O Largo Luís Chaves, etnógrafo de «Lisboa nas Auras do Povo e da História»

Freguesia do Lumiar
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Com a legenda «Etnógrafo/1889 – 1975» foi atribuído o topónimo Largo Luís Chaves na Rua DC à Avenida Rainha Dona Leonor e Impasse CD, na Quinta das Mouras, através do Edital municipal de 20 de novembro de 1978, ficando assim a ligar a Avenida Rainha Dona Amélia à Avenida Rainha Dona Leonor.

O mesmo Edital colocou na Rua B da Quinta das Mouras a Rua Mário Sampaio Ribeiro, para homenagear um historiador e musicólogo.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Luís Rufino Chaves Lopes (Chaves/09.05.1888 – 09.01.1975 ou abril/Lisboa), formado em Estudos Matemáticos pela Escola Politécnica de Lisboa e pela Universidade de Coimbra, notabilizou-se como  etnógrafo e arqueólogo, autor dos  quatro tomos de Lisboa nas Auras do Povo e da História – Ensaios de Etnografia.

Como etnólogo, desde 1912 desempenhou funções no Museu Etnológico Dr. Leite de Vasconcelos (hoje, Museu Nacional de Arqueologia), primeiro como preparador do Museu. Logo no ano seguinte foi encarregue do prosseguimento dos trabalhos arqueológicos que decorriam em Outeiro da Assenta (Óbidos) e em Santa Vitória do Ameixoal (Estremoz), entre 1915 e 1916. Também realizou pesquisa etnográfica de que resultou a publicação em 1916 de  Os Barristas de Estremoz (séc. XVIII-XX) (1916), Etnografia alentejana – o rancho da azeitona (Estremoz e Elvas), Folclore de Santa Vitória do Ameixoal (Estremoz) e no ano seguinte de Arte popular no Alentejo: os ganchos de meia de barro de Estremoz (séc.XX), tendo-se centrado no estudo da arte popular. Em 1916, Luís Chaves passou a Conservador interino embora as suas ligações aos ideais monárquicos tenham contribuído para o seu afastamento do Museu em 1919, ao qual regressou em 1931, após concurso público para Conservador, ocupando o lugar de Manuel Heleno quando este passou a ser o diretor do Museu. Assim permaneceu até 1957, data da sua aposentação.

No entretanto, revelou-se uma figura central na Etnografia como colaborador oficial da atividade folclorista do Secretariado de Propaganda Nacional (SPN/SNI), no âmbito da política do Estado Novo: integrou a Comissão de Etnografia Nacional; participou nas iniciativas desenvolvidas pelo SPN/SPI, como o Concurso da Aldeia mais Portuguesa de Portugal (1938) e o Centro Regional da Exposição do Mundo Português (1940), sendo também autor de uma parte significativa das obras editadas neste contexto; organizou a Exposição de Arte Popular Portuguesa  em 1936 e o seu catálogo, em colaboração com o etnógrafo Cardoso Marta com quem, dois anos mais tarde participou nos trabalhos de instalação do Museu de Arte Popular, sobre o qual escreveu  O Novo Museu de Arte Popular (1948).

Deixou ainda obra publicada  na revista O Arqueólogo Português, assim como dirigiu em 1940,  com Francisco Lage e Paulo Ferreira, Vida e Arte do Povo Português, para além de manter durante vários anos na Revista Ocidente, uma crónica intitulada Nos Domínios da Etnografia Portuguesa, e participado regularmente no Mensário das Casas do Povo. Publicou ainda Páginas Folclóricas (1942)Folclore Religioso (1945), O Povo Português através da Etnografia e das Tradições Artísticas (1946).

Paralelamente, foi  Vice-Presidente do Instituto Português de Arqueologia, História e Etnografia até 1964, instituição que representou na Junta Nacional de Educação, assim como trabalhou como bibliotecário da Casa Cadaval. Foi também professor  de Matemática do Colégio Académico, cuja direção chegou a integrar, tal como da cadeira de História de Arte e Iluminura do Curso Superior de Bibliotecário Arquivista, bem como do Estágio para Conservadores dos Museus, Palácios e Monumentos Nacionais.

Na política foi monárquico, membro do chamado «Grupo dos Cinco», com Alfredo Pimenta, Caetano Beirão, Alberto Ramires dos Reis e Mateus de Oliveira Monteiro, que fundaram a Ação Realista Portuguesa em julho de 1921, que além do mensário com o nome da organização publicava também o semanário A Voz Nacional que Luís Chaves dirigiu.

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O Largo do sítio de São Domingos do séc. XIII

Largo de São Domingos na segunda década do séc. XX
(Foto: Alberto Carlos Lima, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Largo de São Domingos retira o seu nome do Convento de S. Domingos, erguido neste sítio no séc. XIII e que a partir dessa data  serviu como referência toponímica a toda a zona em seu redor.

Hoje, o Largo de São Domingos define-se na confluência da Rua Dom Antão de AlmadaRua de Barros Queirós, Praça D. Pedro IV e Rua das Portas de Santo Antão, onde se apresenta a Igreja de São Domingos.

A 1ª pedra do Convento da Ordem dos Dominicanos ou Ordem dos Pregadores aqui erguido foi benzida em 1242, no tempo de D. Sancho II, mas só ficou concluído em 1259, já no reinado de Afonso III. Mais tarde será fundado o Convento de S. Domingos de Benfica, em 1399, através de Frei Vicente de Lisboa, o confessor do rei D. João I. O templo da baixa lisboeta foi reedificado em 1536 por via do terramoto de 1531, assim como em 1608 e também após o terramoto de 1755, com um novo traçado de Carlos Mardel e fachada de João Frederico Ludovice. Em 1959, a igreja sofreu violento incêndio e só voltou a abrir ao público em 1994.

Este Largo de São Domingos tem ainda outras memórias da cidade de Lisboa e da história do país de que destacamos três, por ordem cronológica. Da Igreja de São Domingos partiu o Massacre de Lisboa de 1506 (ou Matança da Páscoa de 1506), em que  instigada por dominicanos a população perseguiu e matou centenas de judeus. A assinalar esta data trágica a CML inaugurou em abril de 2008, no centro do Largo,  um Memorial às Vítimas do Massacre Judaico de 1506, tal como um mural onde em  34 línguas está escrito Lisboa Cidade da Tolerância.  Também para a eclosão do 1º de Dezembro de 1640 se fizeram reuniões no edifício que conhecemos como Palácio da Independência, então pertença de D. Antão de Almada, que era dos 40 conjurados. E a partir de 1840, abriu neste Largo de São Domingos a taberna de um galego de apelido Espinheira, que foi a primeira a vender ginjinha, para além da loja ainda hoje ostentar no exterior rimas da autoria do jornalista Esculápio.

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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Da Almofala ao Largo do Convento de Nossa Senhora da Graça

Freguesia de São Vicente
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Foi na Almofala que acamparam as tropas de D. Afonso Henriques em 1147 mas, depois  de em 1305 o Convento de Agostinhos erguido no local  ter tomado  a invocação de Nossa Senhora da Graça foi esta que se estendeu ao seu redor como topónimo, fazendo nascer o Largo da Graça.

O Largo da Graça que hoje encontramos na confluência da Rua da Graça, Rua Damasceno Monteiro, Rua da Verónica, Travessa das Mónicas e Rua da Voz do Operário é uma encruzilhada de caminhos que se definiu em 1700, após a destruição da Cerca Fernandina  e a demolição dos dois  Postigos locais : o da Graça ou de Santo Agostinho e o do Caracol da Graça. Na descrição paroquial que refere as existências imediatamente anteriores ao Terramoto é mencionado o Largo da Graça na Freguesia de Santa Engrácia como «o Largo da porta do Carro do Convento da Graça» e na Freguesia de São Vicente como o «Largo da Graça da parte do Sul». O mesmo Convento originou também a Rua da Graça.

A Almofala ou Almafala era um arrabalde mourisco e após ter ganho a cidade D. Afonso Henriques doou grande parte das terras aos monges agostinhos, pela contribuição que tinham dado para o reconhecimento da independência nacional no plano externo. O Convento da Ordem de Santo Agostinho foi erigido de 1271 até 1291. Os monges haviam estado no Monte de S. Gens a partir de 1243, oriundos das suas antigas instalações, nas Olarias. Só em 1305 todos os conventos da ordem de Santo Agostinho passaram a ser da invocação de Nª Srª da Graça e apenas em  1373-1375 é que o Convento fica dentro da Cerca Fernandina, ou seja, já no perímetro urbano de Lisboa.

A população da Graça cresceu particularmente nos séculos XVII e XVIII,  sobretudo após o Terramoto. O Convento da Graça rivalizava com o de São Roque na colina fronteira, disputando a influência das suas Ordens junto da Corte, bem como na Igreja. O século XIX assistiu à urbanização do Largo da Graça após a destruição do Palácio dos Abelhos e em 1834,  o convento foi reconvertido em quartel e a sua igreja tornou-se paroquial. Cerca de quarenta anos depois, em 1872, começou a abertura do arruamento que hoje identificamos como Rua da Voz do Operário.  Refira-se ainda que de 1905 a 1930 esteve instalada neste Largo a Escola-Oficina nº 1 de Lisboa.

O Largo da Graça em 1949                 (Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Largo do Carmo de Nuno Álvares Pereira

Freguesia de Santa Maria Maior

O Largo do Carmo é um topónimo fixado na memória de Lisboa por referência à proximidade ao Convento e Igreja de Nª Srª do Vencimento do Monte do Carmo, estruturas religiosas da iniciativa de Nuno Álvares Pereira, no último quartel do século XIV.

António José Saraiva defendeu que a localização do Convento seria simbólica. Primeiro, porque este templo foi erguido num monte que afrontava o do Castelo, em cuja encosta  se situavam o Paço Real e a Sé de Santa Maria Maior. Em segundo lugar, porque na época de construção o popularmente designado Rossio denominava-se Valverde, o que decerto lembraria a Nuno Álvares Pereira o triunfo na batalha desse nome. Em terceiro lugar, porque apesar das enormes dificuldades técnicas surgidas na consolidação da escarpa para assentar as fundações do templo, a ponto de terem sido precisos 8 anos para a construção dos alicerces, o Condestável insistiu na construção do convento ali mesmo. Quando a obra ficou terminada, em 1423, doou o convento à Ordem do Carmo e ingressou nele como frade.

Nuno Álvares Pereira era cunhado do Almirante Pessanha, grande proprietário naquele local do Monte do Carmo e que por isso mesmo também ficou registado na toponímia da zona.  Até ao Terramoto de 1775, o Largo do Carmo tinha assim a maior Igreja de Lisboa, cuja nave central é hoje visível a céu aberto. A zona do Convento está  ocupada pelo quartel da GNR que foi o palco da rendição de Marcelo Caetano em 25 de Abril de 1974.

Freguesia de Santa Maria Maior – Placa de Azulejo

O Largo do Teatro São Carlos do final do século XVIII

Placa Tipo II - Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior – Placa Tipo II 
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Largo de São Carlos  foi um topónimo gerado pela presença no local do Teatro São Carlos, edificado entre 8 de dezembro de 1792 e 30 de junho de 1793 com verbas dos próprios comerciantes da capital,  assim como quase um séculos depois  gerará também a Travessa dos Teatros.

Este foi o primeiro topónimo fixado naturalmente no Largo que em 1913 passou a ser o Largo do Directório, em homenagem ao Diretório do Partido Republicano, mas que em 1956 voltou à designação de Largo de São Carlos, em ambos os casos por decisão camarária.

O Largo de São Carlos setecentista passou a denominar-se Largo do Directório através do Edital municipal de 18 de outubro de 1913  para perpetuar na memória de Lisboa que no nº 4 daquele arruamento existiu a sede do Partido Republicano Português e consequentemente, do seu Diretório. Por esse mesmo Edital, assinado pelo então Presidente da CML General Correia Barreto, mais quatro topónimos foram modificados: o Largo do Espírito Santo tornou-se o Largo Ernesto da Silva, o Largo de São Roque ficou Largo Trindade Coelho, o Largo de Santa Bárbara denominou-se Largo 28 de Janeiro e a Rua de São José passou a ser a Rua Alves Correia.

Quarenta e três anos mais tarde, pelo Edital municipal de 28 de maio de 1956, na data precisa do 30º aniversário do golpe militar que implantaria o Estado Novo em Portugal, a edilidade lisboeta muda o topónimo Largo do Directório para o voltar a denominar como Largo de São Carlos, para além de trazer de volta mais 3 denominações antigas para substituir as dadas após a proclamação da República, a saber: a Rua Alves Correia voltou a ser a Rua de São José; a Rua Eugénio dos Santos retorna a Rua das Portas de Santo Antão ao mesmo tempo que  a Rua Eugénio dos Santos é atribuída num novo arruamento junto ao Parque Eduardo VII; e a Rua da Luta retoma o topónimo Duque de Bragança, embora no plural como Rua dos Duques de Bragança.

Neste Largo, cujas alterações toponímicas ao longo do século XX é exemplo de como a toponímia é também um veículo de divulgação política, nasceu e viveu no 4.º andar Esqº do mesmo nº 4 da sede do Partido Republicano, Fernando Pessoa.

Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Sérgio Dias)

O Largo de São Roque ou do Cauteleiro que é o Largo Trindade Coelho

Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Começou por ser o Largo de São Roque no séc. XVI por via da presença Igreja de São Roque no local. No final dos anos 80 do séc. XX, em 18 de novembro de 1987, o dia do 204º aniversário da Lotaria Nacional com a colocação da estátua de homenagem aos cauteleiros passou a ser conhecido como Largo do Cauteleiro e ponto de encontro para incursões na noite do Bairro Alto, mas desde 1913  que o Largo se denomina oficialmente Largo Trindade Coelho.

Quando no ano de 1509 grassava  uma grande peste em Lisboa o rei D. Manuel I mandou erguer junto ao cemitério próximo do Convento da Trindade uma ermida a que chamou de São Roque para albergar uma relíquia do santo, tendo os jesuítas tomado conta dela em 1553 e dois anos depois iniciaram a construção de um majestoso templo para a substituir nascendo assim a Igreja de São Roque e assim ficou o Largo conhecido como de São Roque.

Quando em 1913 a edilidade alfacinha substituiu alguns hagiotopónimos (topónimos com nomes de santos) por outros relacionados com o regime republicano este foi um deles e o Largo de São Roque passou a Largo Trindade Coelho, pelo Edital municipal de 18/10/1913. Cerca de três anos antes, o Edital municipal de 18/11/1910 havia mudado a Rua Larga de São Roque para Rua do Mundo, em  homenagem ao jornal republicano aí sediado, pelo que fez sentido que o largo do seu topo, consagrasse Trindade Coelho que nos jornais defendeu os ideais republicanos mesmo se não viu implantada a República cujos valores perfilhou.

José Francisco de Trindade Coelho (Mogadouro/18.06.1861 – 09.06.1908/ Lisboa), formado em Direito em Coimbra começou por exercer advocacia nessa cidade ao mesmo tempo que começava a escrever nos jornais sob pseudónimo e até fundou  duas publicações: Porta Férrea e Panorama Contemporâneo. Camilo Castelo Branco admirava-o literariamente e conseguiu que ele  ingressasse na magistratura, como Delegado do Procurador Régio na comarca de Sabugal, indo depois para Portalegre, onde fundou dois jornais: Gazeta de Portalegre e Comércio de Portalegre. Mais tarde,  já em Lisboa coube-lhe a tarefa ingrata de fiscalizar a imprensa da capital aquando do Ultimatum e abalado pelas críticas transferiu-se para Sintra (1895) e prosseguiu a sua carreira jurídica em vários tribunais.

Enquanto escritor, Trindade Coelho publicou o livro de contos Os Meus Amores (1891) e o de memórias de Coimbra In Illo Tempore (1902), para além de obras de cariz social como a Cartilha do Povo (1901), o Manual Político do Cidadão Português (1906), o ABC do Povo  (1901) que foi um livro adotado oficialmente nas escolas públicas, bem como mais três Livros de Leitura (1903 a 1905). Também deu a lume obras jurídicas como Recursos Finais em Processo Criminal e Anotações ao Código e Legislação Penal , tendo ainda sido uma presença importante em jornais como PortugalBranco e NegroNovidadesRepórterO ProgressistaO ImparcialTirocínioBeira e DouroJornal da Manhã e Diário Ilustrado, usando os pseudónimos Belisário e José Coelho, para além de ter ainda fundado a Revista de Direito e Jurisprudência bem como a Revista Nova, onde publicou as crónicas «Folhetos para o Povo».

 

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O Largo da Igreja de São Miguel de Alfama

Freguesia de Santa Maria Maior

O Largo de São Miguel, na confluência da Rua de São Miguel e da Travessa do Terreiro do Trigo, colhe o seu topónimo da Igreja de São Miguel que ali começou a ser construída por volta de 1150.

A própria Freguesia da mesma invocação foi criada cerca de trinta anos depois, em 1180. E São Miguel tem nesta zona de Alfama mais 5 topónimos: a Calçadinha, a Rua (uma típica rua Direita medieval), mais o Beco (para substituir a denominação  Beco dos Mortos) e a Travessa (era o Beco de São Miguel) que se juntaram no final do séc. XIX e as Escadinhas de São Miguel (para substituir o Largo da Cantina Escolar) em 1963.

Estes hagiotopónimos referem-se a São Miguel Arcanjo, celebrado liturgicamente a 29 de setembro, defensor do Povo de Deus por liderar os exércitos celestiais e por acompanhar as almas dos mortos até o céu. Mas o seu culto em Portugal remonta a Dom Afonso Henriques que o fez o primeiro padroeiro de Portugal. Reza a lenda que o primeiro rei português antes de defrontar os mouros em terras escalabitanas, em 1147, terá invocado o seu auxílio e que São Miguel Arcanjo  fez descer dos céus o seu punho alado, derrotando as forças sarracenas. São Miguel foi o padroeiro de Portugal até D. João I o trocar por São Jorge por via do seu casamento com D. Filipa de Lencastre que será também substituído após a Restauração de 1640 por Nossa Senhora da Conceição.

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Largo do Mosteiro do padroeiro de Lisboa, São Vicente

O Largo de São Vicente em 1899
(montagem a partir da foto de Machado & Souza, Arquivo Municipal de Lisboa)

Na confluência da Rua da Voz do Operário com o Arco Grande de Cima firma-se o Largo de São Vicente, recolhendo o topónimo do Mosteiro ali erguido desde 1147, da invocação do padroeiro de Lisboa, São Vicente, com o acrescento de Fora por nessa época o convento se situar fora das muralhas da cidade.

Este hagiotopónimo de São Vicente que também se estende ao nome da Freguesia e neste zona, surge  também num Telheiro, que acolhe um pedaço da Cerca Fernandina; numa Rua, fronteira ao Largo; numa Travessa; e numa Calçada que parte do Largo.

Largo de São Vicente em 1899
(Foto: Machado & Souza, Arquivo Municipal de Lisboa)

Segundo o  olisipógrafo Norberto de Araújo, «A Igreja de S. Vicente foi construída por D. Afonso Henriques, em obediência ao voto que fizera, e revelara ao Arcebispo de Braga, D. João Peculiar, quando do Cerco de Lisboa. A primeira pedra foi lançada em 21 de Novembro de 1147. (…) O primitivo Mosteiro de S. Vicente não tinha a mais leve semelhança com o actual, nem dele resta memória descritiva ou simples alçado. (…) A inauguração do novo Mosteiro e Igreja de São Vicente fêz-se a 28 de Agosto de 1629, sem que as obras estivessem concluídas, pois se prolongaram interiormente quase durante um século. São Vicente, de magestosa fábrica, templo esplenderoso da mais pura Renascença, de uma nobreza e suavidade admiravelmente conjugadas, era no século XVII dos mais belos de Lisboa, e único no seu estilo largo, harmonioso, um pouco frio, e por isso severo. O Terramoto causou-lhe enormes prejuízos (…). As obras de reedificação começaram pouco depois, e datam dessa época vários enxertos e sobreposições que se notam no templo.»

Após a extinção das Ordens Religiosas, em 1834, o Paço Patriarcal foi transferido para o Mosteiro de São Vicente e em 1908 foi da sua igreja que saiu o cortejo fúnebre de Dom Carlos I e de Dom Luís Filipe.

Freguesia de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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O Largo do popular Santo António da Sé

O Largo de Santo António em 1939
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Este Largo de denominação posterior ao Terramoto de 1755 consagra o  popular santo lisboeta, nascido Fernando de Bulhões (Lisboa/1191 ou 1195 – 1231/Pádua – Itália) e cuja data de falecimento – 13 de junho – foi a escolhida para ser o feriado municipal alfacinha, na própria zona da Sé onde se julga que tenha nascido.

Freguesia de Santa Maria Maior – Placa Tipo II   (Foto: Artur Matos)

Ao todo, Santo António soma 17 artérias oficiais em sua homenagem na cidade de Lisboa dos nossos dias. Para além deste Largo junto à Sé existe ainda o Largo de Santo Antoninho na Bica. Alamedas são duas: a da Quinta de Santo António ( Lumiar ) e a Alameda de Santo António dos Capuchos  ( Arroios e Santo António ).  Calçada de Santo António ( Arroios , Santo António ) é só uma. Ruas são sete: a de Santo António a Belém, a de Santo António à Estrela, a de Santo António da Glória, a  de Santo António da Sé, a de Santo António dos Capuchos, a Rua do Milagre de Santo António ( Santa Maria Maior ) e a Rua do Vale de Santo António  ( São Vicente ).  E Travessas são seis: a Travessa de Santo António ( Santa Clara ), a Travessa de Santo António a Belém, a Travessa de Santo António à Graça, a Travessa de Santo António à Junqueira, a Travessa de Santo António a Santos e a Travessa de Santo António da Sé.

Canonizado pelo papa Gregório IX em 30 de maio de 1233 e também conhecido como Santo António de Pádua, cidade onde também existe uma basílica em sua honra, a veneração a Santo António expandiu-se no séc. XIII o que também justifica tantos topónimos semelhantes no que é hoje a cidade de Lisboa mas que há 8 séculos seria espaço de Lisboa e das aldeias próximas.

Quando em 1147 D. Afonso Henriques tomou Lisboa conseguiu-o no dia de São Crispim e assim foi esse o primeiro padroeiro de Lisboa. Mas como a devoção a São Vicente já era generalizada na cidade, sobretudo  entre os cristãos moçárabes que convenceram o rei a encontrar e trazer para a capital as suas relíquias, ficou São Vicente padroeiro em 1173 e ainda hoje a Câmara Municipal de Lisboa tem São Vicente nas armas da cidade, simbolizado no barco e nos dois corvos. No séc. XIII chega a veneração a Santo António que acaba por ficar como o padroeiro da cidade e São Vicente passa a ser o padroeiro da diocese.

Neste Largo de Santo António da Sé está a Igreja dedicada a Santo António, no local que a tradição aceita ser o do seu nascimento. De  lado, num espaço que era parte da Igreja, abriu em junho de 1962 0 Museu Antoniano (que hoje, devidamente reformulado, conhecemos como Museu de Lisboa – Santo António) e passados dois anos, a imagem de Santo António surgiu também na nota de  20 escudos de 26 de maio de 1964.

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O antigo Largo do Chafariz da Esperança

O Largo da Esperança (cinzento) , a Rua da Esperança (ocre) e a Rua Flor da Murta (amarelo) nas plantas de 1856 de Filipe Folque

O Chafariz da Esperança – do risco de Carlos Mardel – foi construído em 1768 no Largo da Esperança, então situado na Rua da Esperança e relativamente próximo da Rua da Flor da Murta (hoje, Avenida Dom Carlos I). Este antigo largo, hoje desaparecido, deve o seu nome ao quinhentista Convento da Esperança.

O Convento de Nossa Senhora da Piedade da Boa Vista ali fundado em 1524 para acolher senhoras da nobreza acabou por ficar mais conhecido como Convento da Esperança, por ter sede na sua igreja a confraria de pilotos e mestres do mar de Nossa Senhora da Esperança. E foi assim que o topónimo do Convento passou à Rua e ao Largo que existia seguramente em 1553, uma vez que nesse ano o Senado lisboeta recebeu uma petição da abadessa e religiosas do mosteiro da Esperança a  solicitar a posse do Largo da Esperança, alegando ser as proprietárias do Largo « desde a fundação do mosteiro de todo o largo dele, por ser parte de uma quinta chamada de Sizana em que o dito mosteiro está anexo, foreiro à capela de Estêvão da Guarda, situada em São Vicente de Fora» e queixando-se de Francisco Martins que edificara uma cabana no dito largo para venda de fruta e outras coisas comestíveis.

Todavia, o Largo da Esperança foi sendo um ponto de comércio, pelo menos de peixeiras, já que a consulta municipal de julho a agosto de 1771, para a distribuição dos lugares no edifício da nova Ribeira, contemplava a relação dos lugares de peixe do Largo da Esperança, Campo de Santana, Largo do Rato e Rossio, com os nomes das vendedeiras. A planta de Filipe Folque de 1856, mostra o Largo da Esperança junto à Rua Direita da Esperança, antes de esta atingir a Rua da Flor da Murta.

O Largo da Esperança e a Rua Dom Carlos I numa planta municipal de 1896

Já no séc. XIX, em 1875, foi pedido à Câmara a conclusão de passeio no Largo da Esperança.  Ora quatro anos depois, como referiu Elisabete Gama na sua comunicação às 8ªs Jornadas de Toponímia de Lisboa, «A Repartição Técnica municipal chefiada por Frederico Ressano Garcia apresentou, em 1879, a proposta de um eixo viário do Aterro ao Rato, que se dividia em dois lanços, o primeiro do qual vinha prolongar a “rua do Duque da Terceira até ao largo das Cortes” », contexto de onde nascerá a Rua de D. Carlos I (hoje Avenida), atribuída pelo Edital municipal de 28 de dezembro de 1889. A  última freira do Convento da Esperança falecera em agosto de 1888 e conforme a Lei da extinção das ordens religiosas só aí o Estado podia tomar posse de toda a propriedade, que em novembro de 1888 cedeu ao município de Lisboa, para construir uma padaria municipal e abrir o arruamento. Só que em vez de uma padaria foi instalado um serviço de incêndios até 1891, que com algumas estruturas do extinto convento resultou um novo edifício da estação de serviço nº 1 dos bombeiros, pronto no ano de 1900 e conhecido como Caserna da Esperança.

Os arranjos urbanísticos da zona levaram a que o Largo da Esperança passasse a ser um espaço integrado na Avenida Dom Carlos I, mantendo-se o chafariz encostado à Rua da Esperança. Na planta de Júlio Silva Pinto de 1909 já vemos a Rua da Esperança a terminar na Rua de Dom Carlos I e o Chafariz da Esperança a ficar na esquina de ambas as artérias.

Planta de 1909 de Júlio Silva Pinto

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