Da Praça da Alegria à Praça do Suplício

Praça da Alegria e Jardim Alfredo Keil – Freguesia de Santo António
(Foto: Artur Matos)

A Cotovia foi um termo usado até ao séc. XVIII para designar a cumeada desde a Rua D. Pedro V até ao Largo do Rato assim como a Cotovia de Baixo passou a ser sítio da Alegria, tendo a sua Praça da Alegria sido também um Campo de Forca que por algum tempo a população denominou como Praça do Suplício.

O olisipógrafo Norberto de Araújo recorda que esta Praça da Alegria também foi conhecida como Praça do Suplício durante uns três anos, após ter sido lá enforcada Isabel Xavier Clesse, em 31 de março de 1771. O marido da enforcada, Tomaz Goilão, viajou para a Índia e ela passou esse tempo a viver com um porta-bandeira e quando o marido regressou, envenenou-o com ácido nítrico.

Também na Cotovia de Cima, onde em 1756 fora inaugurada a Basílica Patriarcal que acabou destruída por fogo posto em 1769, teve o culpado do incêndio, um tal Alexandre Vicente, a pena de ser  garrotado e queimado vivo no local.

Sobre a origem deste topónimo Norberto de Araújo sugeriu que o sítio da Alegria era a antiga Patriarcal Queimada ou Praça do Príncipe Real de hoje, que se prolongava até ao Rato: «Ora vamos ver – a Alegria, sítio a-par da velha Cotovia de Baixo (a Cotovia de Cima, ou simplesmente a “Cotovia” era a actual Praça do Rio de Janeiro [hoje Praça do Príncipe Real], em prolongamento até o sítio do Rato). » Por documentos que referem a praça da Alegria de Cima e a praça da Alegria de Baixo ligadas por uma rampa, podemos mesmo considerar viável que a de Cima fosse a do Príncipe Real e a de Baixo, a da Alegria. Na primeira metade do século XVIII esta zona era ainda um local de terrenos de cultivo, conforme também esclarece o mesmo olisipógrafo: «(…) Repizo que na primeira metade do século XVIII tudo por aqui eram terrenos de cultivo, abaixo da quinta ou da cêrca dos Padres da Companhia (Jardim Botânico de hoje), ligados a S. José, razão porque esta zona arrabaldina se chamou também Cotovia de S. José. (Para se entender isto melhor é preciso fechar os olhos, e não ver a Avenida actual)». Depois do Terramoto de 1755 é que as populações se sentiram atraídas para esta área descampada e pouco povoada: «A Alegria, pois, é posterior ao Terramoto; (…) Com a construção e desenvolvimento do Passeio Público, cresceu a Alegria; com a abertura da Avenida tornou-se de maioridade». A partir de 1773 passou a realizar-se na Cotovia de Baixo, ou Alegria, a Feira da Alegria, sendo de 9 de fevereiro o aviso do Marquês de Pombal ao Senado municipal para que ordene a transferência das vendedeiras do Rossio e do Largo de São Domingos para a Praça da Alegria e aí se foi realizando até 1882.

No final do séc. XVII, de 1792 a 1796, encontram-se vários requerimentos de indivíduos que querem ser aguadeiros do Chafariz da Praça da Alegria e até de um mestre marceneiro que quer fazer obras na sua loja na Praça da Alegria. Na cartografia de Lisboa, a Praça da Alegria surge já na planta de Duarte Fava de 1807, no Atlas de Filipe Folque em 1857. Norberto de Araújo defende que a maioria dos prédios da Praça da Alegria são do período de 1840 a 1850 e os registos encontrados no Arquivo Municipal têm 1846, 1852 e 1856 como os anos com maior número de pedido de construção de novos prédios nesta artéria. Em 1881, muitos prédios da Praça foram expropriados e demolidos para a construção da Avenida da Liberdade mas nesse mesmo ano também começou a ser plantado nesta Praça um Jardim.

Em termos da toponímia oficial a Câmara através do Edital de 08/06/1889 atribuiu à antiga Rua Nova da Alegria o topónimo Rua da Alegria. Sabemos que quanto à Praça da Alegria uma deliberação camarária de 24 de maio de 1920 passada a Edital em 8 de junho de 1925 mudou-lhe o nome para  Praça Alfredo Keil. Contudo, no ano seguinte,  a Comissão Executiva da Câmara na sua sessão de 31 de maio  aprovou a proposta do vereador Alfredo Guisado para que o antigo Jardim da Praça da Alegria, denominado Jardim Fialho de Almeida, passasse a denominar-se Jardim Alfredo Keil, por estar autorizada a construção naquele jardim de um monumento à memória de Alfredo Keil por Teixeira Lopes, do que foi feito Edital em 17 de junho de 1926. E desde aí fixaram-se os dois topónimos deste local:  por Edital municipal ficou o Jardim Alfredo Keil e, pelo uso, a Praça da Alegria.

Freguesia de Santo António
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC)

A Praça e a Rua de Dom Luís I, o rei que promulgou a abolição da pena de morte

Praça de Dom Luís I – Freguesia da Misericórdia

O  rei de Portugal desde 1861, Dom Luís I , que em 1867 promulgou a Carta de Lei de abolição da pena de morte foi perpetuado numa Praça logo no ano seguinte a ser entronizado e em 1947, 80 anos depois da abolição, foi mais uma vez fixado numa Rua que justamente se inicia na Praça de Dom Luís I.

A 1 de julho de 1867, D. Luís I mandou publicar a Carta de Lei que aprovou a reforma penal e das prisões e ditou a abolição da pena capital para todos os crimes civis em Portugal, assumindo uma posição abolicionista e pioneira no panorama europeu. Três ano depois, o decreto do alargamento da Lei da Abolição às colónias de 1870, destacou no seu preâmbulo o eco positivo que a aprovação do novo código civil de Barjona de Freitas pelo parlamento português tinha tido nas personalidades estrangeiras empenhadas no abolicionismo.

Aliás, a última condenação à morte em Portugal, executada em  Lagos, ocorrera em 1846,  21 anos antes da abolição, sendo condenado José Joaquim, de alcunha José Grande, guerrilheiro absolutista que perpetrou um homicídio violento e foi julgado duas vezes pelo crime antes da sentença de pena capital.

Rua Dom Luís I – Freguesias da Misericórdia e da Estrela
(Foto: Sérgio Dias|NT do DPC)

A Praça de Dom Luís I resultou de uma proposta aprovada na  sessão de Câmara de 10/02/1862 para que no Aterro da Boavista, no terreno confinante pelo norte com a Casa da Moeda, pelo sul com o Tejo, pelo nascente com o Forte de São Paulo e pelo poente com a Rua 24 de Julho [hoje Avenida], se formasse uma Praça e que a mesma tivesse a denominação de Praça de Dom Luís I, ou seja, cerca de 4 meses após D. Luís ter assumido o trono (14/10/1861), por morte do seu irmão D. Pedro V. Hoje esta Praça é delimitada pela Avenida 24 de Julho, Rua Dom Luís I, Rua da Ribeira Nova, Rua da Moeda e Travessa do Carvalho.

Este rei de cognome O Popular, teve ainda  dupla honra toponímica, uma vez que para além da Praça em vida também recebeu uma rua após falecer.  Algumas remodelações urbanísticas da zona onde a Praça de Dom Luís I se insere, produziram também algumas alterações toponímicas e assim o Edital municipal de 17/06/1947 determinou que o troço da Rua Vasco da Gama compreendido entre a Praça de Dom Luís I e a Avenida Presidente Wilson [hoje, Avenida Dom Carlos I] passasse a ser Rua Dom Luís I, ao mesmo tempo que o troço da Rua Vasco da Gama com os prédios com os nºs 1 a 51 e 24 a 6 se tornou o Largo Vitorino Damásio e o troço da Rua Vasco da Gama com os nºs 68 a 172 unido com a Rua Vitorino Damásio foi fixado como Largo de Santos.

Curiosamente, menos de três anos depois, a Comissão Consultiva Municipal de Toponímia na sua reunião de 19/01/1950 propôs alterar os nomes da Praça Dom Luís I e da Rua Dom Luís I para Praça e Rua Marquês de Sá da Bandeira, em virtude de existir na Praça um monumento a este militar e político. Contudo, nunca se executou esta alteração  e o marquês manteve a sua homenagem resultante da deliberação da então Câmara Municipal de Belém de  31 de março de 1880, na toponímia das Avenidas Novas, como Rua Marquês de Sá da Bandeira: era a «Estrada que principia na Barreira do Rego e termina no Largo do Rego a S. Sebastião da Pedreira» que também por deliberação da edilidade belenense de 20/10/1881, passou a terminar no Campo Pequeno.

Revista Contemporânea, dezembro de 1861

D. Luís (Lisboa- Paço das Necessidades/31.10.1838-19.10.1889/Cascais), segundo filho da rainha D. Maria II e de D. Fernando de Saxe-Coburgo-Gota,  foi o 32º rei de Portugal, de novembro de 1861 até à data da sua morte em 1889. Destinado a oficial da Marinha era capitão-de-mar-e-guerra quando teve de subir ao trono português. Celebrou contrato de casamento no ano seguinte à sua entronização, com D. Maria Pia, com quem teve dois filhos: aquele que viria a ser D. Carlos I e o infante D. Afonso Henriques. Durante o seu reinado teve como chefes de governo o Duque de Loulé, o  Marquês de Sá da Bandeira, Joaquim António de Aguiar, Fontes Pereira de Melo, o Duque d’Ávila, o Duque de Saldanha, Anselmo José Braamcamp, António Rodrigues Sampaio, José Luciano de Castro e conseguiu ver concluído o caminho de ferro do norte com a construção da ponte Maria Pia (1877) bem como concluída a linha do Algarve (1889).

D. Luís possuía além de instrução científica, a arte da composição musical que também executava em piano e violoncelo e o domínio falado de 7 idiomas europeus, tendo até traduzido obras de Shakespeare que publicou sem menção do seu nome, tendo sido a primeira Hamlet, em 1877.  Como presidente da Academia Real das Ciências instituiu um prémio para a obra mais notável publicada em cada ano, para além de ter sido presidente do Congresso de Beneficência Municipal e fundado os Albergues Nocturnos.

A Praça de Dom Luís I e a Rua Dom Luís I – Freguesias da Misericórdia e da Estrela (Planta: Sérgio Dias, NT do DPC)

 

Os Rossios, os Largos, as Praças e as Pracetas

Rossio dos Olivais em 1998 
(Foto: Tiago Venâncio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Os Rossios, os Largos, as Praças e as Pracetas são quatro tipo de arruamentos de forma mais ou menos circular ou em quadrilátero, que se distinguem dos outros que se estendem em linha reta.

Rossio é uma palavra cujo «étimo de rossio ou ressio não está ainda dado», conforme já escrevia José Pedro Machado em 1936 e assim continua. Corresponde a  um lugar espaçoso, um terreno largo que pode ser fruído em comum pela população, equivalente à antiga denominação de terreiro que se foi apagando progressivamente de Lisboa, embora ainda apareça como memória em topónimos com outras categorias como podemos observar nas Escadinhas, Largo, Rua e Travessa do Terreiro do Trigo, bem como na Travessa do Terreiro a Santa Catarina. 

Nos dias de hoje Lisboa ainda comporta  3 rossios: o Rossio de Palma na freguesia de São Domingos de Benfica; o Rossio dos Olivais  no Parque das Nações que retoma um antigo topónimo da Freguesia dos Olivais que em 1892 passou a ser a Praça da Viscondessa dos Olivais; e o Rossio do Levante também criado para a EXPO 98.

O Rossio mais famoso de Lisboa e assim popularmente conhecido pela maioria, desde o séc. XIX que tem a tipologia de Praça: primeiro, como Praça do Rossio, depois como Praça de D. Pedro (1836) e desde 1971, é a Praça D. Pedro IV.

Largo Associação Ester Janz – Freguesia dos Olivais
(Foto: Sérgio Dias)

O Largo é uma palavra com origem no latim para designar uma área urbana espaçosa na confluência de várias ruas, mais informal do que a Praça porque não pressupõe que nasça a partir de uma urbanização criada propositadamente para o local. Lisboa tem hoje 219 Largos, nos quais estão inscritos 105  topónimos  relativos a diversas personalidades e 111 mostram referências locais ( como por exemplo, o Largo da Academia Nacional de Belas Artes, da Achada, da Anunciada, da Memória, da Ponte Nova, da Sé, da Oliveirinha,  da Escola Municipal, das Fontainhas ou do Museu de Artilharia), a que se somam 3 casos diferentes: o  Largo dos Defensores da República (Edital municipal de 1916), o  Largo da República da Turquia (Edital de 1973) e o Largo da Revista Militar (Edital de 1999).

Praça Europa – Freguesia da Misericórdia
(Foto: Artur Matos)

A Praça também é uma palavra de etimologia latina mas distingue-se do Largo pela regularidade do traçado: a Praça é uma figura geométrica mais regular que o Largo, na maioria das vezes em resultado de ser já pensada no conjunto da urbanização do local, como podemos observar na Praça do Comércio, traçada após o terramoto de 1755 no âmbito da reconstrução da Baixa pombalina. A Praça é a herdeira da ágora grega e do fórum romano, como espaço intencionalmente projetado na urbanização da cidade, a que se junta também uma certa ideia de público no local. Lisboa integra 113 Praças, sendo 22 relativas aos locais onde se inserem (como a Praça do Município, Praça da Armada, da Estrela, da Ribeira, das Águas Livres, das Indústrias, de São Bento, de São Francisco Xavier, de São Paulo, do Aeroporto, do Caramão, Praça dos Congressos ou Praça Ginásio Clube Português ), 85  com topónimos de personalidades ou nomes de localidades e países e, finalmente 6 topónimos simbólicos, em que a construção da Praça é pensada para uma homenagem específica: a Praça do Comércio que homenageia os comerciantes lisboetas que contribuíram para a reconstrução da Baixa lisboeta (Decreto régio de 05/11/1760); a Praça dos Restauradores para celebrar a independência de Portugal de 1640 (Edital de 22/07/1884) na nova praça construída pela edilidade alfacinha no âmbito da abertura da Avenida da Liberdade; a Praça do Império projetada por Cottinelli Telmo para a Exposição do Mundo Português de 1940 e que ficou como parte integrante da cidade como imagem de monumentalidade do Estado Novo (Edital de 29/04/1948); a Praça 25 de Abril, uma nova praça aberta nos terrenos da antiga Fábrica de Material de Guerra no âmbito das comemorações dos 25 anos do 25 de Abril (Edital de 22 de Abril de 1999); a Praça do Oriente construída no âmbito da EXPO 98 sobre os Oceanos que homenageava também o papel dos portugueses no encontrar um outro caminho para Oriente pelos Oceanos (Edital de 16/09/2009); e por último, a Praça Europa, construída propositadamente como espaço de estada e onde se instalaram os edifícios do Observatório Europeu da Droga e Toxicodependência (OEDT) e da Agência Europeia de Segurança Marítima (Edital de 12/06/2013).

Praceta do Chinquilho – Freguesia de Alcântara
(Foto: Mário Marzagão)

Finalmente, temos a Praceta, tipologia nascida no séc. XX por resultar de urbanizações  citadinas com novas características que criam estas pequenas praça ou pequenos largos que, por vezes, nas plantas traçadas são nomeadas como impasses, a denunciar a influência francesa no urbanismo. Lisboa conta 14 pracetas, sendo 7 de referências locais ( como por exemplo a Praceta Cuf, a da Quinta de São João Baptista, a do Chinquilho, ou a das Torres do Restelo) e 7 de personalidades diversas.

 

A Praça de São Paulo, do obelisco e dos quiosques

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias)

Na confluência da Rua de São Paulo, Rua da Ribeira Nova, Rua Nova do Carvalho e Travessa de São Paulo, encontramos a Praça com a invocação do mesmo apóstolo, que chegou até a ser o nome da freguesia, e que desde 1849 conta com um chafariz em forma de obelisco e desde o final do séc. XX, também com quiosques.

O nome deriva da Igreja de São Paulo que no centro da Praça foi edificada no séc. XV, provavelmente em 1412, de acordo com uma inscrição latina incrustada no templo, sendo que os alvarás para instituição da freguesia de São Paulo são de 1566 e de 1568. O terramoto de 1755 que destruiu grande parte desta zona ribeirinha, fazendo milhares de mortos, destruiu também a Igreja que foi substituída em 1768 por uma nova, traçada pelo Arq.º Remígio Francisco de Abreu, a poente da original e virada a nascente.

Segundo o olisipógrafo Norberto de Araújo, o sítio de São Paulo «Foi de seu princípio ribeirinho, sítio mercadejador, piedoso e turbulento. (…) Remonta ao quinhentismo, extra-muros. Em 1550 não contava como freguesia; existia como formigueiro de mareantes» e avança que «A velha igreja paroquial de S. Paulo já existia em 1572, seguramente [por estar representada na estampa de Braunio datada desse ano] , mas a inscrição latina colocada sobre a porta do templo antigo deixa entender que a igreja fora construída em 1412».

Em 1609, uma postura publicada no porto de Belém no dia 27 de abril , refere já as Praças de São Paulo e do Corpo Santo, bem como a Praça do Pelourinho Velho e a Rua Nova.

Freguesia da Misericórdia – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

Dois elementos icónicos desta praça rodeada de prédios pombalinos são o seu chafariz em forma de obelisco e os seus quiosques, todos nela inseridos no decorrer do séc. XIX.

O chafariz era um pedido insistente dos moradores para melhor abastecimento de água na freguesia, pelo menos desde 1821, atendendo ainda às muitas instituições presentes ao seu redor, como a setecentista Casa da Moeda assim como a realização de uma feira no local. Finalmente, em 1848 os fregueses pediram à Câmara Municipal de Lisboa a construção do chafariz, com água encanada do Chafariz da Esperança e os vereadores aprovaram a construção do chafariz, com a água do Chafariz  do Loreto, aproveitando para o efeito o projeto setecentista de Reinaldo Manuel dos Santos com adaptação ao gosto da época pelo Arq.º Malaquias Ferreira Leal, tendo sido inaugurado em 29 outubro de 1849, como Chafariz nº 28, sendo desde o início estabelecido que a bica do lado da frontaria da igreja apenas servisse «as gentes do mar».

Os quiosques instalados na Praça terão sido dois, a fazer fé nos registos fotográficos e documentais.

Sabe-se que aquele conhecido como Quiosque Castanheira, no lado oposto à Igreja, nasceu cerca de 1870, com alvará atribuído em 1881, como propriedade da família Castanheira, ostentando colunas dóricas em ferro forjado e painéis de vidro pintado a ouro sobre grená onde se publicitavam as bebidas populares do estabelecimento:  capilé, gazosa, pirolito e castanheira. Em 2013, foi vendido pela família Castanheira à cadeia Quiosque de Refresco.

Sabemos também que em 1884 António Joaquim Fernandes arrendou terrenos para a colocação de dois quiosques, sendo um na Praça dos Remolares e outro na Praça de São Paulo. Desconhecemos a sua localização mas talvez fosse o mais próximo da igreja já que no ano seguinte surgem requerimentos do Juiz Francisco S. Carneiro e outros, bem como dos paroquianos da freguesia de S. Paulo, ambos a apelarem para que «seja removido para outro local mais próprio, o quiosque que foi colocado no largo de S. Paulo, frente à Igreja» porque «irá causar ajuntamentos à porta da referida igreja». De igual forma se conhece que, em agosto de 1907, três pessoas de apelido Grima trespassaram a exploração de um quiosque na Praça de S. Paulo a João Gomes da Costa, o qual, em março do ano seguinte o trespassou a Rosa da Cruz.

Esta Praça de São Paulo foi remodelada em 1913 quando a Freguesia passou a ter a denominação de Marquês de Pombal, situação que durará até 1959, ano em que voltará a designar-se São Paulo até em 2012, para desde então integrar o território da Freguesia da Misericórdia.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

A Praça da Ribeira ou Ribeira Nova

Praça da Ribeira em 1960
(Foto: Artur João Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

Hoje, na confluência da Avenida 24 de Julho, Rua dos Remolares, Travessa da Ribeira Nova e Rua da Ribeira Nova encontramos a Praça da Ribeira ou Ribeira Nova, topónimo derivado da proximidade ao Mercado da Ribeira Nova que para aqui  começou a ser transferido a partir de 1771 do Mercado da Ribeira Velha.

O sítio da Ribeira Nova, junto ao Tejo, encontra-se já referenciado nas plantas relativas à descrição das freguesias da cidade resultantes da remodelação paroquial da cidade de 1770. O Cais da Ribeira fora construído em 1768 e o decreto assinado por D. José I em 1771, ordenava a transferência das bancas de peixe, hortícolas e frutícolas do Mercado da Ribeira Velha, junto ao Campo das Cebolas, para o Mercado da Ribeira Nova, na praia de São Paulo, junto à nova zona pombalina reconstruída após o  terramoto de 1755.

Já nos séculos XIX e XX são diversas as denominações atribuídas ao espaço que hoje temos como Praça da Ribeira. Na planta de Filipe Folque, de 1856, o arruamento está identificado como Regueirão da Ribeira Nova, tal como surge na planta de  1859 de Francisco e César Goullard embora num plano de alteração de 1856, do prédio com o nº 17, aparece identificada como Praça da Ribeira Nova e, em 1902, numa planta municipal, é mencionada como Travessa da Ribeira.

Ao lado da Praça da Ribeira, ficou o Mercado da Ribeira que hoje conhecemos, com projeto de Ressano Garcia aprovado em sessão de Câmara de 1876, e construído a partir de 1877,  sendo inaugurado a 1 de janeiro de 1882. A 7 de junho de 1893 um incêndio destruiu parte do Mercado a que se seguiu uma reconstrução e obras de melhoramentos desde 1902 até 1930. A última remodelação do mercado foi inaugurada em 18 de maio de 2014.

Parte do espaço da Praça da Ribeira  foi ocupado  em 1899 pela construção do edifício da Assistência Nacional aos Tuberculosos, obra da vontade da  Rainha D. Amélia.

Sobre a artéria, Norberto de Araújo  recorda que «Este local, antes de se levantar o edifício [da Assistência Nacional aos Tuberculosos], era, por assim dizer, público, havendo-se instalado nele, há cerca de 50 anos [finais do séc. XIX], um destes circos ambulantes, que – por vizinho da Ribeira Nova – foi conhecido pela pitoresca designação do “Circo do Carapau”.» O mesmo olisipógrafo caracteriza o sítio nos anos 30 do século XX da seguinte forma: «Abundavam as baiucas e os “cafés de lepes”; eram frequentes as rixas, não sendo o sítio, pelo que se sabe das crónicas, muito recomendável.»

Em 1946, a Comissão de Toponímia propôs mesmo que o arruamento denominado Praça da Ribeira Nova, por estar no prolongamento da Travessa da Ribeira Nova, passasse com esta a constituir um único arruamento com a denominação de Travessa da Ribeira Nova. Todavia esta alteração toponímica não chegou a concretizar-se.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

A Praça António Sardinha que não passou a Praça Maria Pimentel Montenegro

Freguesia da Penha de França
(Foto: Sérgio Dias)

O poeta e rosto do Integralismo Lusitano António Sardinha, colocado como topónimo lisboeta em 1932, e numa Praça desde 1951, recebeu após o 25 de Abril  um pedido para que fosse substituído pela poetisa Maria Pimentel Montenegro, que já era topónimo desde março de 1974 numa rua de Benfica pelo que não sucedeu modificação alguma.

O caso ocorreu logo na 1ª reunião da 1ª Comissão Municipal de Toponímia pós-25 de Abril, em 15 de novembro de 1974, a partir de uma carta de Branca Alvarez Lopes a propor à edilidade a troca do topónimo Praça António Sardinha para Praça Maria Pimentel Montenegro. Como desde a publicação do Edital municipal de 4 de março de 1974, a artéria que ligava a Rua Dr. João de Barros a uma parte da Rua K já era a Rua Maria Pimentel Montenegro, a Comissão entendeu «que o pedido não é de considerar, porquanto, o nome de Maria Pimentel Montenegro está já consagrado num arruamento da zona de Benfica e quanto à substituição do nome de António Sardinha, deverá aguardar-se maior manifestação popular nesse sentido.»

António Sardinha havia sido consagrado pelo Edital de 31 de março de 1932  na Rua H do plano de  arruamentos da Quinta da Marquesa de Abrantes, em Marvila, aprovado em sessão de 15 de maio de 1930, mas o arruamento nunca chegou a ser executado, como os outros que integravam o plano, pelo que o seu nome voltou a ser dado à Praceta nº 1 da Rua da Penha de França, compreendida entre os nºs 150 e 152 da Rua da Penha de França, através do Edital municipal de 10/01/1951, onde permaneceu até aos dias de hoje.

Política, 10 de janeiro de 1930

O homenageado é António Maria de Sousa Sardinha (Monforte/09.09.1887-10.01.1925/Elvas), formado em Direito pela Universidade de Coimbra, época em que defendeu a implantação da República em Portugal,  para a partir de 1912 se tornar o mentor do Integralismo Lusitano assim como deputado monárquico durante o consulado de Sidónio Pais. A sua obra de cariz doutrinário, define o Integralismo Lusitano como um pensamento político que conjuga a defesa da monarquia, do nacionalismo e do catolicismo, como mostram os seus ensaios O Valor da Raça (1915), A Questão Ibérica (1916), Ao Princípio Era o Verbo A Aliança Peninsular (ambos em 1924), Ao Ritmo da Ampulheta e Teoria das Cortes Gerais (ambos em 1925).

O seu pensamento político teve como órgãos de divulgação as revistas Nação Portuguesa (1914) e A Monarquia (1917), ambas co-fundadas por António Sardinha, com Alberto de Monsaraz, Hipólito Raposo, Luiz de Almeida Braga e Pequito Rebelo no primeiro caso. O seu pensamento antirrepublicano e nacionalista encontrou eco em alguns dos defensores do Estado Novo.

Como poeta, António Sardinha fundiu saudosismo com os valores integralistas lusitanos, tendo publicado Tronco Reverdecido (1910), A Epopeia da Planície (1915), Quando as Nascentes Despertam (1921), Na Corte da Saudade (1922), Chuva da Tarde (1923), para além dos póstumos Era uma Vez um Menino (1926), O Roubo da Europa (1931) e Pequena Casa Lusitana (1937).

Após a morte de Sidónio Pais e o fracasso do movimento da Monarquia do Norte António Sardinha exilou-se em Espanha, no período de 1919 a 1921. De volta a Portugal dirigiu o diário A Monarquia e colaborou no quinzenário A Farça e na revista Lusitania, até falecer aos 37 anos.

Freguesia da Penha de França
(Planta: Sérgio Dias)

Alterações de topónimos tradicionais rejeitadas: Largo do Pote de Água, Largo da Graça e Praça do Comércio

O Largo do Pote de Água – Freguesia de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias)

O Largo do Pote de Água, em Alvalade, a Praça do Comércio em Santa Maria Maior e o Largo da Graça, na freguesia de São Vicente, são topónimos que foram alvo de pedidos de alteração pós-25 de Abril mas que por serem topónimos tradicionais mereceram parecer negativo da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa.

Na reunião de 20 de dezembro de 1974 foi analisada uma carta de Maria Augusta Barbosa, solicitando a alteração do topónimo Largo do Pote de Água. Mais tarde, na de 22 de julho de 1975 foi a vez da carta de Francisco Cota sugerir que a Praça do Comércio passasse a Praça do Povo. Em ambos os casos, por serem alterações de topónimos tradicionais, mereceram o parecer negativo da Comissão Municipal de Toponímia pelo que nunca foi redigida proposta para ser levada a sessão de câmara que caso aprovada expediria um Edital formalizando o nascimento de um novo topónimo.

O sítio do Pote de Água, deu o seu nome à Quinta do Pote de Água, que foi destruída pelo terramoto de 1755 e também daí advieram os topónimos Largo e Travessa do Pote de Água que ainda hoje encontramos. O Largo ficou fixado na memória da cidade pelos seus moradores e o Edital municipal de 21 de dezembro de 1960 colocou-o na Rua 1 à Avenida do Brasil.  Quase nove anos depois, pelo Edital municipal de 23/05/1969, juntou-se a Travessa do Pote de Água, a partir de um pedido do serviço municipal de Escrivania para atribuição de topónimo ao arruamento que ligava a Avenida do Brasil com o Largo do Pote de Água e o Largo João Vaz. A localização da Quinta do Pote de Água, aparece nas memórias paroquiais publicadas em Lisboa na 2ª metade do século XVIII (plantas e descrições pelas freguesias), na Freguesia de Santo André, da seguinte forma: «pela Estrada da Charneca athé a Quinta do Pote de Agoa inclusive, q hoje he de Joseph Antonio Ferreira» e, esclarece mais adiante que a Quinta «foi dos Padres Jezuitas.»

O Largo da Graça – Freguesia de São Vicente                                                  (Foto: Ana Luísa Alvim)

O pedido de alteração do Largo da Graça chegou à reunião da Comissão de 15 de junho de 1976, numa carta do Grupo Escolar Republicano Almirante Reis que avançava com  o nome de Alfredo Pedro Guisado para a substituição, e que mereceu um desfecho semelhante aos anteriores, porque embora «reconhecendo a justiça de ser consagrada na toponímia citadina a figura do doutor Alfredo Guisado, notável republicano e homem de letras, a Comissão emite parecer desfavorável por entender que o topónimo existente é tradicional e não deve, por isso, ser alterado. Na devida oportunidade, e logo que se consiga arruamento condigno, será prestada homenagem a essa individualidade.» O Largo da Graça foi um espaço definido como tal após 1700, cujo nome deriva do antigo Convento de Nossa Senhora da Graça, começado a construir em 1271 naquele local, então conhecido por Almofala, pequeno arrabalde mourisco extramuros onde as tropas de D. Afonso Henriques acamparam durante o cerco de Lisboa. A Almofala mourisca tornou-se no Bairro da Graça, topónimo repetido no Largo, na Calçada, no Caracol, na Rua,  e demais topónimos que a ecoam na Rua da Bela Vista, na Rua e na Travessa do Arco, na Rua do Cardal, na Rua do Sol, na Travessa de Santo António e na Travessa do Olival. Por seu lado,  Alfredo Guisado chegou à toponímia lisboeta em 1977,  através do Edital de 10 de outubro que o colocou numa Rua de São Domingos de Benfica.

Outras sugestões de topónimos ou pedidos de alterações foram rejeitados pela Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa neste período histórico por colidirem com os princípios pelos quais se o órgão consultivo se regia.

A sugestão de Margarida Stella Bulhão Pato Maia Rebelo,  para a atribuição do nome de José Afonso a uma artéria, apreciada na reunião de  20 de dezembro de 1974, foi recusada por contrariar a regra de atribuição de topónimos apenas a falecidos. Recusa análoga teve nessa mesma reunião uma carta anónima que sugeria a restituição do nome de Alferes Malheiro à Avenida do Brasil, pelos óbvios inconvenientes que acarretaria aos residentes das duas artérias assim fixadas desde há 40 anos. No entanto, o jornal A Capital de 10 de fevereiro de 1975 insistiu na proposta, pelo que a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa, reunida quatro dias depois, deu parecer para o assunto ser arquivado.

Por último, na reunião de 14 de fevereiro de 1975, analisou-se o pedido de substituição do topónimo Avenida Casal Ribeiro, remetido por  Miguel Araújo Rato Fernandes, que foi rejeitado, com o parecer de que «esta Comissão entende que não é de alterar o referido topónimo, visto a figura homenageada não ser o “Casal Ribeiro” deputado à Assembleia, mas sim o primeiro conde de Casal Ribeiro – José Maria Caldeira do Casal Ribeiro.»

A Praça do Comércio em 25 de Abril de 1974
(Foto: Fernando Baião, «O Século Ilustrado», 28.04.1974)

 

Da Quinta do Areeiro à Praça para Salvador Allende ou Humberto Delgado

Freguesia do Areeiro
(Foto: Ana Luísa Alvim, 2017)

A Praça do Areeiro, topónimo oficializado pela Câmara Municipal de Lisboa pelo Edital de 17 de fevereiro de 1947, recebeu após o 25 de Abril duas sugestões de alteração: uma, para que passasse a denominar-se Praça Presidente Salvador Allende, o presidente chileno assassinado em 11 de setembro de 1973; e uma outra que propunha a designação de Praça Humberto Delgado, em memória do candidato às eleições presidenciais de 1958 que fora também assassinado, pela PIDE, em 13 de fevereiro de 1965.

Recorde-se que nesta época após o 25 de Abril mais 3 figuras que foram assassinadas passaram a integrar a toponímia de Lisboa: as Ruas dedicadas a José Dias Coelho e a Ribeiro Santos, ambos mortos a tiro pela PIDE, em 1961 e em 1972, bem como a Praça Machado Santos, militar obreiro da implantação da República que foi   assassinado no decorrer da Noite Sangrenta de 1921.

Topónimo derivado da antiga Quinta do Areeiro,  que ainda aparece indicada como tal na planta de Lisboa de 1908, de Júlio Silva Pinto e Alberto de Sá Correia, ao lado de outras 3 Quintas – a dos Peixinhos, a das Olaias e o Casal Vistoso -, a Praça do Areeiro já era assim vulgarmente conhecida, como aliás se pode ler no Edital de 1947: «A via pública situada no término da Avenida Almirante Reis, conhecida por Praça do Areeiro, toma a referida denominação de Praça do Areeiro.»  

A sugestão para que fosse Praça Presidente Salvador Allende adveio de uma carta de Alberto Bastos Flores ainda em 1974. No ano seguinte, a Comissão Nacional de Homenagem ao General Humberto Delgado bem como as Juntas de Freguesia do Alto do Pina, de São João e de Santa Engrácia, sugeriram que o General Sem Medo desse nome à Praça. Nenhuma destas propostas se veio a concretizar neste local. O parecer da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa quanto à artéria a escolher para o General Humberto Delgado, emitido por unanimidade na sua reunião de 29 de junho de 1976, repetiu o princípio de não alteração de toponímia tradicional: «Como tradicionais que são, nenhuma razão de ordem política justifica que se alterem os topónimos Praça do Município ou Praça do Areeiro.»

Todavia, nos anos oitenta, a Praça do Areeiro acabou por ver o seu topónimo alterado. A partir de uma proposta do vereador  Dr. João Martins Vieira com deliberação camarária de 22 de dezembro de 1980 e consequente Edital municipal de 5 de abril de 1982, passou a ser a Praça Francisco Sá Carneiro, com a legenda «1934 – 1980», assim como o Largo do Caldas se modificou para Largo Dr. Adelino Amaro da Costa, para homenagear o primeiro-ministro e o ministro da defesa da época que em 4 de dezembro de 1980 faleceram de forma trágica no decorrer de um voo de Lisboa para o Porto. Na década seguinte, ainda foi aditado à legenda «Antiga Praça do Areeiro», em resultado do parecer da Comissão Municipal de Toponímia de 11 de novembro de 1994.

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

 

O General Sem Medo na toponímia de Lisboa

Humberto Delgado que ganhou o epíteto de General Sem Medo, muito por no decorrer da sua candidatura presidencial em 1958, ter afirmado em relação a Salazar «Obviamente, demito-o!», está perpetuado desde 1979 na toponímia de Lisboa, primeiro como Praça General Humberto Delgado e desde o final de 1990, como Praça Marechal Humberto Delgado, considerando a sua promoção póstuma na carreira militar.

Logo após o 25 de Abril foram vários os pedidos para homenagear Humberto Delgado na toponímia de Lisboa, somando 8 sugestões antes da decisão definitiva. Um deles, analisado na reunião da Comissão Municipal de Toponímia de  20 dezembro de 1974, sugeria que o seu nome fosse  dado à Avenida Dom Carlos Primeiro. Essa mesma carta solicitava que a Rua Agostinho Lourenço passasse a Manuel Rodrigues da Silva,  a Avenida Sidónio Pais fosse a Avenida Doutor Afonso Costa, a Rua António Maria Cardoso tivesse antes o nome de José Dias Coelho  – escultor assassinado pela PIDE -, a Rua General Sinel de Cordes ficasse como Rua Alves Redol (o que sucedeu mesmo) , a Praça do Príncipe Real levasse antes o nome de Aquilino Ribeiro, a  Rua Quirino da Fonseca passasse a  Soeiro Pereira Gomes, a Rua de São Lázaro voltasse ao topónimo republicano de Rua Vinte de Abril, a Praça do Areeiro fosse antes Praça Presidente Salvador Allende e que o Largo de Santos ficasse como Largo Ribeiro Santos (tendo sido antes escolhida a Calçada para Calçada Ribeiro Santos).

A 5 de março de 1975, a Comissão Municipal de Toponímia analisou o pedido da Comissão Executiva de Lisboa de Homenagem ao General Humberto Delgado para que fosse consagrado na toponímia de Lisboa e  a Comissão deu parecer favorável, propondo mesmo que «ao arruamento designado por Rua A no plano de urbanização da Quinta dos Condes de Carnide – Unor 36 – seja atribuído o topónimo  Avenida General Humberto Delgado/1906 – 1965». Todavia, tal não se concretizou pelo que mais tarde, pelo Edital municipal de 23/02/1978, esse arruamento foi designado Avenida do Colégio Militar, curiosamente a instituição de que Humberto Delgado fora aluno. Pode supor-se que não se tenha considerado o arruamento condigno para o efeito, considerando que cerca de 4 meses depois, por cartas da Comissão Nacional de Homenagem ao General Humberto Delgado, bem como das Juntas de Freguesia do Alto do Pina, de São João e de Santa Engrácia, foi solicitado à edilidade lisboeta que o nome de Humberto Delgado fosse atribuído à Praça do Areeiro, a que a Comissão Municipal de Toponímia, de acordo com a Ata da reunião de 22 de julho de 1975, respondeu que «Conforme já foi esclarecido pelo presidente da Comissão, aguarde-se o parecer do M.F.A.»

Em 1976, já na vigência da segunda Comissão Municipal de Toponímia pós- 25 de Abril, a reunião de 15 de junho de 1976 esclarece que «A Comissão entende que, em princípio, servirá condignamente para o efeito, a actual Praça do Aeroporto, conhecida vulgarmente por Praceta do Relógio, até porque, tratando-se de uma figura da Aviação, o nome do General Humberto Delgado ficará bem homenageado nas imediações do aeroporto. Todavia, convirá que a decisão definitiva mereça o consenso da Comissão de Homenagem, pelo que deverá pedir-se a comparência de alguns membros desta, à próxima reunião da Comissão, que terá lugar em 29 do corrente mês, só após o que será emitido parecer definitivo.» No dia definido, compareceram 5 membros da Comissão Executiva da Homenagem Nacional ao General Humberto Delgado, a saber, Dr. Abranches Ferrão, Drª Alcina Bastos, Daniel Pires Lourenço, Dr. Duarte Vidal e José Moreira da Assunção. O vogal da Comissão Municipal de Toponímia José Augusto-França «pronunciou-se desfavoravelmente quanto à pretendida alteração do topónimo Praça do Areeiro, por considerar tratar-se de uma nomenclatura que designa um sítio de Lisboa bastante tradicional que nenhuma razão de ordem política justifica que seja alterada, pese embora a muita consideração que lhe merece a figura do falecido General Humberto Delgado». A Comissão Municipal de Toponímia apresentou também a sugestão da Comissão Administrativa do Concelho de Oeiras para que fosse usada para o efeito a Praça Dom Manuel Primeiro, situada em Algés, nos limites dos concelhos de Lisboa e Oeiras, assim como uma avenida situada no prolongamento da Avenida João Vinte e Um que partindo da Praça do Areeiro segue para Nascente – pelo Edital de 30 de dezembro desse ano passou a ser a Avenida Afonso Costa -,  e também a Praça do Chile. No entanto, a «Comissão Executiva da Homenagem recusou todas as sugestões apresentadas, alegando para tanto que o General Humberto Delgado, como percursor do Vinte e Cinco de Abril, bem merece que o seu nome seja consagrado numa praça do centro da cidade ou zona de grande densidade populacional, até porque se pretende que esse local possa vir a servir para comícios ou concentrações. Recordou, a propósito, que a Comissão Administrativa do concelho do Porto não teve relutância em dar o nome do General Delgado à antiga Praça do Município e que, seguindo sua opinião, nada impediria que a cidade de Lisboa procedesse de idêntico modo. Assim entendo, apresentarem como única alternativa aceitável, de preferência a Praça do Município, ou então, a Praça do Areeiro». A Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa acabou por emitir, por unanimidade, parecer de que «Como tradicionais que são, nenhuma razão de ordem política justifica que se alterem os topónimos Praça do Município ou Praça do Areeiro. Como contrapartida, sugere-se que o nome do General Humberto Delgado seja atribuído, em primeira alternativa, à avenida que constitui prolongamento da Avenida João Vinte e Um [hoje Avenida Afonso Costa ] e que partindo da Praça do Areeiro segue para Nascente e, em segunda alternativa, ao Largo dos Caminhos de Ferro, situado em frente da Estação de Santa Apolónia, local que está historicamente ligado à campanha presidencial de 1958».

E assim, Humberto da Silva Delgado (Torres Novas – Brogueira/05.05.1906 – 13.02.1965/Villanueva del Fresno -Espanha), que foi assassinado por um comando da PIDE liderado por Rosa Casaco,  chegou à toponímia de Lisboa através do Edital municipal de Edital de 02/02/1979, como Praça General Humberto Delgado no antigo Largo de Sete Rios, nas freguesias de São Domingos de Benfica , Campolide e Avenidas Novas, após o parecer favorável do Estado-Maior General das Forças Armadas. Em 5 de outubro de 1990, sendo nomeado a título póstumo, Marechal da Força Aérea, e os seus restos mortais trasladados para o Panteão Nacional, foi depois também o topónimo foi alterado para Praça Marechal Humberto Delgado, através do Edital municipal de 13 de dezembro de 1990, tendo ainda a Câmara Municipal de Lisboa promovido uma cerimónia de inauguração das novas placas toponímicas em 18/01/1991, na qual usaram da palavra o vereador Anselmo Aníbal e Fernando Piteira Santos, em representação da Comissão Municipal de Toponímia.

Recentemente, em maio de 2016, Humberto Delgado que esteve ligado desde a primeira hora à criação do primeiro aeroporto civil em Portugal, foi ainda homenageado com a atribuição do seu nome a esse Aeroporto: o de Lisboa.

 

Da Praça das Colónias à do Ultramar e à das Novas Nações

Freguesia de Arroios (Foto: Ana Luísa Alvim)

Freguesia de Arroios
(Foto: Ana Luísa Alvim)

Em 1933, nasceu em junho no Bairro das Colónias a Praça das Colónias que em julho passou a ser Praça do Ultramar e que em 1975 com o processo de descolonização a decorrer se tornou a Praça das Novas Nações.

Uma das propostas do Movimento das Forças Armadas era o fim da Guerra Colonial , promessa que após a vitória em 25 de Abril de 1974 se cumpriu através da descolonização, em conformidade com o Programa dos Três «D» – Democratizar, Descolonizar e Desenvolver – e dessa nova mentalidade nasceu também em Lisboa a Praça das Novas Nações sobre a antiga Praça do Ultramar, na confluência da Rua da Ilha do Príncipe, Rua de Timor, Rua de Moçambique e Rua de Angola.

Recorde-se que a 8 de junho de 1974 uma Assembleia do MFA, na Manutenção Militar, decidiu o cessar-fogo imediato no Ultramar, que aliás foi uma reivindicação muita ouvida nas ruas após o 25 de Abril, e assim se definiu a urgência de avançar para a descolonização considerando até o atraso que já existia em relação a outras ex-colónias europeias cujo processo de descolonização se concluíra nos anos 60. No ano seguinte, por Edital municipal de 17 de fevereiro de 1975, a toponímia de Lisboa espelhou a nova realidade através do nascimento da Praça das Novas Nações, como forma de homenagear as 5 novas nações no continente africano –  Guiné (independência declarada unilateralmente em 24 de setembro de 1973 e reconhecida em 10 de setembro de 1974), Moçambique (25 de junho de 1975), Cabo Verde (5 de julho de 1975), São Tomé e Príncipe (12 de julho de 1975) e Angola (11 de novembro de 1975),  – e substituir a denominação Praça do Ultramar, cuja nomenclatura remetia para o Estado Novo e o domínio colonial.

A artéria havia nascido como Praça das Colónias, por edital municipal de 19/06/1933, e um mês depois passou a Praça do Ultramar. Pelo mesmo edital e no mesmo bairro – Bairro das Colónias – foram atribuídos também os seguintes topónimos, de acordo com a ordem do Edital: Rua de Angola, Rua de Moçambique, Rua da Guiné, Rua do Zaire, Rua da Ilha do Príncipe, Rua de Cabo Verde,  Rua da Ilha de São Tomé, Rua de Macau e Rua de Timor.

Freguesia de Arroios (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias)