O pedido de alteração da Calçada da horta do Cabra

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias)

Alguns moradores  da Calçada do Cabra solicitaram a alteração do topónimo após o 25 de Abril mas por ser um topónimo tradicional não foi modificado.

Logo na 2ª reunião da Comissão Municipal de Toponímia após o 25 de Abril, em 20 de dezembro de 1974, surgiu uma carta de vários moradores da Calçada do Cabra solicitando a alteração do topónimo, tendo a Comissão pedido ao seu vogal Fernando Castelo Branco um parecer sobre a origem do topónimo. Na 4ª reunião, em 5 de março de 1975, deu então o seu parecer final: «Trata-se de um topónimo tradicional que não deve, por isso, ser alterado».

Freguesia da Misericórdia – Placa Tipo II
(Foto: Mário Marzagão, 2011)

A Calçada do Cabra, confinada entre a Rua de São Boaventura e a Rua Nova do Loureiro, deriva do nome ou alcunha de um proprietário do local que Júlio de Castilho mencionou na sua Lisboa Antiga – O Bairro Alto da seguinte forma: «Por aí, era no século XVIII, sabe Deus desde quando, a Horta do Cabra. Hoje a Travessa da Horta [A Travessa da Horta liga a Rua da Academia das Ciências à Rua Eduardo Coelho], comunicando o do Areu com a dos Cardais (modernamente denominada Eduardo Coelho) é o vestígio derradeiro do campo de nabiças e feijoais do antigo Cabra, sujeito cuja personalidade se sumiu na voragem dos Invernos».

Acrescente-se que segundo o olisipógrafo Norberto de Araújo, a Travessa da Horta seria do começo do séc. XIX e, «Chamou-se, antes, a Travessa do Cabra, por motivo da existência ali de umas casas, com horta, de um sujeito daquela alcunha ou apelido». Fica a dúvida se as terras do Cabra se estendiam desta Travessa até à Calçada do Cabra ou não. Contudo, nas memórias paroquiais anteriores ao Terramoto de 1755 da freguesia de Nª Srª das Mercês é referida a Horta do Cabra.

Certo é encontrarmos o topónimo Calçada do Cabra no traçado de alteração de um prédio com os nºs 3 e 4, aprovado em 19 de maio de 1852, assim como em 1856 no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa, de Filipe Folque.

Pelo menos de 1898 a 1924 lá existiu a Tipografia do Dia ou Oficina Tipográfica ou Typographia Calçada do Cabra.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias)

O pedido de alteração do topónimo Calçada do Duque de Lafões

Calçada Duque de Lafões – Freguesias de Beato e Marvila
(Fotos: Sérgio Dias)

A Calçada do Duque de Lafões foi alvo de vários pedidos de alterações após o 25 de Abril, por diversas cartas de munícipes endereçadas à edilidade, bem como através da própria Junta de Freguesia do Beato.

Em carta de 14 de fevereiro de 1975, a Junta de Freguesia do Beato « patrocinando pedido dos seus paroquianos»  solicitou a alteração dos topónimos Calçada do Duque de Lafões, Rua João do Nascimento Costa e Rua Dr. Manuel Espírito Santo. A Comissão Municipal de Toponímia chegou mesmo a reunir com representantes dessa Junta de Freguesia e solicitou-lhes que reexaminassem o assunto. Em 1976, a Junta do Beato insistiu no pedido, desta feita apresentando como alternativa o nome de Manuel Rodrigues da Silva, «lutador antifascista, com cerca de 23 anos de prisão, 10 dos quais no Tarrafal, tendo morrido há relativamente pouco tempo em Moscovo, e que habitava na dita Calçada do Duque de Lafões».

Nesta demanda, a Junta de Freguesia do Beato voltou a incluir o pedido de alteração dos topónimos Rua João do Nascimento Costa e Rua Dr. Manuel Espírito Santo, a que a Comissão deu o parecer de que  «O topónimo Calçada do Duque de Lafões é tradicional e, como tal, não deve ser alterado. Não se vê contudo inconveniente em que a Rua João do Nascimento Costa passe a denominar-se Rua Manuel Rodrigues da Silva/ Militante operário/ 1909 – 1968.  Quanto à alteração do topónimo Rua Dr. Manuel Espírito Santo, deverá aguardar-se estudo conjunto, de molde a que em todos os arruamentos da Quinta do Ourives, onde o referido arruamento se situa, venham a consagrar-se nomes de falecidos militantes operários.» Porém, Manuel Rodrigues da Silva só se tornou topónimo por Edital de 24/09/1996, no Impasse DE DF à Quinta dos Inglesinhos à Avenida das Nações Unidas, na freguesia de Carnide,  com a legenda «Político/1909 – 1968» e a Rua João do Nascimento Costa e a Rua Dr. Manuel Espírito Santo nunca foram alteradas, embora nenhum documento municipal justifique o sucedido.

Também um cidadão solicitou repetidas vezes, no ano de 1975,  a  alteração do topónimo Rua João do Nascimento Costa. Chegou mesmo a sugerir que o mesmo passasse a ser Rua Amílcar Cabral, recebendo o parecer « Aguarde-se conhecimento da orientação do Governo e do M.F.A. sobre a atribuição de topónimos que consagrem as figuras de dirigentes dos movimentos de libertação.» Neste caso, Amílcar Cabral acabou mesmo por ser um topónimo lisboeta, numa rua do Lumiar, com a legenda «Político/1924 – 1973», através do Edital municipal de 22/04/1983, na via pública que estava identificada provisoriamente como arruamento A do Plano de Urbanização da Quinta do Lambert ao Lumiar (Unor 32) ou como Impasse 2 à Alameda das Linhas de Torres.

Finalmente, a Calçada do Duque de  Lafões hoje pertença das freguesias do Beato e de Marvila, continuou até hoje como topónimo, a ligar a Rua do Grilo à Estrada de Marvila, por ser um topónimo tradicional, que guarda a memória de ali existir o palácio residencial setecentista do Duque de Lafões, cuja entrada se fazia pelo nº 1 da Calçada do Duque de Lafões.

O título de Duque de Lafões foi criado por D. João V, em 17 de fevereiro de 1718, em favor do seu primo D. Pedro Henrique de Bragança, filho do infante D. Miguel de Bragança que era filho bastardo de D. Pedro II. Sem descendência, o título  passou para o seu irmão, o general D. João Carlos de Bragança de Sousa Ligne Tavares Mascarenhas da Silva, assim feito 2º Duque de Lafões, que foi um dos fundadores e o 1º presidente da Academia das Ciências, sendo 1º secretário o Abade Correia da Serra , ambos opositores do Marquês de Pombal.

Freguesias de Beato e Marvila
(Planta: Sérgio Dias)

Os primeiros dois princípios da Comissão e o 1º Edital de Toponímia pós 25 de Abril

 

Quando os Editais municipais não eram feitos a computador e fotocopiadora mas impressos na Imprensa Municipal de Lisboa, o primeiro Edital municipal sobre toponímia pós 25 de Abril, com 850 exemplares, saiu no penúltimo dia no ano de 1974,  em resultado dos pareceres da reunião da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa de 15 de novembro de 1974 e conforme as instruções recebidas da Secretaria de Estado da Administração Interna sobre alteração de topónimos, após aprovação de proposta em sessão de Câmara.

De acordo com o princípio «de eliminação dos nomes afrontosos para a população, pela sua última ligação ao antigo regime» esse primeiro Edital, mudou o nome da Avenida Vinte e Oito de Maio para Avenida das Forças Armadas, da Avenida Marechal Carmona para Avenida General Norton de Matos e da Rua General Sinel de Cordes para Rua Alves Redol.

De igual modo, na sequência de um despacho do então Presidente da edilidade, Engº Caldeira Rodrigues, no qual solicitava o «parecer da Comissão sobre a consagração na toponímia citadina, de nomes que a opinião pública impõe como Ribeiro Santos, Alves Redol, Bento Gonçalves e outros» foi alterada o nome da Calçada de Santos para Calçada Ribeiro Santos, tanto mais que o homenageado morara no Largo de Santos e de lá saíra o seu funeral em 1972, após ter sido morto por agentes da PIDE. Também considerando uma carta de várias centenas de munícipes solicitando que a Estrada de Malpique se denominasse Rua Dr. João Soares, «em homenagem ao falecido professor e educador, pai do actual Ministro Mário Soares», também a Estrada de Malpique  deu lugar à Rua Dr. João Soares.

A Comissão Municipal de Toponímia aprovou ainda duas linhas ou princípios de orientação fundamentais.

Uma delas delineava a substituição de topónimos pela necessidade de eliminação dos nomes afrontosos para a população dada a sua ligação ao Estado Novo. Salvaguardava-se que fossem ponderados os prejuízos para os munícipes, serviços da Câmara, serviços públicos e particulares; que não fossem eliminados topónimos populares tradicionalmente consagrados; que não se usassem nomes de personalidade ainda vivas, nem designações com carácter ou apologia partidária, nem as que contivessem elementos atentatórios e ofensivos da dignidade das instituições vigentes.

A outra, apontava para a participação da população nas decisões autárquicas, considerando que «Dado que os topónimos de Lisboa têm um interesse citadino de carácter e interesse geral, antes da substituição ou inicial colocação de qualquer placa toponímica proceder-se-á à pública divulgação da decisão nesse sentido tomada pela Comissão Consultiva de Toponímia, de modo a que a população de Lisboa e os seus organismos e instituições se possam pronunciar no prazo de quinze dias, contados a partir dessa pública divulgação» e acrescentando mais um prazo de 15 dias  para a Comissão de Toponímia conjuntamente com o executivo da Câmara decidir sobre as reclamações surgidas, consultando as Juntas de Freguesia ou outra instituição julgada conveniente.

Além das alterações e nomes solicitados que deram corpo ao 1º Edital de toponímia pós 25 de Abril são de referir como mais solicitados na época a alteração dos nomes da Rua António Maria Cardoso, Rua Agostinho Lourenço, Avenida Sidónio Pais, Avenida Dom Carlos Primeiro, Avenida dos Combatentes, Praça do Príncipe Real, Rua Quirino da Fonseca e Rua de São Lázaro. De igual forma, os nomes mais frequentemente sugeridos para inclusão na toponímia de Lisboa foram, por ordem alfabética, Abel Salazar, Afonso Costa, António Sérgio, Aquilino Ribeiro, Bento Gonçalves, Catarina Eufémia, Cuba, Dias Coelho, Ferreira de Castro, Humberto Delgado, Jaime Cortesão, Manuel Rodrigues da Silva, Presidente Salvador Allende, Professor Egas Moniz, Soeiro Pereira Gomes, Vinte de Abril  e Vinte e Cinco de Abril, tendo a maioria deles sido colocados como topónimos lisboetas.

 

A Senhora da Boa-Hora da Baixa para a Ajuda

O Largo da Boa-Hora à Ajuda em 1943
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Calçada da Boa-Hora, o Largo  e a Travessa da Boa-Hora à Ajuda são três topónimos que resultam da deslocação dos Eremitas Descalços de Santo Agostinho do seu Convento no Largo da Boa Hora, junto à Rua Nova do Almada, na Baixa lisboeta, para o lugar do Espargal, em Belém, após o  terramoto de 1755.

A Ordem dos Eremitas Descalços de Santo Agostinho estabeleceu-se em Portugal em 1663, com a proteção da rainha D. Luísa de Gusmão, e uma das suas comunidades estava instalada em Lisboa, desde 1677, no Convento da Boa Hora, que havia sido fundado em 1633 por D. Luís de Castro do Rio para os padres dominicanos irlandeses e foi mais tarde aproveitado para ser quartel do 1º Batalhão dos Voluntários do Comércio (1834) e Tribunal da Boa Hora (1843). O terramoto de 1 de novembro de 1755 deixou o convento em ruínas e logo em 1756 passaram os frades para um novo Convento da Boa Hora em Belém, no lugar do Espargal , cuja igreja foi dedicada a Nª Srª da Boa Hora e Stª Rita em 7 de abril de 1766. Com a extinção das ordens religiosas em 1834, a igreja do Convento da Boa Hora, no actual Largo da Boa-Hora à Ajuda, acolheu logo no ano seguinte a paróquia de Nª Srª da Ajuda.

O Palácio Ega, no nº 30 da Calçada da Boa-Hora
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Calçada da Boa-Hora, encontra-se hoje repartida pelas freguesias de Alcântara , Belém , Ajuda, delimitada entre a Rua da Junqueira e o Largo da Boa-Hora, conforme Edital municipal de 26 de setembro de 1916, que oficializou topónimos herdados do extinto concelho de Belém. Já também na alçada da edilidade lisboeta foram em 1887-1888 construídos canos de esgoto para esta Calçada.  Refira-se ainda que no nº 30 desta Calçada encontramos o Palácio da Ega que dá sede ao Arquivo Histórico Ultramarino desde 1931.

Ao Largo e à Travessa da Boa-Hora foi acrescentada a expressão «à Ajuda», para evitar equívocos com o Largo da Boa-Hora (Freguesia de Santa Maria Maior) e a Travessa da Boa-Hora (Freguesia da Misericórdia), através do Edital municipal de 8 de junho de 1889.

O Largo da Boa-Hora à Ajuda é o espaço na confluência da Travessa do Moinho de Vento, Rua do Machado, Travessa da Boa-Hora à Ajuda e Calçada da Boa-Hora. Em 1883, a Administração dos Correios e Telégrafos solicitou autorização ao presidente da Câmara de Belém para lá colocar um marco postal.  A partir de desde 1890 passou a funcionar nas antigas dependências do Convento, neste largo, o Hospital Militar de Belém, que se especializou em doenças infecto-contagiosas.

Já a Travessa da Boa-Hora à Ajuda une o Largo da Boa-Hora à Ajuda à Calçada da Ajuda. Segundo Luís Pastor de Macedo, esta artéria foi designada no séc. XVIII «por Travessa da Abegoaria, e algum tempo depois por Travessa do Teixeira, nome que lhe foi dado pelo tenente José Teixeira, mais tarde sargento-mor, e que foi proprietário da abegoaria que dera à travessa o nome anterior. Depois foi ainda a Rua das Piteiras, porque o povo, coerente, via que parte da serventia era marginada por piteiras.»

O Largo, a Travessa da Boa-Hora à Ajuda e a Calçada da Boa-Hora
(Planta: Sérgio Dias)

A Senhora da Saúde que ficou das Necessidades em 5 topónimos de Lisboa

O Largo das Necessidades - Freguesia da Estrela (Foto: Sérgio Dias)

O Largo das Necessidades – Freguesia da Estrela
(Foto: Sérgio Dias)

A Ermida de Nª Srª das Necessidades, erguida em 1607, fixou-se na memória de Lisboa em 5 topónimos: a Calçada das Necessidades, o Largo das Necessidades, a Rampa das Necessidades, a Rua das Necessidades e a Travessa das Necessidades, todos na Freguesia da Estrela.

A Ermida da Nª Sr.ª das Necessidades foi construída em 1607 para abrigar uma imagem da Senhora da Saúde roubada na Ericeira por devotos ali refugiados da peste de 1580. A irmandade que cuidou do templo e o ampliou era de marítimos da carreira da Índia. depois de 1613, Pedro de Castilho, conselheiro de D. João IV comprou as casas ligadas à ermida e transformou-as na sua residência, tendo mais tarde ficado com o assento da ermida e mandou erigir a capela-mor, obra terminada em 1659. Depois, D. João V comprou o local, grato à Senhora das Necessidades pelas melhoras da paralisia de que padecera, e resolveu ampliar a ermida, erguer para si  um palácio no local – que foi Paço Real até 1910 – e ainda construir um hospício e um convento que em 1744 doou à Congregação do Oratório: Convento de São Filipe de Néri e Convento de Nossa Senhora das Necessidades. Com a extinção das ordens religiosas em 1834, o edifício do convento foi anexado para os serviços da Casa Real e em 1950 foi transformado em sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

A Calçada das Necessidades liga o Largo do Rilvas à Rua do Possolo. Em documentação municipal já a encontramos referida em 1861 no plano de um prédio que João António da Luz Robim pretendia aumentar, nos n.º 2 a 6 da Calçada das Necessidades, assim como em 1884 « sobre a necessidade de providências rápidas para a construção de um cano geral de esgoto para que o cano de despejos do prédio n.º 2 da rua do Borga não continue a verter as imundices para a calçada das Necessidades.»

O Largo das Necessidades encontra-se na confluência da Rua das Necessidades, Rua Capitão Afonso Pala e Calçada do Sacramento. Antes foi o Largo das Cortes, conforme planta de 1856 de Filipe Folque, dado que em 1820 foi o local escolhido para as primeiras Cortes Constituintes. Em 1883 já o encontramos como Largo das Necessidades em diversas informações municipais propondo melhoramentos para o local.

A Rua das Necessidades era a  antiga Rua Direita das Necessidades até o Edital municipal de 22/08/1881 lhe retirar a palavra «Direita» e delimitá-la da Travessa do Sacramento a Alcântara ao Largo das Necessidades.

A Rampa das Necessidades vai da Praça da Armada à Rua das Necessidades e em outubro de 1890, assim está registada numa planta municipal referente ao estado da Rua da Correnteza de Baixo, da Rampa das Necessidades e do Beco dos Contrabandistas, .

Finalmente, a Travessa das Necessidades une a Travessa do Sacramento a Alcântara ao Largo do Rilvas. Foi revestida com macadame em 1877.

O topónimo Necessidades na Freguesia da Estrela (Planta: Sérgio Dias)

O topónimo Necessidades na Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

A Senhora do Monte de S. Gens em 5 artérias

A Ermida de Nossa Senhora do Monte, no Largo do Monte (Foto: Artur Pastor, anos 80 do séc. XX, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Ermida de Nossa Senhora do Monte, no Largo do Monte
(Foto: Artur Pastor, anos 80 do séc. XX, Arquivo Municipal de Lisboa)

No ponto mais alto do Bairro da Graça, a Ermida de Nossa Senhora do Monte e de S. Gens foi fundada no próprio ano da tomada de Lisboa aos mouros, em 1147, e dela derivaram os 5 topónimos que ainda hoje encontramos: a Calçada do Monte, as Escadas do Monte, o Largo do Monte, a Rua da Senhora do Monte e a Travessa do Monte.

Norberto de Araújo precisa que «O Bairro do Monte, urbanizado, data de 1902, embora anteriormente existisse na sua Calçada, no seu alto de S. Gens, e num ou noutro arruamento impreciso. (…) Data desta época o Bairro (novo) do Monte, definindo-se, em plano de urbanização, as Ruas de S. Gens e da Senhora do Monte, esta já existente antes, como natural descida do alto de S. Gens à Rua da Graça. (…)».  Desta urbanização de 1902, encontramos a escritura de concessão  de licença municipal a Higino de Magalhães Mendonça para construir a Rua da Senhora do Monte, datada de 21 de junho de 1901, bem como a escritura de entrega de rua a 21 de novembro de 1903. Este Higino de Mendonça era pintor e  herdeiro de Damasceno Monteiro (por ser sobrinho da esposa dele), pelo que assim separou a ermida das restantes propriedades e no local procedeu ao parcelamento e à urbanização do Bairro do Monte, bem como à construção do seu palacete na Rua da Senhora do Monte, que nos anos 60 foi substituído por dois prédios mais modernos.

Em 1903, o Edital municipal de 18 de dezembro atribuíu o  topónimo Rua da Senhora do Monte, à via entre a Rua da Graça e a Calçada do Monte e, por este mesmo edital foi  deu  também nas proximidades a Rua de S. Gens, tanto mais que desde o ano anterior a Ermida tinha tido obras e passara para a Coroa com o título de Real Ermida de Nossa Senhora e S. Gens.

Aliás, a Ermida de Nossa Senhora do Monte que encontramos no Largo do Monte, foi erigida no Monte de S. Gens e também consagrada a este padroeiro dos atores cómicos, que terá sido o 1º bispo de Lisboa e martirizado em 284 no sopé do monte, nas Olarias, segundo a tradição. A cadeira de pedra de S. Gens foi colocada na Ermida em consideração às suas virtudes milagrosas no aumento da fertilidade e numa boa hora no parto. Em 1243 foi construído um segundo ermitério dos frades Agostinhos Calçados para o qual foi deslocada a cadeira, bem como o obelisco para o Largo do Monte.  A Ermida e o ermitério sofreram com o Terramoto de 1755 e a igreja foi reedificada com risco de Honorato José Cordeiro, mantendo a cadeira no interior. Em 1815, os Agostinhos plantaram árvores no Largo do Monte que duraram até ao ciclone de Lisboa de 1941. Com a extinção das ordens religiosas em 1834, o Estado vendeu toda a propriedade (ermida e quinta) a Clemente José Monteiro, cuja viúva, Henriqueta de Mendonça  casou em segundas núpcias com Damasceno Monteiro, o qual criou em 1857 uma nova Irmandade de Nossa Senhora do Monte e S. Gens, tendo no ano seguinte os devotos lisboetas  oferecido uma imagem de Nossa Senhora do Monte para o altar-mor. O herdeiro, Higino de Mendonça, parcelou e urbanizou a zona no início do séc. XX, como acima referimos.

A Calçada do Monte será a mais antiga já que, como frisa Norberto de Araújo, «A empinada Calçada do Monte, defronte do Largo, é, como estás vendo, a resultante de um caminho ou vereda que nos séculos velhos dividia a Cerca do Convento da Graça da encosta poente do Monte de S. Gens.» Por seu turno,  o Largo do Monte está ao cimo da Calçada do Monte, razão para o Edital municipal de 17/10/1924 ter integrado no Largo do Monte o prédio nº 1 da Calçada do Monte.

Já as Escadas do Monte, partilhadas pelas freguesias de São Vicente  e de Arroios, ligam a Rua Damasceno Monteiro à Rua das Olarias, desde a publicação do Edital do Governo Civil de 11 de janeiro de 1876. Em 1893, no nº 6 foi erguida uma vila operária.

Por último, a Travessa do Monte, liga o Largo da Graça à Calçada do Monte e já aparece num prospeto do prédio que Nuno António de Jesus pretendia construir na Travessa de Nossa Senhora do Monte, n.º 17 a 19, em 28 de junho de 1860.

Freguesia de São Vicente (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Senhora da Glória em cinco topónimos próximos da Avenida da Liberdade

Rua da Glória em data entre 1898 e 1908 (Foto: Machado & Souza, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua da Glória em data entre 1898 e 1908
(Foto: Machado & Souza, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Ermida de Nossa Senhora da Glória deu origem a 5 topónimos próximos do antigo Passeio Público (desde 1879 Avenida da Liberdade): a Calçada, Rua e Travessa da Glória, mais a Rua e a Travessa da Conceição da Glória, repartidos entre as freguesias de Santo António e da Misericórdia.

A Ermida de Nossa Senhora da Glória foi fundada em 1574 por Fernão Pais, na esquina dos arruamentos que ficaram conhecidos como Calçada da Glória e Rua da Glória. Cerca de 1626, aí se estabeleceram os Padres Irlandeses, do Seminário fundado em 1593. Em 1755, era proprietário da Capela D. Luís de Portugal da Gama, o 2º Conde da Vidigueira.

A Calçada da Glória, pertença das freguesias da Misericórdia e de Santo António, une a Praça dos Restauradores à Rua de São Pedro de Alcântara, e antes foi denominada Calçada de São Roque embora ainda antes do Terramoto de 1755 tenha passado a referenciar antes a Ermida de Nossa Senhora da Glória em vez da Igreja de São Roque, dado que na  «Descripção corographica das parrochias da cidade de lisboa com os lemites, ruas, becos e traveças, q’cada hua dellas tinha antes do terramoto do 1. de novembro de 1755;e também com o numero de fogos, q’ nellas existião» está inscrita a Calçada da Glória como uma artéria da «Fregª de S. Joze». Aliás, com data de 6 de maio de 1739, encontra-se um aviso do secretário de Estado, Pedro da Mota e Silva, dirigido ao vereador Jerónimo da Costa de Almeida para que providencie rapidamente a limpeza do sequeiro que vai de São Pedro de Alcântara até à Calçada da Glória (Chancelaria Régia, Livro 13º de consultas e decretos de D. João V do senado ocidental). Nesta Calçada foi inaugurado em 31 de outubro de 1884 o Elevador da Glória.

Todos os outros restantes arruamentos evocativos da Ermida da Senhora da Glória estão integrados na freguesia de Santo António.

A Rua da Glória, liga a Calçada da Glória à Rua da Conceição da Glória e terá sido inicialmente designada como Rua de Nossa Senhora da Glória. No séc. XIX, mas antes do nascimento da Avenida da Liberdade, também era conhecida como Rua da Glória ao Passeio [Público]. Nesta artéria existiram duas ermidas: a já referida Ermida de Nossa Senhora da Glória de 1574 e que se fixou na toponímia da zona, e a Ermida de Nossa Senhora da Pureza do Amor de Deus, fundada em 1581 pelo solicitador dos órfãos Manuel de Castro e sua mulher.

A proximidade a uma zona tão central da cidade terá também gerado alguns problemas já que um Requerimento de 1886 dos moradores do prédio números 41, 43 e 45 da Rua da Glória solicita a colocação de um urinol no arruamento assim como foi delineado por Augusto César dos Santos, Inspetor de Calçadas e Chefe da 2ª secção da Repartição Técnica da C.M.L., um alargamento da Rua da Glória junto à Calçada da Glória, para facilitar a volta de carruagens, com data de 24 de agosto de 1891.

Ainda na freguesia de Santo António encontramos a Travessa da Glória que liga a Avenida da Liberdade à Rua da Glória, a Rua da Conceição da Glória que une a Avenida da Liberdade à Rua das Taipas em resultado do Edital do Governo Civil de Lisboa de 05/08/1867 para denominar a antiga Rua da Conceição, e ainda a Travessa da Conceição da Glória que vai da Rua das Taipas à Rua da Mãe D’Água, fruto do Edital municipal de 08/06/1889 para renomear a Travessa da Conceição de Cima.

Freguesias de Santo António e da Misericórdia (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias de Santo António e da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias)

A Calçada do pai na artéria onde o filho residiu

A Calçada Salvador Correia de Sá em 1946 (Foto: Fernando Martinez Pozal, Arquivo Municipal)

A Calçada Salvador Correia de Sá em 1946 quando se designava Calçada Castelo Branco Saraiva
(Foto: Fernando Martinez Pozal, Arquivo Municipal)

A antiga Calçada de S. João Nepomuceno, que a partir do Edital de 14/10/1915  se denominou Calçada Castelo Branco Saraiva, passou por Edital municipal de 28 de agosto de 1950 a ser a Calçada Salvador Correia de Sá, por referência ao pai do filho com o mesmo nome que ali residiu.

No século XVIII, por ser a morada de seu filho com o mesmo nome, esta calçada já  era conhecida como rua de Salvador Correia de Sá. Por exemplo, no Livro 5º de Consultas e Decretos de D. João V, encontramos com datas de 13 a 20 de julho de 1714, uma consulta sobre a utilização de águas públicas retidas num tanque por um cirurgião inglês, que aforou um andar na rua de Salvador Correia de Sá e que se insurgiu violentamente contra os oficiais do Senado quando estes o proibiram de reter a dita água. Contudo, quando em 1950 a Câmara Municipal deliberou recuperar topónimos antigos escolheu o nome setecentista do filho, mas identificou-o como sendo o pai, que fora Governador do Rio de Janeiro.

salvador-correia-de-saSalvador Correia de Sá e Benevides (Cádis/1602 – 1688/Lisboa), filho do bandeirante Martim Correia de Sá e de mãe espanhola, ainda era primo de Mem de Sá e de Estácio de Sá, os fundadores do Rio de Janeiro. Salvador seguiu a carreira militar e política. Logo em 1625 lutou contra a invasão holandesa em Salvador, a bordo do navio Nossa Senhora da Penha de França. Durante as Guerras da Restauração recuperou da ocupação holandesa a soberania portuguesa de Angola bem como de S. Tomé e Príncipe, pelo que foi nomeado governador de Angola (1648-1651). Desempenhou também as funções de governador do Rio de Janeiro por três vezes (1637-1643, 1648 e 1659-1660) e de governador da capitania do sul do Brasil (1659-1662), para além de ter sido nomeado Almirante das frotas do Brasil e Conselheiro dos Conselhos de Guerra e Ultramarino, assim como administrador de todas as Minas do Brasil, tendo em 1662, superado a chamada Revolta da Cachaça, no Rio de Janeiro.

Refira-se também que em  1639, o conde da Torre colocou sob sua jurisdição, «na guerra e na justiça», também as capitanias de São Vicente e de São Paulo, autorizando-o a perdoar os crimes desde que os agraciados se alistassem na tropa e nesse recrutamento foi auxiliado por António Raposo Tavares que também está na toponímia de Lisboa, assim como Luís Pedroso de Barros, um dos recrutados. E em 1641, quando se soube no Brasil da Restauração, Salvador Correia de Sá aclamou o rei D. João IV, o que lhe custou muitos bens que possuía em Espanha assim como na colónia castelhana do Peru.

Salvador Correia de Sá casou na Argentina com D. Juana Catalina, de origem espanhola mas nascida no continente americano, com quem teve 6 filhos, o que o tornou também um grande latifundiário em Tucumán (hoje, na Argentina). Foi sepultado no Convento de Nossa Senhora dos Remédios dos frades Carmelitas Descalços ou Marianos à Rua das Janelas Verdes, que hoje é a York House.

O Grupo Amigos de Lisboa, evocou Salvador Correia de Sá e Benevides em 8 de dezembro de 1961, colocando uma placa no átrio da igreja do antigo Convento dos Marianos. Em 1948 foi também escolhido para Patrono do Curso desse ano da Escola Naval. E ainda antes, em 1924, o  Liceu de Luanda passou a designar-se Liceu Nacional Salvador Correia de Sá e Benevides.

De forma não exaustiva, referimos ainda que Salvador Correia de Sá é também topónimo de artérias do Barreiro, da Gafanha da Nazaré, de  Gondomar, Mem Martins, Estoril, e no Brasil, por exemplo,  em Fortaleza, Sabará e  São Paulo.

Freguesia da Misericórdia (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

 

 

As 56 artérias da Ajuda oficializadas em 1916

Freguesia da Ajuda - Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Ajuda – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

A freguesia da Ajuda foi instituída em 1551 mas só em 1762 passou a fazer parte do Concelho de Lisboa. Contudo, de 1852 a 1885 integrou o Concelho de Belém, pelo que houve necessidade de oficializar em Lisboa 56 artérias da Ajuda pelo Edital municipal de 26 de setembro de 1916.

A pedido da Junta de  Freguesia, o vereador Augusto de Magalhães Peixoto apresentou em sessão de câmara uma proposta considerando que «fizeram parte do extinto Concelho de Belem, donde, quando da sua anexação ao de Lisboa,não veiu escrituração alguma referente a deliberações camararias sobre tal assunto, sendo, portanto, conhecidas simplesmente pelos nomes, que o vulgo lhes tem dado», a qual foi aprovada por unanimidade.

Freguesia da Ajuda - Placa Tipo IV (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Ajuda – Placa Tipo IV
(Foto: Sérgio Dias)

E passada a proposta a Edital foram atribuídos 56 topónimos. Assim aconteceu com

  1. o Beco do Cabreira;
  2. o Beco do Viçoso;
  3. a Calçada
  4. e o  Largo da Ajuda;
  5. a Calçada
  6. e a  Travessa da Memória, por D. José I ter sofrido um atentado no local;
  7. a Calçada da Boa- Hora;
  8. a Estrada dos Marcos;
  9. a Estrada de Queluz;
  10. o Largo e a
  11. a Rua do Giestal;
  12. a Rua e a
  13. Travessa de Dom Vasco;
  14. a Rua e a
  15. Travessa do Guarda-Jóias;
  16. a Rua do Jardim Botânico;

    Freguesia da Ajuda – Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

  17. a Rua e a
  18. Travessa do Machado;
  19. a Rua das Mercês;
  20. a Rua e a
  21. Travessa do Mirador;
  22. a Rua Nova do Calhariz;
  23. a Rua dos Quartéis
  24. e a Rua de Traz dos Quartéis;
  25. a Rua da Torre, próxima da Torre Sineira conhecida como Torre do Galo;
  26. o Sítio de Casalinho;
  27. a Travessa do Armador;
  28. a Travessa do Chafariz, por lá existir um chafariz;
  29. a Travessa das Dores, referente à Ermida de Nossa Senhora das Dores;
  30. a Travessa da Ferrugenta;
  31. a Travessa das Florindas;
  32. a Travessa de João Alves;
  33. a Travessa José Fernandes;
  34. a Travessa do Moinho Velho;
  35. a Travessa dos Moinhos;
  36. a Travessa do Pardal;
  37. a Travessa de Paulo Martins;
  38. a Travessa das Verduras;
  39. e o Largo do Conde de Belmonte que era uma via particular e não municipal;

Mas também alguns dos topónimos foram atribuídos com um acrescento de localização ou mesmo uma nova nomenclatura. Assim,

  • Freguesia da Ajuda - Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

    Freguesia da Ajuda – Placa Tipo II
    (Foto: Sérgio Dias)

    40. a Rua das Freiras mudou para Rua das Casas do Trabalho (desde 1963 é a Rua Alexandre de Sá Pinto);

  • 41. a Rua Carlos Príncipe passou a ser a Rua Augusto Gomes Ferreira/Professor da Escola do Exército Inspector dos Incêndios/1854-1900; 
  • 42. a Travessa de Carlos Príncipe foi alterada para Travessa da Ajuda;
  • 43. a Rua da Paz mudou para Rua Brotero/Médico e Botânico/1744 – 1828
  • 44. assim como a outra Rua da Paz para Rua do Laranjal;
  • 45. a Rua dos Fornos da República tornou-se simplesmente Rua dos Fornos;
  • 46. a Rua Aliança Operária, assim atribuída pelo Edital de 14/10/1915, voltou a ser Rua de Santana;
  • 47.a Rua do Mirante tornou-se Calçada do Mirante à Ajuda;
  • 48. a Rua do Meio levou o acrescento à Ajuda;
  • 49. o Beco do Chinelo tornou-se Beco do Xadrez;
  • 50. a Rua da Bica passou a Rua Alegre
  • 51. a Travessa da Estopa ficou como Travessa das Fiandeiras;

Finalmente, foram também modificados outros topónimos para evitar repetições ou nomes que talvez fossem considerados menos próprios, tendo em comum a característica de todos terem sido renomeados com nomes de flores. Foram eles

  • 52. a Estrada do Cemitério foi alterada para Rua das Açucenas;
  • 53. a Travessa da Faustina tornou-se a Travessa da Madressilva;
  • 54.  a Travessa do Carneiro ficou como Travessa da Verbena;
  • 55. a Travessa do Moinho Velho foi mudada para Travessa do Alecrim;
  • 56. outra Travessa do Machado passou a Travessa da Giesta.
Freguesia da Ajuda - Placa Tipo II

Freguesia da Ajuda – Placa Tipo II

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Combros de Lisboa

Calçada do Combro - Freguesia da Misericórdia (Foto: José Pascoal)

Calçada do Combro – Freguesia da Misericórdia
(Foto: José Pascoal)

Combro é sinónimo de cômoro e ambos significam pequena elevação isolada de terreno ou cumeada. Na toponímia de Lisboa ainda encontramos dois combros, um em calçada e outro numa travessa.

Quando o Bairro Alto começava a nascer nos idos do séc. XVI, a Calçada do Combro era parte da Estrada de Santos ou da Horta Navia. Gomes de Brito identifica-a como a calçada da «Bella Vista» referida por Cristóvão Rodrigues de Oliveira no seu Sumário de 1551. Mas no século seguinte, de acordo com o mesmo olisipógrafo e também segundo Norberto de Araújo, aparecia como «Calçada do Congro» em documentos camarários e até numa denúncia feita à Inquisição, ou ainda como «do Congo» por deturpação da lógica toponímica de cômoro, combro ou cumeada. Mais tarde, este arruamento aparece já como Calçada do Combro, nomeadamente numa postura municipal de 26 de maio de 1704, nas plantas das freguesias de Lisboa após o terramoto de 1755 e até num pedido de licença ao Supremo Senado municipal, de 7 de maio de 1792, de José António morador na Calçada do Combro, para vender água do Chafariz da Esperança.

Esta calçada tem no nº 38 o Palácio Marim-Olhão, dos Condes de Castro Marim e dos Marqueses de Olhão, construído no 2º quartel do séc. XVIII, onde mais tarde se instalou o Correio Geral (1801-1881), o jornal Revolução de Setembro (1849-1890), uma conservatória do Registo Civil (no início da República), a Confederação Geral do Trabalho, o jornal A Batalha e as Juventudes Monárquicas. Logo a seguir encontra-se o Palácio  seiscentista do desembargador André Valente de Carvalho que foi também vereador da CML e dá o seu nome a uma Travessa próxima. Ainda do mesmo lado e descendo, encontramos o Convento dos Paulistas ali nascido em 1647 e que após 1834 passou a Sociedade Promotora da Indústria e depois, sucessivamente, a quartel da Guarda Nacional de Lisboa, da Guarda Municipal e desde 1910, da Guarda Nacional Republicana.

E da Calçada do Combro, na freguesia da Misericórdia, vamos para a Estrela, ao encontro da Travessa do Combro, que liga a Rua dos Navegantes à Travessa dos Ferreiros à Lapa, artéria que de acordo com Luís Pastor de Macedo já aparece citada em 1758 mas com a categoria de rua. Na documentação municipal encontra-se ainda uma planta com indicação da venda de um terreno municipal a Guilherme de Oliveira Martins na Travessa do Combro nº 41, em 29 de janeiro de 1903.

 

Travessa do Combro em 1967 (Foto: Augusto de Jesus Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Travessa do Combro em 1967
(Foto: Augusto de Jesus Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)