A Azinhaga do Reguengo da Charneca

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Azinhaga do Reguengo que se estende desde  terras próximas da Azinhaga das Galinheiras até ao concelho de Loures guarda a memória dos domínios do Rei naquela zona: o reguengo da Charneca.

Depois da Reconquista de Lisboa aos mouros, o território ao redor de Lisboa, o Termo de Lisboa, ficou na propriedade do Rei que, de seguida, fez dele doações a nobres e às ordens militares e religiosas, embora tenha conservado na sua posse vastos domínios que se denominavam reguengos. Reguengo ou realengo era a qualificação jurídica dos lugares conquistados dependentes diretamente da autoridade do rei, eram as terras cujo senhor era o próprio rei.

Concretamente, o reguengo da Charneca ainda no século XVII continuava na posse dos Duques de Bragança e é dele e da sua  Quinta do Reguengo que o topónimo Azinhaga do Reguengo guarda memória até aos nossos dias.

A extinção dos reguengos foi feita pelas leis de organização da administração e da fazenda pública de Mouzinho da Silveira em 1832. Em 1906 ainda a planta de Júlio Silva Pinto mostrava tanto a Quinta como a Azinhaga do Reguengo.

Freguesia de Santa Clara (Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua da princesa austríaca que desposou D. João V

Freguesia de Campolide
(Foto: Sérgio Dias | NT do DPC )

Dona Maria Ana de Áustria que se tornou rainha de Portugal pelo seu casamento com D. João V dá nome a uma Rua da Freguesia de Campolide desde 1990, junto a contemporâneos seus como sucede nos casos da Rua Alexandre de Gusmão, Rua André de Melo e Castro, Rua António Guedes Pereira, Rua Diogo de Mendonça Corte Real, Rua Fernando Teles da Silva que foi quem chefiou a embaixada do pedido de casamento de D. João V a Viena de Áustria, Rua João da Mota e Silva, Rua Martim de Pina Proença, bem como a nomes ligados à construção do Aqueduto das Águas Livres, como a Rua José da Silva Pais, Rua Manuel de Azevedo Fortes,  Rua Miguel Ângelo Blasco ou a Rua Rodrigo Franco.

O topónimo nasceu da deliberação camarária de 05/12/1990 e consequente Edital municipal de 14/12/1990, com a legenda «Rainha de Portugal e regente do Reino/1683-1754», na que era a Rua dos Cauteleiros desde 29 de dezembro de 1989, antes Rua 20 do Bairro do Alto da Serafina (Edital de 15/03/1950) e ainda antes Rua I.

Maria Ana Josefa de Áustria (Áustria/07.09.1683 – 14.08.1754/Lisboa), foi a 3ª filha do Imperador Leopoldo I do Sacro Império Romano-Germânico, e da sua terceira mulher, a condessa Leonor Madalena de Neuburgo. D. João V havia sido aliado de Carlos VI na Guerra da Sucessão Espanhola e fazia todo o sentido continuar a aliança através do casamento com a irmã deste, que era sua aliás sua prima direita já que as mães de ambos eram irmãs. Maria Ana de Áustria tornou-se aos 25 anos esposa de D. João V, em 1708, mas como  foi estéril por alguns anos, o rei mandou erguer o Convento de Mafra como voto para ter um filho varão, tendo sido colocada a primeira pedra em 1717. Mas D. Maria Ana teve 6 filhos de D. João V:  D. Maria Bárbara, rainha de Espanha pelo casamento com Fernando VI; D. Pedro, Príncipe do Brasil; o sucessor D. José I em maio de 1714 ;D. Carlos, Infante de Portugal; D. Pedro III, que se tornou marido da sua sobrinha D. Maria I e D. Alexandre, Infante de Portugal, em setembro de 1723.

Durante o seu reinado, de 27 de outubro de 1708 a 31 de julho de 1750, Maria Ana de Áustria foi duas vezes regente do reino. A primeira, em 1716, durante uma cura de repouso de D. João V em Vila Viçosa e a segunda, em 1742, quando se revelou a paralisia que debilitou o rei até o vitimar em 1750.

D. Maria Ana também se distinguiu por promover o futuro Marquês de Pombal, que era casado com a filha do aristocrata austríaco marechal de Daun, recomendando-o a seu filho D. José I, bem como por ter fundado em 1737 o Convento de Carmelitas Descalças de S. João Nepomuceno, o santo patrono da Boémia, concluído em 1752 e a sua igreja benzida em 19 de março de 1753. Este Convento deu origem a três topónimos no local: a Calçada (hoje Calçada Salvador Correia de Sá), o Largo e as Escadinhas de São João Nepomuceno.

Em 1754, no dia seguinte à morte da rainha, o secretário de estado, Sebastião José de Carvalho e Melo, dirigiu ao presidente do Senado municipal, marquês de Alegrete, um aviso para suspender o despacho dos tribunais, por 8 dias, em demonstração de pesar e luto pela morte de D. Maria Ana de Áustria, bem como outro aviso para se proceder à limpeza das ruas iria passar o funeral da rainha,  da Quinta de Baixo  em Belém, para a igreja dos «Carmelitas Descalços Alemães». Em 1855,  os seus restos mortais foram trasladados para o Convento de S. Vicente de Fora, para junto dos de D. João V.

Freguesia de Campolide
(Foto: Sérgio Dias | NT do DPC )

A Praça e a Rua de Dom Luís I, o rei que promulgou a abolição da pena de morte

Praça de Dom Luís I – Freguesia da Misericórdia

O  rei de Portugal desde 1861, Dom Luís I , que em 1867 promulgou a Carta de Lei de abolição da pena de morte foi perpetuado numa Praça logo no ano seguinte a ser entronizado e em 1947, 80 anos depois da abolição, foi mais uma vez fixado numa Rua que justamente se inicia na Praça de Dom Luís I.

A 1 de julho de 1867, D. Luís I mandou publicar a Carta de Lei que aprovou a reforma penal e das prisões e ditou a abolição da pena capital para todos os crimes civis em Portugal, assumindo uma posição abolicionista e pioneira no panorama europeu. Três ano depois, o decreto do alargamento da Lei da Abolição às colónias de 1870, destacou no seu preâmbulo o eco positivo que a aprovação do novo código civil de Barjona de Freitas pelo parlamento português tinha tido nas personalidades estrangeiras empenhadas no abolicionismo.

Aliás, a última condenação à morte em Portugal, executada em  Lagos, ocorrera em 1846,  21 anos antes da abolição, sendo condenado José Joaquim, de alcunha José Grande, guerrilheiro absolutista que perpetrou um homicídio violento e foi julgado duas vezes pelo crime antes da sentença de pena capital.

Rua Dom Luís I – Freguesias da Misericórdia e da Estrela
(Foto: Sérgio Dias|NT do DPC)

A Praça de Dom Luís I resultou de uma proposta aprovada na  sessão de Câmara de 10/02/1862 para que no Aterro da Boavista, no terreno confinante pelo norte com a Casa da Moeda, pelo sul com o Tejo, pelo nascente com o Forte de São Paulo e pelo poente com a Rua 24 de Julho [hoje Avenida], se formasse uma Praça e que a mesma tivesse a denominação de Praça de Dom Luís I, ou seja, cerca de 4 meses após D. Luís ter assumido o trono (14/10/1861), por morte do seu irmão D. Pedro V. Hoje esta Praça é delimitada pela Avenida 24 de Julho, Rua Dom Luís I, Rua da Ribeira Nova, Rua da Moeda e Travessa do Carvalho.

Este rei de cognome O Popular, teve ainda  dupla honra toponímica, uma vez que para além da Praça em vida também recebeu uma rua após falecer.  Algumas remodelações urbanísticas da zona onde a Praça de Dom Luís I se insere, produziram também algumas alterações toponímicas e assim o Edital municipal de 17/06/1947 determinou que o troço da Rua Vasco da Gama compreendido entre a Praça de Dom Luís I e a Avenida Presidente Wilson [hoje, Avenida Dom Carlos I] passasse a ser Rua Dom Luís I, ao mesmo tempo que o troço da Rua Vasco da Gama com os prédios com os nºs 1 a 51 e 24 a 6 se tornou o Largo Vitorino Damásio e o troço da Rua Vasco da Gama com os nºs 68 a 172 unido com a Rua Vitorino Damásio foi fixado como Largo de Santos.

Curiosamente, menos de três anos depois, a Comissão Consultiva Municipal de Toponímia na sua reunião de 19/01/1950 propôs alterar os nomes da Praça Dom Luís I e da Rua Dom Luís I para Praça e Rua Marquês de Sá da Bandeira, em virtude de existir na Praça um monumento a este militar e político. Contudo, nunca se executou esta alteração  e o marquês manteve a sua homenagem resultante da deliberação da então Câmara Municipal de Belém de  31 de março de 1880, na toponímia das Avenidas Novas, como Rua Marquês de Sá da Bandeira: era a «Estrada que principia na Barreira do Rego e termina no Largo do Rego a S. Sebastião da Pedreira» que também por deliberação da edilidade belenense de 20/10/1881, passou a terminar no Campo Pequeno.

Revista Contemporânea, dezembro de 1861

D. Luís (Lisboa- Paço das Necessidades/31.10.1838-19.10.1889/Cascais), segundo filho da rainha D. Maria II e de D. Fernando de Saxe-Coburgo-Gota,  foi o 32º rei de Portugal, de novembro de 1861 até à data da sua morte em 1889. Destinado a oficial da Marinha era capitão-de-mar-e-guerra quando teve de subir ao trono português. Celebrou contrato de casamento no ano seguinte à sua entronização, com D. Maria Pia, com quem teve dois filhos: aquele que viria a ser D. Carlos I e o infante D. Afonso Henriques. Durante o seu reinado teve como chefes de governo o Duque de Loulé, o  Marquês de Sá da Bandeira, Joaquim António de Aguiar, Fontes Pereira de Melo, o Duque d’Ávila, o Duque de Saldanha, Anselmo José Braamcamp, António Rodrigues Sampaio, José Luciano de Castro e conseguiu ver concluído o caminho de ferro do norte com a construção da ponte Maria Pia (1877) bem como concluída a linha do Algarve (1889).

D. Luís possuía além de instrução científica, a arte da composição musical que também executava em piano e violoncelo e o domínio falado de 7 idiomas europeus, tendo até traduzido obras de Shakespeare que publicou sem menção do seu nome, tendo sido a primeira Hamlet, em 1877.  Como presidente da Academia Real das Ciências instituiu um prémio para a obra mais notável publicada em cada ano, para além de ter sido presidente do Congresso de Beneficência Municipal e fundado os Albergues Nocturnos.

A Praça de Dom Luís I e a Rua Dom Luís I – Freguesias da Misericórdia e da Estrela (Planta: Sérgio Dias, NT do DPC)

 

A Avenida e a Praça de Dom João II, o Príncipe Perfeito

Praça Príncipe Perfeito - Freguesia do Parque das Nações (Foto: Sérgio Dias)

Praça Príncipe Perfeito – Freguesia do Parque das Nações
(Foto: Sérgio Dias)

D. João II, «Príncipe Perfeito» de cognome, é topónimo de duas artérias do Parque das Nações, herdadas da Expo 98: a  Avenida D. João II, que corre paralela à Rua do Pólo Sul, e nasce na Praça Príncipe Perfeito para desembocar na Via do Oriente.

No âmbito da requalificação urbana resultante da Expo 98 «Os Oceanos: um património para o futuro», a Câmara Municipal de Lisboa oficializou pelo Edital de 16/09/2009 os topónimos escolhidos pela organização do evento para figurarem nos arruamentos no decorrer da exposição, já que na altura em que se tornaram território administrativo do concelho de Lisboa já possuíam prédios construídos e causaria transtornos e custos aos residentes a mudança de topónimo.

Esta herança toponímica que Lisboa acolheu integra referências aos oceanos, aos Descobrimentos Portugueses, aos aventureiros marítimos de diversas nacionalidades, da literatura e da banda desenhada, assim como figuras de relevo para Portugal, escritores portugueses ou obras suas de alguma forma ligadas ao mar e ainda, alguns biotopónimos.

Avenida D. João II - Freguesia do Parque das Nações (Foto: Sérgio Dias)

Avenida D. João II – Freguesia do Parque das Nações
(Foto: Sérgio Dias)

D. João II (Lisboa- Paço das Alcáçovas/03.03.1455 – 25.10.1495/Alvor), 13º rei de Portugal, de 1481 a 1495, filho de D. Afonso V e de D. Isabel de Coimbra, casou com sua prima direita D. Leonor de Viseu em 1471 e caracterizou o seu reinado pelo empenho em restabelecer a eficácia do poder central e restaurar as finanças públicas por um lado, enquanto por outro, defendeu a política de exploração atlântica, dando prioridade à busca de um caminho marítimo para a Índia, tanto mais que já desde 1474 dirigia a política atlântica de expansão portuguesa.

Foi D. João II que após ordenar as viagens de Bartolomeu Dias e de Pêro da Covilhã, e  na sequência da recusa em apoiar Cristóvão Colombo, delineou em 1494 o plano da primeira viagem à Índia para ser executada por Estêvão da Gama e negociou com os Reis Católicos o Tratado de Tordesilhas que dividiu o controlo do mundo entre Portugal e Espanha, já com o Brasil – oficialmente descoberto em 1500 – na metade portuguesa. A totalidade das descobertas portuguesas do reinado de João II permanece desconhecida já que muita informação foi mantida em segredo por razões políticas e arquivos desse período foram destruídos no Terramoto de 1755.

D. João II foi a efígie nas notas de mil angolares (do Banco de Angola) de 1 de junho de 1944, bem como das de 500 escudos do Banco de Portugal de 25 de janeiro de 1966.

A Avenida D. João II e a Praça Príncipe Perfeito - Freguesia do Parque das Nações (Planta: Sérgio Dias)

A Avenida D. João II e a Praça Príncipe Perfeito – Freguesia do Parque das Nações
(Planta: Sérgio Dias)

Praça D. Pedro IV, antes D. Pedro e ainda antes Rossio

Em 1925 (Foto: Manuel Tavares, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Praça de Dom Pedro em 1925
(Foto: Manuel Tavares, Arquivo Municipal de Lisboa)

Aquela artéria lisboeta que no presente todos conhecemos vulgarmente por Rossio já no séc. XVIII se denominava Praça do Rossio, e há pouco mais de 180 anos, por decreto governamental de 31/10/1836, passou a designar-se Praça de Dom Pedro, a qual foi alterada pelo Edital municipal de 26 de março de 1971 para Praça Dom Pedro IV.

A reunião da Comissão Municipal de Toponímia de 19 de março de 1971 é esclarecedora ao pronunciar-se «sobre a forma como devem ser escritos os letreiros toponímicos»,  sendo do parecer «Que a nomenclatura da Praça de D. Pedro seja alterada para: Praça de D. Pedro IV», pelo simples motivo de «Já que assim consta dos letreiros ali afixados há longo tempo e ainda porque dessa forma melhor se identifica a figura histórica homenageada».

(Foto: Rui Mendes)

(Foto: Rui Mendes)

O homenageado é D. Pedro I do Brasil e IV de Portugal, que recebeu os cognomes de O Libertador e Rei Soldado, de seu nome completo Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Serafim de Bragança e Bourbon (Palácio de Queluz/12.10.1798 – 14.09.1834/Queluz), filho de D. João VI e da sua esposa, D. Carlota Joaquina. Tendo a coroa portuguesa fugido das invasões francesas residiu no Brasil entre 1807 e 1831. Por força da Revolução Liberal de 1820 no Porto os seus pais regressaram a Portugal e foi nomeado regente em 1821. No ano seguinte, declarou a independência do Brasil, face ao domínio português. Assim, foi D. Pedro I, o primeiro imperador do Brasil, no período de 7 de setembro de 1822 (O grito do Ipiranga) a 7 de abril de 1831, ano em que abdicou para assumir a coroa portuguesa, como D. Pedro IV, em defesa dos direitos da sua filha, D. Maria da Glória, que virá a ser a rainha D. Maria II (Rio de Janeiro/04.04.1819 – 15.11.1853/Lisboa), e que significativamente dá nome ao Teatro instalado na Praça D. Pedro IV, tendo este aberto as suas portas em 13 de abril de 1846, durante as comemorações do 27.º aniversário da rainha D. Maria II .

Como D. Pedro IV aparece entre os topónimos de Felgueiras,  Queluz e Valongo, enquanto como D. Pedro I surge no Brasil na Baía, em Goiânia, Minas Gerais, Paraíba ou Rio de Janeiro.

Freguesia de Santa Maria Maior (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Travessa da Memória da salvação de D. José I e do Salão Portugal

Salão Portugal na Travessa da Memória em 1969 (Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

Salão Portugal na Travessa da Memória em 1969
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

A memória da aventura galante de D. José I com D. Teresa de Távora que terminou com um atentado à integridade física do soberano, ficou registada no próprio local com a construção de uma Igreja, dedicada a Nossa Senhora do Livramento por ele ter saído ileso e a São José pelo nome do rei, bem como com três topónimos, a guardaram essa memória num Largo, numa Calçada e na Travessa em cujo nº 36 esteve o Salão Portugal a partir de  1928.

Cinegrafia, 23 de maio de 1929

Cinegrafia, 23 de maio de 1929

O Salão Portugal, propriedade de Nicolau Veríssimo, foi um cinema muito popular até aos anos 50 do  século passado. O Salão Portugal foi remodelado interiormente em 1936, quando já era da Sociedade Geral de Cinemas Lda., alcançando 510 lugares. Voltou em 1945 para o dono original  e após diversas vicissitudes e gerências encerrou portas em 1977. Desde 2000 que o edifício é a sede do Comité Olímpico de Portugal.

A Travessa da Memória, na Freguesia da Ajuda, foi formalizada pelo Edital municipal de  26/09/1916, tal como a Calçada da Memória. Já o Largo da Memória não possui prova documental que ateste a sua data de fixação mas todos os três topónimos terão de ser posteriores ao início  da construção nesta zona da Igreja da Memória e mais adiante veremos quando. As obras começaram em maio de 1760 e a cerimónia da primeira pedra teve lugar a 3 de setembro desse ano. O templo foi traçado pelo cenógrafo e arqº Giovanni Carlo Bibienna (Itália/1717-20.11.1760/Lisboa) , responsável por diversas obras como a Real Barraca da Ajuda e a sua Capela Real ou o Teatro Real da Ópera do Tejo. A construção só foi retomada em 1762 e voltou a parar por motivos económicos, sendo reiniciada em novembro de 1779, já sob o visionamento do arqº Mateus Vicente (Barcarena/1706 – 1785/Lisboa).  A Igreja é nos nossos dias a Diocese das Forças Armadas.

Já as três artérias da Memória devem ser mesmo do final do séc. XIX, dado que com data de 27 de outubro de 1886, encontramos no Arquivo Municipal de Lisboa um projeto de ruas na zona da Memória e da Ajuda, no qual percebemos que a Igreja da Memória confrontava com o Caminho do Buraco, o Pátio das Vacas e o Largo do Chafariz. Também com a data de 8 de janeiro de  1891 deparamos com o projeto definitivo das ruas nas denominadas Terras da Memória, em terreno cedido pela Casa Real. E em 1892, descobrimos um requerimento de vários a solicitar a demolição do muro na travessa do Pátio das Vacas para comunicação com as Terras da Memória e ainda uma solicitação de Rosa Gomes para construção de casa num dos arruamentos projetados na zona da Memória .

De acordo com Norberto de Araújo, foi na noite do dia 3 de setembro de 1758, quando o monarca saído dos aposentos da jovem marquesa de Távora D. Teresa (09.08.1723 – ?), subia de Belém para Ajuda, na carruagem do seu criado e confidente Pedro Teixeira (também fixado como topónimo numa Estrada da Ajuda), ao passar no Pátio das Vacas foi D. José atacado a tiro. Os conjurados sumiram-se e o rei partiu à desfilada para a casa do Marquês de Angeja, na Junqueira, para tratar os seus ferimentos no braço. D. José I saiu ileso desta conspiração, tida como dos Távoras, e por tal bênção foi erguida a Igreja da Memória, consagrada a Nossa Senhora do Livramento e a São José.

Depois, o Marquês de Pombal acusou os seus inimigos Távoras de conspiração, e estes foram torturados e executados em janeiro de 1759 mas D. Teresa Tomásia de Távora e Lorena foi salva com a obrigação de professar num convento. A morte dos Távoras foi celebrada com um pelourinho erguido no Beco do Chão Salgado, topónimo também relativo a essa ocasião e os restos mortais do Marquês de Pombal foram transladados em 1923 para a Igreja da Memória.

A Travessa da Memória na Freguesia da Ajuda (a amarelo), vendo-se o Largo e a Igreja da Memória (estrela verde) e a Calçada da Ajuda (bola vermelha)

A Travessa da Memória na Freguesia da Ajuda (a amarelo), vendo-se o Largo e a Igreja da Memória (estrela verde) e a Calçada da Ajuda (bola vermelha)

 

 

Da Estrada à Rua do Arco do Cego

Padrão comemorativo da intervenção da Rainha Santa Isabel no reencontro de Dom Dinis com o filho Dom Afonso, no Arco do Cego, em 1949 (Foto: Estúdio Mário Novais, Arquivo Municipal de Lisboa)

Padrão comemorativo da intervenção da Rainha Santa Isabel no reencontro de Dom Dinis com o filho Dom Afonso, na Rua do Arco do Cego, em 1949
(Foto: Estúdio Mário Novais, Arquivo Municipal de Lisboa)

As pazes entre D. Diniz e seu filho Afonso, feitas em 1323 por intermédio da Rainha Santa Isabel, foram assinaladas no local com um arco de pedra na via que passou a ser conhecida como Estrada do Arco do Cego.

No entanto, Norberto de Araújo questiona se foi aqui o local onde esteve para se dar a batalha de “Alvalade”, pelo que a colocação do padrão neste sítio, no século XVII, pode ter sido apenas uma circunstância de comodidade.

Contudo, séculos mais tarde a estreiteza desse arco dificultava a passagem dos coches e carruagens. Assim, quando em maio de 1742, D. João V adoeceu e os seus médicos resolveram que ele fosse a banhos nas Caldas da Rainha, verificou-se que o seu coche real não passava de modo algum e o rei mandou demolir o arco.

Enquanto topónimo o Arco do Cego surge em 1858 como Estrada do Arco do Cego, na cartografia de Filipe Folque. Em 1894, encontra-se um orçamento para o calcetamento do passeio da Estrada do Arco do Cego, ao Lumiar, entre o Arco do Cego e a Quinta do Conde das Galveias. E já no séc. XX, foi aprovado em sessão de Câmara de 21 de maio de 1936 um projeto de novos arruamentos entre a Avenida Defensores de Chaves, ruas Carvalho Araújo, Visconde de Santarém e o Bairro Social do Arco do Cego onde surge então a denominação Rua do Arco do Cego, com as definições que hoje lhe conhecemos entre a Avenida Visconde Valmor e o Campo Pequeno.

Rua do Arco do Cego - Freguesias das Avenidas Novas e do Areeiro

Rua do Arco do Cego – Freguesias das Avenidas Novas e do Areeiro

 

As três ruas das cozinhas reais

Rua das Cozinhas - Freguesia de Santa maria maior - Placa Tipo I (Foto: Mário Marzagão)

Rua das Cozinhas – Freguesia de Santa Maria Maior – Placa Tipo I
(Foto: Mário Marzagão)

Três artérias lisboetas recordam a gastronomia das cozinhas reais, sendo duas junto ao Castelo de São Jorge e a outra na Freguesia da Ajuda, na proximidade do Palácio da Ajuda.

Na antiga Freguesia do Castelo, hoje integrada na Freguesia de Santa Maior, encontramos a Rua das Cozinhas, que começa junto ao nº 37 da Rua do Espírito Santo e é uma artéria que surgiu após o Terramoto de 1755 para perpetuar a memória das cozinhas do Paço de Alcáçova medieval neste local.

Na mesma zona deparamos com o Beco do Forno do Castelo, que une a Rua do Recolhimento à Rua de Santa Cruz do Castelo. Este topónimo antigo já aparece registado nas descrições paroquiais anteriores ao Terramoto de 1755, como Beco do Forno, e foi o Edital do Governo Civil de Lisboa de 1 de setembro de 1859 que lhe acrescentou «do Castelo», para o diferenciar dos tantos outros topónimos com a palavra forno existentes em arruamentos da cidade. Oitenta e cinco anos depois a Comissão Municipal de Toponímia, na sua reunião de 14 de novembro de 1944, sugeriu que se denominasse «Beco do Forno ao Castelo» em vez de «Beco do Forno do Castelo» mas tal indicação nunca teve execução prática.

Beco do Forno do Castelo e Rua das Cozinhas - Freguesia de Santa Maria Maior (Planta: Sérgio Dias)

Beco do Forno do Castelo e Rua das Cozinhas – Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias)

Já na Freguesia da Ajuda, temos a Rua das Chaminés d’El-Rei, que liga a Estrada de Pedro Teixeira à Estrada de Sintra, topónimo que se deriva dos equipamentos usados pelo Palácio da Ajuda e pela corte. Em 1726, D. João V adquiriu três quintas na encosta da Ajuda – a de Baixo, a do Meio e a de Cima –  e como depois do terramoto de 1755 as terras da Ajuda foram consideradas seguras pela população de Lisboa D. José e a sua corte transferiu-se para a Quinta de Cima, onde o rei construiu um palácio de madeira conhecido como a Régia Barraca. Este ardeu por completo em 1794, e no ano seguinte foi lançada a primeira pedra da construção do Palácio da Ajuda que hoje conhecemos.

Esta Rua das Chaminés d’El-Rei era a Rua 14 do Bairro do Caramão da Ajuda, cujo topónimo numérico foi alterado em resultado de um estudo do Gabinete de Estudos Olisiponenses sobre recuperação da toponímia antiga da zona ocidental de Lisboa, na sequência do qual a Comissão Municipal de Toponímia deu parecer para que os novos arruamentos do Bairro do Caramão da Ajuda o seguissem e assim ficaram em Edital municipal de 18/12/1989 os seguintes topónimos: Rua 1 – Rua José Pinto Bastos (benemérito da Ajuda); Rua 3 – Rua da Preta Constança (figura popular da Ajuda); Rua 4 – Rua dos Vaga-Lumes; Rua 5 – Rua Horta e Silva (o boticário da Ajuda que também fabricava graxa); Rua 6 – Rua Pedro Augusto Franco ( 1º Conde do Restelo, Presidente da Câmara Municipal de Belém e da Câmara Municipal de Lisboa); Rua 7 – Rua Rainha das Ilhas das Cobras (figura popular); Rua 9 – Rua Rainha do Congo (figura popular); Rua 10 – Rua de Nossa Senhora da Ajuda; Rua 11 – Rua José Maria Preto (o barbeiro local); Rua 14 – Rua das Chaminés d’El-Rei; Rua 20 – Rua dos Archeiros.

Rua das Chaminés d'El-Rei - Freguesia da Ajuda - Placa Tipo IV (Foto: Sérgio Dias)

Rua das Chaminés d’El-Rei – Freguesia da Ajuda – Placa Tipo IV
(Foto: Sérgio Dias)

 

O Largo do Picadeiro dos Bragança antes do Terramoto

Placa de Azulejo - Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Sérgio Dias)

Placa de Azulejo – Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Sérgio Dias)

Estabelecido na confluência da Rua dos Duques de Bragança, Rua Paiva de Andrade e Largo de São Carlos, o Largo do Picadeiro retira a sua designação do picadeiro do palácio dos Duques de Bragança que foi erguido neste local.

O Palácio dos Duques de Bragança em Lisboa ficava na zona do Chiado, na confluência das que hoje são as ruas António Maria Cardoso, Vítor Cordon e Duques de Bragança até ao Largo do Picadeiro e  que desapareceu com o Terramoto de 1755 que atingiu fortemente a  freguesia de Nossa Senhora dos Mártires, escrevendo o Cura Manoel Roiz Leytão, em 11 de abril de 1758, que «The [Até] o anno de mil settecentos e sincoenta e sinco [1755] rendia esta Igreja todos os annos ao Parocho perto de quinhentos mil reis, e prezentemente não chega a render lhe cem mil reis, por ficar esta freguezia sem propriedade alguma por cauza do terremoto, e incendio do primeiro de Novembro, de mil sette centos e sincoenta e sinco.(…) Prezentemente ha nesta freguezia sette fogos em que rezidem quarenta e seis pessoas, pois por cauza do terremoto ficou totalmente sem caza alguma, e toda por terra e se não tem reedificado nada.»

Nas descrições anteriores ao terramoto de 1755 da freguesia de Nossa Senhora dos Mártires surge uma «rua do picadeiro» que corresponde à que é hoje a Rua António Maria Cardoso, já que seria este o local do picadeiro e das suas cavalariças e que após o terramoto foi o espaço urbanizado com a abertura de uma única rua, mais ampla e regular.

Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior

Freguesia de Santa Maria Maior

Ramalho foi do Príncipe Real à Praça Rio de Janeiro

Freguesias da Misericórdia e de Santo António

Freguesias da Misericórdia e de Santo António                    (Foto: Sérgio Dias)

Quando Ramalho Ortigão se fixou em Lisboa em 1867 já o Largo da Patriarcal Queimada se chamava Praça do Príncipe Real e quando vítima de cancro se recolheu na Casa de Saúde do Dr. Henrique de Barros nesse artéria, já era a Praça do Rio de Janeiro.

O Largo da Patriarcal Queimada junto com a parte da Rua da Patriarcal Queimada que enfrenta o Largo, passaram a constituir um único arruamento com a denominação de Praça do Príncipe Real pelo Edital do Governo Civil  de Lisboa de 01/09/1859. Após a implantação da República e para reforçar a ligação com a República Brasileira, o Edital municipal de 05/11/1910 tornou a Praça do Príncipe Real em Praça do Rio de Janeiro, bem como o Largo do Rato em Praça do Brasil. Finalmente, o Edital camarário de 23/12/1948 reverteu a Praça do Rio de Janeiro para Praça do Príncipe Real, bem como a Praça do Brasil para Largo do Rato, assim como aplicou a mesma regra de retorno a outros topónimos modificados na época republicana como o Largo Dr. Afonso Pena (Presidente do Brasil) que passou a Campo Pequeno, a Calçada João do Rio (escritor brasileiro) ficou Calçada Engenheiro Miguel Pais, a Avenida Alferes Malheiro passou a Avenida do Brasil, a Avenida Presidente Wilson retornou a Avenida Dom Carlos I e fixou-se o Presidente Wilson na Rua D1 do Plano de Urbanização da zona entre a Alameda Dom Afonso Henriques e a linha férrea de cintura, o Campo 28 de Maio voltou a Campo Grande e um troço da Avenida Estados Unidos da América tornou-se Avenida 28 de Maio.

Príncipe Real de Portugal era o título oficial atribuído aos Herdeiros da Coroa de Portugal, durante a Monarquia Constitucional (1822 -1910) por oposição aos demais filhos do Casal Régio, que recebiam o título de Infante de Portugal, tendo usado este título D. Pedro (depois D. Pedro V), D. Carlos (depois D. Carlos I), D. Luís Filipe de Bragança e D. Afonso de Bragança. Contudo, como a rainha D. Maria II mandou erguer um jardim no espaço da antiga Patriarcal de Lisboa em honra do seu filho que viria a ser D. Pedro V, o topónimo dado em 1859 está relacionado com ele, a quem mais tarde, em 17/11/1883, a edilidade lisboeta também atribuiu uma rua junto a esta Praça.

Freguesias da Misericórdia e de Santo António

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