As Cruzes de Santa Maria Maior

Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Mário Marzagão, 2012)

Estendendo-se do Largo da Sé à Rua de São João da Praça fica o arruamento denominado Cruzes da Sé, por se situar nas costas da Igreja de Santa Maria Maior, a Sé Catedral de Lisboa, classificada como Monumento Nacional desde 1910.

A fixação deste topónimo na memória de Lisboa tem de ser posterior à edificação da Igreja de Santa Maria Maior. Esta começou a ser construída pouco depois de 1147, ou seja, após a tomada de Lisboa por Afonso Henriques, provavelmente assente sobre uma mesquita que, por sua vez, também terá sido erguida sobre um primitivo templo cristão visigodo.

O topónimo Cruzes da Sé aparece documentalmente referido num livro de óbitos de 1690. De acordo com o olisipógrafo Luís Pastor de Macedo, no decorrer do século XVIII, « Fugitivamente deu-se o nome de Largo da Caridade a uma parte das Cruzes da Sé, naturalmente a que ficava e fica diante da ermida [da Caridade].» Ainda segundo este olisipógrafo terá sido arruamento onde se fixaram tintureiros como aconteceu na Calçada do Carmo, Praça da Alegria e Travessa do Desterro.

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias)

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A Senhora do Monte do Carmo entre a Penha de França e a Procissão

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias)

A Travessa do Monte do Carmo,  paralela à Rua da Escola Politécnica, liga hoje a Rua Cecílio de Sousa [ antiga Rua da Procissão do Corpo de Deus] à Calçada Engenheiro Miguel Pais [antes Calçada de João do Rio, e ainda antes Rua e primitivamente, Calçada da Penha de França], na freguesia de Santo António.

O topónimo pode estar relacionado com uma Ermida ou com um hospício, já que o cura Joachim Ribeiro de Carvalho, na sua memória da paróquia das Mercês, datada de 26 de abril de 1758, regista que «Ha mais nesta parochia, e na rua Fermosa della [é a que hoje conhecemos como Rua de O Século] huma Ermida de Nossa Senhora do Monte do Carmo, anexa desta parochia que he de Manoel de Sampayo e Pina, cavaleiro professo na ordem de Christo, (…) e no altar mor em hum nicho se venera a imagem da May Santissima do Monte do Carmo e lhe fas a sua festa todos os annos em o seu dia e teve esta Ermida seu principio no ano de mil e sete centos e trinta e dous (…) Há mais nesta freguezia quatro hospicios (…); outro dos Religiozos de Nossa Senhora do Monte do Carmo, de Pernambuco; outro dos Religiozos de Santo Antonio do Ryo de Janeiro;(…)».

Na planta de Lisboa após a remodelação paroquial de 1770, na freguesia de «N. Sª das Merces» surge este arruamento como Rua dos Nobres, já nessa época como hoje, paralela à Rua Direita do Colégio dos Nobres [hoje, Rua da Escola Politécnica]. Mais de 40 anos depois, na planta do Duque de Wellington de 1812, a artéria já aparece referida como Senhora do Carmo, indo da Rua da Penha de França à Rua da Procissão, com indicação tracejada de que poderia continuar, assim como em novembro de 1857 a planta de Filipe Folque a designa como Travessa da Senhora do Carmo.

A partir da década de sessenta do séc. XIX, encontramos o arruamento sempre com o topónimo de Travessa do Monte do Carmo: em 1864 no prospeto do prédio que Henry Ramel pretendia aumentar no n.º 65 da rua do Monte Olivete e a fazer esquina para a Travessa do Monte do Carmo; no levantamento topográfico de Francisco Goullard de 1882; bem como na Planta Topográfica de Lisboa de 1911, de Júlio Silva Pinto e Alberto Sá Correia. A primeira Comissão Municipal de Toponímia, criada em 1943, procedeu à confirmação ou alteração dos topónimos existentes na cidade, tendo na sua reunião de 11 de dezembro de 1945 confirmado o topónimo Travessa do Monte do Carmo.

Freguesia de Santo António
(Planta: Sérgio Dias)

De Santo Antoninho e da Vitória à misteriosa Senhora da Piedade

Travessa da Piedade – Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias)

A Senhora da Piedade tomou conta de duas artérias lisboetas quando a Travessa de Santo Antoninho passou a Rua Nova da Piedade assim como a Travessa da Vitória, que lhe estava próxima, foi transformada em Travessa da Piedade, embora se desconheça se tais acontecimentos se devem a uma ermida local ou a um registo de azulejos representando Nossa Senhora da Piedade, já que após o Terramoto de 1755 se tornaram comuns em Lisboa os registos de azulejos representando em conjunto Nossa Senhora da Piedade, Santo António e São Marçal e a Rua de São Marçal é uma artéria vizinha cuja denominação data pelo menos de 1769.

Outra hipótese que se pode formular para a origem do topónimo radica na proximidade à antiga Patriarcal, onde existia uma Irmandade da Senhora da Piedade desde  1716, conforme a memória do cura André de Oliveira sobre a paróquia da Patriarcal, em 7 de abril de 1758: «Consta mais da Irmandade da Senhora da Piedade, que instituhio o Padre Bernardo Pinto dos Santos no anno de mil, e sete centos, e dezaseis com hum grande numero de Irmãos.»

Sobre a Rua Nova da Piedade, que liga a Praça das Flores à Rua de São Bento, afirma Luís Pastor de Macedo que «O vulgo, durante algum tempo, designou-a por travessa de Santo Antoninho, conforme se vê num anúncio publicado em 1831 na “Gazeta de Lisboa”». Mas em 1857, no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa, de Filipe Folque,  já surge como Rua Nova da Piedade, tendo sido os passeios laterais do arruamento construídos em 1877.

Rua Nova da Piedade – Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias)

Ainda segundo o olisipógrafo Pastor de Macedo, «Houve nesta rua dois moradores que não podemos deixar de mencionar: o insigne pianista e compositor João Domingos Bomtempo e o jornalista e escritor Silva Pinto, o dedicado amigo do infeliz poeta Cesário Verde».

Já a Travessa da Piedade era a Travessa da Vitória até o Governo Civil de Lisboa determinar a alteração do nome, pelo seu Edital de 1 de setembro de 1859, seguindo a sua filosofia bem manifesta nesse documento de designar as travessas com o mesmo topónimo que a rua mais próxima.

Esta artéria que liga a Travessa da Palmeira à Rua Nova da Piedade foi em parte macadamizada em março de 1875. Cinco anos depois, os moradores da Travessa da Piedade e imediações fizeram um requerimento à edilidade a pedir para a calçada ser substituída por macadame na Travessa da Piedade, desde a Rua de São Marçal até à esquina da Travessa da Palmeira, devido ao transtorno que a referida calçada causava aos condutores de gado. E doze anos depois a artéria sofreu novas obras no pavimento, seguindo um plano delineado pelos funcionários municipais Ressano Garcia e Augusto César dos Santos.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias)

Os Remédios da Senhora da Ermida do Espírito Santo

Escadinhas dos Remédios, nos anos 40 do séc. XX
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Capela de Nossa Senhora dos Remédios, com o seu portal manuelino, edificada no séc. XVI e profundamente alterada no séc. XVIII deu origem a três topónimos nas freguesias de Santa Maria Maior e São Vicente: as Escadinhas dos Remédios, a Rua dos Remédios e a Travessa dos Remédios.

A Ermida de Nossa Senhora dos Remédios chamava-se do Espírito Santo mas Norberto de Araújo esclarece como se passou de um orago a outro ao relatar que «Nesta Ermida do Espírito Santo havia um poço, onde certo dia apareceu uma imagem de Nossa Senhora, a qual apesar de ser tirada da água, vinha enxuta em sua pintura e tecido. Milagre foi! E acorriam os pescadores e famílias a implorar à Virgem remédio a seus males, e Nossa Senhora os curava. Daí a receber a imagem a invocação de Nossa Senhora dos Remédios foi um salto.»

A Rua dos Remédios, ainda segundo Norberto de Araújo, foi até 1859 a Rua das Portas da Cruz , aludindo a uma das mais importantes portas naturais de Lisboa que ali existia, que se integrou na Cerca de D. Fernando, embora pelo menos no seu troço inicial fosse  no séc. XVIII denominada como Calçada dos Remédios.

Já as Escadinhas dos Remédios, pertença apenas da Freguesia de Santa Maria Maior, ligam o Beco da Lapa à Rua dos Remédios, desde a publicação do Edital municipal de 24/12/1879.

E finalmente, a Travessa dos Remédios que se abre junto ao nº 171 da Rua dos Remédios e não tem saída, foi o resultado de nova categoria dada pelo Edital de 13/12/1882 ao Beco dos Remédios, que ainda antes disso era conhecido como Beco do Frois.

Freguesias de Santa Maria Maior e São Vicente
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua de Nossa Senhora dos Remédios das Janelas Verdes

Convento de Nossa Senhora dos Remédios, na Rua das Janelas Verdes, antes de 1895
(Foto: Francesco Rocchini, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua dos Remédios à Lapa, que liga a Rua da Lapa à Rua Garcia de Orta, nasceu na antiga Rua de Nossa Senhora dos Remédios, pela proximidade ao Convento do nº 118 da artéria que conhecemos como Rua das Janela Verdes.

Recuando do presente para o passado temos que foi o Edital do Governo Civil de Lisboa de 1 de setembro de 1859 que denominou Rua dos Remédios à Lapa a até aí designada Rua dos Remédios, para evitar equívocos com a Rua dos Remédios em Santo Estevão.

Antes desta data, de acordo com   Luís Pastor de Macedo, a artéria « Aparece em 1759 sob o nome de rua de Nossa Senhora dos Remédios, nome que depois se simplificou para rua dos Remédios.» Seguindo Gomes de Brito, o olisipógrafo adianta também que o nome desta artéria foi dado «em homenagem a Nossa Senhora dos Remédios, padroeira do convento de carmelitas descalços, fundado em 1582 na rua larga que vai de Santos para Alcântara (actual rua das Janelas Verdes)», também conhecido como Convento dos Marianos, que corresponde ao ano de morte da fundadora da Ordem, Teresa de Jesus. No entanto, o Convento dos Marianos dos Religiosos Carmelitas Descalços com a invocação de Nossa Senhora dos Remédios na sua igreja, sob o traçado de Filippo Terzi, apenas ficou concluído em 1606 e a igreja em 1613.

O movimento reformador da Ordem do Carmo foi iniciado em Espanha, em 1562, por Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz, mas  em 1580 separaram-se definitivamente os Calçados dos Descalços. A nova Ordem dos Carmelitas Descalços, também conhecidos como  Frades Marianos, veio rapidamente estabelecer-se em Portugal, logo no ano de 1581, com o apoio régio de Filipe II de Espanha e I de Portugal.

O Convento dos Marianos serviu de Hospital Militar em 1856 e 1857 aquando da epidemia de febre amarela, e sucessivamente foi fábrica de velas, Igreja Presbiteriana e Igreja Evangélica Lusitânia. E na antiga cerca do Convento, no nº 2 da Rua dos Remédios à Lapa, instalou-se no primeiro quartel do séc. XX uma fábrica de pregos, acompanhando a crescente industrialização da zona nessa época.

Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias)