Da Travessa do Pintor à Rua do Hospital de Dona Estefânia de 1871

Planta de 1879, do Engº Ressano Garcia, com a Rua do Hospital de Dona Estefânia
(Imagem: © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

A  edilidade lisboeta após proceder a melhoramentos na Travessa do Pintor, que a levaram a considerar essa «uma das melhores servidões de Lisboa», solicitou ao Governo Civil de Lisboa que lhe alterasse a denominação para Rua do Hospital de Dona Estefânia, o que sucedeu pelo Edital do Governo Civil de 25 de novembro de 1871, considerando a proximidade ao primeiro Hospital construído de raiz em Lisboa, especificamente para esse fim.

Em memória da rainha Dona Estefânia o rei Dom Pedro V iniciou a construção do Hospital da Bemposta em 1860 mas como faleceu no ano seguinte foi o seu irmão, o rei Dom Luís I, que assegurou a continuidade da obra e a inauguração do Hospital a 17 de julho de 1877, dia da morte de Dona Estefânia, vítima de angina diftérica. Este Hospital foi erguido na quinta do paço real da Bemposta, chamada Quinta Velha, então nos arredores da cidade.

A rainha Estefânia Frederica Guilhermina Antónia (Alemanha/1837 – 1859/Lisboa), que se casara com D. Pedro V em 1858, desejou muito fazer erguer um hospital para crianças, após ter ficado impressionada numa visita ao Hospital de São José, num período de epidemias de cólera e febre amarela, com a junção de adultos e crianças nas mesmas enfermarias. Dona Estefânia ofereceu o seu dote de casamento para que fosse criada uma enfermaria apenas pediátrica. O rei português pediu ajuda a diversas casas reais europeias  para cumprir esse desejo de criar em Lisboa um hospital pediátrico moderno e o traçado escolhido foi o desenhado por Humbert, arquiteto da casa real inglesa, numa decisão da comissão a que o rei presidia e constituíra com Bernardino António Gomes (médico real, lente da Escola Médico-Cirúrgica e presidente da Sociedade de Ciências Médicas), os médicos Barral, Kessler e Simas, o Conde da Ponte ( vedor da casa real portuguesa) e o militar e matemático Filipe Folque .

Em 1879, dois anos após a inauguração do Hospital de Dona Estefânia, a Câmara Municipal de Lisboa presidida por Rosa Araújo entendeu que a Rua do Hospital de Dona Estefânia com todo o seu prolongamento até às Portas da Cidade seria um único arruamento com o topónimo Rua de Dona Estefânia, conforme Edital municipal de 22 de agosto de 1879.

Mais tarde, também em Arroios,  por proximidade à Rua, foi atribuído o Largo de Dona Estefânia, através do Edital municipal de 19 de abril de 1893.

O Hospital de Dona Estefânia
(Foto: Ferreira da Cunha, sem data © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

© CML | DPC | NT | 2019

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A Alameda do primeiro rei português, Dom Afonso Henriques e o 1º dia das Festas de Lisboa’19

Freguesias da Penha de França, de Arroios e, do Areeiro

Nos 120 metros de largura e cerca de 640 metros de comprimento da Alameda Dom Afonso Henriques vai decorrer hoje, a partir das 19:30, o espetáculo de abertura das Festas de Lisboa deste ano, com uma travessia na corda bamba, a 30 metros de altura: o Linhas Voadoras – Abertura Festas de Lisboa’19.

Esta ampla Alameda que homenageia o 1º Rei de Portugal, Afonso Henriques (Guimarães/25.06.1109 ou Viseu/05.08.1111-06.12.1185/Coimbra), já constava de um plano de urbanização aprovado em sessão de câmara de 7 de abril de 1928 mas só passou a topónimo pelo Edital municipal de 31 de março de 1932.

Pelo mesmo Edital e na mesma zona foi atribuída a Avenida Dom João I (na Avenida nº 21), a homenagear outro monarca, o primeiro rei escolhido pelo povo de Lisboa, no decorrer da crise de 1383-1385. Contudo, o Edital municipal de 29 de julho de 1948 transformou-a na que hoje conhecemos como Avenida Marconi, para perpetuar o Nobel da Física de 1909 e criador da Telegrafia Sem Fios, a TSF. Ainda no Edital de 1932 foram dados diversos topónimos de atores que ainda hoje lá encontramos – a  Rua Actor Isidoro (Rua nº 6-A), a Rua Lucinda do Carmo (Rua nº 10) e a Rua Actriz Virgínia (Rua nº 11)- , bem como a Rua Actor Epifânio (Rua nº 1) que nunca saiu da planta de papel e nunca foi construída, tal como aconteceu com a Rua Rui Chianca (Rua nº 22), que perpetuava um popular escritor falecido no ano anterior, em 1931.

A Alameda Dom Afonso Henriques está desde 1936 encimada pelos edifícios do Instituto Superior Técnico, da autoria de Pardal Monteiro. Depois desce num vale e ao subir novamente fecha com a Fonte Luminosa, uma das obras monumentais do Estado Novo, do traço dos irmãos arquitetos Carlos e Guilherme Rebelo de Andrade, concebida em 1938 e inaugurada em maio de 1948, ao mesmo tempo fornece um miradouro sobre a obra realizada. Entre os anos de 1936 e 1946, foram sendo erguidos ao longo desta Alameda  um conjunto de blocos de habitação.

Afonso Henriques (Guimarães/25.06.1109 ou Viseu/05.08.1111-06.12.1185/Coimbra), filho do Conde Dom Henrique e de Dona Teresa de Leão, que ficou na história portuguesa com o cognome de «O Conquistador», foi o primeiro rei de Portugal. Em 1139, após a vitória na batalha de Ourique proclamou-se Rei de Portugal, apoiado pelas suas tropas. Em 1143, o Tratado de Zamora reconhece a independência do território e Afonso Henriques passa a usar o título de Rei e declara vassalagem à Santa Sé, o que vem a ser confirmado em 1179 por bula papal que reconhece o reino de Portugal.

Freguesias da Penha de França, de Arroios e, do Areeiro

 

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O 25 de Abril na Praça Dom Pedro IV

Às 12H00, uma companhia do RI 1, comandada pelo capitão Fernandes, tentou barrar o caminho para o Quartel do Carmo, à coluna da EPC, comandada pelo capitão Maia, mas este convenceu-os a aderirem ao Movimento.

A Praça Dom Pedro IV, vulgarmente conhecida como Rossio, cerca do meio-dia do dia 25 de abril de 1974 foi palco do encontro da companhia do Regimento de Infantaria 1 da Amadora, comandada pelo capitão Fernandes, ali estacionada, com a coluna da EPC – Escola Prática de Cavalaria, comandada pelo capitão Maia, para chegar ao Largo do Carmo. O RI1  tentou barrar a passagem à EPC mas após um curto diálogo entre os comandante das tropas, todos os militares passaram para o lado do MFA e as tropas do RI 1 vão seguir à retaguarda da coluna da EPC.

A coluna de Salgueiro Maia saíra da Praça do Comércio pela Rua Augusta, Praça Dom Pedro IV  e Rua do Carmo, para atingir o Largo do Carmo, recebendo  durante todo o trajeto o apoio e aclamação das muitas centenas de pessoas que na Baixa de Lisboa acompanhavam as movimentações militares. Desobedecendo às recomendações do MFA para permanecer em casa, a população saiu à rua em apoio aos militares revoltosos que vitoriava.

Ao longo de todo o dia 25 de abril de 1974, a placa central da Praça Dom Pedro IV foi local de aglomeração de populares e nos dias seguintes local de manifestações.

(Foto: Fernando Baião, O Século Ilustrado, 27 de abril de 1974)

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A Travessa dos Fornos de 1917

Freguesia da Ajuda
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Travessa dos Fornos, na Ajuda, foi atribuída pelo último Edital de toponímia de 1917, que explicitamente refere que este era o «nome porque vulgarmente éra conhecida».

Isto quer dizer que o arruamento que hoje vemos a ligar a Rua do Cruzeiro com a Rua Dom João de Castro, em resultado da deliberação da Comissão Executiva da CML de 15 de novembro de 1917 e consequente Edital de 14 de dezembro desse ano, foi uma oficialização do seu nome: Travessa dos Fornos.

Falta indagar porque seria assim conhecida como Travessa dos Fornos. E parece lícito supor que a denominação advém da proximidade desta artéria à Estrada dos Fornos d’El-Rei ou Estrada dos Fornos d’El-Rei no Rio Seco. A Estrada dos Fornos d’El-Rei, aparece numa planta de 1890, anexa a um ofício do engenheiro diretor-geral da CML, no  sítio do Rio Seco, assim como surge  da mesma forma designada na planta da cidade de 1896. Mais tarde, na planta de 1911, de Silva Pinto, a sua denominação passa a ser Estrada do Rio Seco e , ainda nesse ano, pelo Edital municipal de 7 de agosto de 1911 é atribuída a Rua Dom João de Castro como topónimo desta Estrada e assim chegou até aos dias de hoje. Por isso, a nossa hipótese é que esta artéria da Ajuda denominada Travessa do Fornos quis ser a Travessa dos Fornos d’El-Rei por estar junto à Estrada que hoje vemos como Rua Dom João de Castro .

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

A Calçada da Memória do atentado a D. José I

A Calçada da Memória em 1969
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

A memória das aventuras galantes de D. José I com D. Teresa de Távora, que terminaram com um atentado à integridade física do soberano, ficou registada no próprio local da agressão com a construção de uma Igreja dedicada a Nossa Senhora do Livramento – por ele ter saído ileso-, assim como a São José – por ser o nome do rei-, e essa lembrança estendeu-se depois a três topónimos locais: a  Calçada , o Largo e a Travessa da Memória.

Tanto a Calçada da Memória como a Travessa homónima, foram topónimos oficializados pela edilidade lisboeta através do Edital de  26 de setembro de 1916. Já o Largo da Memória não possui prova documental que ateste a sua data de fixação mas terá de ser posterior ao início  da construção nesta zona da Igreja da Memória , isto é, a partir de 1760. A partir dos documentos constantes no Arquivo Municipal de Lisboa podemos deduzir que todos os três topónimos serão do séc. XIX e que antes foram genericamente as Terras da Memória.

Com data de 27 de outubro de 1886, encontramos  um projeto de ruas a executar na zona da Memória e da Ajuda, no qual percebemos que a Igreja da Memória confrontava com o Caminho do Buraco, o Pátio das Vacas e o Largo do Chafariz. Também com a data de 8 de janeiro de  1891 deparamos com o projeto definitivo das ruas nas denominadas Terras da Memória, em terreno cedido pela Casa Real. E em 1892, descobrimos um requerimento de vários moradores a solicitar a demolição do muro na travessa do Pátio das Vacas para comunicação com as Terras da Memória e ainda uma solicitação de Rosa Gomes para construção de casa num dos arruamentos projetados na zona da Memória.

Da ligação de D. José I a D. Teresa de Távora, informa o olisipógrafo  Norberto de Araújo que o atentado ocorreu na noite de 3 de setembro de 1758, quando o monarca saído dos aposentos da jovem marquesa de Távora subia de Belém para Ajuda, na carruagem do seu criado e confidente Pedro Teixeira (também fixado como topónimo numa Estrada da Ajuda) e que ao passar no Pátio das Vacas foi D. José atacado a tiro. Os conjurados sumiram-se e o rei partiu à desfilada para a casa do Marquês de Angeja, na Junqueira, para tratar os seus ferimentos no braço. Saiu ileso o rei desta conspiração, tida como dos Távoras, e por tal bênção desta salvação foi erguida a Igreja da Memória. Depois, o Marquês de Pombal acusou os seus inimigos Távoras de conspiração e estes foram torturados e depois executados em janeiro de 1759. A morte dos Távoras foi celebrada com um pelourinho erguido no Beco do Chão Salgado, topónimo também relativo a essa ocasião e os restos mortais do Marquês de Pombal foram transladados em 1923 para a Igreja da Memória.

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Travessa do Tesouro das Necessidades

Freguesia da Estrela
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Travessa do Tesouro surge já com tal nome em 1857, no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque, na época o mais completo levantamento dos arruamentos da cidade.

Norberto de Araújo dá-nos a explicação do topónimo quando nas suas Peregrinações em Lisboa afirma que «Depois da proclamação da República, o Palácio, com todas as suas preciosidades de ourivesaria, que ficaram constituindo o “Tesouro das Necessidades” – do qual quase todas as peças mais notáveis foram transportadas anos depois para o Museu Nacional de Arte Antiga – esteve encerrado (…).»

Grato à Senhora das Necessidades pelas melhoras da paralisia de que padecera, D. João V comprou este local  e resolveu ampliar a ermida que lhe era dedicada, bem como erguer para si próprio um palácio no local, para além de ter mandado construir um hospício e um convento que em 1744 doou à Congregação do Oratório: o Convento de Nossa Senhora das Necessidades. Com a extinção das ordens religiosas em 1834, o edifício do convento foi anexado para os serviços da Casa Real e tornou-se Paço Real a partir de D. Maria II (Rio de Janeiro/1815 – 1853/Lisboa) e até 1910, embora o seu filho D. Luís tenha usado antes o Palácio da Ajuda. Refira-se assim que o 2º marido de D. Maria II, desde 9 de abril de 1836, D. Fernando II (Viena/1816 – 1885/Lisboa), pai dos reis D. Pedro V e D. Luís I, reuniu no Palácio das Necessidades uma  grande coleção de arte, tanto mais ele que ele próprio pintava, o que lhe valeu o cognome de Rei Artista. D. Fernando também se dedicou à  proteção do património arquitectónico português edificado, nomeadamente com obras de restauração e manutenção na vila da Batalha, no Convento de Mafra, no Convento de Cristo e em Lisboa, no Mosteiro dos Jerónimos, na e  na Torre de Belém.

Após a implantação da República em 5 de outubro de 1910, com grande parte do Tesouro colocado no Museu de Arte Antiga, o Palácio das Necessidades ficou desocupado até em 1950 ser transformado em sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros, sob o traçado do arqº Raúl Lino.

Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

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O Rossio e o Dom Pedro

O Rossio no século XVI

Rossio é sinónimo de um espaço largo para fruição e convívio da população pelo que não se estranha que ainda hoje a Praça Dom Pedro IV seja conhecida como Rossio.

De acordo com José Pedro MachadoRossio é o «nome próprio dado a vários campos ou largos citadinos de Portugal, antigamente – como, por exemplo, ainda hoje, o de Évora –, fora das muralhas ou cerca urbana; neles se realizavam, e ainda realizam, feiras; o mesmo se deu com o Rossio (Praça D. Pedro IV) de Lisboa. Primitivamente, depois do terreno desbastado e preparado, serviam os rossios para semeadura de cereais, para hortas ou para pastagem de gados da comunidade. Assim se tornaram pontos de reunião dos moradores e centros comerciais. » Por isto, um pouco por tudo o país encontramos Rossios de que são ainda hoje exemplo os Largos do Rossio na Aguieira, em Aveiro,  na Gafanha da Nazaré, na Guia de Leiria, em Lagos, Mangualde, Mem Martins ou São João das Lampas do concelho de Sintra, para além da povoação Rossio ao Sul do Tejo do concelho de Abrantes. Em Lisboa também ainda temos hoje o antigo Rossio de Palma na freguesia de São Domingos de Benfica e por herança da Expo 98 ficaram o Rossio dos Olivais e o Rossio do Levante, na freguesia do Parque das Nações.

Rossio foi também a denominação original desta artéria lisboeta hoje contida na confluência da Rua da Betesga, Rua Augusta, Rua dos Sapateiros, Rua Áurea, Calçada do Carmo, Rua do Amparo e Praça Dom João da Câmara. Em 1419 já aparece referida numa postura em que o corregedor, os vereadores, o procurador e os homens bons da cidade de Lisboa proíbem o lançamento de esterco, terras e outras sujidades no Rossio da cidade. No séc. XVIII o espaço  já surge denominado como Praça do Rossio até que há pouco mais de 180 anos, por decreto governamental de 31 de outubro de 1836, passou a designar-se Praça de Dom Pedro, denominação que o Edital municipal de 26 de março de 1971 alterou para Praça Dom Pedro IV para evitar equívocos e que a Ata da reunião da Comissão Municipal de Toponímia de 19 de março de 1971 esclarece «Que a nomenclatura da Praça de D. Pedro seja alterada para: Praça de D. Pedro IV», pelo simples motivo de «Já que assim consta dos letreiros ali afixados há longo tempo e ainda porque dessa forma melhor se identifica a figura histórica homenageada».

Este Rei  também surge na toponímia de Felgueiras, Queluz e Valongo como D. Pedro IV enquanto no Brasil aparece como D. Pedro I na toponímia da Baía, de Goiânia, Minas Gerais, Paraíba ou Rio de Janeiro o que não se estranha já que reinou em ambos os países.  O homenageado é D. Pedro I do Brasil e IV de Portugal, que recebeu os cognomes de O Libertador e Rei Soldado, de seu nome completo Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Serafim de Bragança e Bourbon (Palácio de Queluz/12.10.1798 – 14.09.1834/Queluz), filho de D. João VI e da sua esposa, D. Carlota Joaquina. Tendo a coroa portuguesa fugido das invasões francesas residiu no Brasil entre 1807 e 1831. Por força da Revolução Liberal de 1820 no Porto os seus pais regressaram a Portugal e foi nomeado regente em 1821. No ano seguinte, declarou a independência do Brasil, face ao domínio português. Assim, foi D. Pedro I, o primeiro imperador do Brasil, no período de 7 de setembro de 1822 (O grito do Ipiranga) a 7 de abril de 1831, ano em que abdicou para assumir a coroa portuguesa, como D. Pedro IV, em defesa dos direitos da sua filha, D. Maria da Glória, que virá a ser a rainha D. Maria II (Rio de Janeiro/04.04.1819 – 15.11.1853/Lisboa), e que significativamente dá nome ao Teatro instalado na Praça D. Pedro IV, tendo este aberto as suas portas em 13 de abril de 1846, durante as comemorações do 27.º aniversário da rainha D. Maria II.

Praça Dom Pedro IV hoje (Freguesia de Santa Maria Maior)

 

O Terreiro do Paço antes do Terramoto e a nova Praça do Comércio após

O Terreiro do Paço antes do Paço da Ribeira de D. Manuel I

O Terreiro do Paço desapareceu com o Terramoto de 1 de novembro de 1755 e nesse espaço nasceu a nova Praça do Comércio, construída graças ao finamento dos comerciantes de Lisboa para a reconstrução da Baixa, de tal forma que se justificou que fossem homenageados como topónimo dessa Praça central da Baixa toda construída de novo.

Todavia, a Praça do Comércio deve ser o topónimo lisboeta que mais vezes vê o seu topónimo oficial trocado por um topónimo tradicional – Terreiro do Paço -, mesmo que já estejam passados mais de 250 anos sobre a sua atribuição feita pelo 1º decreto de toponímia de Lisboa, assinado por D. José I, com a data de 5 de novembro de 1760, materializando a homenagem aos comerciantes de Lisboa que voluntariamente cederam 4% sobre os direitos alfandegários de todas as mercadorias para a reconstrução da cidade.

Antes do Terramoto é que existiu  o Terreiro do Paço, topónimo feito por referência ao Paço Real da Ribeira, mandado erguer por D. Manuel entre 1500 e 1505, que formava conjunto com a Alfândega, a Casa da Índia, a Casa da Moeda, o Arsenal, e o Teatro da Ópera do Tejo, sendo de notar que apesar de ser no mesmo local onde depois nascerá a geométrica Praça do Comércio, o espaço tinha uma configuração menor e diferente da Praça que lhe sucedeu.

A Praça do Comércio foi traçada por Eugénio dos Santos e Carlos Mardel após o terramoto de 1755,  integrada no plano maior da reconstrução da Baixa lisboeta, numa planta rectangular de disposição geométrica perfeita,  ao género da place royale francesa, envolvida pelas construções de três blocos de edifícios iguais concebidas por Manuel da Maia. Cerca de vinte anos depois do terramoto de 1 de novembro, a 6 de junho de 1775, ficou concluída na Praça do Comércio a estátua equestre de D. José, da autoria de Machado de Castro seguindo um plano de Eugénio dos Santos e para colocar no pedestal de Reinaldo dos Santos, em linha direita com a artéria que homenageia esse monarca: a Rua da Augusta Figura do Rei que no decorrer do tempo acabou por ficar encurtada para Rua Augusta. Quase um século depois, em 1873, foi então colocado o Arco da Rua Augusta, ou Arco Triunfal, do arqº Veríssimo José da Costa, após a arborização da Praça do Comércio em 1866.  O chão foi de terra batida até ao ano de 1900 e todo o conjunto da Praça é Monumento Nacional desde 1910 (Decreto de 16 de junho), tendo Norberto de Araújo já na década de trinta do séc. XX descrito a Praça do Comércio como a «Praça principal de Lisboa, sala de visitas da Cidade».

Projeto para a Praça do Comércio após 1775

 

A Azinhaga do Reguengo da Charneca

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Azinhaga do Reguengo que se estende desde  terras próximas da Azinhaga das Galinheiras até ao concelho de Loures guarda a memória dos domínios do Rei naquela zona: o reguengo da Charneca.

Depois da Reconquista de Lisboa aos mouros, o território ao redor de Lisboa, o Termo de Lisboa, ficou na propriedade do Rei que, de seguida, fez dele doações a nobres e às ordens militares e religiosas, embora tenha conservado na sua posse vastos domínios que se denominavam reguengos. Reguengo ou realengo era a qualificação jurídica dos lugares conquistados dependentes diretamente da autoridade do rei, eram as terras cujo senhor era o próprio rei.

Concretamente, o reguengo da Charneca ainda no século XVII continuava na posse dos Duques de Bragança e é dele e da sua  Quinta do Reguengo que o topónimo Azinhaga do Reguengo guarda memória até aos nossos dias.

A extinção dos reguengos foi feita pelas leis de organização da administração e da fazenda pública de Mouzinho da Silveira em 1832. Em 1906 ainda a planta de Júlio Silva Pinto mostrava tanto a Quinta como a Azinhaga do Reguengo.

Freguesia de Santa Clara (Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua da princesa austríaca que desposou D. João V

Freguesia de Campolide
(Foto: Sérgio Dias | NT do DPC )

Dona Maria Ana de Áustria que se tornou rainha de Portugal pelo seu casamento com D. João V dá nome a uma Rua da Freguesia de Campolide desde 1990, junto a contemporâneos seus como sucede nos casos da Rua Alexandre de Gusmão, Rua André de Melo e Castro, Rua António Guedes Pereira, Rua Diogo de Mendonça Corte Real, Rua Fernando Teles da Silva que foi quem chefiou a embaixada do pedido de casamento de D. João V a Viena de Áustria, Rua João da Mota e Silva, Rua Martim de Pina Proença, bem como a nomes ligados à construção do Aqueduto das Águas Livres, como a Rua José da Silva Pais, Rua Manuel de Azevedo Fortes,  Rua Miguel Ângelo Blasco ou a Rua Rodrigo Franco.

O topónimo nasceu da deliberação camarária de 05/12/1990 e consequente Edital municipal de 14/12/1990, com a legenda «Rainha de Portugal e regente do Reino/1683-1754», na que era a Rua dos Cauteleiros desde 29 de dezembro de 1989, antes Rua 20 do Bairro do Alto da Serafina (Edital de 15/03/1950) e ainda antes Rua I.

Maria Ana Josefa de Áustria (Áustria/07.09.1683 – 14.08.1754/Lisboa), foi a 3ª filha do Imperador Leopoldo I do Sacro Império Romano-Germânico, e da sua terceira mulher, a condessa Leonor Madalena de Neuburgo. D. João V havia sido aliado de Carlos VI na Guerra da Sucessão Espanhola e fazia todo o sentido continuar a aliança através do casamento com a irmã deste, que era sua aliás sua prima direita já que as mães de ambos eram irmãs. Maria Ana de Áustria tornou-se aos 25 anos esposa de D. João V, em 1708, mas como  foi estéril por alguns anos, o rei mandou erguer o Convento de Mafra como voto para ter um filho varão, tendo sido colocada a primeira pedra em 1717. Mas D. Maria Ana teve 6 filhos de D. João V:  D. Maria Bárbara, rainha de Espanha pelo casamento com Fernando VI; D. Pedro, Príncipe do Brasil; o sucessor D. José I em maio de 1714 ;D. Carlos, Infante de Portugal; D. Pedro III, que se tornou marido da sua sobrinha D. Maria I e D. Alexandre, Infante de Portugal, em setembro de 1723.

Durante o seu reinado, de 27 de outubro de 1708 a 31 de julho de 1750, Maria Ana de Áustria foi duas vezes regente do reino. A primeira, em 1716, durante uma cura de repouso de D. João V em Vila Viçosa e a segunda, em 1742, quando se revelou a paralisia que debilitou o rei até o vitimar em 1750.

D. Maria Ana também se distinguiu por promover o futuro Marquês de Pombal, que era casado com a filha do aristocrata austríaco marechal de Daun, recomendando-o a seu filho D. José I, bem como por ter fundado em 1737 o Convento de Carmelitas Descalças de S. João Nepomuceno, o santo patrono da Boémia, concluído em 1752 e a sua igreja benzida em 19 de março de 1753. Este Convento deu origem a três topónimos no local: a Calçada (hoje Calçada Salvador Correia de Sá), o Largo e as Escadinhas de São João Nepomuceno.

Em 1754, no dia seguinte à morte da rainha, o secretário de estado, Sebastião José de Carvalho e Melo, dirigiu ao presidente do Senado municipal, marquês de Alegrete, um aviso para suspender o despacho dos tribunais, por 8 dias, em demonstração de pesar e luto pela morte de D. Maria Ana de Áustria, bem como outro aviso para se proceder à limpeza das ruas iria passar o funeral da rainha,  da Quinta de Baixo  em Belém, para a igreja dos «Carmelitas Descalços Alemães». Em 1855,  os seus restos mortais foram trasladados para o Convento de S. Vicente de Fora, para junto dos de D. João V.

Freguesia de Campolide
(Foto: Sérgio Dias | NT do DPC )