A Calçada da Ermida e Convento de Santa Apolónia

Freguesia de São Vicente
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Calçada de Santa Apolónia, que hoje vemos a ligar a Rua de Santa Apolónia à Rua da Bica do Sapato, deriva o seu topónimo do Convento de Santa Apolónia naquela zona erguido na segunda metade do séc. XVII, embora este hagiotopónimo fosse ali já habitual graças à Ermida de Santa Apolónia que existiu pelo menos desde 1552.

Freguesia de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

No Sumário de 1551 de Cristóvão Rodrigues de Oliveira já é mencionada uma ermida de Santa Apolónia e é junto dela que cem anos depois, por volta de 1662, foi fundado um recolhimento de freiras, a mando de D. Isabel da Madre de Deus, religiosa da Ordem Terceira de São Francisco e protegida dos Duques de Bragança (D. João IV e D. Luísa de Gusmão). Após um incêndio em 1692 foram necessárias obras no recolhimento e em 1698, o testamento de Domingos Ferreira do Souto e de sua mulher Catarina da Silva determinou a construção de um convento, com a contrapartida de ser reservada a capela-mor para a sepultura do casal mais 6 lugares de noviças para familiares do casal. Este novo Convento foi construído antes de 1717, já que esse é o ano em que o  Papa Clemente XI eleva o Recolhimento de Santa Apolónia a convento. Em 1719 as religiosas professaram na Regra de Santa Clara e o Convento localizava-se na Rua de Santa Apolónia e tinha a fachada principal virada a norte.

O Terramoto de 1755 tornou-o inabitável e as freiras recolheram-se no Forte de Santa Apolónia durante cerca de dois anos, durante a reconstrução com apoio régio. Em agosto de 1833, as religiosas foram transferidas para o Convento de Santa Ana de Lisboa, por ordem de D. Pedro II , por causa das guerras liberais e no mês seguinte uma portaria régia determinava que a Alfândega das Sete Casas pudesse dispor do Convento de Santa Apolónia, para aí se guardarem «os generos, que na mesma Alfandega já não podem ser arrecadados por falta de cõmodo».

Em 1852 o edifício do antigo convento foi adquirido pela Companhia Central Peninsular dos Caminhos de Ferro e ali funcionou durante cerca de 13 anos, até maio de 1865, uma pequena estação de passageiros e mercadorias da Linha do Leste e em 28 de outubro de 1856 foi oficialmente inaugurado o  1º troço de via-férrea da Linha Leste, entre Lisboa e o Carregado. A igreja de Santa Apolónia também serviu mais tarde como armazém da Cooperativa do pessoal dos Caminhos de Ferro. Uma portaria de 5 de maio de 1862 aprovou o traçado da futura Estação de Santa Apolónia, entre a Praia dos Algarves e a Rua direita do Cais dos Soldados, no local das instalações do Regimento de Cavalaria do Cais.

O edifício do antigo Convento de Santa Apolónia foi demolido entre 1958 e 1960 e a fachada da igreja foi transferida para a frontaria da nova Igreja de São Marcos, em Arripiado, na Chamusca.

Para além desta Calçada ( na freguesia de São Vicente ), Santa Apolónia está ainda na toponímia próxima na Rua da Cruz de Santa Apolónia ( São Vicente ), na Rua de Santa Apolónia ( São Vicente e Penha de França ) e na Rua do Forte de Santa Apolónia ( Penha de França ).

No resto do país, este hagiotopónimo também se encontra em Barcelos, Guimarães, Póvoa do Lanhoso (Braga), Vila Nova de Famalicão (Braga), Bragança, Alcains (Castelo Branco), Coimbra, Montemor-o-Velho ( Coimbra), Custóias (Matosinhos), Porto Salvo (Oeiras), Recarei (Paredes), Pousafoles do Bispo (Sabugal), Sertã (Castelo Branco), Vila do Conde, Vila Nova de Gaia e Tarouca (Viseu).

O local onde existiu o Convento de Santa Apolónia
(Foto: © CML | DMC | DPC | José Vicente 2013)

 

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A Calçada do Convento seiscentista do Desterro de Alcobaça

Freguesias de Arroios e de Santa Maria Maior
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Esta Calçada que hoje liga a Rua da Palma à Rua de São Lázaro evoca o Convento Cisterciense do Desterro, que os monges de São Bernardo ergueram para casa principal e ficou hospício da Ordem, numas obras que duraram 50 anos, de 1591 a 1640.

Freguesias de Arroios e de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

No séc. XIX, esta artéria era ainda a Calçada Nova da Bica do Desterro, por mor de uma bica de água nela existente, mas uma deliberação camarária de 18 de maio de 1889 e o consequente Edital de 8 de junho seguinte tornou-a simplesmente na Calçada do Desterro.

O Desterro como topónimo derivado do Convento encontra-se também na proximidades na Rua do Desterro ( Arroios ) – que foi antes um troço da Rua Nova do Desterro e ainda antes, a Travessa Nova do Desterro -; na Travessa da Cruz do Desterro (Arroios ) nascida do edital do Governo Civil de Lisboa de 01/09/1859 que num único arruamento sob esta denominação juntou a Travessa da Cruz e a Travessa Nova da Bica do Desterro; a Rua Nova do Desterro ( Santa Maria Maior , Arroios ) que por Edital municipal de 14/06/1880 tomou o lugar da Travessa Nova do Desterro; e a Travessa do Desterro ( Arroios , Santa Maria Maior ) que por Edital de 08/06/1889 passou a ligar a Calçada do Desterro à Rua Nova do Desterro.

O Convento de Nossa Senhora do Desterro, dos monges de São Bernardo ou de Alcobaça, foi fundado em 8 de abril de 1591, sendo o topónimo uma menção da grande distância sentida à Congregação em Alcobaça, como se estivessem desterrados. Pensa-se que possa ter sido traçado por Filipe Terzio e ocupou todo o  quarteirão definido hoje entre a Rua Nova do Desterro – onde tem a fachada principal – e a Rua Antero de Quental. O plano da Ordem de Cister era de que este convento fosse a casa principal da Ordem mas passou a ser mais um hospício para albergar os frades de São Bernardo quando da província se deslocavam até Lisboa. Em 1750, ainda recebeu doentes do Hospital Real de Todos os Santos, quando este sofreu um grande incêndio e cinco anos depois foi parcialmente destruído. Em 1812, o espaço passou a ser ocupado pela Casa Pia de Lisboa (até 1833) e a congregação de frades saiu de lá. Em meados do século XIX nele passou a funcionar  o Hospital do Desterro, que no final desse século, a partir de 1898, integrava o grupo do Hospital dos Capuchos e do Hospital de Arroios. Refira-se ainda que o  Hospital do Desterro foi expropriado de uma parte, a partir de 1896, para serem abertas a Avenida Almirante Reis e a Rua Antero de Quental.

O sítio do Ferragial em três artérias lisboetas

Rua do Ferragial – Freguesias de Santa Maria Maior e da Misericórdia
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

O quinhentista sítio do Ferragial, denominação que evoca uma planta de pasto, permaneceu no casco velha da cidade em três topónimos: a Calçada, a Rua e a Travessa, todos com a administração repartida pelas freguesias de Santa Maria Maior e Misericórdia.

Hoje, a Calçada do Ferragial liga o Largo do Corpo Santo à Rua Vítor Cordon, a Rua do Ferragial vai da Calçada do Ferragial até à Rua do Alecrim – ainda em 1908 na planta de Silva Pinto e Correia de Sá é mencionada como Rua do Ferragial de Baixo- , e a Travessa do Ferragial une a Calçada do Ferragial à Rua Vítor Cordon, sendo esta última aquela que não foi fixada naturalmente na memória da cidade mas atribuída por Edital do Governo Civil de Lisboa de 7 de novembro de 1874 ao Beco da Linheira, a partir de uma proposta do vereador Francisco Margiochi aprovada na edilidade lisboeta em 17 de agosto de 1874.

Ferragial provém do latim farrago e serve para designar o campo onde se cultivam cereais que ceifados verdes e antes de espigar servem de pasto para animais.

De acordo com Luís Pastor de Macedo, « Já no “Sumário” encontramos, em 1551, na freguesia dos Mártires as ruas de Cima e do Ferregial. O “Itinerario lisbonense” descrimina bem: Ferregial de Baixo, a primeira à direita, subindo pela rua do Alecrim e termina na Calçada do Ferregial; Ferregial de Cima, a última à direita, entrando na rua de S. Francisco da Cidade, da parte do Chiado e termina ao tesouro velho

Nas suas Peregrinações em Lisboa, o olisipógrafo Norberto de Araújo descreve o sítio da seguinte forma: «Já te disse que a Rua do Ferregial quinhentista corria do lado norte de Vítor Cordon de hoje; para perpectuar o nome nas aproximações topográficas ficaram na reedificação do sítio a Rua do Ferregial de Cima, que assim se chamou até 1890 a Rua Vítor Cordon, a incaracterística Rua do Ferregial de Baixo, que é esta que conduz ao Alecrim, a Calçada do Ferregial, que liga Vítor Cordon, num ângulo recto, à Calçada. (…) Correu por aqui ao fundo, em linha que não tenho possibilidade de situar por palavras e referências, o lanço sul da muralha da Cêrca nova de D. Fernando, que desde o Postigo do Duque de Bragança, sensivelmente na extrema sul da actual Rua António Maria Cardoso (esplanada) obliquava, com seus arcos (ou postigos) das Fontaínhas, do Corpo Santo e dos Cobertos, para tomar o caminho paralelo à rua do Arco dos Cobertos (Rua do Arsenal) e seguir por aí fora, sempre paralela ao mar».

Ainda segundo Luís Pastor de Macedo, a Travessa do Ferragial também terá sido chamada Calçadinha do Arroz.

Rua, Calçada e Travessa do Ferragial – Freguesias de Santa Maria Maior e da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Calçada da Memória do atentado a D. José I

A Calçada da Memória em 1969
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

A memória das aventuras galantes de D. José I com D. Teresa de Távora, que terminaram com um atentado à integridade física do soberano, ficou registada no próprio local da agressão com a construção de uma Igreja dedicada a Nossa Senhora do Livramento – por ele ter saído ileso-, assim como a São José – por ser o nome do rei-, e essa lembrança estendeu-se depois a três topónimos locais: a  Calçada , o Largo e a Travessa da Memória.

Tanto a Calçada da Memória como a Travessa homónima, foram topónimos oficializados pela edilidade lisboeta através do Edital de  26 de setembro de 1916. Já o Largo da Memória não possui prova documental que ateste a sua data de fixação mas terá de ser posterior ao início  da construção nesta zona da Igreja da Memória , isto é, a partir de 1760. A partir dos documentos constantes no Arquivo Municipal de Lisboa podemos deduzir que todos os três topónimos serão do séc. XIX e que antes foram genericamente as Terras da Memória.

Com data de 27 de outubro de 1886, encontramos  um projeto de ruas a executar na zona da Memória e da Ajuda, no qual percebemos que a Igreja da Memória confrontava com o Caminho do Buraco, o Pátio das Vacas e o Largo do Chafariz. Também com a data de 8 de janeiro de  1891 deparamos com o projeto definitivo das ruas nas denominadas Terras da Memória, em terreno cedido pela Casa Real. E em 1892, descobrimos um requerimento de vários moradores a solicitar a demolição do muro na travessa do Pátio das Vacas para comunicação com as Terras da Memória e ainda uma solicitação de Rosa Gomes para construção de casa num dos arruamentos projetados na zona da Memória.

Da ligação de D. José I a D. Teresa de Távora, informa o olisipógrafo  Norberto de Araújo que o atentado ocorreu na noite de 3 de setembro de 1758, quando o monarca saído dos aposentos da jovem marquesa de Távora subia de Belém para Ajuda, na carruagem do seu criado e confidente Pedro Teixeira (também fixado como topónimo numa Estrada da Ajuda) e que ao passar no Pátio das Vacas foi D. José atacado a tiro. Os conjurados sumiram-se e o rei partiu à desfilada para a casa do Marquês de Angeja, na Junqueira, para tratar os seus ferimentos no braço. Saiu ileso o rei desta conspiração, tida como dos Távoras, e por tal bênção desta salvação foi erguida a Igreja da Memória. Depois, o Marquês de Pombal acusou os seus inimigos Távoras de conspiração e estes foram torturados e depois executados em janeiro de 1759. A morte dos Távoras foi celebrada com um pelourinho erguido no Beco do Chão Salgado, topónimo também relativo a essa ocasião e os restos mortais do Marquês de Pombal foram transladados em 1923 para a Igreja da Memória.

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)