O Beco do Alfurja

(Foto: datada entre 1898 e 1908; Arquivo Municipal de Lisboa)

(Foto: datada entre 1898 e 1908; Arquivo Municipal de Lisboa)

Este Beco do Alfurja que começa junto ao n.º 44 da Rua da Regueira tem um formato de funil, o que calha com a origem árabe da palavra Alfurja, que significa rua estreita, entre casas, onde se lançam os despejos ou, o pátio mais interior da casa mas descoberto e onde se despejam as águas da cozinha, em qualquer dos casos reportando o hábito medieval de fazer despejos para a rua o que permite situar este arruamento como contemporâneo da urbanização medieval de Alfama.

Refira-se que já em  1551 Cristóvão Rodrigues de Oliveira, no seu Sumário, referenciava esta artéria como Alfungera.

Freguesia de Santa Maria Maior

Freguesia de Santa Maria Maior

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O Campo Pequeno do seiscentista Palácio Galveias

Freguesias das Avenidas Novas e do, Areeiro

Freguesias das Avenidas Novas e do Areeiro                                       (Foto: Rui Mendes)

Em 2001, o Palácio Galveias foi palco de uma exposição retrospetiva de Luís Dourdil, de 6 de abril a 17 de junho, numa homenagem da edilidade lisboeta ao pintor e assim, o Campo Pequeno, morada do seiscentista Palácio Galveias entra no roteiro toponímico alfacinha deste pintor.

O sítio do Campo Pequeno era no início do século XVI  um logradouro público, um espaço a descoberto na periferia da cidade, no qual se realizavam exercícios militares, tendo sido o local onde se treinou o exército de D. Sebastião antes de ir para Alcácer-Quibir, bem como lugar para feiras improvisadas. Teve também, no século XVIII, uma Praça de Touros provisória que a definitiva só foi inaugurada em 18 de agosto de 1892 a partir do plano traçado pelo arqº António José Dias da Silva.  E assim, durante vários séculos foi conhecido como Campo Pequeno ou Largo do Campo Pequeno.

Ainda antes da implantação da República em Portugal, embora a vereação da edilidade lisboeta fosse já republicana, por deliberação camarária de 1 de outubro e edital de 8 de outubro de 1908, o Campo Pequeno passou a Largo Doutor Afonso Pena, para homenagear aquele que era então o Presidente da República brasileira, função que exerceu entre 15 de novembro de 1906 e 14 de junho de 1909, data do seu falecimento. Quarenta anos depois, o edital de 23/12/1948 retirou a referência ao único Presidente do Brasil inscrito na toponímia de Lisboa substituindo-a pelo topónimo antigo.

Freguesias das Avenidas Novas e do Areeiro (Foto: Rui Mendes)                        

Freguesias das Avenidas Novas e do Areeiro
(Foto: Rui Mendes)

A Rua do Mirante, a São Vicente

Freguesia de São Vicente (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de São Vicente
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua do Mirante, na Freguesia de S. Vicente, alberga no seu nº 14 a Galeria Miron-Trema, na qual Luís Dourdil expôs integrando mostras intituladas Papéis, nos anos de 1999 e 2000.

Esta Rua do Mirante que liga a Calçada dos Cesteiros à Rua Diogo do Couto deverá ser um topónimo fixado em Lisboa no séc. XIX como referência geográfica de um local mais alto e com vista, um miradouro. Encontramos já esta artéria em 1848, num plano submetido à Câmara para  aumentar com um 3º andar o prédio com o n.º 16 e 17 na rua do Mirante, então na Freguesia de Santa Engrácia. E em 1858, também surge no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque, bem como em 1885 num ofício da Repartição Técnica de Ressano Garcia para remeter ao vereador do Pelouro das Calçadas o orçamento elaborado para a construção de passeios empedrados e macadame para esse arruamento.

Em redor desta Rua do Mirante mais 3 topónimos usam a mesma referência: o Beco do Mirante, o  Outeirinho do Mirante e a Rua de Entre Muros do Mirante. O Beco do Mirante faz a ligação da Rua do Mirante à Rua de Entre Muros do Mirante; o Outeirinho do Mirante que vai da Rua do Mirante à Rua de Entre Muros do Mirante terá sido primeiro denominado Altinho do Mirante, segundo uma planta de 1878; e, a Rua de Entre Muros do Mirante que une o Outeirinho do Mirante à Travessa do Rosário a Santa Clara foi um topónimo dado em  05/08/1867 por Edital do Governo Civil de Lisboa.

A título de curiosidade, mencionamos as impressões de Norberto Araújo, nas suas Peregrinações em Lisboa, sobre o local: «Eis-nos no encontro das Ruas da Cruz de Santa Apolónia, do Vale de Santo António, e do Mirante, esta conduzindo a Santa Clara. (…) do lado do caminho de ferro, sôbre a Bica do Sapato, estendiam-se há quarenta e tal anos [início do séc. XX]  os terrenos, que de hortas haviam sido, e nos quais existia uma fábrica de pirolitos do Hall (…) Neste grande prédio, nº 47, uma reconstrução de 1844, e que pertenceu à família Vilas Boas, e se continuou na família Araújo viu a luz do dia o teu companheiro destas Peregrinações [refere-se a ele próprio, Norberto Araújo], em 21 de Março de 1889 (…).»

Rua do Mirante no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque, 1858 (Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua do Mirante no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque, 1858
(Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua de Ovar e das varinas de Lisboa

ovar-varina

A Rua de Ovar homenageia as mulheres que migraram de Ovar para a capital e que a vender peixe pelas ruas alfacinhas imortalizaram na cidade as ovarinas como varinas lisboetas.

Este topónimo  foi atribuído à Rua J2 da zona J de Chelas, incluindo o Impasse 12/J2 e 11/J2, pelo Edital de 12/08/1982, sendo o arruamento que liga a Avenida Paulo VI à Praça Eduardo Mondlane e, resultou de uma carta de José Maria Fernandes da Graça, solicitando à edilidade lisboeta que instituísse uma Rua de Ovar «em homenagem às varinas e fragateiras que desde tempos remotos demandaram a capital, tornando-se suas figuras típicas.»

Varina é a designação abreviada de ovarina que os lisboetas deram às mulheres oriundas da zona de Ovar, que vieram para a capital a partir da segunda metade do séc. XIX, e que vendiam peixe pelas ruas ou trabalhavam no Cais da Ribeira, tendo a parte mais significativa delas ficado a morar no Bairro da Madragoa e no de Alfama. As varinas eram também provenientes de outras povoações do litoral próximas de Ovar como Ílhavo, Aveiro e Murtosa,  e igualmente terras de tradições piscatórias.

A toponímia de Lisboa comporta ainda mais cinco referências a figuras ligadas à região de Ovar, a saber: a Rua Alexandre de Sá Pinto (1835 -1926), benemérito da Escola Industrial Marquês do Pombal em Lisboa e da Misericórdia de Ovar;  a rua do professor de História da Faculdade de Letras Dr. Oliveira Ramos (1862 – 1931); a rua do historiador Miguel de Oliveira (1897 – 1968); a rua do pugilista José Santa Camarão (1902 – 1968) e, a rua da cantadeira Maria Albertina (1909 – 1985).

Freguesia de Marvila (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua da Barroca do Bairro Alto

Freguesia da Misericórdia (Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

Já que hoje é o Dia Nacional dos Centros Históricos vamos abordar uma artéria do Bairro Alto: a Rua da Barroca.

A Rua da Barroca que se estende da Rua das Salgadeiras à Travessa da Queimada, tal como as ruas da Atalaia, da Rosa, das Gáveas ou do Norte, é dos primeiros arruamentos a ser rasgado, no século XVI, na velha herdade dos Andrades, dita Vila Nova de Andrade, que a partir do estabelecimento dos frades de São Roque no local adotará o nome de Bairro Alto de São Roque.

Helder Carita avança que na mesma época existiam na cidade outras ruas com a mesma denominação (barroca, barroca do mar e barroca que desce para o pocinho) e, como também era frequente dar-se o nome de um proprietário às ruas, defende que a Rua do Veloso referida no Sumário de Cristóvão Rodrigues de Oliveira seja esta artéria.

No século XIX, esteve instalada no nº 19 deste arruamento a Tipografia Morandiana, onde em 1820 se começou a imprimir O Liberal, periódico redigido por António Maria do Couto. Também Almeida Garrett morou no nº 46, a partir de 1839-40, após a sua separação conjugal.

Freguesia da Misericórdia (Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)