O compositor barroco Marques Lésbio numa Travessa de Benfica

Freguesia de Benfica
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

O compositor barroco António Marques Lésbio ficou numa Travessa do Calhariz de Benfica, com a legenda «Compositor musical/1639-1709», pela publicação do Edital municipal de 18 de junho de 1926, substituindo a anterior denominação não oficial de  Travessa dos Namorados.

Nos arruamentos circundantes ficaram também figuras do século XIX, republicanas ou ligadas ao liberalismo como o General Sousa Brandão num Largo – um combatente das Campanhas da Liberdade de 1833-, protagonistas da revolução republicana do 31 de Janeiro de 1891, no Porto, como o Abade Pais, o Sargento Abílio e o ator Miguel Verdial (todos em Travessas), bem como dedicadas às artes como os escritores Pato Moniz – desterrado pela Vilafrancada de 1823-, José Agostinho de Macedo e Curvo Semedo ( num Beco, numa Travessa e num Largo) e o pintor Francisco Rezende (numa Travessa), autor da tela Camões salvando os Lusíadas (1867).

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

António Marques Lésbio (Lisboa/1639-21 ou 27.11.1709/Lisboa) foi um lisboeta que passou a sua vida inteira na cidade de Lisboa, famoso sobretudo pelos seus vilancicos –  o vilancico barroco ou cantata-vilancico foi uma das principais formas poético-musicais da música sacra barroca na Península Ibérica – , sobretudo os de Natal e de Reis, bem como por outra música barroca que compôs, como salmos, um miserere, lamentações para a Semana Santa, responsórios e motetes.

Os vilancicos repercutiram-se no seu nome já que nascido António Marques, acrescentou-lhe o nome Lésbio, referente à ilha grega de Lesbos, associada à origem da poesia lírica, que ele quis colar a si mesmo. Publicou numerosos vilancicos – espanhóis e portugueses – e musicou a maioria deles, sendo os primeiros de cerca de 1660, sendo certo que até nós chegou o seu próprio Victimae Paschalis laudes para a celebração da Páscoa ou o poema A Estrela de Portugal, o feliz nascimento da Sereníssima Infanta (1669), dedicado ao nascimento da princesa Isabel Luísa Josefa de Bragança.

Sabe-se também que em 1668 era mestre dos músicos de câmara do rei e que a partir daí foi ocupando vários cargos na corte: ensino dos moços do coro da Capela Real (1669), escrivão dos Contos (1680), bibliotecário da grandiosa Real Biblioteca de Música (1692) e finalmente, mestre da Capela Real (nomeado a 15 de janeiro de 1698, sucedendo a Filipe da Madre de Deus). Refira-se que a proibição dos vilancicos em 1724 e a destruição da Biblioteca Real de Música com o terramoto de Lisboa de 1755, contribuíram para o desconhecimento da maioria da sua obra.

Lésbio integrava a Academia dos Singulares de Lisboa, uma academia literária à semelhança das italianas, fundada em Lisboa em 1663. Está também presente numa Praceta da Arrentela (Seixal) e numa Rua de Évora.

A Travessa de Marques Lésbio em 1967
(Foto: João H. Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

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A Travessa de São Jerónimo junto da rua da mesma invocação

Freguesia de Alcântara
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Travessa de São Jerónimo que hoje vemos a ligar a Rua da Cruz a Alcântara à Rua Feliciano de Sousa, deriva o seu nome da proximidade a esta última artéria, que se denominou Rua de São Jerónimo até à publicação do Edital municipal de 21 de junho de 1926.

Encontramos a primeira referência escrita a esta Travessa de São Jerónimo em 1807, na planta de Duarte Fava, que também menciona a antiga Rua de São Jerónimo, sendo esta última também mencionada em outubro de 1873, quando Ressano Garcia remeteu ao presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Francisco Isidoro Viana  os orçamentos da despesa com a construção do cano geral na Rua de São Jerónimo em Alcântara, tal como em dezembro quando o administrador do concelho de Belém solicitou ao edil lisboeta providências para não causar prejuízos aos moradores e aos transeuntes por via das obras do cano terem parado. No séc. XX, o alinhamento da Rua de São Jerónimo é mencionado em documentos municipais de 1904 e 1906 e na plantas de Silva Pinto, de 1910 e 1911, tanto a Rua como a Travessa de São Jerónimo nelas figuram.

Freguesia de Alcântara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Porquê a invocação de São Jerónimo é que é uma área sobre a qual ainda só podemos formular hipóteses, embora nos pareça que as suas origens podem remontar ao séc. XVI, quando a zona ocidental da Lisboa de hoje tinha como pólos de povoamento o Restelo, a Junqueira, o Calvário e Alcântara.

Recorde-se que quando em 1459 o Infante D. Henrique solicitou autorização para instituir a paróquia de Santa Maria de Belém justificava o pedido por os colonos e lavradores do reguengo de Algés não terem paróquia certa mas foi concedida e extinta em 1497 sendo cerca de 1520 que surgem as primeiras referências à paróquia de Nª Srª da Ajuda. O Mosteiro dos Jerónimos começou a ser construídos em 1502. Em 1514  foi  erguida acima do Mosteiro a Capela de São Jerónimo, com traça de Diogo Boitaca, também conhecida como Ermida dos Navegantes ou Ermida do Restelo, e que é uma autêntica e minúscula réplica do Mosteiro dos Jerónimos. E aqui surge uma hipótese de explicação: sendo desconhecida em Alcântara uma capela dedicada a São Jerónimo pode o topónimo ter sido gerado no séc. XVI por referência à Ermida mais próxima que era a de São Jerónimo?… Recordamos que a Ermida de Santo Amaro só foi edificada a partir de 1542 e até 1549.

Por outro lado,  em 1520, a peste assolou fortemente Lisboa o que obrigou a improvisar rapidamente um hospital na quinta de D. Jerónimo de Eça, na Horta Navia, junto à ponte de Alcântara, mesmo na zona fronteira ao local da Travessa e Rua de São Jerónimo, por ordem de D. Manuel I de 23 de julho de 1520. Nesta época a Câmara de Lisboa ordenou também aos moradores de toda a zona que concorressem para a obra. Poderão os topónimos Travessa e Rua de São Jerónimo ter sido a canonização popular de D. Jerónimo de Eça pela cedência da sua quinta para a peste não se espalhar?…

Pormenor da planta de Filipe Folque de 1857

 

A Travessa do Convento de Jesus aberta no século XVII

Freguesia da Misericórdia (Foto: NT do DPC)

Esta Travessa do Convento de Jesus, que hoje vemos a ligar o Largo do Dr. António de Sousa Macedo ao Largo de Jesus, foi aberta no século XVII e teve topónimo oficializado pelo Edital municipal de 17 de outubro de 1924 que regista «que se conserve egualmente a designação travessa do Convento de Jesus que lhe foi dada pelo publico»,  fazendo este topónimo , tal como o Largo de Jesus, referência à proximidade ao Convento de Jesus ali erguido no século XVII.

Esta artéria foi aberta em 1678 e o topónimo foi dado pela população local por ir direitinha à fachada do Convento da Ordem Terceira de Jesus. Tal como a Travessa da Arrochela, surgem nas informações e plantas delineadas pelos serviços municipais a partir de maio de 1889, para servir o Liceu Passos Manuel que ali ia ser construído, sendo mencionadas como «uma delas com início no largo de São Bento até à calçada do Combro» ou «entre o largo das Cortes e a calçada do Combro»  e  uma outra « com início na calçada do Combro até à rua do Arco de Jesus [ em 1844 é referida como Rua do Arco do Marquês por desembocar na Rua Formosa do Palacete Pombal e desde 1924 é a Rua da Academia das Ciências]». Em 1856, Filipe Folque menciona-a no seu Atlas como Rua do Convento de Jesus e em 1883, Francisco Goullard no seu levantamento topográfico, já designa este arruamento como Travessa do Convento de Jesus.

Antes, de acordo com o olisipógrafo Norberto de Araújo « (…) Este sítio era de cardos, inculto por consequência, – ‘cardais’ lhe chamavam – e a tal ermida, assistida de um ermitão, encostava-se a uma casa de um tal Luiz Rodrigues e de seu irmão, que fizeram aos religiosos da Ordem Terceira de S. Francisco doação de sua propriedade logo que aermida foi entregue ao franciscano, em 1582. Principiou a ação dos religiosos num pequeno hospício (1595) mas em 1615 construiu-se o grande templo do Convento que sucedera ao modesto hospício, sendo inaugurado em 1632» o Convento de Nossa Senhora de Jesus, da Ordem Terceira de São Francisco.

Sofreu remodelações após o terramoto, de 1757 a 1795, com risco do arquiteto Joaquim de Oliveira e o acrescento de uma nova casa: a Livraria. Após a extinção do Convento em 1834, o Hospital de Jesus manteve as suas funções ligadas à saúde, a igreja do antigo convento passa a servir de igreja paroquial das Mercês e a zona conventual  passou a pertencer à Academia das Ciências de Lisboa, onde também foram instalados o Curso Superior de Letras e os Serviços Geológicos.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Refira-se ainda que foi em terrenos da antiga cerca do Convento de Jesus que em 1906 se começou a construir o Liceu Passos Manuel que foi inaugurado no ano letivo de 1911/12, tendo sido a Travessa do Convento de Jesus alinhada em julho de 1911.

E em dezembro de 2010 foi atribuída a classificação de Conjunto de Interesse Público ao Convento de Nossa Senhora de Jesus, Igreja de Nossa Senhora de Jesus, Academia das Ciências, Museu Geológico, Capela da Ordem Terceira de Nossa Senhora de Jesus e Hospital de Jesus.

 

A Travessa dos Fiéis de Deus para que não voltem as almas do Purgatório

Freguesia da Misericórdia – A Travessa dos Fiéis de Deus no cruzamento com a Rua da Barroca
(Foto: NT do DPC)

Esta Travessa dos Fiéis de Deus, que se alonga desde a  Rua das Gáveas até à  Rua de O Século, é um topónimo derivado de uma capelinha que ali foi erguida em 1551 seguindo o antigo costume dos Fiéis de Deus.

Como pode ler-se na lápide da entrada, foi um tal de Afonso Braz que  em 1551 ali levantou uma capelinha com características rurais, dedicada às almas do Purgatório, crê-se que construída em boa parte com as pedras acumuladas na base das cruzes existentes no cemitério próximo (onde hoje é a Rua dos Caetanos), seguindo o antigo costume cristão dos caminhantes lançarem pedras sobre as sepulturas desejando que a alma atingida fosse  um Fiel de Deus, ou seja, este costume dos Fiéis de Deus radica no costume primitivo de fazer peso sobre o cadáver enterrado para este não voltar ao mundo com o intuito de perseguir os vivos.

A Ermida dos Fiéis de Deus no cruzamento da Rua dos Caetanos com a Travessa dos Fiéis de Deus

Nas beiras das estradas de Portugal, nos locais em que antigamente eram enterrados os justiçados, ficavam pequenos montes de pedras que eram os Fiéis de Deus. Havia o costume de qualquer viajante que por ali passasse rezar pelo fiel defunto e jogar uma pedra no local, acabando  por ficar um pequeno monte de pedras com o passar do tempo.

Durante o século XVI, viveu na Ermida dos  Fiéis de Deus um ermitão cuja função era a de recolher as crianças perdidas e devolvê-las a seus pais. Um documento de 21 de junho de 1628, avança que para além desta Capela dos Fiéis de Deus tinham esta mesma função na cidade o Hospital dos Palmeiros, a Ermida de Nossa Senhora do Paraíso, a Igreja de S. Luís dos Franceses à Porta de Santo Antão, a Ermida de Santa Bárbara e a Igreja dos Anjos. Mais tarde,  em 1690, o Padre Gil Lourenço construiu no local uma nova capela, com um altar em talha dourada e paredes revestidas de silhares de azulejos e  quadros a óleo de Bento Coelho da Silveira que sofreu uma destruição parcial no Terramoto e foi reconstruída com uma estrutura simples. Esta Capela está classificada como Conjunto de Interesse Público.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O sítio do Ferragial em três artérias lisboetas

Rua do Ferragial – Freguesias de Santa Maria Maior e da Misericórdia
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

O quinhentista sítio do Ferragial, denominação que evoca uma planta de pasto, permaneceu no casco velha da cidade em três topónimos: a Calçada, a Rua e a Travessa, todos com a administração repartida pelas freguesias de Santa Maria Maior e Misericórdia.

Hoje, a Calçada do Ferragial liga o Largo do Corpo Santo à Rua Vítor Cordon, a Rua do Ferragial vai da Calçada do Ferragial até à Rua do Alecrim – ainda em 1908 na planta de Silva Pinto e Correia de Sá é mencionada como Rua do Ferragial de Baixo- , e a Travessa do Ferragial une a Calçada do Ferragial à Rua Vítor Cordon, sendo esta última aquela que não foi fixada naturalmente na memória da cidade mas atribuída por Edital do Governo Civil de Lisboa de 7 de novembro de 1874 ao Beco da Linheira, a partir de uma proposta do vereador Francisco Margiochi aprovada na edilidade lisboeta em 17 de agosto de 1874.

Ferragial provém do latim farrago e serve para designar o campo onde se cultivam cereais que ceifados verdes e antes de espigar servem de pasto para animais.

De acordo com Luís Pastor de Macedo, « Já no “Sumário” encontramos, em 1551, na freguesia dos Mártires as ruas de Cima e do Ferregial. O “Itinerario lisbonense” descrimina bem: Ferregial de Baixo, a primeira à direita, subindo pela rua do Alecrim e termina na Calçada do Ferregial; Ferregial de Cima, a última à direita, entrando na rua de S. Francisco da Cidade, da parte do Chiado e termina ao tesouro velho

Nas suas Peregrinações em Lisboa, o olisipógrafo Norberto de Araújo descreve o sítio da seguinte forma: «Já te disse que a Rua do Ferregial quinhentista corria do lado norte de Vítor Cordon de hoje; para perpectuar o nome nas aproximações topográficas ficaram na reedificação do sítio a Rua do Ferregial de Cima, que assim se chamou até 1890 a Rua Vítor Cordon, a incaracterística Rua do Ferregial de Baixo, que é esta que conduz ao Alecrim, a Calçada do Ferregial, que liga Vítor Cordon, num ângulo recto, à Calçada. (…) Correu por aqui ao fundo, em linha que não tenho possibilidade de situar por palavras e referências, o lanço sul da muralha da Cêrca nova de D. Fernando, que desde o Postigo do Duque de Bragança, sensivelmente na extrema sul da actual Rua António Maria Cardoso (esplanada) obliquava, com seus arcos (ou postigos) das Fontaínhas, do Corpo Santo e dos Cobertos, para tomar o caminho paralelo à rua do Arco dos Cobertos (Rua do Arsenal) e seguir por aí fora, sempre paralela ao mar».

Ainda segundo Luís Pastor de Macedo, a Travessa do Ferragial também terá sido chamada Calçadinha do Arroz.

Rua, Calçada e Travessa do Ferragial – Freguesias de Santa Maria Maior e da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Fábrica das Sedas que saiu de duas Ruas e ficou numa Travessa de Lisboa

A Travessa da Fábrica das Sedas, hoje na Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Fábrica das Sedas, manufactura joanina, cujo processo de instalação começou cerca de 1730, com a chegada a Lisboa do francês Robert Godin, deu nome como Rua Direita da Fábrica das Sedas ao arruamento onde estava instalada até passar a ser uma parte da Rua da Escola Politécnica, ao mesmo tempo que estava como Rua da Fábrica das Sedas numa artéria paralela à Rua do Arco de São Mamede, bem como no Alto de São Francisco, próximo da Fábrica pombalina das Amoreiras numa Travessa que é a única via que ainda hoje preserva a memória da Fábrica na toponímia de Lisboa.

Entre 1727 e 1730, o tecelão francês Robert Godin, chegou a a Lisboa para estabelecer fábricas de seda. Com o também francês e especialista no fabrico de sedas Sibert fez um requerimento a D. João V em 1731 para a instalação de uma fábrica de sedas  saindo o  alvará real de fundação apenas em 13 de fevereiro de 1734, com privilégios concedidos por 20 anos, como a exclusividade da manufactura de tecidos de seda e a obrigação de instruir aprendizes portugueses na arte das sedas. Foi lavrada  em 5 de outubro desse mesmo ano a escritura da sociedade de capitais da fábrica e Godin que não havia entrado com capitais, tinha direito a  15% dos lucros e a um salário anual de 480$00. A Fábrica foi construída segundo o risco de Carlos Mardel, com uma planta  longitudinal em L, ocupando todo um quarteirão, o do topo do Largo do Rato e ficou concluída em 1741, nos terrenos da Quinta do Morgado dos Soares de Noronha à Cotovia. O Imóvel está classificado como de Interesse Público pelo Decreto n.º 5/2002, de 19 de fevereiro de 2002.

Troço da antiga Rua Direita da Fábrica das Sedas em 1898
(Foto: Machado & Souza, Arquivo Municipal de Lisboa)

Esta Real Fábrica das Sedas joanina tornou-se georreferência da toponímia local através da Rua Direita da Fábrica das Sedas. Ou seja, o topónimo é posterior a 1741  e durou até o Edital do Governo Civil de Lisboa de 1 de setembro de 1859 que determinou que esta artéria, tal como a Rua da Patriarcal Queimada, passassem a ser uma só sob a  denominação de Rua da Escola Politécnica, a nova referência forte da zona.

Esta Real Fábrica das Sedas permaneceu sob a administração privada, até 1750, ano da insolvência da Fábrica das Sedas e consequente passagem a propriedade do Estado, por Decreto de 14 de maio de 1750. Já com Pombal adquiriu a designação de Real Fábrica das Sedas do Rato a partir de 1757 e por Alvará de 22 de setembro de 1758, o fundador da Companhia da Fábrica das Sedas, Robert Godin, foi nomeado como quinto diretor.

Em data também posterior à instalação da Fábrica surgiu paralela à Rua do Arco a São Mamede, uma Rua da Fábrica das Sedas, no Bairro dos trabalhadores da Fábrica e assim ficou até 1968, ano em que o Edital municipal de 10 de maio a transformou em Rua Maestro Pedro de Freitas Branco, por ter sido a artéria de residência desse compositor.

Em 1759, o Decreto de 14 de março aprovou a edificação do Bairro das Águas Livres para o estabelecimento dos fabricantes de seda incorporados na Real Fábrica pombalina, cujo epíteto de Real Colégio de Manufacturas Nacionais demonstrava que a Real Fábrica das Sedas para além de manufaturas de seda se dedicava a dar aulas aos aprendizes. Registou-se ainda a instalação de um conjunto de Fábricas Anexas  de cartas de jogar, botões, lençaria, chapéus, cutelaria, fundição de metais, pentes, relógios, serralharia, tapeçaria, tecidos e louça. É neste conjunto que o Marquês idealiza o jardim de amoreiras, cuja arborização com 331 amoreiras junto à fábrica das sedas (hoje Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva), se conclui em 1771. Em volta da praça da fábrica, a   Praça das Amoreiras, foram rasgadas diversas ruas, onde foram edificados prédios de estrutura pombalina, destinados a residências dos fabricantes que trabalhavam na fiação e aos aprendizes que trabalhavam com eles.

A Fábrica de Tecidos de Seda na Praça das Amoreiras, em 1961
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

É neste conjunto urbanístico que surge o bloco de edifícios da designada Travessa da Fábrica das Sedas, a unir a Rua de São Francisco de Sales à Travessa da Légua da Póvoa.  Esta Travessa da Fábrica das Sedas aparece depois mencionada  na planta de Filipe Folque de julho de 1857 e num requerimento de 22 de outubro de 1877, de diversos proprietários e moradores no Alto de S. Francisco e da Travessa da Fábrica das Sedas, solicitando  providências para melhorar aquele local, uma vez que não existia canalização e os despejos se faziam para a rua.

A retirada da família real e de parte da nobreza para o Brasil, devido às invasões francesas de 1807, a abertura dos portos brasileiros e a permissão de fabrico de sedas no Brasil em 1808,  bem como o tratado de comércio com a Inglaterra de 1810, conduziram à decadência da fábrica e à sua venda em hasta pública, decretada pela portaria de 27 de julho de 1835 e  na segunda metade do século XIX o edifício foi destinado pelos seus proprietários a novas utilizações, comerciais e particulares.

Refira-se que Cassiano Branco viveu no nº 7-7A desta Travessa da Fábrica das Sedas, numa moradia que ele próprio traçou.

A Travessa da Fábrica das Sedas, hoje na Freguesia de Santo António
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Travessa da Escola Araújo

Freguesia de Arroios
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Travessa da Escola Araújo, na Freguesia de Arroios, foi um topónimo solicitado à edilidade lisboeta pelo dono de umas propriedades nessa artéria e desconhece-se que Escola seria essa cujo mentor teria Araújo como apelido.

Um requerimento de «Raymundo da Silva Leal, dono d’umas propriedades situadas na via publica, que dá serventia para a Quinta do Pinheiro, no bairro Estephania, freguezia de S. Jorge» solicitou a denominação Travessa da Escola Araújo para poder ser atribuída numeração às suas propriedades, o que teve o parecer favorável da repartição de polícia municipal e a câmara deliberou nesse sentido na sua reunião de 10 de janeiro de 1894, tendo no dia 26 do mesmo mês, sido publicado o Edital que identificava a «2ª à direita na Rua de Dona Estefânia, vindo do lado sul e que partindo desta rua vai terminar no portão da entrada da Quinta do Pinheiro» doravante como Travessa Escola Araújo. O roteiro das ruas de Lisboa de Queirós Veloso, do ano seguinte (1895) refere ainda que o arruamento não tinha saída.

Menos de quarenta anos antes, em 1856, na planta de Filipe Folque o espaço era um conjunto de terrenos e ainda antes, na planta de  1807, de Duarte Fava,  era uma espécie de azinhaga que dava acesso à Rua da Cruz do Tabuado. Recuando ainda mais à planta de Lisboa de 1780, vemos nela apenas um espaço rural.

Como curiosidade, refira-se que o pintor Henrique Medina, talvez o maior pintor retratista do séc. XX,  tinha casa e ateliê nesta artéria,  para atender as personalidades da capital ou outras a quem a cidade de Lisboa fosse mais favorável para deslocação, situação que manteve até ao final da sua vida.

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Travessa do Tesouro das Necessidades

Freguesia da Estrela
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Travessa do Tesouro surge já com tal nome em 1857, no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque, na época o mais completo levantamento dos arruamentos da cidade.

Norberto de Araújo dá-nos a explicação do topónimo quando nas suas Peregrinações em Lisboa afirma que «Depois da proclamação da República, o Palácio, com todas as suas preciosidades de ourivesaria, que ficaram constituindo o “Tesouro das Necessidades” – do qual quase todas as peças mais notáveis foram transportadas anos depois para o Museu Nacional de Arte Antiga – esteve encerrado (…).»

Grato à Senhora das Necessidades pelas melhoras da paralisia de que padecera, D. João V comprou este local  e resolveu ampliar a ermida que lhe era dedicada, bem como erguer para si próprio um palácio no local, para além de ter mandado construir um hospício e um convento que em 1744 doou à Congregação do Oratório: o Convento de Nossa Senhora das Necessidades. Com a extinção das ordens religiosas em 1834, o edifício do convento foi anexado para os serviços da Casa Real e tornou-se Paço Real a partir de D. Maria II (Rio de Janeiro/1815 – 1853/Lisboa) e até 1910, embora o seu filho D. Luís tenha usado antes o Palácio da Ajuda. Refira-se assim que o 2º marido de D. Maria II, desde 9 de abril de 1836, D. Fernando II (Viena/1816 – 1885/Lisboa), pai dos reis D. Pedro V e D. Luís I, reuniu no Palácio das Necessidades uma  grande coleção de arte, tanto mais ele que ele próprio pintava, o que lhe valeu o cognome de Rei Artista. D. Fernando também se dedicou à  proteção do património arquitectónico português edificado, nomeadamente com obras de restauração e manutenção na vila da Batalha, no Convento de Mafra, no Convento de Cristo e em Lisboa, no Mosteiro dos Jerónimos, na e  na Torre de Belém.

Após a implantação da República em 5 de outubro de 1910, com grande parte do Tesouro colocado no Museu de Arte Antiga, o Palácio das Necessidades ficou desocupado até em 1950 ser transformado em sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros, sob o traçado do arqº Raúl Lino.

Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

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O Aqueduto das Águas Livres em 3 topónimos lisboetas

O Aqueduto das Águas Livres cerca de 1912
(Foto: Paulo Guedes, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Aqueduto das Águas Livres erguido entre 1732 a 1748 para melhorar o abastecimento de água a Lisboa, por ordem de D. João V, deu origem a 3 topónimos lisboetas no decorrer do século XX, sendo por ordem cronológica a Travessa das Águas Livres (1911), a Praça das Águas Livres (1948 e 1986) e a Rua do Aqueduto das Águas Livres (1990).

A Travessa das Águas Livres quando ainda era Travessa das Bruxas, em 1908
(Foto: Machado & Souza, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Travessa das Águas Livres que liga a Rua das Amoreiras à Praça das Amoreiras, hoje sob administração da Freguesia de Santo António, por deliberação de câmara de 3 de agosto de 1911 e consequente Edital  municipal de 7 de agosto de 1911, foi o topónimo escolhido para substituir a denominação existente de Travessa das Bruxas às Amoreiras. Refira-se que esta nova designação se fazia por referência de proximidade à Rua dos Arcos das Águas Livres que até 1874 foi o nome da Rua das Amoreiras, onde aliás se encontra  o arco triunfal que celebrou a entrada das águas do Aqueduto na cidade de Lisboa.

A Praça das Águas Livres em 1959
(Foto: Fernando Manuel de Jesus Matias, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Praça das Águas Livres, hoje parte da Freguesia de Campo de Ourique, foi o nome atribuído à praça situada no extremo oriental da Rua D às Amoreiras, por Edital municipal de 18 de junho de 1948 e assim se manteve por 33 anos. No entanto, sendo este o espaço onde o Ginásio Clube Português fez a sua sede passou então esta artéria a designar-se Praça Ginásio Clube Português, pelo Edital municipal de 10 de agosto de 1981. Cinco anos depois, o Edital de 3 de novembro de 1986 resolveu criar duas praças da seguinte forma: o troço da Praça Ginásio Clube Português constituído pela antiga Praça das Águas Livres passou a constituir novamente um arruamento distinto, com a antiga denominação de Praça das Águas Livres, mantendo o restante troço a denominação de Praça Ginásio Clube Português.

Rua do Aqueduto das Águas Livres – Freguesia de Campolide
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Por último, temos a Rua do Aqueduto das Águas Livres, no Bairro do Alto da Serafina, na Freguesia de Campolide. Pelo Edital de 15 de março de 1950 foi dada toponímica numérica no Bairro do Alto da Serafina e a outros Bairros Sociais da cidade, sendo então este arruamento a Rua 19. No final de 1989, o Edital de 28 de dezembro, denominou-a como Rua dos Ardinas, sendo alterados os restantes topónimos do Bairro, o que gerou protestos da população residente, pelo que com mediação da  Junta de Freguesia de Campolide e da Comissão de Moradores do Bairro foi possível chegar a um acordo para nova toponímia, desta feita relacionada com a época da construção do Aqueduto das Águas Livres ou instituições com uma forte ligação ao Bairro, que a Câmara fixou através do Edital de 14 de dezembro de 1990 e desde aí é a Rua do Aqueduto das Águas Livres.

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Da Travessa da Palha à Rua dos Correeiros

A Adega Friagem, na Rua dos Correeiros, em data entre 1910 e 1919
(Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

Foi na Travessa da Palha
Que o meu amante, um canalha,
Fez sangrar meu coração:
Trazendo ao lado outra amante
Vinha a gingar petulante
Em ar de provocação.

Na Taberna do Friagem
Entre muita fadistagem
Enfrentei os seus rancores,
Porque a mulher que trazia
Com certeza não valia
Nem sombra do meu amor.

São estes os versos iniciais de Foi na Travessa da Palha, fado com letra de Gabriel de Oliveira e música de Frederico de Brito, que recorda a Taberna ou Adega do Friagem na artéria que dá título ao tema e que hoje conhecemos como a Rua do Correeiros da Baixa lisboeta.

Foi na Travessa da Palha terá sido originalmente um fado intitulado Cena fadista criado para o repertório de Maria Alice, algures entre 1928 e a década de 40, quando esta fadista terminou a carreira por se ter casado com Valentim de Carvalho. Certo é que o fado ficou famoso na interpretação de Lucília do Carmo,  em 1958, já com o título mudado para Foi na Travessa da Palha e assim foi passando pelas vozes de Augusta Ermida, Cidália Moreira, Lenita Gentil e Diamantina, para além de no filme-documentário Fados (2007), do espanhol Carlos Saura, o tema surgir na voz de Lila Downs.

Quanto à história do arruamento sabemos que a Travessa da Palha é uma denominação popular anterior ao Terramoto de 1755, que resistiu na memória da população alfacinha pelo menos até ao século XX, para designar a Rua dos Correeiros, topónimo oficial desde 1760, em resultado do primeiro documento legal de toponímia que houve na cidade de Lisboa: a Portaria pombalina de 5 de novembro de 1760 que atribuiu denominações às ruas da Baixa lisboeta, entre a Praça do Comércio e a Praça do Rossio.

Conforme Norberto de Araújo escreveu  nas suas Peregrinações em Lisboa, em 1939, «Neste troço da Rua de Santa Justa, entre as Ruas dos Correeiros (vulgo Travessa da Palha) e a Rua da Prata, passava antes de 1755 em terminus a formosa Rua das Arcas, o Largo da Palha, do qual nascia a Rua da Palha que ia desembocar na Rua da Betesga, velha. A Rua dos Correeiros, que foi destinada aos ofícios dos seleiros – ainda hoje subsistentes – e que se chamou também Correaria Nova, e Nova dos Correeiros, deve a sua designação oral, sobrevivente, à vizinhança com o Largo e Praça da Palha.»

Recordemos que no séc. XIX, o século de nascimento do fado, era comum usar-se a denominação oficial e a popular em muitos topónimos da Baixa lisboeta. Por exemplo, em 1830 a Gazeta de Lisboa publica um anúncio em que se pode ler «vendem-se duas courellas de terra, nos campos de Azambuja; na rua dos Corrieiros, vulgo travessa da Palha, nº 79 – 1º andar». Também Francisco Inácio dos Santos Cruz, na sua obra Da prostituição na cidade de Lisboa, publicada em 1841,  refere a «Rua dos Correeiros (Travessa da Palha)» a propósito de ser preferida pelas «prostitutas de 2ª ordem», tal como a «Rua dos Sapateiros (Arco do Bandeira.

Finalmente, importa referir que Palha foi um topónimo usado em mais artérias lisboetas até ao século XIX.  No princípio do séc. XVII existia a Rua da Palha ou Rua da Palha de Santos que o Edital do Governo Civil de Lisboa de 1 de setembro de 1859 incorporou na Rua do Guarda-Mor, ficando assim esta artéria da Madragoa a unir a Rua das Trinas à Rua de São João da Mata. Em 1846 ainda aparece registado o Boqueirão da Palha da Boavista, em frente ao Largo do Conde de Barão;  em 1858 também ainda surge um Beco da Palha na Ribeira Velha,  ao pé do edifício da Alfândega e, na Junqueira, documentos municipais de 1887 também registam uma Travessa da Palha.

A antiga Travessa da Palha passou a Rua dos Correeiros em 1760
Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)