A Rua Fernando Piteira Santos, membro da 1ª Comissão Municipal de Toponímia pós 25 de Abril

Freguesia de Carnide
(Foto: Sérgio Dias)

Fernando Piteira Santos foi membro da primeira Comissão Municipal de Toponímia após o 25 de Abril de 1974, bem como da primeira Comissão Municipal de Toponímia da década de 90 do séc. XX, e desde o ano seguinte ao seu falecimento dá nome a uma Rua de Carnide, com a legenda «Político e historiador/1918 – 1992».

A primeira Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa após o 25 de Abril de 1974 era presidida pelo Vereador Henrique José Monteiro Chaves  e integrava o Dr. Fernando Castelo Branco, em representação da autarquia, bem como três personalidades convidadas, a saber a Drª Maria da Conceição Machado, a  Drª Leonor Pizarro Beleza e o Dr. Fernando Piteira Santos. A primeira reunião desta Comissão ocorreu em 15 de novembro de 1974 e a última, no dia 22 de julho de 1975.

Piteira Santos voltou a ser convidado para a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa, na primeira dos anos 90 do séc. XX, onde participou desde a primeira reunião, em 8 de junho de 1990, até à data do seu falecimento.

No ano seguinte, a partir de uma moção aprovada por unanimidade na reunião de Câmara de 30 de setembro de 1992  e formalizado através do Edital municipal de  26/01/1993, Fernando Piteira Santos  passou a ser o topónimo do Impasse G da Nova Urbanização do Bairro Padre Cruz, a ligar hoje a Rua Prof. Arsénio Nunes à Rua Prof. Sedas Nunes. O mesmo edital também colocou o professor catedrático Tiago de Oliveira no Impasse I, contribuindo para reforçar a presença de professores universitários naquela  zona da cidade.

Piteira Santos com Oliveira Marques (à esquerda) em 25 de outubro de 1975, numa conferência no São Luiz
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Fernando António Piteira Santos (Amadora/23.01.1918 – 28.09.1992/Lisboa) foi um político, historiador, professor universitário e jornalista. Logo nos anos quarenta do séc. XX dirigiu movimentações estudantis contra as propinas e pela Autonomia Universitária e veio a ser membro do Comité Central do PCP entre 1941 e 1950, ano em que foi expulso a pretexto de uma falsa acusação de delação, aproximando-se então da Resistência Republicana e Socialista. Oposicionista ativo ao Estado Novo conheceu os cárceres da ditadura, tendo sido preso por três vezes. Colaborou na tentativa de assalto ao Quartel de Beja (1961) vendo-se por isso obrigado a passar à clandestinidade e depois ao exílio político em Argel, onde foi um dos membros fundadores da Frente Patriótica de Libertação Nacional (FPLN) e de lá só regressou após a revolução de 25 de Abril de 1974.

Em maio de 1974 foi nomeado Diretor-Geral da Cultura Popular e Espetáculos mas exerceu o cargo apenas por um mês e passou a dirigir os Centros Populares 25 de Abril e a integrar a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa. Em 1977 esteve na fundação da associação Fraternidade Operária, criada por destacados dirigentes e militantes do PS, entre os quais Lopes Cardoso e César Oliveira, descontentes com o rumo político tomado pelo partido.

De 1974 a 1988 Piteira Santos também lecionou na Faculdade de Letras de Lisboa e na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, dedicando-se sobretudo ao estudo das questões metodológicas da História e dos regimes fascistas e totalitários, em especial o Estado Novo.

Enquanto fundador da Sociedade Portuguesa de Autores teve um papel preponderante na luta pela independência e liberdade dos autores portugueses mas também trabalhou nas editoras Europa-América e Sá da Costa, para além de se dedicar ao jornalismo, particularmente no Diário de Lisboa, de que foi diretor-adjunto de 1974 a 1989 e onde assinou a coluna de análise política «Política de A a Z» a partir de 1976. Também colaborou na Seara Nova e na revista Ler, da qual chegou a ser chefe de redação.

Freguesia de Carnide
(Planta: Sérgio Dias)

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A Rua Braamcaamp Freire, Presidente da CML quando Ventura Terra foi vereador

Anselmo Braamcamp Freire em 1911 (Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

Anselmo Braamcamp Freire em 1911
(Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

Ventura Terra foi vereador da primeira gestão republicana na CML,  no período de 1908 a 1913, tendo assim conhecido de perto Anselmo Braamcaamp Freire que era Vice-presidente até 1910 e foi depois eleito Presidente.

No entanto, só mais de 20 anos após o falecimento de Braamcaamp Freire é que este teve honras de topónimo lisboeta, pelo Edital de 13 de maio de 1949, fixado no arruamento identificado como Rua A do Bairro da Quinta dos Apóstolos à Rua Lopes. Pelo mesmo Edital municipal foram também atribuídos os nomes de Sousa Viterbo na  Rua B, de David Lopes na Rua C  e de Adolfo Coelho na Rua D.

Foi neste período em que o Arqº Miguel  Ventura Terra foi também vereador  na Câmara Municipal de Lisboa que elaborou planos na área do urbanismo, nomeadamente para a zona ribeirinha da capital – com a fim da linha férrea em Santos para que a zona até ao Cais do Sodré passasse a ser zona de lazer – e Rua do Arsenal com arcadas nos prédios (1908), bem como para o Parque Eduardo VII tendo até em 13 de outubro de 1910 proposto «que seja dado o nome de Esplanada dos Heróis da Revolução ao espaço que no meu projecto de Parque Eduardo VII fica compreendido entre o limite norte da Praça do Marquês de Pombal, as ruas Fontes Pereira de Melo e António Joaquim Aguiar e o Palácio de exposições e festas onde começa o parque propriamente dito» e que até foi aprovado mas que não chegou a ser concretizado.  A 9 de março do ano seguinte propôs ainda a atribuição dos nomes de Eugénio dos Santos, Nuno Santos e Silva Porto a ruas importantes de Lisboa. Foi ainda Ventura Terra que solicitou a António Teixeira Lopes a execução de um busto em mármore de Anselmo Braamcamp Freire, pago pelos 11 vereadores, que em 1911 ficou colocado nos Paços do Concelho de Lisboa.

Freguesia de Penha de França (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Penha de França
(Foto: Sérgio Dias)

Anselmo Braamcamp Freire, nascido na então Freguesia de São José (Lisboa/01.02.1849 – 23.12.1929/Lisboa) foi um homem de cultura invulgar, arqueólogo e genealogista, escritor e historiador, que depois de 1875 voltou a morar em Lisboa, na Rua do Salitre, para publicar, a partir de 1903, o Arquivo Histórico Português,  que por uma minuciosa pesquisa na Torre do Tombo e outros arquivos trouxe a lume documentos inéditos da história do país. Como político, foi o 1º Presidente da Câmara Municipal de Loures (de 1887 a 1889 e também de 1893 a 1895); aderiu em 1907 ao Partido Republicano e assim foi vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa de 1908 a 1910 e depois eleito Presidente em 1911, função que desempenhou até 1913. Paralelamente, foi deputado republicano à Câmara Constituinte de 1911 e foi o 1º Presidente do Senado da República.  É ainda no ano de 1911, a 21 de agosto, que enquanto Presidente da Assembleia Braamcamp Freire promulgou a 1ª Constituição da República.

Braamcamp Freire precursor de genealogia científica em Portugal, foi sócio efetivo da da Sociedade de Geografia de Lisboa e da Academia das Ciências de Lisboa, tendo desta última sido Presidente em 1918, para além de vasta obra publicada de que salientamos O Conde de Vila Franca e a Inquisição (1899), As sepulturas do Espinheiro (1901), Em volta de uma carta de Garcia de Resende (1905),  Amarrado ao pelourinho (1907), Livro dos bens de D. João de Portel: cartulario do século XIII (1910), Um aventureiro na empresa de Ceuta (1913), Gil Vicente, poeta e ourives (1914), Maria Brandoa, a do Crisfal (1916), Vida e Obra de Gil Vicente, Trovador e Mestre da Balança (1918), Notícias da feitoria de Flandres: precedidas dos Brandões poetas do Cancioneiro (1920), A censura e o Cancioneiro Geral ou Brasões da Sala de Sintra (ambos em 1921).

Braamcamp Freire legou à cidade de Santarém a sua vasta biblioteca, as suas múltiplas obras de arte e a casa onde viveu, que é  hoje a Biblioteca Municipal de Santarém.

Freguesia de Penha de França (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Penha de França
(Planta: Sérgio Dias)

Ventura Terra na Rua Alexandre Herculano

Freguesia de Santo António (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias)

Ventura Terra pode ser encontrado por três vezes na Rua Alexandre Herculano – um topónimo de 1882 – já que nesta artéria deparamos no nº25 com a obra de Ventura Terra que foi  o Prémio Valmor de 1911, no nº 57  com a própria casa do arquiteto e exemplo da Arte Nova também galardoada com o Prémio Valmor (1903) e ainda, com a terceira obra que é a Sinagoga de Lisboa (1904), também designada como Shaaré Tikvá ou Portas da Esperança.

Ali bem próximo, no nº  37 da Rua Duque Palmela, está outra vez o traço de Ventura Terra, no prédio do Comendador Emílio Liguori, de 1902.

Alexandre Herculano que foi Presidente da Câmara Municipal de Belém (1854 e 1855) teve o seu nome atribuído pela 1ª vez em Lisboa cerca de 4 meses após a sua morte, por edital do Governo Civil de Lisboa de 18 de janeiro de 1878,  mas 9 anos depois, o Edital municipal de 10 de janeiro de 1888,  alterou o topónimo para Rua Fradesso da Silveira, e ainda hoje assim se mantêm na Freguesia de Alcântara, evitando assim duas ruas com o mesmo nome em Lisboa já que mais ou menos seis antes a deliberação camarária de 6 de maio de 1882 atribuíra o topónimo Rua Alexandre Herculano à artéria perpendicular à Avenida da Liberdade dirigida para o Largo do Rato, ao mesmo tempo que também instituía nesta zona a Rua Castilho, a Rua Barata Salgueiro, a Rua Mouzinho da Silveira, a Rua Passos Manuel (depois Rua Rosa Araújo pelo Edital de 19/04/1887) e a Praça do Marquês de Pombal.

Freguesia de Santo António (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Planta: Sérgio Dias)

Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo (Lisboa/28.03.1810 – 13.09.1877/Vale de Lobos) foi sobretudo um escritor e historiador, considerado o introdutor do Romantismo em Portugal como Almeida Garrett e um  renovador do estudo da História de Portugal, mas também um político que terminou a sua vida como agricultor e afamado produtor do azeite «Herculano», negócio que acabou por vender à Jerónimo Martins.

Alexandre Herculano nasceu no Pátio do Gil (memória de um António Rodrigues Gil) na Rua de São Bento, onde foi colocada uma lápide em 26 de abril de 1910 para o assinalar e aqui  também residiu o arquiteto Manuel Caetano de Sousa, irmão da avó materna de Herculano. Começou a estudar com os padres Oratorianos de S. Filipe Nery, no Convento das Necessidades, mas após a cegueira do seu pai em 1827 não conseguiu seguir para a universidade e em  1830 seguiu escolheu a Aula de Comércio, a que acrescentou um curso de Diplomática  e estudos de francês, italiano, inglês e alemão. Com a a Revolução Liberal interrompeu os estudos e pelo seu envolvimento na Revolta  de 21 de agosto de 1831 do 4 de Infantaria contra o governo miguelista foi mesmo obrigado a emigrar para Inglaterra. Depois juntou-se ao exército liberal de D. Pedro IV na Ilha Terceira, onde conheceu Garrett, desembarcou no Mindelo e participou no cerco do Porto. Ajudou a organizar a Biblioteca Pública do Porto e voltou a Lisboa para dirigir a revista Panorama, de que foi também redator principal de 1837 a 1839 e depois, a partir de 1842. Alexandre Herculano foi agraciado como cavaleiro da ordem da Torre e Espada em 1839 e a partir desse ano passou a dirigir as bibliotecas reais das Necessidades e da Ajuda, nomeado pelo rei D. Fernando. Em paralelo, para somar ao seu romance O Pároco de Aldeia (1825) e à poesia de A Harpa do Crente (1837), foi publicando algumas das sua obras de que destacamos os 2 volumes de Lendas e Narrativas (entre 1839 e 1844), a peça Os Infantes em Ceuta (1842), o romance histórico Eurico, o Presbítero (1842), a sua História de Portugal (1846 – 1853) que introduz em Portugal  a historiografia científica, O Monge de Cister (1848) e História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal (1854-1859).  A Academia das Ciências de Lisboa nomeou-o sócio efetivo em 1852 e encarregou-o da recolha dos Portugaliae Monumenta Historica  (documentos valiosos dispersos pelos cartórios conventuais do país), investigação a que se dedicou em 1853 e 1854 e cuja publicação decorreu de 1856 a 1873.

Alexandre Herculano foi ainda preceptor do futuro rei D. Pedro V, deputado por um dos círculos do Porto em 1840, bem como vereador e depois Presidente da Câmara Municipal de Belém (1854 e 1855), após o que foi um dos fundadores do Partido Progressista Histórico, em 1856. Conhecido pela sua posição anticlerical Herculano participou na redação do primeiro Código Civil português (1860-1865) e chegou a propor a introdução do casamento civil a par do religioso.

Em 1867 casou com D. Mariana Meira e retirou-se para a sua quinta de Vale de Lobos (Azoia de Baixo – Santarém) dedicando-se quase exclusivamente à agricultura e, já que 21 dos seus 40 hectares de terra eram olival, produziu o azeite «Herculano» que ganhou medalhas de cobre, prata e ouro em Exposições Internacionais, e cujos direitos de comercialização vendeu em 1876 à Jerónimo Martins.

Freguesia de Santo António (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias)

A Praça Rocha Martins, o primeiro divulgador das «Termas» da Rua da Prata

Freguesia de Carnide (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Carnide
(Foto: Sérgio Dias)

Rocha Martins que foi o primeiro grande divulgador das chamadas «Termas» da Rua da Prata (hoje conhecidas como Galerias Romanas da Rua da Prata), por via da sua reportagem publicada em 8 páginas da  Ilustração Portuguesa de 18 de outubro de 1909, com fotografias de Joshua Benoliel, tem desde 1993 o seu nome perpetuado em Lisboa, pelo Edital municipal de 31 de agosto,  no Impasse A1 do Novo Bairro da Horta Nova (ou Impasse A1 à Rua A à Estrada do Paço do Lumiar – Quinta dos Castanheiros), com a legenda «Jornalista e Historiador/1879 – 1952», a partir da primeira proposta de Appio Sottomayor enquanto membro da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa.

Rocha Martins a sair das Galerias Romanas da Rua da Prata em 1909 (Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rocha Martins a sair das Galerias Romanas da Rua da Prata, em 1909
(Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

Francisco José da Rocha Martins (Lisboa- Belém/1879 – 23.05.1952/Sintra) foi um autodidacta que desde muito novo trabalhou em inúmeras publicações e viveu exclusivamente da escrita, chegando a dirigir jornais seus, como o ABC (de 1920 a 1930) e o Arquivo Nacional (de 1932 a 1943). Trabalhou para  as revistas Ilustração PortuguesaSerões, Feira da Ladra, Mundo Gráfico e a Revista Municipal da CML, o semanário Papagaio Real e o Comércio do Porto, o Diário Popular, o Diário de Notícias, o Jornal da Noite,  o Liberal, o Primeiro de Janeiro, o  Vanguarda e  o República.

Na sua obra publicada somou inúmeros romances históricos, obras de divulgação histórica e, dezenas de biografias da sua autoria, sendo de referir os romances históricos Gomes Freire e Madre Paula (ambos de 1900) ou Maria da Fonte (1902), bem como Alexandre Herculano e a sua época (1910), A Corte de Junot em Portugal (1910), Bocage – Episódios da sua vida (1936),   Dom Manuel II (1931),  Dona Flor da Murta (1928),  Os Grandes Vultos da Restauração de Portugal (1940), Inês de Castro (1910), Memórias Sobre Sidónio Pais (1921), A Monarquia do Norte (1922), Rei Santo – Crónica do reinado de D. Pedro V (1905),  e  a vasta série de estudos biográficos intitulada Vermelhos, Brancos e Azuis (1948). Sobre Lisboa escreveu uma série de artigos de divulgação e estudo que foi reunida sob o título de Lisboa de ontem e de hoje (1945).

Monárquico liberal, Rocha Martins editou em 1914 panfletos semanais escaldantes sobre acontecimentos políticos, arrasando Afonso Costa e o Partido Democrático, sob o título Fantoches, de que fez uma 2ª série, em 1923 e 1924, intitulada Fantoches – Bastidores da Política e dos Negócios. No consulado de Sidónio Pais foi deputado e o seu semanário ABC, patrocinado pela  publicidade do Bristol Club, apoiou em 28 de maio de 1926 a arrancada do então general Gomes da Costa, para além de neste início da Ditadura Nacional ter sido assessor de imprensa de Linhares de Lima, por ocasião da Campanha do Trigo de 1929. Contudo, acabou por se tornar popular enquanto crítico do salazarismo, particularmente durante a campanha presidencial do General Norton de Matos, nos artigos em forma de carta que assinava  e saiam estampadas a toda a largura da 1ª página no República, que até criaram um dito dos ardinas, metade apregoado e metade sussurrado «Fala o Rocha!… O Salazar está à brocha».

Francisco José da Rocha Martins pertenceu à Sociedade Voz do Operário  a quem deixou a sua biblioteca e esta instituição realizou uma exposição sobre a sua obra no 50º aniversário da sua morte, com o apoio da Hemeroteca Municipal de Lisboa e do Grupo Amigos de Lisboa.

Freguesia de Carnide (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Carnide
(Planta: Sérgio Dias)

O Largo Júlio de Castilho

Freguesia do Lumiar (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

Júlio de Castilho que viveu e faleceu no Lumiar, no nº 11 da Travessa do Prior ( hoje nº 26 da Rua Pena Monteiro), teve o seu nome imortalizado no Largo contíguo – que era o Largo da Duquesa-, por Edital municipal de 2 de março de 1925, com a legenda «Erudito Escritor e Historiador/1840 – 1919», recordando a sua obra publicada sobre Lisboa: Lisboa antiga – Primeira parte: 0 Bairro Alto (1879), Lisboa antiga – Segunda parte: Bairros orientais em 8 tomos (1884 – 1890) e A Ribeira de Lisboa, descrição histórica da margem do Tejo desde a Madre de Deus até Santos o Velho (1893).

 Júlio de Castilho em data anterior a 1919 (Foto: José Leitão Bárcia, Arquivo Municipal de Lisboa)

Júlio de Castilho em data anterior a 1919
(Foto: José Artur Bárcia, Arquivo Municipal de Lisboa)

Júlio de Castilho (Lisboa/30.04.1840- 08.02.1919/Lisboa), 2.º visconde de Castilho por ser filho primogénito de António Feliciano de Castilho (também perpetuado em Lisboa na Rua Castilho), é considerado um percursor dos estudos olisiponenses, tendo mesmo conseguido uma importante coleção pessoal de documentos sobre o tema, hoje depositada na Biblioteca Nacional. Habilitado com o Curso Superior de Letras foi primeiro-oficial da Biblioteca Nacional de Lisboa, onde desenvolveu investigação na área da bibliografia e da biografia que se espelhou, bem como a sua faceta de poeta e dramaturgo, na obra que publicou e da qual salientamos  Primeiros versos (1867), os 3 volumes de Antonio Ferreira, poeta quinhentista, estudos biographico litterarios, seguidos de excerptos do mesmo autor (1875), o drama em 5 actos e em verso D. Ignez de Castro (1875) com uma monografia, Memórias de Castilho (1881), O archipelago dos Açôres (1886), D. António da Costa, quadro biographico litterario (1895), Elogio historico do arquitecto Joaquim Possidonio Narciso da Silva, proferido em sessão solemne da Real Associação dos Architectos e Archeologos portuguezes em 28 de Março de 1897 (1897), A mocidade de Gil Vicente, o poeta, quadros da vida portugueza nos séculos XV e XVI (1897), Amores de Vieira Lusitano (1901) e um Requerimento a sua magestade el-rei pedindo a abolição das touradas em Portugal (1876), apresentado em nome da Sociedade Protetora dos Animais.

Colaborou também com diversos órgãos de comunicação social como o Arquivo Pitoresco, o Diário Oficial do Rio de Janeiro, a Gazeta Literária do Porto, O Ocidente, a Revista Contemporânea de Portugal e Brasil e A semana de Lisboa. Em 1906 foi-lhe atribuída a tarefa de ser professor de História e de Literatura Portuguesa do Infante D. Luís e ainda desempenhou as funções de cônsul de Portugal em Zanzibar (1888).

Recorde-se também que Júlio de Castilho foi sócio  da Academia das Ciências de Lisboa, da Associação dos Arquitectos e Arqueólogos Portugueses, bem como sócio correspondente do Instituto de Coimbra, do Gabinete Português de Leitura de Pernambuco,  do Instituto Vasco da Gama de Nova Goa e da Associação Literária Internacional de Paris. Foi ainda Governador Civil do distrito da Horta (1877 – 1878) o que lhe trouxe a distinção de sócio honorário do Grémio Literário Faialense e do Grémio Literário Artista da Horta.

Júlio de Castilho já tinha sido homenageado em Lisboa logo no ano do seu falecimento com a colocação de uma lápide na casa onde viveu por iniciativa de Miguel Trancoso, José Artur Bárcia e António César Mena Júnior, assim como com um busto seu de autoria de Costa Mota (tio), no Largo de Santa Luzia, e inaugurado no dia 25 de julho de 1929, ganhando o espaço ajardinado o nome de Jardim Júlio de Castilho.

Freguesia do Lumiar (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Luz Soriano do «Diário de Lisboa»

Fernando Assis Pacheco no Diário de Lisboa (Foto: © Fernando Assis Pacheco no Facebook)

Fernando Assis Pacheco no Diário de Lisboa
(Foto: © Fernando Assis Pacheco no Facebook)

Fernando Assis Pacheco foi desde 1965  jornalista do Diário de Lisboa, um dos muitos jornais que animaram o Bairro Alto e que se encontrava sediado nos nº 44 e nº 48 da Rua Luz Soriano, rua íngreme que Assis Pacheco calcorreou muitos dias, já que trabalhou neste jornal de 1965 e até 1971, interrompendo de 1972 a 1974 para estar no República, na Rua da Misericórdia, regressando ao vespertino em 1974 e até 1979, ano em que passou a trabalhar nas várias publicações da Projornal, na Avenida da Liberdade.

Esta Rua Luz Soriano que veio substituir a seiscentista denominação de Rua do Carvalho nasceu ainda em vida do homenageado, em resultado da deliberação camarária de 12/04/1887 e do Edital municipal de 08/07/1887 que a justifica assim: «a mesma câmara considerando que a doação que lhe fora feita pelo cidadão Simão José da Luz Soriano, da verba de oito contos de réis e da propriedade de casas em que reside, na rua do Carvalho, para a fundação e manutenção de uma escola de instrucção primaria, constitue um valioso serviço prestado ao municipio; considerando que actos d’estes merecem immediato galardão para que sirvam de incitamento a presentes e vindouros; considerando que é dever da camara retribuir o generoso donativo de tão prestante cidadão com um acto que a todos recorde o seu nome philantropico.»

Freguesia da Misericórdia - placa de azulejo (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Misericórdia – placa de azulejo
(Foto: Sérgio Dias)

Simão José da Luz Soriano (Lisboa/2 ou 08.09.1802- 18.08.1891/Lisboa) firmou-se como um político do Liberalismo, assim como um historiador que deixou obras monumentais como História do Cerco do Porto precedida de uma extensa noticia sobre as diferentes fases políticas da monarquia, desde os mais remotos tempos até ao ano de 1820, e desde este mesmo ano até ao começo do sobredito cerco(1846-1849) – obra que, apesar dos seus defeitos, tem extremo interesse como valor de consulta;  ou os 17 volumes da História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal (1866-1890) que Luz Soriano foi encarregue de escrever pelo governo, por uma verba anual de 600$000 réis. São ainda de salientar a sua História do Reinado de D. José (1867)  ou Vida do Marquês de Sá da Bandeira (1887-1888).

Nos seus muitos legados beneméritos Luz Soriano fez também doações à Casa Pia de Lisboa, Misericórdias de Lisboa e Coimbra para atribuição de bolsas de estudos superiores, assim como contribuiu para o monumento a Afonso de Albuquerque (em Belém) e para o do marquês de Sá da Bandeira.

Aluno da Casa Pia de Lisboa que o fez patrono da Biblioteca-Museu do Ateneu Casapiano, foi mediante uma bolsa que Luz Soriano estudou matemática e filosofia em Coimbra e, depois das guerras liberais, se formou em Medicina, mas nunca exerceu. Em 1828, devido às suas ideias liberais, emigrara para a Galiza e depois, para Plymouth, seguindo daí em 1829 para a Terceira – quartel general do exército liberal – onde exerceu jornalismo político, sendo o redator principal da Crónica da Terceira. Regressado com D. Pedro IV em 1832, inserido no grupo dos Bravos do Mindelo (com Herculano e Garrett), iniciou uma relevante carreira de funcionário da Secretaria da Marinha e Ultramar.  Em 1851 foi também deputado por Angola,  sendo reeleito nas seguintes legislaturas, e foi ainda ao serviço desta província africana que impulsionou o desenvolvimento da colónia de Moçâmedes, para se consolidar o domínio português no porto de Ambriz, de que a Inglaterra pretendia assenhorear-se.

Freguesia da Misericórdia (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua do professor de História de Arte Mário Chicó

Freguesia do Lumiar (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua Prof. Mário Chicó, artéria com a legenda «Historiador de Arte/1905 – 1966» perpetua a memória do docente universitário que foi o mestre de várias gerações de historiadores de arte da Universidade de Lisboa  e que pelo Edital municipal de 27/02/1978 deu o seu nome à Rua 4 da Zona de Telheiras.

Pelo mesmo edital e na mesma zona foram também atribuídos mais 13 topónimos de professores universitários o que tornou Telheiras «O Bairro dos Professores». Os escolhidos foram os historiadores Damião Peres, João Barreira, Luís Reis Santos, Queiroz Veloso e Virgínia Rau, bem como o historiador de Literatura Portuguesa Hernâni Cidade, os filósofos Delfim Santos e Vieira de Almeida, os médico Fernando da Fonseca, Henrique Vilhena, Mark Athias e Pulido Valente  e ainda, o matemático Bento de Jesus Caraça.

Nascido Mário de Sousa Tavares (Beja/18.05.1905 – 11.08.1966/Lisboa) mas que a partir da maioridade assumiu o nome de Mário Tavares Chicó, começou a partir de 1945 a reger as cadeiras de Estética,  História da Arte Geral e História da Arte Portuguesa e Ultramarina na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com inúmeras aulas práticas em monumentos e museus. Chicó tornou-se ainda figura destacada da História de Arte e Museologia portuguesas, já que organizou o Museu da Cidade de Lisboa em 1941 através de um programa de adaptação do Palácio da Mitra a Museu da Cidade de Lisboa e da escolha das coleções a expor, tal como nessa mesma década reformulou o Museu Regional de Évora. Da sua obra publicada destacam-se Arquitectura Gótica em Portugal (1954), bem como  Arquitectura da Idade Média em Portugal. Dois Estudos acerca do Mosteiro da Batalha (1944), A Catedral de Évora na Idade Média (1946), A ‘Cidade Ideal’ do Renascimento e as Cidades Portuguesas da Índia (1956), Algumas Observações acerca da Arquitectura da Companhia de Jesus no Distrito de Goa» (1956).

Para além de Historiador de Arte, Mário Chicó também se dedicou à fotografia, sobretudo como documentação, garantindo-lhe assim um papel preponderante como instrumento de trabalho vital em património, até nas parcerias que estabeleceu para o efeito com Mário Novaes.

Freguesia do Lumiar (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Oliveira Martins

Ilustração Portuguesa, 30.11.1910

Ilustração Portuguesa, 30.11.1910

Oliveira Martins partilha com Ramalho Ortigão a pertença à mesma Geração de 70 e a morada no mesmo prédio do nº 6 da Rua João Pereira Rosa, tendo integrado  a toponímia de Lisboa 62 anos após a sua morte, por Edital de 26/05/1956, no troço da Estrada das Amoreiras compreendido entre as Avenidas João XXI e Sacadura Cabral.

Da reunião da Comissão Municipal de Toponímia de 21/12/1955, se percebe que esta «ocupou-se do artigo publicado no “Diário de Lisboa”, de 14 do mês findo, subordinado ao título “A Consagração lapidar nas ruas de Lisboa através dos registos toponímicos” e, em face do mesmo foi de parecer que os nomes de Carlos Mayer, Oliveira Martins, João Vaz, Moura Girão, Rodrigues Vieira, António Ramalho, Ribeiro Cristino, Henrique Pinto e Cipriano Martins, denominem, respectivamente, a rua 29, rua 31, praceta da rua 28, rua 55, rua 37-A, rua projectada entre as ruas Silva e Albuquerque e Maria Amália Vaz de Carvalho, praceta das ruas 31 e Coronel Marques Leitão, praceta da Rua Filipe de Magalhães e rua 39, todas do Sítio de Alvalade». Porém, alterou a localização da Rua Oliveira Martins na reunião de 4 de maio seguinte justificando «Que Oliveira Martins denomine o troço da Estrada das Amoreiras, entre as avenidas João XXI e Sacadura Cabral, em vez da Rua 31 do Sítio de Alvalade, como se havia resolvido, passando esta rua a denominar-se Rua Lopes de Mendonça, satisfazendo, assim, o solicitado por seu filho – o coronel Vasco Lopes de Mendonça».

Joaquim Pedro de Oliveira Martins (Lisboa/30.04.1845 – 24.08.1894/Lisboa) juntou o exercício de escritor e historiador, com a política e a participação em jornais, depois de se estrear em 1867 com o romance Febo Moniz. Colaborou em O Jornal do Comércio e com Luciano Cordeiro no A Revolução de Setembro. Depois de em 1870 ter ingressado no Cenáculo de Antero de Quental e Batalha Reis, também com Eça de Queiroz, Manuel de Arriaga, Luciano Cordeiro e Teófilo Braga lançou o jornal de feição socialista A República. Foi galardoado com a medalha de ouro da Academia das Ciências pelo seu estudo A Circulação Fiduciária (1879), e nesse mesmo ano fundou a Biblioteca das Ciências Sociais onde publicou as suas obras História da Civilização Ibérica, História de Portugal e depois, História da República Romana, na firma Viúva Bertrand & Comp. Sucs. Na década de 80 do séc. XIX, o autor de Portugal Contemporâneo (1881) decidiu empenhar-se na política, como deputado em 1883 e 1889, por Viana do Castelo e pelo Porto, para além de ter publicado Política e Economia Nacional e lançado o jornal A Província. Em 1891 editou Os Filhos de D. João I  e acabou por aceitar em 17/01/1892 a pasta da Fazenda sob a presidência de Dias Ferreira, embora por divergências se tenha demitido em 27/05/1892 após o que foi nomeado vice-presidente da Junta do Crédito Público no ano seguinte, época em que também saiu a lume a sua última obra, Vida de Nun’Álvares, antes de falecer vítima de tuberculose.

Freguesias de Alvalade e do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias de Alvalade e do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

Freguesias de Alvalade e do Areeiro

Freguesias de Alvalade e do Areeiro

A Rua do historiador baiano Pedro Calmon

Em 1952 (Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

Em 1952, na Torre do Tombo, em Lisboa
(Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

O historiador brasileiro Pedro Calmon passou a integrar a toponímia de Lisboa cerca de dois anos após o seu falecimento, pelo Edital municipal de 7 de setembro de 1987, substituindo a antiga Rua Avelar Brotero, em Alcântara.

Este topónimo surgiu na sequência da Comissão Municipal de Toponímia  de Lisboa, na sua reunião de 19 de julho de 1987, ter considerado «que existem em Lisboa duas artérias cujos topónimos consagram, ambos, a figura do ilustre botânico Avelar Brotero, uma delas – a Rua Brotero – situada na freguesia da Ajuda, junto ao Jardim Botânico; a Comissão é de parecer que a actual Rua Avelar Brotero, na freguesia de Alcântara, deverá passar a denominar-se: Rua Pedro Calmon – Historiador e Amigo de Portugal -1902 – 1985», aceitando assim a sugestão feita pela Academia Portuguesa de História para incluir o historiador na toponímia alfacinha.

De seu nome completo Pedro Calmon Moniz de Bittencourt (Bahia – Amargosa/23.12.1902 – 17.06.1985/Rio de Janeiro), foi um historiador brasileiro cuja obra fundamental é a sua História do Brasil, em 7 volumes. Licenciado em Direito desde 1924, construiu uma trajetória como professor universitário, político, historiador e o 3º ocupante da Cadeira 16 da Academia Brasileira de Letras a partir de 1936.

Docente da Faculdade de Direito do Rio de Janeiro a partir de 1934 foi quatro anos depois catedrático de direito público constitucional e diretor da Faculdade de Direito, e desta Universidade Federal do Rio de Janeiro foi Reitor de 1948 a 1950 e de 1951 a 1966. Exerceu também como professor na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, no Colégio Pedro II e na Faculdade de Filosofia da Bahia, para além de ser doutor honoris causa  pelas Universidades de Coimbra, Quito, Nova Iorque, San Marcos e  Universidade Nacional do México.

Pedro Calmon foi eleito em 1941 presidente da Academia Brasileira de Letras e seguiu como delegado do Brasil às conferência para o Acordo Ortográfico, realizada em Lisboa. Foi ainda conservador do Museu Histórico Nacional (1925), sócio de mérito da Academia Portuguesa de História, Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro e a Academia das Ciências de Lisboa, diretor do Instituto de Estudos Portugueses Afrânio Peixoto e do Liceu Literário Português (1948), vice-presidente do Conselho Federal de Cultura (1967) e, presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil a partir de 1968.

Como político foi deputado estadual do Partido Republicano da Bahia (1927 -1930),  Deputado Federal (1935), ministro da Educação e Saúde (1950 –  1951) e, durante o governo de Juscelino Kubitschek ocupou interinamente a pasta do Ministério da Educação e Cultura.

 

Freguesia de Alcântara (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Alcântara
(Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Alcântara

Freguesia de Alcântara