A Rua de Francisco Lourenço da Fonseca que enriqueceu no Brasil e foi vereador lisboeta

Freguesia de Alvalade

Desde 1956 que a Rua Francisco Lourenço da Fonseca homenageia, na freguesia de Alvalade, o comerciante que enriqueceu no Brasil e foi vereador da autarquia lisboeta no biénio de 1876 e 1877.

Foi através da publicação do Edital municipal de 26 de maio de 1956 que a Rua 37 A do Sítio de Alvalade passou a ter como topónimo oficial Rua Francisco Lourenço da Fonseca. O mesmo Edital colocou nas artérias circundantes os pintores do Grupo do Leão, António Ramalho, Cipriano Martins, João Vaz, Moura Girão e Ribeiro Cristino, o elemento dos Vencidos da Vida Carlos Mayer, o autor da letra do Hino Nacional Lopes de Mendonça e ainda, o Largo de Alvalade.

O comerciante Francisco Lourenço da Fonseca (Vila Nova de Gaia/10.08.1818 ou 1819– 09.03.1906/Dafundo) fez fortuna no Brasil, para onde emigrou,  e após regressar a Portugal em 1862, foi eleito vereador da Câmara Municipal de Lisboa, nos anos de 1876 e 1877, sob a presidência de Luís de Almeida e Albuquerque e a vice-presidência de Rosa Araújo. Nesse biénio, Francisco Lourenço da Fonseca deteve a responsabilidade das obras públicas municipais, tendo-se  destacado por produzir melhoramentos nos Jardins da Estrela e de São Pedro de Alcântara,  requisitar um arquiteto ao Ministério das Obras Públicas para as obras do município, reconstruir as Escadinhas da Barroca, bem como por  ter iniciado a expropriação de terrenos para a abertura de uma avenida a norte do Passeio Público, que viria a ser a Avenida da Liberdade mandada executar por Rosa Araújo. Francisco Lourenço da Fonseca foi ainda tesoureiro da Comissão Central 1° de Dezembro que promoveu a construção do Monumento aos Restauradores.

Francisco Lourenço da Fonseca, comendador  da Ordem de Cristo, foi ainda diretor do Asilo de Santa Catarina –  internato feminino instalado desde 1858 no complexo conventual de São João Nepomuceno, no Largo São João Nepomuceno  –, e casado com Maria José Oliveira Gaia ( Brasil- Rio Grande do Sul/19.02.1832 – 06.05.1912/Lisboa), de quem teve 4 filhos: Francisco Lourenço da Fonseca Júnior (Brasil – Rio Grande do Sul/06.06.1848 – 06.07.1902/Lisboa), Wenceslau da Fonseca (n. 1850), Álvaro da Fonseca (n. Brasil – Rio Grande do Sul/15.02.1855) e Alfredo da Fonseca (n. Lisboa – Freguesia de Santa Catarina/04.08.1862).

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Travessa do merceeiro da Ajuda e vereador de Belém

Freguesia da Ajuda

Vitorino de Freitas que está perpetuado numa Travessa da Ajuda, por deliberação camarária lisboeta de 14 de dezembro de 1899, foi o dono de uma mercearia nessa  freguesia e também exerceu funções como vereador da Câmara Municipal de Belém no século XIX.

Belém existiu como concelho na segunda metade do séc. XIX, de 11 de setembro de 1852 a 18 de julho de 1885, tendo depois o seu território sido integrado no concelho de Lisboa e consequentemente, a sua toponímia. A edilidade belenense era composta pelas freguesias de São Pedro de Alcântara, Nossa Senhora do Amparo de Benfica, São Lourenço de Carnide,  Santa Isabel, São Sebastião da Pedreira e Menino Jesus de Odivelas, tendo esta última sido a única a não passar passar para o concelho de Lisboa mas antes para o de Loures. A Câmara Municipal de Belém teve Alexandre Herculano como o seu primeiro presidente, sucedendo assim à freguesia de Santa Maria de Belém, criada em 1833, que por seu turno tinha substituído o Bairro Administrativo de Belém, instituído em 1813.

Todavia, a Travessa de Vitorino de Freitas, que liga a Calçada da Ajuda à Rua da Bica do Marquês, resultou já de uma deliberação camarária lisboeta de 14 de dezembro de 1899, tendo sido o necessário Edital publicado em 4 de maio de 1901, para substituir o anterior topónimo de Travessa da Ilha das Cobras. A primeira deliberação camarária da Câmara Municipal de Lisboa, emitida em 1899 foi retificada depois duas vezes, em 19 de julho de 1900 e em 2 de maio de 1901, após o que saiu o Edital e assim, a Planta Topográfica de Lisboa de 1909 de Júlio Silva Pinto e Alberto Correia de Sá já a inclui.

O pouco que hoje se sabe de Vitorino de Freitas resume-se a ter sido o proprietário de uma mercearia na Ajuda e ter exercido funções de vereador da Câmara Municipal de Belém antes de 1862, se considerarmos que no Largo da Luz, em Carnide, se encontra uma inscrição em pedra onde se pode ler, em maiúsculas, «Praça de Nossa Senhora da Luz mandada edificar pela Camara Municipal de Belém. sendo Presidente João António de Souza e Vereadores Manuel José Gonçalves. Pedro Augusto Franco. D. Sebastião da Silva Pessanha. Faustino José de Freitas. José António Capucho. Francisco Evangelista Pacheco. 1862». Talvez tenha sido o Vitorino José de Freitas (ou familiar) de quem encontramos no arquivo Municipal de Lisboa uma escritura de venda de terreno firmada em 11 de julho de 1901 para construção de jazigo no 3º Cemitério, que era o da Ajuda.

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

A Rua do Vintista Silva Carvalho e da Panificação Mecânica em Campo de Ourique

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: Sérgio Dias)

No centenário da Revolução de 1820, a edilidade lisboeta fez a junção da Rua de São Luís e da Rua de São João dos Bem Casados mais o Largo da Páscoa para dedicar uma rua a José da Silva Carvalho, um dos fundadores do Sinédrio e impulsionador da Revolução Vintista,  artéria na qual firmou tradições no séc. XX a Panificação Mecânica, instalada no nº 209 de hoje, fazendo esquina para a Rua de Campo de Ourique.

Foi por deliberação camarária de 20 de setembro de 1920 e Edital de 16 de outubro que as Ruas de São Luís e de São João Bem Casados junto com o Largo da Páscoa passaram a constituir um único arruamento designado Rua Silva Carvalho, com a legenda «Um dos Iniciadores da Revolução de 1820/1782 – 1856». Recorde-se que o movimento liberal Vintista eclodira no Porto em 24 de agosto de 1920, com Silva Carvalho a integrar a Junta Provisional do Governo Supremo do Reino, mas em Lisboa o movimento só foi desencadeado em setembro, a dia 15, e só em 28 de setembro os governos do Porto e de Lisboa se uniram-se numa única Junta Provisional do Supremo Governo do Reino, com o encargo de organizar as eleições para as Cortes Constituintes.

No entanto, pelo menos desde o início do séc. XX existira já uma outra artéria dedicada a Silva Carvalho que foi na maior parte substituída pela reformulação da Rua Castilho e artérias adjacentes em 1915, pelo que no centenário da Revolução de 1820, voltou o 1º Presidente do Supremo Tribunal de Justiça à toponímia de Lisboa. Na planta de janeiro de 1911 de Júlio Silva Pinto e Alberto Sá Correia é visível a Rua José da Silva Carvalho a correr em paralelo ao Parque Eduardo VII desde o Quartel de Artilharia nº 1 ao Quartel do Vale do Pereiro. Na documentação municipal encontram-se documentos que referem a Rua José da Silva Carvalho em 1901, na planta de construção da Rua Marquês da Fronteira; em 1903, numa venda de terrenos que a menciona como o acréscimo de antiga Rua de Entre Muros e, de fevereiro a novembro de 1915 no projeto de remodelação das ruas Castilho, Rodrigo da Fonseca, Artilharia Um, Joaquim António de Aguiar e Parque Eduardo VII.

José da Silva Carvalho (Dianteira- Stª Comba Dão/19.12.1782- 05.11.1856/freguesia de Santa Isabel – Lisboa), licenciado em Direito em 1805  seguiu a carreira de magistrado em Recardães e depois no Porto, cidade onde fundou com Manuel Fernandes Tomás, José Ferreira Borges e João Ferreira Viana o Sinédrio, a partir do qual se forjou a Revolução de 1820 com a ajuda dos militares. Foi depois membro da Junta Provisional do Governo Supremo do Reino, Ministro e Secretário de Estado dos Negócios Eclesiásticos e Justiça e da Segurança Pública (1821-1822) e ainda Ministro de Estado (1822). Durante o miguelismo – quer em 1823 quer em 1828-, emigrou para Inglaterra  e voltou para o cerco do Porto, assumindo depois a pasta da Fazenda (1832-1835), da Marinha e Ultramar (1833) e a da Justiça (1832-1834). Foi também  o 1.º Presidente Presidente do Supremo Tribunal de Justiça empossado a 14 de setembro de 1833 e até 1836, cargo que voltou a exercer em 1840-1844 e 1847-1856. Foi também deputado de 1834 a 1836 e, novamente, duas vezes Ministro da Fazenda (1835 e 1836). Exila-se pela 3ª vez, durante o Setembrismo, entre 1836 e 1838. Regressado em 1838, volta a ser deputado até 1842. Refira-se ainda que foi nomeado Par do Reino mas recusou sempre títulos de nobreza por ser Maçon.

Nesta artéria de Campo de Ourique existia desde o início do séc. XX a Companhia de Panificação Lisbonense que em 1915 passou a ser propriedade da Nacional (Companhia Nacional de Moagem). Em 1941, o estabelecimento já era da Companhia Industrial de Portugal e Colónias que o arrendou em 1958 à Panificação Mecânica Lda. O edifício, classificado como Imóvel de Interesse Público,tem características de Arte Nova,  no exterior e no interior, com articulação de vidro e ferro na fachada, motivos naturalistas como o trigo e azulejos da fábrica de Rafael Bordalo Pinheiro.

Freguesia de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do irmão da Casa Pedreira em São Tomé que foi vereador de Lisboa

Freguesia do Lumiar

José da Costa Pedreira, comerciante da Casa Pedreira em São Tomé e vereador da Câmara de Lisboa nos anos 80 do séc. XIX, foi perpetuado em 1983 na Freguesia do Lumiar, numa rua nas proximidades da Alameda das Linhas de Torres, para cujo alargamento tinha contribuído com parcelas de terreno, com a legenda «Benemérito/1839 – 1903».

A partir de uma carta de Maria dos Prazeres Pedreira Cruz Romão e outros, sugerindo que a um arruamento recentemente aberto na Quinta das Pedreiras à Alameda das Linhas de Torres fosse dado o nome de José da Costa Pedreira, deu a Comissão Municipal de Toponímia  parecer favorável na sua reunião de 19 de abril de 1983 e assim foi atribuída a Rua José da Costa Pedreira no arruamento Z4 da Quinta do Lambert, através do Edital de 22 de abril de 1983. O mesmo Edital colocou noutros novos arruamentos da Quinta do Lambert a Rua Amílcar Cabral e a Rua Agostinho Neto.

O Occidente, 10 de julho de 1903

José da Costa Pedreira (Braga/27.09.1839 – 16.06.1903/Lisboa), foi para S. Tomé e Príncipe aos 18 anos (1857) e lá permaneceu até 1876, ocupando-se do comércio da Casa Pedreira que abastecia navios das rotas da África meridional e que o seu  irmão, Manuel José da Costa Pedreira, lá fundara em 1843. O seu irmão era dono da roça Monte Café no centro da ilha de São Tomé e ambos contribuíram para o desenvolvimento da agricultura local emprestando capital aos que desejavam abrir uma roça. José da Costa Pedreira também apoiou a administração local e criou o primeiro hospital da ilha. No regresso a Portugal dedicou-se à divulgação de meios de combate às febres tropicais tendo fundado a Companhia Luso-Africana de produtos químicos à base de quinino, sendo também o representante em Lisboa dos produtores de quina de São Tomé.

No período de janeiro de 1886 a março de 1890, foi também vereador da Câmara Municipal de Lisboa, eleito pela maioria monárquica do Partido Progressista. Foi responsável pelos pelouros das Obras e da Polícia Municipal, tendo no desempenho desse cargo contribuído decisivamente para o desenvolvimento das vias de acesso à cidade, inclusive com avultados donativos pessoais, e particularmente para o alargamento da Alameda das Linhas de Torres, através de parcelas retiradas à sua propriedade e doadas ao Município. Refira-se que foi também o responsável das obras e expropriações que permitiram a construção da Avenida da Liberdade idealizada por Rosa Araújo, do Parque da Liberdade (hoje Parque Eduardo VII) e do embelezamento do novo Rossio de 1889 (é a Praça de D. Pedro IV), com os dois lagos da autoria de Mesnier du Ponsard que hoje lhe reconhecemos como icónicos, e cujas figuras foram compradas à Societé des Hauts Fourneaux & Fonderies du Val d’Osne e pagas do bolso do próprio José da Costa Pedreira.

Note-se ainda que era o Pelouro da Polícia Municipal que tratava das denominações das ruas e da numeração das portas (esta última designada como numeração de polícia) e foi no mandato de Costa Pedreira que o Largo do Pelourinho passou a ser a Praça do Município ou a Rua do Carvalho passou a Rua Luz Soriano que tinha contribuído com 8 contos de réis para ser estabelecer uma escola nessa artéria.

A par disto, José da Costa Pedreira ainda desempenhou um papel importante na implantação dos Albergues Noturnos de Lisboa, fundados em 1881 pelo Rei D. Luís para apoio à população mais carenciada de alimentação e alojamento, tendo mesmo dirigido o primeiro, instalado no Intendente. O mesmo rei D. Luís I que o tinha como conselheiro particular para os assuntos africanos, também o nomeou Par do Reino e agraciou-o com a comenda da Ordem de Benemerência.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do comerciante que ergueu o Bairro Brandão

Freguesia da Estrela

Manuel Francisco de Almeida Brandão, comerciante  que fez fortuna na Baía e foi vereador na Câmara Municipal de Lisboa, tem desde 1902 o seu nome numa rua do bairro que ergueu junto à Calçada da Estrela.

Alguns meses antes de falecer Manuel Francisco de Almeida Brandão passou a ter o seu nome perpetuado na Rua Um do Bairro Brandão, por Edital municipal de 1 de agosto de 1902 que a descreve como «Via pública que corre na direcção Nordeste – Sudoeste e, partindo da Calçada da Estrela, termina na serventia que dá para a Rua Borges Carneiro, à qual fica paralela». O mesmo Edital atribuiu neste Bairro a Rua Miguel Lupi.

Encontramos nos documentos municipais uma planta de 9 de junho de 1891 com a proposta de traçado das ruas que Manuel Francisco de Almeida Brandão queria abrir no seu terreno próximo da Calçada da Estrela. No ano seguinte, com datas de 12 de fevereiro a 20 de abril, surge já a planta definitiva de António Maria Avelar e  Augusto César dos Santos para as ruas do Bairro Brandão. Entre janeiro e março de 1900 foram elaborados pela CML os orçamentos para as obras de pavimentação, canalização e acessórios que faltam fazer «nas ruas particulares abertas por Manuel Francisco de Almeida Brandão, na sua propriedade próxima da Calçada da Estrela». Já a entrega das ruas ao domínio municipal foi feita pela viúva de Almeida Brandão, Maria Emília de Almeida Brandão, por escritura de março de 1903.

Manuel Francisco de Almeida Brandão ( Póvoa de Varzim- Beiriz/11.01.1837 – 04.10.1902/Póvoa de Varzim- Beiriz), como filho primogénito foi senhor  da Quinta de Calves e de outros casarões na Póvoa de Varzim, fidalgo cavaleiro da Casa Real, com fortuna oriunda de comércio na Baía, sendo o que vulgarmente se denominou como «brasileiro de torna-viagem», para referir os portugueses emigrantes no Brasil que lá conseguiram fazer fortuna.

Aos 50 anos,  em 16 de Outubro de 1887, foi eleito vereador da Câmara Municipal de Lisboa para o quadriénio de 1888-1891, pelo Partido Progressista, no executivo presidio por Fernando Palha Osório Cabral. Já na Câmara Municipal da Póvoa de Varzim foi o Presidente da edilidade, e assim também tem honras de nome de rua.

No seu percurso político,  foi também deputado desde 1880, eleito pelo Círculo de Vila Conde nas listas do Partido Progressista, tendo integrado as Comissões Parlamentares Administrativa (1880-1881) e do Comércio e Artes (1881). Mais tarde, terá sido um dos obreiros da elevação da Póvoa de Varzim a Círculo Eleitoral Autónomo, separando-se de Vila do Conde, conseguido em 1886. Foi agraciado como Comendador da Ordem Militar de Cristo e Par do Reino.

Na sua vida particular, casou com a sua prima Maria Emília de Almeida Brandão, de quem teve 3 filhos e uma filha, e residiu na Rua do Paço, na Baía, até pelo menos 1864, assim como em Lisboa a partir de 1876, no palacete no nº 79 da Rua de Buenos Aires que foi em 1900 adquirido pelo conde de Monte Real.

No nº 39 da Rua Almeida Brandão, situa-se a Junta de Freguesia da Estrela.

Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Praça António Sardinha que não passou a Praça Maria Pimentel Montenegro

Freguesia da Penha de França
(Foto: Sérgio Dias)

O poeta e rosto do Integralismo Lusitano António Sardinha, colocado como topónimo lisboeta em 1932, e numa Praça desde 1951, recebeu após o 25 de Abril  um pedido para que fosse substituído pela poetisa Maria Pimentel Montenegro, que já era topónimo desde março de 1974 numa rua de Benfica pelo que não sucedeu modificação alguma.

O caso ocorreu logo na 1ª reunião da 1ª Comissão Municipal de Toponímia pós-25 de Abril, em 15 de novembro de 1974, a partir de uma carta de Branca Alvarez Lopes a propor à edilidade a troca do topónimo Praça António Sardinha para Praça Maria Pimentel Montenegro. Como desde a publicação do Edital municipal de 4 de março de 1974, a artéria que ligava a Rua Dr. João de Barros a uma parte da Rua K já era a Rua Maria Pimentel Montenegro, a Comissão entendeu «que o pedido não é de considerar, porquanto, o nome de Maria Pimentel Montenegro está já consagrado num arruamento da zona de Benfica e quanto à substituição do nome de António Sardinha, deverá aguardar-se maior manifestação popular nesse sentido.»

António Sardinha havia sido consagrado pelo Edital de 31 de março de 1932  na Rua H do plano de  arruamentos da Quinta da Marquesa de Abrantes, em Marvila, aprovado em sessão de 15 de maio de 1930, mas o arruamento nunca chegou a ser executado, como os outros que integravam o plano, pelo que o seu nome voltou a ser dado à Praceta nº 1 da Rua da Penha de França, compreendida entre os nºs 150 e 152 da Rua da Penha de França, através do Edital municipal de 10/01/1951, onde permaneceu até aos dias de hoje.

Política, 10 de janeiro de 1930

O homenageado é António Maria de Sousa Sardinha (Monforte/09.09.1887-10.01.1925/Elvas), formado em Direito pela Universidade de Coimbra, época em que defendeu a implantação da República em Portugal,  para a partir de 1912 se tornar o mentor do Integralismo Lusitano assim como deputado monárquico durante o consulado de Sidónio Pais. A sua obra de cariz doutrinário, define o Integralismo Lusitano como um pensamento político que conjuga a defesa da monarquia, do nacionalismo e do catolicismo, como mostram os seus ensaios O Valor da Raça (1915), A Questão Ibérica (1916), Ao Princípio Era o Verbo A Aliança Peninsular (ambos em 1924), Ao Ritmo da Ampulheta e Teoria das Cortes Gerais (ambos em 1925).

O seu pensamento político teve como órgãos de divulgação as revistas Nação Portuguesa (1914) e A Monarquia (1917), ambas co-fundadas por António Sardinha, com Alberto de Monsaraz, Hipólito Raposo, Luiz de Almeida Braga e Pequito Rebelo no primeiro caso. O seu pensamento antirrepublicano e nacionalista encontrou eco em alguns dos defensores do Estado Novo.

Como poeta, António Sardinha fundiu saudosismo com os valores integralistas lusitanos, tendo publicado Tronco Reverdecido (1910), A Epopeia da Planície (1915), Quando as Nascentes Despertam (1921), Na Corte da Saudade (1922), Chuva da Tarde (1923), para além dos póstumos Era uma Vez um Menino (1926), O Roubo da Europa (1931) e Pequena Casa Lusitana (1937).

Após a morte de Sidónio Pais e o fracasso do movimento da Monarquia do Norte António Sardinha exilou-se em Espanha, no período de 1919 a 1921. De volta a Portugal dirigiu o diário A Monarquia e colaborou no quinzenário A Farça e na revista Lusitania, até falecer aos 37 anos.

Freguesia da Penha de França
(Planta: Sérgio Dias)

Da Quinta do Areeiro à Praça para Salvador Allende ou Humberto Delgado

Freguesia do Areeiro
(Foto: Ana Luísa Alvim, 2017)

A Praça do Areeiro, topónimo oficializado pela Câmara Municipal de Lisboa pelo Edital de 17 de fevereiro de 1947, recebeu após o 25 de Abril duas sugestões de alteração: uma, para que passasse a denominar-se Praça Presidente Salvador Allende, o presidente chileno assassinado em 11 de setembro de 1973; e uma outra que propunha a designação de Praça Humberto Delgado, em memória do candidato às eleições presidenciais de 1958 que fora também assassinado, pela PIDE, em 13 de fevereiro de 1965.

Recorde-se que nesta época após o 25 de Abril mais 3 figuras que foram assassinadas passaram a integrar a toponímia de Lisboa: as Ruas dedicadas a José Dias Coelho e a Ribeiro Santos, ambos mortos a tiro pela PIDE, em 1961 e em 1972, bem como a Praça Machado Santos, militar obreiro da implantação da República que foi   assassinado no decorrer da Noite Sangrenta de 1921.

Topónimo derivado da antiga Quinta do Areeiro,  que ainda aparece indicada como tal na planta de Lisboa de 1908, de Júlio Silva Pinto e Alberto de Sá Correia, ao lado de outras 3 Quintas – a dos Peixinhos, a das Olaias e o Casal Vistoso -, a Praça do Areeiro já era assim vulgarmente conhecida, como aliás se pode ler no Edital de 1947: «A via pública situada no término da Avenida Almirante Reis, conhecida por Praça do Areeiro, toma a referida denominação de Praça do Areeiro.»  

A sugestão para que fosse Praça Presidente Salvador Allende adveio de uma carta de Alberto Bastos Flores ainda em 1974. No ano seguinte, a Comissão Nacional de Homenagem ao General Humberto Delgado bem como as Juntas de Freguesia do Alto do Pina, de São João e de Santa Engrácia, sugeriram que o General Sem Medo desse nome à Praça. Nenhuma destas propostas se veio a concretizar neste local. O parecer da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa quanto à artéria a escolher para o General Humberto Delgado, emitido por unanimidade na sua reunião de 29 de junho de 1976, repetiu o princípio de não alteração de toponímia tradicional: «Como tradicionais que são, nenhuma razão de ordem política justifica que se alterem os topónimos Praça do Município ou Praça do Areeiro.»

Todavia, nos anos oitenta, a Praça do Areeiro acabou por ver o seu topónimo alterado. A partir de uma proposta do vereador  Dr. João Martins Vieira com deliberação camarária de 22 de dezembro de 1980 e consequente Edital municipal de 5 de abril de 1982, passou a ser a Praça Francisco Sá Carneiro, com a legenda «1934 – 1980», assim como o Largo do Caldas se modificou para Largo Dr. Adelino Amaro da Costa, para homenagear o primeiro-ministro e o ministro da defesa da época que em 4 de dezembro de 1980 faleceram de forma trágica no decorrer de um voo de Lisboa para o Porto. Na década seguinte, ainda foi aditado à legenda «Antiga Praça do Areeiro», em resultado do parecer da Comissão Municipal de Toponímia de 11 de novembro de 1994.

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Avenida Sidónio Pais que esteve para ser trocada por outra figura republicana

Avenida Sidónio Pais – Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias)

A Avenida Sidónio Pais foi uma das artérias que após o 25 de Abril recebeu diversos pedidos de alterações, nomeadamente que fosse Avenida Doutor Afonso Costa, e parte dela chegou a ser, no papel, a Avenida Bernardino Machado.

Logo na 2ª reunião da Comissão Municipal de Toponímia após o 25 de Abril, em 20 dezembro de 1974, foi analisada uma carta do cidadão Alberto Bastos Flores na qual este solicitava que a Avenida Sidónio Pais passasse a ter a Doutor Afonso Costa como denominação. De igual modo, apontava mais pedidos de alterações e sugeria como possíveis futuros topónimos lisboetas os nomes de Abel Salazar, António Sérgio,  Catarina Eufémia, Cuba, Ferreira de Castro e Jaime Cortesão, tendo a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa registado e respondido que «irá considerá-las na devida oportunidade. Entretanto, entende desde já pertinente que o topónimo Praça do Ultramar seja alterado para Praça das Novas Nações, justificando dessa forma, os topónimos que a rodeiam, como Rua de Timor, Rua de Angola, Rua de Moçambique e outros.»

Em relação ao nome de Afonso Costa, um dos Primeiros Ministros da I República, no tempo da Presidência de Bernardino Machado, a 2ª Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa pós-25 de Abril, na sua reunião de 29 de junho de 1976, sugeriu que fosse o topónimo para o arruamento situado a Norte do Parque Eduardo VII, entre a Avenida Sidónio Pais e a Rua Castilho ( que desde 1982 é a Alameda Cardeal Cerejeira), mas já após as eleições autárquicas que colocaram Aquilino Ribeiro Machado como o 1º Presidente eleito da CML após o 25 de Abril, a Comissão de Toponímia sugeriu que ficasse antes num arruamento com maior extensão «que, partindo da Praça do Areeiro segue para Nascente e é vulgarmente designada por prolongamento da Avenida João XXI», que antes havia estado pendente para ser a Avenida Humberto Delgado.

Também na reunião de 6 de julho de 1976, a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa indicou o troço da Avenida Sidónio Pais compreendido entre a Avenida Afonso Costa e a Rua Marquês de Fronteira para ser a  Avenida Bernardino Machado, com o a legenda « 1851 – 1944». Contudo, as atas são omissas em relação ao desenvolvimento desta hipótese e Bernardino Machado acabou por ser homenageado numa Praça da freguesia do Lumiar em 1985.

Freguesia das Avenidas Novas – Placa Tipo IV
(Foto: Sérgio Dias)

A Avenida de Sidónio Pais, que liga a Avenida Fontes Pereira de Melo à Rua Marquês de Fronteira, é um arruamento nascido do Edital municipal de 22 de junho de 1948 no que antes era identificado como arruamento a Oriente do Parque Eduardo VII entre a Avenida Fontes Pereira de Melo e a Rua Marquês de Fronteira.

Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais (Caminha/01.05.1872 – 14.12.1918/Lisboa), conhecido como o Rei-Presidente, falecera cerca de 30 anos antes em plena Estação do Rossio,  vítima de um atentado. Militar de carreira, também era licenciado em Matemáticas, pela Universidade de Coimbra, onde aderiu à causa republicana. Após a implantação da República em 1910, foi eleito deputado à Constituinte que elaborou a Constituição Portuguesa de 1911; Ministro do Fomento do Governo de  João Chagas (1911); Ministro das Finanças (1911-1912); embaixador de Portugal em Berlim (1912- 1916), até à declaração de guerra da Alemanha a Portugal.

Regressado a Portugal, mostrou-se como figura principal de contestação ao Governo do Partido Democrático e encabeçou o golpe de estado de 5 de dezembro de 1917, tomando posse como Presidente do Ministério no dia 11 e acumulando as pastas da Guerra e  Negócios Estrangeiros, para além de a partir de dia 27 assumir ainda as funções de Presidente da República, num regime que designou como República Nova. A 9 de Maio do ano seguinte foi eleito Presidente da República por sufrágio direto, considerando que apesar do desaire da Batalha de La Lys e de problemas sociais e económicos  Sidónio Pais conseguia apoio popular com a  distribuição da sopa dos pobres (conhecida como Sopa do Sidónio) ou  a visita a hospitais na altura da Gripe Espanhola. No entanto, muitos o o consideravam um traidor aos ideais da República pelo que no 1º aniversário do golpe de estado que o colocou no poder sofreu um atentado de que escapou, para 9 dias depois falecer, a tiro, noutro, na Estação do Rossio.

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

 

A memória de uma Leva da Morte de 1918 ou a Rua António Maria Cardoso

A Rua António Maria Cardoso no dia 25 de abril de 1974
(Foto: sem identificação de autor, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua António Maria Cardoso era no dia 25 de Abril de 1974 a morada da sede da PIDE, polícia de repressão política do Estado Novo, que ainda nessa tarde fez mais 4 mortos – os únicos da revolução – e 45 feridos, através de rajadas disparadas a partir das suas janelas, pelo que não se estranha que este topónimo figure muitas vezes entre os pedidos de alterações apresentados no pós-25 de Abril, sendo sugerido como topónimos alternativos que passasse a ser Rua da Leva da Morte ou Rua Dias Coelho, um pintor assinado pelo PIDE aos 38 anos de idade.

Entre inúmeras solicitações de alterações que a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa recebeu na época, a substituição da Rua António Maria Cardoso por Rua Dias Coelho, foi sugerida pelo cidadão Alberto Bastos Flores. O topónimo pedido acabou por ser concretizado em Alcântara, com a Rua José Dias Coelho, freguesia onde o artista havia sido morto a tiro e justamente na artéria onde tal aconteceu, através do Edital municipal de 17 de fevereiro de 1975.

Também a Associação dos Ex-Presos Políticos Antifascistas (AEPPA)  propôs que a Rua António Maria Cardoso voltasse «à sua antiga denominação de Rua da Leva da Morte » a que a Comissão Municipal respondeu que deveria «aguardar-se maior manifestação popular no sentido da alteração toponímica». Em termos de rigor histórico, a Rua da Leva da Morte havia sido,  durante a I República, um troço daquela artéria que hoje identificamos como Rua Serpa Pinto, em homenagem aos presos políticos anti-sidonistas que foram mortos num tiroteio em plena Rua Vítor Cordon em 1918, mas a força simbólica da presença da PIDE naquele arruamento era muito forte, a ponto da Associação dos Ex-Presos Políticos Antifascistas, que tinha sede nesta rua ter impresso os seus materiais e papel timbrado com Rua da Leva da Morte nº 15 como morada.

Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias)