Fernando Bento, pioneiro da banda desenhada portuguesa, numa Rua do Bairro do Oriente

Freguesia do Parque das Nações
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Desde 1998 que Fernando Bento, pioneiro da banda desenhada portuguesa, de traço original e inconfundível, que serviu de modelo a Eduardo Teixeira Coelho e outros das gerações seguintes, está homenageado numa Rua do Bairro do Oriente, na freguesia do Parque das Nações.

A Rua Fernando Bento, que liga a Rua Padre Abel Varzim à Rua Carlos Daniel, foi o topónimo atribuído à  Rua F do Bairro dos Retornados pelo Edital municipal de 24 de junho de 1998. O antigo Bairro dos Retornados, como era popularmente conhecido, foi renomeado como Bairro do Oriente no dia 7 de maio de 1999 e as suas artérias, até aí denominadas por letras, passaram a ostentar nas suas placas toponímicas os nomes de vários artistas, como Fernando Bento, os cantores António Variações e Carlos Paião, os atores Mário Viegas e Carlos Daniel, o compositor Jaime Mendes e o Palhaço Luciano.

Fernando Trindade Carvalho Bento (Lisboa/26.10.1910 – 19.09.1996*/Lisboa) nasceu  na Praça das Flores 21 dias após a implantação da República em Portugal, filho de um pintor de cenários e de cartazes do Coliseu dos Recreios e tornou-se  a partir de 1938 um autor de banda desenhada portuguesa, modelo para os desenhadores das gerações seguintes, como Eduardo Teixeira Coelho. Refira-se ainda neste mês de junho que Fernando Bento foi também o primeiro a fazer uma biografia de Santo António em banda desenhada, em 1943, para o Diabrete nº 128.

Antes de se dedicar em força à  9ª Arte, Fernando Bento fizera apenas o curso de desenho por correspondência da escola de desenho ABC de Paris. A partir de 1935, trabalhou como figurinista e cenógrafo no Coliseu de Lisboa e, dois anos depois, com 27 anos de idade, fez a sua primeira exposição individual. Ainda na década de trinta do séc. XX, Fernando Bento teve uma fase em que publicava caricaturas na imprensa escrita, primeiro no Coliseu Os Sports, como depois no Diário de Lisboa. E como em Portugal nunca a profissão de artista de banda desenhada foi remunerada de forma a permitir ser a única ocupação, desde muito cedo que Fernando Bento era funcionário da British Petroleum, pelo que com o lançamento da revista BP foi convidado a participar nela e tornou-se até  seu diretor mais tarde. Quando se reformou da BP, abriu um gabinete de publicidade.

Filipim de Fernando Bento

Publicou as suas primeiras histórias aos quadradinhos em 1938, no suplemento infantil do jornal República, o Pim-Pam Pum versando geralmente temas desportivos como O Mais Importante Desafio de Futebol da Época ou A Volta A Portugal em Bicicleta. A partir de 1941 e de parceria com Mário Costa,  assegurou o grafismo do Pim-Pam Pum durante quase 20 anos,  até 1959, tendo aí também publicado 14 séries, onde  se destaca A Volta ao Mundo Por Pim Pam Pum (1941-1942) e As Férias de Pim Pam e Pum (1942) e mais 836 tiras e 49 pranchas de uma página de sua autoria. Em paralelo, trabalhou também na revista infantil Diabrete (1941 a 1951), onde foi maquetista, ilustrador de capas e autor das bandas desenhadas de adaptações de obras de Júlio Verne, Conan Doyle, Kipling ou  Mark Twain,  bem como de outras com argumento didático-histórico de Adolfo Simões Muller, para além das suas personagens cómicas  AnitaZé Quitolas ou Zuca. Da sua ligação a  Adolfo Simões Muller resultaram  também ilustrações para a literatura infantil deste. Em 1946, fez uma adaptação para banda desenhada do filme de Robert Vernay de 1942, Le Comte de Monte-Cristo, com um estilo aproximado da fotografia, para suporte de uma folha volante de publicidade e o seu enorme sucesso garantiu-lhe de seguida a passagem  das suas histórias para os manuais escolares de inglês e francês dessa época. A partir de 1952, Fernando Bento instalou-se na revista juvenil Cavaleiro Andante, para dar vida a inúmeras séries como Beau Geste – que foi editada na BélgicaO Anel da Rainha do Sabá ou Quintino Durward, que era a sua favorita. Até 1962 foi para esta revista que também produziu anúncios, capas,  37 séries e 175 histórias curtas. De igual modo, para o Pagem, o  suplemento infantil do Cavaleiro Andante, não faltaram as suas histórias cómicas do Zé Quitolas, da Anita e do Filipim.

Depois, só voltou a publicar em  1973, com um grafismo mais modernista, 16 pranchas inéditas intituladas Um Homem Chamado Joaquim Agostinho, impressas diariamente nas páginas de A Capital , entre 5 e 20 de agosto desse ano. Essa década foi também a das  reedições das suas obras para o suplemento Nau Catrineta do Diário de Notícias (1975), A Ilha do Tesouro (1977) e Serpa Pinto (1979) para o Templário Juvenil, bem como Luís de Camões e Alguns Passos de ‘Os Lusíadas’ para o Boletim do Serviço de Biblioteca Itinerantes da Fundação Gulbenkian, tendo assim continuado a acontecer nos anos 80 para as revistas Mundo de Aventuras Quadradinhos. Foram também reeditados os álbuns Beau Geste (1982), Com a Pena e com a Espada (1983), O Anel da Rainha do Sabá  e As mil e Uma Noites (ambos em 1988). No início da década de 90, Fernando Bento nos seus 80 anos de idade,  retomou a sua A Ilha do Tesoiro de 1947, desta feita com argumento de Jorge Magalhães e o titulo de Regresso à Ilha do Tesouro (1993), para além de ter sido reeditado no  Almada BD Fanzine (1990), nos Cadernos Sobreda-BD (1991 e 2002) e no fanzine Zero  da Póvoa do Varzim ( de 1990 a 1998).

Fernando Bento foi agraciado com o troféu O Mosquito (1983) pelo Clube Português de Banda Desenhada, assim como postumamente foi homenageado em 2010, no 1º centenário do seu nascimento, através de uma exposição  que esteve patente em Moura, Sobreda, Viseu e Beja, assim como por outra, exibida na Amadora, concelho que em 2016, também acolheu uma nova mostra, no Clube Português de Banda Desenhada.

A Câmara Municipal de Lisboa, através da Bedeteca, já o havia homenageado através da publicação de Fernando Bento – Uma Ilha de Tesouros ou  Diabruras da prima Zuca (ambos em 1998), mas no ano seguinte consagrou-o também na toponímia lisboeta. O seu nome consta também da toponímia da Sobreda, no concelho de Almada.

Freguesia do Parque das Nações
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

a data de falecimento foi a indicada pelo filho de Fernando Bento, em 1999, para a elaboração da brochura publicada para a inauguração da Rua Fernando Bento

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A Rua do Prof. Delfim Santos em Telheiras

Placa Tipo II - Freguesia do Lumiar (Foto: Sérgio Dias)

Placa Tipo II – Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

Telheiras, conhecida como Bairro dos Professores pela sua toponímia, também acolhe a Rua Prof. Delfim Santos, desde que o Edital municipal de 27/02/1978 colocou o topónimo no Impasse 11 B da Zona de Telheiras, com a legenda «Filósofo e Pedagogista/1907 – 1966».

O referido Edital atribui também em Telheiras mais os seguintes topónimos de professores universitários: Rua Prof. Bento de Jesus Caraça/Matemático 1901 – 1948; Rua Prof. Damião Peres/ Historiador 1889 – 1976; Rua Prof. Fernando da Fonseca/Médico – 1895 – 1974; Rua Prof. Henrique Vilhena/Médico e Escritor 1879 – 1958; Rua Prof. Hernâni Cidade/Historiador da Literatura Portuguesa 1887 – 1975; Rua Prof. João Barreira/Historiador de Arte 1886 – 1961; Rua Prof. Luís Reis Santos/Historiador e Crítico de Arte 1898 – 1967; Rua Prof. Mário Chicó/Historiador de Arte 1905 – 1966; Rua Prof. Mark Athias/Médico 1875 – 1946; Rua Prof. Pulido Valente/Médico 1884 – 1963; Rua Prof. Queiroz Veloso/ Historiador 1860 – 1952; Rua Prof. Vieira de Almeida/Filósofo e Escritor 1888 – 1962 e Rua Profª. Virgínia Rau/Historiadora 1907 – 1973.

Delfim Pinto dos Santos (Porto/06.11.1907 – 26.09.1966/Cascais) foi um filósofo e pedagogo que se destacou enquanto professor catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa e também, a partir de 1963, como director do Centro de Investigação Pedagógica da Fundação Calouste Gulbenkian e também, a partir de 1966, a direção do Instituto Pedagógico de Adolfo Coelho, agregado à Faculdade de Letras de Lisboa.

Licenciou-se Ciências Histórico-Filosóficas em 1931 na Faculdade de Letras do Porto, ainda deu aulas em colégios particulares do Porto e iniciou o seu estágio de professor no Liceu Nacional José Falcão (Coimbra), complementando com as cadeiras pedagógicas na Universidade de Coimbra, concluindo em julho de 1934 no Liceu Normal de Pedro Nunes, já em Lisboa. Prosseguiu a carreira docente de História e Filosofia no Liceu Gil Vicente até 1935. Fez uma breve passagem pelo Liceu Camões onde foi professor de José Cardoso Pires e Luiz Pacheco passando desde 1943 a professor da Faculdade de Letras de Coimbra e a partir de 1947, na de Lisboa, onde se tornou o primeiro professor catedrático de Pedagogia em Portugal, em 1950. Regeu as cadeiras de História da Educação, Organização e Administração Escolares,  História da Filosofia Antiga, Pedagogia e Didáctica, e Psicologia Escolar e Medidas Mentais. Foi também foi professor de Psicologia e Sociologia no Instituto de Altos Estudos Militares entre 1955 e 1962.

Como filósofo ligou-se ao Círculo de Viena onde esteve como bolseiro em 1935 e, no ano seguinte em Berlim e no University College de Londres para onde se exilara parte do Círculo de Viena, sendo que regressado a Portugal logo partiu como leitor na Universidade de Berlim em 1937, onde conheceu o pensamento de Nicolai Hartmann, Eduard Spanger e Martin Heidegger, tendo o primeiro orientado a sua dissertação sobre Conhecimento e Realidade que lhe valeu o grau de doutor pela Universidade de Coimbra, após o que voltou a Berlim até 1942. Da sua vasta obra destaquem-se  Situação Valorativa do Positivismo (1938), Da Filosofia (1939), Conhecimento e Realidade (1940), Psicologia e Caracterologia (1943), Fundamentação Existencial da Pedagogia (1946).

Refira-se ainda que Delfim Santos já desde 1972 contava com a atribuição do seu nome à então Escola Preparatória de São Domingos de Benfica.

Freguesia do Lumiar (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias)

Ary dos Santos: da Rua da Saudade ao Bairro das Pedralvas

Placa Tipo II

Freguesia de Benfica – Placa Tipo II                                                                                         (Foto: José Carlos Batista)

Cinco dias após o falecimento do poeta Ary dos Santos, que durante muitos anos morou num 1º andar do nº 23 da Rua da Saudade, foi aprovada por unanimidade em sessão de Câmara uma proposta de atribuição do seu nome a um arruamento em Lisboa, preferencialmente em Alfama.

Contudo, porque «a toponímia de Alfama está perfeitamente arreigada entre a população e constitui valioso património cultural e histórico da Cidade de Lisboa, a Comissão [Municipal de Toponímia de Lisboa] entende que ela deverá manter-se inalterável» e assim, a Rua Ary dos Santos, com a legenda «Poeta/1937 – 1984» nasceu por Edital de 28/02/1984 no troço norte da Via Envolvente da Urbanização da Quinta de Nossa Senhora do Cabo que, partindo da Rua C do Bairro das Pedralvas segue para Norte e termina na Calçada do Tojal.

José Carlos Pereira Ary dos Santos (Lisboa/07.12.1937 – 18.01.1984/Lisboa), que trabalhou como criativo publicitário, evidenciou-se sobretudo como poeta, particularmente de Lisboa, cujas tradições, figuras típicas e vivência social retratou.

Ary dos Santos estudou no Colégio de São João de Brito e, após a morte da sua mãe, viu publicados pela mão de familiares, alguns dos seus poemas quando tinha 14 anos, livro que mais tarde viria a rejeitar. Já aos 16 anos, várias poesias suas integraram então a Antologia do Prémio Almeida Garrett e, nove anos depois, em 1963, publicou o seu primeiro livro, A Liturgia do Sangue, a que se seguiram entre outros Tempo da Lenda das Amendoeiras (1964), Adereços, Endereços (1965), Insofrimento In Sofrimento (1968), Ary por Si Próprio (1970), Poesia Política (1974), As Portas que Abril Abriu (1975), Bandeira Comunista (1977), Ary por Ary e O Sangue das Palavras (ambos em 1979).

À data da sua morte tinha em preparação um livro de poemas intitulado As Palavras das Cantigas, para reunir os melhores poemas dos últimos quinze anos, e uma auto-biografia romanceada intitulada Estrada da Luz – Rua da Saudade.

Concorreu também ao Festival da Canção da RTP, tendo vencido por quatro vezes: com «Desfolhada» (1969) interpretada por Simone de Oliveira, «Menina do Alto da Serra» (1971) na voz de Tonicha, «Tourada» cantada por Fernando Tordo e, «Portugal no Coração» pelo grupo Os Amigos. Foi o autor de mais de 600 poemas para canções, a que deram voz nomes como Amália Rodrigues, Carlos do Carmo, Fernando Tordo, Paulo de Carvalho, Simone de Oliveira, Teresa Silva Carvalho, Tonicha ou Vasco Rafael.

Ary dos Santos também se distinguiu como declamador, tendo gravado um duplo álbum contendo O Sermão de Santo António aos Peixes, do Padre António Vieira e, na política aderiu ao PCP em 1969 tendo participado nas sessões de poesia do então intitulado «Canto Livre Perseguido».

Ainda no ano da sua morte foi lançado com um estudo de Manuel Gusmão os VIII Sonetos de Ary dos Santo e, quatro anos mais tarde, o seu amigo Fernando Tordo editou o álbum O Menino Ary dos Santos, com poemas de infância do poeta. Em 2004, recebeu postumamente a Ordem do Infante D. Henrique e, em 2009, Mafalda Arnauth, Susana Félix, Viviane e Luanda Cozetti deram voz ao disco de tributo Rua da Saudade-Canções de Ary dos Santos.

na Freguesia de Benfica

Freguesia de Benfica                                                                                                                    (Foto: José Carlos Batista)

 

Pioneiro da publicidade portuguesa na Toponímia de Lisboa

Placa Tipo II

Placa Tipo II

Manuel Martins da Hora, o fundador da primeira agência de publicidade portuguesa na qual criou o Concurso Bebé Nestlé, dá nome a uma rua alfacinha, que antes era conhecida como a Rua A da Quinta de São João Baptista, desde a publicação do Edital de 24/09/1996, correspondendo assim a edilidade lisboeta a um pedido da agência de publicidade McCann, herdeira da Agência Manuel Martins da Hora.

Manuel Martins da Hora (Lisboa/20.03.1896-17.07.1981/Lisboa), o pioneiro em Portugal desta área, entrou para a Toponímia alfacinha há quase 17 anos e criou a sua empresa há 86 anos, a Manuel Martins da Hora Ltd.ª, em 1927, começando por trabalhar para um importante cliente da época: a General Motors. Instalou a sede na Rua da Prata e granjeou as campanhas publicitárias das lâminas Gillete,  das pastilhas Rennie e da  Kodak.

Na década de 30 do século XX, Manuel Martins da Hora redigia ele próprio os textos publicitários, fazia a composição de anúncios e ainda tratava da compra de espaço publicitário em diversos meios. Contudo também teve como colaboradores Fernando Pessoa, para a criação de slogans e, Fernando Pessa para a locução de trabalhos para rádio, sendo por exemplo, de Fernando Pessoa o anúncio «Uma cinta Pompadour, veste bem e ajuda sempre a vestir bem».

Com a II Guerra Mundial a publicidade passou por um período de inatividade e Manuel Martins da Hora trabalhou para a Embaixada Britânica e dos Estados Unidos da América, em Lisboa, a traduzir os noticiários sobre o desenrolar dos acontecimentos da guerra nos diversos  lados do mundo e que recebia via rádio. Após o fim do conflito Manuel Martins da Hora dedicou-se, novamente em exclusivo, à publicidade, registando a sua agência de publicidade em 1947.

Ao longo dos anos a agência de Manuel Martins da Hora teve como clientes marcas como a Colgate Palmolive, a Alka Seltzer, a Pan America ou os sabonetes Lux, com Jane Russel ou Amália a publicitarem que os usavam, a que somaram também a Dymo, a Royal, a Boca Doce, a Elizabeth Arden, as lâminas Schick, a Chiclets ou a Tampax. Trabalharam ainda para Bayer, com campanhas para a Aspirina ou a Adalina, para a Ovamaltine, a margarina Vaqueiro e o lançamento das Selecções do Reader’s Digest.

na Freguesia da Ameixoeira - futura Freguesia de Santa Clara

na Freguesia da Ameixoeira – futura Freguesia de Santa Clara

Há mar e mar, há O’Neill e voltar

Placa Tipo II

Placa Tipo II

Pouco mais de dois meses após o seu falecimento foi o poeta e criador do slogan “Há mar e mar, há ir e voltar” perpetuado numa rua de Lisboa, pelo Edital de 03/11/1986.

O arruamento nasceu como Rua A à Quinta do Almargem na Junqueira ou à Rua Pinto Ferreira até que o Edital de 31/05/1949 a crismou como Travessa Pinto Ferreira e, uns 37 anos depois, o Edital de 8 de julho de 1986 a tornou em Rua Cordeiro Ferreira para passados uns 4 meses a fixar, finalmente, como Rua Alexandre O’Neill, em resultado de uma proposta do Vereador Comandante Pinto Machado, que então presidia à Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa, apresentada em sessão de câmara e aprovada por unanimidade.

O alfacinha Alexandre Manuel Vahia de Castro O’Neill de Bulhões (Lisboa/19.12.1924 – 21.08.1986/Lisboa) que fazia da publicidade ganha-pão e nos deixou slogans ainda hoje na nossa memória como “Há mar e mar, há ir e voltar” e “Bosh é bom” , também se empenhava na poesia, afirmando mesmo que «Vivo dos poemas e sobrevivo da publlicidade».

Com sede na Pastelaria Mexicana , Alexandre O’Neill foi um dos fundadores do Grupo Surrealista de Lisboa, em 1948, com Mário Cesariny, José-Augusto França, Fernando Azevedo, António Pedro e Vespeira, entre outros e que se diluiu na década seguinte. O’Neill havia recebido prémios literários no Colégio Valsassinae aos dezassete anos, publicou os primeiros versos num jornal de Amarante, o Flor do Tâmega. Depois, como surrealista publicou o poema gráfico A Ampola Miraculosa (1948), a que se seguirama poesia de Tempo de Fantasmas (1951), No Reino da Dinamarca (1958), Abandono Vigiado (1960), Poemas com Endereço (1962), Feira Cabisbaixa, (1965), De Ombro na Ombreira (1969), Entre a Cortina e a Vidraça (1972), A Saca de Orelhas (1979), As Horas já de Números Vestidas (1981) e a prosa de As Andorinhas não têm Restaurante (1970) e Uma Coisa em Forma de Assim (1980), em todos cultivando a sátira entre a constatação do absurdo da vida e o humor como única forma de se lhe opor. Em 1982, recebeu o Prémio da Associação dos Críticos Literários e, em 1990 foi feito Grande-Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada, a título póstumo.

E ainda nas escrita, O’Neill escreveu em jornais a partir de 1957 (Diário de Lisboa, A Capital e Jornal de Letras), integrou a redação da revista Almanaque (1959-1961), assinou críticas de televisão sob o pseudónimo de A. Jazente, fez a letra de Gaivota para a música de Alain Oulman e a voz de Amália, foi guionista de filmes – Dom Roberto (1962), Pássaros de Asas Cortadas (1963), Sete Balas para Selma (1967), Águas Vivas (1969), A Grande Roda (1970), Nós por cá todos bem (1978)- e de séries de televisão Schweik na Segunda Guerra Mundial (1975), Cantigamente (1976), Ninguém (1979) e Lisboa (1979). Traduziu Nora Mitrani, Maiakovski, Dostoievski, Bertolt Brecht e Alfred Jarry, para além de ter produzido antologias de Gomes Leal (1959), Teixeira de Pascoaes (1962), Carl Sandburg (1962), João Cabral de Melo Neto (1963), Vinicius de Moraes (1969) e de poesia portuguesa contemporânea para a Secretaria de Estado da Cultura.

Viveu em Lisboa e residiu a maior parte da sua vida na zona do Príncipe Real, na sua casa da Rua Escola Politécnica.

A Rua Alexandre O'Neill na Freguesia da Ajuda

A Rua Alexandre O’Neill na Freguesia da Ajuda