RAF e Helena Vaz da Silva no MURO’19

A Rua Helena Vaz da Silva

No talude da Rua Helena Vaz da Silva vai estar presente RAF  com uma intervenção artística com 450 metros de extensão, no âmbito da realização do MURO’19 – Festival de Arte Urbana de Lisboa.

Rui Ferreira é o nome civil de RAF, criador das Produções Artísticas da RAF ART Lda., também tatuador e fundador da MU Workspace Creative Cowork, na Alta de Lisboa. Estudou na Escola Secundária Artística António Arroio e já em 2013 colaborou com a Galeria de Arte Urbana | GAU, ao participar no «Rostos do Muro Azul», na Rua das Murtas.

Área da intervenção artística de RAF para o MURO’19

Helena Vaz da Silva, mulher de cultura e jornalista do Centro Nacional de Cultura e do Instituto Português de Cinema, é topónimo de Rua do Alto do Lumiar desde a publicação do Edital municipal de 20 de novembro de 2003, numa artéria que parte da confluência da Avenida Álvaro Cunhal, Rua Arnaldo Ferreira, Rua General Vasco Gonçalves e Avenida Eugénio de Andrade para chegar à Avenida David Mourão-Ferreira.

Helena Maria da Costa de Sousa Macedo Gentil (Lisboa/03.07.1939 – 12.08.2002/Lisboa), nascida alfacinha no nº7 C do Largo Dr. António de Sousa Macedo, estudou em colégios católicos e quando terminou o ensino secundário ficou a ensinar Moral e Francês no Colégio das Oblatas, tendo também aos 17 anos conseguido o seu primeiro emprego como correspondente de línguas na Agência de Publicidade Manuel Martins da Hora, onde outrora trabalhara Fernando Pessoa. Em 1959, casou com Alberto Vaz da Silva, de quem teve quatro filhos (Francisco, Salvador, Tomás e Helena) e esta decisão pessoal vai marcar a sua carreira profissional futura já que o  seu círculo de amigos próximos passou a incluir Alçada Baptista, Nuno Bragança, João Bénard da Costa, Pedro Tamen, bem como José Escada, Luís Sousa Costa e Mateus Cardoso Peres. Concretizaram juntos em 1963 a revista católica de oposição ao regime salazarista, O Tempo e Modo, dirigida por Alçada Baptista, editada por Pedro Tamen, com chefia de redação de João Bénard da Costa e tendo como principais redatores Nuno Bragança e Alberto Vaz da Silva.

Em 1965, Helena Vaz da Silva assumiu a responsabilidade da edição portuguesa da revista Concilium, para difundir o espírito de Vaticano II, a partir da qual também se organizaram debates e seminários. E três anos depois, em 1968, foi para Paris fazer a sua formação de jornalista. Regressou a Portugal em 1972, para retomar o trabalho na O Tempo e o Modo, onde organizou dois números especiais, um sobre Deus e outro sobre o casamento, tendo este último sido apreendido pela Censura após a publicação. Ainda em 1972 dirigiu a empresa turística algarvia da Quinta da Balaia. Em 1973 ingressa no semanário Expresso, onde até 1976 assumiu a coordenação da «Revista», para além do trabalho de reportagens, crónicas e entrevistas. Depois foi trabalhar para a Direção de Programas Sociais e Políticos da RTP, a que regressou em 1993, para o Conselho de Opinião da RTP. Esteve na Agência ANOP (1977), onde trabalhou como grande repórter e chefe da secção de cultura e educação, para além de se ter associado à revista Raiz e Utopia, fundada em 1977 por António José Saraiva, passando em 1978 a ser a proprietária e diretora da mesma.

De 1979 até à sua morte presidiu ao Centro Nacional de Cultura, sendo muito recordada pelos lisboetas pela criação dos Passeios de Domingo, iniciativa de itinerários culturais pioneira em Portugal. Em 1980 foi nomeada Vice-Presidente do organismo de apoio à criação cinematográfica, o Instituto Português de Cinema.

Do vasto currículo de Helena Vaz da Silva refira-se que foi tradutora, nomeadamente de Yourcenar e deixou obra publicada como Júlio Pomar com Helena Vaz da Silva (1979), Portugal – o último descobrimento (1987); fez crónicas para a Antena 1, TSF, Comercial e Rádio Renascença; integrou a Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses (1987) e a Comissão Nacional da UNESCO (de 1989 a 1994); foi deputada no Parlamento Europeu, como independente eleita nas listas do PSD (1994-1999); presidiu à Comissão Cidadão e Justiça (1990); foi membro do Conselho de Orientação para os Itinerários Culturais do Conselho da Europa, do Conselho Estratégico de Lisboa (1992), da Comissão para o Futuro da Televisão em Portugal (1996), do Conselho Geral do Movimento Europeu e ainda, presidiu ao Grupo de Trabalho sobre Serviço Público de Televisão, a partir de 5 de junho de 2002.

A intervenção de RAF na Rua Helena Vaz da Silva
(Foto: Bruno Cunha| DPC| 2019)

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Muzai na Escola Nuno Cordeiro da Avenida David Mourão-Ferreira, no MURO’19

Muzai na Escola Nuno Cordeiro: A Balada de Seu Ciro e Dona Elvira
(Foto: © José Vicente| CML| DPC| 2019

No âmbito do MURO’19 foi Muzai o escolhido para deixar a sua intervenção artística – A Balada de Seu Ciro e Dona Elvira – na empena da Escola Básica Nuno Cordeiro, sediada na Avenida David Mourão-Ferreira, nesta 3ª edição Festival de Arte Urbana de Lisboa em que a arte urbana se une à música e à literatura presente no espaço, quer através da toponímia, quer de concertos e peças artísticas que unem a pintura a sonoridades.

O brasileiro Muzai usa o fio condutor da simplicidade do seu traço e de cores puras, fortes e contrastadas, para produzir arte urbana. Procura uma poética visual de fantasia e sonho, como que resgatando a criança interior do interior do homem. Nascido em Minas Gerais, em 1968, como Fabrício Alves, desde criança que era apaixonado por banda desenhada e licenciou-se pela Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Uberlândia. Desde 2009 que se tornou o artista Muzai, após ter visitado São Paulo e ter ficado impressionado com o impacto da arte urbana na cidade em contraste com as antigas ruas cinzentas. Começou o seu percurso pela arte urbana mural na sua cidade natal.

David Mourão-Ferreira, escritor romancista, novelista, contista, dramaturgo e poeta que também escreveu para fado, professor universitário de literatura, ensaísta, jornalista e cronista, tradutor e crítico literário é o homenageado nesta longa Avenida onde se encontra a Escola Básica Nuno Cordeiro em cuja empena Muzai pintou a sua obra de caras, guitarra e ternura.

A Avenida David Mourão-Ferreira foi o topónimo dado à Rua 3 da Malha 14,6,1,2 e 3 do Alto do Lumiar através da publicação do Edital municipal de 22 de julho de 2005 e que encontramos desde a rotunda onde confluem a Avenida Carlos Paredes e a Rua General Vasco Gonçalves até ao Eixo Central (no troço entre Rotunda 2 e a Av. Nuno Krus Abecassis). Com a Rua José Cardoso Pires e a Avenida Carlos Paredes define quase um círculo em cujo espaço interior decorre o MURO’19.

O escritor David de Jesus Mourão-Ferreira (Lisboa/24.02.1927-16.06.1996/Lisboa), filho de David Ferreira – secretário do diretor da Biblioteca Nacional – e de Teresa de Jesus Mourão-Ferreira, homem de múltiplas facetas notabilizou-se como poeta do amor e da sensualidade, como uma personalidade que tanto na vida como na escrita celebrou o amor, o erotismo e o corpo em palavras. Nasceu e viveu até aos 15 anos no Bairro da Lapa, frequentou o Colégio Moderno e já nas brincadeiras de infância fazia peças de teatro e jornais que o seu irmão mais novo – Jaime Alberto – ilustrava. Licenciou-se em 1951 em Filologia Românica, na Faculdade de Letras de Lisboa, onde veio a ser professor e catedrático de Teoria da Literatura e Literatura Portuguesa.

Com Alain Oulman, David Mourão-Ferreira levou os seus poemas também para o fado e para a voz de Amália, em que se destacam Barco Negro (1954), Abandono, Solidão,  Espelho Quebrado, Primavera, Anda o Sol na Minha Rua, Nome de Rua ou Maria Lisboa (1961). Depois, também produziu letras para Simone de Oliveira ou Luís Cília, apesar de ter sido alvo de uma campanha de difamação, assim como de um processo judicial por  ter subscrito a apresentação da Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, organizada por Natália Correia (em 1965), bem como por no ano seguinte ter prefaciado a tradução de A Filosofia da Alcova do Marquês de Sade.

Começou a sua vida literária na poesia com a A Viagem (1950) a que somou, entre outros, Tempestade de Verão (1954) que foi Prémio Delfim Guimarães, Os Quatro Cantos do Tempo (1958), A Arte de Amar (1962), Cancioneiro de Natal (1971) que foi Prémio Nacional de Poesia, Matura Idade (1973), Sonetos do Cativo (1974), Os Ramos e os Remos (1985), No Veio de Cristal (1988) que foi Grande Prémio Inasset de Poesia, Nos Passos de Pessoa (1988) que ganhou o Prémio Jacinto Prado Coelho e a antologia erótica Música de Cama (1994).

São também de destacar as novelas Gaivotas em Terra (1959) que conquistaram o Prémio Ricardo Malheiros e são topónimo de uma artéria do Parque das Nações, a peça O Irmão (1965) que foi Prémio de Teatro da Casa da Imprensa, os contos Os Amantes (1968), As Quatro Estações (1980) galardoada com prémio da Associação Internacional dos Críticos Literários, o romance Um Amor Feliz (1986) – que recebeu o Prémio de Narrativa do Pen Clube Português, o Prémio D. Dinis da Fundação da Casa de Mateus, o Prémio de Ficção Município de Lisboa, o Grande Prémio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores e a Medalha Oskar Nobiling da Academia Brasileira de Letras -, Duas Histórias de Lisboa (1987) e o CD Um Monumento de Palavras.

Colaborou também em jornais e revistas, como o Diário Popular ou a revista Seara Nova (onde em 1945 publicara os seus primeiros poemas), para além de ter sido um dos fundadores da revista literária Távola Redonda (1950-1954) que dirigiu com António Manuel Couto Viana e Luís de Macedo. Em 1967, tinha a rubrica «Poesia para Todos» no Diário de Lisboa e após o 25 de Abril dirigiu A Capital e foi diretor-adjunto de O Dia. Na década de sessenta do séc. XX também foi o autor do programa Música e Poesia na Emissora Nacional e de Hospital das Letras e Imagens da Poesia Europeia na RTP, tendo nos anos setenta criado também O Dom de Contar para a televisão.

Desempenhou ainda as funções de Secretário de Estado da Cultura (nos anos de 1976, 1977 e 1979), sendo seu o despacho que criou a Companhia Nacional de Bailado. A partir de 1981 dirigiu o Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Fundação Calouste Gulbenkian e depois, presidiu à Associação Portuguesa de Escritores (1984 – 1986) e ao Pen Club Português (1991).

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O emissor do Porto Alto, a Casa da Moeda e a Avenida de António José de Almeida

A partir das 3H15, uma coluna de nove viaturas militares da EPE de Tancos segue para Lisboa, para ocupar a Casa da Moeda, onde chega cerca das 18 horas, depois de horas a defender o emissor do Rádio Clube Português no Porto Alto.

Cerca das 3:15 do dia 25 de abril de 1974 uma coluna motorizada da EPE- Escola Prática de Engenharia saiu de Tancos com destino a Lisboa e a intenção de ocupar a Casa da Moeda. Contudo, cerca das 8:50, estacionou no centro emissor de Onda Média de 120 kw do Rádio Clube Português, no Porto Alto, para reforçar a sua defesa, pelo que só por volta das 18 horas ocupou a Casa da Moeda, na Avenida de António José de Almeida nº 42.

As Companhias de Caçadores 4241 e 4246 do Campo de Instrução Militar de Santa Margarida encontraram-se na Ponte da Golegã com a coluna da Escola Prática de Engenharia de Tancos e entregaram-lhe munições. A 4246 seguiu para a Ponte de Vila Franca de Xira e as outras duas, comandadas pelo capitão miliciano Luís Pessoa, acorreram a defender as instalações do Porto Alto, onde estavam as antenas do Rádio Clube Português, garantindo assim a transmissão. Às 8 horas da manhã, o governo do Estado Novo ainda  ordenou o corte de energia elétrica e dos telefones ao Rádio Clube Português, tanto nos estúdios da Rua Sampaio Pina como nas antenas do Porto Alto, situação que só foi normalizada às 19:00 horas e assim entraram em funcionamento geradores automáticos que asseguraram a emissão e a EPE permaneceu mais tempo no local e apenas às 18 horas ocupou a Casa da Moeda -Imprensa Nacional.

Desde 1972 que a Casa da Moeda havia tido uma fusão com a Imprensa Nacional sendo em 25 de abril de 1974 a INCM – Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Cerca de 30 anos antes,  sob o traçado de 1933 do Arqº Jorge Segurado, abriu em 1941 a nova sede da Casa da Moeda na Avenida de António José de Almeida, oriunda da Rua de São Paulo, onde estava desde 1720 estando essa memória guardada no local através do Beco e da Rua da Moeda.

Já a Avenida de António José de Almeida nasceu do Edital municipal de 18 de julho de 1933. Quatro anos mais tarde,  em 31 de dezembro de 1937, foi inaugurada nesta artéria uma estátua a homenagear este Presidente da República, da autoria do escultor Leopoldo de Almeida e do Arqº Pardal Monteiro. E quatro anos depois abriu a Casa da Moeda.

Cerca de quinze dias após o falecimento de António José de Almeida determinou a edilidade, através do Edital de 12/11/1929 que a  a Avenida 12 do Novo Bairro no seguimento da Avenida Almirante Reis (hoje, Avenida Guerra Junqueiro) se denominasse Avenida Dr. António José de Almeida. Mas em 1933, a autarquia mudou o topónimo para o prolongamento da Avenida Miguel Bombarda, entre a Avenida dos Defensores de Chaves e a Avenida de Manuel da Maia, onde ainda hoje a encontramos.

António José de Almeida (Penacova – Vale da Vinha/27.07.1866 – 31.10.1929/Lisboa), formado em 1895 em Medicina pela Universidade de Coimbra, aderiu logo nessa época ao Partido Republicano e ao longo da sua vida exerceu medicina em Angola, São Tomé e Príncipe e Lisboa. Fez a sua vida como político: deputado pelo círculo oriental de Lisboa (1906); Ministro do Interior do Governo Provisório (1910-1911), fundou o Partido Republicano Evolucionista (24 de fevereiro de 1912); defendeu a participação de Portugal na Guerra logo em 1914; foi Chefe do Governo da União Sagrada e Ministro das Colónias (1916-1917); foi o único Presidente da I República a cumprir integralmente o seu mandato, de 1919 a 1923. Refira-se ainda que António José de Almeida proferiu um discurso no funeral de Rafael Bordalo Pinheiro (1905), e postumamente, em 1934, foram coligidos os seus principais artigos e discursos e publicados em 3 volumes sob o título Quarenta anos de vida literária e política.

A Casa da Moeda na Avenida de António José de Almeida, nos anos 50 do séc. XX
(Foto: António Passaporte, Arquivo Municipal de Lisboa)

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A PIDE/DGS e a Rua António Maria Cardoso

Na manhã de 25 de abril de 1974
(Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

Duas tentativas de ocupação da sede da PIDE/DGS, na Rua António Maria Cardoso, foram feitas pelas tropas do Movimento das Forças Armadas no dia 25 de abril mas só às 09H46 do dia seguinte se verificou a rendição, sendo o edifício então ocupado por forças do Exército e da Marinha. Ainda no dia 25 a multidão aglomerou-se na artéria e tanto depois das 13H30 como cerca das 20 horas os agentes da polícia política abriram fogo e causaram 4 mortos e dezenas de feridos. 

O decreto-lei n.º 171/74, datado de 25 de abril de 1974, assinado pelo Presidente da Junta de Salvação Nacional, António de Spínola, extinguiu a PIDE/DGS. Contudo, a sede da polícia política – de nome de código Moscovo – na Rua António Maria Cardoso nº 22 –  um edifício de cinco andares arrendado à Casa de Bragança -, só na manhã do dia 26 de abril foi ocupada por forças do Exército e da Marinha após a rendição dessa força cerca das 9:45 horas. Também foi do dia 26 de abril, já de noite e à luz de archotes, que começaram a ser libertados os presos políticos e a sair da prisão de Caxias (Pequim).

A tomada da sede da PIDE/DGS teve várias etapas: a mal sucedida operação inicial dos fuzileiros, na manhã de dia 25; o cerco mantido, sobretudo por forças do Regimento de Cavalaria 3 de Estremoz e depois reforçado com fuzileiros; a aglomeração de populares na Rua António Maria Cardoso a cantar o Hino Nacional e dar vivas aos militares a que atiradores da PIDE/DGS reagiram depois das 13:30 e depois das 20 horas com rajadas de metralhadora e granadas de mão de que resultaram 45 feridos e quatro mortos ( Fernando Gesteiro, empregado de escritório de 18 anos; João Arruda, estudante de 20 anos; Fernando dos Reis, um soldado de 24 anos que estava de licença na cidade e José Barnetto, natural de Vendas Novas com 37 anos de idade); a rendição da PIDE/DGS na manhã de dia 26, pouco depois das 9 e meia da manhã, ao capitão-tenente Costa Correia, da Marinha e major Campos Andrada, de Cavalaria do Exército.

A Rua António Maria Cardoso, antes de ser assim designada em 1890 passou por diversas denominações, todas ligadas ao Paço dos Bragança. Antes do Terramoto de 1 de novembro de 1755 era esta a «rua do Postigo do Duque» por ter a porta do Duque de Bragança aberta na muralha fernandina, e depois, foi ganhando novas denominações como  «rua do picadeiro» por via da proximidade ao picadeiro do Paço dos Braganças , «rua do Tesouro» ou «rua Velha do Tesouro» ou «rua do Tesouro Velho», por mor do tesouro da Casa de Bragança arrecadado no mesmo palácio até que, quase no final do século XIX, quando era mais conhecida por Rua do Tesouro Velho e já depois da urbanização deste arruamento nos moldes que hoje ainda encontramos,  o Edital municipal de 6 de fevereiro de 1890 crismou-a como Rua António Maria Cardoso, ao mesmo tempo que também atribuía a Rua Paiva de Andrada e a Rua Vítor Cordon, homenageando assim a edilidade, ainda em vida, três conceituados exploradores da África Portuguesa de então,  cerca de um mês  depois da entrega em 11 de janeiro de 1890 do Ultimato britânico que exigia a Portugal a retirada das forças militares chefiadas por Serpa Pinto do território compreendido entre as colónias de Moçambique e Angola.

António Maria Cardoso (Lisboa/05.05.1849- 17.11.1900/Lisboa)  ingressara na Armada em 1862, atingindo o posto de capitão-de-fragata em 1895 e no decorrer dessa carreira militar também desempenhou o cargo de governador dos distritos de Inhambane e de Quelimane, em Moçambique. Em 1882 explorou as terras de Mussila com João de Azevedo Coutinho, e em 1888, com Vítor Cordon, participou na expedição do Niassa, durante a qual catorze régulos prestaram vassalagem à soberania portuguesa. António Maria Cardoso regressou a Lisboa em 1890, ano do Ultimato Inglês, e foi eleito deputado para além de ter sido agraciado com as comendas das Ordens de Torre e Espada, de Nª Sª da Conceição, de Cristo e de S. Bento de Aviz e ainda, com a medalha de ouro de serviços prestados no Ultramar.

Após as 20 horas de 25 de abril de 1974
(Foto: Vida Mundial, 3 de maio de 1974)

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O Rádio Clube Português e a Rua Sampaio Pina

A Rua Sampaio e Pina no dia 25 de abril de 1974
(Foto: Ana Haterly, Arquivo Municipal de Lisboa)

Ocupado pelas 3H20 pelos oficiais major José da Costa Neves, major Delfim Campos Moura, major João Sacramento Gomes, capitão Artur Mendonça de Carvalho, capitão José Correia Pombinho, capitão José Santos Coelho, capitão Nuno dos Santos Ferreira e capitão Nuno dos Santos Silva, com o apoio de uma Companhia do Batalhão de Caçadores nº5.

Esta ação pretendia fazer do Rádio Clube Português a emissora do MFA, para emitir os seus comunicados. Às 04H26, o jornalista Joaquim Furtado leu o primeiro comunicado.

No nº 24 da Rua Sampaio e Pina estava sediado o Rádio Clube Português em 25 de abril de 1974. E às 3 horas da madrugada uma companhia do Batalhão de Caçadores nº 5 saiu do quartel – onde hoje encontramos a Universidade Nova de Lisboa – para garantir a segurança do local que se tornaria a emissora do MFA.

O topónimo Rua Sampaio e Pina foi atribuído pela Câmara Municipal presidida pelo Conde d’Ávila (António José de Ávila), através do Edital de 18 de dezembro de 1903, à via pública ainda então a ser construída entre a Rua Castilho e a Rua José da Silva Carvalho (que foi na maior parte substituída pela reformulação da Rua Castilho e artérias adjacentes em 1915 dando origem em 1920 a uma nova Rua Silva Carvalho noutro local de Lisboa). A edilidade homenageava assim Manuel Inácio de Sampaio de Pina Freire, que em 24 de julho de 1833 reconheceu D. Maria II como monarca legítima da Coroa portuguesa.

Manuel Inácio de Sampaio e Pina Freire (07.08.1778 – 1856), 1º Visconde de Lançada, prestou relevantes serviços aos liberais, com a maior dedicação e coragem no dia 24 de julho de 1833, tornando possível ao Marechal Duque de Terceira após vencer a batalha da Cova da Piedade – com tropas onde se incluía os Caçadores 2 e 3 – atravessar o Tejo com as suas tropas e encontrarem já içada no Castelo de S. Jorge a bandeira azul e branca dos Liberais. Esteve  presente nesse dia 24 de julho de 1833 no Auto de aclamação e reconhecimento do governo legítimo de D. Maria II e da Carta Constitucional, nos Paços do Concelho de Lisboa, conforme noticia a Gazeta de Lisboa de 26 de julho de 1833.

Filho de Inácio José de Sampaio e Pina Freire de Andrade e Angélica Inácia Pereira de Aguirre, foi um administrador colonial português, enquanto governador-geral da capitania do Ceará, de 19 de março de 1812 a 1820 – razão para no centro de Fortaleza (Brasil) existir uma Rua Governador Sampaio -, assim como governador-geral da capitania de Goiás, de 1820 a 1822, onde em 14 de agosto de 1821 sofreu uma fracassada tentativa de deposição.

Visconde de Lançada por Decreto de 10 de janeiro de 1849 de D. Maria II, foi também membro do Conselho de Sua Majestade, Tenente-General, Fidalgo Cavaleiro da Casa Real e Membro do Tribunal do Tesouro Público, agraciado como Comendador da Ordem de Cristo e Cavaleiro da Ordem de São Bento de Avis.

Em Lisboa, segundo Júlio de Castilho, possuía o Palácio onde em 1880 se instalou o jornal O Século. Também conforme os arquivos municipais, detinha um prédio nos n.ºs 53 e 58 «no sítio das Janelas Verdes» em 1839, bem como na Rua do Olival nº 5, onde em 1836 foi intimidado pela Câmara Municipal de Lisboa a entulhar o fosso da sua casa no prazo de 24 horas que também lhe lavrou um auto sobre o estado da porta do n.º 5 A.

Na sua vida pessoal, Sampaio e Pina casou-se, em 1 de fevereiro de 1826, com Helena Teixeira Homem de Brederode, de quem teve dois filhos: Inácio Júlio de Sampaio Pina Freire e António de Sampaio Pina de Brederode, que casou com Maria Luísa Holstein, 3.ª duquesa de Palmela.

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A Rua Sampaio e Pina no dia 25 de abril de 1974
(Foto: Ana Haterly, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Quartel do Batalhão de Caçadores nº 5 e a Rua Marquês de Fronteira

Pelas 3h00,  saiu do quartel do Batalhão de Caçadores nº 5 uma força constituída por duas Companhias de Caçadores: uma para ocupar o Quartel-General do Governo Militar de Lisboa, e outra para garantir a segurança do Rádio Clube Português.

Estas ações envolveram cerca de 200 militares, comandados pelo major José Cardoso Fontão, capitão João Bicho Beatriz e tenente Mascarenhas. O capitão Carlos Joaquim Gaspar assumiu o comando da Unidade.

Na madrugada de 25 de abril de 1974, para ocupar o Quartel-General do Governo Militar de Lisboa e garantir a segurança do Rádio Clube Português, duas companhias deixaram o Quartel do Batalhão de Caçadores nº 5, a pé, pelo portão da Rua Marquês de Fronteira, topónimo que guarda a memória de um militar que fez toda a campanha das lutas liberais até ao seu fim em 24 de julho de 1833.

Desde 1910 que o Batalhão de Caçadores nº 5 estava instalado no edifício e quinta do antigo Colégio jesuíta da Imaculada Conceição de Jesus, vulgarmente conhecido como Colégio dos Jesuítas de Campolide e ali fundado em 1858 no que antes fora a Quinta da Torre de Estêvão Pinto e onde hoje encontramos a Universidade Nova de Lisboa.

O 7º marquês de Fronteira, D. José Trazimundo, foi perpetuado na toponímia lisboeta pelo Edital municipal de 3 de outubro de 1903 na então «Via pública situada entre a Avenida Duque de Ávila e a Rua D. Carlos de Mascarenhas.» D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto (Lisboa/04 ou 11.01.1802 – 19.02.1881/Lisboa), 8º conde da Torre, 5º marquês de Alorna e 7º marquês de Fronteira foi um militar que fez toda a campanha das lutas liberais, tendo-se reformado no posto de marechal-de-campo. Logo em 1820 foi ajudante  de campo do  general Sepúlveda, em cujo estado-maior se conservou até à queda do governo constitucional. Não tendo aderido à Vilafrancada acabou preso na Torre de Belém, após o que obteve licença para sair do reino e então percorreu parte da Europa com a sua mulher, apenas regressando depois de ser outorgada a Carta Constitucional, em 1826. Foi  ajudante de campo do general Conde de Vila Flor na Ilha Terceira, desembarcou no Mindelo (8 de julho de 1832) e participou na batalha de Ponte Ferreira e das Antas. Acompanhou o Duque de Terceira na expedição ao Algarve e Alentejo, e esteve na batalha de Cacilhas (23 de julho de 1833) e no desembarque em Lisboa (24 de julho de 1833).

D. José Trazimundo Foi também par do reino (a partir de 1826), deputado por Lisboa (1837), deputado por Bragança (1838), governador civil de Lisboa (com pequenas interrupções, de 12 de maio de 1846 a 1 de maio de 1851), mordomo-mor da Casa Real (1861),  mordomo-mor da casa da rainha D. Maria Pia (1862), tendo ainda publicado as suas Memórias do Marquês da Fronteira e Alorna.

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A 1ª senha do 25 de Abril, os Emissores Associados de Lisboa e a Avenida Elias Garcia

Emissora escolhida pelo MFA para transmitir a primeira senha para o arranque da operação militar contra o regime. Assim, às 22H55 do dia 24 de abril, o jornalista João Paulo Diniz pôs no ar a canção “E Depois do Adeus”, interpretada por Paulo de Carvalho.

No 7º andar do nº 162 da  Avenida Elias Garcia estavam sediados os estúdios dos  Emissores Associados de Lisboa, os escolhidos pelo MFA para, através de João Paulo Diniz, transmitir a primeira senha para o arranque da operação militar contra o regime. E assim, às 22:55 do dia 24 de abril de 1974, ele anunciou aos microfones da estação «Faltam cinco minutos para as vinte e três horas. Convosco, Paulo de Carvalho com “E Depois do Adeus”», a senha que servia de sinal para as unidades preparem a saída dos quartéis.

A artéria que homenageia o republicano José Elias Garcia foi um topónimo atribuído pelo primeiro Edital de toponímia após a proclamação da República, de 5 de novembro de 1910, que incluiu mais 9 topónimos como a Avenida da República e a Avenida Cinco de Outubro, assim outras figuras republicanas, como o Almirante Cândido dos Reis e Miguel Bombarda.

José Elias Garcia (Almada-Cacilhas/31.12.1830 –  21.06.1891/Lisboa), militar e político republicano, desempenhou na edilidade alfacinha  as funções de vereador com o pelouro de instrução pública (entre 1873-1875 e 1878-1881), tendo criado as bibliotecas populares e as escolas centrais, bem como instituído o ensino da ginástica, do desenho de ornato e do canto coral, tendo também sido o 25º Presidente da Câmara Municipal de Lisboa ( de 2 de janeiro a 18 de agosto de 1878).

Coronel de engenharia exerceu também como professor de Mecânica Aplicada na Escola do Exército (a partir de 1857), tendo também fundado diversos jornais republicanos – O Trabalho (1854), O Futuro (1858-1862), A Política Liberal (1862)- e sido o redator principal do Jornal de Lisboa (1865) e do Democracia (1873), para além de ter presidido à Assembleia dos Jornalistas e Escritores Portugueses.

Elias Garcia, a partir do célebre grupo do Pátio do Salema (Clube dos Lunáticos), fundou em 1868 o Partido Reformista, de onde veio a resultar o Centro Republicano Democrático Português (1876) e o Partido Republicano e nessa qualidade foi deputado, eleito pela primeira vez em 1870 por Lisboa, sendo depois também eleito pelo Partido Republicano em 1882-1884, 1884-1887 e 1887-1889 e 1890.  Entre 1883 e 1891 presidiu ao Diretório do Partido Republicano.

Paralelamente, como Irmão Péricles na Maçonaria Portuguesa desde 1853, foi o 1.º e único Grão-Mestre  da Federação Maçónica (1863 a 1869),  Grão-Mestre interino do Grande Oriente Lusitano Unido (1884 a 1886), Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano Unido (1887 a 1889) e assim, o seu túmulo no Cemitério do Alto de São João, construído em 1893-1894 pelo Grande Oriente Lusitano em terreno cedido pela CML, ostenta um obelisco encimado por uma estrela de cinco raios.

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Rua Gustavo de Matos Sequeira

Gustavo de Matos Sequeira em 1947
(Foto: Ferreira da Cunha, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua Gustavo de Matos Sequeira, topónimo atribuído a um arruamento da freguesia de Santo António por Edital de 22 de Janeiro de 1963

Gustavo Adriano de Matos Sequeira (1880-1962), funcionário público, autor, jornalista e olisipógrafo. Iniciou a sua carreira de jornalista em 1905. Foi funcionário das Alfândegas até 1931 quando foi compulsivamente afastado da função pública por ter sido acusado pela PIDE de ter ajudado à introdução de armas no país, do que foi ilibado. Passa a colaborar mais activamente em diversas publicações periódicas, fazendo crítica teatral (especialmente de teatro de revista) e escrevendo sobre Lisboa. Foi também autor teatral de revistas, tradutor e adaptador de peças teatrais, poeta e escreveu a letra da conhecida Marcha dos Marinheiros. Desempenhou ainda funções de Comissário do Governo junto do Teatro Nacional (1917-1936) e foi eleito presidente do Sindicato dos Profissionais da Imprensa (1931). Pertenceu a várias instituições culturais, entre as quais a Associação dos Arqueólogos Portugueses, a Academia das Ciências, a Academia da História e o Grupo Amigos de Lisboa, do qual foi um dos fundadores.

A sua primeira obra sobre Lisboa, foi publicada por Júlio de Castilho (de quem seria amigo a partir de então) numa das suas obras. Era um longo texto sobre a paróquia e igreja de S. Mamede, entregue ao Mestre em 1903 que sobre ele afirmou: “trabalho (…) tão conscienciosamente feito, tão metódico, e tão exacto que o entendi reproduzi-lo textualmente.” Para além de artigos avulsos em publicações periódicas, Matos Sequeira publicou a partir de 1916 as suas obras mais conhecidas: Depois do Terramoto: subsídios para a história dos bairros ocidentais (1916-1933) e O Carmo e a Trindade: subsídios para a história de Lisboa (1933-1941). No entanto a sua actividade como olisipógrafo estendeu-se muito para além destas duas monografias, sendo autor de centenas de títulos sob a forma de artigos, conferências, opúsculos, livros, e peças teatrais, quer a solo, quer em colaboração com outros olisipógrafos. Saliente-se ainda a curiosa edição que fez, em 1925, de Relação de vários casos notáveis e curiosos sucedidos em tempo na cidade de Lisboa e em outras terras de Portugal (…) onde à moda de setecentos reúne pequenos artigos sobre notícias e casos ocorridos, que tinha vindo a encontrar no meio das suas investigações.

Organizou ou colaborou em diversas actividades ou eventos culturais, como a Exposição Olisiponense, no Museu do Carmo (1914), na reconstituição de um mercado seiscentista no Largo de S. Domingos (1926), na reconstituição da Lisboa Antiga, na cerca do Convento das Francesinhas (1935), na Exposição do Mundo Português (1940). Em 1945 dá início a um dos seus mais originais projectos: a criação de uma maquete da cidade pré-pombalina. A maquete foi por ele planeada, histórica e artisticamente dirigida, e executada com a colaboração do pintor Martins Barata e do artista modelador Ticiano Violante. Reúne mais de 10 000 edifícios em miniatura e reproduzia a cidade entre Santa Apolónia e S. Paulo. Foi publicamente apresentada na Exposição Iconográfica e Bibliográfica Comemorativa da Reconstrução da Cidade depois do Terramoto de 1755, tornando-se na sua peça central. Dois anos mais tarde a Câmara Municipal de Lisboa incumbiu-o ainda de fazer o prolongamento da maquete até à zona de Alcântara. Para este trabalho, Matos Sequeira recorreu ainda ao desenho de plantas topográficas da cidade, muitas das quais se encontram (juntamente com o seu espólio) à guarda do Gabinete de Estudos Olisiponenses. São plantas em papel vegetal, por vezes, muito toscamente desenhadas, a lápis de carvão, esferográfica, lápis de cor, mas com uma precisão de localização e de explicação de arruamentos e edifícios já desaparecidos, que resultaram das suas inúmeras pesquisas em arquivos e bibliotecas, confrontadas com o trabalho de campo, e que lhe permitiram traçar um fiel retrato da Lisboa pré-terramoto.

Apesar da precisão científica que a sua obra nos oferece, o seu estilo de escrita é cativante, abandonando o tom académico, utilizando um estilo jornalístico e quase intimista que o levou muitas vezes a descrever em pormenor acontecimentos, ou aspectos da vida social e diária da cidade, que permitem ao seu leitor visualizar uma Lisboa já desaparecida.

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Rua Luís Pastor de Macedo

Luís Pastor de Macedo em 1940, discursando nas comemorações do centenário do nascimento de Júlio de Castilho
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua Luís Pastor de Macedo, topónimo atribuído a um arruamento da freguesia do Lumiar por Edital de 1 de Fevereiro de 1972

Luís Pastor de Macedo (1901- 1971), comerciante, autarca, deputado e olisipógrafo. Começou a sua vida profissional no estabelecimento comercial da família, A Casa dos Panos, estabelecimento da Rua dos Fanqueiros que fechou portas já no início do século XXI. Publicou a sua primeira obra olisipográfica O Terramoto de 1755 na freguesia da Madalena em 1929 a que se seguiram algumas dezenas de títulos, alguns dos quais sobre as freguesias da Baixa e da sua envolvente. Colaborou com vários outros autores, nomeadamente com Augusto Vieira da Silva, Gustavo de Matos Sequeira, Norberto de Araújo, Rodrigues Cavalheiro. Colaborou ainda no Diário de Lisboa, n’O Século, na Revista Municipal, nos Anais das Bibliotecas, Arquivo e Museus Municipais, ambos da Câmara Municipal de Lisboa e no Boletim Cultural da Junta Distrital de Lisboa.

A par da sua actividade de comerciante e de olisipógrafo, Luís Pastor de Macedo integrou como vogal a Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Lisboa, entre 1933 e 1935, voltando à autarquia em 1947, como vice-presidente, cargo que manteve até 1959. Na sua actuação enquanto autarca, destaca-se em 1933 a aprovação da sua proposta de criação dos Serviços Culturais, apresentada em Sessão de 11 de Maio. Nos dois períodos em que esteve na Câmara dedicou particular atenção às questões culturais, à realização das festas da cidade e à organização de várias exposições de carácter olisiponense. Foi ainda de sua iniciativa o impulso dado às publicações da autarquia a qual viria a ser a editora de alguns dos seus títulos, bem como de outros olisipógrafos.

A sua dedicação ao conhecimento da Cidade levou-o a ser um dos fundadores do Grupo Amigos de Lisboa, constituído em 1936, e onde desempenhou o cargo de secretário-geral do Grupo, participou activamente nos trabalhos das várias secções que o Grupo então tinha, propôs e promoveu diversas iniciativas para a defesa do património da Cidade e para o conhecimento da sua história e foi um colaborador assíduo da revista Olisipo. Mas a obra pela qual é mais conhecido do grande público é a que se ocupa do estudo da Toponímia de Lisboa – Lisboa de lés-a-lés. Subsídios para o estudo das vias públicas da cidade, publicada pela primeira vez entre 1940 e 1943, e reeditada nos anos sessenta e oitenta do século XX. Organizado em cinco volumes e ordenado alfabeticamente, Lisboa de lés-a-lés procura dar a conhecer a origem de topónimos lisboetas, no seguimento da publicação da obra de Gomes de Brito Ruas de Lisboa.

“Foi da sua leitura, da verificação de que mais alguma coisa haveria a dizer de parte das artérias ali tratadas (…) que nasceu a ideia de a ampliar e aperfeiçoar tanto quanto possível”, nas palavras de Macedo.

O tipo de informação recolhida para os arruamentos varia em quantidade, mas também em qualidade: explicação para o nome, antigo traçado do arruamento, transcrições de outras obras relacionadas com o assunto, referências a moradores e ao comércio local, a ofícios e profissões arruados nesse arruamento, etc. Enfim, todo um conjunto variado de informações úteis a quem se interessa por conhecer a vida da/na cidade, complementando e aprofundando a obra de Brito, ao mesmo tempo que introduz novos topónimos e novas explicações.

Porém, mais ricos do que o livro Lisboa de lés-a-lés são os ficheiros contendo os verbetes que Pastor de Macedo reuniu ao longo da sua vida em número superior a 100 000, que Rodrigues Cavalheiro descreve como “ficheiro portentosamente especializado que, durante meio século, foi pacientemente recolhido, em leituras exaustivas e em investigações pertinazes”, e que se encontra disponível para consulta no Gabinete de Estudos Olisiponenses.

Já perto do fim da vida, em data que desconhecemos, Pastor de Macedo entregou a Ferreira de Andrade os seus ficheiros para que este autor pudesse dar à estampa o projectado Dicionário de Lisboa. Em Agosto de 1970 saía a público o primeiro fascículo do intitulado Grande Dicionário de Lisboa da autoria de Ferreira de Andrade, com prefácio de Rodrigues Cavalheiro e ilustrações de José de Lemos (Lisboa: Olisipo – Ed. De Pub. Turísticas, 1970), que se encontra na Biblioteca Nacional, com 32 páginas a 2 colunas, o qual não passou do termo Académica.

Mas Ferreira de Andrade viria a falecer em Outubro de 1970 e na sequência desta morte, Luís Pastor de Macedo legou à Câmara Municipal de Lisboa os referidos ficheiros. Em sessão de 17 e 28 de Dezembro de 1970, a Câmara deliberou aceitar em legado a ”grande colecção de verbetes elaborados e organizados por aquele olisipógrafo, que representa o produto de trinta anos de trabalho.”, legado que seria destinado ao Gabinete de Estudos Olisiponenses “por constituir um precioso elemento de consulta para os investigadores e estudiosos.”

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Júlio de Castilho duas vezes topónimo lisboeta: em Largo e em Jardim

Júlio de Castilho com o fotógrafo José Artur Leitão Bárcia
(Foto: José A. Leitão Bárcia, Arquivo Municipal de Lisboa)

No último dia desta semana, 8 de fevereiro de 2019, completam-se cem anos da morte do Mestre da Olisipografia Júlio de Castilho, o autor  de obras tão importantes e pioneiras como Lisboa antiga – Primeira parte: 0 Bairro Alto (1879) – que teve uma 2ª edição ampliada em 5 tomos-,  Lisboa antiga – Segunda parte: Bairros orientais (1884 – 1890) – em 7 tomos – ou A Ribeira de Lisboa, descrição histórica da margem do Tejo desde a Madre de Deus até Santos o Velho (1893), pelo que foi considerado o fundador dos estudos olisiponenses.

De acordo com Raquel Henriques da Silva, na sua palestra de abertura de «Uma casa em Lisboa – Homenagem a José Sarmento Matos» no passado dia 22 de janeiro – dia de São Vicente, o padroeiro de Lisboa – , Lisboa tem uma disciplina própria que mais nenhuma cidade tem que é a Olisipografia que Júlio de Castilho inventou. Por isso mesmo, recomendou a reedição anotada de toda a obra de Mestre Castilho.

Júlio de Castilho (Lisboa/30.04.1840- 08.02.1919/Lisboa), era filho do escritor António Feliciano de Castilho que nascera no Bairro Alto, e por isso ao investigar para escrever as memórias de seu pai acabou por escrever a sua primeira obra sobre a história da cidade de Lisboa, dedicada a esse Bairro. Também por essa condição de nascimento foi o 2º visconde de Castilho e viveu a maior parte da sua vida no Lumiar, vindo a ter o seu nome consagrado no Largo contíguo à artéria onde morava, já que residente do n.º 11 da Travessa do Prior ( hoje n.º 26 da Rua Pena Monteiro),  junto ao Largo da Duquesa, este último topónimo passou a ser o Largo Júlio de Castilho, por Edital municipal de 2 de março de 1925, com a legenda «Erudito Escritor e Historiador/1840 – 1919».

Logo no ano do seu falecimento, havia sido  homenageado com a colocação de uma lápide na sua casa no Lumiar, por iniciativa dos seus amigos José Artur Leitão Bárcia, Miguel Trancoso e António César Mena Júnior.

Largo da Duqueza, depois Largo Júlio de Castilho
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

E quatro anos após a atribuição do Largo com o seu nome, o fundador da Olisipografia, foi também homenageado com a criação do Jardim de Júlio de Castilho, onde a Comissão Administrativa da CML inaugurou  um busto do olisipógrafo, da autoria do escultor Costa Mota (sobrinho), no dia 25 de julho de 1929, integrado num miradouro sobre Alfama, conhecido como Miradouro de Santa Luzia, cerimónia a que compareceram outros olisipógrafos como Gustavo de Matos Sequeira ou o Engº Augusto Vieira da Silva, assim como o fotógrafo José  Artur Leitão Bárcia.

Em 1939, a Câmara Municipal de Lisboa lançou ainda o Prémio Júlio de Castilho e no ano seguinte (1940), no centenário do nascimento de Júlio de Castilho,  promoveu no Palácio Galveias uma Exposição ilustrativa da obra deste olisipógrafo.

Busto de Júlio de Castilho
(Foto: José A. Leitão Bárcia, Arquivo Municipal de Lisboa)

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