Publicação municipal de toponímia sobre Nelson Mandela

A publicação municipal de toponímia referente à Rotunda Nelson Mandela, hoje distribuída no decorrer da inauguração oficial deste arruamento, na Freguesia do Lumiar, já está online.

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O Largo Luís Chaves, etnógrafo de «Lisboa nas Auras do Povo e da História»

Freguesia do Lumiar
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Com a legenda «Etnógrafo/1889 – 1975» foi atribuído o topónimo Largo Luís Chaves na Rua DC à Avenida Rainha Dona Leonor e Impasse CD, na Quinta das Mouras, através do Edital municipal de 20 de novembro de 1978, ficando assim a ligar a Avenida Rainha Dona Amélia à Avenida Rainha Dona Leonor.

O mesmo Edital colocou na Rua B da Quinta das Mouras a Rua Mário Sampaio Ribeiro, para homenagear um historiador e musicólogo.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Luís Rufino Chaves Lopes (Chaves/09.05.1888 – 09.01.1975 ou abril/Lisboa), formado em Estudos Matemáticos pela Escola Politécnica de Lisboa e pela Universidade de Coimbra, notabilizou-se como  etnógrafo e arqueólogo, autor dos  quatro tomos de Lisboa nas Auras do Povo e da História – Ensaios de Etnografia.

Como etnólogo, desde 1912 desempenhou funções no Museu Etnológico Dr. Leite de Vasconcelos (hoje, Museu Nacional de Arqueologia), primeiro como preparador do Museu. Logo no ano seguinte foi encarregue do prosseguimento dos trabalhos arqueológicos que decorriam em Outeiro da Assenta (Óbidos) e em Santa Vitória do Ameixoal (Estremoz), entre 1915 e 1916. Também realizou pesquisa etnográfica de que resultou a publicação em 1916 de  Os Barristas de Estremoz (séc. XVIII-XX) (1916), Etnografia alentejana – o rancho da azeitona (Estremoz e Elvas), Folclore de Santa Vitória do Ameixoal (Estremoz) e no ano seguinte de Arte popular no Alentejo: os ganchos de meia de barro de Estremoz (séc.XX), tendo-se centrado no estudo da arte popular. Em 1916, Luís Chaves passou a Conservador interino embora as suas ligações aos ideais monárquicos tenham contribuído para o seu afastamento do Museu em 1919, ao qual regressou em 1931, após concurso público para Conservador, ocupando o lugar de Manuel Heleno quando este passou a ser o diretor do Museu. Assim permaneceu até 1957, data da sua aposentação.

No entretanto, revelou-se uma figura central na Etnografia como colaborador oficial da atividade folclorista do Secretariado de Propaganda Nacional (SPN/SNI), no âmbito da política do Estado Novo: integrou a Comissão de Etnografia Nacional; participou nas iniciativas desenvolvidas pelo SPN/SPI, como o Concurso da Aldeia mais Portuguesa de Portugal (1938) e o Centro Regional da Exposição do Mundo Português (1940), sendo também autor de uma parte significativa das obras editadas neste contexto; organizou a Exposição de Arte Popular Portuguesa  em 1936 e o seu catálogo, em colaboração com o etnógrafo Cardoso Marta com quem, dois anos mais tarde participou nos trabalhos de instalação do Museu de Arte Popular, sobre o qual escreveu  O Novo Museu de Arte Popular (1948).

Deixou ainda obra publicada  na revista O Arqueólogo Português, assim como dirigiu em 1940,  com Francisco Lage e Paulo Ferreira, Vida e Arte do Povo Português, para além de manter durante vários anos na Revista Ocidente, uma crónica intitulada Nos Domínios da Etnografia Portuguesa, e participado regularmente no Mensário das Casas do Povo. Publicou ainda Páginas Folclóricas (1942)Folclore Religioso (1945), O Povo Português através da Etnografia e das Tradições Artísticas (1946).

Paralelamente, foi  Vice-Presidente do Instituto Português de Arqueologia, História e Etnografia até 1964, instituição que representou na Junta Nacional de Educação, assim como trabalhou como bibliotecário da Casa Cadaval. Foi também professor  de Matemática do Colégio Académico, cuja direção chegou a integrar, tal como da cadeira de História de Arte e Iluminura do Curso Superior de Bibliotecário Arquivista, bem como do Estágio para Conservadores dos Museus, Palácios e Monumentos Nacionais.

Na política foi monárquico, membro do chamado «Grupo dos Cinco», com Alfredo Pimenta, Caetano Beirão, Alberto Ramires dos Reis e Mateus de Oliveira Monteiro, que fundaram a Ação Realista Portuguesa em julho de 1921, que além do mensário com o nome da organização publicava também o semanário A Voz Nacional que Luís Chaves dirigiu.

Inauguração da Rotunda Nelson Mandela na véspera dos seus 100 anos

De hoje a uma semana, ao meio-dia de 17 de julho próximo, véspera do centenário de nascimento de Nelson Mandela – o Mandela Day designado pela ONU – , será inaugurada na Freguesia do Lumiar, a Rotunda Nelson Mandela, com a presença do Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina e da Vereadora da Cultura e Relações Internacionais, Catarina Vaz Pinto.

Nelson Mandela (18.07.1918 – 05.12.2013), antigo presidente da África do Sul e o primeiro Presidente Negro desse país, foi um conhecido ativista anti-apartheid que foi galardoado com o prémio Nobel da Paz em 1993, tento dedicado a sua vida à luta contra a discriminação racial e as injustiças sobre a população negra.

Advogado e ativista do Congresso Nacional Africano, Nelson Mandela foi preso em 1962, numa altura em que o regime de apartheid na África do Sul intensificava a sua campanha brutal contra os opositores políticos e tendo então com 44 anos, passou os 28 anos seguintes na prisão, sendo libertado apenas a 11 de fevereiro de 1990.

O historiador da cartografia portuguesa, Avelino Teixeira da Mota, numa Avenida de Lisboa

Freguesia de Marvila
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Avelino Teixeira da Mota, historiador da cartografia portuguesa a quem o jornalista Norberto Lopes apelidou de «Um Sábio Ignorado», está inscrito na toponímia de Lisboa, numa Avenida de Marvila, passados que eram dois anos  sobre o seu falecimento, através do Edital municipal de 28 de fevereiro de 1984.

Resultado de imagem para avelino teixeira da mota Reflexos do Tratado de Tordesilhas na Cartografia Náutica do Século XVI Avelino Teixeira da Mota (Lisboa/22.09.1920 – 10.04.1982/Lisboa), filho de Avelino da Mota e de Isaura Teixeira, estudou na Escola Primária Oficial N.º 44 e seguiu para o Liceu Passos Manuel até 1938 e nesse mesmo ano, entrou para a Faculdade de Ciências para frequentar as disciplinas necessárias à admissão na Escola Naval (Álgebra, Física, Química e Desenho), onde foi aceite em 15 de setembro de 1939 e assim assentou praça na Armada. Terminado o curso em 1943 ficou com o posto de Segundo Tenente.

Como oficial da Marinha, esteve na Guiné (de 1945 e 1957), primeiro como Ajudante-de-campo do Governador da Guiné, Sarmento Rodrigues, para de 1948 a 1957 integrar a Missão Geo-Hidrográfica da Guiné . Foi também deputado pela Guiné, entre 1957 e 1961. A partir de 1953 foi também incumbido de realizar o inventário e reprodução fotográfica da cartografia antiga portuguesa dos territórios ultramarinos e a partir de 1958, passou a dirigir o Centro de Estudos de Cartografia Antiga da Junta de Investigações do Ultramar, até 1982. Em 1964, era Vogal do Conselho Ultramarino e em 1970 e 1971, foi o chefe do estado-maior do Comando Naval de Angola. Passou à reserva no ano de 1976, quando era presidente do Tribunal da Marinha, no posto de contra-almirante.

Avelino Teixeira da Mota exerceu também como docente, na Escola Naval de 1959 a 1964 e, na Faculdade de Letras de Lisboa,  de 1965 a 1969, como professor de História da Expansão Portuguesa. Com Armando Cortesão, publicou em 1960 duas obras: Portugaliae Monumenta Cartographica Tabularum Grographicarum Lusitanorum Specimen. Da sua obra publicada sobressaem Dom João de Castro, navegador e hidrógrafo (1949), Fernão Vaz: explorador ignorado do Golfo da Guiné e Topónimos de Origem Portuguesa na Costa Ocidental de África desde o Cabo Bojador ao Cabo de Santa Catarina (ambos em 1950), Cinco séculos de cartografia das Ilhas de Cabo Verde (1961), A Cartografia Antiga da África Central e a Travessia entre Angola e Moçambique 1500-1860 (1964), O cosmógrafo Bartolomeu Velho em Espanha (1966), Evolução dos roteiros portugueses durante o século XVI (1969), D. João Bemoim e a expedição portuguesa ao Senegal em 1489 (1971), A África ocidental em Os Lusíadas (1972), Duarte Coelho, capitão-mor de Armadas no Atlântico (1531-1535) (1972), Reflexos do Tratado de Tordesilhas na Cartografia Náutica do Século XVI (1973), A África no planisfério português anónimo “Cantino”: 1502 (1977), Acerca de algumas recentes reuniões internacionais de interesse para a História Marítima (1977) e postumamente, Bartolomeu Dias: Descobridor do Cabo de Boa-Esperança (1988).

Pertenceu a várias instituições nacionais e estrangeiras, entre as quais foi membro da Academia Portuguesa de História, a partir de 1954, sócio da Academia das Ciências de Lisboa desde 1959, académico da Academia  Portuguesa de História (1962), bem como Presidente da Comissão do Infante D. Henrique da Sociedade de Geografia e da Academia de Estudos da Marinha (1979 a 1982).

Para além de Lisboa, Teixeira da Mota está homenageado na toponímia de Oeiras e de Lagos.

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

 

A Rua Vitorino Magalhães Godinho, dos Descobrimentos e da Economia Mundial

Freguesia do Parque das Nações
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

No ano em que passa o centenário de Vitorino Magalhães Godinho, apaixonado pelo ofício de historiador, sobretudo, na área dos Descobrimentos e da Economia Mundial, e da escola dos Annales, evocamos a rua com o seu nome, na freguesia do Parque das Nações desde o ano passado, através do Edital municipal de 20 de janeiro, junto ao Passeio dos Heróis do Mar.

Vitorino Barbosa de Magalhães Godinho (Lisboa/09.06.1918 – 26.04.2011), licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa no ano de 1940 começou logo no ano seguinte a exercer como professor da Faculdade de Letras e assim foi até 1944, ano em que foi afastado por ser opositor do Estado Novo.

Magalhães Godinho abalou para Paris, onde foi investigador do Centre National de la Recherche Scientifique (1947-1960), fase durante a qual obteve o grau de Doutor ès-Lettres pela Sorbonne (1959). Pertenceu à escola historiográfica que se desenvolveu em torno da revista Annales (Anais de História Económica e Social) dos historiadores franceses Marc Bloch e Lucien Febvre e prosseguiu os seus trabalhos  em sintonia com Fernand Braudel. Magalhães Godinho desenvolveu o conceito de «complexo histórico-geográfico», a partir do qual estruturou e desenvolveu muitas das suas investigações, tendo sido um dos mais significativos defensores da interdisciplinaridade e da importância da articulação da História com outras Ciências Sociais, nomeadamente com a Sociologia, a Economia e a Antropologia.

A sua área de paixão foi a História dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa e a ele se deve a atualização e a renovação dos estudos de história da expansão portuguesa numa perspetiva mundial e uma nova história de Portugal através das suas obras, desde logo a sua tese de doutoramento L’économie de l’empire portugais – XVe- XVIe siècles (1966) foi editada em português com o título de Os descobrimentos e a economia mundial, mas também com Documentos para a história da expansão portuguesa (1943-1956), A expansão quatrocentista portuguesa (1944), História económica e social da Expansão Portuguesa (1947), Prix et monnaies au Portugal, 1750-1850 (1955), O “Mediterrâneo saariano” e as caravanas do ouro – séculos XI ao século XVI (1956), A economia dos descobrimentos henriquinos (1962),  A estrutura da antiga sociedade portuguesa (1971) ou Mito e mercadoria, utopia e prática de navegar, séculos XIII-XVIII (1990).

Regressou a Portugal no ano de 1960, nomeado professor catedrático do Instituto Superior de Estudos Ultramarinos, onde foi docente até 1962, voltando a ser  afastado por razões de natureza política. Em 25 de Abril de 1974 lecionava na Faculté des Lettres et Sciences Humaines da Universidade de Clermont-Ferrand, que lhe havia concedido o doutoramento honoris causa e regressou a Portugal, tendo sido então Ministro da Educação e Cultura do II e III Governo Provisório ( de 17 de julho a 29 de novembro de 1974).

O Professor Vitorino Magalhães Godinho foi ainda um dos fundadores da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, fundador da Sociologia nesta Universidade, tendo sido o coordenador do Departamento de 1975 a 1988, e um dos pioneiros das Ciências Sociais em Portugal.

Magalhães Godinho dirigiu ainda várias coleções, nomeadamente nas Edições Cosmos e fundou em 1979, a Revista de História Económica e Social. Em 1984, desempenhou o cargo de Diretor da Biblioteca Nacional e ainda organizou e prefaciou o volume da antologia Alexandre Herculano. O cidadão e o historiador (2010). Foi ainda um dos signatários da Petição em Defesa da Língua Portuguesa contra o Acordo Ortográfico e publicou sobre outras temáticas como Portugal: a Pátria bloqueada e a responsabilidade da cidadania (1985), Problemas da institucionalização e desenvolvimento das Ciências Sociais e Humanas em Portugal (1989), Portugal, a emergência de uma nação (2004), a biografia de seu pai, militar e político republicano, sob o título Vitorino Henriques Godinho: Pátria e República (2005) ou Os problemas de Portugal – os problemas da Europa (2010).

Vitorino Magalhães Godinho foi agraciado com o Prix d’Histoire Maritime da Académie de Marine (1970) e o Prémio Balzan (1991), para além de dar nome a um Prémio instituído pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e integrar a toponímia de Belas (Sintra), Entroncamento e Sesimbra.

Freguesia do Parque das Nações
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

 

A Rua José da Silva Pais, Codiretor da Obra do Aqueduto de 1732 a 1733

Freguesia de Campolide
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

José da Silva Pais dá nome a uma Rua de Campolide,  colocando a memória deste arquiteto do Aqueduto das Águas Livres nas proximidades da estrutura que ajudou a construir, já que sucedeu a Manuel da da Maia na direção da execução da obra.

A Rua José da Silva Pais,  que liga a Rua dos Arcos [do Aqueduto] à Rua de São Vicente de Paulo, foi atribuída pelo Edital municipal de 28 de dezembro de 1989, à Rua 5 do Bairro do Alto da Serafina, com a legenda «Mestre do Aqueduto – Século XVIII» e foi dos poucos topónimos desse último Edital de 1989 que não sofreu contestação local dos residentes do Bairro. Assim, o Edital municipal de 14 de dezembro de 1990 que veio recolocar toponímia acordada com a os moradores e a Junta de Freguesia confirmou este topónimo e alterou apenas a sua legenda para «Co-Director da Obra do Aqueduto de 1732 a 1733». O mesmo Edital de 1990 incluiu nos topónimos do Bairro, os nomes de outros arquitetos ligados à execução do Aqueduto, como Honorato José Correia, Miguel Ângelo Blasco Reinaldo Manuel dos Santos  e, alterou também a legenda da Rua Rodrigo Franco para «Arquitecto do Aqueduto – Século XVIII», assim como mudou a designação da Rua Francisco António Ferreira para Rua Francisco Ferreira Cangalhas, com a legenda «Arquitecto-Geral das Águas Livres de 1791 a 1808».

Noutras freguesias de Lisboa encontramos mais três arquitetos do Aqueduto: Avenida Manuel da Maia (Areeiro e Arroios), Rua Carlos Mardel (Areeiro e Arroios), Rua Custódio Vieira (Campo de Ourique).

Freguesia de Campolide
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

José da Silva Pais (Lisboa – Mercês/25.10.1679 – 14.11.1760/Lisboa)  surge cedo na construção do Aqueduto determinada por alvará régio de 1731, na comissão de direção composta com Manuel da Maia e Custódio José Vieira, por nomeação de D. João V que dispensara o primeiro arquiteto responsável pela obra, António Canevari, sendo assim codiretor da obra nos dois primeiros anos da mesma, em 1732 e 1733.

José da Silva Pais foi militar desde os  22 anos, em Lisboa, seguindo nesse ano para a Praça de Olivença, nas funções de ajudante-engenheiro, para depois ficar na Praça de Campo Maior (1712) e ser nomeado Coronel de Engenheiros (1713). É assim que de 1729 a 1733 foi encarregado da implantação de obras em Lisboa, num século em que as profissões de arquiteto e engenheiro eram ainda confundidas uma com a outra.

Em março de 1735 desembarca no Brasil como Brigadeiro, designado para projetar e construir as fortificações do Rio de Janeiro e na Barra de Santos. Traçou também o novo edifício da Alfândega. Depois, como político, fundou a cidade de Rio Grande em 1737 e tornou-se o primeiro governador da Capitania de Santa Catarina, garantindo a presença portuguesa no Prata, no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, tendo regressado a Portugal em fevereiro de 1749. Curiosamente, cinco anos depois encontramos uma consulta sobre uma petição de José da Silva Pais, referido como sargento-mor de batalha, que pretendia saldar a sua dívida, propondo a retenção de um terço do seu ordenado por parte do Senado Municipal de Lisboa, quando fossem feitos os pagamentos às tropas.

 

A Calçada da Memória do atentado a D. José I

A Calçada da Memória em 1969
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

A memória das aventuras galantes de D. José I com D. Teresa de Távora, que terminaram com um atentado à integridade física do soberano, ficou registada no próprio local da agressão com a construção de uma Igreja dedicada a Nossa Senhora do Livramento – por ele ter saído ileso-, assim como a São José – por ser o nome do rei-, e essa lembrança estendeu-se depois a três topónimos locais: a  Calçada , o Largo e a Travessa da Memória.

Tanto a Calçada da Memória como a Travessa homónima, foram topónimos oficializados pela edilidade lisboeta através do Edital de  26 de setembro de 1916. Já o Largo da Memória não possui prova documental que ateste a sua data de fixação mas terá de ser posterior ao início  da construção nesta zona da Igreja da Memória , isto é, a partir de 1760. A partir dos documentos constantes no Arquivo Municipal de Lisboa podemos deduzir que todos os três topónimos serão do séc. XIX e que antes foram genericamente as Terras da Memória.

Com data de 27 de outubro de 1886, encontramos  um projeto de ruas a executar na zona da Memória e da Ajuda, no qual percebemos que a Igreja da Memória confrontava com o Caminho do Buraco, o Pátio das Vacas e o Largo do Chafariz. Também com a data de 8 de janeiro de  1891 deparamos com o projeto definitivo das ruas nas denominadas Terras da Memória, em terreno cedido pela Casa Real. E em 1892, descobrimos um requerimento de vários moradores a solicitar a demolição do muro na travessa do Pátio das Vacas para comunicação com as Terras da Memória e ainda uma solicitação de Rosa Gomes para construção de casa num dos arruamentos projetados na zona da Memória.

Da ligação de D. José I a D. Teresa de Távora, informa o olisipógrafo  Norberto de Araújo que o atentado ocorreu na noite de 3 de setembro de 1758, quando o monarca saído dos aposentos da jovem marquesa de Távora subia de Belém para Ajuda, na carruagem do seu criado e confidente Pedro Teixeira (também fixado como topónimo numa Estrada da Ajuda) e que ao passar no Pátio das Vacas foi D. José atacado a tiro. Os conjurados sumiram-se e o rei partiu à desfilada para a casa do Marquês de Angeja, na Junqueira, para tratar os seus ferimentos no braço. Saiu ileso o rei desta conspiração, tida como dos Távoras, e por tal bênção desta salvação foi erguida a Igreja da Memória. Depois, o Marquês de Pombal acusou os seus inimigos Távoras de conspiração e estes foram torturados e depois executados em janeiro de 1759. A morte dos Távoras foi celebrada com um pelourinho erguido no Beco do Chão Salgado, topónimo também relativo a essa ocasião e os restos mortais do Marquês de Pombal foram transladados em 1923 para a Igreja da Memória.

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Amanhã, inauguração do Jardim Mário Soares

O Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina, vai proceder amanhã, às 13:00, à inauguração do Jardim Mário Soares.

 

“ Mário Soares é o maior político português do século XX”, disse o seu rival, nas eleições presidenciais de 1986, Diogo Freitas do Amaral. Para Mário Soares, a política era uma vontade e uma vocação, um prazer e uma paixão. E foi-lhe um destino! A sua voz tonou-se, nos momentos em que tudo se jogava, a voz do País – e dizia a palavra Liberdade. Foi fundador e garante da democracia portuguesa, dando o seu nome ao que melhor a prefigurou e configurou. É o rosto do Portugal democrático e europeu. A sua morte apareceu na Imprensa de todo o mundo. Foi o fim de uma grande vida livre.

Nasceu em Lisboa, a 7 de Dezembro de 1924. Do pai, João Soares, ministro da I República, intelectual e pedagogo, recebeu o gosto idealista da política e da cultura. Da mãe, Elisa Nobre Baptista, herdou o senso prático e o realismo.

A Guerra Civil de Espanha foi o seu despertar político. Estudou em colégios, terminando o liceu no Colégio Moderno, fundado pelo pai. Em 1942, ao entrar na Universidade de Lisboa, já tinha uma posição política clara: era antifascista. Licenciou-se em História e Filosofia. Depois, em Direito. Viveu intensamente a II Guerra Mundial, lutando pela vitória dos Aliados. Quando ela aconteceu, organizou grandes manifestações, mas Salazar aguentou-se.

Casou com Maria de Jesus Barroso em 1949, quando estava preso. Tiveram dois filhos: João e Isabel. O MUD Juvenil e o MUD iniciaram-no como dirigente político. Preso 13 vezes, foi deportado em S. Tomé e esteve exilado em França. Participou em todos os grandes combates contra a ditadura. Após o assassinato de Humberto Delgado pela PIDE, foi o advogado da família. Em 1950, tinha-se distanciado do Partido Comunista, iniciando uma travessia do deserto que o levaria, mais tarde, à fundação da ASP e, em 1973, do PS.

Com o 25 de Abril de 1974, regressou a Portugal, no Comboio da Liberdade. Trazia, na bagagem, um Partido, uma rede de relações internacionais, uma ideia para o país. Visitou os seus amigos, que chefiavam muitos governos  na Europa, para obter o reconhecimento da Revolução. Foi ministro dos Negócios Estrangeiros do I e II Governos Provisórios, abrindo Portugal ao mundo. Iniciou as conversações para a descolonização, mas esse processo, logo a seguir, ficou nas mãos do MFA e do PCP.

À medida que se tornava claro que os comunistas queriam tomar o poder, Soares liderou um PS que se opôs firmemente à tentação totalitária. Depois da vitória socialista nas eleições para a Assembleia Constituinte, em Abril de 1975, ergueu a legitimidade democrática acima da legitimidade revolucionária. A unicidade sindical foi rejeitada; o “caso República” levou o país à rua e os socialistas saíram do governo; o comício da Fonte Luminosa foi o símbolo maior da luta contra Vasco Gonçalves e Cunhal. Malraux disse então que, em Portugal, pela primeira vez na história, os mencheviques derrotaram os bolcheviques. Soares tornara-se uma figura mundial.

Em 1976, o PS ganhou as eleições legislativas e ele foi primeiro- ministro do I e II Governos Constitucionais: salvou o país da banca rota, construiu o Estado de Direito, lançou os fundamentos do Estado Social, pediu a adesão à CEE. A seguir, fez oposição à AD, mas celebrou acordos para tornar Portugal uma democracia civilista e europeia. Voltou a chefiar o Governo (IX). Em 1985, assinou o Tratado de Adesão de Portugal à CEE. Contrariando uma ideia falsa, os governos de Soares foram os mais reformistas e eficazes, tomando decisões fundamentais para a economia e a sociedade.

Em 1986, depois de uma dura campanha, que começou, para ele, com previsões baixíssimas nas sondagens, foi eleito Presidente da República, o primeiro civil, após 60 anos. Em 1991, foi reeleito com mais de 70% dos votos. O seu estilo e as Presidências Abertas permanecem como uma maneira contemporânea de fazer política e de olhar o Estado. Nesses anos, o lugar da cultura foi o primeiro.

Depois, Soares continuou presente. Interveio, falou, escreveu, agiu. Animou a Fundação Mário Soares. Fez da defesa do ambiente uma grande causa. Foi Presidente da Comissão Mundial Independente dos Oceanos. Opôs-se á guerra do Iraque, que considerou um desastre para o Ocidente. Foi deputado no Parlamento Europeu. Perdeu as eleições presidenciais de 2006, mas o estado do País, da Europa e do Mundo nos anos seguintes deu razão ao que Soares dissera na campanha eleitoral.

Figura portuguesa, europeia e mundial, Mário Soares exerceu os mais altos cargos e recebeu as maiores distinções. Isso nunca o acomodou. Lutou sempre até ao fim: denunciou, previu, preveniu, advertiu, propôs. Tinha orgulho nos livros que escreveu e nos combates que travou. Nele, a política e a liberdade eram uma da outra e, as duas, inseparáveis da vida e do que a torna grande.

José Manuel dos Santos

 

 

A Rua do político da Regeneração Rodrigo da Fonseca

Em 1959
(Foto: Amadeu Ferrari, Arquivo Municipal de Lisboa)

Vinte e seis anos  após o seu falecimento foi o político liberal Rodrigo da Fonseca fixado como topónimo na antiga Azinhaga do Vale de Pereiro por Edital camário de  4 de março de 1884, artéria que só ficou completamente concluída no séc. XX, na década de trinta mas que acolheu os edifícios do Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho em 1933 e do Hotel Ritz em 1959.

Esta artéria que hoje se estende da Rua do Salitre à Rua Marquês de Fronteira perpetua Rodrigo da Fonseca Magalhães (Condeixa-a-Nova/24.07.1787-11.05.1858/Lisboa), que ainda estudante em Coimbra se alistou no  Batalhão Académico para combater as invasões francesas de 1807. Dez anos depois, em 1817, sendo tenente e estando implicado na conspiração de Gomes Freire, abandonou o exército e refugiou-se no Brasil onde foi secretário do seu antigo comandante Luís do Rego Barreto e a partir de 1821, da Junta Governativa organizada após a Revolução Liberal do Porto. Ainda nesse ano de 1821, fundou o primeiro jornal político de Pernambuco, o Aurora Pernambucana.

Regressou a Portugal em 1822 com o general Luís do Rego Barreto de quem já era então genro, mas após o triunfo da Vilafrancada foram ambos deportados para a Figueira da Foz. Em 1824, Rodrigo da Fonseca obteve licença para morar em Viana do Castelo mas  em 1828, após se recusar a aderir à causa da monarquia absoluta de D. Miguel teve de se refugiar em Inglaterra, onde em Londres conheceu Pedro de Sousa Holstein, futuro Duque de Palmela, que liderava a emigração constitucional portuguesa, sendo colocado na secretaria da embaixada, responsável por dirigir os jornais liberais Aurora e Paquete de Portugal. 

Voltou de vez ao nosso país após o desembarque de D. Pedro IV no Mindelo. Prosseguiu uma carreira como diretor-geral do Ministério dos Negócios Eclesiásticos e da Justiça e administrador da Imprensa Nacional. Foi também deputado pelo Minho (1934); fundador com António Pereira dos Reis e redator do Revista; Ministro dos Negócios do Reino do Duque de Saldanha (1835), pasta que repetiu no governo do 1º Conde de Bonfim (1839) e também mais tarde, em 1851-1856, outra vez com o Marechal Saldanha; Ministro dos Negócios Estrangeiros (1841) no governo de Joaquim António de Aguiar; Conselheiro de Estado (1842); e ainda Par do Reino (1847).

Tendo fixado a sua residência em Lisboa na Rua dos Navegantes, onde veio a falecer, Rodrigo da Fonseca foi ainda sócio emérito da Academia Real das Ciências de Lisboa, sócio do Conservatório Real de Lisboa e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil. Recusou títulos nobiliárquicos mas mesmo assim foi galardoado como fidalgo cavaleiro da Casa Real (2 de agosto de 1835), com a grã-cruz da Ordem de Cristo, o grau de cavaleiro da Ordem da Torre e Espada, a Cruz n.º 4 das Campanhas da  Guerra Peninsular e a medalha britânica de 7 ações.

Freguesias de Santo António, Avenidas Novas e Campolide                               (Planta: Sérgio Dias)

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