O 25 de Abril na Praça Dom Pedro IV

Às 12H00, uma companhia do RI 1, comandada pelo capitão Fernandes, tentou barrar o caminho para o Quartel do Carmo, à coluna da EPC, comandada pelo capitão Maia, mas este convenceu-os a aderirem ao Movimento.

A Praça Dom Pedro IV, vulgarmente conhecida como Rossio, cerca do meio-dia do dia 25 de abril de 1974 foi palco do encontro da companhia do Regimento de Infantaria 1 da Amadora, comandada pelo capitão Fernandes, ali estacionada, com a coluna da EPC – Escola Prática de Cavalaria, comandada pelo capitão Maia, para chegar ao Largo do Carmo. O RI1  tentou barrar a passagem à EPC mas após um curto diálogo entre os comandante das tropas, todos os militares passaram para o lado do MFA e as tropas do RI 1 vão seguir à retaguarda da coluna da EPC.

A coluna de Salgueiro Maia saíra da Praça do Comércio pela Rua Augusta, Praça Dom Pedro IV  e Rua do Carmo, para atingir o Largo do Carmo, recebendo  durante todo o trajeto o apoio e aclamação das muitas centenas de pessoas que na Baixa de Lisboa acompanhavam as movimentações militares. Desobedecendo às recomendações do MFA para permanecer em casa, a população saiu à rua em apoio aos militares revoltosos que vitoriava.

Ao longo de todo o dia 25 de abril de 1974, a placa central da Praça Dom Pedro IV foi local de aglomeração de populares e nos dias seguintes local de manifestações.

(Foto: Fernando Baião, O Século Ilustrado, 27 de abril de 1974)

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O 25 de Abril e a Praça do Comércio

Principal centro simbólico e real do poder político, no Estado Novo, aqui se situavam os Ministérios do Exército e da Marinha.

Foi ocupado por uma força da Escola Prática de Cavalaria de Santarém, com cerca de 220 militares, comandados pelo capitão Fernando Salgueiro Maia, capitão Mário Tavares de Almeida, tenente Alfredo Correia Assunção e tenente Rui Santos Silva.

Aquela que é por muitos denominada como a sala de visitas da cidade de Lisboa, a nova Praça do Comércio construída após o desaparecimento do Terreiro do Paço no Terramoto de 1 de novembro, graças ao finamento dos comerciantes de Lisboa, foi o 1º palco simbólico de mudança do poder no 25 de Abril, ao ser ocupada pelo movimento dos capitães – sendo as tropas comandadas pelo capitão Salgueiro Maia, capitão Tavares de Almeida, tenente Correia Assunção e tenente Santos Silva -, cerca das 5:45 da manhã do dia 25 de Abril, bem como ao ser  deste local que partiram os militares do MFA para o Largo do Carmo, onde se havia de consumar a queda do regime.

A Praça do Comércio foi traçada por Eugénio dos Santos e Carlos Mardel após o terramoto de 1755 –  integrada no plano maior da reconstrução da Baixa lisboeta -, numa planta retangular de disposição geométrica perfeita,  semelhante a uma place royale francesa e envolvida pelas construções de três blocos de edifícios iguais concebidas por Manuel da Maia. Cerca de vinte anos depois do terramoto de 1 de novembro, a 6 de junho de 1775, ficou concluída na Praça do Comércio a colocação da estátua equestre de D. José I, da autoria de Machado de Castro, seguindo um plano de Eugénio dos Santos, e colocada no pedestal de Reinaldo dos Santos, alinhada com a artéria que homenageia esse monarca: a Rua da Augusta Figura do Rei que no decorrer do tempo acabou por ficar com a denominação encurtada para Rua Augusta. Quase um século depois, em 1873, foi então colocado o Arco da Rua Augusta ou Arco Triunfal, do Arqº Veríssimo José da Costa, já após a arborização da Praça do Comércio em 1866.  O chão do local foi de terra batida até ao ano de 1900 e dez anos depois, pelo Decreto de 16 de junho de 1910, todo o conjunto da Praça foi considerado Monumento Nacional.

A Praça do Comércio tem também a particularidade de ser também o topónimo lisboeta que mais vezes vê o seu topónimo oficial trocado por um outro, um topónimo simbólico do poder do rei e do seu Paço Real da Ribeira (o Terreiro do Paço). Já o seu topónimo oficial de Praça do Comércio, uma homenagem aos comerciantes de Lisboa que voluntariamente cederam 4% sobre os direitos alfandegários de todas as mercadorias para a reconstrução da cidade, foi atribuído pelo 1º decreto de toponímia de Lisboa, assinado por D. José I, com a data de 5 de novembro de 1760, é simbólico de um novo poder mais participado por todos os habitantes da cidade.

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O fundeadouro romano da Praça D. Luís I

Espólio em exposição no parque de estacionamento da Praça Dom Luís I

A construção de um parque de estacionamento subterrâneo na Praça Dom Luís I, em 2013, evidenciou um fundeadouro romano, com uma cronologia entre o séc. I e o séc. V, época em que aquele local era uma baía no rio Tejo.

No decorrer das obras foi identificada uma antiga área de leito do rio, onde os barcos de época romana fundeavam. Debaixo
 de uma enorme estrutura de madeira dos inícios do século XVIII – utilizada como estaleiro naval-, foi encontrada uma quantidade imensa de restos de cerâmica romana, do século I a.C. até ao século V, entre os quais meia centena de ânforas para exportação do preparado de peixe produzido em tanques – como aconteceu na Rua dos BacalhoeirosCasa dos Bicos, na Rua dos CorreeirosNARC ou na Rua Bartolomeu Dias, em Belém -, bem como cerâmicas importadas de Espanha e de Itália. Ao longo de cinco séculos foi ali que os navios romanos estacionaram, para passarem as mercadorias para embarcações mais pequenas que as transportavam até à costa. Foi também encontrada uma grande peça, com cerca de 8,5 metros de comprimento, que se concluiu ser a a primeira madeira de navio inequivocamente romana encontrada em Lisboa.

Este fundeadouro estava fora dos limites da cidade, talvez servindo de apoio à indústria de preparados de peixe, também ela colocada na periferia de Felicitas Iulia Olisipo. Para visualizar com referências dos nossos dias existiria uma pequena baía entre o Jardim de Santos e a Rua do Alecrim, assim como estava presente um esteiro junto à Avenida Dom Carlos I, gerando uma zona de águas calmas, apropriada à fundeação de navios, excepto os de grande calado.

Mencione-se que estes vestígios teriam sido provavelmente destruídos, não fosse a estrutura de madeira que no séc. XVIII foi assente sobre eles e os protegeu do maremoto de 1775 e da implantação do Aterro da Boavista no século XIX.

O parque de estacionamento inaugurado em 2014, incluiu um programa museográfico que explica esta memória e que expõe alguns dos artefactos exumados, assim como reproduções, com textos explicativos, nos patamares das escadas de acesso aos pisos subterrâneos. À medida que se vai descendo mais se recua no tempo. Cada piso do parque distingue-se não só por uma cor específica, mas também por um símbolo gráfico, icónico, do período correspondente. Há pelo meio um piso em que é a própria atividade arqueológica que é comemorada.

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Requiescat in pace: a necrópole noroeste de Olisipo na Praça da Figueira

Fases de ocupação da Necrópole Noroeste

No espaço que hoje identificamos como Praça da Figueira funcionou durante quase quatro séculos, do século I ao IV d.C., uma necrópole romana, a maior de Lisboa, que se entenderia até à Encosta de Santana e Elevador do Lavra, regularmente identificada como Necrópole Noroeste de Olisipo.

Aliás, a cronologia do seu uso foi reforçada pelo estudo das 17 lucernas – candeias romanas – recuperadas no local. Esta necrópole era consideravelmente extensa, com uma  área que abrange desde a Praça da Figueira ao Largo de São Domingos, Calçada do Garcia e Encosta de Santana, sendo a Via Norte a sua linha estruturante.

As necrópoles acompanhavam os eixos viários de saída da cidade, como acontece neste caso. Foi ainda identificada uma via perpendicular à Via Norte,  via secundária que serviria mais tarde de acesso ao circo e a outras estruturas. Por outro lado, as necrópoles são também indicadoras dos limites da cidade já que estavam sempre situadas no exterior da área habitada (poemerium) , nas periferias da cidade (suburbia) e a área da Praça da Figueira, tem uma localização periférica face ao perímetro da cidade romana, em sentido estrito.

O arqueólogo Rodrigo Banha coloca a hipótese desta necrópole da Praça da Figueira ter substituído a necrópole encontrada na Rua dos Correeiros – no NARC – , pela razão prática e conforme a mentalidade romana da época de os seus terrenos terem sido entretanto necessários para instalar uma indústria de salga de pescado.

Uma das particularidades da escavação desta necrópole da Praça da Figueira foi a descoberta de um túmulo enterrado de tijolo e argamassa em forma de arca que Rodrigo Banha garante só ter paralelo em Portugal com um encontrado em Tróia, embora de menores dimensões. Foi também achada uma sepultura cujo esqueleto tinha uma moeda de bronze na boca, um ritual funerário comum na época, para permitir ao defunto que pagasse ao barqueiro do rio da morte, Caronte, a travessia para o outro lado. Ainda segundo este arqueólogo, apesar da inumação ser praticada em Olisipo nos finais do século I a.C. e primeiras décadas do I d.C. – como se observa na necrópole da Rua dos Correeiros e nesta Necrópole Noroeste-, aparentemente a prática da incineração era exclusiva no séc. I d.C. É ainda de referir a utilização constante de alguns edifícios funerários até ao século III d.C. Num segundo momento, entre os séculos II e III d.C., ocorre um período de acentuação desta monumentalidade na zona da Praça da Figueira, uma ocorrência que tem lugar nas cidades mais romanizadas do ocidente.

Esta necrópole teve os seus primeiros vestígios descobertos no decorrer das obras de implantação do Metropolitano de Lisboa, no início de fevereiro de 1961 e a partir daí, graças ao trabalho no local de Irisalva Moita, em fevereiro de 1962, depois continuado por Fernando Bandeira Ferreira, sob os auspícios da Junta Nacional da Educação, tendo ela publicado em 1968, na Revista Municipal, «Achados de época romana no sub-solo de Lisboa». Todavia, em abono da extensão desta necrópole, recordamos que já antes haviam surgido sepulturas e epígrafes no Largo de São Domingos (em 1898) e na Calçada do Garcia (em meados do século XIX). Entre 1999 e 2001, no âmbito da construção do parque de estacionamento subterrâneo da Praça da Figueira, é que se procedeu à escavação integral desta área, trabalhos a cargo do Museu da Cidade de Lisboa, dirigida por Rodrigo Banha,  coadjuvado pontualmente por Marina Carvalhinhos. Em 2002 e 2004 surgiram mais sepultadas na Encosta da Santana e, mais tarde, outros núcleos na Rua das Portas de Santo Antão e na Calçada do Lavra.

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O Circo romano sob a Praça Dom Pedro IV

 

Na Praça Dom Pedro IV (vulgarmente conhecida como Rossio), estava localizado o Circo romano, edificado no século II ou, segundo outras opiniões, no princípio do século IV.

Na periferia da cidade de Felicitas Iulia Olisipo, fora dos limites definidos pela Muralha Romana Fundacional, ficariam as construções que aconselhavam uma localização isolada como a indústria conserveira, o circo ou as necrópoles. Aliás, o que se sabe até ao momento aponta para que a necrópole da Praça da Figueira tenha coexistido com o vizinho circo durante um certo período de tempo. De acordo com o arqueólogo Rodrigo Banha, entre o Circo e esta necrópole  – a da Praça da Figueira – passaria uma via de acesso ao edifício lúdico.

Esta estrutura  foi descoberta no decorrer das obras de implantação do Metropolitano de Lisboa, graças aos trabalhos realizados por Irisalva Moita em 1961. Nessa década, surgiu uma estrutura em opus signinum ladeada por um murete, com uma largura total de 6 metros (20 pés romanos) e um comprimento indeterminado uma vez que se prolongava pelo subsolo. Na época, julgou-se que seria uma estrutura viária ou portuária mas são as obras do metropolitano para a expansão da rede, em 1994, que permitiram concluir com rigor ser a spina – o elemento central de um circo romano, bem como nela descobrir um plinto, provavelmente de uma estátua, como era característico, para além de se ter exumado parte da arena.

Circo, via e necrópole, segundo Rodrigo Banha (2005)

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A Rua do Arquitecto-chefe da Exposição do Mundo Português e d’ A Canção de Lisboa, Cottinelli Telmo

Freguesia dos Olivais
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

O Arquiteto-Chefe da Exposição do Mundo Português de 1940 e também realizador do filme A Canção de Lisboa tem o seu nome perpetuado desde o ano de 1971 numa Praça dos Olivais.

Os impasses A1 e A1 – 1 do Plano de Urbanização da Quinta do Morgado passaram a constituir um único arruamento com a denominação de Praça Cottinelli Telmo, pelo Edital municipal de 14 de agosto de 1971, a cerca de um mês de se completarem 23 anos do falecimento deste arquiteto-cineasta. Refira-se ainda que 5 meses antes, o Edital municipal de 15 de março de 1971 colocara em praças próximas os nomes dos também  arquitetos Carlos Ramos e Faria da Costa.

Cottinelli Telmo ficou conhecido por ser o realizador de A Canção de Lisboa, rodada em 1933 nos estúdios da Tóbis Portuguesa, na Quinta das Conchas, no Lumiar, contando com um elenco composto por Beatriz Costa, António Silva,  Manoel de Oliveira (o cineasta), Teresa Gomes ou Vasco Santana.  Este filme estreou no Teatro São Luiz, no dia 7 de novembro de 1933  e tornou-se um modelo para o humor do cinema português das décadas de 30 e 40 do século XX. Diga-se que ainda no decorrer do seu curso de arquitetura, já Cottinelli Telmo havia colaborado  com a Lusitânia-Film, em 1918, na produção dos filmes Malmequer e Mal de Espanha, ambos de Leitão de Barros, e mais tarde, em 1932, em parceria com A.P. Richard, construiu o estúdio da Tóbis Portuguesa.

Animatógrafo, 8 de maio de 1933

O homenageado nesta Praça dos Olivais, de seu nome completo José Ângelo Cottinelli Telmo (Lisboa/13.11.1897 – 18.09.1948/Cascais), formado em Arquitetura pela Escola de Belas Artes de Lisboa no ano de 1920, assinou entre outras obras, o Pavilhão de Honra da Exposição do Rio de Janeiro (com Carlos Ramos e Luís da Cunha em 1922) e o Pavilhão Português da Exposição de Sevilha (1929), a Estação Fluvial do Sul e Sueste (1929-1931), a Standard Eléctrica (1945-1948), o Liceu D. João de Castro (1939), o projeto de construção do Jazigo Roque Gameiro no Cemitério dos Prazeres (1936) e, em 1940, foi o Arquiteto-chefe da Exposição do Mundo Português, tendo delineado o plano da Praça do Império, a sua Fonte Monumental, o Monumento dos Descobrimentos e a Porta da Fundação.

Cottinelli Telmo trabalhara para os Caminhos-de-Ferro (entre 1923 e 1943) e por isso, fora da cidade de Lisboa, foi o responsável pelos edifício de passageiros de Tomar (1932-34) e do Carregado (1933), da Colónia de Férias da CP na Praia das Maçãs (1943) e do Sanatório Ferroviário das Penhas da Saúde (1945). Por solicitação do  ministro Duarte Pacheco, integrou a Comissão das Construções Prisionais e foi assim autor das Cadeias de Alijó, Castelo Branco e Alcoentre (1937-1944), para além de outras obras como o Liceu de Lamego (1931), a Cidade Universitária de Coimbra (1943-1948) e o Plano de urbanização de Fátima. Ainda nesta área  refira-se que dirigiu a revista Arquitectos, no período de 1938 a 1942, e mais tarde, presidiu  ao Sindicato dos Arquitetos (1945-1948), onde foi responsável pela organização do I Congresso da classe, no ano de 1947.

Embora menos conhecido por essas facetas, Cottinelli Telmo foi também bailarino, autor de banda desenhada  – foi o criador do Pirilau, um dos primeiros heróis infantis portugueses, publicado no ABC – , fotógrafo (em campanhas pelo país com Mário Novais) e ainda, ilustrador em jornais e revistas nacionais.

A título póstumo, Cottineli Telmo foi agraciado em 1961 com a Medalha de Ouro da Cidade de Lisboa e o seu nome integra também a toponímia dos concelhos do Amadora, Cascais (Parede), Seixal (Fernão Ferro) e Sintra (Mem Martins).

Freguesia dos Olivais
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Praça António Baião que durante 40 anos dirigiu a Torre do Tombo

Freguesia de Benfica
(Foto: Ortofotomapa de Lisboa Interativa editado pelo NT do DPC)

O historiador António Baião, que durante 40 anos dirigiu a Torre do Tombo, está desde 2004 perpetuado na toponímia de Benfica, numa Praça, que antes era identificada como Praça B à Travessa Sargento Abílio. Aconteceu pelo Edital Municipal de 18 de novembro de 2004, que neste bairro também atribuiu o Largo Ernesto Soares (era o Largo A) e a Praça Laranjo Coelho (era a Praça C), tributo a outros dois historiadores.

De seu nome completo António Eduardo Simões Baião (Ferreira do Zêzere/10.10.1878 – 21.05.1961/Lisboa), dirigiu o Arquivo Nacional da Torre do Tombo, de 10 de março de 1908 até 1948, local onde trabalhava desde 18 de dezembro de 1902, como segundo conservador. É aqui que nasce enquanto investigador e erudito, servindo-se dos acervos da Torre do Tombo e da Academia das Ciências de Lisboa, tendo começado por publicar estudos sobre Herculano e sobre o Visconde de Santarém.

De forma complementar, evidenciou-se com os seus estudos sobre a inquisição como A Inquisição em Portugal e no Brasil (1906), os três volumes de Episódios Dramáticos da Inquisição Portuguesa (1919-1938) e os dois volumes de A Inquisição de Goa (1929-1930), bem como sobre os seus antecessores à frente da Torre do Tombo, especializando-se no que designou como A Infância da Academia (1788-1794) que publicou em 1934.

Refiram-se ainda as suas biografias O Matemático Pedro Nunes e a sua Família (1915) e a Biografia do Santo Condestável (1952) e com Pedro de AzevedoO Arquivo da Torre do Tombo (1905).

António Baião também acumulou durante alguns anos  as funções de diretor da Torre do Tombo com as de auditor administrativo do distrito de Lisboa e de professor do ensino técnico. Entre 1903 e 1905 foi director da Revista Pedagógica, dedicando-se a temas da área das ciências da educação, para além de ao longo da sua vida ter colaborado na revista Serões (1901-1911), nos Anais das bibliotecas, arquivo e museus municipais (1931-1936) e no Boletim cultural e estatístico (1937).

Foi sócio efetivo (1920) da Academia das Ciências de Lisboa, tendo chegado a vice-secretário geral e a diretor dos Portugaliae Monumenta Historica, para além de ter sido sócio fundador da Academia Portuguesa de História, na refundação de 1936, onde foi 2º vice-presidente, 1º vice-presidente e presidente interino.

Filho dos proprietários António Simões Baião e de Emília Cotrim de Carvalho Baião, formou-se Bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra em 12 de junho de 1900, tendo sido contemporâneo de Emídio Navarro, de Afonso Lopes Vieira e de Laranjo Coelho e depois até 1902 foi professor do ensino secundário no Liceu de Santarém. Sobre a sua terra natal publicou ainda A Vila e Concelho de Ferreira do Zêzere (1918) e Dois altos funcionários da Casa do Infante D. Henrique no Concelho de Ferreira do Zêzere; um monteiro-mor e outro seu vedor (1960).

O seu nome foi dado à Biblioteca Municipal de Ferreira do Zêzere e está também na toponímia de Almada e de Ferreira do Zêzere.

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Praça Afonso do Paço, do militar por profissão e arqueólogo por paixão

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

No ano seguinte ao seu falecimento, pelo Edital de 29 de janeiro de 1969, a edilidade lisboeta homenageou na sua toponímia o militar de carreira e arqueólogo por paixão Afonso do Paço, responsável pela escavação da estação calcolítica de Monsanto na década de quarenta, através de uma Praça situada na confluência da Rua Pereira e Sousa e da Rua Francisco Metrass, vulgarmente conhecida por Praceta da Vila Benitez, em Campo de Ourique.

Afonso do Paço em 1969
(Foto: João Marques de Oliveira, Arquivo Municipal de Lisboa)

Manuel Afonso do Paço (Viana do Castelo – Outeiro/30.11.1895 – 29.10.1968/Estoril) foi um militar de carreira que se apaixonou pela arqueologia, área pela qual ainda hoje é  evocado, muito pelo estudo das estações paleolíticas e epipaleolíticas do litoral, domínio de estudos que continuou a tratar ao longo dos anos, sobretudo com o padre Eugénio Jalhay. Em 1944, ambos e o Dr. Leonel Ribeiro, fizeram em Lisboa a escavação da estação calcolítica de Monsanto, recolhendo um enorme espólio cerâmico (sobretudo, campaniforme) e lítico, de machados polidos e pontas de sílex. Ainda com Eugénio Jalhay, procedeu à escavação  do povoado calcolítico fortificado de Vila Nova de São Pedro, iniciada por ambos em 1937 até ao falecimento de Jalhay – em 1950 – e depois prosseguida apenas por Afonso do Paço até falecer, mesmo se as autoridades oficiais da época jamais tivessem reconhecido como relevante a investigação daquele morro pré-histórico, mesmo se os resultados publicados a nível internacional fizessem acorrer às escavações os mais importantes pré-historiadores da época. Também pesquisou em Sanfins (Paços de Ferreira) e participou em duas expedições arqueológicas (1958 e 1960) ao sítio onde se deu a Batalha de Aljubarrota, Campo de São Jorge, em que se identificaram cerca de 830 estruturas denominadas covas de lobo, armadilhas para a cavalaria, junto à Capela de São Jorge. Destas escavações resultaram as publicações Necrópole de Alapraia (1955), Tesouro Monetário da Citânia de Sanfins (1955) e Castro de Vila Nova de S. Pedro : campanha de escavações de 1956.

Afonso do Paço também estudou do património etnográfico de Viana do Castelo, centrando-se  no traje, sendo assim autor das obras Contribuição para o estudo do trajo popular dito «à lavradeira» no concelho de Viana do Castelo (1925), O trajo “à lavradeira” (de Outeiro a Perre em especial e das outras aldeias em geral) (1930), Mordomarias (1932) e O trajo popular do Minho – Do trajo “à lavradeira” em geral e do de “Santa Marta” em especial. De igual modo, interessou-se pelo estudo e recolha da tradição oral, sobretudo do cancioneiro popular português, com recolha de quadras populares que compilou no Cancioneiro de Viana do Castelo (1928), Lisboa no Cancioneiro Ribatejano (1948) e no Cancioneiro popular ribatejano: Contribuição de Vila Nova de S. Pedro (1952).

Afonso do Paço estudara Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa e em 1917 foi também oficial de infantaria, tendo mesmo combatido na Flandres  no decorrer da I Guerra Mundial- integrado no 4.º Grupo de Metralhadoras Pesadas – e sido feito prisioneiro pelos alemães na Batalha de La Lys, em 9 de abril de 1918. Alcançou o posto de Tenente Coronel e chegou a ser condecorado com a Cruz de Guerra de 2.ª Classe, duas “fourragères” da Cruz de Guerra e a medalha da Victória. Regressou a Portugal a 16 de janeiro de 1919 e a partir de 1924, estava colocado como funcionário da Administração Militar e foi como oficial do Exército que assegurou o seu sustento e o de sua família. Em 1925 foi professor provisório do Colégio Militar e depois, Tesoureiro da Inspeção do Serviço Telegráfico Militar e Chefe da Contabilidade do Batalhão de Telegrafistas (Braga). Também produziu estudos sobre a história e a vida militar como Linguagem da Malta (1924), Gírias Militares Portuguesas (1926), Cartas às Madrinhas de Guerra (1929), Da Influência da Guerra no Léxico Português (1931), A vida Militar no Rifoneiro Português (1934-1936) ou As Comunicações Militares de Relação em Portugal – Subsídios para a sua história (1938).

Em 1969, Afonso do Paço foi homenageado  na Associação dos Arqueólogos Portugueses com a Câmara Municipal de Lisboa. Está também na toponímia de Paços de Ferreira, de Sanfins de Ferreira, de Cascais, do Estoril, da Sobreda (Almada) e de Setúbal como Afonso do Paço, bem como surge como  Tenente Coronel Afonso do Paço no nomes das artérias da sua terra natal, tanto em Outeiro como em Viana do Castelo.

Freguesia de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Praça do arquiteto do Cine-Teatro Tivoli

Freguesia de Marvila
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Entre a Rua Luís Cristino da Silva e a Rua Keil do Amaral fica a Praça dedicada ao arquiteto que traçou o cinema Tivoli para a Avenida da Liberdade, a Praça  Raúl Lino, acolhida em Marvila desde  a publicação do Edital municipal de 20 de agosto de 1985.

Raúl Lino da Silva (Lisboa/21.11.1879-13.07.1974/Lisboa) foi estudar para a Grã-Bretanha desde os  10 anos de idade, por orientação de seu pai,  tendo seguido depois para Hannover, na Alemanha, a partir de 1893, onde trabalhou no atelier do historiador e arquiteto Albrecht Haupt (1852-1932). Regressado a Portugal em 1897, Raúl Lino desenhou numerosas obras ao longo da sua vida, cerca de 700, de que que se salientam as seguintes para Lisboa:

  • o modelo de Jardim-Escola João de Deus (1909) e o edifício  da Avenida Álvares Cabral, 69 (1918);
  • os arranjos das instalações dos animais no Jardim Zoológico de Lisboa (1912), na Quinta das Laranjeiras;
  • a loja Gardénia (1917) no nº 54 da Rua Garrett;
  • o Cine-Teatro Tivoli (1918 – 1924) que desde 2015 é  Monumento de Interesse Público;
  • a moradia na Rua Castilho nº 64 a 66, que foi Prémio Valmor  em 1930 (já demolida);
  • as alterações ao antigo Picadeiro Régio/Museu dos Coches (1940) e o Pavilhão do Brasil na Exposição do Mundo Português (1940).

A moradia na Rua Castilho nº 64 a 66 que foi Prémio Valmor  em 1930
(Foto: Paulo Guedes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Fora da capital refira-se a sua autoria  na casa Montsalvat para o pianista Alexandre Rey Colaço (1901), no Monte Estoril; no Solar dos Patudos para José Relvas (1904); na Casa da Quinta da Comenda no Outão (1909); o Sanatório de Sousa Martins  (1907) na Guarda; na Casa do Cipreste (1907-1913), em Sintra, para si próprio; na Pérgola em Penacova (1918); na Casa de Santa Maria (1918) em Cascais; na Casa dos Penedos (1920) em Sintra;  no Cine-Teatro Curvo Semedo (1923) em Montemor-o-Novo; na Casa do Soar de Cima (1925) em Viseu; na Quinta das Romeiras em Câmara de Lobos (1933); ou nos Paços do Concelho de Setúbal (1938).

Raúl Lino foi ainda autor de numerosos textos teóricos sobre  arquitetura, como A Nossa Casa (1918), A casa portuguesa (1929), Casas portuguesas (1933) e L´évolution de l´ architecture domestique au Portugal (1937), neles revelando a sua principal preocupação de criar uma arquitetura integrada na paisagem, assente na  ideia de que só o conhecimento do terreno sobrevaloriza os valores tradicionais da pura arquitetura portuguesa, procurando assim conciliar a arquitetura erudita com a tradição popular.

Raúl Lino foi agraciado com o Prémio Valmor e Municipal de Arquitectura de 1930, o Prémio José de Figueiredo  de 1948 e a Comenda da Ordem Militar de Cristo (1941). Também integrou o júri do prémio Valmor em 1931, que premiou o edifício da Rua Infantaria 16, da autoria dos arquitetos Miguel Jacobethy Rosa e António Reis Camelo.

Para além do seu traço de arquiteto, Raúl Lino também desempenhou cargos como  Chefe da Repartição de Estudos e Obras em Monumentos da Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (entre 1936 e 1949),  Superintendente Artístico dos Palácios Nacionais a partir de 1938 e ainda, Diretor dos Monumentos Nacionais a partir de 1949.

Raúl Lino foi ainda membro fundador da Academia Nacional de Belas Artes em 1932 e seu presidente a partir de 1967. Refira-se também que a produção artística de Raúl Lino inclui o design de mobiliário, painéis, azulejos e porcelanas; a cenografia (sobretudo no São Carlos e com Almada Negreiros) e a programação cultural, principalmente para o cinema Tivoli onde exibiu, entre outros, filmes de Fritz Lang e de Chaplin, para além de colaborar em publicações como a Atlantida, Homens Livres, Ilustração ou a Revista Municipal de Lisboa.

Na vida pessoal, escolheu viver numa casa na Avenida António Augusto de Aguiar e teve duas filhas: Isolda Lino Norton de Matos e Maria Cristina Lino Pimentel . O seu espólio foi doado pela família, em 1989, à Fundação Calouste Gulbenkian.

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O arqº Carlos Ramos numa Praça dos Olivais

Freguesia dos Olivais
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Praça Carlos Ramos, nos Olivais, homenageia o arquiteto Carlos João Chambers Ramos que procurou na sua obra um compromisso entre o modernismo e a tradição e no ano de 1922 traçou a Agência Havas da Rua Áurea e foi pai do também arquiteto Carlos Manuel Ventura Ramos.

Este topónimo foi atribuído pelo Edital de 15 de março de 1971 no Impasse A 2.1.2 da Quinta do Morgado, nascendo assim a  Praça Carlos Ramos. Esse mesmo Edital atribuiu denominações a outros arruamentos da Quinta do Morgado, entre as quais se incluiu a Praça Faria da Costa, que perpetua outro arquiteto no espaço que era antes o Impasse A 3.1 da Quinta do Morgado.

Freguesia dos Olivais
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Carlos João Chambers de Oliveira Ramos (Porto/15.01.1897 – 01.07.1969) foi um arquiteto que decidiu sê-lo depois de ter conhecido e convivido com Miguel Ventura Terra, sendo depois com Cassiano Branco, Cottinelli Telmo, Cristino da Silva, Jorge Segurado e Pardal Monteiro um dos pioneiros do movimento moderno na arquitetura portuguesa. O Arqº Carlos Ramos foi também urbanista e professor universitário.

Da sua obra arquitetónica para Lisboa, destacamos:

  • 1922 – Edifício da Agência Havas na Rua Áurea, 234-242, inaugurada em 1931;
  • 1927  – Habitação no Largo do Figueiredo, 1;
  • 1927-1933 – Pavilhão do Rádio do Instituto Português de Oncologia, na Rua Prof. Lima Basto;
  • 1929 – Projeto do Liceu Feminino D. Filipa de Lencastre que não chegou a ser construído;
  • 1931 – Instituto Navarro de Paiva, na Rua de São Domingos de Benfica, 16;
  • 1932-1934 – Edifício da Assistência aos Tuberculosos na Rua Domingos Sequeira, 24;
  • 1933 – Alterações no Hospital Júlio de Matos (traçado por Leonel Gaia), na Avenida do Brasil;
  • 1940 – Pavilhão da Colonização para a  Exposição do Mundo Português, para além do Espelho de Água ( lago artificial de recreio) em resultado de um plano coordenado por Cottineli Telmo, com Pardal Monteiro, Cristino da Silva e Reis Camelo;
  • 1943 – Edíficio da Praça Duque de Saldanha, 32 que foi demolido com o Monumental em 1984;
  • 1946 – Moradia no Restelo que foi Prémio Municipal em 1946;
  • 1950 – Traçado da Praça do Marquês de Pombal, tendo em 25 de novembro de 1957 firmado contrato com a edilidade lisboeta para a elaboração do estudo de conjunto da Praça Marquês de Pombal e a urbanização de remodelação do quarteirão definido pelo mesma praça, Rua Braamcamp, Rua Castilho e Rua Joaquim António Augusto de Aguiar.

Fora de Lisboa, o Arqº Carlos Chambers Ramos delineou em 1925 o Bairro Económico de Olhão; traçou inúmeros postos fronteiriços, como a Fronteira de Galegos em Marvão (1938); projetou o Liceu Júlio Henriques em Coimbra (1930) e o Liceu de Viseu(1931) com Adelino Nunes e Jorge Segurado ; planeou vários tribunais como o de Évora, Sabugal ou Mirandela (1959-1960), bem como  equipamentos hospitalares, como a Leprosaria Nacional Rovisco Pais na Tocha (1947), o que fazem deste arquiteto uma figura importante na edificação da imagem do Estado Novo conduzida por Duarte Pacheco e pelo Ministério das Obras Públicas.

Paralelamente, o Arqº Carlos Ramos viveu empenhado em fazer pedagogia do ensino de arquitetura. Em 1933 concorreu ao lugar de professor da 4ª cadeira de arquitetura na Escola de Belas Artes de Lisboa, juntamente com Paulino Montez, Cassiano Branco e Cristino da Silva, tendo sido este último a consegui-lo e reagiu transformando o seu atelier lisboeta, no Largo de Santos, numa escola prática para as novas gerações de arquitetos, que nos anos trinta e quarenta do séc. XX aí encontraram um contraponto ao ensino academizante, tendo por lá passado Adelino Nunes, Dário Vieira, Francisco Keil do Amaral, Nuno Teotónio Pereira ou Raul Tojal, entre muitos outros. Em 1940, Carlos Ramos vai substituir Marques da Silva na 4ª cadeira de arquitetura na Escola de Belas Artes do Porto e aí exercerá docência até 1952, com excepção dos anos de 1946 a 1948 em que foi professor da ESBAL. Tanto no Porto como em Lisboa, conseguiu introduzir uma série de inovações no ensino:

  • prática de provas de arquitetura serem antecedidas por duas lições;
  • confronto dos alunos com programas contemporâneos de arquitetura hospitalar,  aquartelamentos, habitação coletiva ou planos urbanísticos, promovendo o contacto direto com a prática profissional;
  • defesa da formação como um ato contínuo e ininterrupto.

Em 1952, Carlos Ramos assumiu a direção da ESBAP e assim continuou durante 15 anos, formando no Porto alguns dos  mais importantes arquitetos como Mário Bonito, João Andresen, Arnaldo Araújo, Octávio Lixa Filgueiras, Alexandre Alves Costa, Sérgio Fernandez, Fernando Távora, Manuel Mendes, Alcino Soutinho e Álvaro Siza Vieira.

Refira-se ainda, para evitar equívocos, que Carlos João Chambers de Oliveira Ramos (referido mais vezes como Carlos C. Ramos) foi pai do também arquiteto Carlos Manuel Ventura de Oliveira Ramos (mencionado como Carlos M. Ramos), nascido em 22 de agosto de 1922, que  também foi seu colaborador em alguns projetos.

A Agência Havas na Rua Áurea, traçada por Carlos C. Ramos
(Foto: Kurt Pinto, anos 40 do séc. XX, Arquivo Municipal de Lisboa)