A Travessa das Zebras oriundas de Angola

Freguesia de Belém
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Zebras oriundas de Angola, como presente para o rei D. José I, originaram no séc. XVIII o topónimo Pátio das Zebras  no local onde elas viveram, em Belém, junto à Calçada da Ajuda, sendo que já na passagem do século XIX para o XX passou a ser conhecida como Travessa das Zebras.

A Travessa das Zebras, que hoje encontramos a ligar a Calçada da Ajuda à Travessa do Desembargador, fixou-se na memória de Lisboa em virtude de algumas  zebras terem vindo de Angola, como presente para o rei D. José I, e terem sido instaladas naquele local. Segundo o Archivo Popular de 15 de abril de 1837, procuraram domesticá-las embora sem sucesso e os animais definharam, experiência que voltou a ser repetida mais tarde, com outras zebras mas com o mesmo resultado.

Seriam entre 10 a 13 zebras que vieram de Angola para Lisboa como presente, entre  1770 e 1775. Segundo alguns autores teriam sido enviadas por militares empenhados na exploração de Angola e que assim mereceram subida de posto, com evidentes vantagens económicas. Foram instaladas num pátio próprio, a exemplo do que acontecera antes houvera com o Pátio dos Elefantes e ainda em 1858, a planta de Filipe Folque denomina o espaço como Pátio das Zebras, sendo  no mesmo local da hoje Travessa das Zebras embora mais amplo.

Por plantas municipais elaboradas por Augusto César dos Santos, de 20 de setembro de 1897, sabemos que se fizeram obras de ligação do Pátio das Zebras à Travessa das Terras (hoje, Travessa do Desembargador) e foi a artéria pavimentada. Em 1909, a planta de Silva Pinto já mostra uma artéria mais estreita e com a designação de Travessa das Zebras.

D. José I (Lisboa/06.06.1714 – 24.02.1777/Lisboa) vivia na Real Barraca da Ajuda quando foi o destinatário da prenda das zebras. Após o terramoto de 1750 a corte instalou-se na encosta Belém/Ajuda, por mor de ter sido uma zona pouca atingida pela catástrofe, havendo mesmo então a ideia da construção de uma nova capital entre Ajuda e Belém o que contribuiu para uma intensificação da urbanização do local, com famílias da nobreza a adquirirem quintas nesta zona, desde o Tejo até ao Alto da Ajuda, bem como ao longo da Praia do Bom Sucesso e da Praia de Pedrouços.

Freguesia de Belém (Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Travessa de Santo Aleixo em homenagem à Madre Maria de Santo Aleixo

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: Sérgio Dias | NT do DPC )

Em Campo de Ourique, a Travessa de Santo Aleixo deve-se a uma homenagem a Madre Maria de Santo Aleixo, de acordo com o olisipógrafo Gomes de Brito.

Gomes de Brito na sua obra Ruas de Lisboa, escreve o seguinte no seu verbete sobre este topónimo: «Acaso por comemoração da Madre Maria de Santo Aleixo [falecida em 4 de novembro de 1689], uma das quatro Religiosas Capuchas Francesas, que a rainha D. Maria Francisca Isabel de Saboia trouxe de Paris em 1666, e que veio a ser a primeira Abadessa do Mosteiro da Sua ordem [ Mosteiro do Santo Crucifixo, conhecido como das Francesinhas], fundado em Lisboa pela Rainha sobredita e começado a habitar em 1667.  Actualmente em ruínas na Rua João das Regras [desde 1950 é a Rua das Francesinhas], esquina da Calçada da Estrêla. O retrato desta Religiosa constitue umas das três gravuras que ornamentam a “Historia da fundação do Real Convento do Santo Christo das religiosas capuchinhas francesas” – 1748, por D. José Barbosa.»

Podemos equacionar que o topónimo desta artéria que hoje vemos a ligar a  Rua Silva Carvalho à Travessa de Cima dos Quartéis tenha sido fixado no séc. XVII ou no seguinte, mas sem certeza. Após o Terramoto, o Reitor de Santa Isabel (que era então a paróquia deste sítio) escrevia em 26 de março de 1758,  que «Esta freguezia fica no suburbio da cidade de Lisboa, a cujo Patriarchado pertence» e não mencionava nomes de arruamentos.

Com segurança, sabemos que a Travessa de Santo Aleixo aparece na planta de Lisboa de Filipe Folque, de 1857, fronteira à Travessa de Jesus Maria José (que desde 1911 é a Travessa do Cabo). Sabemos igualmente que a partir da 2ª metade do séc. XIX esta artéria acolheu vilas operárias, como também aconteceu na Rua de Campo de Ourique e na Rua da Páscoa, para alojar  os trabalhadores das fábricas próximas da Ribeira de Alcântara. E em 1892 e 1896 a Travessa de Santo Aleixo teve obras de pavimentação executadas pela Câmara Municipal de Lisboa.

Refira-se que Santo Aleixo foi um romano rico que fugiu do seu casamento para ser mendigo, sendo depois apontado como Homem de Deus e o seu culto introduzido em Roma  no século XI, por monges orientais. No entanto, foi retirado do hagiológico Calendário Romano Geral em 1969.

Freguesia de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

O Cais do Tojo repartido por rua, travessa e Largo Vitorino Damásio

O Cais do Tojo em sobreposição da planta de 1856 de Filipe Folque na dos dias de hoje

O antigo Cais do Tojo, lugar aberto de execução de penas capitais para servir de exemplo público, que em 1842 teve erguido o seu último patíbulo, tem a sua memória guardada em Lisboa através da Rua e da Travessa do Cais do Tojo, bem como do Largo Vitorino Damásio em cujo espaço ele se situava até cerca de 1858, razão para que a placa evocativa dos 150 Anos da Abolição da Pena de Morte tenha sido nele colocada pela edilidade, no primeiro dia de julho deste ano, dia do 150º aniversário da abolição da pena de morte em Portugal.

A última execução no Cais do Tojo, que ocupava o espaço onde hoje vemos o Largo Vitorino Damásio a encontrar-se com a Avenida Dom Carlos I, foi em 16 de abril de 1842 : o enforcamento de Francisco Matos Lobo, após prisão no Limoeiro, pelo assassinato da sua tia por afinidade, os seus dois filhos e a criada, na sua casa na Praça de São Paulo. Em  19 de fevereiro de 1841, também a forca ali se tinha erguido para Diogo Alves, condenado não pelas mortes daqueles que atirara do alto do Aqueduto das Águas Livres depois de os roubar mas pelo massacre da família de um médico no decorrer de um assalto com a sua quadrilha. No entanto, mesmo em 1842 já a pena de morte seria considerada desumana sendo disso exemplo o caso do sacerdote que acompanhava a última aplicação da pena capital em Lisboa ter morrido no local vítima de apoplexia.

Travessa do Cais do Tojo – Freguesia da Misericórdia – Placa Tipo II
(Foto: Mário Marzagão)

Rua do Cais do Tojo – Freguesias da Misericórdia e da Estrela
(Foto: Sérgio Dias|NT do DPC)

A Rua do Cais do Tojo ( nas freguesias da Estrela e da Misericórdia ) liga o Boqueirão do Duro à Avenida Dom Carlos I e a Travessa do Cais do Tojo (freguesia da Misericórdia) une a Rua do Cais Tojo ao Largo do Conde Barão, tendo ambos os topónimos sido atribuídos pela Câmara alfacinha através do Edital de 8 de junho de 1889, para substituir as antigas Rua Nova do Cais do Tojo e a Travessa Nova do Cais do Tojo.

A ligação ribeirinha de Lisboa ao Tejo é uma constante da história da cidade, enumerando a Chancelaria Régia em 1725 as praias de Alfama, Remolares, São Paulo e Boavista. O Cais do Tojo da Boavista – assim denominado para de distinguir do Cais do Tojo do lado oriental, conhecido como Cais do Tojo da Bica do Sapato – já surge mencionado em 1766, numa apresentação feita pelo juiz do povo, a referir a necessidade da construção de um Cais para a descarga e venda de tojo, carqueja, carvão e lenha, tanto na parte oriental como ocidental da cidade de Lisboa. Refira-se que tojo é uma planta arbustiva usada para cama de gado, estrume ou combustível.

O Cais do Tojo passou mesmo a ter um cais de madeira e nele aportavam inúmeros produtos, pelos quais se cobrava o donativo, um imposto municipal sobre os rendimentos, criado por resolução régia de 21 de março de 1766 e que começou a ser arrecadado a partir da publicação do edital municipal de 2 de novembro de 1769.  Sabe-se ainda que este arruamento teve em tempos um chafariz, muito frequentado por aguadeiros e populares e que em 11 de setembro de 1820 ocorreu um incêndio nas estâncias de lenha que lá existiam, tal como no ano seguinte o posto da 4.ª Companhia de Infantaria da Guarda Real da Polícia, nele situado, sofreu um grande incêndio, após o que surgiu nas imediações o topónimo Boqueirão do Duro.

Largo Vitorino Damásio – Freguesia da Estrela
(Foto: Sérgio Dias|NT do DPC)

O Largo Vitorino Damásio ( na freguesia da Estrela ), na confluência da Avenida Dom Carlos I e o Largo de Santos, nasceu de remodelações urbanísticas na zona que se espelharam no Edital municipal de 17/06/1947, tendo o troço da Rua Vasco da Gama com os prédios com os nºs 1 a 51 e 24 a 66 passado a ser o Largo em homenagem ao engenheiro que veio para Lisboa concretizar o Aterro da Boa Vista. Este Largo que até  1787 tinha o seu lado sul parcialmente sob a linha de água resulta das obras do Aterro.

O Aterro era uma ideia que pairava pelo menos desde o reinado de D. João V mas as obras para a sua construção apenas foram decididas após o surto de cólera morbus que grassou na Lisboa de 1857, como medida preventiva contra novos focos de epidemia e assim, em 1858,  o eng.º Vitorino Damásio foi encarregado de proceder ao aterro da margem, desde o Boqueirão da Moeda até à praia de Santos, com os trabalhos executados pela empresa Lucotte. Em  1859, rasgou-se também a Calçada de Santos (hoje, Calçada Ribeiro Santos) para ligar o Aterro à Rua das Janelas Verdes. O Aterro ficou concluído no mesmo ano – 1867 – da abolição da pena de morte mas em agosto. Foram ainda demolidas habitações entre a Praça D. Luís e a Rua das Janelas Verdes para a construção de um paredão que constituiu o 1º acesso ao troço inicial do Aterro e que mais tarde, em  13 de setembro de 1878,  recebeu o nome de Rua 24 de Julho.

A partir de 1881 operam-se ainda mais transformações neste espaço urbano. São abertas a Rua Dom Carlos I (hoje Avenida) e a Rua Vasco da Gama (onde hoje encontramos o Largo de Santos e o Largo Vitorino Damásio). Em 1887 e 1888 é também alargada a Rua Nova do Cais do Tojo (antes denominada Travessa Nova do Cais do Tojo), à qual o Edital municipal de 8 de junho de 1889 retirou a partícula «nova», tal como fez à Travessa Nova do Cais do Tojo (antes Travessa do Chafariz do Cais do Tojo).

José Vitorino Damásio (Feira/02.11.1807 – 19.10.1875/Lisboa), licenciado em Matemática e Filosofia desde 1837 e engenheiro do Conselho Superior de Obras Públicas e Minas desde 1852, foi escolhido para dirigir as obras do Aterro, tendo depois também desempenhado o cargo de Reitor do Instituto Industrial (1853), bem como de presidente da administração do Caminho-de-Ferro do Leste e diretor da Companhia das Águas (ambos em 1858), e ainda, de Diretor-Geral dos Telégrafos (1864).

Vitorino Damásio fora Lente da Academia Politécnica do Porto e engenheiro das Obras Públicas desse mesmo Distrito, tendo sido pioneiro na utilização do processo de cilindragem e construído a 1ª draga a vapor portuguesa, para além de, com Faria de Guimarães e Silva Guimarães, ter fundado a Fundição do Bolhão, onde se fabricou a primeira louça estanhada nacional, estando também em 1852 na criação da Associação Industrial Portuense. Ainda estudante, Vitorino Damásio alistara-se no Batalhão Académico dos exércitos liberais, tendo chegado a General de Brigada, condecorado com a Torre e Espada pelo seu comportamento durante o cerco do Porto.

O Largo Vitorino Damásio, a Rua do Cais do Tojo e a Travessa do Tojo
(Planta: Sérgio Dias|NT do DPC)

As quietas Travessas de Lisboa

Freguesia da Estrela  – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

Lisboa tem hoje 361 Travessas. Só as Freguesias do Areeiro e de Marvila não possuem nenhuma. A Travessa é uma rua estreita, secundária e transversal a duas outras artérias principais que põe em comunicação e, a sua toponímia é na sua grande maioria antiga e vinculativa das vivências locais.

Assim, começamos por mencionar as Travessas cujo topónimo é igual a uma Rua, Calçada ou Largo próximo, mesmo se no decorrer do tempo foi substituído por outro, que são 104. São disso exemplo a Travessa da Cruz da Era ( Benfica ), a Travessa de Palma ( São Domingos de Benfica ), a Travessa da Luz ( Carnide ), a Travessa dos Jerónimos ( Belém ), a Travessa Dom João de Castro (Ajuda), a Travessa Artur Lamas ( Belém, Alcântara ), a Travessa do Calvário (Alcântara), a Travessa dos Prazeres ( Campo de Ourique ), a Travessa do Possolo ( Estrela ), a Travessa de São Paulo ( Misericórdia ), a Travessa da Glória (Santo António), a Travessa da Cruz do Torel (Santo António, Arroios), a Travessa de Dona Estefânia,  a Travessa do Desterro ( Arroios , Santa Maria Maior ), a Travessa de Santa Luzia ( Santa Maria Maior ), a Travessa de São Tomé ( Santa Maria Maior, São Vicente ), a Travessa de Santa Marinha ( São Vicente ), a Travessa do Alto do Varejão (Penha de França),  a  Travessa da Picheleira ( Beato ), a Travessa de São Sebastião da Pedreira (Avenidas Novas), a Travessa do Pote de Água ( Alvalade ), a Travessa do Alqueidão (Lumiar) e a Travessa de São Bartolomeu (Santa Clara).

Também alguns becos viram ao longo do tempo a sua toponomemclatura ser mudada para Travessa, quer por pedido dos residentes, quer por as suas características urbanísticas se terem modificado.  Neste caso, encontramos 19 Travessas, como por exemplo, Travessa de Paulo Jorge (Belém), Travessa do Chafariz (Ajuda), Travessa do Livramento (Alcântara), Travessa do Barbosa (Campo de Ourique),  Travessa do Norte à Lapa (Estrela), Travessa do Carvalho ( Misericórdia ), Travessa do Chão da Feira (Santa Maria Maior), Travessa de Gaspar Trigo (  Santa Maria Maior, Arroios ), Travessa da Pena (Arroios), Travessa dos Remédios ( São Vicente , Santa Maria Maior ), Travessa de Santo André à Ameixoeira (Santa Clara).

Freguesia da Estrela – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

Já as Travessas cujas características e o local onde estão inseridas se reproduz no topónimo são 118. Escolhendo uma por freguesia podemos apontar como exemplos a Travessa do Poço (Parque das Nações),  a Travessa dos Buracos (Olivais), a Travessa de Santo António (Santa Clara), a Travessa do Canavial (Lumiar), a Travessa do Jogo da Bola (Carnide), a  Travessa do Rio (Benfica), a Travessa das Águas-Boas (São Domingos de Benfica), a Travessa do Espírito Santo ( São Domingos de Benfica , Avenidas Novas ), a Travessa do Rio Seco ( Ajuda ), Travessa da Memória ( Ajuda , Belém ), Travessa dos Algarves ( Belém ), a Travessa da Praia ( Alcântara ), a Travessa da Rabicha ( Campolide ), a Travessa de Cima dos Quartéis ( Campo de Ourique ), a Travessa do Convento das Bernardas (Estrela), a Travessa da Fábrica dos Pentes (Santo António), a Travessa do Poço da Cidade (Misericórdia), a Travessa do Cotovelo( Misericórdia , Santa Maria Maior ), a Travessa dos Teatros ( Santa Maria Maior ), a Travessa do Hospital ( Santa Maria Maior , Arroios ),  Travessa do Forno do Maldonado ( Arroios ), Travessa do Açougue ( Santa Maria Maior , São Vicente ), Travessa do Recolhimento de Lázaro Leitão (São Vicente).

Freguesia de Santo António – Placa de Azulejo
(Foto: Mário Marzagão)

Também as figuras com relevância local deram o seu nome a 72 Travessas. No seguimento de uma por freguesia, destacamos a Travessa do Morais ( Lumiar ), a Travessa do Pregoeiro (Carnide), a Travessa do Desembargador (Belém), a Travessa do Machado ( Ajuda ), a Travessa do Conde da Ponte (Alcântara), a Travessa de Estêvão Pinto ( Campolide ), a Travessa do Pasteleiro ( Estrela ), a Travessa do Fala-Só (Santo António), a  Travessa dos Inglesinhos (Misericórdia),  a Travessa do Almada (Santa Maria Maior), a Travessa do Torel (Arroios), a Travessa das Mónicas ( São Vicente ) e a Travessa do Calado (Penha de França).

Mas também figuras com relevância nacional foram colocadas em 12 Travessas, em épocas em que a carência de novos arruamentos se fazia sentir em Lisboa. Na Ajuda, pelo Edital de 07/08/1911, foi  Travessa Silva Porto, com a legenda «Herói de Ultramar/1817 – 1890» e a  Travessa Rui de Pina (um cronista do séc. XV ao serviço de D. João II).  Em Alcântara, pelo Edital de 27/04/1914 foi a vez da Travessa Teixeira Júnior, um jornalista republicano. Cerca de 12 anos depois foi a vez do Edital de 18/06/1926 atribuir em Benfica as Travessas Abade Pais, Miguel VerdialSargento Abílio, todos participantes do 31 de Janeiro de 1891, o escritor e polemista de jornais absolutista com a Travessa de José Agostinho de Macedo, um compositor com a Travessa Marques Lésbio e um pintor com a  Travessa de Francisco Rezende. Seis dias depois foi o Edital que 24/06/1926 que colocou em Alvalade a Travessa Henrique Cardoso, jornalista que também participou no 31 de Janeiro de 1891. E cerca de dois meses depois, pelo Edital de 20/08/1926, foi a vez de colocar o compositor e fundador dos Bombeiros Voluntários Guilherme Cossoul numa Travessa da hoje freguesia da Misericórdia. E finalmente, pelo Edital de  03/11/1986, em São Domingos de Benfica, foi atribuída a  Travessa Carlo Paggi, que homenageia um diplomata genovês do séc. XVII que publicou a sua tradução de Os Lusíadas em 1658. Aqui podemos juntar uma 13ª Travessa que trata de uma associação nacional, a Travessa do Vintém das Escolas em Benfica, atribuída pelo Edital de 14/10/1915, sendo Vintém das Escolas uma associação criada no Porto em 1901, para recolher por todo o país contribuições individuais de um vintém (20 réis) e assim reunir fundos destinados a um vasto movimento em benefício da instrução e educação das classes menos privilegiadas, dirigida por Francisco Gomes da Silva, Filipe da Mata e Heliodoro Salgado, entre outros.

Freguesia do Parque das Nações
(Foto: Sérgio Dias)

A freguesia do Parque das Nações tem ainda algumas peculiaridades nas suas Travessas herdadas da Expo 98. Tem 6 dedicadas a personagens da literatura, da banda desenhada e à mascote da Expo 98 – Travessa Corto MalteseTravessa do Gulliver, Travessa Robinson Crusoé, Travessa Sandokan, Travessa Sinbad, o Marinheiro Travessa do Gil – , mais 4 que fixam especiarias que os portugueses comerciaram a partir dos Descobrimentos – Travessa da Canela, Travessa da Malagueta, Travessa do Açafrão, Travessa do Gengibre – e ainda outras 3 referentes a aves: Travessa das Corujas, Travessa dos Mochos e Travessa dos Pintassilgos. 

Existem ainda em Lisboa outras 7 Travessas de universo florais que quando são usadas e não correspondem à flora local indicam a colocação de uma toponímia a que propositadamente não se quer dar sentido. São elas a  Travessa da Giesta, a Travessa do Alecrim, a Travessa da Madressilva, a Travessa da Verbena e a Travessa das Verduras na Ajuda;  a Travessa do Jasmim na Misericórdia e a Travessa das Flores em São Vicente.

Restam 12 Travessas cuja origem é um mistério e sobre as quais se podem levantar as mais variadas hipóteses. A Travessa da Galé em  Alcântara refere uma prisão ou um barco?… As outras onze são a Travessa das Florindas na  Ajuda, a Travessa da Paz e a Travessa do Castro na Estrela, a Travessa da Água-da-Flor, a Travessa da Cara, a Travessa da Arrochela, a Travessa da Espera e a Travessa da Portuguesa, todas na Misericórdia, a Travessa da Légua da Póvoa e a Travessa do Despacho em  Santo António e a Travessa da Amorosa, repartida pela  Penha de França e Beato.

Freguesias da Penha de França e do Beato – Placa de Azulejo
(Foto: Mário Marzagão)

Os Becos ou Vielas de Lisboa

Beco dos Beguinhos – Freguesia de São Vicente
(Foto: Mário Marzagão)

Lisboa conta nos nossos dias com 153 Becos, sendo que no decorrer dos séculos alguns deles ganharam o estatuto de travessa por via de alterações urbanísticas ou por solicitação dos residentes.

O Beco é uma rua estreita e curta, muitas vezes sem saída, ou se quisermos numa só palavra, é sinónimo de viela. A toponímia empregue nos becos lisboetas caracteriza-se pelo uso das suas peculiaridades, do tipo de artesãos que lá trabalhavam, das referências geográficas próximas como igrejas ou outras instituições passíveis de rápida identificação e  dos nomes dos seus moradores.

Freguesia de Benfica
(Foto: José Carlos Batista)

Primeiro, falemos da excepção que confirma a regra enunciada no parágrafo anterior: o Beco Pato Moniz, em Benfica, que homenageia um escritor ( 1781-1826) que faleceu no desterro a que o condenaram após a Vilafrancada por ser liberal. Atribuído pelo Edital municipal de 18/06/1926,  foi acompanhado na mesma zona com a atribuição em  Travessas e Largos dos também escritores José Agostinho de Macedo e Curvo Semedo, de três intervenientes no 31 de Janeiro de 1891 – Abade Pais, Sargento Abílio e Miguel Verdial – e do também republicano General Sousa Brandão, para além do compositor Marques Lésbio e do pintor Francisco Resende.

Beco do Quebra Costas – Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Artur Matos)

Dos outros 152 Becos alfacinhas, encontramos 32 relativos às características do próprio local: Beco do Norte ( Carnide ); Beco do CasalBeco da Pedreira da Caneja ( Campo de Ourique ); Beco da Galheta por corruptela de Calheta junto ao Tejo,  Beco do Olival, Beco do Tremoceiro ( Estrela );  Beco do Sabugueiro ( Alcântara ); Beco dos Aciprestes, Beco da Boavista do Alto de Santa Catarina ( Misericórdia); Beco da Achada, Beco do Alfurja, Beco do Funil, Beco da Amendoeira, Beco do Azinhal, Beco das Barrelas, Beco das Canas, Beco Cascalho, Beco do Forno junto ao Largo da Severa, Beco da Lapa,  Beco do Loureiro, Beco da Oliveira,  Beco do Pocinho, Beco do Quebra Costas por ser tão íngreme e dois Becos do Jasmim (todos em Santa Maria Maior ); Beco da Bombarda,  Beco do Monte de S. Gens ( Arroios ); Beco da Laje ( São Vicente e Santa Maria Maior ); Beco da Bica do Sapato, Beco da Era, Beco do Mirante ( São Vicente ); Beco das Taipas  ( Marvila ).

Beco da Mó – São Domingos de Benfica
(Foto: Sérgio Dias)

Referindo as profissões neles exercidas temos 23 : Beco dos Ferreiros ( Santa Clara ); Beco da Mestra ( Carnide ); Beco da Botica ( São Domingos de Benfica ); Beco do Fogueteiro ( Campo de Ourique ); Beco da Bolacha,  Beco dos Contrabandistas, Beco do Funileiro ( Estrela ); Beco dos Armazéns do LinhoBeco do Carrasco ( Misericórdia ); Beco do Almotacé, Beco da Atafona, Beco das Atafonas, Beco dos Cortumes por curtumes, Beco das FarinhasBeco do Imaginário pelo escultor de imagens de santos, Beco das Olarias,  Beco do Surra, Beco dos Surradores, Beco dos Três Engenhos ( Santa Maria Maior ); Beco dos Agulheiros, Beco da Mó, Beco dos Vidros ( São Vicente ); Beco dos Toucinheiros ( Beato ).

Com referências próximas  são 38 : Beco do Vintém das Escolas ( Benfica); Beco da Enfermaria por referência a um pequeno hospital que ali existiu no séc. XIX para os criados da Casa Real ( Belém ); Beco das Fontaínhas ( Alcântara ); Beco do Paiol da pólvora, Beco de Santa Quitéria por referência à Travessa do mesmo nome para substituir o Beco dos Mortos ( Campo de Ourique ); Beco dos Apóstolos que queria dizer jesuítas ( Misericórdia ); Beco da Cruz pela proximidade à  Rua da Cruz dos Poiais, Beco do Forno a São Paulo, Beco da Moeda por estar junto à Casa da Moeda ( Misericórdia ); Beco do Colégio dos Nobres, Beco de Santa Marta do Convento da mesma invocação que hoje vemos como Hospital (Santo António); Beco do Arco Escuro, Beco do Benformoso junto à Rua do Benformoso, Beco da Caridade  por via da Ermida do mesmo nome, Beco do Castelo Beco do Forno do Castelo de São Jorge, Beco dos Cavaleiros para substituir o Beco do Forno junto à Rua dos Cavaleiros, Beco das Cruzes  em Alfama, Beco do Espírito Santo da Ermida da mesma invocação que depois passou a ser dos Remédios, Beco do Forno da Galé junto à Rua da Galé, Beco das Gralhas pela proximidade ao Largo das Gralhas para substituir o Beco do Jasmim, Beco da Guia por mor de um oratório embutido numa parede, Beco do Outeirinho da Amendoeira, Beco do Penabuquel por proximidade ao Arco do Penabuquel da muralha fernandina, Beco de Santa Helena pelo Palácio seiscentista conhecido pelo mesmo nome, Beco de São Francisco por estar junto ao Terreirinho de São Francisco que depois passou a Largo da Achada, Beco de São Miguel pela proximidade à igreja da mesma invocação, Beco do Recolhimento de Nossa Senhora da Encarnação ( Santa Maria Maior ); Beco de São Lázaro junto à Rua do mesmo nome, Beco de São Luís da Pena por mor da Igreja da mesma invocação ( Santa Maria Maior e Arroios); Beco do Forno do Sol junto à Rua do Sol à Graça, Beco do Hospital de Marinha, Beco dos Lóios pela proximidade ao Largo dos Lóios e para substituir o Beco das Cabras, Beco dos Peixinhos por proximidade à Quinta dos Peixinhos, Beco do Salvador da Ermida de Jesus Salvador da Mata, Beco da Verónica pela proximidade à Ermida de Santa Verónica ( São Vicente ); Beco do Grilo dos Conventos dos Agostinhos Descalços ( Beato ) e Beco da Mitra ( Marvila ).

Beco do Penabuquel – Santa Maria Maior
(Foto: Artur Matos)

Com nomes ou alcunhas de moradores e/ou proprietários temos 36 : Beco do Chão Salgado do Palácio do Duque de Aveiro arrasado e salgado o seu chão, Beco de Domingos Tendeiro ( Belém); Beco da Ferrugenta, Beco dos GalegosBeco de João Alves ( Ajuda ); Beco de Estêvão Pinto ( Campolide ); Beco do Batalha,  Beco do Julião ( Campo de Ourique ); Beco do Machadinho  do Tabaco ( Estrela ); Beco do Caldeira por estar próximo da Travessa do Caldeira e substituir o Beco do Esfola Bodes, Beco de Francisco André ( Misericórdia ); Beco do Alegrete por estar junto ao Palácio dos Marqueses do Alegrete, Beco da Barbadela,  Beco do Belo, Beco da Cardosa, Beco do Chanceler de D. Dinis de seu nome Pedro Salgado, Beco dos Clérigos, Beco da Corvinha, Beco dos Fróis, Beco do Garcês, Beco do Guedes, Beco do Maldonado, Beco do Maquinez, Beco de Maria da Guerra, Beco do Marquês de Angeja, Beco do Melo, Beco do Mexias, Beco da Ricarda, Beco do Rosendo que seria Resende, Beco do Vigário ( Santa Maria Maior ); Beco dos Birbantes que esmolavam, Beco do Borralho de António de Moura Borralho, Beco do Félix, Beco de Maria Luísa, Beco do Petinguím ( Arroios ) e Beco da Amorosa ( Beato ).

Outros de ainda indefinida génese e alvo de discussão entre os olisipógrafos são 23: Beco da Ré por ser uma arguida ou um termo naval?( Belém ); Beco do Viçoso por ser alcunha ou um local verdejante, Beco do Xadrez por ser alcunha ou um padrão na arquitetura local? ( Ajuda ); Beco do Monteiro por ser alcunha ou sítio de montado? ( Campolide ); Beco dos Capachinhos por alcunha ou local de feitura de capachos?, Beco das Pirralhas por alcunha ou pela presença de crianças? ( Estrela ); Beco da Rosa por ser nome de moradora ou pela presença da flor? (Misericórdia );  Beco da Bicha por ser alcunha ou um animal?,  Beco do Bugio por se cravarem estacas no chão ou por haver um macaco?, Beco do Carneiro por ser apelido ou alcunha ou animal?, Beco dos Cativos por ter escravos ou presos?, Beco das Flores por ser inócuo ou por ter mesmo flores?, Beco da Formosa por uma mulher ou por uma paisagem bonita?, Beco do Leão por alcunha ou por símbolo?, Beco das Mil Patacas por uma lenda ou por uma comunidade macaense?, Beco dos Paus em sentido literal ou figurado?, Beco dos Ramos em sentido literal ou um apelido?, Beco de São Marçal por um azulejo do santo ou por um oratório dessa invocação? ( Santa Maria Maior ); o Beco da Bempostinha por alcunha ou outra coisa?, o Beco do Índia, o Beco da Índia aos Anjos uma alcunha ou alguém que esteve na Índia?( Arroios ); Beco das Beatas e o Beco dos Beguinhos ( São Vicente ).

Beco do Mexias – Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Mário Marzagão)

A Rua e a Travessa da família de mercadores Possolo

Rua do Possolo em 1969, destacando-se o pombalino Palacete dos Condes de Sabrosa
(Foto: Casa Fotográfica Garcia Nunes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Os Possolo  eram uma família de mercadores italianos que de acordo com Norberto de Araújo ergueram o seu Palácio a meio da artéria que hoje conhecemos como Rua do Possolo, à esquina da antiga Travessa das Almas, dando azo a que no último quartel do séc. XIX a Câmara lisboeta renomeasse as  Rua e Travessa da Boa-Morte como Rua e Travessa do Possolo.

A Rua  e a Travessa do Possolo foram topónimos atribuídos pela deliberação camarária de 30 de novembro de 1882 e consequente Edital de 4 de dezembro, para substituir as anteriores denominações de Rua e Travessa da Boa-Morte: «A rua da Boa Morte e a Travessa da Boa Morte no bairro occidental d’esta cidade passem a ter a denominação de Rua do Possollo e Travessa do Possollo.»  Refira-se ainda que a Travessa da Boa-Morte havia sido antes a Travessa dos Burros, até à publicação do Edital do Governo Civil de Lisboa de 5 de agosto de 1867.

O sítio da Boa Morte incluía os topónimos Rua Direita da Boa Morte (hoje Rua do Patrocínio), Rua do Possolo, Rua Possidónio da Silva, Rua de Sant’Ana e Rua de Santo António à Estrela, derivando o nome da existência no local do Convento da Congregação do Senhor da Boa Morte e Caridade, construído em 1736 e demolido em 1835.

Freguesias da Estrela e de Campo de Ourique – Placa de azulejo no pombalino Palacete dos Condes de Sabrosa
(Foto: Mário Marzagão)

Segundo Norberto de Araújo, os Possolo foram uma família de ricos negociantes italianos do séc. XVII, que  ali residiram no seu palácio erguido cerca de 1730,  com 8 varandas  e um portal brasonado na esquina da Travessa das Almas, mas que já se encontrava em ruínas na época em que o olisipógrafo escreveu – anos 30 do séc. XX- , conforme ele menciona.

Mais pormenores sobre a família devem-se sobretudo a apenas uma fonte: António de Portugal de Faria que escreveu Genealogia da Familia “Possollo” (impresso em 1892), que numa 2ª edição acrescentou (1673 a 1896). Segundo ele, a quinta Possolo foi edificado após o terramoto de 1755 por Nicolau Possolo, educado em Génova onde se dedicava ao comércio e se veio estabelecer em Portugal, tendo casado com a sua prima Joana Maria Eusébia Germack. Moravam no Largo do Corpo Santo e possuíam uma quinta na Lapa, sendo que, segundo o mesmo autor,  «Tinha relações de verdadeira amisade com El Rei D. João V que costumava ir visital’o passando com elle bocados de cavaqueira na sua quinta à Rua de Sant’Anna em Lisboa, que era n’aquella epoca o rendez-vous favorito da aristocracia.» Sucedeu-lhe o filho Nicolau Possolo (nascido em 11 de maio de 1757) que se tornou oficial maior do Conselho da rainha e abastado negociante de vinhos e casou com Maria do Carmo Correia de Magalhães Botelho de Morais Freirão Callabre, tendo o casal tido pelo menos 14 filhos, sendo o terceiro Francisca de Paula Possolo da Costa (1783 – 1838), conhecida como escritora, tendo a família residido até 1790 na Rua de Santana à Lapa.

Pela documentação do Arquivo Municipal ficamos a saber que em 1904 foram comprados terrenos para o alargamento das Travessas do Possolo e das Almas, intenção que havia sido aprovada na sessão de Comissão Administrativa Municipal de 7 de julho de 1891. Em 1929, o engº António Emídio Abrantes traçou o prolongamento da Travessa do Possolo ligando esta com a Calçada das Necessidades.

Refira-se finalmente que na esquina da Rua do Possolo  com a Rua de Santana à Lapa está ainda hoje o Palacete dos Condes de Sabrosa, construído no 3º quartel do séc. XVIII, de arquitetura pombalina  e com um exuberante revestimento de azulejos policromados da Fábrica de Campolide, traçados pelo desenho de João Rodrigues.

Freguesias da Estrela e de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias)

A Travessa de José António Pereira e o Palacete Pombal

O Beco do Cais de José António Pereira na planta de 1856 de Filipe Folque

José António Pereira, negociante em Lisboa e São Tomé no séc. XIX, construiu um prédio próximo da Avenida 24 de Julho, que após o vender ficou conhecido como Palacete Pombal, e em cuja proximidade está a Travessa que guarda o nome do comerciante.

A Travessa José António Pereira, que liga a Avenida 24 de Julho à Rua das Janelas Verdes, foi o topónimo dado por deliberação camarária de 8 de maio e consequente Edital de 8 de junho de 1889 ao Cais de José António Pereira, na então freguesia de Santos-O-Velho.

O Cais de José António Pereira, como era vulgarmente conhecido, devia o seu nome a um prédio que o comerciante construíra na 1ª metade do séc. XIX no Aterro (onde hoje temos a Avenida 24 de Julho) e já aparece assim referido em documentos municipais – como vistorias, escrituras de vendas de terrenos – de 1838, 1845, 1878, bem como no levantamento topográfico de Francisco Goullard de 1881. Já Filipe Folque, em 1856, no seu  Atlas de  Lisboa identifica a artéria como Beco do Cais de José António Pereira, o que condizia mais com o formato do arruamento.

A título de curiosidade refira-se que em 1905 José Dugas obteve licença municipal para a colocação de uma mesa de refrescos na então Rua 24 de Julho, em frente da Travessa de José António Pereira.

Segundo Gomes de Brito, José António Pereira era «Negociante em Lisboa, construtor do edifício que deu o seu nome ao Caes em frente do mesmo existente, ao longo ao actual Atêrro (Avenida 24 de Julho). Êste negociante, segundo as informações de Lopes de Lima (…), fundou em 1803 na Ilha de S. Tomé um estabelecimento rural e mercantil (…)»  e terá procurado ligar comercialmente a Ilha de S. Tomé com Portugal.

Já de acordo com Norberto de Araújo, José António Pereira era um «capitalista e comerciante» que na 1ª metade do séc. XIX mandou construir um edifício nos nºs 37 a 39 da Rua das Janelas Verdes, remodelando edificações anteriores do local. Mais tarde, vendeu este prédio a Joaquim José Fernandes, que sobre ele ergueu o imóvel que ficou conhecido como Palacete Pombal ou Palacete Burguês, para nele habitar a sua filha – Maria do Carmo Fernandes (1858 – 1931) – casada com D. António de Carvalho Melo (1850 – 1911), o 6º Marquês de Pombal. Em 1937, o detentor do título de Marquês de Pombal arrendou o palacete à Mocidade Portuguesa e passou a viver no palacete contíguo e nos anos 90 do séc. XX, lá funcionava a Escola Superior de Conservação e Restauro do Instituto José de Figueiredo.

A Travessa de José António Pereira hoje – Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias)

 

A quinhentista Travessa da Espera dos antigos joalheiros da Coroa e do Farta-Brutos

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias)

A quinhentista Travessa da Espera, no Bairro Alto, ainda nos dias de hoje alberga diversos comércios, de que se destacam o  restaurante Farta Brutos desde 1904, bem como uma loja  dos antigos joalheiros da Coroa – Leitão & Irmão – que desde 1887 se estabeleceram em Lisboa.

Sobre o significado do topónimo desta artéria que liga a  Rua da Misericórdia à Rua da Atalaia, ou seja, que faz a ligação do exterior ao interior do Bairro Alto, e que assim aparece denominada logo nas suas primeiras plantas, apenas se podem fazer suposições. Seria este arruamento o escolhido como ponto de encontro para se entrar neste Bairro implantado extra-muros mas adjacente à cerca fernandina, a partir da Rua Larga de São Roque [hoje, Rua da Misericórdia]?…

Recorde-se que o Bairro Alto de São Roque, de 1513, resulta da expansão urbana quinhentista próxima de uma porta da muralha fernandina e caracteriza-se por traçado quase ortogonal, com um esquema hierarquizado de ruas e travessas, em que as primeiras são eixos estruturantes perpendiculares ao rio e as travessas, os eixos secundários paralelos ao Tejo. A definição clara dos limites do Bairro em relação à cidade envolvente, manteve-o inalterado, único e original até aos nossos dias. Talvez a Travessa da Espera fosse o ponto de encontro para entrar nesse mundo íntimo do Bairro Alto de São Roque.

Na década de trinta do séc. XX, o olisipógrafo Norberto de Araújo caracterizou esta Travessa de uma forma que parece indiciar a predisposição para ponto de encontro: «A Travessa da Espera – pela qual vamos sair do interior do Bairro Alto – e que liga a Rua da Atalaia com a Rua Larga de S. Roque, é das serventias do Bairro mais movimentadas e tradicionais de turbulência. Porquê? – perguntas tu. Pela circunstância de ser uma saída natural do íntimo do sítio bairrista para o exterior, por S. Roque. Foi sempre servida por baiúcas de esquina, que desapareceram; hoje possue dois restaurantes pequenos, bem frequentados, de fundação recente em relação à antiguidade do sítio, mas sem nenhuma característica típica: o “Primavera“, e o “Farta-Brutos”, respectivamente nos nºs 45 e 53, êste mais antigo».

O Farta Brutos, no segundo quarteirão da Travessa da Espera, conforme Esculápio afirmou em 1941 numa conferência no Grupo Amigos de Lisboa, era uma «baiúca instalada em uma loja para a qual se descia por dois degraus, e administrada por um galego hercúleo, antigo cosinheiro de bordo, casado com uma mulher muito franzina que servia às mesas. Chamam-me o Farta Brutos, dizia o galego, para me chamarem bruto, quando, afinal, os brutos são êles. A casa era muito bem freqüentada por gente de jornais e de teatros. »

Já no primeiro quarteirão, nos 8 a 14, encontramos hoje a loja da oficina da joalharia Leitão & Irmão, ocupando parte do espaço onde foi a Imprensa Minerva – nos nºs 12 a 14 – em que se imprimia o António Maria, de Rafael Bordalo Pinheiro, e no qual Esculápio trabalhou.

A portuense Casa Leitão, na altura do cerco do Porto (1832 -1833), ocasionou relações do proprietário José Teixeira da Trindade com D. Pedro IV de Portugal e I do Brasil, que cinquenta anos depois lhe concedeu o título de Ourives da Casa Imperial do Brasil. Cerca de 15 anos depois, em 1 de dezembro de 1887, D. Luís I,  nomeou-os Joalheiros da Coroa Portuguesa, pelo que a Casa Leitão  se transferiu do Porto para Lisboa nesse ano e estabeleceu a sua primeira loja no então conhecido popularmente Largo das Duas Igrejas [hoje, Largo do Chiado]. Referia-se que a ourivesaria produziu uma baixela criada por Columbano Bordalo Pinheiro e em 1917, um faqueiro de prata com peças desenhadas por Jaime de Castro Leitão e René Lalique.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Travessa do Convento de Santa Mónica e da Cadeia das Mónicas

Freguesia de São Vicente
(Foto: Sérgio Dias)

A Travessa das Mónicas, topónimo derivado de um convento quinhentista convertido em cadeia, recebeu após o 25 de Abril um requerimento para que o topónimo fosse alterado mas a Comissão Municipal de Toponímia manteve o princípio de não alterar topónimos tradicionais, salvo « haja maior manifestação popular tendente à alteração toponímica».

Na reunião de 20 de dezembro de 1974, a Comissão Municipal de Toponímia analisou um requerimento de António Ferreira de Oliveira solicitando que o topónimo Travessa das Mónicas fosse alterado e emitiu o parecer de que «entende que se trata de um topónimo tradicional que, em princípio, não deve ser alterado. No entanto, admite que possa vir a reconsiderar, desde que haja maior manifestação popular tendente à alteração toponímica».

Freguesia de São Vicente – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

A Travessa das Mónicas, entre a Rua de São Vicente e o Largo da Graça, deve o seu nome ao Convento de Santa Mónica ali fundado em  1585/1586 por D. Maria Abranches, em propriedade de seu pai D. Álvaro de Abranches –  capitão-mor de Azamor -,destinado às religiosas eremitas descalças de Santo Agostinho. Sofreu danos consideráveis com o Terramoto de 1755 mas foi reconstruído. Após a extinção das ordens religiosas de  1834 e com a morte da última religiosa em 1870 o Estado instalou no Convento a Casa da Correcção dos Rapazes em 1871, que ao ser transferida para Caxias em 1901 deu lugar a uma casa similar para raparigas, que em 1912 passaram para o Colégio de São Patrício à Costa do Castelo, dando espaço para cinco anos mais tarde, em 1917, passar a ser uma cadeia para mulheres, que aliviasse a sobrelotação da Cadeia do Aljube, que ficou conhecida como Cadeia das Mónicas e assim funcionou até 1953, quando a  população prisional foi transferida para a então nova Cadeia Central de Mulheres em Tires. A partir de 1961 voltou a ser usada como a parte feminina da Cadeia Comarcã de Lisboa, passando em 2005 para os reclusos em Regime Aberto Voltado para o Exterior (RAVE) do Estabelecimento Prisional de Lisboa. No decurso de todas estas modificações na população que foi albergada no edifício manteve-se o painel de azulejos  do século XVIII representando Santa Mónica.

A poeta Sophia de Mello Breyner Andresen e o seu marido, Francisco Sousa Tavares, ambos presentes na toponímia de Lisboa, residiram nesta artéria.

Freguesia de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias)

A Senhora do Monte do Carmo entre a Penha de França e a Procissão

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias)

A Travessa do Monte do Carmo,  paralela à Rua da Escola Politécnica, liga hoje a Rua Cecílio de Sousa [ antiga Rua da Procissão do Corpo de Deus] à Calçada Engenheiro Miguel Pais [antes Calçada de João do Rio, e ainda antes Rua e primitivamente, Calçada da Penha de França], na freguesia de Santo António.

O topónimo pode estar relacionado com uma Ermida ou com um hospício, já que o cura Joachim Ribeiro de Carvalho, na sua memória da paróquia das Mercês, datada de 26 de abril de 1758, regista que «Ha mais nesta parochia, e na rua Fermosa della [é a que hoje conhecemos como Rua de O Século] huma Ermida de Nossa Senhora do Monte do Carmo, anexa desta parochia que he de Manoel de Sampayo e Pina, cavaleiro professo na ordem de Christo, (…) e no altar mor em hum nicho se venera a imagem da May Santissima do Monte do Carmo e lhe fas a sua festa todos os annos em o seu dia e teve esta Ermida seu principio no ano de mil e sete centos e trinta e dous (…) Há mais nesta freguezia quatro hospicios (…); outro dos Religiozos de Nossa Senhora do Monte do Carmo, de Pernambuco; outro dos Religiozos de Santo Antonio do Ryo de Janeiro;(…)».

Na planta de Lisboa após a remodelação paroquial de 1770, na freguesia de «N. Sª das Merces» surge este arruamento como Rua dos Nobres, já nessa época como hoje, paralela à Rua Direita do Colégio dos Nobres [hoje, Rua da Escola Politécnica]. Mais de 40 anos depois, na planta do Duque de Wellington de 1812, a artéria já aparece referida como Senhora do Carmo, indo da Rua da Penha de França à Rua da Procissão, com indicação tracejada de que poderia continuar, assim como em novembro de 1857 a planta de Filipe Folque a designa como Travessa da Senhora do Carmo.

A partir da década de sessenta do séc. XIX, encontramos o arruamento sempre com o topónimo de Travessa do Monte do Carmo: em 1864 no prospeto do prédio que Henry Ramel pretendia aumentar no n.º 65 da rua do Monte Olivete e a fazer esquina para a Travessa do Monte do Carmo; no levantamento topográfico de Francisco Goullard de 1882; bem como na Planta Topográfica de Lisboa de 1911, de Júlio Silva Pinto e Alberto Sá Correia. A primeira Comissão Municipal de Toponímia, criada em 1943, procedeu à confirmação ou alteração dos topónimos existentes na cidade, tendo na sua reunião de 11 de dezembro de 1945 confirmado o topónimo Travessa do Monte do Carmo.

Freguesia de Santo António
(Planta: Sérgio Dias)