A Rua João Anastácio Rosa, o ator pai de dois atores

 

Página dedicada a João Anastácio Rosa n’ O António Maria de 18 de dezembro de 1884

João Anastácio Rosa, pai dos também atores João Rosa e Augusto Rosa e por isso conhecido como Rosa-Pai, dá nome à Rua que liga a Avenida Álvares Cabral com a Rua de São Bernardo, desde a publicação do Edital municipal de 18 de novembro de 1913, tendo nesse mesmo ano havido uma permuta de terrenos entre a  CML e a Associação de Escolas Móveis e Jardins-Escolas João de Deus que permitiu concretizar a abertura deste arruamento.

Onze anos depois, o Edital municipal de 17/03/1924  consagrou o seu filho mais novo  Augusto Rosa (1850 – 1918) na antiga Rua do Arco do Limoeiro e dois anos depois, o Edital de 27 de janeiro de 1926 colocou o seu primogénito João Rosa (1842 – 1910) no Bairro dos Aliados ao Areeiro.

Freguesias de Campo de Ourique e da Estrela
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

João Anastácio Rosa (Redondo/1812 ou 1816 – 17.12.1884/Lisboa) nasceu no Redondo, filho de José Manuel da Rosa Munhoz e D. Merina do Carmo, embora se desconheça a sua data de nascimento, conforme afirma  Eduardo Augusto Vidal na biografia que lhe escreveu em dezembro de 1869 e publicou no ano seguinte, impressa na Tipografia Universal de Tomás Quintino Antunes, na Rua dos Calafates (é a Rua Diário de Notícias dos nossos dias).

Veio para Lisboa  em 1827, para estudar na Aula Régia de Desenho. Sabe-se que 18 de janeiro de 1832 foi a  data da sua matrícula na Aula Pública de Desenho de História, Figura e Arquitetura Civil, de acordo com registo guardado na Universidade de Lisboa, assim como segundo a biografia de E. A. Vidal, um tal de Marechal Raposo o encaminhou para discípulo do pintor Taborda no Palácio da Ajuda e mais tarde, o patriarca de Lisboa, Cardeal Frei Francisco de São Luís, também natural do Redondo, de quem ele pintou um retrato em 1835, conseguiu que fosse trabalhar para o Jardim Botânico da Ajuda. Na guerra civil entre liberais e miguelistas João Anastácio Rosa entrou na contenda, pelos liberais, tendo alcançado o posto de sargento do 5º batalhão móvel.

Finda a guerra João Anastácio Rosa passou a assegurar o seu sustento como retratista, o que o fez ligar-se a gente do teatro, como os atores Epifânio e Delfina. No Teatro da Rua dos Condes, conheceu o  comediante Emile Doux, então radicado em Lisboa e acabou por se estrear como ator em 1839, nesse mesmo Teatro, no drama Maria Tudor.

Em 1846 foi inaugurado o Teatro D. Maria II e João Anastácio Rosa  lá estava, convidado para ser ator residente. Deu brado em O Estudante de São Ciro e alcançou também muito êxito como ensaiador, ator e responsável pela decoração e/ou o guarda-roupa de A Profecia ou a Queda de Jerusalém, tal como em O Morgado de Fafe em Lisboa de Camilo ou no Marquês de la Seiglière.

Em 1853, sendo Ministro do Reino Rodrigo da Fonseca Magalhães, conseguiu uma licença de 3 meses do Teatro Nacional para ir a Paris estagiar na Comédie Française e com uma bolsa concedida para o efeito. Conheceu nos Pirinéus o florista Constantino – o que dá nome a um jardim lisboeta-, de quem também pintará um retrato em 1854.  Mais tarde, João Anastácio Rosa dai do elenco do Teatro D. Maria II para percorrer o país com uma companhia que ele próprio formou, sendo certo estar a 25 de setembro 1862 no Porto, determinado a fazer a estreia do seu filho João no  Teatro de São João, o que aconteceu a 1 de novembro na comédia As jóias de família. Aceitou de seguida um convite para estar no Teatro Académico de Coimbra que mais tarde lhe concederá o diploma de sócio. Regressou a Lisboa em junho de 1863 e a 12 de agosto João Anastácio Rosa estreiava o seu Ricardo III, de Shakespeare, no São Carlos.

Quando se reformou do teatro em 1866, passou a dedicar-se à pintura, à caricatura, a criar o busto de Garrett para o átrio do D. Maria II e a desenvolver invenções, como umas botas impermeáveis para o exército, cujo sistema ganhou um prémio numa Exposição em Paris, em 1878. Mais tarde, em 1883 ou 1884,  segundo Luís Pastor de Macedo, morou na Rua Áurea (vulgarmente designada Rua do Ouro).

No dia seguinte ao seu falecimento, o António Maria de Rafael Bordalo Pinheiro dedicou-lhe uma página inteira, retratando-o em várias fases da vida. Foi também agraciado com a Ordem de Santiago. O Teatro do Redondo, construído em 1839, também tomou o nome de João Anastácio da Rosa. Para além de Lisboa, o seu nome está ainda na toponímia do Redondo, do Alandroal, de Queijas e da Venda Nova – Amadora.

Freguesias de Campo de Ourique e da Estrela
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua da Cooperativa de Caselas e a Rua Sara Afonso

Freguesia de Belém
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Desde 1988 que a Rua Sara Afonso é o topónimo oficial da artéria que antes era vulgarmente conhecida por Rua da Cooperativa de Caselas, razão para que nos últimos 29 anos as duas denominações tenham coexistido no Bairro de Caselas.

Como era hábito fazer-se para os bairros sociais na década de 50 do século passado  também o Bairro de Caselas, traçado por  Couto Martins e construído em 1949, recebeu toponímia numérica para os seus arruamentos pelo Edital municipal de 15 de março de 1950. Entretanto, chegados os anos 80, a então Junta de Freguesia de São Francisco Xavier (hoje o território é pertença administrativa da Junta de Freguesia de Belém) solicitou à edilidade que fossem atribuídos topónimos aos arruamentos do Bairro de Caselas e assim sucedeu através do Edital municipal de 20 de abril de 1988 que atribuiu 12 topónimos em ruas, sendo 7 de mulheres, a saber:  a pintora Sara Afonso e 1ª mulher a frequentar as tertúlias de A Brasileira (Rua da Cooperativa de Caselas), a médica Carolina Ângelo e  1ª mulher a votar em Portugal (Rua 1), a republicana setecentista Leonor Pimentel (Rua 2), a pedagoga Alice Pestana (Rua 3),  Virgínia Quaresma a 1ª jornalista portuguesa (Rua 4), a 1ª notária portuguesa Aurora de Castro (Rua 6) e a escritora Olga Morais Sarmento (Rua 7).

Talvez por a Rua Sara Afonso não ter substituído um topónimo numérico, conforme era anseio dos moradores, mas antes um topónimo que popularmente lhe fora dado pelos residentes se tenha mantido na memória  da população do Bairro de Caselas.

Imagem relacionada

Família, 1937 (óleo sobre tela)

A Rua Sara Afonso, que liga a  Rua Carolina Ângelo à Rua Padre Reis Lima, homenageia  Sarah Affonso (Lisboa/ 13.05.1899 – 14.12.1983/Lisboa) a pintora alfacinha que foi uma das últimas discípulas de Columbano na Escola de Belas Artes de Lisboa, a que somou duas estadias em Academias livres de Paris (1923-1924 e 1928-1929) e a frequência das tertúlias de A Brasileira, nos anos trinta do séc. XX, que até aí eram território masculino.

Sara desenvolveu um estilo oriundo do imaginário popular minhoto, zona onde viveu dos 4 aos 15 anos, a que aliou uma intensa temática de noivados, maternidades e famílias, assim integrando a   segunda geração de pintores modernistas portugueses, com Bernardo Marques, Mário Eloy ou Carlos Botelho. Acabou  por  abandonar a pintura no final da década de quarenta, tendo ainda sido galardoada com o Prémio Amadeo de Sousa Cardoso (1944) do SNI. Na década seguinte regressou à ilustração de obras de literatura infantil com A Menina do Mar de Sophia de Mello Breyner Andresen, para além de na sua carreira ter colaborado no grafismo das revistas Presença e Eva. A sua obra pictórica está representada no Museu do Chiado, no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, bem como nos Museus de Bragança e de Amarante, tendo sido agraciada com Ordem de Santiago de Espada (1981). Dá também nome à Escola Básica e Jardim de Infância sita na Rua Almada Negreiros, nos Olivais.

Na sua vida pessoal, casou em 1934 com José de Almada Negreiros, passando a usar o nome de Sarah Affonso de Almada Negreiros, tendo tido dois filhos (José Afonso e Ana Paula) e residido no nº 42 da Rua de São Filipe Nery.

Freguesias de Belém
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Praça de Moscavide e a Praça José Queirós

Freguesias do Parque das Nações e dos Olivais 
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Desde 1973 que a Praça  na confluência das Avenidas Infante D. Henrique, Dr. Francisco Luís Gomes e Dr. Alfredo Bensaúde se denomina oficialmente Praça José Queirós  mas a sua denominação vulgar de Praça de Moscavide ainda não se perdeu totalmente.

A Praça de Moscavide nasceu no final da década de trinta do séc. XX.  Datado de 1938  encontramos no Arquivo Municipal o projeto de construção de um novo arruamento entre o Aeroporto e Moscavide, com início na saída de Lisboa entre a Portela e a Encarnação para terminar no nó que será a Praça de Moscavide e mais tarde, em 1941, sabemos que já está executada porque a adjudicação do 2º troço da Avenida Infante D. Henrique refere-o entre o Poço do Bispo e a Praça de Moscavide. A Praça de Moscavide é também dada como referência de limites para o estudo da urbanização da célula A da zona de Olivais Norte de 1959-1960.

A Praça de Moscavide, como era vulgarmente conhecida, passou a ter a denominação oficial de Praça José Queirós pelo Edital de 15 de fevereiro de 1973 mas um contrato de 27 de julho desse ano referia que era para a instalação de um « posto abastecedor de combustíveis líquidos, sito na Praça de Moscavide, actualmente denominada Praça José de Queirós.»

Freguesias do Parque das Nações e dos Olivais – Placa Tipo IV
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Hoje a Praça José Queirós é território das Freguesias dos Olivais e do Parque das Nações. Desde 1973 homenageia o pintor José Queirós (Lisboa/13.07.1856 – 31.07.1920),  discípulo de Columbano e de Malhoa que também se tornou um especialista de cerâmica portuguesa. Foi um dos fundadores do Grémio Artístico que viria a originar a Sociedade Nacional das Belas Artes, membro da Sociedade Promotoras de Belas Artes em Portugal (1873 a 1887) e da secção de Arqueologia lisbonense da Associação de Arqueólogos Portugueses, a  que presidiu de 1920 a 1925 e ainda, conservador do Museu  Nacional da Arte Antiga em 1911.

Refira-se que já 41 anos antes, pelo Edital municipal de 19 de abril de 1932,  o nome de José Queirós havia sido dado à Rua B do Casal de Sete Rios, arruamento constante do projeto de melhoramentos para o Casal de Sete Rios, aprovado na sessão de  Câmara de 1 de novembro de 1928 mas que foi um arruamento que nunca saiu do papel e foi executado.

Freguesias do Parque das Nações e dos Olivais
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Avenida do pintor de «O Fado»

Freguesia de Campolide
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Avenida José Malhoa perpetua desde 1972 em Lisboa o pintor do quadro O Fado, aumentando o tamanho da artéria que lhe era dedicada na cidade desde 1955, por sugestão do Museu José Malhoa, das Caldas da Rainha.

José Malhoa começou por estar consagrado em Lisboa numa Rua de Alvalade, no ano do seu centenário de nascimento. O Edital municipal de 20 de outubro de 1955 identificou as ruas do Bairro de Alvalade com topónimos de figuras ligadas à cultura e às artes e assim, a Rua 55 A do Sítio de Alvalade passou a denominar-se Rua José Malhoa. Mas passados 17 anos,  esta artéria passou a ser a Rua General Pimenta de Castro, pelo Edital municipal de 8 de janeiro de 1972, que também transferiu o nome de José Malhoa para um arruamento maior, no prolongamento da Rua Ramalho Ortigão, desde o viaduto sobre a Avenida Calouste Gulbenkian até Sete Rios, ganhando a categoria de Avenida.

Este topónimo havia sido sugerido à Comissão Consultiva Municipal de Toponímia pelo então denominado Museu Provincial de José Malhoa – o único museu criado de raiz pelo Estado Novo – , em 1954, já que no ano seguinte seria o de centenário do nascimento do artista caldense. Mais tarde,  na sua reunião de 23 de dezembro de 1970 a Comissão deparou-se com um despacho do Presidente da CML «solicitando parecer sobre a transferência do topónimo que consagrou o nome de José Malhoa, para um arruamento de maior categoria» e quase um ano depois, na reunião de 20 de outubro de 1971,  outro despacho do Presidente da CML pedia «parecer sobre a denominação do arruamento em construção no prolongamento da Rua Ramalho Ortigão», tendo então a Comissão considerado «que a considerável extensão do arruamento, sua localização e importância bem justificam o nome de uma grande individualidade; Considerando ainda que o nome de José Malhoa identifica hoje um pequeno arruamento; A Comissão é de parecer que o arruamento em construção no prolongamento da Rua Ramalho Ortigão, desde o viaduto sobre a Avenida Calouste Gulbenkian, até Sete Rios, se denomine Rua José Malhoa/Pintor/1855 – 1933».

Branco e Negro, 21 junho de 1896

José Vital Branco Malhoa (Caldas da Rainha/28.04.1855 – 26.10.1933/Figueiró dos Vinhos) liga-se ao Fado por em 1909 (1ª versão) e em 1910 (versão final) ter pintado o quadro O Fado, um óleo sobre tela (150  × 183 ) hoje no Museu de Lisboa, que se tornou uma imagem icónica desse estilo de música, a ponto de ser recriada em filmes e mesmo se inicialmente foi mal recebida em Portugal, por causa da sua temática considerada marginal e assim, o quadro foi exposto pela primeira vez em Buenos Aires, em 1910, na Exposição Internacional de Arte do Centenário da República da Argentina, com o título Bajo el Encanto, onde conseguiu a Medalha de Ouro e só foi exposto em Lisboa em 1917. A característica  pintura de costumes de Malhoa produziu outras obras emblemáticas como As Cócegas (1904), Os Bêbados (1907) ou Outono (1918).

Apesar de diplomado pela Academia Real de Belas Artes, onde foi discípulo de Vítor Bastos, Tomás da Anunciação e Miguel Lupi, até ao  sucesso de A Seara Invadida exposta em Madrid, em 1881, lhe renovar as esperanças de carreira, José Malhoa dedicou-se ao comércio para seu sustento. Foi assim que depois aderiu ao naturalista Grupo do Leão. Em Lisboa, pintou os tetos da sala de concerto do Conservatório Real de Lisboa, do Supremo Tribunal de Justiça e do Gabinete Real da Escola Médica de Lisboa, bem como os medalhões do teto dos Paços do Concelho de Lisboa (1889). No concurso que a Câmara Municipal de Lisboa abriu em 1887 para um quadro representando A partida de Vasco da Gama para a Índia, o seu esboceto recebeu a primeira classificação entre os concorrentes, sendo nessa ocasião Malhoa agraciado com o grau de cavaleiro da Ordem de Cristo (1888). Malhoa pintou ainda composições históricas de pendor decorativo para o Palácio da Ajuda (1890), Assembleia Constituinte (1891) e  Museu Militar (1907). Foi Presidente da Sociedade Nacional das Belas Artes em 1918. A sua obra está representada nos lisboetas Museu de Lisboa – Palácio Pimenta e Museu de Arte Contemporânea – Museu do Chiado,  bem como no Museu José Malhoa das Caldas da Rainha.

Refira-se que José Malhoa mandou construir  a sua casa em Lisboa sob traçado do Arqº. Norte Júnior, que foi Prémio Valmor 1905 e hoje conhecemos como Casa-Museu Doutor Anastácio Gonçalves, já que este proprietário posterior a legou ao Estado. A decoração a fresco das fachadas foi executada por Mário Eloy, segundo modelos do próprio Malhoa e de António Ramalho e as esculturas foram obra de Costa Mota. Pertenceu, mais tarde, a Anastácio Gonçalves que a legou ao Estado.

Freguesia de Campolide
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua da pintora Maluda que é nome de fado

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A pintora Maluda dá o seu nome a uma Rua da freguesia de Santa Clara desde 2007 e  também a um fado que Carlos Zel lhe dedicou no seu álbum de 1993.

Maria de Lurdes Ribeiro, que se fixou na nossa memória como Maluda,  deu nome à Rua 1 ou arruamento projetado ao Bairro das Galinheiras oito anos após o seu falecimento, por via do Edital municipal de 27 de abril de 2007, nascendo assim a Rua Maluda (Maria de Lurdes Ribeiro), com a legenda «Pintora/1934 – 1999». O mesmo documento municipal colocou também o escultor Barata Feyo na Rua 2 e  a fadista Berta Cardoso na Rua 3.

Autorretrato de 1968

Maria de Lurdes Ribeiro (Índia – Pangim/15.11.1934 – 10.02.1999/Lisboa) começou na pintura como retratista autodidata, integrada no grupo Os Independentes, ainda em Lourenço Marques, onde viveu a partir de 1948. Depois, estudou em Lisboa (1963)  e Paris (1964), cidade onde trabalhou na Académie Grande Chaumiére com os pintores Jean Augame e Michel Rodde, altura em que se começou a interessar por composições da paisagem urbana. Também estudou em Londres e na Suíça (1977).

Maluda radicou-se em Lisboa no ano de 1967 e logo no seguinte pintou os seus primeiros óleos da cidade. Dois anos depois, concretizou a sua primeira exposição individual, na Galeria do Diário de Notícias e a partir daí desenvolveu uma obra artística que somou retratos – com destaque para os de Amália Rodrigues, Ana Zanatti e Aquilino Ribeiro -, serigrafias, tapeçarias, cartazes, painéis murais, ilustrações e selos de correio. Em 1970, inaugurou a sua casa-atelier na Rua das Praças, na fronteira da Madragoa com a Lapa. Depois pintou sobretudo Lisboa, a sua luz e o lado geométrico e contrastante da cidade, tendo ficado famosas as suas séries Quiosques de Lisboa e As Janelas de Lisboa. A série dos quiosques foi mesmo consagrada numa coleção de selos editada pelos CTT e ganhou o prémio mundial Melhor Selo em Washington (1987) – para o selo do famoso Quiosque Tivoli da Avenida da Liberdade- bem como ganhou em Perigueux (1989), desta vez pelo seu selo Évora Património Mundial. Em 1984 montou exposições individuais em Nova Iorque, Washington e Dallas ao mesmo tempo que participou na Bienal Ibérica em Campo Maior. Em 1993, o fadista Carlos Zel incluiu no seu álbum Fados o Fado Maluda, com letra de Rosa Lobato de Faria e música de Carlos da Maia.

Maluda foi galardoada com o Prémio de Pintura da Academia Nacional de Belas Artes (1979), com os poemas Persiana para Janela de Maluda (I e II) de Alexandre O’Neill em 1981,  com o Prémio Bordalo da Casa da Imprensa (1994),  a Ordem do Infante (1998) pelo então Presidente da República Jorge Sampaio, para além de, em 2001, José-Augusto França eleger o seu quadro Portel (de 1986) como um dos 100 Quadros Portugueses do Século XX. Refira-se ainda que em testamento, a artista instituiu o Prémio Maluda a atribuir pela Sociedade Nacional de Belas Artes.

Freguesia de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua Leitão de Barros, do realizador da Severa e criador das Marchas Populares

Leitão de Barros, o realizador de A Severa o primeiro filme sonoro português, exibido em 1931 – e  criador das Marchas Populares de Lisboa em 1932, conhecido como o homem dos sete instrumentos, teve o seu nome perpetuado numa Rua de São Domingos de Benfica, pelo Edital municipal de 4 de novembro de 1970, três anos após o seu falecimento.

A Rua Leitão de Barros resultou de uma sugestão do próprio Presidente da edilidade de então, Engº Santos e Castro,  e ficou no 1º Impasse à Rua Padre Francisco Álvares e pelo mesmo Edital municipal o 2º Impasse ficou para a Rua Raquel Roque Gameiro, cunhada de Leitão de Barros e igualmente ilustradora como Helena Roque Gameiro.

José Júlio Marques Leitão de Barros (Lisboa/22.10.1896 – 29.06.1967/Lisboa), homem dos sete ofícios, foi professor do ensino secundário, pintor, cenógrafo, dramaturgo e ainda, jornalista e cineasta (as duas áreas pelas quais ganhou mais fama), bem como aquilo que hoje designaríamos como produtor de eventos.

Foi o pioneiro da primeira geração de cineastas do sonoro, sendo seu o primeiro filme sonoro português, A Severa, em 1931, a partir do romance de Júlio Dantas. Leitão de Barros começou em 1918 como cineasta com Malmequer e Mal de Espanha, distinguindo-se depois pelas suas super produções históricas como Bocage (1936), Inês de Castro (1945) ou Camões (1946), para além de Maria do Mar (1930), Lisboa, Crónica Anedótica (1930), As Pupilas do Senhor Reitor (1935),  Maria  Papoila (1937), Ala Arriba! (1942) ou Vendaval Maravilhoso (1949), no qual Amália Rodrigues integrou o elenco.  No documentário, salientam-se os seus Sidónio Pais – Proclamação do Presidente da República (1918), Nazaré (1927),  Legião Portuguesa (1937), Mocidade Portuguesa (1937), A Pesca do Atum (1939), Comemorações Henriquinas (1960), A Ponte da Arrábida Sobre o Rio Douro (1961) ou A Ponte Salazar sobre o Rio Tejo em Portugal (1966).  Leitão de Barros foi também o principal animador da construção dos estúdios da Tobis Portuguesa, na Quinta das Conchas, no Lumiar.

Leitão de Barros frequentou a Faculdade de Ciências e a de Letras mas  acabou por concluir o curso de arquitetura na  Escola de Belas Artes de Lisboa e o curso da Escola Normal Superior de Lisboa, após o que   foi professor de Desenho, Geometria Descritiva e Matemática nos liceus Camões e Passos Manuel. Casou em 17 de agosto de 1923 com a ilustradora Helena Roque Gameiro (1895 – 1986), a 2ª filha de Alfredo Roque Gameiro.

Em 1916 iniciou-se no jornalismo. Fundou e dirigiu O Domingo Ilustrado (1925-1927) e O Notícias Ilustrado (1928-1935). Colaborou nos jornais O Século – onde criou O Século Ilustrado e a Feira Popular de Lisboa, em 1943 -,   A Capital,  ABC, assim como na revista Contemporânea e na de cinema Movimento, tendo sido o Diário de Notícias a sua última tribuna, de 1953 a 1967, onde saía aos domingos a sua crónica semanal «Os Corvos».

Nas décadas de trinta e quarenta, Leitão de Barros investiu em eventos de animação da cidade. Começou as Marchas Populares em 1932, no Capitólio, para revitalizar o Parque Mayer, sendo que em 1934 já foram cerca de 300 mil pessoas que assistiram ao desfile da Praça do Comércio ao Parque Eduardo VII. Depois, foram os monumentais cortejos como o Cortejo das Viaturas (1934), os Cortejos das Festas da Cidade (em 1934 e 1935), o da Embaixada do século XVIII (1936),  o Cortejo e o Torneio Medieval dos Jerónimos (1938) e o Cortejo Histórico de Lisboa (1947).  Em 1939 e 1940, foi o Secretário Geral da Exposição do Mundo Português e o  responsável pela Nau Portugal.  Foi agraciado com a comenda da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada em 1935 e com o Grande- Oficialato da Ordem Militar de Cristo em 1941. Também foi o organizador das receções triunfais a Franco (1949) e à Rainha Isabel II (1957).

Como pintor, dispunha de  ateliê na Rua D. Pedro V e expôs em museus portugueses, no Museu de Arte Contemporânea de Madrid e ainda, no Brasil. Foi também cenógrafo e dramaturgo de muitas peças que subiram à cena em Lisboa, nomeadamente no Teatro Nacional, para além de ter sido diretor da Sociedade Nacional de Belas-Artes.

Freguesia de São Domingos de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

A Rua do Professor da António Arroio, Cipriano Dourado

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O pintor e professor da Escola de Artes Decorativas António Arroio, Cipriano Dourado, está desde o ano do seu falecimento consagrado numa artéria do Lumiar, tendo sido acompanhado no mesmo Edital municipal pelo também pintor José Escada.

A partir da Proposta nº 13/81, aprovada em reunião de Câmara de 23/03/1981, foi o nome de Cipriano Dourado dado ao arruamento de ligação da Rua Francisco Stromp ao Campo Grande (incluindo o troço norte-sul da Rua Actor António Silva), o que foi fixado pelo consequente Edital de 4 de dezembro de 1981. Por esse mesmo edital e na mesma freguesia, mas na zona de Telheiras, foi inscrito também numa rua o nome do pintor José Escada.

Cipriano Dourado (Mação- Penhascos/08.02.1921 – 17.01.1981/Lisboa) foi um artista que se dedicou à gravura, ao desenho, à ilustração, à pintura e à aguarela, tendo como os temas mais frequentes da sua obra a mulher e a terra. Por alguns foi considerado neorrealista, nomeadamente por em 1953 ter participado numa experiência conhecida como Ciclo de Arroz, com Júlio Pomar, Alves Redol, Rogério Ribeiro, Alice Jorge e António Alfredo, em que todos percorreram os campos dos arrozais do Ribatejo em busca de inspiração e Cipriano Dourado criou as suas litografias intituladas Plantadoras de Arroz.

Na Escola de Artes Decorativas António Arroio foi docente das disciplinas de desenho, gravura e artes gráficas, de 1978 a 1981.

Cipriano Dourado começara a trabalhar bem novo, como desenhador-litógrafo pelo que só mais tarde, a partir de 1939 , frequentou um curso nocturno na Sociedade Nacional de Belas Artes. Em 1949 fez um estágio na Academia Livre Grande Chaumière, em Paris e em 1956, foi um dos membros fundadores da Gravura- Sociedade Cooperativa de Gravadores, tendo integrado a direção e a comissão técnica.

Como ilustrador, trabalhou em numerosos livros de poesia e prosa de Armindo Rodrigues,  Augusto Gil,  D. H. Laurence, José Carlos de Vasconcelos, Mário Braga, Orlando da Costa, Orlando Gonçalves e Pablo Neruda, para além de ter colaborado com periódicos como, entre outros, a Árvore-Folhas de Poesia, a Cassiopeia-Antologia de Poesia e Ensaio, a Colóquio-Letras, a Seara Nova ou a Vértice.

Refira-se ainda que Dourado desenhou 4 selos dos CTT para uma Emissão Comemorativa do Ano da Conservação das Zonas Húmidas (1976), foi membro do júri da I Exposição Nacional de Gravura na Fundação Calouste Gulbenkian (1977) e também integrou os corpos dirigentes da Sociedade Nacional de Belas Artes de Lisboa.

A sua obra está representada no Museu do Chiado/Museu de Arte Contemporânea, no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, no Museu da CGTP, no Museu do Neo-Realismo (Vila Franca de Xira), no Museu Armindo Teixeira (Mirandela), no Museu Dr. João Calado Rodrigues (Mação), no Museu Municipal Manuel Soares (Albergaria), no Museu Municipal Professor Joaquim Vermelho (Estremoz), no Museu de Angola e, em numerosas coleções particulares.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua Hein Semke, de um escultor alemão em Portugal

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O escultor alemão Hein Semke que veio para Portugal na primavera de 1929 e se radicou na cidade de Lisboa em 1949, dá o seu nome a uma rua da Freguesia de Santa Clara, desde 2011.

Foi pelo Edital municipal de 3 de janeiro de 2011 que o nome de Hein Semke foi atribuído à Rua I 1B das Malhas 22.4 e 27.1 do Plano de Urbanização do Alto do Lumiar, ligando hoje a Rua João Amaral à Rua Rogério de Moura, correspondendo assim a edilidade a um perdido de Teresa Balté. Nas imediações encontramos topónimos com os nomes do escultor António Duarte e dos pintores António Dacosta Bernardo Marques.

Em 1972
( Foto: Mário de Oliveira)

Hein Semke (Alemanha – Hamburgo/25.06.1899 – 05.08.1995/Lisboa) veio para Portugal em 1929 mas ao ser vítima de um esgotamento no ano seguinte voltou à Alemanha para recuperar e aí acabou por estudar escultura e cerâmica regressando ao nosso país em 1932, onde morou em Linda-a-Pastora e por lá passaram nomes do modernismo português, como Almada Negreiros e Sarah Afonso, Mário Eloy, Abel Manta, Vieira da Silva e Árpád Szenes. A partir de 1949 fixou residência na cidade de Lisboa,  tendo tido atelier na Avenida 24 de Julho (1937 -1941) e a partir de 1953 na Praça António Sardinha, onde também passou a residir, para além trabalhar regularmente na Olaria de Benfica, tornando-se uma figura da vida cultural portuguesa, destacando-se sobretudo como escultor, renovador da cerâmica portuguesa e xilogravador.

A sua obra está publicamente exposta em Lisboa nos painéis cerâmicos da Reitoria da Universidade de Lisboa; na Capela de Santo António do Lumiar; na Igreja Evangélica Alemã de Lisboa, com as três esculturas para o Pátio de Honra aos Mortos Alemães da Grande Guerra, tendo uma sido destruída em 1935 por elementos nazis da colónia alemã em Lisboa; nos murais cerâmicos do Jardim de Inverno do Hotel Ritz ; e ainda nos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian. A sua obra artística de décadas em Portugal foi reconhecida em exposições como a retrospetiva dos seus «Hein Semke – 40 anos de atividade em Portugal» (1972) na Fundação Calouste Gulbenkian; a visão da sua obra cerâmica teve lugar no Museu Nacional do Azulejo em 1991 e a da sua obra escultórica ocorreu em 1997 no Museu José Malhoa, nas Caldas da Rainha.

Semke foi também, a partir de 1958, autor de 34 livros de artista de grandes dimensões,   sendo o primeiro  Em cada Criatura Nasce uma Flor, e o seu Livro da Árvore sido publicado em formato reduzido, em 1995, pela Gulbenkian – ACARTE e o tema de uma exposição na Biblioteca Nacional.

A obra deste escultor alemão está representada no Museu do Chiado-MNAC, na Fundação Calouste Gulbenkian, no Museu Nacional Soares dos Reis, no Museu de José Malhoa e na Casa-Museu João Soares, tendo sido agraciado com o Oficialato da Ordem de Mérito da República Federal da Alemanha (1978) e o Grau de Comendador da Ordem do Infante Dom Henrique (1990).

Na Alemanha, Hein Semke foi aos 18 anos combatente voluntário na I Primeira Guerra Mundial; trabalhou na construção civil, em estaleiros, a vender jornais, em pedreiras, minas e numa fundição; foi pacifista e anarquista, com participação na Revolução de Maio e na Revolução de Outubro, o que lhe valeu 6 anos de prisão na Alemanha, entre 1923 e 1928; e ainda, estudante de cerâmica e escultura na Escola de Artes e Ofícios de Hamburgo e na Academia de Belas-Artes de Estugarda (1930 – 1932).

Freguesia de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

 

A Rua de Francisco Lourenço da Fonseca que enriqueceu no Brasil e foi vereador lisboeta

Freguesia de Alvalade

Desde 1956 que a Rua Francisco Lourenço da Fonseca homenageia, na freguesia de Alvalade, o comerciante que enriqueceu no Brasil e foi vereador da autarquia lisboeta no biénio de 1876 e 1877.

Foi através da publicação do Edital municipal de 26 de maio de 1956 que a Rua 37 A do Sítio de Alvalade passou a ter como topónimo oficial Rua Francisco Lourenço da Fonseca. O mesmo Edital colocou nas artérias circundantes os pintores do Grupo do Leão, António Ramalho, Cipriano Martins, João Vaz, Moura Girão e Ribeiro Cristino, o elemento dos Vencidos da Vida Carlos Mayer, o autor da letra do Hino Nacional Lopes de Mendonça e ainda, o Largo de Alvalade.

O comerciante Francisco Lourenço da Fonseca (Vila Nova de Gaia/10.08.1818 ou 1819– 09.03.1906/Dafundo) fez fortuna no Brasil, para onde emigrou,  e após regressar a Portugal em 1862, foi eleito vereador da Câmara Municipal de Lisboa, nos anos de 1876 e 1877, sob a presidência de Luís de Almeida e Albuquerque e a vice-presidência de Rosa Araújo. Nesse biénio, Francisco Lourenço da Fonseca deteve a responsabilidade das obras públicas municipais, tendo-se  destacado por produzir melhoramentos nos Jardins da Estrela e de São Pedro de Alcântara,  requisitar um arquiteto ao Ministério das Obras Públicas para as obras do município, reconstruir as Escadinhas da Barroca, bem como por  ter iniciado a expropriação de terrenos para a abertura de uma avenida a norte do Passeio Público, que viria a ser a Avenida da Liberdade mandada executar por Rosa Araújo. Francisco Lourenço da Fonseca foi ainda tesoureiro da Comissão Central 1° de Dezembro que promoveu a construção do Monumento aos Restauradores.

Francisco Lourenço da Fonseca, comendador  da Ordem de Cristo, foi ainda diretor do Asilo de Santa Catarina –  internato feminino instalado desde 1858 no complexo conventual de São João Nepomuceno, no Largo São João Nepomuceno  –, e casado com Maria José Oliveira Gaia ( Brasil- Rio Grande do Sul/19.02.1832 – 06.05.1912/Lisboa), de quem teve 4 filhos: Francisco Lourenço da Fonseca Júnior (Brasil – Rio Grande do Sul/06.06.1848 – 06.07.1902/Lisboa), Wenceslau da Fonseca (n. 1850), Álvaro da Fonseca (n. Brasil – Rio Grande do Sul/15.02.1855) e Alfredo da Fonseca (n. Lisboa – Freguesia de Santa Catarina/04.08.1862).

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias)