A Rua de Francisco Lourenço da Fonseca que enriqueceu no Brasil e foi vereador lisboeta

Freguesia de Alvalade

Desde 1956 que a Rua Francisco Lourenço da Fonseca homenageia, na freguesia de Alvalade, o comerciante que enriqueceu no Brasil e foi vereador da autarquia lisboeta no biénio de 1876 e 1877.

Foi através da publicação do Edital municipal de 26 de maio de 1956 que a Rua 37 A do Sítio de Alvalade passou a ter como topónimo oficial Rua Francisco Lourenço da Fonseca. O mesmo Edital colocou nas artérias circundantes os pintores do Grupo do Leão, António Ramalho, Cipriano Martins, João Vaz, Moura Girão e Ribeiro Cristino, o elemento dos Vencidos da Vida Carlos Mayer, o autor da letra do Hino Nacional Lopes de Mendonça e ainda, o Largo de Alvalade.

O comerciante Francisco Lourenço da Fonseca (Vila Nova de Gaia/10.08.1818 ou 1819– 09.03.1906/Dafundo) fez fortuna no Brasil, para onde emigrou,  e após regressar a Portugal em 1862, foi eleito vereador da Câmara Municipal de Lisboa, nos anos de 1876 e 1877, sob a presidência de Luís de Almeida e Albuquerque e a vice-presidência de Rosa Araújo. Nesse biénio, Francisco Lourenço da Fonseca deteve a responsabilidade das obras públicas municipais, tendo-se  destacado por produzir melhoramentos nos Jardins da Estrela e de São Pedro de Alcântara,  requisitar um arquiteto ao Ministério das Obras Públicas para as obras do município, reconstruir as Escadinhas da Barroca, bem como por  ter iniciado a expropriação de terrenos para a abertura de uma avenida a norte do Passeio Público, que viria a ser a Avenida da Liberdade mandada executar por Rosa Araújo. Francisco Lourenço da Fonseca foi ainda tesoureiro da Comissão Central 1° de Dezembro que promoveu a construção do Monumento aos Restauradores.

Francisco Lourenço da Fonseca, comendador  da Ordem de Cristo, foi ainda diretor do Asilo de Santa Catarina –  internato feminino instalado desde 1858 no complexo conventual de São João Nepomuceno, no Largo São João Nepomuceno  –, e casado com Maria José Oliveira Gaia ( Brasil- Rio Grande do Sul/19.02.1832 – 06.05.1912/Lisboa), de quem teve 4 filhos: Francisco Lourenço da Fonseca Júnior (Brasil – Rio Grande do Sul/06.06.1848 – 06.07.1902/Lisboa), Wenceslau da Fonseca (n. 1850), Álvaro da Fonseca (n. Brasil – Rio Grande do Sul/15.02.1855) e Alfredo da Fonseca (n. Lisboa – Freguesia de Santa Catarina/04.08.1862).

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua Frederico George, membro da 2ª Comissão Municipal de Toponímia pós 25 de Abril

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

O arqº Frederico George integrou a 2ª Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa pós 25 de Abril, a de 1976, e passou a dar o seu nome a uma Rua de Telheiras, na freguesia do Lumiar, dois anos após o seu falecimento.

Esta 2ª Comissão Municipal de Toponímia foi designada por despacho de 14 de junho de 1976 e realizou a sua primeira reunião no dia seguinte. De acordo com as Atas, era presidida pelo Dr. Augusto de Azeredo Costa Santos e tinha como membros o Dr. Fernando Castelo Branco em representação da CML, e mais três personalidades convidadas: o Dr. Jacinto Baptista, o Prof. Dr. José Augusto França e o Prof. Arqtº Frederico George. No último mês de 1976, passou a ser presidida pelo Dr. Orlando Martins Capitão contando com o Dr. Fernando Castelo Branco e o Prof. Arqtº Frederico George como membros.

Um princípio essencial definido por esta Comissão, na esteira do já defendido pela primeira pós 25 de Abril, foi o de não alterar toponímia tradicional, como se pode ler na Ata da reunião de 15 de junho de 1976: «O professor doutor José Augusto França, lembrou a existência de nomenclaturas tradicionais na toponímia de Lisboa, e propôs que, só em casos muito excepcionais, se encarasse a hipótese da sua alteração, não só pelas razões que lhes deram origem, como ainda porque essas alterações provocam sempre grandes inconvenientes, quer para os munícipes, quer para os próprios serviços. Submetida à votação, foi a referida proposta aprovada por unanimidade.»

A Rua Frederico George, com a legenda «Arquitecto e Pintor/1915 – 1994», situada  a partir da confluência da Rua Prof. Prado Coelho e a Rua Armindo Rodrigues até chegar à Rua Daniel Santa Rita, foi atribuída por Edital municipal de 24/09/1996 à Rua B do Alto da Faia e Rua A de Telheiras Norte III. Mais tarde, juntar-se-ão nas proximidades, também em Ruas, os arqºs Daniel Santa Rita (16/02/2005) e Conceição Silva (Edital de 01/08/2005).

autorretrato de Frederico George de 1939

Frederico Henrique George (Lisboa/15.11.1915- 26.01.1994/Lisboa), nascido na freguesia de Santa Isabel, filho de pai inglês e mãe portuguesa, estudou à noite na Escola de Artes Decorativas António Arroio e formou-se em pintura (1936) e em arquitetura (1950) pela Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, seguindo uma carreira de cenógrafo, arquiteto, designer e professor universitário.

É obra sua na cidade de Lisboa o Museu da Marinha (1962) e o Planetário Calouste Gulbenkian (1965) , em Belém, zona onde já havia participado nas pinturas murais da Exposição do Mundo Português (1940), bem como com Manuel Magalhães e Daciano Costa, o Hotel Penta (1975) ou o edifício de escritórios do Metropolitano de Lisboa (1983), a recuperação do Palácio Pancas Palha (1991) e o Pavilhão Gimnodesportivo do Casal Vistoso (1992). Frederico George também desenvolveu os planos de recuperação do Palácio Fronteira (1958 e 1988) e diversos projetos de análise do território e urbanismo para a Câmara Municipal de Lisboa e para o Ministério das Obras Públicas (1969 a 1976) como os blocos de habitação social em Olivais Sul de 1961-1963; executou as Exposições comemorativas do V Centenário do Infante D. Henrique (1958-1960), o Pavilhão de Portugal na Exposição Comemorativa do IV Centenário da cidade do Rio de Janeiro (1964) e com Daciano Costa, traçou o Pavilhão de Portugal da Expo Internacional de Osaka (1970).

Como professor, Frederico George começou nas escolas de ensino técnico de Lisboa e Setúbal e a partir de 1940 na Escolas de Artes Decorativas António Arroio – onde veio a introduzir o ensino do Design – para a partir de 1957, ser Professor do Curso de Arquitetura da Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, desempenhando assim um importante papel pedagógico na formação dos artistas da geração seguinte. Sofreu um interregno de 1948 a 1955, período em que foi exonerado da docência por ter subscrito a candidatura do General Norton de Matos à presidência da República. Também no seu atelier reuniu um conjunto de colaboradores que continuaram o seu legado, particularmente no desenvolvimento e ensino do Design em que foi pioneiro, como Daciano Costa, Fernando Conduto e Sena da Silva. Refira-se ainda que Frederico George participou na 1.ª Exposição de Design Português (em 1971) e defendeu com empenho a profissionalização do Designer em Portugal. Em 1972 foi encarregue pelo Ministério da Educação do estudo para a reforma do ensino de arquitetura e, em 1992, foi ainda o responsável pela criação de novos cursos universitários. Colaborou no Inquérito à Arquitectura Popular Portuguesa, editado em 1961 e publicou Considerações sobre o Ensino da  Arquitectura, a sua dissertação de 1963. 

Na sua vertente de pintor, iniciada na década de 40 do séc. XX com quadros figurativos e estrutura de raiz cubista, marcou presença na II Exposição Geral de Artes Plásticas (1947) e Salão da Primavera da Sociedade Nacional de Belas-Artes tendo alcançado, entre outros, o Prémio Luciano Freire da Academia Nacional de Belas Artes (1936), a 1ª Medalha da SNBA (1945), o Prémio Columbano  (1946) e o Prémio Silva Porto (1947), ambos  do SNI. A sua obra está representada no Museu do Chiado e na Fundação Calouste Gulbenkian. Frederico George foi também galardoado com o oficialato da Ordem de Cristo (1941), a Grã Cruz da Ordem de Mérito (1989), o Prémio  de Arquitectura da AICA (1994) e o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Técnica de Lisboa (2001).

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias)

Sete novos topónimos na freguesia do Lumiar

Pelo Edital nº 38/2017, de 17/03/2017,  foram atribuídos sete novos topónimos na freguesia do Lumiar:  Largo Gérard Castello-Lopes, Rua Irisalva Moita, Rua Isabel Magalhães Colaço, Rua Joaquim Rodrigo, Largo Michel’Angelo Lambertini, Rua Padre Manuel Antunes e Rua Pedro Bandeira Freire.

A Rua Domingos Rebelo, o pintor etnógrafo dos Açores

Freguesia de Carnide (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Carnide
(Foto: Sérgio Dias)

O pintor Domingos Rebelo que desde 2004 dá nome a uma rua de Carnide era um dos que, como Eduardo Viana, Emmérico Nunes, Francisco Smith  ou Manuel Bentes -, frequentava o estúdio nº 21 que Amadeu de Sousa Cardoso arrendara em 1908, em Paris, no 14 Cité Falguiére.

Numa entrevista de Domingos Rebelo ao jornal O Século, em 20 de outubro de 1970, o pintor recordou que « […] o atelier de Amadeo de Sousa Cardoso, no 14 Cité Falguière, que era de todos nós o que vivia com maior abastança, pois era filho de uma rica família de Amarante […] tornou-se um centro de reunião. Iam lá todas as noites o Manuel Bentes, o Ferraz, o arquitecto Collin, o Emmérico Nunes e eu. […] .»

A Rua Domingos Rebelo foi um topónimo proposto pelos jornalistas António Valdemar e Appio Sottomayor enquanto membros da Comissão Municipal de Toponímia, e atribuído à Rua C à Quinta do Bom Nome, com início e fim na Rua José Farinha, pelo Edital  municipal de 10/02/2004. Pelo mesmo Edital e na mesma Freguesia de Carnide, foi também atribuído o nome da pintora Maria de Lourdes de Mello e Castro na Rua B à Avenida Professor Francisco da Gama Caeiro.

Autorretrato

Autorretrato

Domingos Maria Xavier Rebelo (Ponta Delgada/03.12.1891 – 11.01.1975/Lisboa) foi um pintor açoriano que se especializou na temática religiosa e nos cenários rurais da sua terra natal o que lhe valeu o título de Pintor Etnógrafo dos Açores, destacando-se da sua obra o quadro Os Emigrantes (1926) e os frescos da Igreja de São João de Deus (1953), em Lisboa.

Domingos Rebelo estudou no Colégio Fisher, e o seu mestre de talha, João Soares Cordeiro, incentivou-o a seguir uma carreira artística pelo que em 1912, quando estudava em Paris, retratou-o. Foi graças ao apoio desse professor que começou a expor logo aos 13 anos e aos 15 partiu para Paris, para estudar a expensas dos Condes de Albuquerque. Em 1911, aos 20 anos, expôs na Exposição dos Livres, ao lado de Alberto Cardoso, Eduardo Viana, Emmérico Nunes, Francisco Álvares Cabral, Francisco Smith e Manuel Bentes. Foi também professor e diretor (1940 – 1942) da Escola Velho Cabral/Escola Industrial e Comercial de Ponta Delgada.  Em 1942, aos 49 anos, veio fixar residência em Lisboa e completou a obra a fresco iniciada pelo pintor Sousa Lopes (quatro dos sete painéis que decoram o Salão Nobre da Assembleia da República), para além de ter dirigido a Biblioteca-Museu do Ensino Primário, em Benfica, junto da Escola do Magistério Primário de Lisboa.

A sua obra artística incluiu ainda composições para tapeçarias, como as que se encontram na Cidade Universitária de Coimbra, bem como miniaturas em barro de cariz etnográfico e foi galardoado com a Medalha da Sociedade Nacional de Belas Artes (1925), os Prémios Silva Porto (1937), Rocha Cabral e Roque Gameiro, bem como com a  Primeira Medalha em aguarela no Salão do Estoril.

Domingos Rebelo foi ainda diretor e vogal da Sociedade Nacional de Belas Artes (1947 – 1970) e a sua obra está representada no Museu do Chiado/Museu de Arte Contemporânea, Museu da Marinha, Museu Carlos Machado de Ponte Delgada e inúmeras igrejas. A Escola de Artes e Ofícios Velho Cabral, inaugurada no ano do seu nascimento e que o artista frequentou,  passou a partir de 1979 a ostentar o seu nome como Escola Secundária Domingos Rebelo.

Freguesia de Carnide (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Carnide
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

A Rua do companheiro de Amadeu pela Bretanha

Freguesia de Carnide (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Carnide
(Foto: Sérgio Dias)

O pintor Eduardo Viana que em outubro de 1907 acompanhou Amadeu de Sousa Cardoso numa viagem  à Bretanha está desde a publicação do Edital de 14 de abril de 1982 na toponímia de Lisboa,  na que era a Rua E-1 da Urbanização de Carnide, tendo pelo mesmo documento a companhia do Largo Francisco Smith que era o Impasse E1 da Urbanização de Carnide, resultando a sua consagração de uma sugestão da Secretaria de Estado da Cultura, por ocasião do centenário do nascimento deste artista da primeira geração dos modernistas portugueses.

Desenho de Eduardo Viana no. nº da Contemporanea de 1915

Desenho de Eduardo Viana na Contemporânea em 1915

Eduardo Afonso Viana (Lisboa/28.11.1881 – 21.02.1967/Lisboa) foi discípulo de Veloso Salgado e Columbano quando frequentou Pintura na Academia de Belas Artes de Lisboa mas abandonou o curso em 1905 e partiu para Paris onde passou a frequentar o atelier de Jean-Paul Laurens, e aí permaneceu até 1914. Eduardo Viana estava também amiúde no estúdio que Amadeu de Sousa Cardoso arrendou em Paris no 14, Cité Falguière  que funcionava como espaço de tertúlias e boémia, com a presença assídua de Domingos Rebelo,  Emmérico Nunes, Francisco Smith  e Manuel Bentes. Conviveu Viana assim com diversos pintores e contribuiu para o desenvolvimento da Arte Moderna em Portugal, seguindo um itinerário pessoal que aposta na paisagem, na natureza morta e no nu. A título de exemplo, refira-se que em 1925 pintou nus para o Bristol Club (na esquina da Rua Jardim do Regedor com a então Rua Eugénio dos Santos) e paisagens para A Brasileira do Chiado na Rua Garrett, ano em que também organizou o I Salão de Outono na SNBA (na Rua Barata Salgueiro), onde apresentou as telas para o Café.

Mesmo em Paris,  Eduardo Viana manteve a sua presença no contexto artístico português, com envio de obras para a Exposição de Arte Livre (em 1911) ou os Salões anuais da SNBA (de 1913 a 1915), onde recebeu uma Menção Honrosa (1911) e uma 2ª Medalha (1915). A eclosão da Primeira Guerra Mundial obrigou-o a voltar a Portugal,   trazendo também para Vila do Conde o casal Delaunay (Robert e Sonia), que influenciarão a sua obra. Fixou-se nesta localidade entre 1915 e 1916 o que lhe permitia em paralelo manter comunicação com Amadeu de Sousa Cardoso, então a residir em Manhufe, perto de Amarante.

Entre 1915 e 1926, Viana colaborou artisticamente na revista Contemporânea, participou na III Exposição dos Modernistas do Porto (1919), realizou exposições individuais no Porto e em Lisboa (1920, 1921 e 1923),  e convidado com Mily Possoz e Almada Negreiros participou na exposição Cinco Independentes na SNBA. Em 1920 e 1921, realiza as suas primeiras exposições individuais em Lisboa e no Porto, respectivamente, e integra a exposição 5 Independentes. Foi um dos artistas que participou na mítica decoração do café A Brasileira e organizou o I Salão de Outono, ambos em 1925. Neste ano parte novamente para Paris e viaja pela Inglaterra e Holanda, estabelecendo-se na Bélgica, numa fase pouco conhecida do seu trabalho, que se prolongaria até 1940, quando volta definitivamente para Lisboa e representa Portugal na XXV Bienal de Veneza e na III Bienal de São Paulo. Participa na I, VI, VIII, XI, XII e XIV Exposições de Arte Moderna do SPN/SNI , vencendo duas vezes o Prémio Columbano (1941 e 1948). Em 1957, na I Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian vence o Grande Prémio de Pintura. Em 1965 é-lhe atribuído o Prémio Nacional de Arte do SNI que três anos mais tarde promove uma Exposição retrospectiva da sua obra.

Eduardo Viana está representado no Museu do Chiado/Museu de Arte Contemporânea e no CAM da Fundação Calouste Gulbenkian.

Freguesia de Carnide (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Carnide
(Planta: Sérgio Dias)

O Largo do companheiro de Amadeu em Paris

Freguesia de Carnide (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Carnide
(Foto: Sérgio Dias)

Quando Amadeu de Sousa Cardoso completou 19 anos partiu para Paris, acompanhado de outro pintor, o seu amigo Francisco Smith, que também está perpetuado num Largo de Lisboa desde 1982.

O Largo Francisco Smith, com a legenda «Pintor/1881 – 1961», ficou no Impasse E1 da Urbanização de Carnide pelo Edital municipal de 14/04/1982 que também colocou nas proximidades a Rua Eduardo Viana – referente a outro pintor amigo de Francis Smith e de  Amadeu- na Rua E-1 da Urbanização de Carnide.

As escadinhas, 1934

Francisco Smith (Lisboa/1881 — 1961/Paris), foi um pintor de origem inglesa e de nacionalidade portuguesa que foi para Paris com Amadeu de Sousa Cardoso e nessa cidade fixou residência em 1907, o ano em que Picasso pintou Les Démoiselles d’Avignon, raramente voltando a Portugal, tanto mais que após o seu casamento na década de 1930, com a escultora Yvonne Mortier, optou pela nacionalidade francesa e simplificou o seu nome para Francis Smith.

Em Portugal,  integrou a Exposição dos Humoristas e Modernistas de 1911, a mostra da Galeria de Artes de 1916 e o Salão de Outono de 1925; e individualmente expôs no Salão Bobone (1934) na Rua Serpa Pinto bem como na I Exposição de Arte Moderna do SPN/SNI (1935). No entanto, a sua carreira desenrolou-se sobretudo em França, a partir de 1922 , tendo até museus de província franceses adquirido obras suas.

A sua pintura é sobretudo uma exploração da memória dos lugares de infância, uma Lisboa posta em pequenas telas de vistas da cidade e de outras aldeias e vilas recordadas que foi recordada pelo SNI – Secretariado Nacional de Informação quando organizou a Exposição retrospetiva de Francisco Smith, 1881-1961 (1967); ao integrar a exposição itinerante em Bruxelas, Paris, Madrid, intitulada Art Portugais (1967-1968) e, quando o Centro Cultural Português da Fundação Calouste Gulbenkian em Paris mostrou em 1969 Le Portugal dans l’oeuvre de Francis Smith.

Francis Smith está representado no Museu do Chiado/Museu de Arte Contemporânea, no CAM da Fundação Calouste Gulbenkian e  no Museu de Lisboa- Palácio Pimenta.

Freguesia de Carnide (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Carnide
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Amadeu de Sousa Cardoso nascida em 1988 sobre a Rua Bocage

na Freguesia de Alcântara

Freguesia de Alcântara                                                                (Foto: José Carlos Batista)

Amadeu de Sousa Cardoso foi fixado na toponímia alfacinha setenta anos após a sua morte, no arruamento que liga a Rua dos Lusíadas à Rua João de Barros, através do Edital de 29 de fevereiro de 1988, naquela que era a Rua Bocage desde a deliberação camarária de 08/07/1892 e ainda antes, as Ruas nºs 7 e 8 do Bairro do Casal do Rolão, em Alcântara.

Conforme se pode ler na acta da reunião da Comissão de Toponímia de 17 de fevereiro de 1988, o Vereador Vítor Reis sugeriu o nome de Amadeu de Sousa Cardoso para identificar um arruamento citadino, e a Comissão de Toponímia então presidida  pelo Vereador Comandante Pinto Machado «Atendendo a que existem em Lisboa dois arruamentos ambos evocando a memória do poeta Bocage [o cientista na Avenida Barbosa du Bocage e o poeta na Rua Bocage], e que não se justifica essa duplicação toponímica»,  foi de parecer que a Rua Bocage em Alcântara se passasse a denominar Rua Amadeu de Sousa Cardoso. Mais tarde, em 1996, por proposta de Appio Sottomayor na Comissão Municipal de Toponímia voltou Manuel Maria Barbosa do Bocage a Lisboa com a denominação inequívoca de Rua Poeta Bocage.

Amadeo em 1913

Amadeo em 1913

Amadeo de Souza-Cardoso e pela grafia moderna Amadeu de Sousa Cardoso (Amarante-Manhufe/14.11.1887 – 25.10.1918/Espinho), foi um desenhador, caricaturista e pintor da primeira geração de modernistas portugueses. Aos 18 anos, matriculou-se em Arquitetura na Academia de Belas-Artes de Lisboa e manifestou também a sua arte no desenho, sobretudo como caricaturista.

No ano seguinte (1906) viajou para Paris, na companhia de Francisco Smith, e acabou por se instalar no Boulevard Montparnasse , onde reforçou a sua inclinação para o desenho e a caricatura que  publicou n’ O Primeiro de Janeiro (1907) e na Ilustração Popular (1908-1909). Arrendou um estúdio no 14, Cité Falguière que se tornou também espaço de tertúlias com artistas emigrados como Manuel Bentes, Eduardo Viana, Emmérico Nunes, Domingos Rebelo e  Francisco Smith. No final de 1908 conheceu Lucia Pecetto (Lyon/23.07.1890-23.03.1989/Paris) –  com quem casará em 1914 no Porto- e começou a frequentar as classes do pintor espanhol Anglada-Camarasa, para além de mudar o seu estúdio para a rue des Fleurus, num espaço contíguo ao apartamento de Gertrude Stein. Em 1910 fez uma estadia de três meses em Bruxelas investigando as pinturas dos primitivos flamengos e no ano seguinte expôs trabalhos no Salon des Indépendants de Paris (também em 1912 e 1914) e aprofundou a sua amizade com Amedeo Modigliani, tendo realizado uma exposição conjunta no novo atelier de Amadeu perto do Quai d’Orsay, na rue du Colonel Combes. Amadeu aproximava-se cada vez mais das vanguardas e de artistas como Brancusi, Archipenko, Diego Rivera, Juan Gris ou Max Jacob.  Em 1912, publicou o álbum XX Dessins e expôs no Salon d’Automne a que voltou em 1914. Em 1913, convidado por Walter Pach, integrou com 8 trabalhos a Exposição Internacional de Arte Moderna Armory Show (Nova Iorque, Chicago e Boston),  ao lado de Braque, Matisse ou Duchamp. Nesse mesmo ano voltou a Montparnasse, para novo estúdio na rue Ernest Cresson e participou  no I Herbstsalon de Berlim. Em 1914,  Amadeo veio passar o verão em Manhufe como costumava, após uma passagem por Barcelona para visitar o escultor León Solá onde conheceu Gaudí, sendo  surpreendido pelo deflagrar da I Guerra que o impedirá de regressar a Paris, tal como sucedeu a Robert e Sonia Delaunay que ficaram em Vila do Conde, tendo em conjunto pensado criar uma Corporation Nouvelle para promover exposições internacionais itinerantes, para além de através de Almada Negreiros ter conhecido o grupo dos Futuristas lisboetas, reunidos inicialmente em torno da revista Orpheu e assim em 1917 publicou três obras na revista Portugal Futurista, mas a edição foi apreendida.

Em 1918 contraiu uma doença de pele que lhe atingiu o rosto e as mãos impedindo-o de trabalhar e, trocou Manhufe por Espinho, na tentativa vã de escapar à epidemia de Gripe Espanhola à qual acabou por sucumbir nesse ano. A sua morte antes de completar 31 anos de idade ditou o fim abrupto de uma obra pictórica em plena maturidade e, de uma carreira internacional promissora, conduzindo a que o seu nome só alguns anos após a sua morte ganhasse em Portugal a importância e o reconhecimento que possuía no estrangeiro e muito graças à divulgação do seu trabalho por Almada Negreiros.

Em 1935, foi criado o Prémio Amadeo de Souza-Cardoso para o Salão Anual de Arte Moderna e em, 1957 José Augusto-França publicou a primeira monografia sobre ele e em 1968 a Fundação Calouste Gulbenkian adquiriu 5 obras de Amadeo que hoje está representando no Museu Municipal Amadeu de Sousa Cardoso em Amarante, no Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian e no Museu de Arte Contemporânea/Museu do Chiado.

Placa Tipo II

Placa Tipo II                                                            (Foto: José Carlos Batista)

Freguesia de Alcântara (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Alcântara
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do pintor romântico Francisco Metrass e as duas vidas do cinema Europa

Grupo de artistas. Em primeiro plano, da esquerda para a direita, José Rodrigues, António Manuel da Fonseca, Francisco Augusto Metrass; em segundo plano João Cristino da Silva e Tomás da Anunciação e Vitor Figueiredo Bastos (Foto: José Leitão Bárcia, Arquivo Municipal de Lisboa)

Em baixo da esquerda para a direita: José Rodrigues, António Manuel da Fonseca, Francisco Metrass; em cima: João Cristino da Silva, Tomás da Anunciação e Vítor Bastos
(Foto: José Leitão Bárcia, depois de 1890, Arquivo Municipal de Lisboa)

O romântico pintor Francisco Metrass   foi colocado numa artéria do Bairro de Campo de Ourique em 1880 e já no séc. XX foi nela que se ergueu o Cinema Europa que foi também Europa Cinema.

Por deliberação camarária de 23 de agosto de 1880 e consequente Edital de 30 de agosto, Rua Francisco Metrass foi o topónimo dado à  3ª rua nova aberta paralelamente à Rua Ferreira Borges ou Rua nº 4 aberta nos terrenos da antiga Parada de Campo de Ourique, em memória do pintor que falecera 19 anos antes. Por esse mesmo Edital municipal foi também colocado na Rua nº 3 o pintor Tomás da Anunciação, falecido no ano anterior, bem como a Rua do Quatro de Infantaria (na Rua nº 1 ) e a Rua Ferreira Borges (na Avenida de Campo de Ourique).

Cinema Europa na década de 30 do séc. XX

Cinema Europa na década de 30 do séc. XX

 

Numa esquina da Rua Francisco Metrass abriu portas em 14 de fevereiro de 1931 o Cinema Europa, traçado pelo Arqº Raul Martins e que se tornou um dos edifícios emblemáticos de Campo de Ourique. Em 1936 foi modificado na fachada e no interior, segundo um plano do Arqº João Carlos Silva mas acabou por ser demolido em 1957. No seu lugar foi construído em 1958 o Europa Cinema, esboçado pelo Arqº Antero Ferreira e com uma escultura em alto-relevo na fachada, da autoria de Euclides Vaz, com 843 lugares à disposição. Assim, funcionou como sala de cinema até 1981 e em 2010 foi demolido.

Europa Cinema após 1957

Europa Cinema após 1958

Francisco Augusto Metrass ( Lisboa/07.02. 1825 – 14.02.1861/Funchal) foi um pintor da época romântica que ingressou   aos 11 anos, em 1836, como aluno voluntário da Academia das Belas Artes de Lisboa, onde foi colega de Tomás da Anunciação, Manuel Maria Bordalo Pinheiro e João Cristino da Silva e teve como professores Joaquim Rafael e António Manuel da Fonseca. Dedicava-se sobretudo à pintura de retratos até partir em 1844 para estudar para Roma, com os pintores de origem alemã do Grupo dos Nazarenos Cornelius e Overbeck, e pintar Jesus acolhendo as crianças. No regresso, empenhou-se sobretudo na pintura histórica mas face à falta de reconhecimento vendeu toda a sua obra a um corretor de leilões e estabeleceu-se a tirar retratos na zona do Cais do Sodré. Voltou depois a partir, para Paris, onde estudou as obras de Rubens, Rembrandt e Van Dyck. De volta a Portugal em 1853, com melhor técnica, o rei D. Fernando comprou-lhe o quadro Camões na Gruta de Macau e a sua obra passou a ser admirada pelo grande público e, a partir do ano seguinte exerceu também como professor de pintura histórica na Academia de Belas Artes.  O seu quadro Só Deus (1856), foi considerado a mais poderosa imagem do romantismo português.

Francisco Metrass morreu aos 36 anos de idade, vítima de tuberculose e a sua obra está representada no Museu do Chiado/ Museu de Arte Contemporânea.

Freguesia de Campo de Ourique                                                                                 (Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua do pintor Domingos Sequeira e o Paris Cinema

O Cinema Paris na Rua Domingos Sequeira, em 1960 (Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Paris Cinema na Rua Domingos Sequeira, em 1960
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

O pintor Domingos Sequeira  foi colocado há 129 anos na toponímia de Lisboa –  por deliberação camarária de 4 de novembro de 1887- e cinquenta anos após o falecimento do artista,  sendo que no nº 30 desta artéria abriu portas em 1931 o  Paris Cinema, não como um cinema de bairro mas de estreia.

Já antes, desde janeiro de 1916, existia na Rua Ferreira Borges o Cine Paris,  e este novo Paris Cinema nasceu para o substituir, de acordo com o traçado do arqº Victor Manuel Carvalho Piloto, e por ordem de Victor Alves da Cunha Rosa que também encomendou pinturas a Jorge de Sousa e baixos relevos ao escultor Simões de Almeida (Sobrinho). Foi inaugurado em 21 de maio de 1931 com 885 lugares e encerrou cinquenta anos depois, em 20 de outubro de 1981. Já fechado, ainda serviu em 1994 de cenário para Lisbon Story, de Wim Wenders.

Rua Domingos Sequeira - Freguesias da Estrela e de Campo de Ourique (Foto: Sérgio Dias)

Rua Domingos Sequeira – Freguesias da Estrela e de Campo de Ourique
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua Domingos Sequeira nasceu entre a Praça da Estrela e o ponto de convergência das Ruas Saraiva de Carvalho, do Patrocínio e Ferreira Borges, e só 70 anos depois, por parecer da Comissão Municipal de Toponímia na sua reunião de 04/06/1957, foi acrescentada ao topónimo a legenda «Pintor/1768 – 1837».

O homenageado é o pintor Domingos António Sequeira (Lisboa/10.03.1768 – 08.03.1837/Roma), que sendo filho de um barqueiro de Belém foi educado na Casa Pia de Lisboa – tendo mais tarde pintado a Alegoria da Fundação da Casa Pia de Belém –, após o que frequentou o curso de Desenho e Figura na Aula Régia e, graças a uma pensão de D. Maria I, partiu em 1788  para Itália onde estudou na Academia Portuguesa em Roma, sendo aluno de Antonio Cavallucci após o que exerceu como professor na Academia di San Luca.

Regressou  a Lisboa em 1795, e em 1802 foi nomeado pintor real e codiretor da empreitada de pintura do Palácio da Ajuda. A partir do ano seguinte foi também professor de desenho e pintura das princesas e em 1806 dirigiu a Aula de Desenho, no Porto.

Domingos Sequeira dedicou-se particularmente a pinturas alegóricas e retratos, como o de D. João VI e o do Conde de Farrobo, assim como também pintou as suas sucessivas posições políticas, primeiro como partidário do exército de invasão francês – com Junot Protegendo a Cidade de Lisboa (1808)-, depois da aliança inglesa – com Apoteose de Wellington (1811) e Lisboa protegendo os seus habitantes (1812) -, e da Revolução Liberal Vintista com o retrato dos 33 deputados em 1821. Depois, a  Vilafrancada fê-lo emigrar para Paris onde em 1824 expôs no Salão do Louvre  A Morte de Camões  e em 1826 fixou-se definitivamente em Roma onde passou a executar obras sacras como a série sobre a vida de Cristo (1828).

Domingos Sequeira também exerceu como gravador e a ele se devem as primeiras litografias feitas em Portugal. A sua obra está representada no Museu Nacional de Arte Antiga, que por subscrição pública em 2015/2016 conseguiu adquirir o seu Adoração dos Magos, de 1828.

Rua Domingos Sequeira - Freguesias da Estrela e de Campo de Ourique (Planta: Sérgio Dias)

Rua Domingos Sequeira – Freguesias da Estrela e de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do autor da porta do Salão Nobre dos Paços de Concelho de Lisboa e o cinema Tortoise/Tenor Romão/Campolide

O Campolide Cinema na Rua Leandro Braga em 1961 (foto: Artur João Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Campolide Cinema na Rua Leandro Braga em 1961
(foto: Artur João Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

Leandro Braga, o escultor da porta do Salão Nobre dos Paços de Concelho de Lisboa, está desde 1911 na toponímia de Lisboa, numa artéria de Campolide, que a partir de 1925 passou a exibir também um cinema  que passou por três denominações: Tortoise, Tenor Romão e Campolide.

Nos finais do século XIX foi construído o Bairro Novo de Campolide cujas ruas foram denominadas por edital municipal de 25 de setembro de 1903, fixando nelas os nomes do escultores Vítor Bastos e Soares dos Reis, bem como dos militares Dom Carlos de Mascarenhas, General Taborda e Conde das Antas. Um pouco mais tarde, o Edital de 7 de agosto de 1911  perpetuou mais um escultor nesta zona, através da Rua Leandro Braga, com a legenda «Escultor e Entalhador/1839 – 1897».

Em 4 de janeiro de 1925 foi inaugurado no nº 15 deste arruamento um cinema de bairro, o CineTortoise, por iniciativa de Manuel Pinto Lello (professor e gerente) e Ruy Teixeira Bastos ( artista plástico e diretor técnico da distribuidora e produtora Tortoise-Filmes). Mas em 1927, mudou a gerência e passou a designar-se Cinema Tenor Romão, já que o novo dono era o Tenor Romão Gonçalves, figura excêntrica e conhecida na Lisboa da época, que inventou o licor Romanini para fazer concorrência ao francês Beneditine e remodelou o cinema para ficar com  414 lugares. Em fevereiro do ano seguinte voltou a mudar de mãos e passou a denominar-se Campolide Cinema que apenas fechou portas em 1977.

Freguesia de Campolide (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Campolide
(Foto: Sérgio Dias)

Leandro de Sousa Braga (Braga/22.03.1839 – 06.04.1897/Lisboa) veio para a capital em 1853, aos 14 anos de idade, e entrou para a oficina do entalhador Inácio Caetano e 9 anos depois, para o atelier do escultor Anatole Calmels, notabilizando-se em empreitadas onde trabalhou ao lado destes mestres, como na tribuna do Teatro S. Carlos ou no Arco Triunfal da Rua Augusta, abrindo depois oficina própria na Calçada do Combro e recebendo encomendas particulares como as de D. Maria Pia e D. Fernando para as decorações dos Palácios da Ajuda e de Belém, dos Duques de Palmela, do conde Cabral e do marquês da Foz para o Palácio Foz. Leandro Braga executou ainda numerosos trabalhos em mobílias, decorações de teatro e habitações particulares, esculturas para igrejas ou projetos de monumentos. É ainda obra sua a porta do Salão Nobre dos Paços do Concelho de Lisboa que em 1890 custou 1:000$000 réis.

Freguesia de Campolide (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Campolide
(Planta: Sérgio Dias)