A quinhentista Travessa da Queimada e a novela regiana «Davam grandes passeios aos domingos»

Capa da 1ª edição de Davam grandes passeios aos domingos, na Editorial Inquérito, o nº 40 da Coleção Novelas, em 1941
(Imagem:  © CER)

No 1º andar direito do nº 23 da Travessa da Queimada esteve instalada a Editorial Inquérito responsável pelas primeiras edições de quatro obras de José Régio: o ensaio Em torno da expressão artística (1940), a novela  Davam Grandes Passeios aos Domingos (1941), o romance O Príncipe com Orelhas de Burro (1942), e a peça A Salvação do Mundo (1954).

Nessa época, a Editorial Inquérito imprimia as suas edições na tipografia Libanio da Silva, sediada ali próximo, na Travessa do Fala Só, junto à Calçada da Glória.  Já o nº 23 da Travessa da Queimda é o Palácio Rebelo Palhares, do séc. XVII, que pertenceu ao 1º. Conde Almeida Araújo e onde, para além da Editorial Inquérito, se albergaram os jornais Diário Ilustrado (1872-1910), Correio da Europa (1902) e A Bola, a partir de 1945.

A Travessa da Queimada, que se alonga desde o antigo Largo de São Roque, hoje Largo Trindade Coelho, até à Rua da Atalaia é um arruamento quinhentista que marca o limite da 1ª fase de urbanização da Vila Nova de Andrade, futuro Bairro Alto de São Roque, que decorreu de 1513 a 1518, partindo das Portas de Santa Catarina para poente e subindo até esta Travessa da Queimada, que primitivamente foi qualificada como rua, mas também terá sido designada como Travessa dos Poiais. Salienta-se que a modernidade da urbanização do Bairro Alto aqui se revelou por ser construída em quadrícula, com um traçado de ruas ortogonal, antes de Lisboa sequer pensar vir a ter  a Baixa pombalina.

Sobre a origem deste topónimo a explicação mais verosímil é a do olisipógrafo Vieira da Silva que o faz derivar do nome de uma certa fidalga, Ana Queimada, que em meados do séc. XVI tinha  naquele local  aforado um chão aos frades de São Roque, para construir moradias nobres.

 

O nº 23 da Travessa da Queimada
(Foto: Cláudia Michele Damas e Sousa, 2012, Arquivo Municipal de Lisboa)

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Há festa nas ruas da Mouraria

Pelas ruas antigas da Mouraria, Rua do Capelão, Rua João do Outeiro, Rua da Guia, Rua Marquês Ponte de Lima e Largos do Terreirinho e da Severa, se espraia o Arraial do Grupo Desportivo da Mouraria, no âmbito das Festas de Lisboa 2019.

Fundado em 1936 o Grupo Desportivo da Mouraria é também responsável também pela organização da Marcha da Mouraria.

As ruas da Mouraria onde decorre este arraial são das mais antigas de Lisboa. Cristóvão Rodrigues de Oliveira, no seu Sumário de 1551, já mostra a existência nesse ano de 1551 da Rua do Capelão, da Rua da Mouraria, da Rua dos Cavaleiros, da Rua João do Outeiro e da Rua da Amendoeira.

Sobre a Rua do Capelão, já em 1900 o historiador Pedro de Azevedo apontava que o topónimo talvez derivasse do sacerdote da mesquita intitulado capelão e nos anos 30 do séc. XX, o olisipógrafo Norberto de Araújo ,defendeu que o nome da rua advinha de «um oratório armado numa parede, com frente à rua, e que merecia a maior devoção aos habitantes do sítio; às tardes, a população reunia-se, e rezava em conjunto deante da imagem.» Neste arruamento nasceu a Severa e o fadista Fernando Maurício, para além deste topónimo ser o título pelo qual é conhecido o Velho Fado da Severa, composto por Frederico de Freitas para letra de Júlio Dantas para o 1º filme sonoro português – A Severa – , realizado por Leitão de Barros e estreado em 1931.

E foi de um troço da própria Rua do Capelão, compreendido entre o Beco do Forno e a Rua da Guia, que a edilidade lisboeta já no século XX – através do Edital municipal de 18 de dezembro de 1989 – consagrou na toponímia de Lisboa a primeira fadista, Maria Severa Onofriana, com o Largo da Severa.

A Rua João do Outeiro, segundo Norberto de Araújo, perpetua a memória de um abastado proprietário da Ilha de S. Miguel do séc. XVI, que resolveu vir para Lisboa acabar os seus dias naquela zona da Mouraria. Ainda segundo o mesmo jornalista e olisipógrafo, a Rua da Guia fixou-se dois séculos depois em parte do que havia sido Rua do Capelão, porque por volta de 1752 aqui ter existido um oratório armado numa parede que merecia muita devoção dos moradores do sítio.

A Rua Marquês Ponte de Lima foi dada por Edital municipal de 27 de maio de 1902 à Rua João Carlos d’Oliveira (nascida do Edital municipal de 8 de setembro de 1899), para homenagear D. José Maria Xavier de Lima Vasconcelos Brito Nogueira Teles da Silva (Almeida/12.11.1807 – 21.12.1877/Lisboa), o proprietário do Palácio da Rosa, o 3º marquês de Ponte Lima e 20º morgado de S. Lourenço de Lisboa entre outros títulos que possuía, que como militar no exército dos Liberais fez as campanhas de 1827 e 1828, emigrou para os Açores para juntar-se aos que sustentavam a Carta Constitucional e em 1834 tomou assento na Câmara dos Pares.

Finalmente, o Largo do Terreirinho já existia em 1548, de acordo com informação recolhida pelo olisipógrafo Luís Pastor de Macedo que recolheu. Após a remodelação paroquial de 1770 surge o arruamento mencionado como «Praça do Terreirinho» na freguesia do Socorro.

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Junto ao coreto de Carnide o arraial da Rua Neves Costa

Rua Neves Costa – Freguesia de Carnide

Junto ao coreto construído em 1927 no núcleo antigo de Carnide, na Rua Neves Costa – que por isso é conhecida popularmente como Largo do Coreto -, decorre até 29 de junho o Arraial do Carnide Clube, no âmbito das Festas de Lisboa 2019.

O Carnide Clube, sediado na Rua Neves Costa nºs 69-71, foi fundado em 11 de novembro de 1920, dia escolhido por ser justamente o Dia do Armistício. A fundação da associação ocorreu antes da participação de Portugal na I Guerra, com o seu primeiro auto de posse a ser assinado em 25 de abril de 1916, quando ainda se denominava Carnide Club Ciclista. Contudo, o envio de sócios como tropas portuguesas para a Primeira Guerra Mundial forçou o encerramento do clube no dia 1 de outubro de 1917. O fim da Guerra permitiu aos antigos sócios retomarem a dinamização do desporto em Carnide e assim retomaram o Carnide Clube, escolhendo por isso como data de fundação o dia do fim da Primeira Guerra, em 1918, que a partir daí passou a ser o Dia do Armistício.

Já a Rua Neves Costa era a antiga Rua Direita de Carnide que no ano seguinte à implantação da República, por Edital municipal de 7 de agosto de 1911, passou a homenagear o engenheiro militar natural de Carnide, com a legenda «Engenheiro Militar/1774 – 1841», mas que também comandara exércitos portugueses contra tropas espanholas e francesas em 1797 e que foi um pioneiro na cartografia militar portuguesa, a partir da qual concebeu a ideia da criação das Linhas de Torres Vedras.

José Maria das Neves Costa (Lisboa/14.08.1774 – 19.11.1841/Lisboa), filho de Josefa Maria Vieira e de Manuel Cláudio da Costa,  formou-se na Academia de Fortificação, Artilharia e Desenho e destacou-se como oficial do Real Corpo de Engenheiros pela execução da carta topográfica da área a norte de Lisboa, para garantir melhor defesa da capital portuguesa, por encomenda do Ministério da Guerra. Aliás, este levamento surgiu na sequência de uma exposição que havia feito em 26 de novembro de 1808,  aquando das invasões francesas, lembrando a importância do relevo do terreno a norte de Lisboa para a defesa da capital. Em 1810, trabalhou nas Linhas de Torres, às ordens do engenheiro inglês Fletcher e no ano seguinte, como Major do Real Corpo de Engenharia ofereceu a Carta Militar das Linhas de Torres Vedras ao Marechal Beresford.

Neves Costa havia sido comandante do Exército que lutou no Alentejo contra os espanhóis e franceses em 1797 e em 1802, foi nomeado para o Estado-Maior da fiscalização  das praças e fortes de fronteira e costas marítimas. Coube-lhe também o reconhecimento da fronteira do Alentejo, bem como a execução da carta da península de Setúbal (1813). Em 1806, foi escolhido pelo Visconde Sá da Bandeira para organizar o Arquivo Militar e, cinco anos depois, para dirigir os trabalhos de fortificação da praça de Almeida (1811).

Em 1822, foi eleito deputado liberal constitucional por Setúbal e no ano seguinte, foi nomeado ministro da guerra, por decreto de 28 de maio de 1823, mas não chegou a exercer por D. Miguel ter voltado ao poder. Tratou dos direitos e dos deveres do soldado perante a sociedade civil, em 1827, na sua Memoria sobre a organização e disciplina do exercito portuguez, em relação ao systema constitucional. Em 1835, a Câmara dos Pares incumbiu-o de propor um plano de reforma do sistema de pesos e medidas e introdução do sistema decimal, com o Visconde de Vilarinho de São Romão e Manuel Gonçalves de Miranda.

O Brigadeiro José Maria das Neves Costa,  foi consagrado como patrono do Centro de Informação Geoespacial do Exército pela sua importância para a cartografia militar e também o seu nome foi dado a uma Rua de Torres Vedras e a uma Travessa da Cova Piedade (Almada), para além de estar referido numa placa evocativa das Linhas de Torres.

Rua Neves Costa – Freguesia de Carnide

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A Rua dos mercadores Possolo e o arraial de Os Combatentes

Freguesias da Estrela e de Campo de Ourique – Placa de azulejo
(Foto: Mário Marzagão, 2012)

A família de mercadores italianos que aqui residiu, os Possolo, ficou perpetuada no local pela edilidade lisboeta em 1882 e catorze anos depois, em 1906, a mesma artéria acolheu também o Grupo Dramático e Escolar Os Combatentes que nas Festas de Lisboa 2019 mais uma vez promove o seu arraial popular.

O Grupo Dramático e Escolar Os Combatentes foi fundado na Rua do Possolo nº 5 a 9, em 30 de setembro de 1906, com o forte intuito de combater o analfabetismo e servir de ponto de encontro aos moradores daquela zona da cidade de Lisboa, contribuindo para a formação humana integral dos seus associados, através da educação cultural, física, desportiva e recreativa.

Freguesias da Estrela e de Campo de Ourique

Os Possolo  eram uma família de mercadores italianos que segundo o olisipógrafo Norberto de Araújo ergueram o seu Palácio a meio da artéria que hoje conhecemos como Rua do Possolo, à esquina da antiga Travessa das Almas, dando azo a que no último quartel do séc. XIX a Câmara lisboeta renomeasse as  Rua e Travessa da Boa-Morte como Rua e Travessa do Possolo. Esta família de ricos negociantes italianos do séc. XVII ergueram ali o seu palácio erguido cerca de 1730,  com 8 varandas  e um portal brasonado, na esquina da Travessa das Almas, mas que já se encontrava em ruínas na época em que o olisipógrafo escreveu – nos anos 30 do séc. XX- , conforme ele menciona.

A Rua  e a Travessa da família de mercadores  Possolo foram topónimos atribuídos pela deliberação camarária de 30 de novembro de 1882 e consequente Edital de 4 de dezembro, para substituir as anteriores denominações de Rua e Travessa da Boa-Morte: «A rua da Boa Morte e a Travessa da Boa Morte no bairro occidental d’esta cidade passem a ter a denominação de Rua do Possollo e Travessa do Possollo.»  Refira-se ainda que a Travessa da Boa-Morte havia sido antes a Travessa dos Burros, até à publicação do Edital do Governo Civil de Lisboa de 5 de agosto de 1867. O sítio da Boa Morte incluía os topónimos Rua Direita da Boa Morte (hoje Rua do Patrocínio), Rua do Possolo, Rua Possidónio da Silva, Rua de Sant’Ana e Rua de Santo António à Estrela, derivando o nome da existência no local do Convento da Congregação do Senhor da Boa Morte e Caridade, construído em 1736 e demolido em 1835.

Mais pormenores sobre a família devem-se sobretudo a apenas uma fonte: António de Portugal de Faria que escreveu Genealogia da Familia “Possollo”, impresso em 1892. Segundo ele, a quinta dos Possolo foi edificada após o terramoto de 1755 por Nicolau Possolo, educado em Génova onde se dedicava ao comércio e se veio estabelecer em Portugal, tendo casado com a sua prima Joana Maria Eusébia Germack. Moravam no Largo do Corpo Santo e possuíam uma quinta na Lapa, sendo que, segundo o mesmo autor,  «Tinha relações de verdadeira amisade com El Rei D. João V que costumava ir visital’o passando com elle bocados de cavaqueira na sua quinta à Rua de Sant’Anna em Lisboa, que era n’aquella epoca o rendez-vous favorito da aristocracia.» Sucedeu-lhe o filho Nicolau Possolo (nascido em 11 de maio de 1757) que se tornou oficial maior do Conselho da rainha e abastado negociante de vinhos e casou com Maria do Carmo Correia de Magalhães Botelho de Morais Freirão Callabre, tendo o casal tido pelo menos 14 filhos, sendo o terceiro Francisca de Paula Possolo da Costa (1783 – 1838), conhecida como escritora, tendo a família residido até 1790 na Rua de Santana à Lapa.

Pela documentação do Arquivo Municipal ficamos também a saber que em 1904 foram comprados terrenos para o alargamento das Travessas do Possolo e das Almas, intenção que havia sido aprovada na sessão de Comissão Administrativa Municipal de 7 de julho de 1891. Em 1929, o engº António Emídio Abrantes traçou o prolongamento da Travessa do Possolo ligando esta com a Calçada das Necessidades. Finalmente, mencione-se ainda que na esquina da Rua do Possolo com a Rua de Santana à Lapa está o Palacete dos Condes de Sabrosa, construído no 3º quartel do séc. XVIII, de arquitetura pombalina  e com um exuberante revestimento de azulejos policromados da Fábrica de Campolide, traçados pelo desenho de João Rodrigues.

Freguesias da Estrela e de Campo de Ourique

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A Emissora Nacional e a Rua do Quelhas

A Capital, 25 de abril de 1974, edição das 12 horas

Ocupada pelas 3h15 por uma Companhia da Carreira de Tiro da Serra da Carregueira, com cerca de 100 militares comandados pelos capitães Luís Pimentel e Frederico Morais, para servir como emissora de reserva do MFA e evitar que o regime a pudesse utilizar em seu favor.

No dia 25 de Abril de 1974, estava instalada no nº 2 da Rua do Quelhas a Emissora Nacional, a antena de rádio pública em Portugal, ali sediada desde a sua inauguração oficial no dia 4 de agosto de 1935, tendo a ocupação de Tóquio sido confirmada ao Posto de Comando do MFA às 3:15 horas. Às 8:30 foi lido pela primeira vez na Emissora Nacional, um comunicado do MFA.

Quelhas era o nome pelo qual era conhecido D. Francisco Xavier Pedro de Sousa, proprietário de uma quinta naquele lugar e na qual morava, do qual, de acordo com Norberto de Araújo, deriva o topónimo que foi dado ao Caminho Novo após o terramoto de 1755. Segundo o olisipógrafo, «Depois do terramoto é que começou a chamar-se-lhe Rua do Quelhas, o tal D. Francisco de Sousa que por aqui fôra grande senhor. Por essa época começou o verdadeiro povoamento lento e seguro deste sítio, a justificar a urbanização do começo do século passado [refere-se ao séc. XIX]».

O Caminho Novo, ainda de acordo com Norberto de Araújo, fora obra do Machadinho – José Pinto Machado – na Quinta do Quelhas: «Aquele Pinto Machado, que tinha o seu palácio na Rua do Machadinho- diminuitivo que nasceu do apelido do fidalgo -, foi quem fez rasgar, depois de 1758, uma serventia já desenhada desde 1680 – “Caminho Novo” – na quinta de D. Francisco Xavier Pedro de Sousa, por alcunha o “Quelhas”, quinta na qual o fidalgo tinha sua casa, que bem pode ter sido aquela onde assentou o palácio dos Pinto Machados.»

Na segunda metade do séc. XIX, um Edital do Governo Civil de Lisboa de 16 de janeiro de 1863, fez a Rua do Quelhas aumentar de tamanho já que uma parte da Travessa do Pasteleiro (a compreendida entre as esquinas do Caminho Novo e Rua do Machadinho e a extremidade superior que entesta com a Rua do Quelhas) foi incorporada na Rua do Quelhas.

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A Rua do Figueiredo de 1917

Freguesia de Belém
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Rua do Figueiredo nasceu em Belém no ano de 1917, pelo Edital municipal de 22 de Agosto, definida entre a Calçada do Galvão e o Largo do Figueiredo, colhendo o topónimo nos outros já instalados no local – o Largo e a Travessa do Figueiredo – , em virtude de uma proposta de ordenamento dos topónimos do Serviço de Polícia Municipal, que se deslocara à zona para fazer a numeração de polícia dos arruamentos.

Assim, este topónimo e outras alterações determinadas na reunião da Comissão Executiva da CML de 16 de agosto de 1917 e consequente Edital de dia 22, resultaram da proposta do Serviço de Polícia Municipal que se justificava do seguinte modo:  « Tendo a ex.mª Camara deliberado que fossem numeradas diversas vias publicas da freguezia de Belem, e tendo eu pessoalmente percorrido as mesmas vias, que parte destas estão mal limitadas e ainda que algumas teem nomes repetidos sem mesmo terem qualquer relação de continuidade como pela planta que junto podereis vêr; por isso é para que, fazendo-se agora nova numeração, as numenclaturas não continuem no estado caótico em que actualmente estão».

Ficou estabelecido que o topónimo Rua do Figueiredo fosse atribuído ao troço da Travessa do Figueiredo que tinha os prédios com os nºs 1, 2, 3, 4, 5, 55, 56, s/n e 57, Travessa esta que já é mencionada por  Filipe Folque em 1857 no seu Atlas da Carta Topográfica de Lisboa. Foi ainda determinado  que a Travessa do Figueiredo ficasse com essa denominação na parte que tem os números 11, 12 s/n, 14 e 15, assim como a parte da Travessa com os números 6 a 8, 10, 17, 18, 52, 52-A, 53 e 54 fosse incluída no Largo do Figueiredo, bem como a parte da mesma Travessa com os números 21, 24 a 26 s/n, 44 junto com a parte da Rua Domingos Tendeiro com os números 18 a 20, 96, 97 passasse a ser  o Largo Domingos Tendeiro e finalmente, a parte da Travessa do Figueiredo com os números 27 a 39 fosse doravante a Travessa Domingos Tendeiro. Refira-se que em 1890, num projeto de alargamento da Azinhaga de Domingos Tendeiro, que antes se havia denominado Caminho da Pedreira já surgiam tanto o Largo como a Travessa do Figueiredo.

Com base no mesmo Edital foram também atribuídos naquela área os topónimos Rua da Correnteza, Beco de Domingos Tendeiro, Beco da Enfermaria, Largo do Galvão, Rua do Galvão, Travessa do Galvão e Rua das Terras. Ora sabendo-se que Domingos Tendeiro foi um comerciante local e que o Galvão destes arruamentos era António José Galvão, oficial maior da Secretaria de Estado dos Estrangeiros e da Guerra ali morador, é lícito pensar que o Figueiredo também ali fosse residente.

Freguesia de Belém
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Beco de João Alves de 1917

Freguesia da Ajuda
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Por deliberação e edital municipais, respetivamente de 30 de agosto e 1 de setembro de 1917, o troço de via pública existente a meio da Travessa de João Alves, que principia a nascente e termina a poente da Travessa da Ferrugenta e então se considerou  estar indevidamente incluído nessa Travessa, passou a denominar-se Beco de João Alves, por referência de proximidade à Travessa de João Alves.

Sobre a identidade de João Alves desconhecem-se elementos precisos, embora se possa formular a hipótese de que fosse um morador da zona próxima do Palácio da Ajuda, talvez até um funcionário desse Palácio. A base desta hipótese é que foi a partir de um pedido da Junta da Ajuda que o  vereador Augusto de Magalhães Peixoto apresentou a proposta na sessão da Comissão Executiva de 21 de setembro de 1916 e daí nasceu o Edital municipal que oficializou a Travessa de João Alves em 26 de setembro seguinte. Ora, na mesma proposta e Edital, foram atribuídos outros nomes de moradores do sítio como aconteceu com a Rua e a Travessa do Guarda-Jóias – quer era um empregado da Casa Real encarregado da guarda das jóias-, a Rua e a Travessa do Machado – por mor do capitão Manuel Rodrigues Machado que prestava serviço na Casa Real e que dali até ao Alto das Pulgas possuía a sua Quinta do Machado)- , a Rua e a Travessa de Dom Vasco – memória do porteiro-mor da Casa Real e gentil-homem da Câmara de D. João VI-, a Travessa da Ferrugenta – recordação de Leonor Maria, padeira de Sua Majestade-, bem como a Travessa José Fernandes, a Travessa do Pardal e a Travessa de Paulo Martins, o reposteiro da Casa Real.

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

 

Na antiga Vila do Olival, a oficialização das Escadinhas de João de Deus em 1917

As Escadinhas de João de Deus em data anterior a 1945
(Foto: Fernando Martinez Pozal, Arquivo Municipal de Lisboa)

As Escadinhas de João de Deus que são a continuação da Travessa de João de Deus na forma de escadaria, foram um topónimo oficializado pelo Edital municipal de 8 de novembro de 1917, já que como refere o documento «denominação esta por que é vulgarmente conhecida», assim guardando a memória do  proprietário de outrora deste local da quinhentista Vila do Olival.

Sobre a Trindade, escreveu Gil Vicente na sua Nau dos Amores de 1527: Antes que fosse Lisboa/ nem houvesse aqui cidade,/ iam todos à Trindade,/ com três cães e uma furôa, caçar à sua vontade. E 24 anos depois, a zona já estava urbanizada como Cristóvão Rodrigues de Oliveira mostra no seu Sumário de 1551, no qual já menciona a Rua de João de Deus, bem como as Ruas de Mestre Gonçalo, de João do Barreiro, da Condessa de Cantanhede, do Conde da Vidigueira, do Arco do Capitão dos Ginetes, de Jerónimo Dias, de André Soares, do Cabo da Porta Principal da Trindade, de João Fialho, da Oliveira, da Portaria do Carmo, de João Brandão (seria a antiga Rua dos Laudatos, segundo Gustavo Matos Sequeira), a Rua Direita da Trindade, a Rua da Calçada do Carmo, o Campo da Trindade, a Frontaria do Carmo e o Bairro do Marquês, na então freguesia de São Nicolau.

A Travessa  de João de Deus, de acordo com Gustavo de Matos Sequeira, no seu O Carmo e a Trindade (1939), existiria pelo menos desde a primeira metade do séc. XVI e incluiria mais um troço que hoje é parte da Rua Nova da Trindade, entre a Travessa de João de Deus e o Largo Trindade Coelho. Ainda segundo este olisipógrafo, na quinhentista Vila Nova do Olival, a Travessa de João de Deus teria antes sido designada Rua de João de Deus, Rua do Olival ou Rua da Oliveira (1535), Rua do Poço no chão do Olival (em 1536), Travessa da Portaria do Carro da Trindade e outra vez Rua ou Travessa de João de Deus. Precisa ainda Matos Sequeira que «o caminho que se abria no olival em frente ao postigo do Conde e em direcção ao Mosteiro do Carmo, dividindo as herdades dos Trinos e dos Carmelitas, obrigaria a outra que veio a chamar-se, depois, rua da Condessa da Vidigueira, e hoje [1939], simplesmente, rua da Condessa; e os quintais e ortas dos Trinitários que limitavam, pelo Poente e Norte, o olival, determinariam outros dois alinhamentos, ambos chamados ruas do Olival mas que depois se distinguiram: – o primeiro passando a nomear-se rua da Oliveira, e o segundo travessa ou rua de João de Deus».

O João de Deus que surge neste topónimo e que da antiga Travessa ou Rua se estendeu às Escadinhas, era um proprietário local quinhentista. Gustavo de Matos Sequeira atestou-o a partir de «Uma escritura de venda, de 1558, sôbre umas casas que eram de Francisco Martins e de sua sogra e mulher, herdeiros de um Manuel Gonçalves, e passaram a ser do nosso conhecido Diôgo de Neiva, e depois de João Rodrigues Pascoal e de seu filho Baltazar Rodrigues Pascoal, já também referidos, diz-nos que tal moradia “partia com casas que foram de João de Deus e com quintal de Diogo de Neiva, cavaleiro-fidalgo da casa de El rei e Escrivão dos Armazens do reino, e com quintal de João Fernandes, ladrilhador.» 

No início do séc. XVI, o Carmo e a Trindade, território que depois veio a constituir a freguesia do Sacramento em 1584, estava na posse  dos frades do Convento da Santíssima Trindade bem como do  Mosteiro do Carmo, da Câmara de Lisboa e dos Marqueses de Vila Real. Matos Sequeira descreve que «todos os prédios destas ruas, foreiros aos Trinos, tinham aposta nas fachadas uma lápide com o letreiro Trindade, significativo do domínio directo dos frades» e no seu O Carmo e a Trindade, publicado em 1939, revela mesmo que  «Na fachada da casa que torneja da travessa de João de Deus para a rua Nova da Trindade, além do letreiro, ainda se vê, superiormente a êle, a primitiva cruz.»

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Travessa do Bahuto, da Quinta do mesmo nome, oficializada em 1918

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Travessa do Bahuto, que já assim era vulgarmente denominada há muito tempo, foi oficializada pelo Edital municipal de 8 de fevereiro de 1918, assinado pelo presidente da Câmara Municipal de Lisboa, José Carlos da Maia, que foi assassinado na Noite Sangrenta de 1921 e que em 1932 virá também a ser topónimo de Campo de Ourique.

Em 1918, esta Travessa ligava a Rua Saraiva de Carvalho com a Parada dos Prazeres (hoje é a Praça de São João Bosco) e guardava a memória da Quinta do Bahuto, cujo nome seria provavelmente o apelido do seu proprietário.

Um pouco antes do Terramoto de Lisboa, em 1741, foi  criada a freguesia de Santa Isabel, então destacada do território de Santos-o-Velho. Em 1959, a parte em que se incluía a Travessa do Bahuto foi para a nova freguesia de Santo Condestável e desde 2012 que esta artéria é pertença da freguesia de Campo de Ourique.

Por altura do terramoto de 1755, através do Rol dos Confessados da paróquia de Santa Isabel, podemos ter uma ideia aproximada dos lugares já habitados desta zona: Rua Direita da Boa Morte (Rua do Patrocínio), Rua da Fonte Santa (Rua Possidónio da Silva), Quinta do Bahuto, Quinta do Sargento-Mor, Casal Ventoso, Arco do Carvalhão, Vila Pouca, Sítio dos Moinhos e Campo de Ourique. A enorme Quinta do Bahuto ocupava em 1770 toda a área a sudoeste da Rua de Campo de Ourique (na altura era a Rua dos Pousos) até à Rua Saraiva de Carvalho (era então Caminho dos Prazeres).

Bahuto seria, provavelmente, o apelido de família do proprietário da Quinta, se considerarmos que em Belém também existia uma família com esse apelido que até originou junto ao antigo Mercado de Belém uma Rua do Bahuto e Gonçalves, referenciada de 1907 a 1913, no que são hoje  terrenos dos jardins de Belém, assim como em Belas (no concelho de Sintra) existiu uma Quinta do Bahuto e existe hoje uma Rua Felisberto Bahuto da Fonseca. Aliás, um vereador da Câmara Municipal de Lisboa em 1918 e 1919 chamava-se Pedro Midosi Baúto.

Já antes da sua oficialização em 1918, a artéria em causa era vulgarmente conhecida por Travessa do Bahuto, surgindo já assim nos documentos municipais do séc. XIX, para introdução de canalização no arruamento, bem como para construção de prédios entre 1891 e 1901.

 

A Rua Nogueira e Sousa, o benemérito morador do Coração de Jesus

Freguesia de Santo António
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Em 1919, Lisboa acolheu a Rua Nogueira e Sousa no Bairro Camões da Freguesia Camões, conforme determinação do Edital municipal de 18 de julho, para ligar a Rua Luciano Cordeiro à Travessa de Santa Marta, em cumprimento da deliberação de 10 de julho da Comissão Executiva da Câmara.

Este topónimo resultou de uma proposta do Vereador Augusto César de Magalhães Peixoto,  na reunião de 10 de julho de 1919 na Comissão Executiva da Câmara Municipal de Lisboa, em cuja ata se pode ler: «existindo no Bairro Camões, uma pequena via pública, sem denominação, que comunica a Rua Luciano Cordeiro com a Travessa de Santa Marta, e havendo, em sessão de 12 de Junho de 1901, o Vereador Sr. Francisco da Costa Brito, proposto que a tal via pública, então em construção, se desse a denominação de Rua Nogueira e Sousa, em homenagem aos actos de grande filantropia praticados por êste individuo, falecido há mais de dez anos, ainda hoje evidenciados pelos legados que deixou à Misericórdia de Lisboa, Hospital de S. José, Albergue dos Inválidos do Trabalho, etc., e Considerando que o aludido filantropo habitou sempre a Freguesia do Coração de Jesus (hoje Camões) e que os seus descendentes , continuam perpetuando a memória do falecido, continuando a sua obra cheia de benemerência e altruísmo».

Assim, o benemérito Nogueira e Sousa, falecido antes de 1891, que sempre foi morador na Freguesia do Coração de Jesus, viu a sua filantropia reconhecida pela edilidade que guardou a sua memória numa nova artéria da freguesia em que ele residira.

Desconhecem-se mais elementos sobre o homenageado mas nos arquivos municipais encontramos um documento referente a alguém com os mesmos apelidos com data de 4 de fevereiro de 1884: um donativo de dois mil réis , de Maria das Dores Nogueira e Sousa, residente na Rua do Passadiço n.º 44 – 1.º ,  a favor das festas religiosas do Sagrado Lausperene e da Senhora da Fé, da Irmandade de São José dos Carpinteiros.

Falta dar uma pequena nota sobre a freguesia do Coração de Jesus que foi fundada a 11 de Fevereiro de 1770. É nela que a partir de 1878, nos terrenos da quinta do Conde de Redondo, que atravessava dificuldades financeiras, começou uma urbanização promovida pela Companhia Bairro de Camões, com a Rua Sociedade Farmacêutica a ser a primeira artéria aberta. A inauguração oficial do Bairro Camões ocorreu em 9 de junho de 1880, no âmbito das comemorações do tricentenário da morte de Luís Vaz de Camões, tendo sido armado um coreto-pavilhão nos jardins do Palácio do Conde de Redondo para o efeito.

Freguesia de Santo António
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)