Rua Irisalva Moita

Rua Irisalva Moita, topónimo atribuído a um arruamento da freguesia do Lumiar por Edital de 17 de Março de 2017

Irisalva Constância da Nóbrega Neves Moita (1924-2009), olisipógrafa, arqueóloga, funcionária da Câmara Municipal de Lisboa. Licenciada em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, dedicou-se à Arqueologia, e à Museologia. Começou a sua actividade profissional como bolseira do Instituto de Alta Cultura (de 1951 a 1974), onde procedeu a trabalhos arqueológicos e históricos pioneiros sobre a cultura dolménica e, posteriormente, em 1959, sobre a cultura castreja, em território nacional, tendo em vista o levantamento das respectivas cartas arqueológicas. Em simultâneo frequenta o estágio para Conservadores Adjuntos de Museus, Palácios e Monumentos Nacionais, que conclui em 1955 defendendo a dissertação a “Ante-projecto para a Secção de Arqueologia do futuro Museu Etnológico do Dr. Leite de Vasconcelos”. Em 1954, ocupou brevemente o lugar de Conservadora dos Museus Municipais da Câmara Municipal de Lisboa, ao qual regressa em 1958 e onde permanecerá até à sua reforma em 1994, tendo passado em 1971, ao cargo de Conservadora Chefe. Foi membro de várias instituições culturais, entre as quais, da Associação Portuguesa de Museologia, do Centro Nacional de Cultura, da Academia Nacional de Belas Artes e do Grupo Amigos de Lisboa, do qual foi vice-presidente em 1990. Colaborou na obra Monumentos e edifícios notáveis do distrito de Lisboa, editada pela Junta Distrital de Lisboa, com dezenas de entradas e, entre outros, na Revista Municipal; em Olisipo: Boletim do Grupo Amigos de Lisboa, Revista de Portugal, Revista Ocidente, e Arqueólogo Português.

O seu grande contributo para um aprofundado conhecimento de Lisboa está ligado ao carácter inovador das suas escavações em solo urbano. Em 1959 conduz uma prospecção de terreno e sondagens arqueológicas, em Vila Pouca, na Serra de Monsanto, concluindo que se tratava de um povoado neolítico. No ano seguinte com o início dos trabalhos para a abertura da estação de Metro no Rossio, Irisalva Moita é nomeada responsável pela recolha e identificação dos vestígios do Hospital Real de Todos-os-Santos, naquela que é considerada a sua primeira grande intervenção em solo urbano. Em 1961, o mesmo ocorre na Praça da Figueira, sendo Irisalva a responsável pelo trabalho no cemitério luso-romano posto a descoberto. É ainda por insistência sua que a autarquia decide suspender os trabalhos em 1962, permitindo que uma outra equipa tivesse tempo para aprofundar a investigação arqueológica. Anos mais tarde, entre 1965 e 1967, Irisalva Moita voltaria a terreno urbano, para dar continuidade às escavações do Teatro Romano, na Rua de S. Mamede. Na impossibilidade de poder proceder à conclusão da escavação (uma vez que as ruínas se estendiam sob propriedades privadas que o município não conseguiu adquirir) Irisalva Moita protegeu a área escavada deixando-a preservada de modo a que mais tarde se pudesse a ela retornar. O que de facto aconteceu a partir do início do século XXI. Esta é aliás uma das suas mais conhecidas facetas: a constante devoção à defesa da preservação do património histórica de Lisboa quer como cidadã, quer como membro de diversas Comissões, entre as quais a Municipal de Arte e Arqueologia, a de Preservação do Património Arquitectónico, Artístico e Urbanístico, a de Defesa do Património Cultural e Ambiental ou a de Estética Citadina.

Para além da Arqueologia, Irisalva Moita desenvolveu uma notável actividade como museóloga, sendo da sua autoria o programa para o Museu da Cidade (actual Museu de Lisboa) no Palácio Pimenta, adquirido pela Câmara em 1962 mas que só abriria ao público em 1979. Já em 1958 apresentara um plano para o Museu Etnológico Dr. Leite de Vasconcelos, e em 1970, numa conferência no Museu de Arte Antiga, apresenta Fundamentos dum museu de Lisboa, defendendo ao longo da vida a criação e reestruturação de museus regionais e locais. Representou os museus na dependência das autarquias no grupo Museus da UNESCO, foi vogal da Comissão Organizadora do Instituto de Salvaguarda do Património Cultural e Natural, e representante dos Museus Municipais no Conselho Consultivo do Instituto Português do Património Cultural. Enquanto dirigiu os Museus Municipais de Lisboa, planeou, organizou e coordenou dezenas de exposições e os respectivos catálogos dos quais devemos salientar O Povo de Lisboa (1979), Lisboa e o Marquês de Pombal (1982), Lisboa Quinhentista. A imagem e a vida na cidade (1983) e D. João V e o Abastecimento de Água a Lisboa (1990). Em 1994, coordenou a edição de O livro de Lisboa para o qual redige dois capítulos (“Das origens pré-históricas ao domínio romano” e “Lisboa no século XVI”), o qual viria a ser a sua última grande obra, mas que veio colmatar uma enorme lacuna na bibliografia olisiponense, até então ainda muito dependente dos primeiros olisipógrafos. Ao reunir num único volume, a colaboração de diversos especialistas, e alternando textos gerais com textos que apresentam casos específicos para cada época, mais uma vez Irisalva Moita deu o seu pioneiro contributo para a renovação dos Estudos Olisiponenses.

© CML | DPC | Gabinete de Estudos Olisiponenses | 2019

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A Rua Helena Vaz da Silva, do Centro Nacional de Cultura e do Instituto Português de Cinema

Freguesia do Lumiar
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Helena Vaz da Silva que se distinguiu sobretudo como dinamizadora cultural e que foi vice-presidente do organismo de apoio à criação cinematográfica, o Instituto Português de Cinema, em 1980, década de ouro do cinema português, dá o seu nome a um arruamento do Lumiar desde o ano seguinte à sua morte.

Pelo Edital de 20 de novembro de 2003 a Rua E da Malha 15, 7 e 3 do Alto do Lumiar passou a ter o topónimo Rua Helena Vaz da Silva, partindo da confluência da Avenida Álvaro Cunhal, Rua Arnaldo Ferreira, Rua General Vasco Gonçalves e Avenida Eugénio de Andrade para chegar à Avenida David Mourão-Ferreira.

Helena Maria da Costa de Sousa Macedo Gentil (Lisboa/03.07.1939 – 12.08.2002/Lisboa) estudou em colégios católicos e quando terminou o ensino secundário ficou a ensinar Moral e Francês no Colégio das Oblatas, tendo também aos 17 anos conseguido o seu primeiro emprego como correspondente de línguas na Agência de Publicidade Manuel Martins da Hora, onde outrora trabalhou Fernando Pessoa.

Em 1959, casou  com Alberto Vaz da Silva, de quem teve quatro filhos (Francisco, Salvador, Tomás e Helena) e esta decisão pessoal vai marcar a sua carreira futura. O seu círculo de amigos próximos passou a incluir Alçada Baptista, Nuno Bragança, João Bénard da Costa, Pedro Tamen, bem como José Escada, Luís Sousa Costa e Mateus Cardoso Peres. Chegaram a idealizar em 1961 um plano comunitário –  O Pacto – em que 5 casais orientados pelo Padre Manuel Antunes viveriam em comunidade numa quinta com 5 casas e uma cooperativa de ensino, o que nunca se concretizou, mas fizeram nascer em 1963 uma revista, O Tempo e Modo, uma revista católica de oposição ao regime salazarista, dirigida por Alçada Baptista, editada por Pedro Tamen, com chefia de redação de João Bénard da Costa e tendo como principais redatores Nuno Bragança e Alberto Vaz da Silva.

Em 1965, Helena Vaz da Silva assumiu a responsabilidade da edição portuguesa da revista Concilium, para difundir o espírito de Vaticano II, a partir da qual também se organizaram debates e seminários. E três anos depois, em 1968, foi para Paris fazer a sua formação de jornalista. Regressou a Portugal em 1972, para retomar o trabalho na O Tempo e o Modo, onde organizou dois números especiais, um sobre Deus e outro sobre o casamento, tendo este último sido apreendido pela Censura após a publicação. Ainda em 1972 dirigiu a empresa turística algarvia da Quinta da Balaia. Em 1973 entra para o  semanário Expresso, onde até 1976 assumiu a coordenação da «Revista», para além do trabalho de reportagens, crónicas e entrevistas. Depois foi trabalhar para a Direção de Programas Sociais e Políticos da RTP, a que regressou em 1993, para o Conselho de Opinião da RTP. Esteve na Agência ANOP (1977), onde trabalhou como grande repórter e chefe da secção de cultura e educação, para além de se ter associado à revista Raiz e Utopia, fundada em 1977 por António José Saraiva, passando em 1978 a ser a proprietária e diretora da mesma.

Em 1979, iniciou a sua carreira no Centro Nacional de Cultura, onde permaneceu até à sua morte, sendo muito recordada pelos lisboetas pela criação dos Passeios de Domingo, no decorrer da sua Presidência, que foram pioneiros na introdução em Portugal dos itinerários culturais. Em 1980 foi nomeada Vice-Presidente do  Instituto Português de Cinema.

Helena Vaz da Silva foi ainda tradutora, nomeadamente de Yourcenar e deixou obra publicada como Júlio Pomar com Helena Vaz da Silva (1979), Portugal – o último descobrimento (1987), três volumes de Qual Europa (de 1996 a 1999) e Incitações para o Milénio (2001). Colaborou para mais jornais e também fez crónicas para a Antena 1, TSF, Comercial e Rádio Renascença. Integrou ainda a Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses (1987), a Comissão Nacional da UNESCO (de 1989 a 1994), presidiu à Comissão Cidadão e Justiça (1990), foi membro do Conselho de Orientação para os Itinerários Culturais do Conselho da Europa  e do Conselho Estratégico de Lisboa (1992), da Comissão para o Futuro da Televisão em Portugal (1996), do Conselho Geral do Movimento Europeu e finalmente, presidiu ao Grupo de Trabalho sobre Serviço Público de Televisão, a partir de 5 de junho de 2002.

Entre 1994 e 1999 foi deputada no Parlamento Europeu, como independente eleita nas listas do PSD.

Helena Vaz da Silva foi agraciada com a Ordem de Mérito francesa (1982), com o Bordalo de Honra da Casa da Imprensa (1999) e como Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique (2000), para postumamente o ser também com uma placa evocativa colocada pela edilidade alfacinha na casa onde nasceu no Largo Dr. António de Sousa Macedo, nº7 C e a edição pelo  Centro Nacional de Cultura de uma serigrafia de Graça Morais – Helena pelas sete partidas do Mundo – em sua homenagem (2006), com o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural (desde 2013) promovido por Europa Nostra, Centro Nacional de Cultura e Clube Português de Imprensa de Portugal, sendo ainda topónimo em Almada (Charneca da Caparica), na Amadora (Buraca), em Sintra (Mem Martins) e em Valongo.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Leitão de Barros o realizador do 1º filme sonoro português, numa Rua de São Domingos de Benfica

Leitão de Barros, por Amarelhe, na capa do Sempre Fixe, de 22 de agosto de 1929

Leitão de Barros, o realizador de A Severa – o primeiro filme sonoro português, exibido em 1931 – e o criador das Marchas Populares de Lisboa em 1932, conhecido como o homem dos sete instrumentos, teve o seu nome perpetuado numa Rua de São Domingos de Benfica, pelo Edital municipal de 4 de novembro de 1970, três anos após o seu falecimento.

A Rua Leitão de Barros resultou de uma sugestão do próprio Presidente da edilidade de então, Engº Santos e Castro,  e ficou no 1º Impasse à Rua Padre Francisco Álvares, tendo pelo mesmo Edital  ficado no 2º Impasse a Rua Raquel Roque Gameiro, consagrando a cunhada de Leitão de Barros e igualmente ilustradora como a sua irmã Helena Roque Gameiro.

Freguesia de São Domingos de Benfica
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

José Júlio Marques Leitão de Barros (Lisboa/22.10.1896 – 29.06.1967/Lisboa), homem dos sete ofícios, foi: professor do ensino secundário, pintor, cenógrafo, dramaturgo e ainda, jornalista e cineasta (as duas áreas pelas quais ganhou mais fama), bem como por aquilo que hoje designaríamos como produtor de eventos.

Leitão de Barros foi o pioneiro da primeira geração de cineastas do sonoro, sendo seu o primeiro filme sonoro português: A Severa, adaptado do original de Júlio Dantas,estreado em 1931, . Leitão de Barros começou como cineasta em 1918, com Malmequer e Mal de Espanha, distinguindo-se depois pelas suas super produções históricas como Bocage(1936), Inês de Castro (1945) ou Camões (1946), para além de Maria do Mar (1930), Lisboa, Crónica Anedótica (1930), As Pupilas do Senhor Reitor (1935), Maria  Papoila (1937), Ala Arriba! (1942) ou Vendaval Maravilhoso (1949), no qual Amália Rodrigues integrou o elenco.  No documentário, salientam-se os seus Sidónio Pais – Proclamação do Presidente da República (1918), Nazaré (1927),  Legião Portuguesa (1937), Mocidade Portuguesa (1937), A Pesca do Atum (1939), Comemorações Henriquinas (1960), A Ponte da Arrábida Sobre o Rio Douro (1961) ou A Ponte Salazar sobre o Rio Tejo em Portugal (1966).  Leitão de Barros foi também o principal animador da concretização dos estúdios da Tobis Portuguesa, na Quinta das Conchas, no Lumiar.

Leitão de Barros frequentou a Faculdade de Ciências e a de Letras mas  acabou por concluir o curso de arquitetura na  Escola de Belas Artes de Lisboa, assim como o curso da Escola Normal Superior de Lisboa, após o que foi professor de Desenho, Geometria Descritiva e Matemática nos Liceus Camões e Passos Manuel. Casou em 17 de agosto de 1923 com a ilustradora Helena Roque Gameiro (1895 – 1986), a 2ª filha de Alfredo Roque Gameiro.

No jornalismo, começou em 1916. Fundou e dirigiu O Domingo Ilustrado (1925-1927) e O Notícias Ilustrado (1928-1935). Colaborou em jornais como O Século – onde criou O Século Ilustrado e a Feira Popular de Lisboa, em 1943 -,  A Capital,  ABC, a revista Contemporânea e a revista de cinema Movimento, tendo sido o Diário de Notícias a sua última tribuna, de 1953 a 1967, onde saía aos domingos a sua crónica semanal «Os Corvos».

Nas décadas de trinta e quarenta, Leitão de Barros investiu em eventos de animação da cidade. Começou as Marchas Populares em 1932, no Capitólio, para revitalizar o Parque Mayer, sendo que em 1934 já foram cerca de 300 mil pessoas que assistiram ao desfile da Praça do Comércio ao Parque Eduardo VII. Depois, foram os monumentais cortejos como o Cortejo das Viaturas (1934), os Cortejos das Festas da Cidade (em 1934 e 1935), o da Embaixada do século XVIII (1936),  o Cortejo e o Torneio Medieval dos Jerónimos (1938) e o Cortejo Histórico de Lisboa(1947).  Em 1939 e 1940, foi o Secretário Geral da Exposição do Mundo Português e o  responsável pela Nau Portugal.  Foi agraciado com a comenda da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada em 1935 e com o Grande-Oficialato da Ordem Militar de Cristo em 1941. Também foi o organizador das receções triunfais a Franco (1949) e à Rainha Isabel II (1957).

Como pintor, dispunha de  ateliê na Rua D. Pedro V e expôs em museus portugueses, no Museu de Arte Contemporânea de Madrid e ainda, no Brasil. Foi também cenógrafo e dramaturgo de muitas peças que subiram à cena em Lisboa, nomeadamente no Teatro Nacional, para além de ter sido diretor da Sociedade Nacional de Belas-Artes.

Fernando Matos Silva fez sobre ele Leitão de Barros, O Senhor Impaciente (1998) e o seu nome é também topónimo de Almada ( num Jardim, numa Rua e numa Praceta da Sobreda), Amadora (Alfragide), Loures (São João da Talha), Montijo, Oeiras (Queijas), Portimão, Seixal (Fernão Ferro) e Sintra (em Mem Martins e em Rio de Mouro).

A Rua José Rodrigues Miguéis de Saudades para a Dona Genciana

Freguesia de Benfica
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

José Rodrigues Miguéis, autor do conto «Saudades para a Dona Genciana», desde o ano seguinte ao seu falecimento tem o seu nome inscrito na toponímia de Lisboa, numa artéria da freguesia de Benfica, a unir a Estrada de Benfica à Rua Prof. José Sebastião e Silva.

A Rua José Rodrigues Miguéis ficou na Rua C à Estrada de Benfica através do Edital municipal de 1 de junho de 1981, em resultado da Proposta nº 198/80, subscrita pelos vereadores do Partido Socialista, aprovada por unanimidade na reunião camarária de 5 de novembro de 1980.

José Claudino Rodrigues Miguéis (Lisboa/09.12.1901 – 28.10.1980/Nova Iorque – E.U.A. ), nascido no nº 13 da Rua da Saudade, filho de uma beirã e de um galego republicano, formou-se em Direito pela  pela Universidade de Lisboa em 1924 e exerceu a advocacia, foi delegado do Ministério Público e professor do ensino secundário oficial e particular. Em 1933 licenciou-se em Ciências Pedagógicas na Universidade Livre de Bruxelas após o que, com Raúl Brandão, dirigiu um conjunto inacabado de Leituras Primárias, obra que nunca viria a ser aprovada pelo governo. Impedido de ser docente em Portugal, expatriou-se em 1935 para os Estados Unidos da América, voltando esporadicamente a Portugal e em 1942 adquiriu a nacionalidade americana. A partir desse ano e durante cerca de dez anos, exerceu funções de Assistant Editor das Seleções do Reader’s Digest, para além de colaborar regularmente na imprensa de Lisboa e se dedicar à tradução de obras de Stendhal, Carson McCullers, Erskine Caldwell ou F.Scott Fitzgerald.

Como escritor, a sua obra configura sínteses originais do presencismo e do neorrealismo, com mestria no uso da ironia e do humor. As suas novelas e contos fizeram de Rodrigues Miguéis uma referência obrigatória e um dos melhores no género: Páscoa Feliz (1932) – Prémio da Casa da Imprensa – retrato da desagregação mental do sujeito até ao limite da loucura e do crime; Onde a Noite se Acaba (1946), sobre a dissolução do sujeito associada a elementos fantásticos;  Léah e Outras Histórias (1958) – o primeiro Prémio Camilo Castelo Branco – onde se inclui  «Saudades para a Dona Genciana», considerada a obra-prima da ficção migueisiana, em que Dona Genciana representa o espaço humano da Avenida (Almirante Reis) e esta é a cidade de Lisboa; Um Homem Sorri à Morte – Com Meia Cara (1959), experiência autobiográfica; Gente da Terceira Classe (1962), sobre a condição do imigrante. Foi ainda publicado Pass(ç)os Confusos (1982), uma reedição do livro de contos Comércio com o Inimigo (1973), com um conjunto de narrativas antes publicadas na imprensa.

Publicou também 6 romances:  Uma Aventura Inquietante (1958), policial que denuncia as arbitrariedades da Justiça, antes publicado – entre 1934 e 1936- no jornal O Diabo, sob o pseudónimo de Ch. Vander Bosh; A Escola do Paraíso (1960), centrada na infância do herói entre o fim da Monarquia e os alvores da República; Nikalai! Nikalai! (1971), sobre uma comunidade de russos brancos em Bruxelas que pretende repor no trono o czar Nikalai; O Milagre segundo Salomé (1975), fresco da sociedade lisboeta com a degradação dos sonhos republicanos que culminaria no 28 de maio de 1926; O Pão Não Cai do Céu (1981), antes saído como folhetim no Diário Popular, focado no cigano como herói e símbolo unificador da luta pela terra e pela liberdade na planície alentejana; Idealista no Mundo Real (1986) que problematiza as contradições de um jovem magistrado colaborador da Seara Nova em busca da sua identidade ideológica e social.

A crónica surgiu em É Proibido Apontar – Reflexões de um Burguês I (1964), O Espelho Poliédrico (1973), As Harmonias do Canelão – Reflexões de um Burguês II (1974) e, postumamente,  Aforismos & Desaforismos de Aparício (1996) que reuniu textos publicados no Diário Popular sob o título de Tablóides. As suas obras foram traduzidas em alemão, checo, francês, inglês, italiano, polaco e russo.

Desde os anos vinte do séc. XX que colaborou na imprensa portuguesa. Com Bento de Jesus Caraça dirigiu O Globo, semanário que viria a ser proibido pela censura em 1933 e ao longo da vida foi colaborador da Seara Nova, da Revista de Portugal e dos jornais Alma Nova, O Diabo, Diário Popular, Diário de Lisboa e República.

Foi também membro eleito da Hispanic Society of America (1961) e académico correspondente da Academia das Ciências de Lisboa (1976), tendo sido agraciado como Grande-Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada (1979) e, em 1998, Diana Andringa conseguiu finalmente realizar o documentário «José Rodrigues Miguéis — Um homem do povo na história da República» para a RTP, que esteve previsto para 1980.

José Rodrigues Miguéis é também topónimo nos concelhos de Almada, Amadora, Entroncamento, Gondomar, Montijo, Odivelas, Ovar, Póvoa de Varzim, Seixal, Sesimbra e Sintra.

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Rua Matilde Rosa Araújo

Freguesia da Penha de França
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Desde há dois anos que a escritora Matilde Rosa Araújo, autora de mais de 40 títulos para adultos, jovens e crianças, dá nome ao arruamento onde está sediada a Escola Patrício Prazeres,  unindo a Avenida Mouzinho de Albuquerque ao Alto do Varejão, na Freguesia da Penha de França,  passados que eram seis do seu falecimento.

Em 2010, no ano da morte da escritora, o voto de pesar da Assembleia Municipal de Lisboa, aprovado por unanimidade, solicitava que o seu nome fosse dado a uma artéria lisboeta, a que se somou no mesmo ano um pedido no mesmo sentido da  direção e conselho de administração da SPA- Sociedade Portuguesa de Autores, sendo pelo Edital municipal de 10 de novembro de 2016 que a Quinta das Comendadeiras passou a denominar-se Rua Matilde Rosa Araújo, com a legenda «Escritora/1921 – 2010».

Matilde Rosa Araújo (Lisboa/20.06.1921 – 06.07.2010/Lisboa) notabilizou-se como escritora de ficção e poesia, mais conhecida pela literatura infantil, embora se tenha estreado em 1943, ao vencer o  concurso «Procura-se um Novelista» do jornal O Século, sendo Aquilino Ribeiro um dos membros do júri, com A Garrana, uma história sobre a eutanásia. Para o público adulto escreveu, entre outros, Estrada Sem Nome (1947) – obra galardoada num concurso de contos da Faculdade de Letras de Lisboa-, A Escola do Rio Verde (1950), Praia Nova (1962),  a poesia de Voz Nua (1982), A Estrada Fascinante (1988) e O Chão e as Estrelas (1997).

Contudo, ficou mais conhecida pela literatura infantil e juvenil que só produziu a partir de 1957, com O Livro da Tila, escrito nas viagens de comboio entre Lisboa e Portalegre, para ir dar aulas, e cujos poemas foram musicados por Fernando Lopes Graça.  Seguiram-se, entre outros,  O Palhaço Verde (1960) considerado o melhor livro estrangeiro pela associação Paulista de Críticos de Arte de São Paulo (em 1991), História de um Rapaz (1963), os poemas O Cantar da Tila (1967), O Sol e o Menino dos Pés Frios (1972), O Reino das Sete Pontas (1974),  O Gato Dourado (1977), Camões Poeta, Mancebo e Pobre (1978), Mistérios (1980), A Velha do Bosque (1983), O Passarinho de Maio (1990), As Fadas Verdes (1994), Capuchinho cinzento ( 2005) ou História de uma flor (2008). Recebeu da Fundação Calouste Gulbenkian o Grande Prémio de Literatura para Crianças (1980) e o Prémio do Melhor Livro Infantil (1996).

Nascida em Benfica, numa quinta dos avós, Matilde estudou em casa com professores particulares até ter entrado para a Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa,  onde se licenciou em Filologia Românica, em 1945, com uma tese sobre jornalismo, tendo sido aluna de Jacinto  do Prado Coelho e Vitorino Nemésio, assim como colega de Sebastião da Gama, Luísa Dacosta, David Mourão-Ferreira e Urbano Tavares Rodrigues.

Exerceu como professora do ensino técnico profissional em várias cidades do país, como em Portalegre ou no Porto, tendo em Lisboa sido docente da Escola Industrial Fonseca de Benevides. Foi também formadora de professores na Escola do Magistério Primário de Lisboa, nomeadamente do primeiro Curso de Literatura para a Infância.

Matilde Rosa Araújo também colaborou na imprensa nacional e regional, em A Capital, O Comércio do Porto, Diário de Lisboa, Diário de Notícias, Jornal do Fundão ou República, bem como nas revistas Árvore, Colóquio/Letras, GraalMundo Literário, Seara NovaTávola Redonda e Vértice.

Preocupada com os direitos das crianças, tornou-se sócia fundadora do Comité Português da UNICEF e do Instituto de Apoio à Criança, bem como participou em iniciativas da Câmara alfacinha na área da Educação. Também integrava a direção da Sociedade Portuguesa de Escritores em 1965, quando esta instituição premiou o angolano José Luandino Vieira, então preso no Tarrafal, e viu as suas instalações  invadidas pela PIDE e a direção demitida compulsivamente.

Matilde Rosa Araújo foi agraciada com o Grande Oficialato da Ordem do Infante D. Henrique (2003) e, em maio de 2004, foi distinguida com o Prémio Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores, assim como no ano seguinte com a Medalha de Honra. Em 1994, também foi nomeada pela secção portuguesa do IBBY (Internacional Board on Books for Young People) para o Prémio Andersen, considerado o Nobel da Literatura para a Infância e em 1998 passou a dar nome a um prémio revelação na literatura infantil e juvenil da Câmara Municipal de Cascais. O nome de Matilde Rosa Araújo dá ainda nome a artérias dos concelhos de Almada, Amadora e Trofa.

Freguesia da Penha de França
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)