Macedo adianta que o Largo do Limoeiro é pela primeira vez citado em registos paroquias em 1647, como Terreiro do Limoeiro, e só em 1683 surge como Largo. A planta de 1761 de Guilherme de Menezes menciona o sítio do Limoeiro. A planta da Freguesia de S. Martinho após a remodelação paroquial de 1770 regista a Rua de S. Martinho e a Rua do Limoeiro, embora na descrição seja mencionado o Largo do Limoeiro, enquanto na Freguesia da Sé a planta mostra a Rua do Aljube. Na planta de 1807 de Duarte Fava temos a partir da Sé a Rua do Aljube, seguida de Arco do Limoeiro e Largo do Limoeiro. A de 1812 do Duque de Wellington apenas menciona Largo de São Martinho e Rua do Arco de Limoeiro. O Itinerário Lisbonense de 1818 indica que o Largo do Limoeiro se situava entre a Rua do Arco do Limoeiro e a Rua do Limoeiro, em frente da Cadeia do Limoeiro .Em 1858, Filipe Folque enumera a partir da Sé a Rua do Aljube, a Rua Direita do Limoeiro e a Rua de Santa Luzia, tal como em 1879 o fazem César e Francisco Goullard, assim como em 1911 Silva Pinto. No entanto, em 1892, Ressano Garcia denomina-a Rua do Limoeiro e, em 1910, uma planta do local menciona a Rua do Arco do Limoeiro a nascer junto da Sé onde antes era a Rua do Aljube. Em 1924, o troço  da Rua das Pedras Negras ao Largo de São Martinho, era designado como Rua do Arco do Limoeiro e por Edital municipal de 17 de março, passou a ser a Rua de Augusto Rosa, ator que ali viveu no prédio com o nº 50.

O Largo e a Rua do Limoeiro – Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Cais do Tojo repartido por rua, travessa e Largo Vitorino Damásio

O Cais do Tojo em sobreposição da planta de 1856 de Filipe Folque na dos dias de hoje

O antigo Cais do Tojo, lugar aberto de execução de penas capitais para servir de exemplo público, que em 1842 teve erguido o seu último patíbulo, tem a sua memória guardada em Lisboa através da Rua e da Travessa do Cais do Tojo, bem como do Largo Vitorino Damásio em cujo espaço ele se situava até cerca de 1858, razão para que a placa evocativa dos 150 Anos da Abolição da Pena de Morte tenha sido nele colocada pela edilidade, no primeiro dia de julho deste ano, dia do 150º aniversário da abolição da pena de morte em Portugal.

A última execução no Cais do Tojo, que ocupava o espaço onde hoje vemos o Largo Vitorino Damásio a encontrar-se com a Avenida Dom Carlos I, foi em 16 de abril de 1842 : o enforcamento de Francisco Matos Lobo, após prisão no Limoeiro, pelo assassinato da sua tia por afinidade, os seus dois filhos e a criada, na sua casa na Praça de São Paulo. Em  19 de fevereiro de 1841, também a forca ali se tinha erguido para Diogo Alves, condenado não pelas mortes daqueles que atirara do alto do Aqueduto das Águas Livres depois de os roubar mas pelo massacre da família de um médico no decorrer de um assalto com a sua quadrilha. No entanto, mesmo em 1842 já a pena de morte seria considerada desumana sendo disso exemplo o caso do sacerdote que acompanhava a última aplicação da pena capital em Lisboa ter morrido no local vítima de apoplexia.

Travessa do Cais do Tojo – Freguesia da Misericórdia – Placa Tipo II
(Foto: Mário Marzagão)

Rua do Cais do Tojo – Freguesias da Misericórdia e da Estrela
(Foto: Sérgio Dias|NT do DPC)

A Rua do Cais do Tojo ( nas freguesias da Estrela e da Misericórdia ) liga o Boqueirão do Duro à Avenida Dom Carlos I e a Travessa do Cais do Tojo (freguesia da Misericórdia) une a Rua do Cais Tojo ao Largo do Conde Barão, tendo ambos os topónimos sido atribuídos pela Câmara alfacinha através do Edital de 8 de junho de 1889, para substituir as antigas Rua Nova do Cais do Tojo e a Travessa Nova do Cais do Tojo.

A ligação ribeirinha de Lisboa ao Tejo é uma constante da história da cidade, enumerando a Chancelaria Régia em 1725 as praias de Alfama, Remolares, São Paulo e Boavista. O Cais do Tojo da Boavista – assim denominado para de distinguir do Cais do Tojo do lado oriental, conhecido como Cais do Tojo da Bica do Sapato – já surge mencionado em 1766, numa apresentação feita pelo juiz do povo, a referir a necessidade da construção de um Cais para a descarga e venda de tojo, carqueja, carvão e lenha, tanto na parte oriental como ocidental da cidade de Lisboa. Refira-se que tojo é uma planta arbustiva usada para cama de gado, estrume ou combustível.

O Cais do Tojo passou mesmo a ter um cais de madeira e nele aportavam inúmeros produtos, pelos quais se cobrava o donativo, um imposto municipal sobre os rendimentos, criado por resolução régia de 21 de março de 1766 e que começou a ser arrecadado a partir da publicação do edital municipal de 2 de novembro de 1769.  Sabe-se ainda que este arruamento teve em tempos um chafariz, muito frequentado por aguadeiros e populares e que em 11 de setembro de 1820 ocorreu um incêndio nas estâncias de lenha que lá existiam, tal como no ano seguinte o posto da 4.ª Companhia de Infantaria da Guarda Real da Polícia, nele situado, sofreu um grande incêndio, após o que surgiu nas imediações o topónimo Boqueirão do Duro.

Largo Vitorino Damásio – Freguesia da Estrela
(Foto: Sérgio Dias|NT do DPC)

O Largo Vitorino Damásio ( na freguesia da Estrela ), na confluência da Avenida Dom Carlos I e o Largo de Santos, nasceu de remodelações urbanísticas na zona que se espelharam no Edital municipal de 17/06/1947, tendo o troço da Rua Vasco da Gama com os prédios com os nºs 1 a 51 e 24 a 66 passado a ser o Largo em homenagem ao engenheiro que veio para Lisboa concretizar o Aterro da Boa Vista. Este Largo que até  1787 tinha o seu lado sul parcialmente sob a linha de água resulta das obras do Aterro.

O Aterro era uma ideia que pairava pelo menos desde o reinado de D. João V mas as obras para a sua construção apenas foram decididas após o surto de cólera morbus que grassou na Lisboa de 1857, como medida preventiva contra novos focos de epidemia e assim, em 1858,  o eng.º Vitorino Damásio foi encarregado de proceder ao aterro da margem, desde o Boqueirão da Moeda até à praia de Santos, com os trabalhos executados pela empresa Lucotte. Em  1859, rasgou-se também a Calçada de Santos (hoje, Calçada Ribeiro Santos) para ligar o Aterro à Rua das Janelas Verdes. O Aterro ficou concluído no mesmo ano – 1867 – da abolição da pena de morte mas em agosto. Foram ainda demolidas habitações entre a Praça D. Luís e a Rua das Janelas Verdes para a construção de um paredão que constituiu o 1º acesso ao troço inicial do Aterro e que mais tarde, em  13 de setembro de 1878,  recebeu o nome de Rua 24 de Julho.

A partir de 1881 operam-se ainda mais transformações neste espaço urbano. São abertas a Rua Dom Carlos I (hoje Avenida) e a Rua Vasco da Gama (onde hoje encontramos o Largo de Santos e o Largo Vitorino Damásio). Em 1887 e 1888 é também alargada a Rua Nova do Cais do Tojo (antes denominada Travessa Nova do Cais do Tojo), à qual o Edital municipal de 8 de junho de 1889 retirou a partícula «nova», tal como fez à Travessa Nova do Cais do Tojo (antes Travessa do Chafariz do Cais do Tojo).

José Vitorino Damásio (Feira/02.11.1807 – 19.10.1875/Lisboa), licenciado em Matemática e Filosofia desde 1837 e engenheiro do Conselho Superior de Obras Públicas e Minas desde 1852, foi escolhido para dirigir as obras do Aterro, tendo depois também desempenhado o cargo de Reitor do Instituto Industrial (1853), bem como de presidente da administração do Caminho-de-Ferro do Leste e diretor da Companhia das Águas (ambos em 1858), e ainda, de Diretor-Geral dos Telégrafos (1864).

Vitorino Damásio fora Lente da Academia Politécnica do Porto e engenheiro das Obras Públicas desse mesmo Distrito, tendo sido pioneiro na utilização do processo de cilindragem e construído a 1ª draga a vapor portuguesa, para além de, com Faria de Guimarães e Silva Guimarães, ter fundado a Fundição do Bolhão, onde se fabricou a primeira louça estanhada nacional, estando também em 1852 na criação da Associação Industrial Portuense. Ainda estudante, Vitorino Damásio alistara-se no Batalhão Académico dos exércitos liberais, tendo chegado a General de Brigada, condecorado com a Torre e Espada pelo seu comportamento durante o cerco do Porto.

O Largo Vitorino Damásio, a Rua do Cais do Tojo e a Travessa do Tojo
(Planta: Sérgio Dias|NT do DPC)

Os Rossios, os Largos, as Praças e as Pracetas

Rossio dos Olivais em 1998 
(Foto: Tiago Venâncio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Os Rossios, os Largos, as Praças e as Pracetas são quatro tipo de arruamentos de forma mais ou menos circular ou em quadrilátero, que se distinguem dos outros que se estendem em linha reta.

Rossio é uma palavra cujo «étimo de rossio ou ressio não está ainda dado», conforme já escrevia José Pedro Machado em 1936 e assim continua. Corresponde a  um lugar espaçoso, um terreno largo que pode ser fruído em comum pela população, equivalente à antiga denominação de terreiro que se foi apagando progressivamente de Lisboa, embora ainda apareça como memória em topónimos com outras categorias como podemos observar nas Escadinhas, Largo, Rua e Travessa do Terreiro do Trigo, bem como na Travessa do Terreiro a Santa Catarina. 

Nos dias de hoje Lisboa ainda comporta  3 rossios: o Rossio de Palma na freguesia de São Domingos de Benfica; o Rossio dos Olivais  no Parque das Nações que retoma um antigo topónimo da Freguesia dos Olivais que em 1892 passou a ser a Praça da Viscondessa dos Olivais; e o Rossio do Levante também criado para a EXPO 98.

O Rossio mais famoso de Lisboa e assim popularmente conhecido pela maioria, desde o séc. XIX que tem a tipologia de Praça: primeiro, como Praça do Rossio, depois como Praça de D. Pedro (1836) e desde 1971, é a Praça D. Pedro IV.

Largo Associação Ester Janz – Freguesia dos Olivais
(Foto: Sérgio Dias)

O Largo é uma palavra com origem no latim para designar uma área urbana espaçosa na confluência de várias ruas, mais informal do que a Praça porque não pressupõe que nasça a partir de uma urbanização criada propositadamente para o local. Lisboa tem hoje 219 Largos, nos quais estão inscritos 105  topónimos  relativos a diversas personalidades e 111 mostram referências locais ( como por exemplo, o Largo da Academia Nacional de Belas Artes, da Achada, da Anunciada, da Memória, da Ponte Nova, da Sé, da Oliveirinha,  da Escola Municipal, das Fontainhas ou do Museu de Artilharia), a que se somam 3 casos diferentes: o  Largo dos Defensores da República (Edital municipal de 1916), o  Largo da República da Turquia (Edital de 1973) e o Largo da Revista Militar (Edital de 1999).

Praça Europa – Freguesia da Misericórdia
(Foto: Artur Matos)

A Praça também é uma palavra de etimologia latina mas distingue-se do Largo pela regularidade do traçado: a Praça é uma figura geométrica mais regular que o Largo, na maioria das vezes em resultado de ser já pensada no conjunto da urbanização do local, como podemos observar na Praça do Comércio, traçada após o terramoto de 1755 no âmbito da reconstrução da Baixa pombalina. A Praça é a herdeira da ágora grega e do fórum romano, como espaço intencionalmente projetado na urbanização da cidade, a que se junta também uma certa ideia de público no local. Lisboa integra 113 Praças, sendo 22 relativas aos locais onde se inserem (como a Praça do Município, Praça da Armada, da Estrela, da Ribeira, das Águas Livres, das Indústrias, de São Bento, de São Francisco Xavier, de São Paulo, do Aeroporto, do Caramão, Praça dos Congressos ou Praça Ginásio Clube Português ), 85  com topónimos de personalidades ou nomes de localidades e países e, finalmente 6 topónimos simbólicos, em que a construção da Praça é pensada para uma homenagem específica: a Praça do Comércio que homenageia os comerciantes lisboetas que contribuíram para a reconstrução da Baixa lisboeta (Decreto régio de 05/11/1760); a Praça dos Restauradores para celebrar a independência de Portugal de 1640 (Edital de 22/07/1884) na nova praça construída pela edilidade alfacinha no âmbito da abertura da Avenida da Liberdade; a Praça do Império projetada por Cottinelli Telmo para a Exposição do Mundo Português de 1940 e que ficou como parte integrante da cidade como imagem de monumentalidade do Estado Novo (Edital de 29/04/1948); a Praça 25 de Abril, uma nova praça aberta nos terrenos da antiga Fábrica de Material de Guerra no âmbito das comemorações dos 25 anos do 25 de Abril (Edital de 22 de Abril de 1999); a Praça do Oriente construída no âmbito da EXPO 98 sobre os Oceanos que homenageava também o papel dos portugueses no encontrar um outro caminho para Oriente pelos Oceanos (Edital de 16/09/2009); e por último, a Praça Europa, construída propositadamente como espaço de estada e onde se instalaram os edifícios do Observatório Europeu da Droga e Toxicodependência (OEDT) e da Agência Europeia de Segurança Marítima (Edital de 12/06/2013).

Praceta do Chinquilho – Freguesia de Alcântara
(Foto: Mário Marzagão)

Finalmente, temos a Praceta, tipologia nascida no séc. XX por resultar de urbanizações  citadinas com novas características que criam estas pequenas praça ou pequenos largos que, por vezes, nas plantas traçadas são nomeadas como impasses, a denunciar a influência francesa no urbanismo. Lisboa conta 14 pracetas, sendo 7 de referências locais ( como por exemplo a Praceta Cuf, a da Quinta de São João Baptista, a do Chinquilho, ou a das Torres do Restelo) e 7 de personalidades diversas.

 

O Largo da Trindade do Mundo do Livro

O Largo da Trindade em 1970
(Foto: João H. Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Largo da Trindade, abaixo da artéria que serve de morada à Cervejaria que guarda a memória da Ordem da Santíssima Trindade do Resgate dos Cativos, para além de acolher uma das fachadas do Teatro da Trindade de 1867, acomoda também uma loja de comércio de livros desde 1945:  O Mundo do Livro.

O topónimo Trindade presente neste Largo, bem como nos arruamentos vizinhos – Rua da Trindade, Travessa da Trindade e Rua Nova da Trindade – deriva da presença outrora no local do Convento e Igreja dos religiosos franceses da Ordem da Santíssima Trindade do Resgate dos Cativos de que resta o refeitório do Convento na sala pública da Cervejaria Trindade.

Estes  frades vocacionados para resgatar os prisioneiros aos mouros, chegaram a Lisboa em 1218 e instalaram-se na Ermida de Stª Catarina do Padroado Real, tendo começado a  a erguer o seu próprio convento entre 1283 e 1294, que foi ampliado em 1560 e recomposto após o terramoto de 1755. Com a extinção das ordens religiosas em 1834 os frades passaram para a sua casa de Sintra e o estado vendeu e/ou arrendou os terrenos em 1836, tendo dois lotes sido arrendados por Manuel Moreira Garcia, de origem galega, para neles montar a Fábrica de Cerveja da Trindade.

No espaço onde hoje encontramos o Largo da Trindade estava nos finais do séc. XV, por aqui,  o Postigo da Trindade da Cerca Fernandina de Lisboa que foi destruído em 1682 para melhor circulação dos coches, conforme resolução do Senado municipal em 26 de agosto desse ano.

Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

Alterações de topónimos tradicionais rejeitadas: Largo do Pote de Água, Largo da Graça e Praça do Comércio

O Largo do Pote de Água – Freguesia de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias)

O Largo do Pote de Água, em Alvalade, a Praça do Comércio em Santa Maria Maior e o Largo da Graça, na freguesia de São Vicente, são topónimos que foram alvo de pedidos de alteração pós-25 de Abril mas que por serem topónimos tradicionais mereceram parecer negativo da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa.

Na reunião de 20 de dezembro de 1974 foi analisada uma carta de Maria Augusta Barbosa, solicitando a alteração do topónimo Largo do Pote de Água. Mais tarde, na de 22 de julho de 1975 foi a vez da carta de Francisco Cota sugerir que a Praça do Comércio passasse a Praça do Povo. Em ambos os casos, por serem alterações de topónimos tradicionais, mereceram o parecer negativo da Comissão Municipal de Toponímia pelo que nunca foi redigida proposta para ser levada a sessão de câmara que caso aprovada expediria um Edital formalizando o nascimento de um novo topónimo.

O sítio do Pote de Água, deu o seu nome à Quinta do Pote de Água, que foi destruída pelo terramoto de 1755 e também daí advieram os topónimos Largo e Travessa do Pote de Água que ainda hoje encontramos. O Largo ficou fixado na memória da cidade pelos seus moradores e o Edital municipal de 21 de dezembro de 1960 colocou-o na Rua 1 à Avenida do Brasil.  Quase nove anos depois, pelo Edital municipal de 23/05/1969, juntou-se a Travessa do Pote de Água, a partir de um pedido do serviço municipal de Escrivania para atribuição de topónimo ao arruamento que ligava a Avenida do Brasil com o Largo do Pote de Água e o Largo João Vaz. A localização da Quinta do Pote de Água, aparece nas memórias paroquiais publicadas em Lisboa na 2ª metade do século XVIII (plantas e descrições pelas freguesias), na Freguesia de Santo André, da seguinte forma: «pela Estrada da Charneca athé a Quinta do Pote de Agoa inclusive, q hoje he de Joseph Antonio Ferreira» e, esclarece mais adiante que a Quinta «foi dos Padres Jezuitas.»

O Largo da Graça – Freguesia de São Vicente                                                  (Foto: Ana Luísa Alvim)

O pedido de alteração do Largo da Graça chegou à reunião da Comissão de 15 de junho de 1976, numa carta do Grupo Escolar Republicano Almirante Reis que avançava com  o nome de Alfredo Pedro Guisado para a substituição, e que mereceu um desfecho semelhante aos anteriores, porque embora «reconhecendo a justiça de ser consagrada na toponímia citadina a figura do doutor Alfredo Guisado, notável republicano e homem de letras, a Comissão emite parecer desfavorável por entender que o topónimo existente é tradicional e não deve, por isso, ser alterado. Na devida oportunidade, e logo que se consiga arruamento condigno, será prestada homenagem a essa individualidade.» O Largo da Graça foi um espaço definido como tal após 1700, cujo nome deriva do antigo Convento de Nossa Senhora da Graça, começado a construir em 1271 naquele local, então conhecido por Almofala, pequeno arrabalde mourisco extramuros onde as tropas de D. Afonso Henriques acamparam durante o cerco de Lisboa. A Almofala mourisca tornou-se no Bairro da Graça, topónimo repetido no Largo, na Calçada, no Caracol, na Rua,  e demais topónimos que a ecoam na Rua da Bela Vista, na Rua e na Travessa do Arco, na Rua do Cardal, na Rua do Sol, na Travessa de Santo António e na Travessa do Olival. Por seu lado,  Alfredo Guisado chegou à toponímia lisboeta em 1977,  através do Edital de 10 de outubro que o colocou numa Rua de São Domingos de Benfica.

Outras sugestões de topónimos ou pedidos de alterações foram rejeitados pela Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa neste período histórico por colidirem com os princípios pelos quais se o órgão consultivo se regia.

A sugestão de Margarida Stella Bulhão Pato Maia Rebelo,  para a atribuição do nome de José Afonso a uma artéria, apreciada na reunião de  20 de dezembro de 1974, foi recusada por contrariar a regra de atribuição de topónimos apenas a falecidos. Recusa análoga teve nessa mesma reunião uma carta anónima que sugeria a restituição do nome de Alferes Malheiro à Avenida do Brasil, pelos óbvios inconvenientes que acarretaria aos residentes das duas artérias assim fixadas desde há 40 anos. No entanto, o jornal A Capital de 10 de fevereiro de 1975 insistiu na proposta, pelo que a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa, reunida quatro dias depois, deu parecer para o assunto ser arquivado.

Por último, na reunião de 14 de fevereiro de 1975, analisou-se o pedido de substituição do topónimo Avenida Casal Ribeiro, remetido por  Miguel Araújo Rato Fernandes, que foi rejeitado, com o parecer de que «esta Comissão entende que não é de alterar o referido topónimo, visto a figura homenageada não ser o “Casal Ribeiro” deputado à Assembleia, mas sim o primeiro conde de Casal Ribeiro – José Maria Caldeira do Casal Ribeiro.»

A Praça do Comércio em 25 de Abril de 1974
(Foto: Fernando Baião, «O Século Ilustrado», 28.04.1974)

 

Sete novos topónimos na freguesia do Lumiar

Pelo Edital nº 38/2017, de 17/03/2017,  foram atribuídos sete novos topónimos na freguesia do Lumiar:  Largo Gérard Castello-Lopes, Rua Irisalva Moita, Rua Isabel Magalhães Colaço, Rua Joaquim Rodrigo, Largo Michel’Angelo Lambertini, Rua Padre Manuel Antunes e Rua Pedro Bandeira Freire.

A Senhora da Boa-Hora da Baixa para a Ajuda

O Largo da Boa-Hora à Ajuda em 1943
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Calçada da Boa-Hora, o Largo  e a Travessa da Boa-Hora à Ajuda são três topónimos que resultam da deslocação dos Eremitas Descalços de Santo Agostinho do seu Convento no Largo da Boa Hora, junto à Rua Nova do Almada, na Baixa lisboeta, para o lugar do Espargal, em Belém, após o  terramoto de 1755.

A Ordem dos Eremitas Descalços de Santo Agostinho estabeleceu-se em Portugal em 1663, com a proteção da rainha D. Luísa de Gusmão, e uma das suas comunidades estava instalada em Lisboa, desde 1677, no Convento da Boa Hora, que havia sido fundado em 1633 por D. Luís de Castro do Rio para os padres dominicanos irlandeses e foi mais tarde aproveitado para ser quartel do 1º Batalhão dos Voluntários do Comércio (1834) e Tribunal da Boa Hora (1843). O terramoto de 1 de novembro de 1755 deixou o convento em ruínas e logo em 1756 passaram os frades para um novo Convento da Boa Hora em Belém, no lugar do Espargal , cuja igreja foi dedicada a Nª Srª da Boa Hora e Stª Rita em 7 de abril de 1766. Com a extinção das ordens religiosas em 1834, a igreja do Convento da Boa Hora, no actual Largo da Boa-Hora à Ajuda, acolheu logo no ano seguinte a paróquia de Nª Srª da Ajuda.

O Palácio Ega, no nº 30 da Calçada da Boa-Hora
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Calçada da Boa-Hora, encontra-se hoje repartida pelas freguesias de Alcântara , Belém , Ajuda, delimitada entre a Rua da Junqueira e o Largo da Boa-Hora, conforme Edital municipal de 26 de setembro de 1916, que oficializou topónimos herdados do extinto concelho de Belém. Já também na alçada da edilidade lisboeta foram em 1887-1888 construídos canos de esgoto para esta Calçada.  Refira-se ainda que no nº 30 desta Calçada encontramos o Palácio da Ega que dá sede ao Arquivo Histórico Ultramarino desde 1931.

Ao Largo e à Travessa da Boa-Hora foi acrescentada a expressão «à Ajuda», para evitar equívocos com o Largo da Boa-Hora (Freguesia de Santa Maria Maior) e a Travessa da Boa-Hora (Freguesia da Misericórdia), através do Edital municipal de 8 de junho de 1889.

O Largo da Boa-Hora à Ajuda é o espaço na confluência da Travessa do Moinho de Vento, Rua do Machado, Travessa da Boa-Hora à Ajuda e Calçada da Boa-Hora. Em 1883, a Administração dos Correios e Telégrafos solicitou autorização ao presidente da Câmara de Belém para lá colocar um marco postal.  A partir de desde 1890 passou a funcionar nas antigas dependências do Convento, neste largo, o Hospital Militar de Belém, que se especializou em doenças infecto-contagiosas.

Já a Travessa da Boa-Hora à Ajuda une o Largo da Boa-Hora à Ajuda à Calçada da Ajuda. Segundo Luís Pastor de Macedo, esta artéria foi designada no séc. XVIII «por Travessa da Abegoaria, e algum tempo depois por Travessa do Teixeira, nome que lhe foi dado pelo tenente José Teixeira, mais tarde sargento-mor, e que foi proprietário da abegoaria que dera à travessa o nome anterior. Depois foi ainda a Rua das Piteiras, porque o povo, coerente, via que parte da serventia era marginada por piteiras.»

O Largo, a Travessa da Boa-Hora à Ajuda e a Calçada da Boa-Hora
(Planta: Sérgio Dias)

A Senhora da Saúde que ficou das Necessidades em 5 topónimos de Lisboa

O Largo das Necessidades - Freguesia da Estrela (Foto: Sérgio Dias)

O Largo das Necessidades – Freguesia da Estrela
(Foto: Sérgio Dias)

A Ermida de Nª Srª das Necessidades, erguida em 1607, fixou-se na memória de Lisboa em 5 topónimos: a Calçada das Necessidades, o Largo das Necessidades, a Rampa das Necessidades, a Rua das Necessidades e a Travessa das Necessidades, todos na Freguesia da Estrela.

A Ermida da Nª Sr.ª das Necessidades foi construída em 1607 para abrigar uma imagem da Senhora da Saúde roubada na Ericeira por devotos ali refugiados da peste de 1580. A irmandade que cuidou do templo e o ampliou era de marítimos da carreira da Índia. depois de 1613, Pedro de Castilho, conselheiro de D. João IV comprou as casas ligadas à ermida e transformou-as na sua residência, tendo mais tarde ficado com o assento da ermida e mandou erigir a capela-mor, obra terminada em 1659. Depois, D. João V comprou o local, grato à Senhora das Necessidades pelas melhoras da paralisia de que padecera, e resolveu ampliar a ermida, erguer para si  um palácio no local – que foi Paço Real até 1910 – e ainda construir um hospício e um convento que em 1744 doou à Congregação do Oratório: Convento de São Filipe de Néri e Convento de Nossa Senhora das Necessidades. Com a extinção das ordens religiosas em 1834, o edifício do convento foi anexado para os serviços da Casa Real e em 1950 foi transformado em sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

A Calçada das Necessidades liga o Largo do Rilvas à Rua do Possolo. Em documentação municipal já a encontramos referida em 1861 no plano de um prédio que João António da Luz Robim pretendia aumentar, nos n.º 2 a 6 da Calçada das Necessidades, assim como em 1884 « sobre a necessidade de providências rápidas para a construção de um cano geral de esgoto para que o cano de despejos do prédio n.º 2 da rua do Borga não continue a verter as imundices para a calçada das Necessidades.»

O Largo das Necessidades encontra-se na confluência da Rua das Necessidades, Rua Capitão Afonso Pala e Calçada do Sacramento. Antes foi o Largo das Cortes, conforme planta de 1856 de Filipe Folque, dado que em 1820 foi o local escolhido para as primeiras Cortes Constituintes. Em 1883 já o encontramos como Largo das Necessidades em diversas informações municipais propondo melhoramentos para o local.

A Rua das Necessidades era a  antiga Rua Direita das Necessidades até o Edital municipal de 22/08/1881 lhe retirar a palavra «Direita» e delimitá-la da Travessa do Sacramento a Alcântara ao Largo das Necessidades.

A Rampa das Necessidades vai da Praça da Armada à Rua das Necessidades e em outubro de 1890, assim está registada numa planta municipal referente ao estado da Rua da Correnteza de Baixo, da Rampa das Necessidades e do Beco dos Contrabandistas, .

Finalmente, a Travessa das Necessidades une a Travessa do Sacramento a Alcântara ao Largo do Rilvas. Foi revestida com macadame em 1877.

O topónimo Necessidades na Freguesia da Estrela (Planta: Sérgio Dias)

O topónimo Necessidades na Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias)