A Avenida e a Praça de Dom João II, o Príncipe Perfeito

Praça Príncipe Perfeito - Freguesia do Parque das Nações (Foto: Sérgio Dias)

Praça Príncipe Perfeito – Freguesia do Parque das Nações
(Foto: Sérgio Dias)

D. João II, «Príncipe Perfeito» de cognome, é topónimo de duas artérias do Parque das Nações, herdadas da Expo 98: a  Avenida D. João II, que corre paralela à Rua do Pólo Sul, e nasce na Praça Príncipe Perfeito para desembocar na Via do Oriente.

No âmbito da requalificação urbana resultante da Expo 98 «Os Oceanos: um património para o futuro», a Câmara Municipal de Lisboa oficializou pelo Edital de 16/09/2009 os topónimos escolhidos pela organização do evento para figurarem nos arruamentos no decorrer da exposição, já que na altura em que se tornaram território administrativo do concelho de Lisboa já possuíam prédios construídos e causaria transtornos e custos aos residentes a mudança de topónimo.

Esta herança toponímica que Lisboa acolheu integra referências aos oceanos, aos Descobrimentos Portugueses, aos aventureiros marítimos de diversas nacionalidades, da literatura e da banda desenhada, assim como figuras de relevo para Portugal, escritores portugueses ou obras suas de alguma forma ligadas ao mar e ainda, alguns biotopónimos.

Avenida D. João II - Freguesia do Parque das Nações (Foto: Sérgio Dias)

Avenida D. João II – Freguesia do Parque das Nações
(Foto: Sérgio Dias)

D. João II (Lisboa- Paço das Alcáçovas/03.03.1455 – 25.10.1495/Alvor), 13º rei de Portugal, de 1481 a 1495, filho de D. Afonso V e de D. Isabel de Coimbra, casou com sua prima direita D. Leonor de Viseu em 1471 e caracterizou o seu reinado pelo empenho em restabelecer a eficácia do poder central e restaurar as finanças públicas por um lado, enquanto por outro, defendeu a política de exploração atlântica, dando prioridade à busca de um caminho marítimo para a Índia, tanto mais que já desde 1474 dirigia a política atlântica de expansão portuguesa.

Foi D. João II que após ordenar as viagens de Bartolomeu Dias e de Pêro da Covilhã, e  na sequência da recusa em apoiar Cristóvão Colombo, delineou em 1494 o plano da primeira viagem à Índia para ser executada por Estêvão da Gama e negociou com os Reis Católicos o Tratado de Tordesilhas que dividiu o controlo do mundo entre Portugal e Espanha, já com o Brasil – oficialmente descoberto em 1500 – na metade portuguesa. A totalidade das descobertas portuguesas do reinado de João II permanece desconhecida já que muita informação foi mantida em segredo por razões políticas e arquivos desse período foram destruídos no Terramoto de 1755.

D. João II foi a efígie nas notas de mil angolares (do Banco de Angola) de 1 de junho de 1944, bem como das de 500 escudos do Banco de Portugal de 25 de janeiro de 1966.

A Avenida D. João II e a Praça Príncipe Perfeito - Freguesia do Parque das Nações (Planta: Sérgio Dias)

A Avenida D. João II e a Praça Príncipe Perfeito – Freguesia do Parque das Nações
(Planta: Sérgio Dias)

Praça D. Pedro IV, antes D. Pedro e ainda antes Rossio

Em 1925 (Foto: Manuel Tavares, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Praça de Dom Pedro em 1925
(Foto: Manuel Tavares, Arquivo Municipal de Lisboa)

Aquela artéria lisboeta que no presente todos conhecemos vulgarmente por Rossio já no séc. XIX se denominava Praça do Rossio, e há pouco mais de 180 anos, por decreto governamental de 31/10/1836, passou a designar-se Praça de Dom Pedro, a qual foi alterada pelo Edital municipal de 26 de março de 1971 para Praça Dom Pedro IV.

A reunião da Comissão Municipal de Toponímia de 19 de março de 1971 é esclarecedora ao pronunciar-se «sobre a forma como devem ser escritos os letreiros toponímicos»,  sendo do parecer «Que a nomenclatura da Praça de D. Pedro seja alterada para: Praça de D. Pedro IV», pelo simples motivo de «Já que assim consta dos letreiros ali afixados há longo tempo e ainda porque dessa forma melhor se identifica a figura histórica homenageada».

(Foto: Rui Mendes)

(Foto: Rui Mendes)

O homenageado é D. Pedro I do Brasil e IV de Portugal, que recebeu os cognomes de O Libertador e Rei Soldado, de seu nome completo Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Serafim de Bragança e Bourbon (Palácio de Queluz/12.10.1798 – 14.09.1834/Queluz), filho de D. João VI e da sua esposa, D. Carlota Joaquina. Tendo a coroa portuguesa fugido das invasões francesas residiu no Brasil entre 1807 e 1831. Por força da Revolução Liberal de 1820 no Porto os seus pais regressaram a Portugal e foi nomeado regente em 1821. No ano seguinte, declarou a independência do Brasil, face ao domínio português. Assim, foi D. Pedro I, o primeiro imperador do Brasil, no período de 7 de setembro de 1822 (O grito do Ipiranga) a 7 de abril de 1831, ano em que abdicou para assumir a coroa portuguesa, como D. Pedro IV, em defesa dos direitos da sua filha, D. Maria da Glória, que virá a ser a rainha D. Maria II (Rio de Janeiro/04.04.1819 – 15.11.1853/Lisboa), e que significativamente dá nome ao Teatro instalado na Praça D. Pedro IV, tendo este aberto as suas portas em 13 de abril de 1846, durante as comemorações do 27.º aniversário da rainha D. Maria II .

Como D. Pedro IV aparece entre os topónimos de Felgueiras,  Queluz e Valongo, enquanto como D. Pedro I surge no Brasil na Baía, em Goiânia, Minas Gerais, Paraíba ou Rio de Janeiro.

Freguesia de Santa Maria Maior (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

A Travessa da Memória da salvação de D. José I e do Salão Portugal

Salão Portugal na Travessa da Memória em 1969 (Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

Salão Portugal na Travessa da Memória em 1969
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

A memória da aventura galante de D. José I com D. Teresa de Távora que terminou com um atentado à integridade física do soberano, ficou registada no próprio local com a construção de uma Igreja, dedicada a Nossa Senhora do Livramento por ele ter saído ileso e a São José pelo nome do rei, bem como com três topónimos, a guardaram essa memória num Largo, numa Calçada e na Travessa em cujo nº 36 esteve o Salão Portugal a partir de  1928.

Cinegrafia, 23 de maio de 1929

Cinegrafia, 23 de maio de 1929

O Salão Portugal, propriedade de Nicolau Veríssimo, foi um cinema muito popular até aos anos 50 do  século passado. O Salão Portugal foi remodelado interiormente em 1936, quando já era da Sociedade Geral de Cinemas Lda., alcançando 510 lugares. Voltou em 1945 para o dono original  e após diversas vicissitudes e gerências encerrou portas em 1977. Desde 2000 que o edifício é a sede do Comité Olímpico de Portugal.

A Travessa da Memória, na Freguesia da Ajuda, foi formalizada pelo Edital municipal de  26/09/1916, tal como a Calçada da Memória. Já o Largo da Memória não possui prova documental que ateste a sua data de fixação mas todos os três topónimos terão de ser posteriores ao início  da construção nesta zona da Igreja da Memória e mais adiante veremos quando. As obras começaram em maio de 1760 e a cerimónia da primeira pedra teve lugar a 3 de setembro desse ano. O templo foi traçado pelo cenógrafo e arqº Giovanni Carlo Bibienna (Itália/1717-20.11.1760/Lisboa) , responsável por diversas obras como a Real Barraca da Ajuda e a sua Capela Real ou o Teatro Real da Ópera do Tejo. A construção só foi retomada em 1762 e voltou a parar por motivos económicos, sendo reiniciada em novembro de 1779, já sob o visionamento do arqº Mateus Vicente (Barcarena/1706 – 1785/Lisboa).  A Igreja é nos nossos dias a Diocese das Forças Armadas.

Já as três artérias da Memória devem ser mesmo do final do séc. XIX, dado que com data de 27 de outubro de 1886, encontramos no Arquivo Municipal de Lisboa um projeto de ruas na zona da Memória e da Ajuda, no qual percebemos que a Igreja da Memória confrontava com o Caminho do Buraco, o Pátio das Vacas e o Largo do Chafariz. Também com a data de 8 de janeiro de  1891 deparamos com o projeto definitivo das ruas nas denominadas Terras da Memória, em terreno cedido pela Casa Real. E em 1892, descobrimos um requerimento de vários a solicitar a demolição do muro na travessa do Pátio das Vacas para comunicação com as Terras da Memória e ainda uma solicitação de Rosa Gomes para construção de casa num dos arruamentos projetados na zona da Memória .

De acordo com Norberto de Araújo, foi na noite do dia 3 de setembro de 1758, quando o monarca saído dos aposentos da jovem marquesa de Távora D. Teresa (09.08.1723 – ?), subia de Belém para Ajuda, na carruagem do seu criado e confidente Pedro Teixeira (também fixado como topónimo numa Estrada da Ajuda), ao passar no Pátio das Vacas foi D. José atacado a tiro. Os conjurados sumiram-se e o rei partiu à desfilada para a casa do Marquês de Angeja, na Junqueira, para tratar os seus ferimentos no braço. D. José I saiu ileso desta conspiração, tida como dos Távoras, e por tal bênção foi erguida a Igreja da Memória, consagrada a Nossa Senhora do Livramento e a São José.

Depois, o Marquês de Pombal acusou os seus inimigos Távoras de conspiração, e estes foram torturados e executados em janeiro de 1759 mas D. Teresa Tomásia de Távora e Lorena foi salva com a obrigação de professar num convento. A morte dos Távoras foi celebrada com um pelourinho erguido no Beco do Chão Salgado, topónimo também relativo a essa ocasião e os restos mortais do Marquês de Pombal foram transladados em 1923 para a Igreja da Memória.

A Travessa da Memória na Freguesia da Ajuda (a amarelo), vendo-se o Largo e a Igreja da Memória (estrela verde) e a Calçada da Ajuda (bola vermelha)

A Travessa da Memória na Freguesia da Ajuda (a amarelo), vendo-se o Largo e a Igreja da Memória (estrela verde) e a Calçada da Ajuda (bola vermelha)

 

 

Da Estrada à Rua do Arco do Cego

Padrão comemorativo da intervenção da Rainha Santa Isabel no reencontro de Dom Dinis com o filho Dom Afonso, no Arco do Cego, em 1949 (Foto: Estúdio Mário Novais, Arquivo Municipal de Lisboa)

Padrão comemorativo da intervenção da Rainha Santa Isabel no reencontro de Dom Dinis com o filho Dom Afonso, na Rua do Arco do Cego, em 1949
(Foto: Estúdio Mário Novais, Arquivo Municipal de Lisboa)

As pazes entre D. Diniz e seu filho Afonso, feitas em 1323 por intermédio da Rainha Santa Isabel, foram assinaladas no local com um arco de pedra na via que passou a ser conhecida como Estrada do Arco do Cego.

No entanto, Norberto de Araújo questiona se foi aqui o local onde esteve para se dar a batalha de “Alvalade”, pelo que a colocação do padrão neste sítio, no século XVII, pode ter sido apenas uma circunstância de comodidade.

Contudo, séculos mais tarde a estreiteza desse arco dificultava a passagem dos coches e carruagens. Assim, quando em maio de 1742, D. João V adoeceu e os seus médicos resolveram que ele fosse a banhos nas Caldas da Rainha, verificou-se que o seu coche real não passava de modo algum e o rei mandou demolir o arco.

Enquanto topónimo o Arco do Cego surge em 1858 como Estrada do Arco do Cego, na cartografia de Filipe Folque. Em 1894, encontra-se um orçamento para o calcetamento do passeio da Estrada do Arco do Cego, ao Lumiar, entre o Arco do Cego e a Quinta do Conde das Galveias. E já no séc. XX, foi aprovado em sessão de Câmara de 21 de maio de 1936 um projeto de novos arruamentos entre a Avenida Defensores de Chaves, ruas Carvalho Araújo, Visconde de Santarém e o Bairro Social do Arco do Cego onde surge então a denominação Rua do Arco do Cego, com as definições que hoje lhe conhecemos entre a Avenida Visconde Valmor e o Campo Pequeno.

Rua do Arco do Cego - Freguesias das Avenidas Novas e do Areeiro

Rua do Arco do Cego – Freguesias das Avenidas Novas e do Areeiro

 

As três ruas das cozinhas reais

Rua das Cozinhas - Freguesia de Santa maria maior - Placa Tipo I (Foto: Mário Marzagão)

Rua das Cozinhas – Freguesia de Santa Maria Maior – Placa Tipo I
(Foto: Mário Marzagão)

Três artérias lisboetas recordam a gastronomia das cozinhas reais, sendo duas junto ao Castelo de São Jorge e a outra na Freguesia da Ajuda, na proximidade do Palácio da Ajuda.

Na antiga Freguesia do Castelo, hoje integrada na Freguesia de Santa Maior, encontramos a Rua das Cozinhas, que começa junto ao nº 37 da Rua do Espírito Santo e é uma artéria que surgiu após o Terramoto de 1755 para perpetuar a memória das cozinhas do Paço de Alcáçova medieval neste local.

Na mesma zona deparamos com o Beco do Forno do Castelo, que une a Rua do Recolhimento à Rua de Santa Cruz do Castelo. Este topónimo antigo já aparece registado nas descrições paroquiais anteriores ao Terramoto de 1755, como Beco do Forno, e foi o Edital do Governo Civil de Lisboa de 1 de setembro de 1859 que lhe acrescentou «do Castelo», para o diferenciar dos tantos outros topónimos com a palavra forno existentes em arruamentos da cidade. Oitenta e cinco anos depois a Comissão Municipal de Toponímia, na sua reunião de 14 de novembro de 1944, sugeriu que se denominasse «Beco do Forno ao Castelo» em vez de «Beco do Forno do Castelo» mas tal indicação nunca teve execução prática.

Beco do Forno do Castelo e Rua das Cozinhas - Freguesia de Santa Maria Maior (Planta: Sérgio Dias)

Beco do Forno do Castelo e Rua das Cozinhas – Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias)

Já na Freguesia da Ajuda, temos a Rua das Chaminés d’El-Rei, que liga a Estrada de Pedro Teixeira à Estrada de Sintra, topónimo que se deriva dos equipamentos usados pelo Palácio da Ajuda e pela corte. Em 1726, D. João V adquiriu três quintas na encosta da Ajuda – a de Baixo, a do Meio e a de Cima –  e como depois do terramoto de 1755 as terras da Ajuda foram consideradas seguras pela população de Lisboa D. José e a sua corte transferiu-se para a Quinta de Cima, onde o rei construiu um palácio de madeira conhecido como a Régia Barraca. Este ardeu por completo em 1794, e no ano seguinte foi lançada a primeira pedra da construção do Palácio da Ajuda que hoje conhecemos.

Esta Rua das Chaminés d’El-Rei era a Rua 14 do Bairro do Caramão da Ajuda, cujo topónimo numérico foi alterado em resultado de um estudo do Gabinete de Estudos Olisiponenses sobre recuperação da toponímia antiga da zona ocidental de Lisboa, na sequência do qual a Comissão Municipal de Toponímia deu parecer para que os novos arruamentos do Bairro do Caramão da Ajuda o seguissem e assim ficaram em Edital municipal de 18/12/1989 os seguintes topónimos: Rua 1 – Rua José Pinto Bastos (benemérito da Ajuda); Rua 3 – Rua da Preta Constança (figura popular da Ajuda); Rua 4 – Rua dos Vaga-Lumes; Rua 5 – Rua Horta e Silva (o boticário da Ajuda que também fabricava graxa); Rua 6 – Rua Pedro Augusto Franco ( 1º Conde do Restelo, Presidente da Câmara Municipal de Belém e da Câmara Municipal de Lisboa); Rua 7 – Rua Rainha das Ilhas das Cobras (figura popular); Rua 9 – Rua Rainha do Congo (figura popular); Rua 10 – Rua de Nossa Senhora da Ajuda; Rua 11 – Rua José Maria Preto (o barbeiro local); Rua 14 – Rua das Chaminés d’El-Rei; Rua 20 – Rua dos Archeiros.

Rua das Chaminés d'El-Rei - Freguesia da Ajuda - Placa Tipo IV (Foto: Sérgio Dias)

Rua das Chaminés d’El-Rei – Freguesia da Ajuda – Placa Tipo IV
(Foto: Sérgio Dias)

 

O Largo do Picadeiro dos Bragança antes do Terramoto

Placa de Azulejo - Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Sérgio Dias)

Placa de Azulejo – Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Sérgio Dias)

Estabelecido na confluência da Rua dos Duques de Bragança, Rua Paiva de Andrade e Largo de São Carlos, o Largo do Picadeiro retira a sua designação do picadeiro do palácio dos Duques de Bragança que foi erguido neste local.

O Palácio dos Duques de Bragança em Lisboa ficava na zona do Chiado, na confluência das que hoje são as ruas António Maria Cardoso, Vítor Cordon e Duques de Bragança até ao Largo do Picadeiro e  que desapareceu com o Terramoto de 1755 que atingiu fortemente a  freguesia de Nossa Senhora dos Mártires, escrevendo o Cura Manoel Roiz Leytão, em 11 de abril de 1758, que «The [Até] o anno de mil settecentos e sincoenta e sinco [1755] rendia esta Igreja todos os annos ao Parocho perto de quinhentos mil reis, e prezentemente não chega a render lhe cem mil reis, por ficar esta freguezia sem propriedade alguma por cauza do terremoto, e incendio do primeiro de Novembro, de mil sette centos e sincoenta e sinco.(…) Prezentemente ha nesta freguezia sette fogos em que rezidem quarenta e seis pessoas, pois por cauza do terremoto ficou totalmente sem caza alguma, e toda por terra e se não tem reedificado nada.»

Nas descrições anteriores ao terramoto de 1755 da freguesia de Nossa Senhora dos Mártires surge uma «rua do picadeiro» que corresponde à que é hoje a Rua António Maria Cardoso, já que seria este o local do picadeiro e das suas cavalariças e que após o terramoto foi o espaço urbanizado com a abertura de uma única rua, mais ampla e regular.

Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior

Freguesia de Santa Maria Maior

Ramalho foi do Príncipe Real à Praça Rio de Janeiro

Freguesias da Misericórdia e de Santo António

Freguesias da Misericórdia e de Santo António                    (Foto: Sérgio Dias)

Quando Ramalho Ortigão se fixou em Lisboa em 1867 já o Largo da Patriarcal Queimada se chamava Praça do Príncipe Real e quando vítima de cancro se recolheu na Casa de Saúde do Dr. Henrique de Barros nesse artéria, já era a Praça do Rio de Janeiro.

O Largo da Patriarcal Queimada junto com a parte da Rua da Patriarcal Queimada que enfrenta o Largo, passaram a constituir um único arruamento com a denominação de Praça do Príncipe Real pelo Edital do Governo Civil  de Lisboa de 01/09/1859. Após a implantação da República e para reforçar a ligação com a República Brasileira, o Edital municipal de 05/11/1910 tornou a Praça do Príncipe Real em Praça do Rio de Janeiro, bem como o Largo do Rato em Praça do Brasil. Finalmente, o Edital camarário de 23/12/1948 reverteu a Praça do Rio de Janeiro para Praça do Príncipe Real, bem como a Praça do Brasil para Largo do Rato, assim como aplicou a mesma regra de retorno a outros topónimos modificados na época republicana como o Largo Dr. Afonso Pena (Presidente do Brasil) que passou a Campo Pequeno, a Calçada João do Rio (escritor brasileiro) ficou Calçada Engenheiro Miguel Pais, a Avenida Alferes Malheiro passou a Avenida do Brasil, a Avenida Presidente Wilson retornou a Avenida Dom Carlos I e fixou-se o Presidente Wilson na Rua D1 do Plano de Urbanização da zona entre a Alameda Dom Afonso Henriques e a linha férrea de cintura, o Campo 28 de Maio voltou a Campo Grande e um troço da Avenida Estados Unidos da América tornou-se Avenida 28 de Maio.

Príncipe Real de Portugal era o título oficial atribuído aos Herdeiros da Coroa de Portugal, durante a Monarquia Constitucional (1822 -1910) por oposição aos demais filhos do Casal Régio, que recebiam o título de Infante de Portugal, tendo usado este título D. Pedro (depois D. Pedro V), D. Carlos (depois D. Carlos I), D. Luís Filipe de Bragança e D. Afonso de Bragança. Contudo, como a rainha D. Maria II mandou erguer um jardim no espaço da antiga Patriarcal de Lisboa em honra do seu filho que viria a ser D. Pedro V, o topónimo dado em 1859 está relacionado com ele, a quem mais tarde, em 17/11/1883, a edilidade lisboeta também atribuiu uma rua junto a esta Praça.

Freguesias da Misericórdia e de Santo António

Freguesias da Misericórdia e de Santo António

A Rua Dom Duarte

Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Sérgio Dias)

Das remodelações urbanísticas operadas pelo desmantelamento do Mercado da Figueira nasceu a Rua Dom Duarte, pelo Edital municipal de 28 de agosto de 1950, passam agora 65 anos.

Da ata da reunião da Comissão Municipal de Toponímia de 3 de novembro de 1949 ficamos a saber que «Começando por visitar o local onde esteve instalado o mercado da Praça da Figueira, para se pronunciar acerca da toponímia do referido local e das ruas circunvizinhas, a Comissão, depois de várias trocas de impressões, resolveu dar o seu acordo às sugestões do Excelentíssimo Vice-Presidente da Câmara [Luís Pastor de Macedo], na reunião anterior. Assim, emitiu o parecer de que o largo onde existiu o mercado da Praça da Figueira, passe a denominar-se Praça da Figueira; que as ruas da Betesga e do Amparo sejam limitadas pela Praça da Figueira e a Praça de Dom Pedro; que o restante troço da Rua do Amparo, compreendido entre a Praça da Figueira e a Rua do Arco do Marquês do Alegrete se denomine Rua João das Regras; que a Rua dos Fanqueiros e dos Correeiros terminem na Praça da Figueira, passando o troço (…) da Rua dos Fanqueiros, compreendido entre a Praça da Figueira e a Rua da Palma, a denominar-se: Rua de Dom Duarte.»

D. Duarte (Viseu/31.10.1391 – 13.09.1438/Tomar), filho de D. João I e de D. Filipa de Lencastre, foi o 11º rei de Portugal e o segundo da segunda dinastia, tendo ascendido ao trono com a morte de seu pai em 1433, embora desde 1412 estivesse formalmente associado à governação. Foi cognominado o Eloquente pelo seu interesse pela cultura e pelas obras que escreveu como o Leal Conselheiro e o Livro da Ensinança de Bem Cavalgar Toda a Sela. Com o apoio dos seus irmãos, Infantes D. FernandoD. Henrique, e a oposição dos irmãos D. Pedro e D. João, continuou as conquistas em Marrocos iniciadas em Ceuta onde o próprio participara, mas que saldaram pelo desastre militar de Tânger e a consequente morte do Infante D. Fernando no cativeiro. No seu curto reinado, de apenas cinco anos, convocou as Cortes por 5 vezes, alcançou-se a passagem do cabo Bojador por Gil Eanes, e ainda promulgou a Lei Mental, uma medida de centralização para defender o património da coroa.

Edital de 00/00/1950

Edital de 28/08/1950

A Avenida Infante Santo

Freguesia da Estrela (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Estrela
(Foto: Sérgio Dias)

D. Fernando, que ficou conhecido como o Infante Santo, tal como o seu pai, e seus irmãos D. Duarte e Infante D. Henrique, participou na conquista de Ceuta e desde 1949 que dá nome a uma Avenida lisboeta.

Conforme o Edital de 13 de maio de 1949 «o  arruamento em construção, que ligará a Avenida 24 de Julho à Estrela, compreende parte da Rua Tenente Valadim,  desde o término da curva do prédio do Estado (Instituto Maternal); parte da Travessa dos Brunos prédios nºs 22 e 24 e, ainda, a Rua da Torre da Pólvora» passou a ser a Avenida Infante Santo.

Infante Santo foi o nome pelo qual ficou conhecido D. Fernando (Santarém/29.09.1402 – 05.06.1433/Fez), 8º filho de D. João I e de D. Filipa de Lencastre, o mais novo dos membros da Ínclita Geraçãoque faleceu em cativeiro após a tentativa da conquista de Tânger. Foi pelo seu sacrifício em nome dos interesses nacionais que ganhou o epíteto de Infante Santo.

Aos 34 anos, D. Fernando seguiu na armada que abalou do porto de Lisboa em 22 de agosto de 1437, comandada pelo seu irmão Infante D. Henrique, para conquistar Tânger. Os portugueses foram obrigados a render-se, para evitar a chacina total dos portugueses, estabeleceu-se uma rendição pela qual as forças portuguesas se retiram, deixando o infante prisioneiro como penhor da devolução de Ceuta. Faleceu ao fim de 6 anos de cativeiro e os seus restos mortais voltaram a Portugal no tempo de D. Afonso V, tendo estado depositados no convento do Salvador, em Lisboa, de onde foi transferido para o convento da Batalha, ficando na capela de D. João I, seu pai. O seu culto religioso foi aprovado em 1470 e incluído no rol dos beatos portugueses.

Edital de 00/000/1940

Edital de 13/05/1949

A maior Avenida de Lisboa

Freguesia de Santa Maria Maior, Penha de França, São Vicente, Beato, Marvila, Olivais e Parque das Nações (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior, Penha de França, São Vicente, Beato, Marvila, Olivais e Parque das Nações
(Foto: Sérgio Dias)

Passando por 7 das 24 freguesias de Lisboa – Santa Maria Maior, São Vicente, Penha de França, Beato, Marvila, Olivais e Parque das Nações- e com 12 km de comprimento a  Avenida Infante Dom Henrique é o maior arruamento de Lisboa, com topónimo nascido pelo Edital municipal de 24 de julho de 1948 na via pública projetada entre a Praça do Comércio e a então Praça de Moscavide (que é a Praça José Queirós desde 1973).

De acordo com uma informação municipal de 29/05/1952, a Rua João Evangelista desapareceu com a construção da Avenida Infante Dom Henrique,  e segundo outra, de 1953, o arruamento também foi conhecido por Avenida Marginal Oriental. Refira-se ainda que devido a alterações urbanísticas aquando da construção da Expo 98, o troço vulgarmente conhecido por Rua do Mar, também foi incluído na Avenida Infante Dom Henrique.

Este Infante, 5º filho de D. João I e D. Filipa de Lencastre, já havia tido lugar na toponímia de Lisboa, dado que no ano de 1882 a Rua de São Tomé se passou a denominar Rua do Infante D. Henrique.  Foi a Comissão Municipal Consultiva de Toponímia que nas suas reuniões entre novembro de 1944 e de junho de 1948, sugeriu a transferência do topónimo  para o arruamento compreendido entre a Praça do Comércio e a Praça de Moscavide, bem como o retorno da Rua de São Tomé à sua localização inicial.

O Infante D. Henrique (Porto/04.03.1394 – 13.11.1460/Vila do Bispo) participou com seu pai e os seus irmãos Duarte e Fernando na conquista de Ceuta. Aliás, pela sua predisposição para a as artes da guerra, o seu pai responsabilizou-o pela organização da frota concentrada no Porto, com gente do Norte e das Beiras, para a expedição a Ceuta, onde aliás, após a conquista ele e o seus irmãos Duarte e Fernando foram armados cavaleiros. Em setembro desse mesmo ano de 1415 o Infante D. Henrique ficou como Duque de Viseu e Senhor da Covilhã, e no ano seguinte foi nomeado Grão-Mestre da Ordem de Cristo, encarregue de administrar o dinheiro para a defesa de Ceuta. Participou também noutras expedições ao norte de África, como Tânger (1437) em que o seu irmão Fernando ficou cativo, bem como na na conquista de Alcácer Ceguer (1458). O Infante empreendia de acordo com um espírito de cruzada mas também promoveu navegações pelo Atlântico, sonhando em conquistar as Canárias, de que resultaram a chegada a Porto Santo (1419), Madeira (1420) e Açores (1427), com o ganho do exclusivo da pesca do atum. Procurava também que os marinheiros ao seu serviço ultrapassassem o Cabo Bojador e defendia na corte que se fosse atacar Granada dominada pelo Islão. Em 1443, D. Henrique recebeu a bula que confiava o espiritual das terras recém-descobertas à Ordem de Cristo, e obteve para si próprio o exclusivo da navegação a Sul do Bojador, a título hereditário. Nos últimos anos da vida de D. Henrique, Pedro Sintra prolongou o descobrimento da costa africana desde a região guineense do Rio Geba até à Serra Leoa, que constitui o termo dos descobrimentos henriquinos. Como referiu o historiador Luís de Albuquerque, «D. Henrique não navegou muito, é certo, mas fez navegar muito os outros…»

Dom Henrique foi também  nomeado protetor da Universidade de Lisboa, em 1431, onde introduziu o estudo da Matemática e da Astronomia, razão para o seu primeiro topónimo em Lisboa ter sido junto aos Estudos Gerais.

Edital de 24/07/1948

Edital de 24/07/1948