A Travessa da Aliança encostada à Rua da Aliança Operária

Freguesia da Ajuda
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Travessa da Aliança é um topónimo nascido da sua proximidade à Rua da Aliança Operária e a pedido da Junta de Paróquia da Ajuda, através do Edital municipal de 17 de novembro de 1917.

De acordo com a Ata da reunião da Comissão Executiva da CML de 15 de novembro de 1917 sabemos que a Junta de Paróquia da Ajuda, por via do seu ofício nº 208, de 4 de setembro de 1917,  sugeriu «que parte da rua do Mirador e uma parte da rua do Machado, vulgarmente conhecida pelo Alto das Pulgas, passe a denominar-se Escadinhas do Mirador e à Travessa de Sant’Ana, Travessa Aliança.» E assim a Câmara deliberou que a Travessa de Sant’Ana ou Travessa de Santana passasse a ser a Travessa da Aliança, de que se lavrou o Edital municipal de 17 de novembro de 1917 e assim ficou esta Travessa a ligar a Rua da Aliança Operária à Rua do Mirador.

Refira-se que já em 1915, por Edital de 14 de outubro, a Rua de Sant’Ana ou Rua de Santana se passara a denominar Rua Aliança Operária, para homenagear esta associação de defesa dos operários. Dois anos depois, a mesma lógica foi aplicada às Travessas de topónimos homónimos. Por outro lado,  uma das características da toponímia dada em Lisboa durante a I República foi justamente a substituição dos topónimos religiosos (hagiotopónimos) por outros de valores ou figuras republicanas.

A Associação de Socorros Mútuos e Instrução Aliança Operária, mais conhecida pelo nome resumido de Aliança Operária, foi fundada em 1880, para apoiar os trabalhadores nela filiados. Esta foi uma das muitas associações de trabalhadores nascidas em Portugal no séc. XIX e sediadas na cidade de Lisboa, após o impulso das doutrinas socialistas na Europa a partir de 1848, como a Associação Operária (1849), a Associação Tipográfica Lisbonense (1852), o Centro Promotor das Classes Laboriosas de Lisboa (1853), a Associação Fraternidade Operária (1872), a Associação dos Trabalhadores da Região Portuguesa (1874), a Caixa Económica Operária (1876), a Sociedade de Instrução e Beneficência A Voz do Operário (1879) ou a Fraternidade Operária Ajudense (1911).

A Aliança Operária está também presente como topónimo dos concelhos de Loures (Bobadela), Montijo e Vila Franca de Xira.

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Travessa dos Fornos de 1917

Freguesia da Ajuda
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Travessa dos Fornos, na Ajuda, foi atribuída pelo último Edital de toponímia de 1917, que explicitamente refere que este era o «nome porque vulgarmente éra conhecida».

Isto quer dizer que o arruamento que hoje vemos a ligar a Rua do Cruzeiro com a Rua Dom João de Castro, em resultado da deliberação da Comissão Executiva da CML de 15 de novembro de 1917 e consequente Edital de 14 de dezembro desse ano, foi uma oficialização do seu nome: Travessa dos Fornos.

Falta indagar porque seria assim conhecida como Travessa dos Fornos. E parece lícito supor que a denominação advém da proximidade desta artéria à Estrada dos Fornos d’El-Rei ou Estrada dos Fornos d’El-Rei no Rio Seco. A Estrada dos Fornos d’El-Rei, aparece numa planta de 1890, anexa a um ofício do engenheiro diretor-geral da CML, no  sítio do Rio Seco, assim como surge  da mesma forma designada na planta da cidade de 1896. Mais tarde, na planta de 1911, de Silva Pinto, a sua denominação passa a ser Estrada do Rio Seco e , ainda nesse ano, pelo Edital municipal de 7 de agosto de 1911 é atribuída a Rua Dom João de Castro como topónimo desta Estrada e assim chegou até aos dias de hoje. Por isso, a nossa hipótese é que esta artéria da Ajuda denominada Travessa do Fornos quis ser a Travessa dos Fornos d’El-Rei por estar junto à Estrada que hoje vemos como Rua Dom João de Castro .

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

A Travessa do Bahuto, da Quinta do mesmo nome, oficializada em 1918

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Travessa do Bahuto, que já assim era vulgarmente denominada há muito tempo, foi oficializada pelo Edital municipal de 8 de fevereiro de 1918, assinado pelo presidente da Câmara Municipal de Lisboa, José Carlos da Maia, que foi assassinado na Noite Sangrenta de 1921 e que em 1932 virá também a ser topónimo de Campo de Ourique.

Em 1918, esta Travessa ligava a Rua Saraiva de Carvalho com a Parada dos Prazeres (hoje é a Praça de São João Bosco) e guardava a memória da Quinta do Bahuto, cujo nome seria provavelmente o apelido do seu proprietário.

Um pouco antes do Terramoto de Lisboa, em 1741, foi  criada a freguesia de Santa Isabel, então destacada do território de Santos-o-Velho. Em 1959, a parte em que se incluía a Travessa do Bahuto foi para a nova freguesia de Santo Condestável e desde 2012 que esta artéria é pertença da freguesia de Campo de Ourique.

Por altura do terramoto de 1755, através do Rol dos Confessados da paróquia de Santa Isabel, podemos ter uma ideia aproximada dos lugares já habitados desta zona: Rua Direita da Boa Morte (Rua do Patrocínio), Rua da Fonte Santa (Rua Possidónio da Silva), Quinta do Bahuto, Quinta do Sargento-Mor, Casal Ventoso, Arco do Carvalhão, Vila Pouca, Sítio dos Moinhos e Campo de Ourique. A enorme Quinta do Bahuto ocupava em 1770 toda a área a sudoeste da Rua de Campo de Ourique (na altura era a Rua dos Pousos) até à Rua Saraiva de Carvalho (era então Caminho dos Prazeres).

Bahuto seria, provavelmente, o apelido de família do proprietário da Quinta, se considerarmos que em Belém também existia uma família com esse apelido que até originou junto ao antigo Mercado de Belém uma Rua do Bahuto e Gonçalves, referenciada de 1907 a 1913, no que são hoje  terrenos dos jardins de Belém, assim como em Belas (no concelho de Sintra) existiu uma Quinta do Bahuto e existe hoje uma Rua Felisberto Bahuto da Fonseca. Aliás, um vereador da Câmara Municipal de Lisboa em 1918 e 1919 chamava-se Pedro Midosi Baúto.

Já antes da sua oficialização em 1918, a artéria em causa era vulgarmente conhecida por Travessa do Bahuto, surgindo já assim nos documentos municipais do séc. XIX, para introdução de canalização no arruamento, bem como para construção de prédios entre 1891 e 1901.

 

A inclusão da Travessa da Praia na Travessa dos Brunos

A Travessa dos Brunos hoje – Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Edital municipal de 3 de outubro de 1919 estabelecia que «os prédios com os nºs 22 e 24 situados num troço da extinta via pública que se denominava Travessa da Praia sejam desta desanexados e encorporados [ incorporados] na Travessa dos Brunos» conforme a Comissão Executiva da Câmara deliberara na sua sessão de 28 de setembro.

Excerto da planta de Filipe Folque de 1857 (Arquivo Municipal de Lisboa)

Na planta de Filipe Folque, de 1857, a Travessa da Praia surge com uma extensão maior que a Travessa dos Brunos e bem junto a uma doca e ao Rio Tejo, fazendo jus ao seu nome. Mais de vinte anos depois, em 1879, na planta de Francisco e César Goulart, a Travessa da Praia aparece com uma extensão semelhante mas já longe do rio, com a Rua Vinte e Quatro de Julho ( mais tarde será a Avenida Vinte e Quatro de Julho) de permeio.

Excerto da planta de Francisco e César Goulart de 1879 (Arquivo Municipal de Lisboa)

Em outros documentos municipais ainda encontramos a Travessa da Praia no final do séc. XIX. Numa escritura com data de 28 de maio de 1884, de expropriação de terreno nessa artéria para abertura de novo arruamento entre a Rua do Sacramento e a Rua Vinte e Quatro de Julho.  Dois anos depois, em 22 de novembro de 1886, também num projeto e orçamento para a abertura da nova artéria, bem como em 7 de maio do ano seguinte na  expropriação de um prédio na Rua do Sacramento à Pampulha e Travessa da Praia e, finalmente, em 31 de agosto de 1889 na expropriação de mais terrenos.

As alterações urbanísticas da zona com o progressivo ganho de terreno ao Tejo conduzem a que a Travessa da Praia seja progressivamente diminuída, e considerada extinta em 1919, pegando então o que dela restava para ser integrado na Travessa dos Brunos,  memória dos frades cartuxos de São Bruno que nesta zona se instalaram no século XVII.  D. Jorge de Ataíde, bispo de Viseu e capelão-mor de Filipe II, propôs o estabelecimento da ordem de São Bruno de Colónia em Portugal e o prior D. Luís Telmo, da Cartuxa de Évora, aceitou umas casas na Pampulha, oferecidas pelo bispo, e assim ficarão na memória  desta Travessa.

A confirmação em 1919 de 14 topónimos de Carnide belenense

Passados 34 anos sobre a extinção do Concelho de Belém, em 1885, a edilidade alfacinha que o recebera e onde se incluía a jurisdição sobre Carnide, embora sem «a documentação referente à nomenclatura e numeração das vias públicas», resolveu oficializar 14 topónimos dessa recente zona lisboeta, pelo Edital municipal de 19 de julho de 1919.

Tal resolução de oficialização de 14 topónimos proveio da reunião da Comissão Executiva da Câmara de 10 de julho de 1919, na qual o vereador Augusto César de Magalhães Peixoto, propôs a confirmação de 4 Largos, 4 Ruas, 4 Travessas e 2 Becos de Carnide, a saber: o Largo das Pimenteiras (também conhecido então como Largo das Piçarras), o Largo da Praça, o Largo do Jogo da Bola, o Largo (ou Rua) e a Travessa do Malvar, a Rua da Fonte, a Rua e a Travessa do Machado, a Rua e o Beco da Mestra ( ou Rua e Travessa das Mestras), a Rua e o Beco do Norte, a Travessa do Cascão e a Travessa do Pregoeiro. De acordo com as características dos arruamentos a Comissão Executiva da CML também modificou alguns dos limites dos arruamentos, o que também foi publicado no Edital.

Numa planta de Carnide de ano indefinido mas do séc. XIX, a propósito de obras de canalização, encontramos já referidas quase todas estas artérias, a saber: o Largo do Jogo da Bola, o Largo das Pimenteiras, o Largo da Praça (também num alinhamento de 1907), a Rua do Norte, a Travessa e a Rua das Mestras (que a partir de 1919 passarão a Beco e Rua da Mestra), a  Rua e a Travessa do Machado, a Rua da Fonte (também num alinhamento de 1907), a Rua e a Travessa do Malvar e a Travessa do Cascão (também num alinhamento de 1899).

A maioria destes topónimos perpetuam moradores do local mesmo que hoje tenhamos dificuldade em os identificar: o Largo e a Travessa do Malvar, a Rua e a Travessa do Machado, a Rua e o Beco da Mestra, a Travessa do Cascão e a Travessa do Pregoeiro. Juntam-se as referências geográficas da Rua e do Beco do Norte e os topónimos que a partir de um elemento específico do local servem também de referência geográfica e de orientação no espaço: o Largo das Pimenteiras, o Largo da Praça, o Largo do Jogo da Bola e a Rua da Fonte.

A Travessa Detrás dos Quartéis como o nome indica

A Travessa Detrás dos Quartéis em 1964
(Foto: Artur João Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Travessa Detrás dos Quartéis foi atribuída no ano de 1919, pelo Edital municipal de 18 de julho, no então novo arruamento que passou a fazer a Rua das Amoreiras comunicar com a Rua Detrás dos Quartéis, colhendo desta última a sua designação por, como esta, se situar atrás de dois quartéis.

O Vereador Augusto César de Magalhães Peixoto, então o responsável pelo Serviço de Polícia Municipal – e denominado vogal por fazer parte de uma Comissão Administrativa da CML-, foi quem apresentou a proposta na sessão de 10 de julho da Comissão Executiva da Câmara Municipal de Lisboa.

A Rua Detrás dos Quartéis fora atribuída três anos antes, pelo Edital municipal de 26 de setembro de 1916. Contudo, em 1972, pelo Edital municipal de 5 de junho, foi unida à  Rua Junto do Quartel como um único arruamento, com a denominação que mantém na atualidade: Rua General José Paulo Fernandes, em memória de um militar que no decorrer da I Guerra Mundial integrou o Corpo de Artilharia Pesada em França.

Tal como a Rua dos Quartéis que ainda hoje existe na Ajuda, todos estes topónimos da freguesia referenciam a proximidade aos quartéis ali sediados, e na Travessa Detrás dos Quartéis os que estão em causa são o Quartel do Regimento de Infantaria de Lippe, de 1763 e o Quartel de Infantaria e Cavalaria do Regimento de Lanceiros de D. Maria II, de 1791.

O Regimento de Infantaria de Lippe teve este nome atribuído pelo decreto de 10 de maio de 1763, em homenagem ao Conde de Lippe (1724 – 1777), por extenso Conde de Schaumburg-Lippe-Bueckeburg, pela forma meritória como organizou o Exército português sendo seu marechal, bem como comandante das forças anglo-saxónicas na campanha de 1762 contra Espanhóis e Franceses, no último ano da Guerra dos Sete Anos (1756-1763).

O Regimento de Lanceiros, tem a divisa Morte ou Glória, fixada em azulejos na porta de armas, e esta foi  escolhida pelo oficial da Cavalaria Anthony Bacon, que foi o primeiro Comandante deste Regimento. O quartel foi assinalado por Duarte Fava  na sua planta de 1807 como Quartel da Guarda dos Corpos.

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O compositor barroco Marques Lésbio numa Travessa de Benfica

Freguesia de Benfica
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

O compositor barroco António Marques Lésbio ficou numa Travessa do Calhariz de Benfica, com a legenda «Compositor musical/1639-1709», pela publicação do Edital municipal de 18 de junho de 1926, substituindo a anterior denominação não oficial de  Travessa dos Namorados.

Nos arruamentos circundantes ficaram também figuras do século XIX, republicanas ou ligadas ao liberalismo como o General Sousa Brandão num Largo – um combatente das Campanhas da Liberdade de 1833-, protagonistas da revolução republicana do 31 de Janeiro de 1891, no Porto, como o Abade Pais, o Sargento Abílio e o ator Miguel Verdial (todos em Travessas), bem como dedicadas às artes como os escritores Pato Moniz – desterrado pela Vilafrancada de 1823-, José Agostinho de Macedo e Curvo Semedo ( num Beco, numa Travessa e num Largo) e o pintor Francisco Rezende (numa Travessa), autor da tela Camões salvando os Lusíadas (1867).

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

António Marques Lésbio (Lisboa/1639-21 ou 27.11.1709/Lisboa) foi um lisboeta que passou a sua vida inteira na cidade de Lisboa, famoso sobretudo pelos seus vilancicos –  o vilancico barroco ou cantata-vilancico foi uma das principais formas poético-musicais da música sacra barroca na Península Ibérica – , sobretudo os de Natal e de Reis, bem como por outra música barroca que compôs, como salmos, um miserere, lamentações para a Semana Santa, responsórios e motetes.

Os vilancicos repercutiram-se no seu nome já que nascido António Marques, acrescentou-lhe o nome Lésbio, referente à ilha grega de Lesbos, associada à origem da poesia lírica, que ele quis colar a si mesmo. Publicou numerosos vilancicos – espanhóis e portugueses – e musicou a maioria deles, sendo os primeiros de cerca de 1660, sendo certo que até nós chegou o seu próprio Victimae Paschalis laudes para a celebração da Páscoa ou o poema A Estrela de Portugal, o feliz nascimento da Sereníssima Infanta (1669), dedicado ao nascimento da princesa Isabel Luísa Josefa de Bragança.

Sabe-se também que em 1668 era mestre dos músicos de câmara do rei e que a partir daí foi ocupando vários cargos na corte: ensino dos moços do coro da Capela Real (1669), escrivão dos Contos (1680), bibliotecário da grandiosa Real Biblioteca de Música (1692) e finalmente, mestre da Capela Real (nomeado a 15 de janeiro de 1698, sucedendo a Filipe da Madre de Deus). Refira-se que a proibição dos vilancicos em 1724 e a destruição da Biblioteca Real de Música com o terramoto de Lisboa de 1755, contribuíram para o desconhecimento da maioria da sua obra.

Lésbio integrava a Academia dos Singulares de Lisboa, uma academia literária à semelhança das italianas, fundada em Lisboa em 1663. Está também presente numa Praceta da Arrentela (Seixal) e numa Rua de Évora.

A Travessa de Marques Lésbio em 1967
(Foto: João H. Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Travessa de São Jerónimo junto da rua da mesma invocação

Freguesia de Alcântara
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Travessa de São Jerónimo que hoje vemos a ligar a Rua da Cruz a Alcântara à Rua Feliciano de Sousa, deriva o seu nome da proximidade a esta última artéria, que se denominou Rua de São Jerónimo até à publicação do Edital municipal de 21 de junho de 1926.

Encontramos a primeira referência escrita a esta Travessa de São Jerónimo em 1807, na planta de Duarte Fava, que também menciona a antiga Rua de São Jerónimo, sendo esta última também mencionada em outubro de 1873, quando Ressano Garcia remeteu ao presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Francisco Isidoro Viana  os orçamentos da despesa com a construção do cano geral na Rua de São Jerónimo em Alcântara, tal como em dezembro quando o administrador do concelho de Belém solicitou ao edil lisboeta providências para não causar prejuízos aos moradores e aos transeuntes por via das obras do cano terem parado. No séc. XX, o alinhamento da Rua de São Jerónimo é mencionado em documentos municipais de 1904 e 1906 e na plantas de Silva Pinto, de 1910 e 1911, tanto a Rua como a Travessa de São Jerónimo nelas figuram.

Freguesia de Alcântara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Porquê a invocação de São Jerónimo é que é uma área sobre a qual ainda só podemos formular hipóteses, embora nos pareça que as suas origens podem remontar ao séc. XVI, quando a zona ocidental da Lisboa de hoje tinha como pólos de povoamento o Restelo, a Junqueira, o Calvário e Alcântara.

Recorde-se que quando em 1459 o Infante D. Henrique solicitou autorização para instituir a paróquia de Santa Maria de Belém justificava o pedido por os colonos e lavradores do reguengo de Algés não terem paróquia certa mas foi concedida e extinta em 1497 sendo cerca de 1520 que surgem as primeiras referências à paróquia de Nª Srª da Ajuda. O Mosteiro dos Jerónimos começou a ser construídos em 1502. Em 1514  foi  erguida acima do Mosteiro a Capela de São Jerónimo, com traça de Diogo Boitaca, também conhecida como Ermida dos Navegantes ou Ermida do Restelo, e que é uma autêntica e minúscula réplica do Mosteiro dos Jerónimos. E aqui surge uma hipótese de explicação: sendo desconhecida em Alcântara uma capela dedicada a São Jerónimo pode o topónimo ter sido gerado no séc. XVI por referência à Ermida mais próxima que era a de São Jerónimo?… Recordamos que a Ermida de Santo Amaro só foi edificada a partir de 1542 e até 1549.

Por outro lado,  em 1520, a peste assolou fortemente Lisboa o que obrigou a improvisar rapidamente um hospital na quinta de D. Jerónimo de Eça, na Horta Navia, junto à ponte de Alcântara, mesmo na zona fronteira ao local da Travessa e Rua de São Jerónimo, por ordem de D. Manuel I de 23 de julho de 1520. Nesta época a Câmara de Lisboa ordenou também aos moradores de toda a zona que concorressem para a obra. Poderão os topónimos Travessa e Rua de São Jerónimo ter sido a canonização popular de D. Jerónimo de Eça pela cedência da sua quinta para a peste não se espalhar?…

Pormenor da planta de Filipe Folque de 1857

 

A Travessa do Convento de Jesus aberta no século XVII

Freguesia da Misericórdia (Foto: NT do DPC)

Esta Travessa do Convento de Jesus, que hoje vemos a ligar o Largo do Dr. António de Sousa Macedo ao Largo de Jesus, foi aberta no século XVII e teve topónimo oficializado pelo Edital municipal de 17 de outubro de 1924 que regista «que se conserve egualmente a designação travessa do Convento de Jesus que lhe foi dada pelo publico»,  fazendo este topónimo , tal como o Largo de Jesus, referência à proximidade ao Convento de Jesus ali erguido no século XVII.

Esta artéria foi aberta em 1678 e o topónimo foi dado pela população local por ir direitinha à fachada do Convento da Ordem Terceira de Jesus. Tal como a Travessa da Arrochela, surgem nas informações e plantas delineadas pelos serviços municipais a partir de maio de 1889, para servir o Liceu Passos Manuel que ali ia ser construído, sendo mencionadas como «uma delas com início no largo de São Bento até à calçada do Combro» ou «entre o largo das Cortes e a calçada do Combro»  e  uma outra « com início na calçada do Combro até à rua do Arco de Jesus [ em 1844 é referida como Rua do Arco do Marquês por desembocar na Rua Formosa do Palacete Pombal e desde 1924 é a Rua da Academia das Ciências]». Em 1856, Filipe Folque menciona-a no seu Atlas como Rua do Convento de Jesus e em 1883, Francisco Goullard no seu levantamento topográfico, já designa este arruamento como Travessa do Convento de Jesus.

Antes, de acordo com o olisipógrafo Norberto de Araújo « (…) Este sítio era de cardos, inculto por consequência, – ‘cardais’ lhe chamavam – e a tal ermida, assistida de um ermitão, encostava-se a uma casa de um tal Luiz Rodrigues e de seu irmão, que fizeram aos religiosos da Ordem Terceira de S. Francisco doação de sua propriedade logo que aermida foi entregue ao franciscano, em 1582. Principiou a ação dos religiosos num pequeno hospício (1595) mas em 1615 construiu-se o grande templo do Convento que sucedera ao modesto hospício, sendo inaugurado em 1632» o Convento de Nossa Senhora de Jesus, da Ordem Terceira de São Francisco.

Sofreu remodelações após o terramoto, de 1757 a 1795, com risco do arquiteto Joaquim de Oliveira e o acrescento de uma nova casa: a Livraria. Após a extinção do Convento em 1834, o Hospital de Jesus manteve as suas funções ligadas à saúde, a igreja do antigo convento passa a servir de igreja paroquial das Mercês e a zona conventual  passou a pertencer à Academia das Ciências de Lisboa, onde também foram instalados o Curso Superior de Letras e os Serviços Geológicos.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Refira-se ainda que foi em terrenos da antiga cerca do Convento de Jesus que em 1906 se começou a construir o Liceu Passos Manuel que foi inaugurado no ano letivo de 1911/12, tendo sido a Travessa do Convento de Jesus alinhada em julho de 1911.

E em dezembro de 2010 foi atribuída a classificação de Conjunto de Interesse Público ao Convento de Nossa Senhora de Jesus, Igreja de Nossa Senhora de Jesus, Academia das Ciências, Museu Geológico, Capela da Ordem Terceira de Nossa Senhora de Jesus e Hospital de Jesus.

 

A Travessa dos Fiéis de Deus para que não voltem as almas do Purgatório

Freguesia da Misericórdia – A Travessa dos Fiéis de Deus no cruzamento com a Rua da Barroca
(Foto: NT do DPC)

Esta Travessa dos Fiéis de Deus, que se alonga desde a  Rua das Gáveas até à  Rua de O Século, é um topónimo derivado de uma capelinha que ali foi erguida em 1551 seguindo o antigo costume dos Fiéis de Deus.

Como pode ler-se na lápide da entrada, foi um tal de Afonso Braz que  em 1551 ali levantou uma capelinha com características rurais, dedicada às almas do Purgatório, crê-se que construída em boa parte com as pedras acumuladas na base das cruzes existentes no cemitério próximo (onde hoje é a Rua dos Caetanos), seguindo o antigo costume cristão dos caminhantes lançarem pedras sobre as sepulturas desejando que a alma atingida fosse  um Fiel de Deus, ou seja, este costume dos Fiéis de Deus radica no costume primitivo de fazer peso sobre o cadáver enterrado para este não voltar ao mundo com o intuito de perseguir os vivos.

A Ermida dos Fiéis de Deus no cruzamento da Rua dos Caetanos com a Travessa dos Fiéis de Deus

Nas beiras das estradas de Portugal, nos locais em que antigamente eram enterrados os justiçados, ficavam pequenos montes de pedras que eram os Fiéis de Deus. Havia o costume de qualquer viajante que por ali passasse rezar pelo fiel defunto e jogar uma pedra no local, acabando  por ficar um pequeno monte de pedras com o passar do tempo.

Durante o século XVI, viveu na Ermida dos  Fiéis de Deus um ermitão cuja função era a de recolher as crianças perdidas e devolvê-las a seus pais. Um documento de 21 de junho de 1628, avança que para além desta Capela dos Fiéis de Deus tinham esta mesma função na cidade o Hospital dos Palmeiros, a Ermida de Nossa Senhora do Paraíso, a Igreja de S. Luís dos Franceses à Porta de Santo Antão, a Ermida de Santa Bárbara e a Igreja dos Anjos. Mais tarde,  em 1690, o Padre Gil Lourenço construiu no local uma nova capela, com um altar em talha dourada e paredes revestidas de silhares de azulejos e  quadros a óleo de Bento Coelho da Silveira que sofreu uma destruição parcial no Terramoto e foi reconstruída com uma estrutura simples. Esta Capela está classificada como Conjunto de Interesse Público.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)