A Rua do Arraial da ASA

Freguesia de Alcântara

A Academia de Santo Amaro, responsável por dar nome à Rua onde está sediada é também responsável pelo Arraial popular que ali vai decorrer no âmbito das Festas de Lisboa 2019.

Conhecida popularmente como ASA, a Academia Recreativa de Santo Amaro está sediada no nº 9 da artéria que desde a publicação do Edital municipal de 28 de julho de 1958 ostenta o seu nome, doze anos após o nascimento da associação.

Este arruamento que faz a ligação da Travessa do Conde da Ribeira à Calçada de Santo Amaro era antes catalogada como Rua A à Calçada de Santo Amaro ou ao Alto de Santo Amaro, ou ainda como Rua A à Travessa Conde da Ribeira e o seu topónimo resultou da aprovação da proposta do então vereador Sóphera Costa, apresentada na reunião da câmara de 22 de maio de 1958.

 

O bairro do Alto de Santo Amaro era a zona onde residia grande parte do operariado envolvido na industrialização de Alcântara, na passagem do século XIX para o século XX. Para a fruição dos residentes e com a participação dos próprios nasceu em 1868 a Sociedade Filarmónica Esperança e Harmonia, assim como nas primeiras décadas do século XX, aconteceram também a Sociedade Filarmónica Alunos de Harmonia e o Grupo Dramático e Musical Apolo. Quando em 1943 um plano de urbanização levou à demolição das sedes dos Alunos da Harmonia e do Grupo Apolo criou-se um processo de fusão destas três associações, que culminou na fundação em 10 de março de 1946 de uma nova coletividade: a Academia Recreativa de Santo Amaro que aproveitou para o seu nome o do local, o Alto de Santo Amaro, por sua vez derivado da presença no local da Capela de Santo Amaro desde 1549.

A Academia Recreativa de Santo Amaro dedica-se essencialmente a promover ocupações de caráter cultural e recreativo, com particular incidência no Teatro e nos Arraiais dos Santos Populares, sendo que estes ali começaram em junho de 1955, como uma forma de angariação de fundos para a nova Sede que viria a ser inaugurada em fevereiro do ano seguinte.

Freguesia de Alcântara

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Shegundo Galarza e a Sons da Lusofonia no Muro’19

O compositor basco Shegundo Galarza e a Sons da Lusofonia vão partilhar o espaço do Muro’19, 3ª edição do Festival de Arte Urbana de Lisboa, desta feita com a inspiração da música que a toponímia local evoca –  com a Alameda da Música, as fadistas Maria Alice, Maria do Carmo Torres e Maria José da Guia ou nomes da  música clássica como Arminda Correia ou Tomás del Negro-, fazendo a ligação da arte urbana a sonoridades, na vontade expressa da Galeria de Arte Urbana de Lisboa|GAU de apostar na divulgação de abordagens artísticas experimentais e inovadoras.

Criada em 1996, a Associação Sons da Lusofonia partiu do saxofonista português Carlos Martins e da sua experiência musical, com o intuito de juntar artistas de diversas origens- em especial, africanos, brasileiros e portugueses – em vários agrupamentos dos quais se destaca a Orquestra Sons da Lusofonia. A Associação procura ainda aliar a intervenção social e a educação global à música, assim como à relação entre comunidades, pessoas e artes,  numa ampla área de intervenção de  Criação de Projetos Culturais, Festivais, Cooperação cultural e técnica, Educação Global através da música, Criação e produção de suportes de comunicação, Investigação em Etnomusicologia e Promoção de espetáculos.

A Associação Sons da Lusofonia tem marcado o seu percurso através de cruzamentos interdisciplinares e pessoas de diferentes geoculturalidades e neste âmbito produz anualmente a Festa do Jazz, a OPA- Oficina Portátil de Artes, a Lisboa Mistura, assim como desenvolveu o Portugal em Jazz, para além de editar discos e livros. Em 2007, realizou ainda para televisão o programa Lisboa Mistura TV, da autoria de Carlos Martins.

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Shegundo Ramón Galarza Arace (Espanha – Guipuzcoa/07.09.1924 – 04.01.2003/Lisboa), maestro e compositor de origem basca, filho único de um comerciante, começou a residir em Lisboa a partir de 1948 e em mais de 50 anos de carreira deixou uma marca de qualidade na música ligeira portuguesa que justificam a sua presença desde a publicação do Edital municipal de 15 de dezembro de 2003 como topónimo no núcleo dedicado à toponímia musical, no arruamento formado pela junção da Rua B com a  Rua 7.1 do Alto do Lumiar, pelo que hoje une a Avenida Álvaro Cunhal  à Rua Ferrer Trindade.

Com a sua orquestra de violinos, Shegundo Galarza esteve presente na televisão portuguesa desde o seu começo e celebrizou o restaurante Mónaco, de que era coproprietário com o empresário galego Manuel Outerelo Costa.

Shegundo Galarza concluiu o conservatório de Bilbau,  ganhou um prémio de piano e aos 18 anos começou a percorrer a Europa em concertos. Chegou a Portugal com 24 anos de idade e a partir de 25 de novembro de 1948 passou a atuar diariamente no Casino Estoril, situação que manteve até maio de 1950. Na década de cinquenta também tocou em diversos restaurantes portugueses, nos de Luanda e da então Lourenço Marques (hoje Maputo), bem como de Joanesburgo (1952 -1954), até se estabelecer  junto à Marginal, no Restaurante Mónaco (de novembro de 1956 a 1974), local que introduziu o jantar dançante em Portugal.

Em paralelo, Shegundo Galarza integrou prestigiadas orquestras ligeiras portuguesas e teve a sua, para além de um conjunto em nome próprio. Por via do maestro José Atalaya, logo em 1956 foi convidado pela RTP a protagonizar um programa semanal, com a sua orquestra de violinos, que atingiu 100 emissões. Ao longo da sua carreira colaborou com a RTP quer em programas de música quer em arranjos musicais de várias longas metragens e de centenas de documentários.

Gravou os seus três primeiros discos para a editora Melodia (1951) com temas de Frederico Valério e seus; mais seis para a editora Decca  (1952 -1954) e assinou a gravação de quatro com a editora Estoril, para além de ter gravado  Fado Rossio para a Fonomat, de Lisboa,  em 1959. Como solista ou com a sua orquestra de violinos, gravou cerca de 50 discos em Portugal e Espanha, para editoras como a Alvorada, BelterEstoril, Marfer, Orfeu, RCA, Roda e Voz do Dono. Em 1996, Shegundo Galarza gravou um disco em que interpretava, ao piano, temas como Lisboa AntigaMadeiraAçoresMoçambique, Aldeia da Roupa Branca e em 2001 editou Sorrisos do Tempo.

Como orquestrador,  Shegundo Galarza trabalhou para o Festival Eurovisão da Canção ou da OTI – tendo dirigido a orquestra da Eurovisão para Playback de Carlos Paião (1981) – e trabalhado com outros inúmeros artistas como AmáliaCândida Branca FlorManuel João Vieira, Frei Hermano da Câmara, Herman José, Jorge Fontes, José Cid, Lara Li, Madalena Iglésias, Marco Paulo, Maria da Fé, Maria de Lurdes Resende, Max, Natália de Andrade, Paulo de Carvalho, Quim Barreiros, TonichaTony de Matos ou Tozé Brito.

Na sua vida pessoal, foi pai da enfermeira Teresa Galarza (1952) e do também músico Ramón Galarza (1957).

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Ferrer Trindade e a Orquestra de Câmara Portuguesa no MURO’19

Ferrer Trindade, compositor da Canção do Mar e maestro da sua Orquestra Ritmo, tal como a Orquestra de Câmara Portuguesa, criada em 2007, são presenças no MURO’19 que nesta 3ª edição liga a Arte Urbana à criação sonora, a espetáculos musicais, à toponímia musical dos Bairros da Música e  da Cruz Vermelha, na freguesia do Lumiar.

Fundada por Pedro Carneiro, Teresa Simas, José Augusto Carneiro e Alexandre Dias em julho de 2007 a Orquestra de Câmara Portuguesa teve a sua estreia na abertura da temporada do CCB- Centro Cultural de Belém, no dia 13 de setembro desse mesmo ano, sendo a OCP a Orquestra em Residência, desde o ano seguinte e uma presença constante nos Dias da Música em Belém.

A OCP já trabalhou com os compositores Emmanuel Nunes, Miguel Azguime e Sofia Gubaidulina, bem como com os maestros Alberto Roque, Luís Carvalho, Pedro Amaral e Pedro Neves,  e ainda  os coros Voces Celestes e Lisboa Cantat. Também acolheu solistas internacionais como António Rosado, Artur Pizarro, Carlos Alves, Cristina Ortiz, Filipe-Pinto Ribeiro, Gary Hoffman, Heinrich Schiff, Jorge Moyano, Sergio Tiempo, Tatiana Samouil ou Thomas Zehetmair. Já se apresentou em Alcobaça, Almada, Batalha, Castelo Branco, Coimbra, Leiria, Paços de Brandão, Portimão, Setúbal, Tomar, Vila Viçosa e Viseu, bem como no Festival Jovem Músicos da Antena 2, Festival ao Largo do Teatro Nacional São Carlos, concertos de Natal nas Igrejas de Lisboa, concertos da DGPC Música nos Mosteiros (2013) e no City of London Festival (em 2010). Desde 2014, a OCP tem ainda colaborado com a Companhia Nacional de Bailado e foi pioneira em modelos de Responsabilidade Social, no âmbito dos quais desenvolveu a Orquestra Portuguesa (JOP), a OCPsolidária e a OCPdois, com diversos patrocinadores e intercâmbios internacionais, sendo o Município de Lisboa um dos seus parceiros institucionais.

O compositor Ferrer Trindade, autor da famosa Canção do Mar, da qual se produziram inúmeras versões, está desde a publicação do Edital municipal de 14 de julho de 2004 homenageado como topónimo na artéria do Lumiar que se estende da Rua José Cardoso Pires à Rua Helena Vaz da Silva, antes identificada como Rua 7.2 entre a Malha 7 e PER 9.

Francisco Ferrer Trindade (Barreiro/09.12.1917 – 13.01.1999/Lisboa), compositor e maestro consagrado, popular por sucessos como Canção do Mar ou Nem às Paredes Confesso, dedicou-se à música ligeira integrando as orquestras de Tavares Belo e Almeida Cruz, dirigindo a Orquestra de Variedades da Emissora Nacional e também formando a sua própria orquestra –  a Orquestra Ritmo – que circulou pelos Casinos de Espinho, Figueira da Foz, Póvoa de Varzim e Casino Estoril, acompanhando importantes artistas nacionais e estrangeiros. Ferrer Trindade também compôs para o Teatro de Revista e nomes como Amália, Artur Garcia, Anita Guerreiro, António Calvário, António Mourão, Beatriz da ConceiçãoCarlos Ramos, Lenita Gentil, Maria da Fé, Maria de Lurdes Resende ou Madalena Iglésias, entre muitos outros, cantaram músicas suas.

Ferrer Trindade formou no Conservatório Nacional de Lisboa como aluno externo ao mesmo tempo que trabalhava. Somou ainda um curso de Composição e Direção de Orquestra da Academia de Santa Cecília em Milão. Começou por tocar na Orquestra de Câmara do Conservatório, clarinete na Banda da Armada e violino na Orquestra Filarmónica de Lisboa. Foi premiado com o 1º Prémio do Festival da Figueira da Foz – com a composição Olhos de Veludo – e um 3º com Sombras da Madrugada, para além do 1º e 2º Prémios do Festival de Luanda. Sendo colaborador da RTP desde a sua inauguração, como maestro, foi o escolhido em 1969 para dirigir a Orquestra da Eurovisão, com a canção A Desfolhada, no Teatro da Ópera de Madrid.

Foi agraciado com a Medalha de Ouro da Emissora Nacional, a Medalha de Mérito Artístico do Governo Civil do Distrito de Setúbal e a Medalha da Cidade de Setúbal e uma sessão comemorativa do seu centenário organizada pela Câmara Municipal do Barreiro.

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Chapitô e Belo Marques no MURO’19

O Chapitô e o compositor Belo Marques, pioneiros na formação de jovens, quer nas artes circenses quer em artistas de música ligeira, vão partilhar o espaço do MURO’19 que nesta edição de 23 a 26 de maio junta à vertente da arte urbana a sonoridade da música inspirada pela toponímia do local, com os artistas do primeiro animando o local do Festival de Arte Urbana e o segundo aí presente na Rua Belo Marques desde a publicação do Edital municipal de 15 de dezembro de 2003.

O Chapitô – Coletividade Cultural e Recreativa de Santa Catarina, é uma casa de cultura e espetáculo sediada na Costa do Castelo, com especial relevância nas Artes Circenses, embora articule quatro áreas: Cultura, Formação, Ação Social e Economia Social. Constituída em 1981, a Coletividade Cultural e Recreativa de Santa Catarina é a entidade de suporte do Chapitô, desde a criação da primeira Escola de Circo – a Escola de Circo Mariano Franco-, ainda no Bairro Alto, através de acordo com a Santa Casa da Misericórdia, em que durante quatro anos realizou trabalhos de animação com jovens e idosos do Bairro ao mesmo tempo que foi o embrião da Escola Profissional de Artes e Ofícios do Espetáculo (EPAOE). Desde 1986, ao abrigo de um protocolo com o Ministério da Justiça, o Chapitô instalou-se na Costa do Castelo, onde a partir do ano letivo de 1987/1988 arrancou o  inovador Curso de Expressão Circense que formou a primeira geração de jovens artistas de cariz circense para o mercado de trabalho.

O compositor Belo Marques, muito recordado pela canção Alcobaçacom letra de Silva Tavares, criação de Cidália Meireles e interpretação de Maria de Lourdes Resende -, desde a publicação do Edital municipal de 15 de dezembro de 2003 que é o topónimo da Rua C da Malha 3 do Alto do Lumiar, artéria que hoje liga a Rua General Vasco Gonçalves à Avenida Carlos Paredes, e assim integra o Bairro da Música criado no local pela edilidade lisboeta desde então.

De seu nome completo José Ramos Belo Costa Marques du Boutac (Leiria/25.01.1898 – 27.03.1987/Sobral de Monte Agraço), distinguiu-se como compositor, orquestrador e figura relevante da Emissora Nacional, onde criou o Centro de Preparação de Artistas. Escreveu mais de 700 canções onde enalteceu cenários portugueses como o Vale do Vouga, o Alcoa, Leiria ou Alcobaça. Também dedicou a Lisboa  inúmeros temas como Campanários de Lisboa, Miradouros de Lisboa, Lisboa Nova ou O Gaiato de Lisboa.

Como violoncelista, teve a sua primeira contratação aos 16 anos, para o Casino Mondego (na Figueira da Foz) e quatro anos depois, tornou-se músico profissional e foi tocar em paquetes que se dirigiam à América do Sul, percorrendo vários países da Europa e da América, até regressar em 1924 para cumprir o serviço militar. Dois anos mais tarde fundou e dirigiu o Orfeão Scalabitano e três anos depois foi para os Açores e Madeira tendo dirigido no Funchal uma orquestra privativa de 35 elementos. Em seguida, integrou as orquestras de Pedro Blanch e David de Sousa, tal como a do Casino Estoril (1932 a 1935).

A partir de 1935 entrou na Emissora Nacional, na Rua do Quelhas. Até 1938 foi violoncelista da Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, dirigida por Pedro de Freitas Branco. Nesta Rádio criou a Orquestra Típica Portuguesa, a Orquestra de Salão e os Quarteto e Sexteto de Música Clássica. Partiu em 1938, para ser o Diretor do Rádio Clube de Moçambique, onde fundou um Coro Feminino e as Orquestras Típica e de Salão. Nos anos em que lá permaneceu também foi pesquisando e fazendo uma recolha de Folclore indígena da região de Tonga e Machangane, que divulgará em 1953 na sua obra Música Negra e da qual já em 1943 publicara Estudos do Folclore Tonga, editado pela Agência Geral das Colónias, bem como compusera a fantasia sinfónica para coro e orquestra, em seis andamentos, Fantasia Negra, estreada em 19 de outubro de 1944 no Teatro São Carlos, executada pela Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional. Com elementos da Orquestra Típica Portuguesa da Emissora também  fundou a sua própria orquestra que até 1960 teria trabalho constante e inúmeras gravações.

Regressou à Rua do Quelhas em 1941, empenhado em dedicar-se à canção ligeira. Criou  a Orquestra de Variedades, ao mesmo tempo que dirigiu  a Orquestra de Salão em parceria com René Bohet (entre 1942 e 1945) e depois como titular (1948 a 1954), assim como o Coro Feminino da Emissora. Foi também Belo Marques que criou na Emissora Nacional o Centro de Preparação de Artistas, para o lançamento de novas estrelas da rádio, de que foram exemplo Francisco José, Júlia Barroso, Madalena Iglésias, Simone de Oliveira ou Tony de Matos. Em 1956 também ajudou a criar a Orquestra Típica e Coral de Alcobaça. No ano de 1958, desempenhava o papel de consultor de programas na Emissora Nacional mas foi despedido por ter apoiado a candidatura do General Humberto Delgado.

Belo Marques compôs ainda marchas populares e trabalhou para teatro de revista, bem como para o cinema, áreas em que assinou cerca de 70 canções, onde se destaca a canção Minha aldeia, em parceria com Silva Tavares para a revista Rosmaninho, a banda sonora do filme Rosa do Adro (1938) de Chianca de Garcia e a popular Desgarrada da versão radiofónica de As Pupilas do Senhor Reitor de Júlio Dinis.

Foi  regente honoris causa da Escola de Música do Conservatório Nacional; 1º prémio do Festival Internacional Latino (1938); 2º prémio do Concurso Internacional da Canção Latina (1955), assim como homenageado por Raúl Solnado, Carlos Cruz e Fialho Gouveia no 1º programa de E o Resto São Cantigas (1981).

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Rua Maia Ataíde

Em 1994, o Engº Maia Ataíde (ao centro) a apresentar a sua comunicação às 1ªs Jornadas de Toponímia de Lisboa

 

Rua Maia Ataíde, topónimo atribuído por Edital de 30 de Janeiro de 2009 a um arruamento da freguesia de Benfica

Manuel José Maia Ataíde (1910-2003), engenheiro e olisipógrafo. Pertenceu ao Grupo Amigos de Lisboa, à Associação Portuguesa de Historiadores de Arte, à Associação Portuguesa de Museus e foi académico correspondente da Academia Nacional de Belas Artes. Estudou na escola dos CTT, onde seu pai era inspector e colaborador no Museu daquele organismo, e aí começou a trabalhar. Prosseguiu os estudos superiores no Instituto Superior Técnico, onde se licenciou em Engenharia Electrotécnica, trabalhando nos CTT e reformando-se em 1980, já como director das telecomunicações.

A partir dos anos 50 do século XX determinou aprofundar o seu interesse pela arte e a arquitectura da cidade, pelo que assistiu às aulas de Mário Tavares Chicó, na Faculdade de Letras de Lisboa. Com este professor viria a colaborar na organização de algumas exposições, nomeadamente no Brasil, na exposição Aspectos da Arquitectura Portuguesa de 1550 a 1950, e a aprofundar os estudos sobre os períodos maneirista e barroco. A partir deste primeiro contacto com o Brasil, desenvolveu estudos sobre as características do barroco português espalhadas pelo mundo de língua portuguesa.

Colaborou no Boletim Cultural da Junta Distrital de Lisboa, na Revista Municipal, no Olisipo: Boletim do Grupo Amigos de Lisboa. Durante a década de 60 do século XX, colaborou com a Câmara Municipal de Lisboa nas suas iniciativas de divulgação turística da cidade sendo o autor e coordenador de uma colecção de pequenos desdobráveis sobre alguns dos estilos arquitectónicos presentes na cidade, e de um dos livros da colecção Arte e Turismo, intitulado Monumentos de Lisboa, com edição em inglês, francês e alemão e que tiveram grande divulgação e êxito. Foi co-autor, juntamente com Ester de Lemos, de outro título desta colecção Arredores de Lisboa (1963).

Participou no grande inventário de património que a Junta Distrital de Lisboa promoveu desde os anos 60, tendo colaborado nos dois primeiros tomos da cidade de Lisboa e coordenando os restantes tomos, por eleição da equipa. Nesta obra, Monumentos e Edifícios Notáveis do Distrito de Lisboa, que pretendia fazer o levantamento e a história do património edificado no distrito, e que se veio a tornar numa obra de referência, assinou dezenas de entradas relativas a edifícios lisboetas. Na opinião de Irisalva Moita devem-se destacar, entre eles, os dedicados à Igreja e Convento de Benfica, à Igreja e Convento de Nossa Senhora da Graça, o da Igreja de Nossa Senhora da Pena, por exemplo. Em 1988, Maia Ataíde elabora o livro catálogo da exposição levada a cabo no Panteão Nacional João Antunes, arquitecto (1643-1712), que Vítor Serrão considera “ainda hoje a primeira referência obrigatória sobre o arquitecto de Santa Engrácia”. Em 1990, colabora com o Museu da Cidade (hoje Museu de Lisboa), na exposição e respectivo catálogo D. João V e o abastecimento de água a Lisboa, trazendo o seu contributo de engenheiro, aliado ao olhar do historiador de arte, num estudo pioneiro sobre a construção do Arco das Águas Livres.

Integrou o Grupo Amigos de Lisboa desde 1969, e veio a ser seu Vice-Presidente e Presidente da Junta Directiva. Representou o Grupo na Comissão Municipal de Toponímia, e participou nas I Jornadas de Toponímia organizadas pela Câmara Municipal de Lisboa, em 1994 com a comunicação Engenheiros e Arquitectos na Toponímia de Lisboa.

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Rua Amigos de Lisboa

Rua Amigos de Lisboa, topónimo atribuído por Edital de 20 de Março de 1995 a um arruamento da freguesia de Marvila

Grupo Amigos de Lisboa, instituição cultural sem fins lucrativos e considerada de utilidade pública. A ideia da criação de um organismo que reunisse cidadãos para a defesa do património lisboeta, foi vagamente apresentada na imprensa dos anos 20 do século passado, mas sem produzir resultados. Em 1935, por mão de Norberto Araújo em artigos no Diário de Lisboa, a ideia começou a tomar forma entre vários dos olisipógrafos mais conhecidos. Assim, em Fevereiro de 1936 é criada a Comissão Organizadora e em Abril desse mesmo ano reúne-se a primeira assembleia geral para apresentação e aprovação dos estatutos. Nessa assembleia, Augusto Vieira da Silva é eleito presidente da Junta Directiva e Luís Pastor de Macedo secretário-geral. Os estatutos são aprovados pelo Governo Civil de Lisboa, a 22 de Julho de 1936. Do grupo de sócios fundadores, para além dos já referidos, saliente-se ainda Alberto Mac-Bride, Álvaro Maia, Eduardo Neves, Eugénio Mac-Bride, Gustavo de Matos Sequeira, João Pinto de Carvalho (Tinop), José M. S. Pereira Coelho, Leitão de Barros, Levy Marques da Costa, Mário de Sampaio Ribeiro, Norberto de Araújo, Rocha Martins e Almada Negreiros autor do emblema do Grupo. O Grupo rege-se pela defesa “do património artístico, monumental e documental olisiponense”, pela contribuição “para o estudo e solução dos problemas do urbanismo e expansão de Lisboa” e pela colaboração dando o “seu parecer, quando solicitado, a instituições oficiais e particulares que se ocupem da administração, da defesa e do progresso da cidade” (Artº 3 dos Estatutos). As suas actividades desde o início, vieram demonstrar a intenção de cumprir os objectivos. Em 1938 o GAL apresenta à Câmara Municipal e publica A urbanização de Lisboa sugerindo a criação de um Plano Geral de Melhoramentos da cidade chamando a atenção para o rápido desenvolvimento da urbe e a consequente necessidade de um novo plano pensado para os seguintes 50 anos. Nesse mesmo ano, o Grupo dá início à publicação do Boletim Olisipo, que se mantém até à actualidade, e cuja primeira série se encontra disponível para consulta na Hemeroteca Digital. Desde o começo da sua actividade que os Amigos de Lisboa estabeleceram um programa de conferências e visitas que tiveram grande adesão da população, muito particularmente as visitas a monumentos, museus, instituições e percursos de rua, numa época em que eram então novidade. Outra das inovações foram as conferências ao ar livre, as quais, para além dos sócios, atraíam numerosos cidadãos. Em 1948, o Grupo promoveu o inquérito sobre A Cor de Lisboa a diversos artistas e escritores a fim de debater a coloração dos prédios da cidade e que se viria a tornar num dos primeiros estudos cromáticos sobre a cidade. Em 2012, voltou o Grupo ao assunto, organizando um colóquio nos Paços do Concelho intitulado As Cores de Lisboa.

Para além destas actividades, o GAL esteve presente com um pavilhão na antiga Feira Popular, e na Feira do Livro, divulgando as suas publicações. De facto até aos anos 90 do século XX o Grupo Amigos de Lisboa editou centenas de títulos, para além do Boletim, a maior parte dos quais da autoria de sócios. Igualmente o Grupo tem vindo a advogar e a promover a colocação de lápides evocativas em edifícios da cidade prestando homenagem a diversas personalidades e instituições.

Nos nossos dias, o Grupo mantém uma actividade intensa, organizando conferências, visitas, e passeios de rua aos Sábados, e um grande colóquio anual reunindo especialistas em diversos temas para debate público, e editando as respectivas Actas. Os colóquios têm vindo a ser organizados quer por iniciativa do Grupo, quer em parceria com outras instituições como a autarquia, a Fundação das Casa de Fronteira e Alorna, e a Sociedade de Geografia de Lisboa, entre outras. Todas as actividades, excluindo as que decorrem da organização associativa (assembleias gerais e eleições, por exemplo), são publicitadas e abertas ao público em geral. É o organizador do Concurso das Quadras Populares de Santo António, em parceria com a autarquia, o qual tem grande receptividade da parte do público (em 2018 foram recebidas cerca de 500 quadras). É membro da Comissão Municipal de Toponímia.

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A Rua Possidónio da Silva na Fonte Santa

Em 1965
(Foto: Artur João Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

Joaquim Possidónio Narciso da Silva, arquiteto e arqueólogo de quem o  olisipógrafo Júlio de Castilho foi biógrafo, ficou na memória das placas toponímicas de Lisboa desde o final do séc. XIX, logo no ano seguinte à sua morte (1897), na Rua da Fonte Santa, artéria onde em  1 julho de 1863 fundara o Albergue dos Inválidos do Trabalho e no mesmo ano em que com outros também fundara a Real Associação dos Arquitectos Civis e Arqueólogos Portugueses.

Foi por via da deliberação camarária de 6 de maio de 1897 e consequente Edital municipal de 17 de maio a Rua Possidónio da Silva nasceu no ano seguinte ao falecimento do homenageado, substituindo o topónimo Rua da Fonte Santa, por neste arruamento estar sediada a instituição que fundara seis anos antes para acolher operários idosos ou inválidos, o Albergue dos Inválidos do Trabalho que em 1978 foi incorporado na associação Inválidos do Comércio.

Boletim da Associação Portuguesa de Arqueólogos, nº 2 de 1913

Joaquim Possidónio Narciso da Silva  (Lisboa/07.05.1806 –  23.03.1896/Lisboa) distinguiu-se ao longo da sua vida como um defensor da preservação do património cultural português, quer através dos artigos que publicava nos jornais quer como precursor do ensino e da investigação arqueológica na salvaguarda e valorização do património histórico-artístico e monumental português. Aliás, Possidónio da Silva foi pioneiro em Portugal na utilização da fotografia como forma de defesa do património. A partir de 1861 editou a Revista Pittoresca e Descriptiva de Portugal, que incluiu fotografias de 26 elementos do património arquitétónico português.

Tendo participado em escavações, desde 1850 que se interessara pelos monumentos megalíticos em Portugal e escavou duas antas em Tomar. Depois, em 1858, D. Pedro V encarregou-o de fazer o primeiro levantamento dos monumentos nacionais. Em 1863 fundou a Real Associação dos Arquitectos Civis e Arqueólogos Portugueses, a que também presidiu até 1866 e novamente de 1871 até ao seu falecimento. É desta associação que vai nascer em 1866 um museu arqueológico, instalado nas ruínas do Convento do Carmo. Possidónio da Silva deu um curso gratuito de Arqueologia na sede da Associação e em 1878 publicou Noções Elementares de Archeologia, uma síntese dos métodos de escavação estratigráfica e setorial. Recorde-se que foi desta associação, da secção de Arqueologia Olissiponense, que nasceu o Museu da Cidade de Lisboa, instalado pela primeira vez na sede associativa em 1922.

Filho de Reinaldo José da Silva e de Maria Luísa Narcisa da Silva, Possidónio passou a sua juventude no Rio de Janeiro, para onde  partira bebé com a família por causa da invasão napoleónica de 1807, já que o seu pai era Mestre Geral dos Paços Reais. Regressou em 1821 e estudou com Domingos Sequeira, Maurício Sendim e Germano de Magalhães, seguindo aos dezoitos anos para Paris para estudar Arquitetura e cinco anos mais tarde, para Roma. Em 1831 regressou a Paris e trabalhou no Palais Royal e no Palácio das Tulherias. Dois anos depois regressou a Portugal e publicou O que foi e é a architectura, e o que aprendem os architectos fora de Portugal. A seguir, tornou-se o arquiteto da Casa Real, tendo adaptado o Palácio de São Bento para Parlamento (1833-1834) pelo que foi condecorado com o Colar da Torre e Espada. Foi também autor dos projetos não concretizados  do Palácio da Ajuda (1834) e de uns balneários públicos no Passeio Público (1835). Traçou também a remodelação do Palácio das Necessidades (1844-1846), do Palácio do Alfeite (antes de 1857), bem como do Teatro de São Carlos e do Palácio do Manteigueiro – na esquina da Rua da Horta Seca com a Rua da Emenda-, tendo ainda delineado muitos estabelecimentos comerciais da Baixa lisboeta dessa época e ainda, um bairro novo na quinta do Calvário.

Em 1882, o escultor francês Anatole Vasselot fez um busto de bronze de Possidónio da Silva mas este nunca permitiu a divulgação da sua imagem em nenhum meio até à sua morte e assim, este busto apenas foi  inaugurado em 5 de julho de 1968, colocado sobre um pedestal de pedra na Praceta da Rua Possidónio da Silva. Em 1916, passou também a ser o topónimo de uma Travessa próxima da Rua Possidónio da Silva e o seu nome faz também parte da toponímia dos concelhos de Mem Martins e do Seixal (em Fernão Ferro). Júlio de Castilho coligiu e organizou cronologicamente a  Correspondência artística e científica, nacional e estrangeira com J. Possidónio da Silva, documentação que encadernou e legou à Torre do Tombo em 8 de julho de 1915. O filho de Possidónio, Ernesto da Silva (1868 – 1913) também é topónimo de uma Rua e de um Largo lisboetas, na freguesia de Benfica.

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Freguesias da Estrela e de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Rua Luís Pastor de Macedo

Luís Pastor de Macedo em 1940, discursando nas comemorações do centenário do nascimento de Júlio de Castilho
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua Luís Pastor de Macedo, topónimo atribuído a um arruamento da freguesia do Lumiar por Edital de 1 de Fevereiro de 1972

Luís Pastor de Macedo (1901- 1971), comerciante, autarca, deputado e olisipógrafo. Começou a sua vida profissional no estabelecimento comercial da família, A Casa dos Panos, estabelecimento da Rua dos Fanqueiros que fechou portas já no início do século XXI. Publicou a sua primeira obra olisipográfica O Terramoto de 1755 na freguesia da Madalena em 1929 a que se seguiram algumas dezenas de títulos, alguns dos quais sobre as freguesias da Baixa e da sua envolvente. Colaborou com vários outros autores, nomeadamente com Augusto Vieira da Silva, Gustavo de Matos Sequeira, Norberto de Araújo, Rodrigues Cavalheiro. Colaborou ainda no Diário de Lisboa, n’O Século, na Revista Municipal, nos Anais das Bibliotecas, Arquivo e Museus Municipais, ambos da Câmara Municipal de Lisboa e no Boletim Cultural da Junta Distrital de Lisboa.

A par da sua actividade de comerciante e de olisipógrafo, Luís Pastor de Macedo integrou como vogal a Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Lisboa, entre 1933 e 1935, voltando à autarquia em 1947, como vice-presidente, cargo que manteve até 1959. Na sua actuação enquanto autarca, destaca-se em 1933 a aprovação da sua proposta de criação dos Serviços Culturais, apresentada em Sessão de 11 de Maio. Nos dois períodos em que esteve na Câmara dedicou particular atenção às questões culturais, à realização das festas da cidade e à organização de várias exposições de carácter olisiponense. Foi ainda de sua iniciativa o impulso dado às publicações da autarquia a qual viria a ser a editora de alguns dos seus títulos, bem como de outros olisipógrafos.

A sua dedicação ao conhecimento da Cidade levou-o a ser um dos fundadores do Grupo Amigos de Lisboa, constituído em 1936, e onde desempenhou o cargo de secretário-geral do Grupo, participou activamente nos trabalhos das várias secções que o Grupo então tinha, propôs e promoveu diversas iniciativas para a defesa do património da Cidade e para o conhecimento da sua história e foi um colaborador assíduo da revista Olisipo. Mas a obra pela qual é mais conhecido do grande público é a que se ocupa do estudo da Toponímia de Lisboa – Lisboa de lés-a-lés. Subsídios para o estudo das vias públicas da cidade, publicada pela primeira vez entre 1940 e 1943, e reeditada nos anos sessenta e oitenta do século XX. Organizado em cinco volumes e ordenado alfabeticamente, Lisboa de lés-a-lés procura dar a conhecer a origem de topónimos lisboetas, no seguimento da publicação da obra de Gomes de Brito Ruas de Lisboa.

“Foi da sua leitura, da verificação de que mais alguma coisa haveria a dizer de parte das artérias ali tratadas (…) que nasceu a ideia de a ampliar e aperfeiçoar tanto quanto possível”, nas palavras de Macedo.

O tipo de informação recolhida para os arruamentos varia em quantidade, mas também em qualidade: explicação para o nome, antigo traçado do arruamento, transcrições de outras obras relacionadas com o assunto, referências a moradores e ao comércio local, a ofícios e profissões arruados nesse arruamento, etc. Enfim, todo um conjunto variado de informações úteis a quem se interessa por conhecer a vida da/na cidade, complementando e aprofundando a obra de Brito, ao mesmo tempo que introduz novos topónimos e novas explicações.

Porém, mais ricos do que o livro Lisboa de lés-a-lés são os ficheiros contendo os verbetes que Pastor de Macedo reuniu ao longo da sua vida em número superior a 100 000, que Rodrigues Cavalheiro descreve como “ficheiro portentosamente especializado que, durante meio século, foi pacientemente recolhido, em leituras exaustivas e em investigações pertinazes”, e que se encontra disponível para consulta no Gabinete de Estudos Olisiponenses.

Já perto do fim da vida, em data que desconhecemos, Pastor de Macedo entregou a Ferreira de Andrade os seus ficheiros para que este autor pudesse dar à estampa o projectado Dicionário de Lisboa. Em Agosto de 1970 saía a público o primeiro fascículo do intitulado Grande Dicionário de Lisboa da autoria de Ferreira de Andrade, com prefácio de Rodrigues Cavalheiro e ilustrações de José de Lemos (Lisboa: Olisipo – Ed. De Pub. Turísticas, 1970), que se encontra na Biblioteca Nacional, com 32 páginas a 2 colunas, o qual não passou do termo Académica.

Mas Ferreira de Andrade viria a falecer em Outubro de 1970 e na sequência desta morte, Luís Pastor de Macedo legou à Câmara Municipal de Lisboa os referidos ficheiros. Em sessão de 17 e 28 de Dezembro de 1970, a Câmara deliberou aceitar em legado a ”grande colecção de verbetes elaborados e organizados por aquele olisipógrafo, que representa o produto de trinta anos de trabalho.”, legado que seria destinado ao Gabinete de Estudos Olisiponenses “por constituir um precioso elemento de consulta para os investigadores e estudiosos.”

© CML | DPC | Gabinete de Estudos Olisiponenses | 2019

A Rua do comerciante e vereador lisboeta Sebastião Saraiva Lima

Freguesia da Penha de França
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Vinte e quatro anos após o falecimento de Sebastião Saraiva Lima, republicano com um importante papel no associativismo dos comerciantes lisboetas, ficou este perpetuado na Rua particular municipalizada a Manuel Joaquim Saraiva no Bairro do Poço dos Mouros junto com o seu prolongamento no Bairro municipalizado a Joaquim Rodrigues Gadanho «até ao seu terço», graças à deliberação da Comissão Executiva da CML de 31 de outubro de 1917, a partir da proposta do vereador Abílio Trovisqueira que justificou a atribuição do topónimo «como prova de gratidão pelos serviços prestados por este ilustre republicano», de que publicou o consequente Edital municipal, de 12 de novembro de 1917, que lhe fixou a legenda «Propagandista dos Princípios Associativos/1857 – 1893».

Na sessão de câmara de 1 de novembro de 1917, o Vereador Feliciano de Sousa aplaudiu a resolução da Comissão Executiva « que com Leão de Oliveira, Magalhães Lima e outros vultos do partido republicano fizeram, em tempos idos, parte da minoria republicana na Camara Municipal de Lisboa. Enaltece depois os serviços prestados á Republica e á cidade por aquele prestante cidadão que a morte arrebatara do convivio dos que muito lhe queriam.»

Freguesia da Penha de França – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Sebastião Correia Saraiva Lima (Águeda-Mourisca do Vouga/28.12.1857 – 11.06.1893/Lisboa), falecido aos 36 anos, era um comerciante republicano que foi Presidente da Associação de Lojistas de Lisboa em 1888, para além de outros cargos dirigentes que nessa mesma associação exerceu em outros anos. A Associação Comercial de Lojistas de Lisboa fora fundada em 1 de janeiro de 1870, na Rua do Norte nº 145 – 1º e vinte anos depois, quando estava sediada no Palácio Bessone na Rua do Ferragial de Cima, em 1890, Saraiva Lima foi um dos principais impulsionadores do boicote aos produtos britânicos com que o comércio de Lisboa participou no movimento nacional de protesto contra o Ultimato Inglês. Já o Diário Ilustrado de 31 de dezembro de 1897 noticiou a sessão solene de inauguração do seu retrato na Associação de Lojistas de Lisboa, no decorrer da qual uma carta de Manuel Gomes Duarte sugeriu que se pedisse à CML a atribuição do seu nome ao Largo da Abegoaria (é o Largo Rafael Bordalo Pinheiro desde 11 de fevereiro de 1915).

Sebastião Saraiva Lima também assumiu, por duas vezes, as funções de vereador na Câmara Municipal de Lisboa. A primeira foi em 1890, graças aos votos do Partido Republicano Português no qual militava e também aos votos de inúmeros comerciantes que o admiravam e assim ficou na companhia dos vereadores republicanos Teófilo Braga e Elias Garcia. Esta vereação terminou dissolvida mas após várias Comissões Administrativas, Sebastião Saraiva Lima foi novamente eleito para os anos de 1892 e 1893, junto com Leão de Oliveira, outro republicano.

O seu nome está também presente na toponímia do seu concelho natal: em Águeda, na Trofa.

Freguesia da Penha de França
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Travessa da Aliança encostada à Rua da Aliança Operária

Freguesia da Ajuda
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Travessa da Aliança é um topónimo nascido da sua proximidade à Rua da Aliança Operária e a pedido da Junta de Paróquia da Ajuda, através do Edital municipal de 17 de novembro de 1917.

De acordo com a Ata da reunião da Comissão Executiva da CML de 15 de novembro de 1917 sabemos que a Junta de Paróquia da Ajuda, por via do seu ofício nº 208, de 4 de setembro de 1917,  sugeriu «que parte da rua do Mirador e uma parte da rua do Machado, vulgarmente conhecida pelo Alto das Pulgas, passe a denominar-se Escadinhas do Mirador e à Travessa de Sant’Ana, Travessa Aliança.» E assim a Câmara deliberou que a Travessa de Sant’Ana ou Travessa de Santana passasse a ser a Travessa da Aliança, de que se lavrou o Edital municipal de 17 de novembro de 1917 e assim ficou esta Travessa a ligar a Rua da Aliança Operária à Rua do Mirador.

Refira-se que já em 1915, por Edital de 14 de outubro, a Rua de Sant’Ana ou Rua de Santana se passara a denominar Rua Aliança Operária, para homenagear esta associação de defesa dos operários. Dois anos depois, a mesma lógica foi aplicada às Travessas de topónimos homónimos. Por outro lado,  uma das características da toponímia dada em Lisboa durante a I República foi justamente a substituição dos topónimos religiosos (hagiotopónimos) por outros de valores ou figuras republicanas.

A Associação de Socorros Mútuos e Instrução Aliança Operária, mais conhecida pelo nome resumido de Aliança Operária, foi fundada em 1880, para apoiar os trabalhadores nela filiados. Esta foi uma das muitas associações de trabalhadores nascidas em Portugal no séc. XIX e sediadas na cidade de Lisboa, após o impulso das doutrinas socialistas na Europa a partir de 1848, como a Associação Operária (1849), a Associação Tipográfica Lisbonense (1852), o Centro Promotor das Classes Laboriosas de Lisboa (1853), a Associação Fraternidade Operária (1872), a Associação dos Trabalhadores da Região Portuguesa (1874), a Caixa Económica Operária (1876), a Sociedade de Instrução e Beneficência A Voz do Operário (1879) ou a Fraternidade Operária Ajudense (1911).

A Aliança Operária está também presente como topónimo dos concelhos de Loures (Bobadela), Montijo e Vila Franca de Xira.

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)