A Emissora Nacional e a Rua do Quelhas

A Capital, 25 de abril de 1974, edição das 12 horas

Ocupada pelas 3h15 por uma Companhia da Carreira de Tiro da Serra da Carregueira, com cerca de 100 militares comandados pelos capitães Luís Pimentel e Frederico Morais, para servir como emissora de reserva do MFA e evitar que o regime a pudesse utilizar em seu favor.

No dia 25 de Abril de 1974, estava instalada no nº 2 da Rua do Quelhas a Emissora Nacional, a antena de rádio pública em Portugal, ali sediada desde a sua inauguração oficial no dia 4 de agosto de 1935, tendo a ocupação de Tóquio sido confirmada ao Posto de Comando do MFA às 3:15 horas. Às 8:30 foi lido pela primeira vez na Emissora Nacional, um comunicado do MFA.

Quelhas era o nome pelo qual era conhecido D. Francisco Xavier Pedro de Sousa, proprietário de uma quinta naquele lugar e na qual morava, do qual, de acordo com Norberto de Araújo, deriva o topónimo que foi dado ao Caminho Novo após o terramoto de 1755. Segundo o olisipógrafo, «Depois do terramoto é que começou a chamar-se-lhe Rua do Quelhas, o tal D. Francisco de Sousa que por aqui fôra grande senhor. Por essa época começou o verdadeiro povoamento lento e seguro deste sítio, a justificar a urbanização do começo do século passado [refere-se ao séc. XIX]».

O Caminho Novo, ainda de acordo com Norberto de Araújo, fora obra do Machadinho – José Pinto Machado – na Quinta do Quelhas: «Aquele Pinto Machado, que tinha o seu palácio na Rua do Machadinho- diminuitivo que nasceu do apelido do fidalgo -, foi quem fez rasgar, depois de 1758, uma serventia já desenhada desde 1680 – “Caminho Novo” – na quinta de D. Francisco Xavier Pedro de Sousa, por alcunha o “Quelhas”, quinta na qual o fidalgo tinha sua casa, que bem pode ter sido aquela onde assentou o palácio dos Pinto Machados.»

Na segunda metade do séc. XIX, um Edital do Governo Civil de Lisboa de 16 de janeiro de 1863, fez a Rua do Quelhas aumentar de tamanho já que uma parte da Travessa do Pasteleiro (a compreendida entre as esquinas do Caminho Novo e Rua do Machadinho e a extremidade superior que entesta com a Rua do Quelhas) foi incorporada na Rua do Quelhas.

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A Rua do Figueiredo de 1917

Freguesia de Belém
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Rua do Figueiredo nasceu em Belém no ano de 1917, pelo Edital municipal de 22 de Agosto, definida entre a Calçada do Galvão e o Largo do Figueiredo, colhendo o topónimo nos outros já instalados no local – o Largo e a Travessa do Figueiredo – , em virtude de uma proposta de ordenamento dos topónimos do Serviço de Polícia Municipal, que se deslocara à zona para fazer a numeração de polícia dos arruamentos.

Assim, este topónimo e outras alterações determinadas na reunião da Comissão Executiva da CML de 16 de agosto de 1917 e consequente Edital de dia 22, resultaram da proposta do Serviço de Polícia Municipal que se justificava do seguinte modo:  « Tendo a ex.mª Camara deliberado que fossem numeradas diversas vias publicas da freguezia de Belem, e tendo eu pessoalmente percorrido as mesmas vias, que parte destas estão mal limitadas e ainda que algumas teem nomes repetidos sem mesmo terem qualquer relação de continuidade como pela planta que junto podereis vêr; por isso é para que, fazendo-se agora nova numeração, as numenclaturas não continuem no estado caótico em que actualmente estão».

Ficou estabelecido que o topónimo Rua do Figueiredo fosse atribuído ao troço da Travessa do Figueiredo que tinha os prédios com os nºs 1, 2, 3, 4, 5, 55, 56, s/n e 57, Travessa esta que já é mencionada por  Filipe Folque em 1857 no seu Atlas da Carta Topográfica de Lisboa. Foi ainda determinado  que a Travessa do Figueiredo ficasse com essa denominação na parte que tem os números 11, 12 s/n, 14 e 15, assim como a parte da Travessa com os números 6 a 8, 10, 17, 18, 52, 52-A, 53 e 54 fosse incluída no Largo do Figueiredo, bem como a parte da mesma Travessa com os números 21, 24 a 26 s/n, 44 junto com a parte da Rua Domingos Tendeiro com os números 18 a 20, 96, 97 passasse a ser  o Largo Domingos Tendeiro e finalmente, a parte da Travessa do Figueiredo com os números 27 a 39 fosse doravante a Travessa Domingos Tendeiro. Refira-se que em 1890, num projeto de alargamento da Azinhaga de Domingos Tendeiro, que antes se havia denominado Caminho da Pedreira já surgiam tanto o Largo como a Travessa do Figueiredo.

Com base no mesmo Edital foram também atribuídos naquela área os topónimos Rua da Correnteza, Beco de Domingos Tendeiro, Beco da Enfermaria, Largo do Galvão, Rua do Galvão, Travessa do Galvão e Rua das Terras. Ora sabendo-se que Domingos Tendeiro foi um comerciante local e que o Galvão destes arruamentos era António José Galvão, oficial maior da Secretaria de Estado dos Estrangeiros e da Guerra ali morador, é lícito pensar que o Figueiredo também ali fosse residente.

Freguesia de Belém
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Beco de João Alves de 1917

Freguesia da Ajuda
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Por deliberação e edital municipais, respetivamente de 30 de agosto e 1 de setembro de 1917, o troço de via pública existente a meio da Travessa de João Alves, que principia a nascente e termina a poente da Travessa da Ferrugenta e então se considerou  estar indevidamente incluído nessa Travessa, passou a denominar-se Beco de João Alves, por referência de proximidade à Travessa de João Alves.

Sobre a identidade de João Alves desconhecem-se elementos precisos, embora se possa formular a hipótese de que fosse um morador da zona próxima do Palácio da Ajuda, talvez até um funcionário desse Palácio. A base desta hipótese é que foi a partir de um pedido da Junta da Ajuda que o  vereador Augusto de Magalhães Peixoto apresentou a proposta na sessão da Comissão Executiva de 21 de setembro de 1916 e daí nasceu o Edital municipal que oficializou a Travessa de João Alves em 26 de setembro seguinte. Ora, na mesma proposta e Edital, foram atribuídos outros nomes de moradores do sítio como aconteceu com a Rua e a Travessa do Guarda-Jóias – quer era um empregado da Casa Real encarregado da guarda das jóias-, a Rua e a Travessa do Machado – por mor do capitão Manuel Rodrigues Machado que prestava serviço na Casa Real e que dali até ao Alto das Pulgas possuía a sua Quinta do Machado)- , a Rua e a Travessa de Dom Vasco – memória do porteiro-mor da Casa Real e gentil-homem da Câmara de D. João VI-, a Travessa da Ferrugenta – recordação de Leonor Maria, padeira de Sua Majestade-, bem como a Travessa José Fernandes, a Travessa do Pardal e a Travessa de Paulo Martins, o reposteiro da Casa Real.

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

 

Na antiga Vila do Olival, a oficialização das Escadinhas de João de Deus em 1917

As Escadinhas de João de Deus em data anterior a 1945
(Foto: Fernando Martinez Pozal, Arquivo Municipal de Lisboa)

As Escadinhas de João de Deus que são a continuação da Travessa de João de Deus na forma de escadaria, foram um topónimo oficializado pelo Edital municipal de 8 de novembro de 1917, já que como refere o documento «denominação esta por que é vulgarmente conhecida», assim guardando a memória do  proprietário de outrora deste local da quinhentista Vila do Olival.

Sobre a Trindade, escreveu Gil Vicente na sua Nau dos Amores de 1527: Antes que fosse Lisboa/ nem houvesse aqui cidade,/ iam todos à Trindade,/ com três cães e uma furôa, caçar à sua vontade. E 24 anos depois, a zona já estava urbanizada como Cristóvão Rodrigues de Oliveira mostra no seu Sumário de 1551, no qual já menciona a Rua de João de Deus, bem como as Ruas de Mestre Gonçalo, de João do Barreiro, da Condessa de Cantanhede, do Conde da Vidigueira, do Arco do Capitão dos Ginetes, de Jerónimo Dias, de André Soares, do Cabo da Porta Principal da Trindade, de João Fialho, da Oliveira, da Portaria do Carmo, de João Brandão (seria a antiga Rua dos Laudatos, segundo Gustavo Matos Sequeira), a Rua Direita da Trindade, a Rua da Calçada do Carmo, o Campo da Trindade, a Frontaria do Carmo e o Bairro do Marquês, na então freguesia de São Nicolau.

A Travessa  de João de Deus, de acordo com Gustavo de Matos Sequeira, no seu O Carmo e a Trindade (1939), existiria pelo menos desde a primeira metade do séc. XVI e incluiria mais um troço que hoje é parte da Rua Nova da Trindade, entre a Travessa de João de Deus e o Largo Trindade Coelho. Ainda segundo este olisipógrafo, na quinhentista Vila Nova do Olival, a Travessa de João de Deus teria antes sido designada Rua de João de Deus, Rua do Olival ou Rua da Oliveira (1535), Rua do Poço no chão do Olival (em 1536), Travessa da Portaria do Carro da Trindade e outra vez Rua ou Travessa de João de Deus. Precisa ainda Matos Sequeira que «o caminho que se abria no olival em frente ao postigo do Conde e em direcção ao Mosteiro do Carmo, dividindo as herdades dos Trinos e dos Carmelitas, obrigaria a outra que veio a chamar-se, depois, rua da Condessa da Vidigueira, e hoje [1939], simplesmente, rua da Condessa; e os quintais e ortas dos Trinitários que limitavam, pelo Poente e Norte, o olival, determinariam outros dois alinhamentos, ambos chamados ruas do Olival mas que depois se distinguiram: – o primeiro passando a nomear-se rua da Oliveira, e o segundo travessa ou rua de João de Deus».

O João de Deus que surge neste topónimo e que da antiga Travessa ou Rua se estendeu às Escadinhas, era um proprietário local quinhentista. Gustavo de Matos Sequeira atestou-o a partir de «Uma escritura de venda, de 1558, sôbre umas casas que eram de Francisco Martins e de sua sogra e mulher, herdeiros de um Manuel Gonçalves, e passaram a ser do nosso conhecido Diôgo de Neiva, e depois de João Rodrigues Pascoal e de seu filho Baltazar Rodrigues Pascoal, já também referidos, diz-nos que tal moradia “partia com casas que foram de João de Deus e com quintal de Diogo de Neiva, cavaleiro-fidalgo da casa de El rei e Escrivão dos Armazens do reino, e com quintal de João Fernandes, ladrilhador.» 

No início do séc. XVI, o Carmo e a Trindade, território que depois veio a constituir a freguesia do Sacramento em 1584, estava na posse  dos frades do Convento da Santíssima Trindade bem como do  Mosteiro do Carmo, da Câmara de Lisboa e dos Marqueses de Vila Real. Matos Sequeira descreve que «todos os prédios destas ruas, foreiros aos Trinos, tinham aposta nas fachadas uma lápide com o letreiro Trindade, significativo do domínio directo dos frades» e no seu O Carmo e a Trindade, publicado em 1939, revela mesmo que  «Na fachada da casa que torneja da travessa de João de Deus para a rua Nova da Trindade, além do letreiro, ainda se vê, superiormente a êle, a primitiva cruz.»

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Travessa do Bahuto, da Quinta do mesmo nome, oficializada em 1918

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Travessa do Bahuto, que já assim era vulgarmente denominada há muito tempo, foi oficializada pelo Edital municipal de 8 de fevereiro de 1918, assinado pelo presidente da Câmara Municipal de Lisboa, José Carlos da Maia, que foi assassinado na Noite Sangrenta de 1921 e que em 1932 virá também a ser topónimo de Campo de Ourique.

Em 1918, esta Travessa ligava a Rua Saraiva de Carvalho com a Parada dos Prazeres (hoje é a Praça de São João Bosco) e guardava a memória da Quinta do Bahuto, cujo nome seria provavelmente o apelido do seu proprietário.

Um pouco antes do Terramoto de Lisboa, em 1741, foi  criada a freguesia de Santa Isabel, então destacada do território de Santos-o-Velho. Em 1959, a parte em que se incluía a Travessa do Bahuto foi para a nova freguesia de Santo Condestável e desde 2012 que esta artéria é pertença da freguesia de Campo de Ourique.

Por altura do terramoto de 1755, através do Rol dos Confessados da paróquia de Santa Isabel, podemos ter uma ideia aproximada dos lugares já habitados desta zona: Rua Direita da Boa Morte (Rua do Patrocínio), Rua da Fonte Santa (Rua Possidónio da Silva), Quinta do Bahuto, Quinta do Sargento-Mor, Casal Ventoso, Arco do Carvalhão, Vila Pouca, Sítio dos Moinhos e Campo de Ourique. A enorme Quinta do Bahuto ocupava em 1770 toda a área a sudoeste da Rua de Campo de Ourique (na altura era a Rua dos Pousos) até à Rua Saraiva de Carvalho (era então Caminho dos Prazeres).

Bahuto seria, provavelmente, o apelido de família do proprietário da Quinta, se considerarmos que em Belém também existia uma família com esse apelido que até originou junto ao antigo Mercado de Belém uma Rua do Bahuto e Gonçalves, referenciada de 1907 a 1913, no que são hoje  terrenos dos jardins de Belém, assim como em Belas (no concelho de Sintra) existiu uma Quinta do Bahuto e existe hoje uma Rua Felisberto Bahuto da Fonseca. Aliás, um vereador da Câmara Municipal de Lisboa em 1918 e 1919 chamava-se Pedro Midosi Baúto.

Já antes da sua oficialização em 1918, a artéria em causa era vulgarmente conhecida por Travessa do Bahuto, surgindo já assim nos documentos municipais do séc. XIX, para introdução de canalização no arruamento, bem como para construção de prédios entre 1891 e 1901.

 

A Rua Nogueira e Sousa, o benemérito morador do Coração de Jesus

Freguesia de Santo António
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Em 1919, Lisboa acolheu a Rua Nogueira e Sousa no Bairro Camões da Freguesia Camões, conforme determinação do Edital municipal de 18 de julho, para ligar a Rua Luciano Cordeiro à Travessa de Santa Marta, em cumprimento da deliberação de 10 de julho da Comissão Executiva da Câmara.

Este topónimo resultou de uma proposta do Vereador Augusto César de Magalhães Peixoto,  na reunião de 10 de julho de 1919 na Comissão Executiva da Câmara Municipal de Lisboa, em cuja ata se pode ler: «existindo no Bairro Camões, uma pequena via pública, sem denominação, que comunica a Rua Luciano Cordeiro com a Travessa de Santa Marta, e havendo, em sessão de 12 de Junho de 1901, o Vereador Sr. Francisco da Costa Brito, proposto que a tal via pública, então em construção, se desse a denominação de Rua Nogueira e Sousa, em homenagem aos actos de grande filantropia praticados por êste individuo, falecido há mais de dez anos, ainda hoje evidenciados pelos legados que deixou à Misericórdia de Lisboa, Hospital de S. José, Albergue dos Inválidos do Trabalho, etc., e Considerando que o aludido filantropo habitou sempre a Freguesia do Coração de Jesus (hoje Camões) e que os seus descendentes , continuam perpetuando a memória do falecido, continuando a sua obra cheia de benemerência e altruísmo».

Assim, o benemérito Nogueira e Sousa, falecido antes de 1891, que sempre foi morador na Freguesia do Coração de Jesus, viu a sua filantropia reconhecida pela edilidade que guardou a sua memória numa nova artéria da freguesia em que ele residira.

Desconhecem-se mais elementos sobre o homenageado mas nos arquivos municipais encontramos um documento referente a alguém com os mesmos apelidos com data de 4 de fevereiro de 1884: um donativo de dois mil réis , de Maria das Dores Nogueira e Sousa, residente na Rua do Passadiço n.º 44 – 1.º ,  a favor das festas religiosas do Sagrado Lausperene e da Senhora da Fé, da Irmandade de São José dos Carpinteiros.

Falta dar uma pequena nota sobre a freguesia do Coração de Jesus que foi fundada a 11 de Fevereiro de 1770. É nela que a partir de 1878, nos terrenos da quinta do Conde de Redondo, que atravessava dificuldades financeiras, começou uma urbanização promovida pela Companhia Bairro de Camões, com a Rua Sociedade Farmacêutica a ser a primeira artéria aberta. A inauguração oficial do Bairro Camões ocorreu em 9 de junho de 1880, no âmbito das comemorações do tricentenário da morte de Luís Vaz de Camões, tendo sido armado um coreto-pavilhão nos jardins do Palácio do Conde de Redondo para o efeito.

Freguesia de Santo António
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

A Rua do Longo, Formosa e do jornal «O Século»

Freguesia da Misericórdia

Freguesia da Misericórdia                                                     (Foto: Artur Matos)

Segundo o olisipógrafo Norberto de Araújo, este arruamento terá sido chamado Rua do Longo, provavelmente por ali morado na 2ª metade do séc. XVII um homem de seu apelido «Longuo» que faleceu em 1669 e cuja referência ainda hoje se mantém no Alto do Longo. A seguir, no séc. XVIII passou a ser a Rua Formosa, denominação que acabou por ser legalizada no século seguinte através do Edital do Governo Civil de Lisboa de 1 de setembro de 1859.

Após a implantação da República em Portugal, o Edital municipal de 18 de novembro de 1910, colocou nesta artéria o jornal O Século,  um diário matutino de Lisboa que se publicou entre 8 de junho de 1880 e 12 de fevereiro de 1977.  A atribuição deste topónimo pela vereação republicana pretendeu homenagear o jornal fundado por Magalhães Lima, que foi o seu primeiro diretor e um ardente paladino republicano, considerando que a sua propaganda tinha contribuído para a democratização do povo português e a consequente implantação da República em Portugal.

O jornal O Século nasceu no rescaldo das comemorações do tricentenário da morte de Camões, empenhado na afirmação do projecto republicano, sendo Magalhães Lima o seu primeiro diretor, que fundou este jornal com Anselmo Xavier,  Leão de Oliveira, João de Almeida Pinto e José Campelo Trigueiros de Martel. A partir de 1896, Silva Graça foi o novo diretor e promoveu a expansão do jornal através de uma rede de correspondentes e a inclusão de novos suplementos, sob a divisa «o jornal de maior circulação em Portugal». Em 1920, O Século ficou em crise, por ter denunciado os abusos monopolistas na questão do pão a que a Companhia Portugal e Colónias respondeu com uma grande ofensiva para controlar o periódico o que consegui em 1922 e manteve até finais de 1924.

Rua de O Século Placa

Freguesia da Misericórdia – Placa de Azulejo               (Foto: Artur Matos)

Depois,  num contexto de preparação da opinião pública para a eclosão de um golpe de estado destinado a impor uma ditadura militar, adquiriram o jornal e a sua empresa editora em novembro de 1924, João Pereira da Rosa, ex-funcionário do jornal desde 1920, Carlos Oliveira, um dos fundadores da Companhia Portugal e Colónias e ainda Moisés Amzalak, presidente da Associação Comercial de Lisboa e da Comunidade Judaica,  atribuindo a direção ao jornalista e diplomata Henrique Trindade Coelho e a administração a João Pereira da Rosa. Porém, na sequência do triunfo do 28 de maio, Trindade Coelho abandonou o jornal.

João Pereira da Rosa melhorou  o parque gráfico e lançou novas publicações e suplementos para um público infantil, para além de aumentar a popularidade do jornal com iniciativas sociais, como retomar em 1927 a Colónia Balnear Infantil. O recrudescer da oposição ao Estado Novo no final da II Guerra Mundial, levou O Século a revelar indícios de ambiguidade face à continuidade do regime e por isso foi afastado da Feira Popular entre 1948 e 1950. Como era esta a principal fonte de receita da Colónia Balnear, o jornal voltou à Feira Popular em 1960, no espaço do antigo Mercado Geral do Gado, em Entrecampos.

Logo após a morte de João Pereira da Rosa, em 1962, a edilidade lisboeta deu o seu nome à artéria que corria para a Rua de O Século, a Calçada Nova dos Caetanos e sucedeu-lhe no jornal  Guilherme Pereira da Rosa, evidenciando nos anos 70 um claro alinhamento com a oposição ao regime marcelista. Em setembro de 1972, Guilherme Pereira da Rosa vendeu a sua posição ao grupo económico de Jorge Brito e foi nomeado, para gerir a empresa  o chefe adjunto da redação, Manuel Figueira, que acabou por pedir a demissão em 1975, tendo a 14 de fevereiro sido nomeada pelo Conselho de Ministros uma nova administração para a Sociedade Nacional de Tipografia. No final 1975 surgiu o projeto de lei da imprensa estatizada e em julho de 1976, o decreto da nacionalização das posições privadas das empresas de que nasceu a Empresa Pública dos jornais Século e Popular mas que acabou por ser considerada em situação irrecuperável e o jornal terminou em 1977, titulando na 1ª página da sua última edição «Não Dizemos Adeus». Nos seus últimos anos de vida O Século teve como diretores, entre outros, Adelino Tavares da Silva, João Gaspar Simões e Manuel Magro.

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O setecentista Largo das Duas Igrejas e o Largo do Chiado de 1925

O Largo das Duas Igrejas num bilhete postal de 1906

Largo das Duas Igrejas é um topónimo setecentista que perdurou até aos dias de hoje, como as duas igrejas que o originaram, apesar de oficialmente o arruamento se designar Largo do Chiado desde 1925.

Era aqui a Porta ou Portas de Santa Catarina, construída na muralha fernandina entre 1373 e 1375, com as suas duas torres. Depois do séc. XVI as Portas de Santa Catarina coexistiram com a denominação Chiado, já que segundo Norberto de Araújo «Depois do século XVI essas designações foram simultaneamente usadas, havendo contudo um período, pelo menos, de distinção: Porta (ou Portas) de Santa Catarina – era o actual Largo do Chiado; Rua das Portas ou Rua Direita de Santa Catarina – era o troço da actual Rua Garrett, até onde se rompe a Rua Ivens de hoje; Rua do Chiado se chamava apenas ao troço desde esta confluência até ao topo, isto é: ao Convento do Espírito Santo, depois Palácio Barcelinhos, e hoje Armazéns do Chiado.»

As Portas de Santa Catarina foram demolidas entre 1702 a 1707 e o local começou a ser  conhecido como Praça do Loreto, embora com o tempo tenha passado a ser mais usada a denominação Largo das Duas Igrejas por referência aos dois templos ali existentes: a Igreja italiana de Nossa Senhora do Loreto (de 1518 e restaurada em 1785) e a Igreja de Nossa Senhora da Encarnação (de 1708 e restaurada em 1784). O Cartulário Pombalino menciona a artéria como Rua das Duas Igrejas. De 1771 a 1853, o o Largo das Duas Igrejas tinha em si implantado o Chafariz do Loreto,  encimado pela estátua de Neptuno,  da autoria de Machado de Castro, que hoje está no centro do Largo de Dona Estefânia.

Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior (Foto: NT do DPC)

Já no séc. XX, em 1925, a edilidade lisboeta atribuiu a este arruamento a denominação de Largo do Chiado, com a legenda «António Ribeiro Chiado – Poeta do Século XVI», através da publicação dos Editais de 28 de abril e 19 de maio, homenageando assim o autor do Auto das Regateiras, tendo também a vereação municipal ali erguido uma estátua da autoria de Costa Mota (tio), inaugurada em 18 de dezembro desse mesmo ano de 1925.

Refira-se que António Ribeiro, conhecido como Poeta Chiado, apesar de ter professado na Ordem dos Franciscanos, abandonou a vida religiosa e veio viver para Lisboa, tornando-se conhecido como poeta popular e boémio, sendo até mencionado no Auto de El Rei Seleuco de Camões, o poeta maior para os republicanos. António Ribeiro Chiado dedicou-se sobretudo à poesia jocosa e à sátira sobre  a vida social do período em que viveu, sendo que em 1925 faria sentido para a vereação republicana a proximidade entre os poetas Camões e Chiado ser repetida na toponímia da cidade.

O Largo do Chiado nos anos 70 do séc. XX 

O pombalino Largo do Caldas e o Largo Adelino Amaro da Costa dos anos 80

O traçado pombalino para o Palácio de João Rodrigues Caldas no Terreiro do Ximenes, assinado pelo Conde de Oeiras (depois Marquês de Pombal) e por De Blasco.

O Largo Adelino Amaro da Costa, dado nos anos 80 do séc. XX, é o topónimo oficial do pombalino Largo do Caldas que continua a persistir na memória dos lisboetas.

Pelo menos desde XVI existia no espaço deste arruamento o palacete da família do castelhano Rodrigues Caetano Ximenes,  que em 1476 tinha vindo para Portugal, pelo que chamava ao local Chão de Alcamim mas também Terreiro ou Terreirinho do Ximenes. Segundo Norberto de Araújo o arruamento também foi denominado como Praça da Bela Vista e um pouco antes do Terramoto como Largo do Conde de São Vicente.

Pelo menos desde 1858 seria designado como Largo do Caldas, uma vez que assim consta no levantamento topográfico de Lisboa de Filipe Folque. O topónimo deriva do Palácio urbano pós-terramoto, dos irmãos João e Luís Rodrigues Caldas, edificado entre 1765 e 1775 onde antes fora o Palácio do Ximenes, sendo o traçado desenhado a tinta da china e aguarela assinado pelo Conde de Oeiras (título de 1759 que após a criação do título Marquês de Pombal, em 1769, passou a ser subsidiário deste) e  de Blasco (seria Miguel Ângelo de Blasco ?…). O palácio com uma planta em L irregular, na frente virada para o Largo do Chão do Loureiro, foi edificada em 1766 uma ermida pública sob invocação de Nossa Senhora da Conceição, cuja autorização de culto foi dada a 1 de dezembro de 1766. Os irmãos  Caldas Rodrigues – João e Luís (Viana do Castelo – Badim/22.03.1721 – 25.05.1787) eram contratadores gerais de tabacos do reino.

Segundo Luís Pastor de Macedo, a partir de 1766 morou no Palácio pombalino dos Caldas o francês Jácome Ratton,  industrial amigo e admirador de Pombal e lá lhe nasceram três dos seus filhos.

No séc. XX, coabitando com as irmãs Caldas Machado e por cedência destas, viveu também num quarto no 3º andar, desde 1927, o padre Francisco Rodrigues da Cruz, conhecido como Padre Cruz, que ali  faleceu com 89 anos de idade em 1949, sendo que passados 10 anos e no âmbito do centenário do nascimento do Padre Cruz, a edilidade lisboeta tenha descerrado uma lápide comemorativa no prédio. Por morte das três últimas proprietárias – as irmãs Maria da Assunção, Joana Francisca e Catarina-, solteiras e sem filhos, o Palácio passou por herança para o Seminário dos Olivais.

Adelino Manuel Lopes Amaro da Costa (Lisboa/18.04.1943 – 04.12.1980/Camarate), Ministro da Defesa quando faleceu no desastre de aviação que também vitimou o Primeiro-Ministro Francisco Sá Carneiro, veio dar o seu nome ao Largo do Caldas desde a publicação do Edital de 5 de abril de 1982. Uma proposta dos vereadores da Aliança Democrática foi aprovada por maioria na reunião de Câmara de 22 de dezembro de 1980, para serem atribuídos os nomes de ambos os políticos a ruas de Lisboa, tendo a Comissão Municipal de Toponímia sugerido para o efeito, em 13 de janeiro de  1981, as duas alamedas interiores do Campo Grande. Todavia, acabou por vingar a designação de locais do então Vereador do Pelouro da Cultura, Dr. João Martins Vieira que sugeriu a alteração de denominação do antigo Largo do Caldas para Largo Dr. Adelino Amaro da Costa e, da  antiga Praça do Areeiro para Praça Dr. Francisco Sá Carneiro.

Licenciado em Engenharia Civil pelo Instituto Superior Técnico em 1966, Adelino Amaro da Costa foi também sub-Diretor e Diretor do Gabinete de Estudos e Planeamento do Ministério da Educação (1973 – 1974) tendo em 1974 sido um dos fundadores do Centro Democrático Social (CDS), com Diogo Freitas do Amaral,  e o seu primeiro secretário-geral.  De 1975 a 1980 foi deputado e líder do Grupo Parlamentar do CDS (1976 – 1978), Ministro de Defesa Nacional no Governo presidido por Sá Carneiro e com ele faleceu  quando ambos se deslocavam ao Porto para um comício de campanha eleitoral para as presidenciais desse ano.

O Largo Adelino Amaro da Costa – Freguesia de Santa Maria Maior

A Rua de São Francisco de Paula e a Rua Presidente Arriaga

A Rua de São Francisco de Paula cerca de 1910
(Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua Presidente Arriaga, homenagem ao 1º Presidente da República Portuguesa constitucionalmente eleito, no arruamento onde ele residira e de onde saiu o seu funeral em 1917, foi um topónimo atribuído pela edilidade lisboeta em 1920, embora para os mais antigos seja ainda conhecida como Rua de São Francisco de Paula por via da Igreja da mesma invocação.

A artéria começou por ser a Rua Direita de São Francisco, topónimo derivado da Igreja de São Francisco de Paula ali fundada em 1719 por  Frei Ascenso Vaquero. Em 1753 e 1754, Frei Francisco de Paula era o Vigário Geral do Convento de São Francisco de Paula e o templo teve obras de melhoramentos, segundo o traçado do arqº Inácio de Oliveira Bernardes e torres atribuídas a Diogo Azzolini,  a expensas de D. Mariana Vitória, mulher de D. José I, cujo túmulo da oficina de Machado de Castro foi colocado na capela-mor e está classificado como Monumento Nacional.

Em 1758, no Cartulário de Plantas e Edifícios da Nova Cidade depois do Terramoto já encontramos alçados de Manuel da Maia para a Rua Nova de São Francisco de Paula que é a denominação que encontramos ainda em 1854 em documentos municipais de prospetos de prédios.

Em 1857 e 1858, na planta de Filipe Folque e em prospetos de prédios o arruamento surge designado como Rua Direita de São Francisco de Paula, situação que se mantém de 1879 a 1881 na planta de  Francisco e César Goullard,  num auto de vistoria a uma chaminé e no levantamento topográfico de Francisco Goullard.

Terá sido no final da década de oitenta do séc. XIX que o topónimo passou a ser Rua de São Francisco de Paula, já que  assim está mencionada em 1887 num orçamento para substituição da cantaria e reconstrução do empedrado dos passeios e valetas da rua, bem como no romance Os Maias de Eça de Queirós, publicado em 1888,  como morada da Casa do Ramalhete.

Em 1920, três anos após o falecimento de Manuel José de Arriaga Brum da Silveira (Horta/08.07.1840 – 05.03.1917/Lisboa) nesta artéria onde morava, a Câmara Municipal de Lisboa atribuiu a Rua Presidente Arriaga, por deliberação camarária de 28 de abril e Edital municipal de 18 de maio, com a a extensa  legenda de «Primeiro Presidente da República Portuguesa Eleito pela Assembleia Nacional Constituinte em 24 de Agosto de 1911/Nasceu em 08.07.1840 e Morreu em 05.03.1917».

Freguesia da Estrela
(Foto: José Carlo Batista)