As Escadinhas da Calçada do Duque de Cadaval

Freguesias da Misericórdia e Santa Maria Maior
(Foto: Toze Ribeiro)

A Calçada do Duque, que em escadaria une hoje o Largo Trindade Coelho à Calçada do Carmo, é um topónimo que perpetua um antigo proprietário local, o Duque de Cadaval, sendo o arruamento também conhecido popularmente como Escadinhas do Duque, forma que o guitarrista  António Chainho escolheu para dar título a um tema do seu álbum Guitarradas.

Esta antiga calçada íngreme foi  em meados do século XIX suavizada através da colocação de escadas e a partir daí  ganhou o epíteto de escadinhas. O topónimo Calçada do Duque foi atribuído oficialmente pelo Edital do Governo Civil de 5 de agosto de 1867 que também atribuiu no sítio a Rua do Duque, em ambos os casos por referência às propriedades dos Duques de Cadaval naquela zona. Refira-se ainda que a zona nas traseiras da Rua Primeiro de Dezembro junto à Estação Ferroviária, onde está implantada uma esplanada, corresponde ao Pátio do Palácio do Duque do Cadaval do séc. XIX e também é vulgarmente conhecido como Largo Duque de Cadaval apesar de não ser um topónimo oficial.

Em 1 de setembro de 1887, L. Mendonça e Costa num artigo n’Occidente precisa que «É toda a frente occidental deste lado (…) que vai ser demolida para a construcção da grande estação central dos caminhos de ferro [hoje é denominada Estação Ferroviária do Rossio], testa da linha urbana de Lisboa. (…) sendo um o palacio do sr. Duque do Cadaval, que tem dois andares com 8 janellas de frente cada um (…) nas trazeiras d’estes dois predios estende-se a quinta e jardim pertencente ao primeiro, e que confina com a cêrca da Misericórdia e pateo do Penalva, seguindo, por detraz dos demais predios que formam a parte occidental da rua do Principe [ hoje é a Rua Primeiro de Dezembro], até à calçada do Duque, que também assim se chama por pertencer o seu terreno do lado direito, á velha casa Cadaval».

O 1º Duque de Cadaval

O título de Duque de Cadaval foi criado pelo rei Dom João IV no dia 26 de abril de 1648, a favor de D. Nuno Álvares Pereira de Melo (1638-1727), filho de D. Francisco de Melo, 3.º marquês de Ferreira e um dos sustentáculos da Restauração de 1640. O título continuou a ver reconhecida a sucessão desde a sua instituição em 1648, até à morte do 6º duque, D. Nuno Caetano Álvares Pereira de Melo, em 1837.

O 1º duque também mandou construir uma casa nobre, antes de 1761, na sua quinta de Pedrouços, que era então um arrabalde de Lisboa, que também ficou marcada na toponímia lisboeta como Alto do Duque. Existiu também um Casal Duque de Cadaval, junto à Estrada de Benfica, como documenta a planta de 1909 de Júlio Silva Pinto.

Sobre a Calçada do Duque refira-se ainda o Palácio da Marquesa de Nisa,  na propriedade de Francisco José Caldas Júnior, foi mandado demolir pela Câmara por edital de dezembro de 1835. Neste local morou António Feliciano de Castilho e nasceu em 30 de abril de 1840 Júlio de Castilho. António Florêncio dos Santos adquiriu toda a propriedade e em 8 de janeiro de 1865 aí inaugurou a Escola Académica que em 1927 foi transferida para o Monte Agudo. Em 1900, os  nºs  3, 5 e 7 desta artéria albergavam um café chamado Inferno.

Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior      (Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

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Do Desfiladeiro de pedra à Calçada de Carriche

Freguesias do Lumiar  e de Santa Clara
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Desfiladeiro de Carriche, denominação já do tempo da ocupação romana, deu lugar à Calçada de Carriche, topónimo derivado de pedra qualquer que seja a sua origem e no século XX até mereceu honra de ser o título de um poema de António Gedeão, de 1958.

Esta passagem natural no Norte de Lisboa já se denominava Desfiladeiro de Carriche no tempo da ocupação romana da Península Ibérica, pelo menos desde o séc. III. Na ocupação muçulmana que se seguiu – nos séculos VIII a XII – o topónimo permaneceu e não se apagou. Sobre a sua origem etimológica há quem defenda que derivará do céltico carr, que quer dizer pedra, enquanto outros apontam que radicará no árabe qarix, que significa pedra miúda e cascalho. Em qualquer das opções, a pedra maior ou mais pequena do desfiladeiro original ficou para sempre na toponímia lisboeta.

Esta Calçada tem vestígios de ocupação humana pré-histórica, desde o Paleolítico. De 1852 a 1885, como as freguesias do Lumiar e da Ameixoeira, assim com as outras do Termo, integrava o concelho dos Olivais. Depois foi incorporada no território de Lisboa em 18 de julho de 1885, altura em que foi estabelecida uma nova estrada da circunvalação, que aproveitou parte da Estrada Militar desde Benfica ao Forte da Ameixoeira (edificado sobre um povoado Calcolítico), e demorou a ser construída de 1886 a 1900, com 3 postos fiscais (ou portas): o Vale do Forno, Alcoutins e Carriche. Na planta de Júlio Silva Pinto de 1906 estão referenciados a Calçada de Carriche, as Portas da Calçada de Carriche e o Posto de Carriche.

Hoje a Calçada de Carriche começa na Rua do Lumiar e termina no limite do concelho de Lisboa, no Senhor Roubado de Olival Basto, já do concelho de Odivelas.

Freguesias do Lumiar  e de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Azinhaga e a Calçada da Quinta do Carrascal

Freguesia do Beato
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Quinta do Carrascal que se estendia desde a Picheleira à Rua do Sol a Chelas deu chão para o nascimento da Azinhaga e da  Calçada do Carrascal.

Nesta Quinta que surge já na planta de 1909 de Júlio Silva Pinto,  predominavam carrascos – seriam árvores parecidas com o carvalho ou antes oliveiras da variedade carrasca, já que o Beato era desde o séc. XII uma zona de vinhas e olivais?… – , sendo o arruamento próximo a Azinhaga do Carrascal, seguindo a tradição das Azinhagas ganharem o nome da Quinta que lhe era mais próxima. Dada o acentuado declive de uma parte do seu traçado parte da Azinhaga também foi conhecida por Calçada do Carrascal.

Assim, quando em finais de 1969 a Azinhaga ficou dividida em dois troços distintos, por obras na zona, a Câmara acolheu a  sugestão de António Fontes Laranjeira, morador no local, ficando ambos os topónimos como explicita o Edital municipal nº 14/70, de 16 de janeiro de 1970: « tendo em vista a circunstância de a Azinhaga do Carrascal, também designada vulgarmente por Calçada do Carrascal, se encontrar, actualmente, dividida em dois troços distintos, o que torna difícil a sua conveniente identificação, resolvi (…) que o troço do citado arruamento compreendido entre a Calçada da Picheleira e a Rua Frei Fortunato de São Boaventura, mantenha a denominação de Azinhaga do Carrascal e o troço compreendido entre a Rua do Sol a Chelas e a Rua Eng.º Maciel Chaves, passe a denominar-se Calçada do Carrascal.»

Entre a Azinhaga do Carrascal e a Azinhaga da Picheleira também se ergueu um bairro destinado desde 1927 a habitações económicas e que em 1933  os seus arruamentos receberam os seguintes topónimos : Rua Capitão Roby, Rua Frederico Perry Vidal, Rua Frei Fortunato de São Boaventura e Rua de Silveira Peixoto.

Freguesia do Beato
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

Da Calçada de Damião Aguiar à de Manuel Lopes do Lavre

Freguesias de Santo António e de Arroios

Damião de Aguiar no séc. XVI e XVII e Manuel do Lavre no séc. XVIII, moradores à vez num palacete junto ao Largo da Anunciada, deram também à vez nome à artéria que hoje conhecemos como Calçada do Lavra, a ostentar o 1º elevador  da Companhia de Ascensores Mecânicos de Lisboade 1884.

Damião de Aguiar (1535-1618) foi um homem letrado, desembargador do Paço e chanceler do Reino. Por documentos da chancelaria régia sabemos também que prestou juramento a Filipe II assinando o auto de entrega da cidade de Lisboa em 11 de setembro de 1580 e no ano seguinte,   foi eleito com Rodrigo de Menezes como procurador da cidade de Lisboa às Cortes de Tomar de 20 de abril. Segundo o olisipógrafo Norberto de Araújo, Damião de Aguiar morou «no edifício apalaçado, ao Largo da Anunciada, onde hoje está a Escola Nacional», que no século seguinte foi também a morada de família de Manuel Lopes do Lavre, deputado da Junta e Alfândega do Tabaco, cujo irmão André Lopes Lavre, era secretário do Conselho Ultramarino. A Calçada terá sido mandada abrir por Manuel Lopes do Lavre e assim, a artéria empinada que nasce no Largo da Anunciada passou a chamar-se do Lavre ou do Lavra.

O Elevador do Lavra, obra de Raul Mesnier du Ponsard, foi inaugurado no dia 19 de abril de 1884.

Freguesias de Santo António e de Arroios
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

As Calçadas e Calçadinhas lisboetas

Calçadinha da Figueira – Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Mário Marzagão)

Lisboa comporta nos nossos dias 83 Calçadas e 6 Calçadinhas, distribuídas por quase toda a cidade,  excepto em seis freguesias – Areeiro, Alvalade, Avenidas Novas, Campo de Ourique, Carnide, Parque das Nações -, todas mais planas, guardando nelas as memórias de antigas igrejas, árvores e outros vestígios rurais do local, produções artesanais, características específicas do sítio, moradores locais e ainda algumas figuras públicas da época da sua atribuição.

Do latim vulgar calciata, Calçada é uma rua pavimentada com material duro ou uma ladeira íngreme, aludindo às vias romanas, sendo uma toponomenclatura muito  frequente em Portugal e na Galiza, onde é Calzada.  Da Calçada deriva a Calçadinha de menor dimensão.

As 6 Calçadinhas de Lisboa concentram-se na zona mais antiga da cidade sendo pertença da freguesia de Santa Maria Maior três delas e ainda parte de outra, a saber, a Calçadinha da Figueira; a Calçadinha de Santo Estêvão derivada da igreja do séc. XIII da mesma invocação; a Calçadinha de São Lourenço junto à Igreja de São Lourenço do séc. XIII; a Calçadinha de São Miguel na proximidade à Igreja de São Miguel do séc. XII; e repartida com São Vicente, a Calçadinha do Tijolo que já existia antes do Terramoto de 1755. A que falta das seis é a Calçadinha dos Olivais, na freguesia do mesmo nome.

Calçada de Santo André – Freguesias de Santa Maria Maior e de São Vicente
(Foto: Sérgio Dias)

Já as Calçadas lisboetas são 83. De Ocidente para Oriente, comecemos pelas Freguesias de Belém e da Ajuda que partilham entre si a Calçada da Ajuda, a Calçada da Memória da salvação de D. José num atentado e a Calçada do Galvão, em homenagem a um funcionário da Secretaria de Estado dos Estrangeiros e da Guerra. A Calçada da Boa-Hora, derivada da Igreja,  reparte-se pelas Freguesias de  Belém , Ajuda e Alcântara, tendo a Ajuda em exclusivo a Calçada Ernesto Silva, nas proximidades da Liga Portuguesa dos Deficientes Motores com que o homenageado colaborou, bem como a Calçada do Mirante à AjudaAlcântara também tem só suas a Calçada de Santo Amaro e a Calçada da Tapada (das Necessidades).

Campolide tem 5 :  a Calçada do Baltazar, a Calçada da Estação dos Caminhos de Ferro, a Calçada dos Mestres que construíram o Aqueduto das Águas Livres, a Calçada da Quintinha e a Calçada dos Sete Moinhos, por mor dos moinhos de vento ali existentes.

São Domingos de Benfica só tem a Calçada de Palma de Baixo e Benfica a Calçada do Tojal.

Por seu turno,  Arroios tem 4 Calçadas só suas: a de Arroios, a  do Conde de Pombeiro junto ao seu palácio, a Calçada Nova do Colégio e a de Santana. Reparte com  Santo António mais 3 – a Calçada do Lavra derivada de Manuel Lopes do Lavre e com elevador desde 1884, a Calçada do Moinho de Vento e a Calçada de Santo António – e com Santa Maria Maior, outras tantas: a Calçada do Desterro evocativa do Convento do mesmo nome, a Calçada do Garcia e a Calçada do Jogo da Pela.

Já a Freguesia de  Santo António tem a Calçada Bento da Rocha Cabral, antiga Calçada da Fábrica da Loiça  e a Calçada da Patriarcal, partilhando ainda com a Misericórdia a Calçada Engenheiro Miguel Pais, engenheiro militar autor de Melhoramentos de Lisboa e Seu Porto e a Calçada da Glória com o seu elevador desde 1885.

Pelo lado da Misericórdia esta soma só suas 6 Calçadas: a da Bica Grande, a da Bica Pequena, a do Cabra, a do Combro, a de Salvador Correia de Sá que lá morou e a do Tijolo. Reparte ainda a Calçada do Duque D. Pedro de Meneses, Alferes-mor de D. Manuel e a Calçada do Ferragial com Santa Maria Maior, tal como acontece com a Estrela, nos casos da Calçada da Estrela e da Calçada Marquês de Abrantes aberta após o Terramoto.

A  freguesia da Estrela conta 5 exclusivamente suas: a Calçada de Castelo Picão da Madragoa, a Calçada do Livramento do Convento do mesmo nome, a Calçada das Necessidades, a Calçada da Pampulha e  a Calçada Ribeiro Santos, em memória do estudante assassinado pela PIDE em 1972.

Calçada do Menino Deus – Freguesias de Santa Maria Maior e de São Vicente
(Foto: Rui Mendes)

Santa Maria Maior  tem 9 exclusivas do seu território: a  Calçada do Carmo, a Calçada do Conde de Penafiel que foi o  último Correio-Mor do Reino, a Calçada do Correio Velho, a Calçada do Marquês de Tancos junto ao seu palácio, a Calçada da Mouraria, a Calçada da Rosa, a Calçada do Sacramento, a Calçada de São Francisco e a Calçada Nova de São Francisco, ambas relativas ao antigo grande mosteiro dessa invocação. E para além das partilhadas já acima referidas esta freguesia ainda reparte com São Vicente mais 5: a Calçada Agostinho de Carvalho industrial de cerâmica da zona das Olarias, a Calçada do Menino Deus pela proximidade à Igreja de 1737 com a mesma invocação, a Calçada do Forte seiscentista de Santa Apolónia, a Calçada de Santo André e a Calçada de São Vicente.

Já São Vicente guarda 7: a Calçada dos Barbadinhos, a Calçada do Cardeal da Mota, a Calçada dos Cesteiros, a Calçada do Cascão onde morou João Cascão, a Calçada da Graça, a Calçada do Monte de S. Gens e Calçada de Santa Apolónia. E ainda partilha a Calçada da Cruz da Pedra com a Penha de França, que tem mais 3: a Calçada da Ladeira, a Calçada das Lajes e a Calçada do Poço dos Mouros.

Na Freguesia do Beato, estão mais 6: a Calçada do Carrascal, a Calçada de Dom Gastão da família Coutinho ali com palácio, a Calçada do Grilo, a Calçada do Olival, a Calçada de Santa Catarina a Chelas e a Calçada do Teixeira. O Beato partilha com Marvila mais 2: a Calçada do Duque de Lafões e a Calçada da Picheleira. Por seu turno, Marvila dispõe também de 2: a Calçada do Perdigão relativa à Quinta de Manuel Sequeira Perdigão e a Calçada dos Vinagreiros.

Falta referir que na zona norte de Lisboa ainda existem mais 4 calçadas: a do Forte da Ameixoeira em Santa Clara, mais a Calçada de Carriche (que António Gedeão imortalizou num poema) e  a Calçada do Poço partilhadas por Santa Clara e Lumiar, e ainda, a Calçada do Picadeiro, exclusiva do Lumiar.

Calçada do Duque – Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Sérgio Dias)

 

O pedido de alteração da Calçada da horta do Cabra

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias)

Alguns moradores  da Calçada do Cabra solicitaram a alteração do topónimo após o 25 de Abril mas por ser um topónimo tradicional não foi modificado.

Logo na 2ª reunião da Comissão Municipal de Toponímia após o 25 de Abril, em 20 de dezembro de 1974, surgiu uma carta de vários moradores da Calçada do Cabra solicitando a alteração do topónimo, tendo a Comissão pedido ao seu vogal Fernando Castelo Branco um parecer sobre a origem do topónimo. Na 4ª reunião, em 5 de março de 1975, deu então o seu parecer final: «Trata-se de um topónimo tradicional que não deve, por isso, ser alterado».

Freguesia da Misericórdia – Placa Tipo II
(Foto: Mário Marzagão, 2011)

A Calçada do Cabra, confinada entre a Rua de São Boaventura e a Rua Nova do Loureiro, deriva do nome ou alcunha de um proprietário do local que Júlio de Castilho mencionou na sua Lisboa Antiga – O Bairro Alto da seguinte forma: «Por aí, era no século XVIII, sabe Deus desde quando, a Horta do Cabra. Hoje a Travessa da Horta [A Travessa da Horta liga a Rua da Academia das Ciências à Rua Eduardo Coelho], comunicando o do Areu com a dos Cardais (modernamente denominada Eduardo Coelho) é o vestígio derradeiro do campo de nabiças e feijoais do antigo Cabra, sujeito cuja personalidade se sumiu na voragem dos Invernos».

Acrescente-se que segundo o olisipógrafo Norberto de Araújo, a Travessa da Horta seria do começo do séc. XIX e, «Chamou-se, antes, a Travessa do Cabra, por motivo da existência ali de umas casas, com horta, de um sujeito daquela alcunha ou apelido». Fica a dúvida se as terras do Cabra se estendiam desta Travessa até à Calçada do Cabra ou não. Contudo, nas memórias paroquiais anteriores ao Terramoto de 1755 da freguesia de Nª Srª das Mercês é referida a Horta do Cabra.

Certo é encontrarmos o topónimo Calçada do Cabra no traçado de alteração de um prédio com os nºs 3 e 4, aprovado em 19 de maio de 1852, assim como em 1856 no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa, de Filipe Folque.

Pelo menos de 1898 a 1924 lá existiu a Tipografia do Dia ou Oficina Tipográfica ou Typographia Calçada do Cabra.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias)

O pedido de alteração do topónimo Calçada do Duque de Lafões

Calçada Duque de Lafões – Freguesias de Beato e Marvila
(Fotos: Sérgio Dias)

A Calçada do Duque de Lafões foi alvo de vários pedidos de alterações após o 25 de Abril, por diversas cartas de munícipes endereçadas à edilidade, bem como através da própria Junta de Freguesia do Beato.

Em carta de 14 de fevereiro de 1975, a Junta de Freguesia do Beato « patrocinando pedido dos seus paroquianos»  solicitou a alteração dos topónimos Calçada do Duque de Lafões, Rua João do Nascimento Costa e Rua Dr. Manuel Espírito Santo. A Comissão Municipal de Toponímia chegou mesmo a reunir com representantes dessa Junta de Freguesia e solicitou-lhes que reexaminassem o assunto. Em 1976, a Junta do Beato insistiu no pedido, desta feita apresentando como alternativa o nome de Manuel Rodrigues da Silva, «lutador antifascista, com cerca de 23 anos de prisão, 10 dos quais no Tarrafal, tendo morrido há relativamente pouco tempo em Moscovo, e que habitava na dita Calçada do Duque de Lafões».

Nesta demanda, a Junta de Freguesia do Beato voltou a incluir o pedido de alteração dos topónimos Rua João do Nascimento Costa e Rua Dr. Manuel Espírito Santo, a que a Comissão deu o parecer de que  «O topónimo Calçada do Duque de Lafões é tradicional e, como tal, não deve ser alterado. Não se vê contudo inconveniente em que a Rua João do Nascimento Costa passe a denominar-se Rua Manuel Rodrigues da Silva/ Militante operário/ 1909 – 1968.  Quanto à alteração do topónimo Rua Dr. Manuel Espírito Santo, deverá aguardar-se estudo conjunto, de molde a que em todos os arruamentos da Quinta do Ourives, onde o referido arruamento se situa, venham a consagrar-se nomes de falecidos militantes operários.» Porém, Manuel Rodrigues da Silva só se tornou topónimo por Edital de 24/09/1996, no Impasse DE DF à Quinta dos Inglesinhos à Avenida das Nações Unidas, na freguesia de Carnide,  com a legenda «Político/1909 – 1968» e a Rua João do Nascimento Costa e a Rua Dr. Manuel Espírito Santo nunca foram alteradas, embora nenhum documento municipal justifique o sucedido.

Também um cidadão solicitou repetidas vezes, no ano de 1975,  a  alteração do topónimo Rua João do Nascimento Costa. Chegou mesmo a sugerir que o mesmo passasse a ser Rua Amílcar Cabral, recebendo o parecer « Aguarde-se conhecimento da orientação do Governo e do M.F.A. sobre a atribuição de topónimos que consagrem as figuras de dirigentes dos movimentos de libertação.» Neste caso, Amílcar Cabral acabou mesmo por ser um topónimo lisboeta, numa rua do Lumiar, com a legenda «Político/1924 – 1973», através do Edital municipal de 22/04/1983, na via pública que estava identificada provisoriamente como arruamento A do Plano de Urbanização da Quinta do Lambert ao Lumiar (Unor 32) ou como Impasse 2 à Alameda das Linhas de Torres.

Finalmente, a Calçada do Duque de  Lafões hoje pertença das freguesias do Beato e de Marvila, continuou até hoje como topónimo, a ligar a Rua do Grilo à Estrada de Marvila, por ser um topónimo tradicional, que guarda a memória de ali existir o palácio residencial setecentista do Duque de Lafões, cuja entrada se fazia pelo nº 1 da Calçada do Duque de Lafões.

O título de Duque de Lafões foi criado por D. João V, em 17 de fevereiro de 1718, em favor do seu primo D. Pedro Henrique de Bragança, filho do infante D. Miguel de Bragança que era filho bastardo de D. Pedro II. Sem descendência, o título  passou para o seu irmão, o general D. João Carlos de Bragança de Sousa Ligne Tavares Mascarenhas da Silva, assim feito 2º Duque de Lafões, que foi um dos fundadores e o 1º presidente da Academia das Ciências, sendo 1º secretário o Abade Correia da Serra , ambos opositores do Marquês de Pombal.

Freguesias de Beato e Marvila
(Planta: Sérgio Dias)

Os primeiros dois princípios da Comissão e o 1º Edital de Toponímia pós 25 de Abril

 

Quando os Editais municipais não eram feitos a computador e fotocopiadora mas impressos na Imprensa Municipal de Lisboa, o primeiro Edital municipal sobre toponímia pós 25 de Abril, com 850 exemplares, saiu no penúltimo dia no ano de 1974,  em resultado dos pareceres da reunião da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa de 15 de novembro de 1974 e conforme as instruções recebidas da Secretaria de Estado da Administração Interna sobre alteração de topónimos, após aprovação de proposta em sessão de Câmara.

De acordo com o princípio «de eliminação dos nomes afrontosos para a população, pela sua última ligação ao antigo regime» esse primeiro Edital, mudou o nome da Avenida Vinte e Oito de Maio para Avenida das Forças Armadas, da Avenida Marechal Carmona para Avenida General Norton de Matos e da Rua General Sinel de Cordes para Rua Alves Redol.

De igual modo, na sequência de um despacho do então Presidente da edilidade, Engº Caldeira Rodrigues, no qual solicitava o «parecer da Comissão sobre a consagração na toponímia citadina, de nomes que a opinião pública impõe como Ribeiro Santos, Alves Redol, Bento Gonçalves e outros» foi alterada o nome da Calçada de Santos para Calçada Ribeiro Santos, tanto mais que o homenageado morara no Largo de Santos e de lá saíra o seu funeral em 1972, após ter sido morto por agentes da PIDE. Também considerando uma carta de várias centenas de munícipes solicitando que a Estrada de Malpique se denominasse Rua Dr. João Soares, «em homenagem ao falecido professor e educador, pai do actual Ministro Mário Soares», também a Estrada de Malpique  deu lugar à Rua Dr. João Soares.

A Comissão Municipal de Toponímia aprovou ainda duas linhas ou princípios de orientação fundamentais.

Uma delas delineava a substituição de topónimos pela necessidade de eliminação dos nomes afrontosos para a população dada a sua ligação ao Estado Novo. Salvaguardava-se que fossem ponderados os prejuízos para os munícipes, serviços da Câmara, serviços públicos e particulares; que não fossem eliminados topónimos populares tradicionalmente consagrados; que não se usassem nomes de personalidade ainda vivas, nem designações com carácter ou apologia partidária, nem as que contivessem elementos atentatórios e ofensivos da dignidade das instituições vigentes.

A outra, apontava para a participação da população nas decisões autárquicas, considerando que «Dado que os topónimos de Lisboa têm um interesse citadino de carácter e interesse geral, antes da substituição ou inicial colocação de qualquer placa toponímica proceder-se-á à pública divulgação da decisão nesse sentido tomada pela Comissão Consultiva de Toponímia, de modo a que a população de Lisboa e os seus organismos e instituições se possam pronunciar no prazo de quinze dias, contados a partir dessa pública divulgação» e acrescentando mais um prazo de 15 dias  para a Comissão de Toponímia conjuntamente com o executivo da Câmara decidir sobre as reclamações surgidas, consultando as Juntas de Freguesia ou outra instituição julgada conveniente.

Além das alterações e nomes solicitados que deram corpo ao 1º Edital de toponímia pós 25 de Abril são de referir como mais solicitados na época a alteração dos nomes da Rua António Maria Cardoso, Rua Agostinho Lourenço, Avenida Sidónio Pais, Avenida Dom Carlos Primeiro, Avenida dos Combatentes, Praça do Príncipe Real, Rua Quirino da Fonseca e Rua de São Lázaro. De igual forma, os nomes mais frequentemente sugeridos para inclusão na toponímia de Lisboa foram, por ordem alfabética, Abel Salazar, Afonso Costa, António Sérgio, Aquilino Ribeiro, Bento Gonçalves, Catarina Eufémia, Cuba, Dias Coelho, Ferreira de Castro, Humberto Delgado, Jaime Cortesão, Manuel Rodrigues da Silva, Presidente Salvador Allende, Professor Egas Moniz, Soeiro Pereira Gomes, Vinte de Abril  e Vinte e Cinco de Abril, tendo a maioria deles sido colocados como topónimos lisboetas.

 

A Senhora da Boa-Hora da Baixa para a Ajuda

O Largo da Boa-Hora à Ajuda em 1943
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Calçada da Boa-Hora, o Largo  e a Travessa da Boa-Hora à Ajuda são três topónimos que resultam da deslocação dos Eremitas Descalços de Santo Agostinho do seu Convento no Largo da Boa Hora, junto à Rua Nova do Almada, na Baixa lisboeta, para o lugar do Espargal, em Belém, após o  terramoto de 1755.

A Ordem dos Eremitas Descalços de Santo Agostinho estabeleceu-se em Portugal em 1663, com a proteção da rainha D. Luísa de Gusmão, e uma das suas comunidades estava instalada em Lisboa, desde 1677, no Convento da Boa Hora, que havia sido fundado em 1633 por D. Luís de Castro do Rio para os padres dominicanos irlandeses e foi mais tarde aproveitado para ser quartel do 1º Batalhão dos Voluntários do Comércio (1834) e Tribunal da Boa Hora (1843). O terramoto de 1 de novembro de 1755 deixou o convento em ruínas e logo em 1756 passaram os frades para um novo Convento da Boa Hora em Belém, no lugar do Espargal , cuja igreja foi dedicada a Nª Srª da Boa Hora e Stª Rita em 7 de abril de 1766. Com a extinção das ordens religiosas em 1834, a igreja do Convento da Boa Hora, no actual Largo da Boa-Hora à Ajuda, acolheu logo no ano seguinte a paróquia de Nª Srª da Ajuda.

O Palácio Ega, no nº 30 da Calçada da Boa-Hora
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Calçada da Boa-Hora, encontra-se hoje repartida pelas freguesias de Alcântara , Belém , Ajuda, delimitada entre a Rua da Junqueira e o Largo da Boa-Hora, conforme Edital municipal de 26 de setembro de 1916, que oficializou topónimos herdados do extinto concelho de Belém. Já também na alçada da edilidade lisboeta foram em 1887-1888 construídos canos de esgoto para esta Calçada.  Refira-se ainda que no nº 30 desta Calçada encontramos o Palácio da Ega que dá sede ao Arquivo Histórico Ultramarino desde 1931.

Ao Largo e à Travessa da Boa-Hora foi acrescentada a expressão «à Ajuda», para evitar equívocos com o Largo da Boa-Hora (Freguesia de Santa Maria Maior) e a Travessa da Boa-Hora (Freguesia da Misericórdia), através do Edital municipal de 8 de junho de 1889.

O Largo da Boa-Hora à Ajuda é o espaço na confluência da Travessa do Moinho de Vento, Rua do Machado, Travessa da Boa-Hora à Ajuda e Calçada da Boa-Hora. Em 1883, a Administração dos Correios e Telégrafos solicitou autorização ao presidente da Câmara de Belém para lá colocar um marco postal.  A partir de desde 1890 passou a funcionar nas antigas dependências do Convento, neste largo, o Hospital Militar de Belém, que se especializou em doenças infecto-contagiosas.

Já a Travessa da Boa-Hora à Ajuda une o Largo da Boa-Hora à Ajuda à Calçada da Ajuda. Segundo Luís Pastor de Macedo, esta artéria foi designada no séc. XVIII «por Travessa da Abegoaria, e algum tempo depois por Travessa do Teixeira, nome que lhe foi dado pelo tenente José Teixeira, mais tarde sargento-mor, e que foi proprietário da abegoaria que dera à travessa o nome anterior. Depois foi ainda a Rua das Piteiras, porque o povo, coerente, via que parte da serventia era marginada por piteiras.»

O Largo, a Travessa da Boa-Hora à Ajuda e a Calçada da Boa-Hora
(Planta: Sérgio Dias)

A Senhora da Saúde que ficou das Necessidades em 5 topónimos de Lisboa

O Largo das Necessidades - Freguesia da Estrela (Foto: Sérgio Dias)

O Largo das Necessidades – Freguesia da Estrela
(Foto: Sérgio Dias)

A Ermida de Nª Srª das Necessidades, erguida em 1607, fixou-se na memória de Lisboa em 5 topónimos: a Calçada das Necessidades, o Largo das Necessidades, a Rampa das Necessidades, a Rua das Necessidades e a Travessa das Necessidades, todos na Freguesia da Estrela.

A Ermida da Nª Sr.ª das Necessidades foi construída em 1607 para abrigar uma imagem da Senhora da Saúde roubada na Ericeira por devotos ali refugiados da peste de 1580. A irmandade que cuidou do templo e o ampliou era de marítimos da carreira da Índia. depois de 1613, Pedro de Castilho, conselheiro de D. João IV comprou as casas ligadas à ermida e transformou-as na sua residência, tendo mais tarde ficado com o assento da ermida e mandou erigir a capela-mor, obra terminada em 1659. Depois, D. João V comprou o local, grato à Senhora das Necessidades pelas melhoras da paralisia de que padecera, e resolveu ampliar a ermida, erguer para si  um palácio no local – que foi Paço Real até 1910 – e ainda construir um hospício e um convento que em 1744 doou à Congregação do Oratório: Convento de São Filipe de Néri e Convento de Nossa Senhora das Necessidades. Com a extinção das ordens religiosas em 1834, o edifício do convento foi anexado para os serviços da Casa Real e em 1950 foi transformado em sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

A Calçada das Necessidades liga o Largo do Rilvas à Rua do Possolo. Em documentação municipal já a encontramos referida em 1861 no plano de um prédio que João António da Luz Robim pretendia aumentar, nos n.º 2 a 6 da Calçada das Necessidades, assim como em 1884 « sobre a necessidade de providências rápidas para a construção de um cano geral de esgoto para que o cano de despejos do prédio n.º 2 da rua do Borga não continue a verter as imundices para a calçada das Necessidades.»

O Largo das Necessidades encontra-se na confluência da Rua das Necessidades, Rua Capitão Afonso Pala e Calçada do Sacramento. Antes foi o Largo das Cortes, conforme planta de 1856 de Filipe Folque, dado que em 1820 foi o local escolhido para as primeiras Cortes Constituintes. Em 1883 já o encontramos como Largo das Necessidades em diversas informações municipais propondo melhoramentos para o local.

A Rua das Necessidades era a  antiga Rua Direita das Necessidades até o Edital municipal de 22/08/1881 lhe retirar a palavra «Direita» e delimitá-la da Travessa do Sacramento a Alcântara ao Largo das Necessidades.

A Rampa das Necessidades vai da Praça da Armada à Rua das Necessidades e em outubro de 1890, assim está registada numa planta municipal referente ao estado da Rua da Correnteza de Baixo, da Rampa das Necessidades e do Beco dos Contrabandistas, .

Finalmente, a Travessa das Necessidades une a Travessa do Sacramento a Alcântara ao Largo do Rilvas. Foi revestida com macadame em 1877.

O topónimo Necessidades na Freguesia da Estrela (Planta: Sérgio Dias)

O topónimo Necessidades na Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias)