José Anastácio da Cunha

José Anastácio da Cunha (Lisboa, 11/05/1744-Lisboa, 01/01/1787), foi militar, matemático e poeta. Fez a sua formação académica em Lisboa, no Convento de Nossa Senhora das Necessidades que pertencia à Congregação do Oratório, onde, até aos 19 anos, aprendeu Gramática, Retórica e Lógica, desenvolvendo como autodidata o seu gosto pela Física e Matemática.

A sua nomeação como Tenente do Regimento de Artilharia do Porto (1764) levou-o a desenvolver outras áreas de interesse, dedicando-se ao estudo da História, das Línguas (latim, grego, inglês, francês e italiano) e das Belas Artes, o que em parte ficou a dever-se ao seu convívio com oficiais protestantes ingleses. Cruzando os seus conhecimentos com a atividade militar, em 1769, redigiu a Carta Fisico-Mathematica sobre a Theoria da Polvora em geral e a determinação do melhor comprimento das peças em particular (editada em 1838, no Porto), na qual eram identificados erros em trabalhos anteriores sobre artilharia.

No âmbito da reforma da Universidade empreendida pelo Marquês de Pombal, em 1773, Anastácio da Cunha foi nomeado professor de geometria da Faculdade de Matemática da Universidade de Coimbra, sendo-lhe concedido o título de doutor. Porém, cerca de cinco anos depois, com a subida ao trono de D. Maria I e com a alteração do contexto político que deu origem ao período conhecido como “Viradeira”, foi denunciado à Inquisição (1778), sendo acusado de ler autores que defendiam ideais iluministas (como Rousseau, Voltaire e Hobbes) e de exercer uma influência nefasta junto dos seus alunos através da apologia do racionalismo e da liberdade de consciência.

No final do processo, Anastácio da Cunha foi condenado a três anos de reclusão na Casa das Necessidades da Congregação do Oratório e a quatro anos de degredo em Évora, tendo sido afastado dos seus cargos universitários e confiscados os seus títulos e bens. Nos finais de 1780, foi aceite pela Inquisição o seu pedido de perdão. Porém, eram já muitas as dificuldades económicas, a par da sua perda de prestígio social. Neste difícil período da sua vida foi apoiado pelo Intendente Pina Manique que nomeou Anastácio da Cunha como professor de Matemática, na recém-criada Casa Pia (1781).

Anastácio da Cunha traduziu para português obras de autores como Voltaire, Pope, Rousseau e Holbach publicadas ainda durante a sua vida, mas as suas obras científicas e poéticas só foram editadas postumamente. Entre as primeiras, refiram-se: Principios mathematicos para instrucção dos alunos do Colegio de S. Lucas da Real Casa Pia do Castello de S. Jorge (terminada em 1786; publicada em 1790, em Lisboa), considerada a sua obra mais importante pela reformulação da Geometria de Euclides e que foi traduzida para francês (publicada em 1811, em Bordéus); e, Ensaio sobre os Principios de Mechanica que deu um contributo decisivo para o desenvolvimento das ciências físico-matemáticas (publicado em 1807, em Londres).

A sua obra poética, considerada como precursora do romantismo, só deu à estampa em 1839, por iniciativa de Inocêncio da Silva, com o título Composições poéticas do Doutor José Anastácio da Cunha, cujos exemplares foram depois apreendidos e apenas reeditados em 1930.

Foram necessários mais de dois séculos após a sua morte para que fosse reconhecida a importância e valor de José Anastácio da Cunha como matemático e como poeta que, partilhando os princípios da Europa das Luzes, defendia um ensino voltado para a experiência, aliando a teoria à prática e às demonstrações, aspetos que, entre os anteriormente referidos, o levariam a ser condenado pela Inquisição.

Em Lisboa, foram também necessários 202 anos após a sua morte, para que através do Edital municipal de 28 de dezembro de 1989 se tornasse o topónimo da Rua Dois do Bairro do Alto da Serafina, como Rua Anastácio da Cunha. No ano seguinte, num processo de remodelação da toponímia do Bairro da Serafina a pedido dos seus moradores, passou a Rua José Anastácio da Cunha, pelo Edital municipal de 14 de dezembro de 1990 e assim continua.

 

© CML | DPC | NT | 2019

Anúncios

Newton

Busto de Newton na Academia das Ciências de Lisboa
(Foto: António da Silva Fernandes Duarte © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

 

A Rua Newton, proposta na reunião de Câmara de 17 de agosto de 1916 como Rua Lord Byron, no Edital de 24 do mesmo mês, passou antes a homenagear Newton, ficando assim perpetuada no Bairro de Inglaterra uma personalidade inglesa incontornável na área das ciências e do pensamento científico.

Isaac Newton (Woolsthorpe/25.12.1642 ou 04.01.1643 – 20.03.1726 ou 31.03.1727/Kensington), descobriu a Lei da Gravidade, a fórmula do Binómio, a lei da viscosidade e a natureza corpuscular da luz. Foi um cientista reconhecido como físico, matemático, astrónomo, alquimista, filósofo e teólogo, considerado por muitos como o pai da ciência moderna pelas suas descobertas notáveis.

Ao estudar no Trinity College de Cambridge, onde concluiu a sua formação em 1665, contactou com obras de Euclides, Descartes, J. Kepler, G. Galilei, entre outros, autores que se viriam a revelar decisivos, tendo mesmo dado continuidade aos trabalhos iniciados por Galilei, nomeadamente através do método experimental e desenvolvendo a teoria heliocêntrica. A interrupção forçada do seu percurso académico devido à peste negra que assolou Inglaterra e levou ao encerramento da universidade entre 1665 e 1667, revelou-se profícua para Newton pois corresponde ao período mais produtivo em termos das suas descobertas: o teorema binominal, o cálculo, a lei da gravidade (que ficará para sempre associada à descrição da suposta maçã que lhe caiu sobre a cabeça, facto que despertou a sua curiosidade para a sua compreensão) e, ainda, a natureza das cores.

Por ser um homem reservado e sem grande empatia social, as suas descobertas e trabalhos foram divulgados e conhecidos pela comunidade científica através do seu professor Isaac Barrow, o que chamou a atenção da Royal Society que na época era a instituição mais importante neste domínio.

Foi em 1668 que Newton inventou o telescópio refletor e não refrator como os existentes até então, que ficou conhecido como o “telescópio newtoniano”. Três anos depois publica a sua primeira obra intitulada Métodos das Fluxões. Foi, porém, o livro seguinte, publicado em 1687 em 3 volumes, que foi reconhecido e considerado um dos mais importantes na área científica – Principia (Philosophiae Naturalis Principia Matematica) – onde descreveu a lei da gravitação universal e as suas três Leis (Lei da Inércia, Lei Fundamental da Dinâmica, Lei da Ação-Reação) que fundamentam a mecânica clássica. Os seus estudos em torno da luz e da ótica foram o tema de um outro livro, Optica (1704), que foi escrito numa linguagem mais acessível alcançando assim um maior número de leitores. Também as suas pesquisas no domínio da matemática, em 1707, foram alvo de publicação – Aritmética Universal.

Newton também foi Professor em Cambridge, a partir de 1667; um dos dois membros da Universidade no Parlamento, em janeiro de 1689; presidente da Royal Society a partir de 1703 e reeleito ano após ano até falecer; e, o primeiro cientista a receber a honra de ser armado cavaleiro (Sir) pela rainha Ana, em 1705. Precursor do culto da razão e do espírito crítico e sustentando o seu conhecimento na experimentação, características indissociáveis do Iluminismo, o impacto do trabalho realizado por Isaac Newton foi muito para além do seu próprio tempo, alcançando grande impacto na história da ciência.

© CML | DPC | NT | 2019

Galileu Galilei

Galileu Galilei, considerado o pai da ciência moderna, desde 2008 que tem o seu nome perpetuado em Lisboa, na que era a Rua Sul (Centro Comercial Colombo). Pelo mesmo Edital de 3 de julho de 2008 a edilidade lisboeta evocou nas proximidades mais dois cientistas, com a Rua Albert Einstein (na Rua Norte) e a Rua Aurélio Quintanilha (na Rua Poente).

Galileu Galilei (Itália-Pisa/15.02.1564 — 08.01.1642/Florença-Itália) foi um catedrático de matemática, físico, astrónomo e filósofo italiano que deu início ao método científico como hoje o conhecemos, sem se basear já na metodologia aristotélica. As suas invenções e descobertas, desenvolvidas entre os séculos XVI e XVII, vieram alterar o conhecimento e a relação do homem com o mundo.

Galileu melhorou significativamente o telescópio refrator e com ele descobriu as manchas solares, as montanhas da Lua, as fases de Vénus, quatro dos satélites de Júpiter, os anéis de Saturno e as estrelas da Via Láctea, e como resultado destas observações publicou em 1610 Siderius Nuncius (Mensageiro das Estrelas). Estas descobertas contribuíram decisivamente para defender que era a Terra que girava à volta do Sol e não o contrário, sistema que já o astrónomo polaco Copérnico havia defendido. Em 1616, a Inquisição pronunciou-se contra a ideia do Sol ser o centro do Universo e considerou herética a teoria heliocêntrica, pelo que Galileu foi proibido falar do heliocentrismo como realidade física e foi convocado ao Tribunal do Santo Ofício, que concluiu que não existiam provas suficientes para concluir afirmar que a Terra se movia em volta do Sol e admoestou Galileu a abandonar a defesa da sua teoria heliocêntrica. Inconformado, Galileu Galilei publicou em 1632 o livro Dialogo di Galileo Galilei sopra i due Massimi Sistemi del Mondo Tolemaico e Copernicano (“Diálogo sobre os dois principais sistemas do mundo – o ptolemaico e o copernicano”), a defender o heliocentrismo, escrito originalmente em italiano e não em latim como era habitual à época tornando-o assim acessível a um universo mais vasto de leitores, para além dos seus pares, alguns dos quais viam com desconfiança as suas teorias. Esta obra foi incluída no Index (lista dos livros proibidos pela Igreja), pelo que foi julgado e condenado a prisão e a abjurar as suas ideias, tendo passado os seus últimos anos de vida em prisão domiciliária.

Galileu desenvolveu também os primeiros estudos sistemáticos do movimento uniformemente acelerado e do movimento do pêndulo, descobriu a lei dos corpos e, enunciou o princípio da inércia e o conceito de referencial inercial, ideias precursoras da mecânica de Newton, assim como inventou novos instrumentos como a balança hidrostática, um tipo de compasso geométrico que permitia medir ângulos e áreas, um termómetro que ficou conhecido pelo seu nome e, foi o precursor do relógio de pêndulo.

A atividade de Galileu Galileu permitiu avanços irreversíveis e foi ponto de partida para novos progressos científicos, sobretudo a partir do recurso ao método da experimentação sistemática cruzando teorias e práticas de vários domínios do saber.

© CML | DPC | NT | 2019

 

 

A Rua do Conselheiro Mariano de Carvalho, professor da Escola Politécnica

Freguesia dos Olivais
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Mariano Cirilo de Carvalho, professor de Matemática da Escola Politécnica, jornalista e político, foi consagrado ainda em vida, dez meses após se demitir do cargo de Ministro da Fazenda, na Rua do Conselheiro Mariano de Carvalho, na última década do século XIX, nos  Olivais, artéria que hoje começa hoje junto ao nº 365 da Avenida Infante Dom Henrique  e se estende até à Praça da Viscondessa dos Olivais (em virtude de alterações urbanísticas ocorridas na zona foi eliminado o troço entre a Avenida Infante Dom Henrique e a Avenida D. João II).

Foi por deliberação camarária de 25 de novembro de 1892 e consequente Edital municipal de dia 30 que a Rua Direita, que da Praça da Viscondessa dos Olivais seguia para o nascente até à Praia do Tejo, se passou a denominar Rua do Conselheiro Mariano de Carvalho, tendo o mesmo Edital  consignado também em Ruas da mesma freguesia os nomes de Conselheiros de Estado que haviam sido ministros ou governadores na mesma época, a saber, a Rua do Conselheiro Dias Ferreira, a Rua do Conselheiro Ferreira do Amaral, a Rua do Conselheiro Lopo Vaz e a Rua do Conselheiro Teles de Vasconcelos.

N’ O Berro, 29 de março de 1896,  caricaturado por Celso Hermínio

Mariano Cirilo de Carvalho (Alenquer-Abrigada/25.06.1836 – 19.10.1905/Estoril), formado em Farmácia e em Matemática pela Escola Politécnica de Lisboa, distinguiu-se como  professor de Matemática dessa mesma Escola a partir da década de sessenta do séc. XIX, tendo sido também vogal do Conselho Superior de Instrução Pública.

Mariano de Carvalho foi  também jornalista, começando logo a partir de 1864 no Gazeta de Portugal mas chegou até a fundar títulos como o Notícias, o Novidades, o Correio Português e o Diário Popular. Em paralelo, ainda se dedicou à tradução, tendo sido o primeiro tradutor para português de Júlio Verne (nas obras Aventuras de três russos e de três ingleses,Viagem ao centro da terra, O país das peles, A galera Chanceler).

Filiado no Partido Reformista foi deputado de 1870 a 1880, eleito pelos círculos da Chamusca, do Porto, de Timor e do Cartaxo, tendo em 1900 sido deputado independente. Em 1876, por fusão do Reformista com o Partido Histórico, passou a representar o Partido Progressista. Foi ainda Ministro da Fazenda (1886-1889; 1891-1892) com José Luciano e com João Crisóstomo, época que publicou as obras Reorganização das Finanças Portuguesas – Relatório e Proposta de Lei (1887),  A Questão dos Tabacos (1889) e Os Planos Financeiros (1893).

Mariano de Carvalho conseguiu ainda ser o Comissário português à Exposição de Paris de 1890, presidente da Câmara Municipal de Setúbal e Comissário régio no Banco Nacional Ultramarino.

Por último, refira-se que Mariano de Carvalho foi um empenhado defensor da construção da linha de caminho de ferro para Cascais, tendo mesmo apresentado um plano de construção de um porto franco naquela vila, bem como de uma linha férrea que pela Quinta Marinha, seguisse até Colares.

Freguesia dos Olivais
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Praça do Professor de Matemática Santos Andrea

Freguesias de Benfica
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Professor de Matemática de Liceu e Universitário, Santos Andrea, dá nome a uma Praça de Benfica desde 1970 e 33 anos passados sobre a sua morte.

O topónimo foi sugerido pelo  Vereador Teixeira Bastos e concretizou-se pelo Edital municipal de 11/07/1970 num troço da Travessa da Granja, compreendido entre a Estrada de Benfica e a Rua Dr. José Baptista de Sousa.

O Prof. Santos Andrea, em 1922, lendo o elogio de Gago Coutinho e Sacadura Cabral, na cerimónia de doutoramento dos aviadores, na Faculdade de Ciências de Lisboa (Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

Eduardo Ismael dos Santos Andrea (Lisboa/10.11.1879 – 15.02.1937/Lisboa), filho do Oficial da Armada e Professor de Astronomia da Escola Naval Álvaro José de Sousa Soares de Andrea e de Leopoldina dos Santos, formou-se  em Matemática e começou por trabalhar no Observatório Astronómico de Lisboa, na Tapada da Ajuda, sendo que a partir de 1901 exerceu como professor liceal em Bragança, Vila Real (1903) e em Lisboa, no então Liceu Normal de Lisboa ou Liceu da Lapa e depois Pedro Nunes (1906) e no Liceu Camões (1931). Executou também compêndios de Aritmética, Álgebra, Geometria, Matemática e Trigonometria.

A partir de 1903 passou a ser também professor da Escola Politécnica de Lisboa (depois, Faculdade de Ciências de Lisboa), das disciplinas de Astronomia, Mecânica Celeste, Álgebra Superior, Cálculo Infinitesimal e Análise Superior, tendo sido catedrático em 1913. Em 1914 publicou as suas lições das cadeiras de Cálculo Infinitesimal e Análise Superior. Santos Andrea também dirigiu o Observatório Astronómico da Faculdade e criou os cursos de Aperfeiçoamento de Astronomia e de Engenheiros Geógrafos. Foi também membro do Senado da Universidade de Lisboa e do Conselho Superior de Instrução Pública.

O Professor Santos Andrea também integrou a Escola Normal Superior, de 13 de novembro de 1915 até à sua extinção em 1930, como professor de Metodologia Geral das Ciências Matemáticas, secretário e diretor.

Freguesias de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua de Lacerda e Almeida das fronteiras do Brasil e primeiras longitudes de África

Freguesia da Penha de França (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Penha de França
(Foto: Sérgio Dias)

No troço do Caminho de Baixo da Penha entre a Avenida General Roçadas e a Rua Jacinto Nunes está desde a publicação do Edital de 23 de março de 1954 a Rua Dr. Lacerda e Almeida, em homenagem ao matemático que integrou a comissão de delimitação das fronteiras do Brasil com a Bolívia e a Venezuela e enquanto governador de Tete, em Moçambique, procedeu a uma exploração onde definiu as primeiras longitudes em África.

Já em 1949 e depois em 1953,  a Comissão Municipal de Toponímia foi do parecer que se denominassem os arruamentos do Vale Escuro com topónimos relacionados com figuras que em África cumpriram a política portuguesa, quer por obra governativa quer por delimitação de fronteiras. E assim para além da Rua Dr. Lacerda e Almeida os outros topónimos sugeridos foram a Praça Aires de Ornelas, a Rua Artur de Paiva, a Avenida Coronel Eduardo Galhardo, a Rua Francisco Pedro Curado, a Praça João de Azevedo Coutinho, o Largo General Pereira de Eça, a Avenida Mouzinho de Albuquerque, a Praça Paiva Couceiro , a Rua Teixeira Pinto e a Rua Eduardo Costa.

Francisco José de Lacerda e Almeida (Brasil – São Paulo/22.08.1750 – 18.10.1798/Cazambe-Moçambique), filho de José António de Lacerda (de Leiria) e de Francisca de Almeida (de São Paulo) concluiu o curso de matemática na Universidade de Coimbra em 1776 e no ano seguinte concluiu o doutoramento, conseguindo em 1778 ser convidado para o serviço do Estado, como geógrafo, astrónomo e matemático. Neste contexto, integrou os trabalhos de demarcação das fronteiras entre Portugal e Espanha (1779), resultantes da assinatura do Tratado de Santo Ildefonso e seguiu depois para o Brasil (1780) para a delimitação das fronteiras com a Bolívia e a Venezuela, para além de ter executado levantamentos que podem ser classificadas como geográficos, para obter dados geodésicos, destinados a apoiar a cartografia da região. Fez ainda uma viagem de investigação dos rios Cuiabá, Paraguai, Taquari, Cochim, Camampoan, Pardo, parte do Paraná e todo o Tieté e regressou a Lisboa em 1790. 

Em setembro do ano seguinte passou a docente de Matemática na Real Academia dos Guarda-Marinhas, funções que exerceu até partir  para Moçambique em maio de 1797. Nesta época de explorações científicas, dentro do espírito do Iluminismo, Lacerda e Almeida queria seguir o curso do Zambeze, até à zona da nascente, para aí procurar a nascente do Cunene, que corria para a costa ocidental e iniciou a expedição em 3 de julho de 1798, no decorrer da qual contraiu malária, chegando o «Geral de Tete», como era conhecido, já bastante debilitado ao Cazembe em outubro, onde veio a falecer.  A sua expedição foi a  primeira a determinar longitudes em África por métodos astronómicos rigorosos, tendo os seus registos sido publicados em 1844 (Diário da viagem de Moçambique para os rios de Senna [na Zambézia] feita pelo governador dos mesmos rios Dr. Francisco José de Lacerda e Almeida).

Supõe-se que tenha sido eleito membro da Academia de Ciências de Lisboa, em 1791 ou 1795, mas nem todos os autores estão de acordo nesta questão.

Para além da rua que lhe foi dedicada em Lisboa 156 anos após o seu falecimento, o seu nome também se tornou topónimo na cidade Pontes e Lacerda no Estado do Mato Grosso (homenagem a Silva Pontes e Lacerda e Almeida); no Rio Lacerda e Almeida no Estado de Rondônia; na Ilha Lacerda e Almeida no Rio Paraná; assim como uma povoação moçambicana na margem direita do Zambeze recebeu em 1893 o nome de Lacerdónia.

 

Freguesia da Penha de França (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia da Penha de França
(Planta: Sérgio Dias)

 

.

A Rua de Sir Newton que esteve para ser de Lord Byron

Freguesia de Arroios (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Arroios
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua Newton, começou por ser proposta na reunião de Câmara de 17 de agosto de 1916 como Rua Lord Byron mas no Edital de 24 do mesmo mês passou antes a homenagear Newton, sendo os restantes arruamentos do bairro denominados Rua Cidade de Cardiff, Rua Cidade de Liverpool, Rua Cidade de Manchester e Rua Poeta Milton, ficando assim perpetuadas no Bairro de Inglaterra uma personalidade inglesa das área das ciências e outra da área das letras, para além de três cidades do Reino Unido.

A Rua Newton, que vai da Rua Cidade de Liverpool à Rua de Moçambique, era a Rua Aurora do antigo Bairro Brás Simões, comerciante e proprietário das terras que urbanizou e que crismou as artérias com nomes de familiares seus, como era costume na época antes de entregar os seus arruamentos particulares à Câmara em 13 de outubro de 1913, o que permitiu à edilidade pelo Edital de 24 de agosto de 1916 passar também a Rua Maria Gouveia a Rua Cidade de Cardiff , a Rua José de Sousa a Rua Cidade de Liverpool, a Rua Isabel Leal a Rua Cidade de Manchester e a Rua Margarida a Rua Poeta Milton.

@ NewtonIsaac Newton (Woolsthorpe/25.12.1642 ou 04.01.1643 – 20.03.1726 ou 31.03.1727/Kensington), por muitos considerado o pai da ciência moderna, descobriu a Lei da Gravidade, a fórmula do Binómio, a lei da viscosidade e a natureza corpuscular da luz. Foi um cientista reconhecido como físico, matemático, astrónomo, alquimista, filósofo e teólogo. A sua Principia (Philosophiae Naturalis Principia Matematica), publicada em 1687, onde descreveu a lei da gravitação universal e as suas três Leis – Lei da Inércia, Lei Fundamental da Dinâmica, Lei da Ação-Reação – que fundamentam a mecânica clássica, é reconhecida como das mais influentes na história da ciência.

Newton também foi Professor em Cambrigde, a partir de 1667; um dos dois membros da Universidade no Parlamento, em janeiro de 1689; presidente da Royal Society a partir de 1703 e reeleito ano após ano até falecer; e o primeiro cientista a receber a honra de ser armado cavaleiro (Sir) pela rainha Ana, em 1705.

Freguesia de Arroios (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias)

 

Bernardino Machado, duas vezes Presidente da República, numa Praça do Lumiar

0 Bernardino Machado PortugalnaGuerra 1 Jun. 1917

Bernardino Machado que era Primeiro-Ministro quando eclodiu a I Guerra Mundial e Presidente da República quando Portugal entrou no conflito, e nessa qualidade  visitou os militares em França em outubro de 1917, foi perpetuado numa Praça lisboeta 41 anos após a sua morte, através do Edital de 21/10/1985, com a legenda «Presidente da República/1851 – 1944», ficando na Praça J da Urbanização dos Terrenos da Tobis Portuguesa, também designada como Praça J à Rua Luís Pastor de Macedo.

A sua entrada na toponímia alfacinha passou por algumas peripécias. O jornal A Capital sugeriu que os nomes dos antigos Presidentes da República Portuguesa Bernardino Machado e João do Canto e Castro fossem consagrados na toponímia de Lisboa mas a Comissão Consultiva Municipal de Toponímia na sua reunião de 08/07/1970 « foi de parecer que deverá aguardar-se a existência de arruamentos condignos». Seis anos mais tarde, na reunião de 06/07/1976, a Comissão Consultiva Municipal de Toponímia  sugeriu que a Avenida Sidónio Pais, no troço compreendido entre a Avenida Afonso Costa ( é a  Alameda Cardeal Cerejeira  desde o Edital de 14/04/1982) e a Rua Marquês de Fronteira, passasse a Avenida Bernardino Machado. No entanto, só 41 anos após a sua morte, por sugestão de um munícipe, Bernardino Machado foi mesmo consagrado por Edital na toponímia de Lisboa, na Praça do Lumiar onde o encontramos hoje.

Bernardino Machado e Afonso Costa de visita às tropas em França (Portugal na Guerra, novembro de 1917)

Bernardino Machado e Afonso Costa de visita às tropas em França
(Portugal na Guerra, novembro de 1917)

Bernardino Luís Machado Guimarães (Rio de Janeiro/28.o3. 1851 – 28.04.1944/Porto) foi duas vezes eleito para Presidente da República. No primeiro período, para o quadriénio de 5 de outubro de 1915 a 1919, e no segundo, para o de dezembro de 1925 a 1929. Não chegou a cumprir nenhum deles até final, abortados que foram pelo movimento de Sidónio Pais de 8 de dezembro de 1917 que o expulsou do país e no segundo caso, pelo movimento militar do 28 de maio de 1926.

Bernardino Machado formado em Filosofia e Matemática pela Universidade de Coimbra (1875), com a tese  «Teoria Mecânica da Refleção da Luz» e catedrático desde 1879, foi Lente de Matemática e par do Reino nomeado pelo corpo de catedráticos da Universidade de Coimbra até que ao juntar-se aos estudantes por ocasião da crise académica de 1907 foi  obrigado a pedir a demissão do cargo de lente da Universidade. Integrou ainda o Conselho Superior de Instrução Pública (1892), presidiu ao  Instituto de Coimbra (1894) e dirigiu o Instituto Comercial e Industrial de Lisboa. Casou em 1882 com Elzira Dantas, de quem teve 18 filhos.

Iniciou em 1882 as suas funções políticas  como deputado por Lamego, eleito pelo Partido Regenerador. Depois foi deputado por Coimbra (1886), Ministro das Obras Públicas (1893) que elaborou legislação protetora do trabalho das mulheres e dos menores e procedeu à criação do primeiro Tribunal de Trabalho, grão-mestre da Maçonaria (entre 1895 e 1899) e presidente do Diretório do Partido Republicano entre 1906 e 1909. Proclamada a República, foi Ministro dos Negócios Estrangeiros (1910-1911; 1914), Embaixador no Brasil (1912-1914),  ministro do Interior e presidente do Ministério (em 1914 e em 1921). Após o 28 de maio de 1926 ficou em Portugal até às derrotas das revoltas de 3 e 7 de fevereiro de 1927 e foi novamente expulso do País, tendo-se exilado na Galiza e depois, em França. Foi autorizado a regressar em junho de 1940, quando as forças nazis invadiram França mas como estava proibido de residir em Lisboa, fixou residência no Alto Douro onde veio a falecer.

Finalmente, refiram-se algumas das suas obras:  A Introdução à Pedagogia (1892), O Ministério das Obras Públicas (1893), A Indústria (1898), O Ensino (1898), O Ensino Primário e Secundário (1899), O Ensino Profissional (1900), A Agricultura (1900), Pela Liberdade (1900), Da Monarquia para a República (1903), Os Meios de Comunicação e o Comércio (1903), Conferências Políticas (1904), Pela República (1908), No Exílio (1920), A Irresponsabilidade Governativa e as Duas Reacções Monárquica e Republicana (1924).

 

Freguesia do Lumiar (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

Manuel Godinho de Herédia, o cartógrafo da Península malaia dos tempos filipinos

Freguesia de Belém (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Belém
(Foto: Sérgio Dias)

Manuel Godinho de Herédia,  cartógrafo luso-malaio a quem o rei Filipe I nomeou como «Descobridor e Adelantado da Nova Índia Meridional», está desde a publicação do Edital municipal de 15/06/1960 na Rua 14 do Bairro de Casas Económicas da Encosta do Restelo.

O Bairro das Casas Económicas da Encosta da Ajuda começou por ter toponímia numérica nas suas 22 artérias, fixada pelo edital municipal de 03/12/1951, como era prática habitual nos bairros sociais. Cerca de nove anos depois, o  edital camarário de 15/06/1960 substituiu essas denominações em números por topónimos relativos a figuras da Expansão Portuguesa dos séculos XV a XVII e assim, a Rua 14 do Bairro de Casas Económicas da Encosta do Restelo passou a homenagear Manuel Godinho de Herédia (Malaca/1558 ou 1563 – c. 1623/Goa), por vezes também grafado como Manuel Godinho de Erédia ou como Emanuel Godinho de Erédia.

O ananás desenhado por Manuel Godinho de Heredia na sua Suma

O ananás desenhado por Manuel Godinho de Herédia na sua Suma

Herédia,  que foi educado pelos jesuítas, empenhou-se em descobrir a Austrália, que ele designava como «ilha do Ouro» e que já nas lendas malaias tinha um papel destacado, embora se ignore se concretizou ou não este plano. A sua ideia era de que a ilha do Ouro se encontrava a noroeste da Austrália que hoje conhecemos, alicerçado nas leituras que fizera de Ptolomeu, Marco Polo e Ludovico di Varthema, bem como nos relatos de viagens malaias coevas, acidentais ou deliberadas, ao sudeste de Timor. Em 1594, Filipe I nomeou-o «Descobridor e Adelantado da Nova Índia Meridional» e, por volta de 1602, o então vice-rei da Índia, Aires de Saldanha, até destacou navios e homens para a viagem de descoberta mas a eclosão de guerras locais levou a que Manuel de Godinho fosse chamado como soldado e engenheiro militar e supõe-se que mais não se terá avançado.

Certo é que foi professor de matemática e se dedicou à geografia e cartografia do Oriente, tendo delineado várias cartas das Índias Orientais e da Ásia, as plantas das praças conquistadas, e é muito possível que em Goa tenha conhecido o cartógrafo Fernão Vaz Dourado. Para além disto, registou os povos, animais e plantas dos locais que percorreu em texto e desenhos. Em Goa, também copiou as cartas que lhe chegavam por marinheiros e construiu um dos  primeiros levantamentos da península malaia. Deixou publicadas, entre outras, por vezes com a referência cosmógrafo-mor, as obras Miscelânea (1610), Plantas de praças das conquistas de Portugal, feitas por ordem de Rui Lourenço de Távora, vizo-rei da India (1610), Discurso sobre a Província do Indostan chamada Mogûl ou Mogôr com declaração do Reino gozarate, e mais Reinos de seu destricto (1611), Suma de Arvores e Plantas da India Intra Ganges (1612) onde apresenta um catálogo ilustrado das plantas do Sudeste Asiático, Declaracam de Malaca e da India Meridional com Cathay (1613), Carta da Ilha de Goa (1616), Livro de Plataformas das Fortalezas da Índia (c. 1620).

Freguesia de Belém (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Belém
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

A Rua do militar e matemático Filipe Folque

 

Freguesia das Avenidas Novas (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias)

Vinte anos após o seu falecimento, o militar e matemático Filipe Folque que foi o responsável por um levantamento cartográfico da cidade de Lisboa na 2ª metade do séc. XIX, deu o seu nome a uma artéria das Avenidas Novas, entre a Rua de São Sebastião de Pedreira e a Avenida Duque d’Ávila, por via do Edital municipal de 29/11/1902.

O mesmo Edital colocou nesta zona, em Avenidas, os nomes dos políticos António de Serpa, Casal Ribeiro, Duque D’Ávila, Hintze Ribeiro (hoje Avenida Miguel Bombarda), José Luciano (hoje Avenida Elias Garcia),  e em Ruas, os nomes de Andrade Corvo, António Enes, Barros Gomes (hoje Rua Viriato), Latino Coelho , Luís Bivar (hoje Avenida), Martens Ferrão, Pinheiro Chagas e o médico Pedro Nunes.

Filipe FolqueFilipe de Sousa Folque (Portalegre/28.11.1800 – 27.12.1874/Lisboa), filho do General Pedro Folque, foi um militar de carreira doutorado em Matemática desde 1826 pela Universidade de Coimbra, que como docente começou na Universidade de Coimbra (1834) e depois, seguiu como lente na Academia de Marinha (1836) onde criou o curso de engenheiro hidrógrafo, como lente de Astronomia e Geodesia na Escola Politécnica de Lisboa (desde 1840) e como professor de matemática dos filhos da rainha D. Maria II.

Notabilizou-se sobretudo por entre 1844 e 1870 ter sido o Diretor-geral dos Trabalhos Geodésicos do Reino, apoiado pelo Ministro da Obras Públicas Fontes Pereira de Melo, e nessa qualidade ter dirigido, entre 1856 e 1859, um levantamento topográfico de Lisboa (a Carta topographica da cidade de Lisboa, publicada em 1878) determinado pela Portaria de 02/11/1853, no âmbito da qual colocou chapas de ferro fundido, a um altura de 3 metros, com a cota de nível dos arruamentos. Filipe Folque já havia elaborado a Carta Geral do Reino ou Carta Corográfica de Portugal (1843) e a Carta do Plano Hidrográfico da barra do Porto de Lisboa,  para além de ter dado a lume diversos estudos como, por exemplo, Memória dos Trabalhos Geodésicos executados em Portugal (1841), Tábuas para o Cálculo das Distâncias à Meridiana (1855), Dicionário do Serviço dos trabalhos geodésicos e topográficos do Reino; ou Rapport sur les travaux géodésiques du Portugal et sur l’état actuel de ces mêmes travaux pour être présenté à la Comission Permanente de la Confèrence Internationale (1868).

Refira-se ainda que Filipe Folque desempenhou as funções de diretor das obras do Mondego (1826) e de ajudante do Observatório da Universidade de Coimbra (1827).  Colaborador assíduo da Revista Militar e da Revista universal lisbonense também  foi feito sócio efetivo da Academia Real das Ciências de Lisboa desde 1834 e aí veio mesmo a ser Diretor de classe (1850), para além de ter colaborado com Almeida Garrett na fundação do Conservatório Nacional, dados os seus grandes conhecimentos musicais, chegando mesmo a Diretor da Secção de Música, e publicando na Revista do Conservatório Real de Lisboa.

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)