A Rua de Alexandre Herculano em Alcântara

Alexandre Herculano na Revista Contemporanea de Portugal e Brazil, abril de 1859

A artéria que hoje identificamos como Rua Fradesso da Silveira foi no período de 18 de janeiro de 1878 a 31 de dezembro de 1888 a Rua de Alexandre Herculano.

Esta atribuição foi do Governo Civil de Lisboa «Atendendo ao pedido da Câmara Municipal do Concelho de Belém, em homenagem à memória do prestante cidadão que foi o primeiro presidente daquele município, para que seja denominado ‘Rua de Alexandre Herculano’ o prolongamento do novo atêrro marginal do Tejo, desde a ponte sôbre a Ribeira de Alcântara até ao Largo das Fontainhas», sendo assim definida a Rua de Alexandre Herculano  desde a ponte da Ribeira de Alcântara até ao Largo das Fontaínhas.

Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo (Lisboa/28.03.1810 – 13.09.1877/Vale de Lobos) que foi o primeiro Presidente da Câmara Municipal de Belém – em 1854 e 1855-, teve o seu nome atribuído pela 1ª vez como topónimo em Lisboa cerca de 4 meses após a sua morte, por Edital do Governo Civil de Lisboa de 18 de janeiro de 1878,  pertencendo então ao concelho de Belém. Contudo, 9 anos depois, o Edital municipal de 10 de janeiro de 1888, alterou o topónimo para Rua Fradesso da Silveira, e ainda hoje se mantêm assim na Freguesia de Alcântara. Assim, se evitou a confusão de duas ruas com o mesmo nome no concelho de Lisboa já que esta Rua de Alexandre Herculano desde 1885 pertencia ao concelho de Lisboa e uma deliberação da Câmara Municipal de Lisboa de 6 de maio de 1882 atribuíra o topónimo Rua Alexandre Herculano à artéria perpendicular à Avenida da Liberdade dirigida para o Largo do Rato, ao mesmo tempo que também instituía nesta zona a Rua Castilho, a Rua Barata Salgueiro, a Rua Mouzinho da Silveira, a Rua Passos Manuel (depois Rua Rosa Araújo pelo Edital de 19/04/1887) e a Praça do Marquês de Pombal.

Em 1954, a Rua Fradesso da Silveira que havia sido a Rua de Alexandre Herculano (Foto: Judah Benoliel © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

 

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Do Beco à Travessa do Fala-Só

A Travessa do Fala-Só em 1944
(Foto: Eduardo Portugal © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

O Beco do Fala-Só passou a ser a Travessa do Fala Só por Edital do Governo Civil de Lisboa de 29 de novembro de 1877, por sugestão de diversos proprietários de prédios desse arruamento, considerando «que ultimamente ali foram realisados melhoramentos de que resultou ficar uma espaçosa via de comunicação».

O olisipógrafo Luís Pastor de Macedo considera que  o topónimo «deve o seu nome, decerto, a algum morador que teria aquela alcunha» e aventa que antes de ter sido o Beco do Fala Só possa ter sido a «rua para cima da Glória». E tudo parece indicar que seja um topónimo oitocentista, uma vez que não surge no Sumário de 1551 de Cristóvão Rodrigues de Oliveira, nem na Memória Paroquial de São José de 1758, nem nas plantas da remodelação paroquial de 1770 onde a Rua das Taipas nasce na Calçada da Glória. Contudo, como regista o investigador olisiponense Gustavo de Matos Sequeira, o Beco surge em meados do séc. XIX.  Em 1857, na cartografia de Filipe Folque encontramos o Beco do Fala-Só a unir a Calçada da Glória à Travessa de Santo António (da Glória), em paralelo e abaixo da então denominada Rua de São Sebastião das Taipas ( que desde o Edital municipal de 17/10/1924 é a Rua das Taipas), bem como em diversos documentos municipais a partir de 1883, nomeadamente, um requerimento dos moradores de 31 de janeiro de 1883, a solicitar o isolamento do terreno em plano inclinado que na travessa fazia recanto, por servir de latrina pública e outras ações consideradas menos decentes.

Pastor de Macedo ainda menciona que nesta artéria morou e faleceu a atriz Virgínia Farrusca – referida por Sousa Bastos na sua Carteira do Artista – , viúva do ator Eduardo Augusto Farrusca.

Freguesia de Santo António

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Do Pátio à Rua do Cais da Alfândega Velha e o nascimento da Travessa da Alfândega Velha em 1874

A Rua do Cais da Alfândega Velha em 1967
(Foto: Vasco Gouveia de Figueiredo © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

A pedido da Câmara Municipal de Belém, o Governo Civil de Lisboa, pelo seu Edital de 7 de novembro de 1874, determinou que o Pátio da Alfândega Velha, também conhecido como Largo da Alfândega Velha, se designasse Rua do Cais da Alfândega Velha, bem assim como atribuiu o topónimo Travessa do Cais da Alfândega Velha.

Determinou esse Edital no seu artigo 3º que «O antigo caminho que dá serventia do largo das Cavallariças Reaes para o Largo do Marquez d’Angeja, conhecido pelas denominações de “Pateo” ou “Largo” da Alfandega Velha, pertencente á freguezia de Belem, será denominado “Rua do Caes da Alfandega Velha». No seu artigo 4º, deliberou também em conformidade que «considerando egualmente o pedido da Camara  Municipal de Belem para que se dê uma denominação á nova Travessa aberta da Rua da Junqueira para o lado do Tejo no sitio chamado “Alfandega Velha” e para que se fixe a denominação do caminho parallelo áquela Travessa, a que uns chamam Pateo e outros Largo da Alfandega Velha”.

O Pátio da Alfândega Velha, onde estavam as antigas cavalariças reais  já aparece assim mencionado na carta topográfica de Filipe Folque de 1858 e, onze anos depois, em julho de 1869, encontramos um ofício do estribeiro-mor da Repartição das Reais Cavalariças para o vice-presidente da Câmara Municipal de Belém, Joaquim José dos Anjos a comunicar que não autoriza o corte de parte de uma pequena casa ou barraca das reais cavalariças, no Pátio da Alfândega Velha, necessário ao alinhamento da nova travessa que vai do pátio à então Rua Direita da Junqueira, alegando que nessa pequena casa vive um criado dessas cavalariças, com a esperança de que quando o criado for para outra casa é que podem autorizar o corte, o que foi comunicado em março de 1871 ao presidente da Câmara Municipal de Belém, Pedro Augusto Franco.

De 1879 a 1880, encontramos a Rua do Cais a Alfândega Velha mencionada em licenças para manter gado caprino no local. Após a transferência do território de Belém para o concelho de Lisboa em 1885,  temos em 1 de junho de 1888 melhoramentos aprovados em sessão de câmara para o local, que inclui a Rua do Cais da Alfândega Velha, a avenida Marginal, as antigas cavalariças reais, a Travessa da Alfândega Velha,  a Travessa de Santo António à Junqueira, a Travessa da Pimenteira, a Travessa do Pinto, a Travessa da Guarda, a Travessa da Praia, o Largo do Marquês de Angeja, a Travessa da Galé, a Rua da Praia da Junqueira, o antigo Cais de Belém, a Travessa dos Algarves, a Rua das Freiras Salésias [desde 12/08/1963 é a Rua Alexandre Sá Pinto], a Rua do Embaixador, o Boqueirão da Cordoaria e o Boqueirão do Porto Franco, onde se englobam os arruamentos projetados nos terrenos conquistados ao Tejo pelas obras do Porto de Lisboa. Na década seguinte também se encontram documentos do alinhamento da Rua do Cais da Alfândega Velha, tal como com data de 1 de outubro de 1910 se depara uma planta com melhoramentos projetados pela Câmara Municipal de Lisboa e pelo Porto de Lisboa para o alinhamento dessa artéria.

Pelo mesmo Edital do Governo Civil de 7 de novembro de 1874, foram também alterados os seguintes topónimos: o Beco da Linheira  passou a ser a Travessa do Ferragial, a Rua da Praga foi integrada na Rua do Cardal e ganhou o acrescento São José e a Travessa das Moças tornou-se a Travessa do Olival a Santos.

Freguesia de Belém

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Da Rua da Praga à Rua do Cardal de São José dos Carpinteiros

A Rua do Cardal de São José em 1907
(Foto: Machado & Souza, © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

A pedido dos moradores da Rua da Praga esta passou a integrar a Rua do Cardal da qual seguia como prolongamento, unindo o arruamento daí resultante com o topónimo de Rua do São Cardal de São José por terminar em frente do templo de São José dos Carpinteiros, o que se processou através do Edital do Governo Civil de Lisboa de 7 de novembro de 1874.

O olisipógrafo Gomes de Brito, no seu Ruas de Lisboa refere que  «Em sessão [ de Câmara] de 17 de Agosto de 1874 foi lido o ofício do Governador Civil de Lisboa, acompanhando o requerimento dos moradores da Rua da Praga, pedindo, pelos motivos que alegavam, que o nome desta rua fosse substituído pelo de Rua do Cardal de S. José », solicitação a que a edilidade lisboeta deu parecer favorável «dizendo que a Vereação nenhuma dúvida tem em que se faça a substituição requerida.»

Cardal significa terra de catos e na carta topográfica de Lisboa de 1856 elaborada por Filipe Folque também se encontra o Cardal de Santo António e o Cardal da Graça. Nesta Cardal de São José evoca-se a proximidade à Igreja Paroquial de São José que foi também denominação da Freguesia, designada originalmente São José de Entre as Hortas quando em 1567 foi criada por desanexação da freguesia de Santa Justa. Hoje, a Rua do Cardal de São José liga a Rua da Fé à Travessa Larga e é território sob administração da Freguesia de Santo António.

A igreja de São José dos Carpinteiros teve origem numa pequena ermida em 1545 e vinte e dois anos depois, em 1567, foi elevada a paroquial. Em meados do séc. XVII conheceu obras de ampliação e após o terramoto de 1755, foi reedificada e está classificada como Imóvel de Interesse Público.

Ainda no séc. XIX, a Rua do Cardal de São José, foi alvo de um memorial de João Henrique da Costa Sermenho sobre a melhor ocasião para construção de passeios de pedra miúda, para melhorar o trânsito a pé e ajudar no declive do cruzamento com a rua do Carrião (1881-10-17) e teve um alinhamento aprovado em sessão de câmara de 14 de abril de 1890.

Pelo mesmo Edital do Governo Civil de 7 de novembro de 1874, foram também alterados os seguintes topónimos: o Beco da Linheira  passou a ser a Travessa do Ferragial, a Travessa das Moças tornou-se a Travessa do Olival a Santos, o Pátio ou Largo da Alfândega Velha  mudou para Rua do Cais da Alfândega Velha, assim como uma nova travessa aberta na Rua da Junqueira ganhou a denominação de Travessa do Cais da Alfândega Velha.

A Rua do Cardal de São José em 1881
(Planta: Francisco Goullard, © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

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Do Beco da Linheira à Travessa do Ferragial

A Travessa do Ferragial cerca de 1945
(Foto: Fernando Martinez Pozal, © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

Hoje na Freguesia de Santa Maria Maior e a ligar a Calçada do Ferragial à Rua Vítor Cordon, a Travessa do Ferragial  nasceu por Edital do Governo Civil de Lisboa de 7 de novembro de 1874 como novo topónimo do Beco da Linheira, na altura na freguesia dos Mártires e de São Julião do Bairro Central, por solicitação da Câmara Municipal de Lisboa, a partir de uma proposta do vereador Francisco Margiochi aprovada na edilidade lisboeta em 17 de agosto de 1874.

O quinhentista sítio do Ferragial é uma denominação que evoca uma planta de pasto e permaneceu no casco velho da cidade em três topónimos: a Calçada, a Rua e a Travessa, todos com a administração hoje repartida pelas freguesias de Santa Maria Maior e Misericórdia.

Ferragial provém do latim farrago e serve para designar o campo onde se cultivam cereais que ceifados verdes e antes de espigar servem de pasto para animais. De acordo com o olisipógrafo Luís Pastor de Macedo, « Já no “Sumário” encontramos, em 1551, na freguesia dos Mártires as ruas de Cima e do Ferregial. O “Itinerario lisbonense” descrimina bem: Ferregial de Baixo, a primeira à direita, subindo pela rua do Alecrim e termina na Calçada do Ferregial; Ferregial de Cima, a última à direita, entrando na rua de S. Francisco da Cidade, da parte do Chiado e termina ao tesouro velho.» Ainda segundo Luís Pastor de Macedo, a Travessa do Ferragial também terá sido chamada Calçadinha do Arroz.

Por este mesmo Edital do Governo Civil de 7 de novembro de 1874, foram também alterados os seguintes topónimos: a Travessa das Moças passou a Travessa do Olival a Santos, a Rua da Praga passou a integrar a Rua do Cardal de São José, o Pátio ou Largo da Alfândega Velha  mudou para Rua do Cais da Alfândega Velha, assim como uma nova travessa aberta na Rua da Junqueira ganhou a denominação de Travessa do Cais da Alfândega Velha.

Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior

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Da Travessa das Moças à Travessa do Olival a Santos

A Travessa do Olival a Santos em data entre 1898 e 1908
(Foto: Machado & Souza, © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

Hoje na Freguesia da Estrela, a ligar a Rua Presidente Arriaga à Rua do Olival, está a Travessa do Olival a Santos que nasceu por Edital do Governo Civil de Lisboa de 7 de novembro de 1874 como novo topónimo da Travessa das Moças. A proposta partira do vereador municipal Dr. Isidoro Viana que viu aprovada em Câmara a sua proposta para solicitar ao Governo Civil de Lisboa a alteração do topónimo Travessa das Moças para Travessa do Olival a Santos.

Luís Pastor de Macedo nas suas Peregrinações em Lisboa ( vol. IV) aponta que em 1705 esta seria a travessa da Rua do Olival, como é referida no Livro IV de óbitos de Santos. Este olisipógrafo, tal como Gomes de Brito no seu Ruas de Lisboa ( vol. II), concordam que depois a artéria passou a denominar-se Travessa das Moças, como aparece já referida em 1758, no Livro IX de óbitos de Santos e de igual forma consta no Itinerário lisbonense de 1818, na planta de Filipe Folque de 1856 e em documentos municipais de 1871 e 1872.

Por este mesmo Edital do Governo Civil, foram também alterados os seguintes topónimos: o Beco da Linheira passou a Travessa do Ferragial; a Rua da Praga passou a integrar a Rua do Cardal de São José; o Pátio ou Largo da Alfândega Velha  mudou para Rua do Cais da Alfândega Velha e também uma nova travessa aberta na Rua da Junqueira ganhou a denominação de Travessa do Cais da Alfândega Velha.

Travessa do Olival a Santos mapa

Freguesia da Estrela

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O nascimento da Rua das Amoreiras em 1874

A Rua das Amoreiras no início do séc. XX
(Foto: José Leitão Bárcia © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

O Governador Civil de Lisboa Augusto César Cau da Costa tendo tido conhecimento da «conveniencia que resultará de se dar uma só denominação á Rua que vai desde o Largo do Rato até ás portas da Cidade que ficam em frente dos arcos das aguas livres, a qual, em todo o seu prolongamento tem três denominações diversas, que nenhuma razão justifica antes são causa de permanente confusão» determinou que a Rua do Arco das Águas Livres, a Rua de S. João dos Bem Casados e a Rua dos Arcos das Águas Livres passassem a ter a denominação única de Rua das Amoreiras, pelo seu Edital de 3 de fevereiro de 1874. Nasceu assim a Rua das Amoreiras, do Largo do Rato até às Portas da Cidade, assinaladas pelo Arco da autoria de Carlos Mardel, construído entre 1746 e 1748, para celebrar a entrada da água do Aqueduto das Águas Livres na cidade ao mesmo tempo que era um arco triunfal de entrada em Lisboa.

Hoje, a Rua das Amoreiras vai do Largo do Rato à Avenida Engenheiro Duarte Pacheco, sendo território das Freguesias de Santo António e de Campo de Ourique. Já as amoreiras que permitiram o topónimo desta Rua começaram a ser plantadas em 1761 na Praça das Amoreiras – que começou por ser Largo – e assim se ligam ao pombalino Bairro das Águas Livres de  1759.

Marquês de Pombal, no seu ímpeto de desenvolvimento das manufaturas nacionais, traçou em 1759 o plano do Bairro das Águas Livres que foi aprovado por Decreto de 14 de março. Este Bairro englobava mais uma Fábrica de Sedas, a pombalina, cujo epíteto de Real Colégio de Manufacturas Nacionais demonstrava que a Real Fábrica das Sedas para além de manufaturas de seda se dedicava a dar aulas aos aprendizes. Foi para esta fábrica que se plantaram 331 amoreiras na Praça das Amoreiras, de 1761 a 1771. E em volta desta Praça da fábrica – como a apelidava D. José I -,  ou Largo das Águas Livres, mas que pelo menos desde de 1807 é a Praça das Amoreiras –  conforme é designada na planta de Duarte Fava -, foram rasgadas diversas ruas, onde foram edificados prédios de estrutura pombalina, destinados a residências dos fabricantes que trabalhavam na fiação bem como aos aprendizes que trabalhavam com eles.

A Rua das Amoreiras, nascida em 3 de fevereiro de 1874, logo no ano seguinte  começou a ser alinhada e alargada com diversos terrenos comprados, trocados ou expropriados, situação que se manteve pelo menos até 1890, bem como mais tarde, em 1906 e 1908.

Nesta zona da cidade próxima do Arco triunfal das Águas Livres o topónimo Amoreiras começou com a plantação das amoreiras no Largo que viria a ser a Praça das Amoreiras no início do séc. XIX. Quase no início do último quartel desse século, em 1874 juntou-se a Rua das Amoreiras e em 1889, por Edital municipal de 8 de junho, a Travessa da Fábrica das Sedas às Amoreiras passou a ser a Travessa das Amoreiras.

Freguesias de  Santo António e de, Campo de Ourique

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As Escadas de Nossa Senhora do Monte de São Gens desde 1876

As Escadas do Monte em 2011
(Foto: Luís Pavão © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

As Escadas do Monte nasceram em 1876 como topónimo atribuído pelo  Governo Civil de Lisboa em Edital de 11 de janeiro e como via para fazer a ligação da Rua Damasceno Monteiro à Rua das Olarias.

O topónimo Escadas do Monte deriva da Ermida de Nossa Senhora do Monte e de São Gens, fundada no Monte de São Gens logo em 1147, ano da conquista de Lisboa por D. Afonso Henriques. Em 1893, no nº 6 destas Escadas do Monte foi erguida uma vila operária para servir a crescente população que vinha trabalhar para a capital. Desta Ermida de Nossa Senhora do Monte e de São Gens geraram-se mais 6 topónimos que ainda hoje encontramos nas proximidades: o Beco do Monte, a Calçada do Monte, o Largo do Monte, a Rua da Senhora do Monte, a Travessa do Monte e a Travessa das Terras do Monte.

No ponto mais alto do Bairro da Graça, a Ermida de Nossa Senhora do Monte e de São Gens que encontramos no Largo do Monte, evoca aquele que foi o 1º bispo de Lisboa e que neste local teria sido martirizado no ano de 284. A cadeira de pedra de S. Gens foi colocada na Ermida em consideração às suas virtudes milagrosas no aumento da fertilidade e numa boa hora no parto. Cerca de um século depois, em 1243, foi construído um segundo ermitério dos frades Agostinhos Calçados para o qual foi deslocada a cadeira, assim como o obelisco foi para o Largo do Monte. A Ermida e o ermitério sofreram com o Terramoto de 1755 e a igreja foi reedificada com traçado de Honorato José Correia, mantendo a cadeira no interior. Em 1815, os Agostinhos plantaram árvores no Largo do Monte que duraram até ao ciclone de Lisboa de 1941. Com a extinção das ordens religiosas em 1834, o Estado vendeu toda a propriedade (a ermida e a quinta) a Clemente José Monteiro, cuja viúva, Henriqueta de Mendonça casou em segundas núpcias com Damasceno Monteiro, o qual criou em 1857 uma nova Irmandade de Nossa Senhora do Monte e São Gens, tendo no ano seguinte os devotos lisboetas  oferecido uma imagem de Nossa Senhora do Monte para o altar-mor. O herdeiro, Higino de Mendonça, parcelou e urbanizou esta zona no início do séc. XX.

Freguesia de São Vicente e de Arroios

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Da Travessa do Pintor à Rua do Hospital de Dona Estefânia de 1871

Planta de 1879, do Engº Ressano Garcia, com a Rua do Hospital de Dona Estefânia
(Imagem: © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

A  edilidade lisboeta após proceder a melhoramentos na Travessa do Pintor, que a levaram a considerar essa «uma das melhores servidões de Lisboa», solicitou ao Governo Civil de Lisboa que lhe alterasse a denominação para Rua do Hospital de Dona Estefânia, o que sucedeu pelo Edital do Governo Civil de 25 de novembro de 1871, considerando a proximidade ao primeiro Hospital construído de raiz em Lisboa, especificamente para esse fim.

Em memória da rainha Dona Estefânia o rei Dom Pedro V iniciou a construção do Hospital da Bemposta em 1860 mas como faleceu no ano seguinte foi o seu irmão, o rei Dom Luís I, que assegurou a continuidade da obra e a inauguração do Hospital a 17 de julho de 1877, dia da morte de Dona Estefânia, vítima de angina diftérica. Este Hospital foi erguido na quinta do paço real da Bemposta, chamada Quinta Velha, então nos arredores da cidade.

A rainha Estefânia Frederica Guilhermina Antónia (Alemanha/1837 – 1859/Lisboa), que se casara com D. Pedro V em 1858, desejou muito fazer erguer um hospital para crianças, após ter ficado impressionada numa visita ao Hospital de São José, num período de epidemias de cólera e febre amarela, com a junção de adultos e crianças nas mesmas enfermarias. Dona Estefânia ofereceu o seu dote de casamento para que fosse criada uma enfermaria apenas pediátrica. O rei português pediu ajuda a diversas casas reais europeias  para cumprir esse desejo de criar em Lisboa um hospital pediátrico moderno e o traçado escolhido foi o desenhado por Humbert, arquiteto da casa real inglesa, numa decisão da comissão a que o rei presidia e constituíra com Bernardino António Gomes (médico real, lente da Escola Médico-Cirúrgica e presidente da Sociedade de Ciências Médicas), os médicos Barral, Kessler e Simas, o Conde da Ponte ( vedor da casa real portuguesa) e o militar e matemático Filipe Folque .

Em 1879, dois anos após a inauguração do Hospital de Dona Estefânia, a Câmara Municipal de Lisboa presidida por Rosa Araújo entendeu que a Rua do Hospital de Dona Estefânia com todo o seu prolongamento até às Portas da Cidade seria um único arruamento com o topónimo Rua de Dona Estefânia, conforme Edital municipal de 22 de agosto de 1879.

Mais tarde, também em Arroios,  por proximidade à Rua, foi atribuído o Largo de Dona Estefânia, através do Edital municipal de 19 de abril de 1893.

O Hospital de Dona Estefânia
(Foto: Ferreira da Cunha, sem data © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

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Do Beco do Conde de Sampaio à Travessa do Marquês de Sampaio

(Imagem: © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

O Edital do Governo Civil de Lisboa de 10 de outubro de 1871 mudou o nome do Beco do Conde de Sampaio para Travessa do Marquês de Sampaio, mudando não só a categoria do arruamento como o título do nobre que lhe dava nome e que falecera 30 anos antes.

A Travessa do Marquês de Sampaio, que se estende no espaço que medeia de  junto ao nº 34 da Rua da Boavista até junto ao nº 96 da Rua da Boavista, hoje na Freguesia da Misericórdia, perpetua o 2.º conde de Sampaio e desde 1834 também 1.º Marquês de Sampaio, que no local possuía residência.

O homenageado é  Manuel Maria Baltasar (ou Manuel António em outras fontes) de Sampaio Melo e Castro Moniz e Torres de Lusignano (Lisboa/06.01.1762-29.09.1841/Lisboa), o 2º Conde de Sampaio que  por decreto da rainha D. Maria II de 1 de dezembro de 1834 recebeu o  título de Marquês de Sampaio, também grafado como Marquês de São Paio. Era filho de António José de Sampaio Melo e Castro, genro do Marquês de Pombal por casamento com Teresa Xavier Violante Eva Judite de Daun. Este 2º Conde e 1º Marquês de Sampaio casou em 1783 com D. Joaquina Maria Rita José Estáquio de Melo (1765 – 1785) e em segundas núpcias, em 1787, com Maria Inês de Albuquerque Mendonça Furtado (1763 – 1815).

O 2.º Conde e 1.º Marquês de Sampaio, aluno do Colégio dos Nobres e militar, aos 45 anos ficou em Lisboa como membro do Conselho de Regência de 1807, para governar Portugal face à retirada da Corte para o Brasil. Aliás, com data de 4 de dezembro desse mesmo encontramos o registo do Aviso de Manuel António de Sampaio Melo e Castro Moniz e Torres de Lusignano, como secretário de Estado dos Negócios da Guerra, a informar que os governadores do reino determinaram que o Senado da Câmara de Lisboa suspendesse o acompanhamento da procissão proveniente da Sé de Lisboa. Mais tarde, foi vice-presidente da Junta Provisional do Governo Supremo do Reino constituída na sequência da Revolução Liberal do Porto de 24 de agosto de 1820 e presidente da Secção de Convocação das Cortes da Junta Preparatória das Cortes. Após a eleição das Cortes foi escolhido para presidente do Conselho de Regência de 1821 pelas Cortes Gerais Extraordinárias e Constituintes para governar até à chegada a Portugal do rei D. João VI, cargo semelhante ao de Primeiro-Ministro nos nossos dias, que exerceu de 27 de janeiro a 5 de julho desse ano.

Participou na Belfastada de 1828 e foi obrigado a procurar asilo na emigração liberal em Inglaterra. Após a estabilização do regime liberal, foi eleito deputado, nomeado par do Reino e recebeu o título de Marquês.

Freguesia da Misericórdia

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