As terras do «Carvalhão» que viria a ser Marquês de Pombal

Alto do Carvalhão – Freguesia de Campolide
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Carvalhão era o nome pelo qual era conhecido Sebastião José de Carvalho e Melo – que viria depois a ser Conde de Oeiras e Marquês de Pombal – nesta zona de Campolide, onde era o proprietários dos terrenos que se estendiam desde a Cruz das Almas até à ribeira de Alcântara e onde se fixou na toponímia local como Alto do Carvalhão, Rua do Arco do Carvalhão e já no século XX, também com a Rua do Meio ao Arco do Carvalhão (Edital de 22/06/1948).

Segundo o olisipógrafo Norberto de Araújo, «do apelido [Carvalhão] derivaram os nomes da Rua actual (da direita) que leva à Cruz das Almas, e da ladeira (à esquerda) só há poucos anos (1933) edificada em forma, e que leva à D. Carlos Mascarenhas», porque ali possuía  casas, terras, olivais, pedreiras como a da Cascalheira, fornos de cal e até moinhos e azenhas. Ainda segundo Norberto de Araújo «antes de ser do Arco do Carvalhão a rua chamava-se do Sargento-Mór.»

Antes do Terramoto de 1755, o Arco do Carvalhão aparece na descrição corográfica da freguesia de Santa Isabel, bem como na planta após a remodelação paroquial de 1770. Cerca de 1779 existiriam casebres na Rua do Arco do Carvalhão que seriam demolidos em 1929 para alargamento do arruamento, ainda de acordo com Norberto de Araújo.

No século XX, em 1807, a planta de Duarte Fava apresentava esta zona como o Arco do Carvalhão. Filipe Folque, na sua planta de 1857 já refere o Arco do Carvalhão, a Estrada do Arco do Carvalhão e o forte do Alto do Carvalhão, sendo que desde 12 de outubro de 1823 que o Chafariz do Arco do Carvalhão (ou da Cruz das Almas), da autoria de Reinaldo Manuel dos Santos, estava a funcionar na Rua do Arco do Carvalhão que foi alargada a partir de 1887, alongada em 1900 e novamente alargada em 1901 bem como de 1914 a 1922.

Sabe-se ainda, por uma escritura de 21 de fevereiro de 1920, que neste ano estavam a ser construídas ruas no Alto do Carvalhão,  numa obra levada a cabo por Gustavo de Araújo Santos Moreira e que, dois anos depois (escritura de 27/01/1924), o mesmo indivíduo obteve licença para abertura e construção de ruas nos terrenos sitos no Alto do Carvalhão cedendo 2571,25 m2 de terreno à Câmara Municipal de Lisboa. A pavimentação das ruas ocorreu dez anos depois como prova a escritura de adjudicação da empreitada de pavimentação das ruas do Alto do Carvalhão a Emílio Hidalgo, com data de 22 de maio de 1934. A partir de 1937 o  Alto do Carvalhão recebeu a construção de  rampas de acesso à Auto-Estrada Lisboa-Cascais, incluindo ainda um viaduto sobre a artéria com data de 1940.

Freguesia de Campolide
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Avenida da Muito Notável Vila da Praia da Vitória em 11 de agosto de 1829

Freguesias das Avenidas Novas e de Arroios
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Muito Notável Vila da Praia da Vitória, conforme o título que lhe foi concedido por Carta Régia de 12 de janeiro de 1837, em reconhecimento por ter tomado partido pelas tropas liberais contra a esquadra absolutista de D. Miguel, em 11 de Agosto de 1829, contribuindo assim para a vitória dos liberais de D. Pedro, está perpetuada em Lisboa desde a publicação do Edital municipal de 28 de junho de 1906, nas Avenidas Novas de Ressano Garcia junto à Praça que homenageia o chefe militar de D. Pedro, o Marechal Saldanha.

Este topónimo nasceu como Avenida da Praia da Vitória mas a partícula «da» foi suprimida em 1951, a partir de um parecer da Comissão Municipal de Toponímia de 13 de abril que o  Vice-Presidente da edilidade homologou no dia 16. Também a sua dimensão inicial ia da Rua de Dona Estefânia à Praça Duque de Saldanha, tendo a partir de 1945 sido ampliada até à Avenida 5 de Outubro.

A Ilha Terceira (Açores) está dividida em  dois  concelhos, sendo Praia da Vitória a sede do concelho mas a sua colocação na toponímia lisboeta mais do que uma referência de geografia regional radica numa homenagem ao apoio dado a D. Pedro contra D. Miguel em 1829. Aliás, a Avenida Praia da Vitória aquando da sua atribuição – 1906 – desembocava na Praça Duque de Saldanha que assim era designada desde 22 de agosto de 1902, em homenagem ao Marechal Saldanha, o chefe do Estado-Maior do Exército de D. Pedro, substituindo o anterior nome de Praça Mouzinho de Albuquerque.

Refira-se que os outros dois topónimos lisboetas que claramente celebram a vitória liberal de D. Pedro sobre o absolutista D. Miguel também se encontram juntos numa mesma zona da cidade desde o último quartel do séc. XIX, desaguando um no outro: a Avenida 24 de Julho que arriba à Praça do Duque da Terceira. A primeira nasceu como Rua em 13 de setembro de 1878 e em 22 de outubro de 1928 passou a Avenida, enquanto a Praça Duque de Terceira passou a ser a nova denominação da Praça dos Remolares ou Romulares pelo Edital municipal de 28 de dezembro de 1889.

Freguesias das Avenidas Novas e de Arroios
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua do Conselheiro Mariano de Carvalho, professor da Escola Politécnica

Freguesia dos Olivais
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Mariano Cirilo de Carvalho, professor de Matemática da Escola Politécnica, jornalista e político, foi consagrado ainda em vida, dez meses após se demitir do cargo de Ministro da Fazenda, na Rua do Conselheiro Mariano de Carvalho, na última década do século XIX, nos  Olivais, artéria que hoje começa hoje junto ao nº 365 da Avenida Infante Dom Henrique  e se estende até à Praça da Viscondessa dos Olivais (em virtude de alterações urbanísticas ocorridas na zona foi eliminado o troço entre a Avenida Infante Dom Henrique e a Avenida D. João II).

Foi por deliberação camarária de 25 de novembro de 1892 e consequente Edital municipal de dia 30 que a Rua Direita, que da Praça da Viscondessa dos Olivais seguia para o nascente até à Praia do Tejo, se passou a denominar Rua do Conselheiro Mariano de Carvalho, tendo o mesmo Edital  consignado também em Ruas da mesma freguesia os nomes de Conselheiros de Estado que haviam sido ministros ou governadores na mesma época, a saber, a Rua do Conselheiro Dias Ferreira, a Rua do Conselheiro Ferreira do Amaral, a Rua do Conselheiro Lopo Vaz e a Rua do Conselheiro Teles de Vasconcelos.

N’ O Berro, 29 de março de 1896,  caricaturado por Celso Hermínio

Mariano Cirilo de Carvalho (Alenquer-Abrigada/25.06.1836 – 19.10.1905/Estoril), formado em Farmácia e em Matemática pela Escola Politécnica de Lisboa, distinguiu-se como  professor de Matemática dessa mesma Escola a partir da década de sessenta do séc. XIX, tendo sido também vogal do Conselho Superior de Instrução Pública.

Mariano de Carvalho foi  também jornalista, começando logo a partir de 1864 no Gazeta de Portugal mas chegou até a fundar títulos como o Notícias, o Novidades, o Correio Português e o Diário Popular. Em paralelo, ainda se dedicou à tradução, tendo sido o primeiro tradutor para português de Júlio Verne (nas obras Aventuras de três russos e de três ingleses,Viagem ao centro da terra, O país das peles, A galera Chanceler).

Filiado no Partido Reformista foi deputado de 1870 a 1880, eleito pelos círculos da Chamusca, do Porto, de Timor e do Cartaxo, tendo em 1900 sido deputado independente. Em 1876, por fusão do Reformista com o Partido Histórico, passou a representar o Partido Progressista. Foi ainda Ministro da Fazenda (1886-1889; 1891-1892) com José Luciano e com João Crisóstomo, época que publicou as obras Reorganização das Finanças Portuguesas – Relatório e Proposta de Lei (1887),  A Questão dos Tabacos (1889) e Os Planos Financeiros (1893).

Mariano de Carvalho conseguiu ainda ser o Comissário português à Exposição de Paris de 1890, presidente da Câmara Municipal de Setúbal e Comissário régio no Banco Nacional Ultramarino.

Por último, refira-se que Mariano de Carvalho foi um empenhado defensor da construção da linha de caminho de ferro para Cascais, tendo mesmo apresentado um plano de construção de um porto franco naquela vila, bem como de uma linha férrea que pela Quinta Marinha, seguisse até Colares.

Freguesia dos Olivais
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Praça Sócrates da Costa no Beato

Freguesia do Beato
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Na freguesia do Beato está a Praça Sócrates da Costa que homenageia o licenciado em Direito que também foi professor liceal, consagrado com a legenda «Figura de relevo da Índia Portuguesa/1898 – 1959» desde janeiro de 1960.

Foi pelo Edital municipal de 2 de janeiro de 1960 que a Praceta I à Calçada do Carrascal passou a ter a denominação de Praça Sócrates da Costa, em homenagem a Jerónimo Salvador Constantino Sócrates da Costa (Margão – Índia/28.03.1898 – 10.11.1959/?), licenciado em Direito que prosseguiu uma carreira profissional como professor do ensino secundário, notário e subdelegado do Procurador da República da Comarca de Caminha e, após se ter fixado na Índia, como notário da Comarca de Goa.

Na política, ocupou os cargos de  Vogal da Comissão Distrital da União Nacional de Viana do Castelo, Presidente da Comissão Provincial da União Nacional da Índia, Comissário Colonial e Comissário Nacional Adjunto da Mocidade Portuguesa da Índia, Presidente da Câmara Municipal de Goa, e deputado parlamentar da Índia nas V (1949-1953), VI (1953-1957) e VII Legislaturas (1957-1961).

Deixou publicações várias como a da sua Conferência no Instituto Vasco da Gama intitulada «O Estado Novo e a Constituição Política da República Portuguesa» (1940), «Goa na História da Civilização» (1947) editada pela Repartição Central de Estatística e Informação de Goa ou a obra que compila os seus discursos proferidos enquanto deputado da então Índia portuguesa na Assembleia Nacional – «Índia: discursos proferidos na Assembleia Nacional em 1 de Março de 1950» -, publicada pela União Nacional.

Foi casado com Maria Adosinda Guimarães Mendes, a quem o Decreto-Lei  43970 ( de 19/10/1961) atribuiu uma pensão mensal vitalícia de 5 mil escudos.

Freguesia do Beato
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

A Rua do Professor de Medicina Tropical e de Letras Silva Teles

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Professor de Medicina Tropical e do Curso Superior de Letras que também foi Reitor da Universidade de Lisboa (1928) e Ministro da Instrução Pública (1929), o Dr. Silva Teles está inscrito na toponímia das  Avenidas Novas desde a publicação do Edital municipal de 17 de abril de 1934, a ligar a Rua Tenente Espanca à  Rua da Beneficência.

Francisco Xavier da Silva Teles (Goa/02.09.1860 – 21.05.1930/Lisboa) que fixou residência em Lisboa no ano de 1900, enquanto docente exerceu como professor da cadeira de Higiene e Climatologia na Escola de Medicina Tropical desde 1902, como professor das cadeiras de Geografia (1904), Geografia Económica Geral e Especial, Geografia Económica de Portugal e suas Colónias e Geografia Económica do Brasil, no Curso Superior de Letras. Em 1911 passou a acumular como professor do Instituto Superior do Comércio de Lisboa e em 1927 foi também professor da cadeira de Administração Colonial, cargo que acumulou com os de diretor da Escola de Medicina Tropical de Lisboa para no ano seguinte, a 24 de fevereiro, ser nomeado Reitor da Universidade de Lisboa e no ano que se seguiu, Ministro da Instrução Pública, de 8 de julho a 11 de setembro, já que demitiu por discordâncias de orientação política.

Formado em medicina na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa (1880), tornou-se Médico Naval, tendo começado em Moçambique, fundado o laboratório bacteriológico do Hospital da Marinha em 1895 e terminado com o posto de Capitão-de-mar-e-guerra (1918).

Estudou na École d’Anthropologie de Paris, onde se aperfeiçoou em técnicas antropométricas, tendo publicado diversos estudos e regido um curso de Antropologia na Academia de Estudos Livres de Lisboa, para o qual preparou um programa de observações antropológicas que a Sociedade de Geografia de Lisboa usou depois em trabalhos de campo na Serra da Estrela, associação sob a égide da qual organizou o I Congresso Colonial (1901), temática em que também tinha estudos publicados.

Refira-se ainda que  Silva Teles foi deputado do Partido Progressista e em 1908, um dos fundadores da Liga de Educação Nacional, assim como foi Secretário Geral da Sociedade de Geografia durante 12 anos e Sócio Correspondente da Academia de Ciências de Lisboa. Em 1924 também participou no Guia de Portugal dirigido por Raúl Proença.

Agraciado foi com os graus de Cavaleiro, Oficial e Comendador da Ordem Militar de Avis (1919), com o grau de Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, para além da Medalha de Prata de Comportamento Exemplar, da Medalha de Ouro de Comportamento Exemplar e da Medalha de Bronze de Filantropia e Caridade.

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua do Professor de Coimbra e político, Carlos Alberto da Mota Pinto

Freguesias de Campo de Ourique e de Santo António
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Carlos Alberto da Mota Pinto foi um político e vice-reitor da Universidade de Coimbra que desde o ano do seu falecimento, através do Edital municipal de  29/08/1985, passou a dar nome a uma artéria hoje pertença das freguesias de Campo de Ourique e Santo António, que era a Rua A do plano de Reordenamento das Amoreiras, compreendida entre a Rua José Gomes Ferreira e a Avenida Engº Duarte Pacheco, com a legenda «Professor Universitário e Político/1936 – 1985».

Carlos Alberto da Mota Pinto (Pombal/25.07.1936 – 07.05.1985/Coimbra), licenciou-se  em Direito pela Universidade de Coimbra, tendo nessa instituição sido Professor catedrático desde 1975, bem como docente de Teoria Geral do Direito Civil, Direito das Obrigações, Direitos Reais  e Direito Público da Economia, tendo ainda sido Vice Reitor e Presidente do Conselho Diretivo da Faculdade de Direito, para além de ter sido também professor da Universidade Católica. É de destacar ainda o seu manual de Teoria Geral do Direito Civil.

Enquanto político, Mota Pinto junto com Francisco Sá Carneiro, Pinto Balsemão e Magalhães Mota fundou após o 25 de Abril o PPD (PSD) e foi Deputado logo na Assembleia Constituinte e depois, na Assembleia da República, tendo sido presidente do Grupo Parlamentar do PSD e mandatário nacional do candidato da AD, general Soares Carneiro, à presidência da República, em 1980. Liderou o Partido Social Democrata em 1983 a 1984, na chamada “Troika“, com Nascimento Rodrigues e Eurico de Melo, bem como a Comissão Política Nacional do partido, entre 1984 e 1985, passando depois a Presidente do partido. Foi ainda Ministro do Comércio e Turismo no I Governo constitucional de Mário Soares (25 de março de 1977 a 30 de janeiro de 1978 ), Primeiro-Ministro no  IV Governo constitucional nomeado por iniciativa presidencial de Ramalho Eanes ( 22 de novembro de 1978 a 1 de agosto de 1979) e ainda Vice-Primeiro-Ministro e Ministro da Defesa no IX Governo constitucional de Pinto Balsemão (9 de junho de 1983 a 15 de fevereiro de 1985).

Carlos da Mota Pinto foi agraciado com um Doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Coimbra (1982), a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo (1981), a Grã- Cruz da Ordem da Instrução Pública (1985, póstuma), a Grã-Cruz de Isabel a Católica (Espanha), a Grã-Cruz de Ouro da Ordem do Mérito da Áustria, a Grã-Cruz da Ordem de Danburg do Reino da Dinamarca, bem como Grande-Oficial do Mérito Civil da Itália (1985).

Freguesias de Campo de Ourique e de Santo António
(Planta: Sérgio Dias| NT

 

Bolivar, o «pai» da Bolívia numa rua em papel

O político e militar venezuelano Simón Bolívar, «pai» da Bolívia e de outras nações sul-americanas tornadas independentes da colonização espanhola, foi consignado em papel como topónimo de uma rua do Bairro América, na Freguesia de São Vicente, que nunca chegou a ser fisicamente aberta.

A Rua Bolivar nasceu de uma deliberação camarária de 25 de novembro de 1918, com mais 6 topónimos, todos referentes a figuras ligadas ao continente americano, no novo bairro que estava a ser construído na Quinta das Marcelinas e que a edilidade denominou a pedido dos proprietários como Bairro América, quando tinham passado 14 dias após a assinatura do armistício de Compiègne que pôs fim à  I Guerra Mundial e, no ano seguinte ao da entrada dos Estados Unidos da América no conflito.

Aliás, a ata dessa sessão camarária ainda mais elucida que «Os Srs. Manuel José Martins Contreiras, Dr. João José da Silva e Fernão Boto Machado, proprietários da Quinta das Marcelinas, na Rua Vale de Santo António, 30, requereram a esta Câmara que lhes fosse dado ao Bairro que ali estão construindo, a denominação de Bairro da América, a exemplo do que já foi feito para os bairros da Bélgica e da Inglaterra e que os arruamentos tivessem as seguintes denominações: nº 1:Rua Franklin, nº 2: Washington, nº 3: Rui Barbosa, nº 4: Bolívar, nº 5: Dos Cortes Reais, nº 6: de Fernando de Magalhães, nº 7:de Álvaro Fagundes.»

O correspondente Edital municipal só foi publicado em 17 de 0utubro de 1924 e os arruamentos Rua Bolivar e Rua Álvaro Fagundes nunca tiveram execução prática na urbanização do Bairro América , embora em 1971, o nome de Álvaro Fagundes tenha regressado para a toponímia lisboeta para dar nome à Rua C à Rua General Justiniano Padrel, também na Freguesia de São Vicente.

Simón José Antonio de la Santísima Trinidad Bolívar y Palacios Ponte-Andrade y Blanco (Venezuela – Caracas/24.07.1783 – 17.12.1830/Colômbia),  conhecido como Simón Bolívar, destacou-se como militar desde janeiro de 1797 e político sul-americano que quis libertar a América da colonização espanhola. Com José de San Martín (1778 -1850) desempenhou um papel fulcral nas guerras de independência da América espanhola, tendo nesse processo contribuído para lançar as bases ideológicas democráticas na maioria da América hispânica e conseguido o epíteto de O Libertador.

Nos seus 46 anos de vida, Bolívar foi Presidente da Venezuela, de 6 de agosto de 1813 a a 7 de julho de 1814 bem como de 15 de fevereiro de 1819 a 17 de dezembro de 1819, sendo este país desde 1999 denominado República Bolivariana da Venezuela; do Peru, de 17 de fevereiro de 1824 a 28 de janeiro de 1827; da  Bolívia, de 12 de agosto de 1825 a 29 de dezembro de 1825; para além de ter participou na fundação da primeira união de nações independentes na América Latina, a Grã-Colômbia, que integrava a Colômbia, o Equador , a Venezuela e o Panamá, da qual foi Presidente de 17 de dezembro de 1819 a 4 de maio de 1830.

Edital municipal de 17 de outubro de 1924

A Rua do Prémio Nobel da Paz Isaac Rabin

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias | NT do DPC )

Desde a publicação do Edital municipal de 24 de setembro de 1996 que Isaac Rabin dá nome a uma Rua da Freguesia do Lumiar, no ano seguinte a ter sido assassinado, dois anos após ter sido foi Prémio Nobel da Paz e três anos após ter celebrado um Acordo de Paz com a Palestina.

A atribuição deste topónimo resultou de uma moção de pesar, aprovada por unanimidade pela Câmara lisboeta em 15 de novembro de 1995, tendo a Comissão Municipal de Toponímia  designado para o efeito a Rua C à Alameda Mahatma Gandhi, na Urbanização do Paço do Lumiar e inaugurado oficialmente o arruamento em 14 de março de 1997.

Yitzhak Rabin  (Jerusalém/01.03.1922 – 04.11.1995/Telavive), filho de mãe russa e pai norte-americano, foi o primeiro chefe de governo israelita a ter nascido já no território que se tornaria Israel em 1948. Foi assassinado no decorrer de uma manifestação de paz em Telavive, na Praça dos Reis (hoje Praça Yitzhak Rabin), com 3 tiros nas costas, pelo judeu radical de extrema-direita Yigal Amir que se opunha aos Acordos de Paz celebrados com a Palestina.

Na cronologia dos acontecimentos para o estabelecimento da Paz entre Israel e a Pelestina, foi assinada em Oslo a 20 de agosto de 1993 uma Declaração de Princípios (Oslo I) que a 13 de setembro, na Casa Branca, Rabin e Arafat selaram publicamente com um aperto de mão.  A 4 de maio do ano seguinte, no Cairo, Rabin assina o Acordo de Paz. A 24 de julho, junta-se o rei Hussein da Jordânia a assinar a paz entre Israel e a Jordânia, que termina 46 anos de estado de guerra e foi formalizada  em 26 de outubro, mês em que também foi anunciado o Prémio Nobel da Paz para Arafat, Rabin e Peres que foi entregue em dezembro seguinte.

Mas no essencial, o percurso de vida de Isaac Rabin acompanhou o da formação do Estado Israel. Foi soldado do Palmah e combateu na Guerra da Independência (1948-1949); chefiou o Comando do Norte (1956) e o Estado-Maior das Forças Armadas Israelitas (1964- 1967); participou na Guerra dos 6 Dias (iniciada no dia 5 de junho de 1967), finda a qual Israel tinha triplicado o seu território. Depois, assumiu funções políticas como embaixador nos Estados Unidos da América (1968-1973); de líder do Partido Trabalhista (Ha-Avoda) e deputado trabalhista no parlamento (1973); Ministro do Trabalho de Golda Meir (março de 1974) e Ministro da Defesa (1985- 1990) na coligação Likud-Trabalhistas; Primeiro-Ministro em 1974-1977 e de novo, também de 1992 a 1995, período no qual em 1993, em detrimento de uma Terra de Israel Maior preferiu celebrar um Acordo de Paz com Arafat, representante palestiano da OLP, e do qual resultou no ano seguinte de 1994 ser agraciado com Prémio Nobel da Paz, juntamente com Yasser Arafat e Shimon Peres ( era o Ministro dos Negócios Estrangeiros de Rabin) para em 28 de setembro de 1995, Rabin assinar com Arafat um segundo acordo mais significativo (Oslo II), trazendo assim a Paz.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

 

O Príncipe dos Poetas Brasileiros numa Praça de Arroios

A Praça Olegário Mariano em 1964
(Foto: Artur João Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Praça Olegário Mariano foi um topónimo sugerido à edilidade lisboeta pelo Diário de Notícias, na sua edição de 15 de dezembro de 1958, para homenagear o poeta brasileiro que vinte anos antes fora eleito o Príncipe dos Poetas Brasileiros, igualmente conhecido como Poeta das Cigarras e como João da Avenida, enquanto cronista.

O Edital municipal de 4 de maio de 1959 colocou o topónimo na artéria até aí era identificada como Praceta da Rua Pascoal de Melo, cinco anos após o homenageado deixar de ser o embaixador do Brasil em Portugal.

Óleo sobre tela de 1928, por Candido Portinari, na Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras

Olegário Mariano Carneiro da Cunha (Recife/24.03.1889- 28.11.1958/Rio de Janeiro) foi um poeta, político e diplomata brasileiro que em 1938 foi eleito, num  concurso promovido pela revista Fon-Fon,  como Príncipe dos Poetas Brasileiros. Inicialmente parnasianista e simbolista, iniciou a sua vida literária aos 22 anos com Angelus, publicado em 1911. Depois, nos 23 livros seguintes adquiriu uma tendência intimista e ficou conhecido como o Poeta das Cigarras  por serem um de seus temas favoritos. Além da obra poética editada em livros a partir de 1911, e enfeixada nos dois volumes de Toda uma vida de poesia (1957), Olegário Mariano também publicou sob o pseudónimo de João da Avenida, durante anos, nas revistas Careta e Para Todos,  crónicas mundanas em versos humorísticos que mais tarde foram reunidas em dois livros sob os títulos Ba-ta-clan (1924) e Vida, caixa de brinquedos (1937). Em 23 de dezembro de 1926 sucedeu a Mário de Alencar na cadeira 21 da Academia Brasileira de Letras.

Nascido no mesmo ano da Proclamação da República (1889), filho de Olegária Carneiro da Cunha e de José Mariano Carneiro da Cunha, ambos heróis pernambucanos da Abolição da Escravatura e da República, também Olegário Mariano se sentiu motivado pela política tendo sido deputado à Assembleia Constituinte de 1934 e em 1937 à Câmara dos Deputados.

A sua ligação a Portugal começou em 1940, como ministro plenipotenciário nos Centenários de Portugal, seguida da sua nomeação como delegado da Academia Brasileira na Conferência Interacadémica de Lisboa para o Acordo Ortográfico de 1945 e finalmente, foi o embaixador do Brasil em Portugal nos anos de 1953 e 1954.

Na sua carreira desempenhou ainda as funções de inspetor do ensino secundário e censor de Teatro, de secretário de embaixada na Bolívia, de tabelião de  notas e oficial do 4.° Ofício de Registro de Imóveis do Rio de Janeiro.

E resta-nos deixar um poema do seu tema predileto:

Cigarra

Figurinha de outono!
Teu vulto é leve, é sensitivo,
Um misto de andorinha e bogari.
Num triste acento de abandono,
A tua voz lembra o motivo
De uma canção que um dia ouvi.

Quando te expões ao sol, o sol te impele
Para o rumor, para o bulício e tu, sorrindo,
Vibras como uma corda de guitarra…
É que o sol, quando queima a tua pele,
Dá-te o grande desejo boêmio e lindo
De ser flor, de ser pássaro ou cigarra

Cigarra cor de mel. Extraordinária!
Cigarra! Quem me dera
Que eu fosse um velho cedro adusto e bronco,
E tu, nessa alegria tumultuária,
Viesses pousar sobre o meu tronco
Ainda tonta do sol da primavera.

Terias glórias vegetais sendo vivente.
Mas um dia de lívidos palores,
Tu, cigarra, que vieste não sei donde,

Morrerias de fome lentamente
No teu leito de liquens e de flores
No aconchego sutil da minha fronde.

E eu, na dor de perder-te, no abandono,
Sem ter roubado dessa mocidade,
Do teu corpo de flor um perfume sequer,
Morreria de tédio e de saudade…
Figurinha de Outono!
Cigarra que o destino fez mulher!

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

 

A Rua do 1º Presidente da República Popular de Angola, Agostinho Neto

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias | NT do DPC)

Agostinho Neto, o  1º Presidente da República Popular de Angola, está homenageado na Freguesia do Lumiar, no que era o arruamento B do Plano de Urbanização da Quinta do Lambert, como Rua Agostinho Neto, com a legenda «Político/1922 – 1979», desde a publicação do Edital municipal de 22 de abril de 1983, o mesmo que também colocou Amílcar Cabral na toponímia de Lisboa.

Refira-se que este artigo sobre este topónimo surge em representação dos vários membros de movimentos de libertação de países que foram colónias portuguesas que estão na toponímia de Lisboa, como acontece na Rua Amílcar Cabral e na Praça Eduardo Mondlane.

Associação de Amizade Portugal – República Popular de Angola solicitou a consagração de Agostinho Neto num arruamento de Lisboa e a Comissão Consultiva Municipal de Toponímia entendeu, em 18/02/1982, que de entre os arruamentos por denominar nenhum existia que pudesse servir para o efeito. No ano seguinte, na  reunião de 19/04/1983, a  Comissão de Toponímia face à Moção dos vereadores da APU (Aliança Povo Unido)  aprovada em reunião camarária de 31/01/1983, propondo a atribuição do nome de Agostinho Neto a uma rua ou avenida de Lisboa,  sugeriu o arruamento que foi fixado pelo Edital de 22/04/1983.

República, 2 de maio de 1974

António Agostinho Neto (Angola – Kaxikane/17.09.1922 – 10.09.1979/Moscovo – Rússia),  filho do pastor metodista Agostinho Neto e da professora Maria da Silva Neto,  terminado o Liceu tornou-se funcionário dos serviços de saúde de Luanda até vir para Portugal onde estudou em Coimbra e se licenciou em Medicina pela Universidade de Lisboa, em 1958, tendo em ambas as cidades participado nas atividades culturais e políticas da Casa dos Estudantes do Império .

Cedo se embrenhou na política e foi por isso preso em 1952 e em 1955. Em 1951 era representante da Juventude das colónias portuguesas junto do MUD – Juvenil (Movimento de Unidade Democrática – Juvenil). Em Lisboa, com Amílcar Cabral, Mário de Andrade, Marcelino dos Santos e Francisco José Tenreiro formou o Centro de Estudos Africanos (encerrado pelo Estado Novo em 1954) e com trabalhadores marítimos angolanos criou o Club Marítimo Africano. Em 1958, tomou parte na fundação do Movimento Anticolonialista (MAC), que congregava elementos das cinco colónias portuguesas – Angola, Guiné, Cabo Verde, Moçambique, S. Tomé e Príncipe – para promoverem uma ação revolucionária conjunta.  Quando foi instituído MPLA – Movimento Popular para Libertação de Angola, em 10 de dezembro de 1956, Agostinho Neto estava preso em Lisboa mas veio a liderá-lo a partir de 1959, quando regressou a Luanda e abriu um consultório médico. Logo em junho do ano seguinte foi preso pela PIDE e encaminhado para a cadeia do Aljube em Lisboa, de onde foi deportado para o Tarrafal em Cabo Verde (então com o nome de Campo de Trabalho de Chão Bom) e, em julho, foi  eleito Presidente Honorário do MPLA. A 4 de fevereiro de 1961 é desencadeada a luta armada pelo MPLA e Agostinho Neto é transferido da  cidade da Praia para a prisão do Aljube, onde deu entrada a 17 de outubro de 1962, decorrendo em paralelo uma Campanha internacional em prol da sua libertação, com notícias nas revistas Présence Africaine ou Times. Também a Peguin Books editou Persecution 1961, de Peter Benenson, denunciado a situação de 9 prisioneiros políticos, onde se incluía Agostinho Neto. Saiu da prisão em março de 1963 mas obrigado a residência fixa  em Lisboa. Contudo, Agostinho Neto acabou por se evadir em junho, com a mulher e os dois filhos,  para Léopoldville (hoje, Kinshasa), onde o MPLA tinha a sua Sede Exterior e foi eleito presidente do MPLA durante a Conferência Nacional do Movimento. Ainda nesse ano o MPLA muda-se para Brazaville  (República do Congo), em consequência da sua expulsão do Zaire que passara a apoiar a FNLA. Cinco anos depois, em 1968, Agostinho Neto transfere-se com a sua família para Dar-es-Salaam (Tanzânia) onde permanecerá até 1975, regressando a Luanda no dia 4 de fevereiro de 1975, para em 11 de novembro de 1975 proclamar a independência Nacional, tendo sido nessa altura investido no cargo de 1º Presidente da República Popular de Angola, continuando Comandante-em-Chefe das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola, Presidente do MPLA e Reitor da Universidade, de 11 de novembro de 1975 a 10 de setembro de 1979.

Enquanto poeta, Agostinho Neto publicou Quatro Poemas de Agostinho Neto (1957, Póvoa do Varzim), Poemas (1961, Lisboa: Casa dos Estudantes do Império), Sagrada Esperança (1974,  Sá da Costa) e o póstumo A Renúncia Impossível (1982, Luanda: INALD ), tendo sido agraciado com o Prémio Lótus da Conferência dos Escritores Afro-Asiáticos (1970) e o Prémio Nacional da Literatura da República Popular de Angola (1981). Nesta qualidade foi membro fundador da União dos Escritores Angolanos, criada em 10 de dezembro de 1975 e Presidente da sua Assembleia Geral até à data do seu falecimento.

Agostinho Neto foi ainda galardoado com a Medalha da Paz Frédéric Joliot-Curie do Conselho Mundial da Paz (1967) e com o Prémio Lenine para o fortalecimento da Paz entre os Povos (1977). Em Angola, a data do seu nascimento está consagrada como o Dia do Herói Nacional, a Universidade tem o seu nome desde 24 de janeiro de 1985 e existe ainda em Luanda uma Fundação com o seu nome.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )