Do Beco do Conde de Sampaio à Travessa do Marquês de Sampaio

(Imagem: © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

O Edital do Governo Civil de Lisboa de 10 de outubro de 1871 mudou o nome do Beco do Conde de Sampaio para Travessa do Marquês de Sampaio, mudando não só a categoria do arruamento como o título do nobre que lhe dava nome e que falecera 30 anos antes.

A Travessa do Marquês de Sampaio, que se estende no espaço que medeia de  junto ao nº 34 da Rua da Boavista até junto ao nº 96 da Rua da Boavista, hoje na Freguesia da Misericórdia, perpetua o 2.º conde de Sampaio e desde 1834 também 1.º Marquês de Sampaio, que no local possuía residência.

O homenageado é  Manuel Maria Baltasar (ou Manuel António em outras fontes) de Sampaio Melo e Castro Moniz e Torres de Lusignano (Lisboa/06.01.1762-29.09.1841/Lisboa), o 2º Conde de Sampaio que  por decreto da rainha D. Maria II de 1 de dezembro de 1834 recebeu o  título de Marquês de Sampaio, também grafado como Marquês de São Paio. Era filho de António José de Sampaio Melo e Castro, genro do Marquês de Pombal por casamento com Teresa Xavier Violante Eva Judite de Daun. Este 2º Conde e 1º Marquês de Sampaio casou em 1783 com D. Joaquina Maria Rita José Estáquio de Melo (1765 – 1785) e em segundas núpcias, em 1787, com Maria Inês de Albuquerque Mendonça Furtado (1763 – 1815).

O 2.º Conde e 1.º Marquês de Sampaio, aluno do Colégio dos Nobres e militar, aos 45 anos ficou em Lisboa como membro do Conselho de Regência de 1807, para governar Portugal face à retirada da Corte para o Brasil. Aliás, com data de 4 de dezembro desse mesmo encontramos o registo do Aviso de Manuel António de Sampaio Melo e Castro Moniz e Torres de Lusignano, como secretário de Estado dos Negócios da Guerra, a informar que os governadores do reino determinaram que o Senado da Câmara de Lisboa suspendesse o acompanhamento da procissão proveniente da Sé de Lisboa. Mais tarde, foi vice-presidente da Junta Provisional do Governo Supremo do Reino constituída na sequência da Revolução Liberal do Porto de 24 de agosto de 1820 e presidente da Secção de Convocação das Cortes da Junta Preparatória das Cortes. Após a eleição das Cortes foi escolhido para presidente do Conselho de Regência de 1821 pelas Cortes Gerais Extraordinárias e Constituintes para governar até à chegada a Portugal do rei D. João VI, cargo semelhante ao de Primeiro-Ministro nos nossos dias, que exerceu de 27 de janeiro a 5 de julho desse ano.

Participou na Belfastada de 1828 e foi obrigado a procurar asilo na emigração liberal em Inglaterra. Após a estabilização do regime liberal, foi eleito deputado, nomeado par do Reino e recebeu o título de Marquês.

Freguesia da Misericórdia

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Do Beco à Travessa da Silva do Diogo da Silva que ali aforou terras no séc. XVI

 

O Edital do Governo Civil de Lisboa de 5 de abril de 1867 que tornou o Beco em Travessa da Silva

Próximo da Sé de Lisboa e na entrada de Alfama,  um Beco passou a Travessa pelo Edital do Governo Civil de Lisboa de 5 de abril de 1867, a pedido de moradores locais. Foi o Beco da Silva que passou a Travessa da Silva, então na Freguesia de São João da Praça, que havia sido criada em 1209. Vinte e seis anos depois, em 1893, o Edital municipal de 6 de novembro tornou-a Travessa do Chafariz de El-Rei e é assim que hoje ainda a encontramos na Freguesia de Santa Maria Maior.

Este Beco do Silva que passou a Travessa da Silva tudo indica ser um topónimo referente a uma pessoa conhecida no lugar e não o arbusto silva. Os documentos  apontam para um Diogo da Silva que aforou terras naquele local no séc. XVI. Segundo Luís Pastor de Macedo, «nos meados do séc. XVI a travessa era a rua de Diogo da Silva» e é assim que aparece no Sumário de Lisboa de 1551 de Cristóvão Rodrigues de Oliveira. Norberto de Araújo afirma que «Esta Travessinha, em escadaria, do Chafariz de El-Rei foi chamada, no tempo velho, Beco da Silva;  a razão toponímica tradicional esteve no nome do dono da tal casa [Diogo da Silva], trocado que foi, por corruptela o ‘do’ em ‘da’» e esclarece também que « Estas casas, por trás do Chafariz, e as que se seguem à direita da Travessa do Chafariz de El-Rei, foram, na base primitiva desaparecida, as do Marquês de Angeja – a que atrás me referi – (primeira metade do século XVIII), mas no século XVI, uma parte delas havia pertencido a um Lopo de Albuquerque de cujos herdeiros a Câmara a houve um tanto forçadamente e outra parte a um tal Diogo da Silva, que acabou por tomar de fôro as da Câmara.»

Pastor de Macedo elucida ainda que «juntamente com a travessa de S. João da Praça, talvez se tivesse chamado em 1565 travessa do Chafariz de El-Rei. Em 1573 vêmo-la designar por ‘travessa que vem da porta de S. Pedro para o chafariz’ [e dá-nos como sua fonte para este efeitos os livros dos Prazos da freguesia de S. João da Praça, caixa 16/15]. Depois, não sabemos desde quando, foi a rua e o beco da Silva» e refere que assim surge no Livro I de baptismos de S. João da Praça dos anos de 1714 e 1717, sendo ainda como Beco da Silva que está registada na Freguesia de  São João da Praça nas memórias paroquiais de 1755, assim como nas plantas da remodelação paroquial de 1770. Depois, já no séc. XIX, o Edital do Governo Civil de Lisboa de 1867 tornou a artéria em Travessa da Silva e o Edital municipal de 1893 voltou a alterar a denominação, desta feita para Travessa do Chafariz de El-Rei.

A primeira referência documental a este chafariz data de 1487, de acordo com Maria Calado, que todavia assinala que também se pode registar o seu funcionamento desde épocas mais recuadas. O Chafariz d’El-Rei surge ainda mencionado no Sumário de Lisboa de 1551. O Chafariz também foi topónimo para a Porta ou Postigo do Chafariz de El-Rei, que depois foi o  Beco das Moscas e ainda mais tarde a  Travessa de São João da Praça.

A Travessa do Chafariz de El-Rei em 1967
(Foto: Armando Serôdio, © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

 

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Da Rua dos Galegos à Rua do Duque e da Travessa dos Burros à da Boa Morte

A Rua dos Galegos na planta de 1858 de Filipe Folque

O Edital do Governo Civil de Lisboa da segunda-feira dia 5 de agosto de 1867, alterou a denominação de dois topónimos em dois locais diferentes da cidade: a Rua dos Galegos tornou-se a Rua do Duque e a Travessa dos Burros passou a ser Travessa da Boa Morte.

Da Rua dos Galegos à Rua do Duque

A Rua do Duque, hoje integrada na Freguesia de Santa Maria Maior, foi a Rua da Condessa de Cantanhade, a Rua de D. João Coutinho, a Rua do Galegos e  desde 1867, a Rua do Duque. O olisipógrafo Luís Pastor de Macedo, a este propósito refere que  «A Rua da Condessa de Cantanhede, freguesia do Sacramento, (…) é a actual Rua do Duque, depois de ter sido também designada Rua de D. João Coutinho e Rua dos Galegos: «Um fidalgo de primeira plano começa a aglomerar propriedades. É o Conde de Cantanhede, D. Pedro de Meneses, Alferes-mor de D. Manuel, senhor de Tancos e de Atalaia. Compra as casas que Rui de Sousa Cid adquirira a Leonardo Àlvares e, em breve o veremos adquirir outras propriedades próximas, na rua que ia do Postigo para o Carmo, e que veio a chamar-se mais tarde, pelo nome da sua terceira mulher, a Condessa de Cantanhede D. Guiomar. Foi assim que nasceu a rua, sucessivamente chamada de D. João Coutinho, dos Galegos, e do Duque». 

A título de exemplo para situar a época histórica de cada topónimo, recordamos que a Rua da Condessa de Cantanhede aparece num documento de 26 de novembro de 1596, como a morada do barbeiro Manuel Fernandes, enquanto fiador de Simão Lopes que tinha a obrigação de vender 500 carneiros no açougue. Em 1704, surge como Rua da Condessa ao Carmo, num plano de obras de uma casa. Em 13 de outubro de 1739 já deparamos com uma vistoria na Rua dos Galegos. De 1812 a 1848 aparece como Rua da Condessa em alguns documentos municipais,  mesmo se em 1836 e 1838 são apontadas demolições de prédios e de um pardieiro na Rua dos Galegos tal como em 1858, na planta de Filipe Folque, se regista a Rua dos Galegos.

Na data de 5 de agosto de 1867, para além de alterar a Rua dos Galegos para Rua do Duque, o Governo Civil de Lisboa também atribuiu o topónimo Calçada do Duque. Em ambos os casos, a homenagem é a um antigo proprietário local, o Duque de Cadaval.

A Travessa dos Burros na planta de 1856 de Filipe Folque

Da Travessa dos Burros à Travessa da Boa Morte

A Travessa dos Burros junto à Rua Direita da Boa Morte, está já assim registada em agosto de 1856 no levantamento cartográfico de Filipe Folque. Cerca de onze anos depois, em fevereiro de 1867, ainda deparamos com o topónimo Travessa dos Burros através do traçado de um prédio que José Bernardo Ferreira quis construir no n.º 7 e 8, nesta zona que ainda era amplamente rural. Nesse mesmo ano, em agosto, o Edital do Governo Civil de Lisboa de dia 5 alterou a denominação para Travessa da Boa Morte, por referência ao Convento da Congregação do Senhor da Boa Morte e Caridade, construído em 1736 e demolido em 1835.

Por último, o Edital municipal de 4 de dezembro de 1882 voltou a modificar o nome da Travessa da Boa Morte para Travessa do Possolo, tal como a Rua da Boa Morte ficou como Rua do Possolo, e esta denominação é a que ainda hoje se apresenta nesta artéria da Freguesia da Estrela.

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Do Beco do Cemitério à Travessa da igreja barroca da Pena

A Travessa da Pena em 1901
(Foto: Machado & Souza, © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

Na quarta-feira dia 7 de novembro de 1866 um Edital do Governo Civil de Lisboa mudou o topónimo Beco do Cemitério para Travessa da Pena, por solicitação de «alguns proprietarios , e outros indivíduos residentes no beco do Cemiterio, freguezia da Pena, districto do Bairro Alto».

Assim, «o beco denominado do Cemiterio, contiguo á calçada de Santa Anna» passou a fazer referência à Igreja paroquial de Nossa Senhora da Pena que foi também invocação da própria Freguesia até 2012. Hoje, este arruamento sem saída que encontramos a nascer junto ao nº 179 da Calçada de Santana, pertence à Freguesia de Arroios.

Entre 1564 e 1570, o cardeal D. Henrique, então Arcebispo de Lisboa, criou seis paróquias a partir da Paróquia de Santa Justa, entre elas a de Sant’Ana, com sede na igreja quinhentista do Mosteiro de Santa Ana das Religiosas da Ordem Terceira de São Francisco. Contudo, dissidências entre as religiosas do Mosteiro e os fregueses da Irmandade do Santíssimo Sacramento operaram a criação de uma nova igreja, no cimo da Calçada de Santana, para onde se mudaram em 25 de março de 1705, dia da Encarnação, dando depois à nova Igreja Paroquial a invocação de Nossa Senhora da Pena, benzida pelo bispo de Bona. Segundo Nuno Saldanha, no seu artigo sobre esta matéria no Dicionário da História de Lisboa , «É sobretudo a Manuel Antunes, ao mesmo tempo mestre pedreiro e tesoureiro da Irmandade, que se devem as obras de edificação da nova fábrica, que, a partir de 1703, contrai um empréstimo para a compra de um conjunto de casas situadas na Rua do Adro, local onde se ergueria a futura capela-mora da igreja».

Neste templo de estilo barroco joanino trabalharam nas suas talhas Claude Laprade, Manuel Quaresma, Domingos da Costa e Santos Pacheco; bem como Jerónimo da Silva, André Gonçalves, João Nunes de Abreu e António Lobo  nas suas telas e pinturas, para além de Luís Baptista e Pedro Alexandrino, após o sismo de 1755, que causou danos na frontaria e interior da igreja mas permitindo reedificação, obra que se prolongou até 1793. Contudo, o templo reabriu ao culto em 1763 e no período entre 1755 e 1763 a paróquia funcionou, sucessivamente, no Colégio de Santo Antão dos Jesuítas (hoje, Hospital de São José) e na Ermida dos Perdões do Palácio Mitelo.

Freguesia de Arroios

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Do Beco das Moscas à Travessa de São João da Praça e da Rua do Chinelo à Travessa Nova de Santos

O Beco das Moscas na planta de Filipe Folque de 1858 e a Travessa São João da Praça na planta de 1909 de Silva Pinto

O Edital do Governo Civil de Lisboa do sábado 17 de outubro de 1863, transformou o Beco das Moscas na Travessa de São João da Praça, assim como  a Rua do Chinelo na Travessa Nova de Santos, a pedido de «alguns proprietarios de predios, e outros individuos, residentes» nesses arruamentos, alterando os topónimos comuns por referências religiosas dos locais onde se inseriam.

O Beco das Moscas já aparece em 1858 no levantamento cartográfico de Lisboa executado por Filipe Folque e  de acordo com o Edital do Governo Civil de 1863 «dá serventia do Caes de Santarem para o largo da egreja parochial de S. João da Praça», pelo que se entende que o novo topónimo faça referência à essa igreja e à artéria próxima que é a Rua de São João da Praça., que já em 1551 era a Rua Direita de São João, conforme o Sumário de Cristóvão Rodrigues de Oliveira. A Travessa de São João da Praça, hoje na Freguesia Santa Maria Maior, passou a fazer menção ao templo medieval que de acordo com Norberto de Araújo   «data do princípio do século XIV, pelo menos, e teve como orago S. João Degolado, ou seja S. João Baptista», embora tenha sido completamente destruído com o terramoto de 1755 surgindo no seu lugar um novo construído em 1789.

Já a Travessa Nova de Santos resulta de uma segunda intervenção do Governo Civil de Lisboa naquele arruamento. A artéria denominada Rua do Noronha,  «na Freguezia de Santos o velho», passou pelo primeiro Edital do Governo Civil de Lisboa, de 1 de setembro de 1859, a designar-se  Rua do Chinelo como era vulgarmente conhecida, mas quatro anos volvidos, mudou novamente o seu nome, desta feita para referir a invocação local desde logo presente no topónimo da freguesia: Santos, dos Santos Mártires Veríssimo, Máxima e Júlia.

Esta Travessa Nova de Santos que é hoje território sob a administração da Freguesia da Estrela, teve o seu calcetamento reparado em junho de 1886; assim como sabemos que pelo menos em junho de 1910 acolheu Festejos dos Santos Populares com a artéria ornamentada para esse efeito bem como em 1919 teve o seu traçado de via alinhado.

Travessa Nova de Santos na Freguesia da Estrela

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A quinhentista Travessa da Queimada e a novela regiana «Davam grandes passeios aos domingos»

Capa da 1ª edição de Davam grandes passeios aos domingos, na Editorial Inquérito, o nº 40 da Coleção Novelas, em 1941
(Imagem:  © CER)

No 1º andar direito do nº 23 da Travessa da Queimada esteve instalada a Editorial Inquérito responsável pelas primeiras edições de quatro obras de José Régio: o ensaio Em torno da expressão artística (1940), a novela  Davam Grandes Passeios aos Domingos (1941), o romance O Príncipe com Orelhas de Burro (1942), e a peça A Salvação do Mundo (1954).

Nessa época, a Editorial Inquérito imprimia as suas edições na tipografia Libanio da Silva, sediada ali próximo, na Travessa do Fala Só, junto à Calçada da Glória.  Já o nº 23 da Travessa da Queimda é o Palácio Rebelo Palhares, do séc. XVII, que pertenceu ao 1º. Conde Almeida Araújo e onde, para além da Editorial Inquérito, se albergaram os jornais Diário Ilustrado (1872-1910), Correio da Europa (1902) e A Bola, a partir de 1945.

A Travessa da Queimada, que se alonga desde o antigo Largo de São Roque, hoje Largo Trindade Coelho, até à Rua da Atalaia é um arruamento quinhentista que marca o limite da 1ª fase de urbanização da Vila Nova de Andrade, futuro Bairro Alto de São Roque, que decorreu de 1513 a 1518, partindo das Portas de Santa Catarina para poente e subindo até esta Travessa da Queimada, que primitivamente foi qualificada como rua, mas também terá sido designada como Travessa dos Poiais. Salienta-se que a modernidade da urbanização do Bairro Alto aqui se revelou por ser construída em quadrícula, com um traçado de ruas ortogonal, antes de Lisboa sequer pensar vir a ter  a Baixa pombalina.

Sobre a origem deste topónimo a explicação mais verosímil é a do olisipógrafo Vieira da Silva que o faz derivar do nome de uma certa fidalga, Ana Queimada, que em meados do séc. XVI tinha  naquele local  aforado um chão aos frades de São Roque, para construir moradias nobres.

 

O nº 23 da Travessa da Queimada
(Foto: Cláudia Michele Damas e Sousa, 2012, Arquivo Municipal de Lisboa)

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com o apoio de 

O Arraial da Calçada da Bica Grande

Calçada da Bica Grande – Freguesia da Misericórdia

Pela Calçada da Bica Grande, Beco dos Aciprestes e Travessa do Cabral, prolonga-se o Arraial das Festas de Lisboa 2019 promovido pelo Marítimo Lisboa Clube, coletividade fundada no dia 1 de outubro de 1944, e que também logo em em 1952 foi responsável pela organização da Marcha da Bica conseguindo o seu primeiro 1º Prémio, que repetiu em 1955 e 1958, bem como em 1963 ex-aequo com Marvila, assim como em 1992 e 2003.

A Travessa

A Bica é um conjunto urbano seiscentista e setecentista que como freguesia foi destacada da freguesia dos Mártires  em 1566, como Freguesia de São Paulo, que hoje é parte da freguesia da Misericórdia. A Calçada da Bica Grande, toda em escadinhas, que sobe da Rua de São Paulo até à Travessa do Cabral e nessa subida abre à direita o Beco dos Aciprestes. De acordo com o olisipógrafo Norberto de Araújo Bica Grande e Bica Pequena podem ter sido apenas denominações dadas com o sentido de Calçada Grande e Calçada Pequena, o que até se ajusta à largura e extensão das serventias. Certo é que Filipe Folque no seu Atlas de Lisboa de 1856 já a menciona como Calçada da Bica Grande. Em 1909 foram reformadas as escadas e o cano de esgoto desta Calçada, o mesmo em que datado de 4  de junho, encontramos um pedido de autorização de José Tavares, como presidente da comissão organizadora dos festejos a Santo António, São João e São Pedro, para construir um coreto na Calçada da Bica Grande.

Travessa do Cabral, surge referida em 1706 na Corografia Portuguesa do padre Carvalho da Costa, como Rua do Cabral, mas em 1856, no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque, já figura com o topónimo que conhecemos hoje. Norberto de Araújo explica que o homenageado é o bacharel Manuel Rodrigues Cabral, que nasceu no final do século XVI e morreu em 1632, que seria morador no local apontando, sem garantir certeza, como o seu solar de residência o prédio no nº 35 que torneja para a Calçada da Bica Pequena e ostenta um pórtico nobre. Por seu turno, a investigadora Graça Índias Cordeiro, defende que o topónimo se deve ao embaixador espanhol Cabral. Nesta artéria, no séc. XX, também viveu António Alçada Baptista.

O Beco

E finalmente, junto ao nº 34 da Calçada da Bica Grande nasce o Beco dos Aciprestes, identificado em 1856 por Filipe Folque como Beco do Acipreste. Eventualmente, pode o topónimo ter sido originado pela residência no local de um Arcipreste, o pároco que numa diocese tem poder superior ao dos restantes párocos, e ter havido uma corruptela gráfica. Na Gazeta de Lisboa de 29 de julho de 1829, refere-se uma propriedade foreira da Sé de Lisboa neste arruamento – o nº 1 com os nºs 3 e 4 da Calçada da Bica Grande -, sendo o foro de «80 reis e huma gallinha». Outra hipótese pode ser a proximidade a um cemitério nas suas redondezas, por ser frequente usarem este tipo de árvores.

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A Travessa da Aliança encostada à Rua da Aliança Operária

Freguesia da Ajuda
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Travessa da Aliança é um topónimo nascido da sua proximidade à Rua da Aliança Operária e a pedido da Junta de Paróquia da Ajuda, através do Edital municipal de 17 de novembro de 1917.

De acordo com a Ata da reunião da Comissão Executiva da CML de 15 de novembro de 1917 sabemos que a Junta de Paróquia da Ajuda, por via do seu ofício nº 208, de 4 de setembro de 1917,  sugeriu «que parte da rua do Mirador e uma parte da rua do Machado, vulgarmente conhecida pelo Alto das Pulgas, passe a denominar-se Escadinhas do Mirador e à Travessa de Sant’Ana, Travessa Aliança.» E assim a Câmara deliberou que a Travessa de Sant’Ana ou Travessa de Santana passasse a ser a Travessa da Aliança, de que se lavrou o Edital municipal de 17 de novembro de 1917 e assim ficou esta Travessa a ligar a Rua da Aliança Operária à Rua do Mirador.

Refira-se que já em 1915, por Edital de 14 de outubro, a Rua de Sant’Ana ou Rua de Santana se passara a denominar Rua Aliança Operária, para homenagear esta associação de defesa dos operários. Dois anos depois, a mesma lógica foi aplicada às Travessas de topónimos homónimos. Por outro lado,  uma das características da toponímia dada em Lisboa durante a I República foi justamente a substituição dos topónimos religiosos (hagiotopónimos) por outros de valores ou figuras republicanas.

A Associação de Socorros Mútuos e Instrução Aliança Operária, mais conhecida pelo nome resumido de Aliança Operária, foi fundada em 1880, para apoiar os trabalhadores nela filiados. Esta foi uma das muitas associações de trabalhadores nascidas em Portugal no séc. XIX e sediadas na cidade de Lisboa, após o impulso das doutrinas socialistas na Europa a partir de 1848, como a Associação Operária (1849), a Associação Tipográfica Lisbonense (1852), o Centro Promotor das Classes Laboriosas de Lisboa (1853), a Associação Fraternidade Operária (1872), a Associação dos Trabalhadores da Região Portuguesa (1874), a Caixa Económica Operária (1876), a Sociedade de Instrução e Beneficência A Voz do Operário (1879) ou a Fraternidade Operária Ajudense (1911).

A Aliança Operária está também presente como topónimo dos concelhos de Loures (Bobadela), Montijo e Vila Franca de Xira.

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Travessa dos Fornos de 1917

Freguesia da Ajuda
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Travessa dos Fornos, na Ajuda, foi atribuída pelo último Edital de toponímia de 1917, que explicitamente refere que este era o «nome porque vulgarmente éra conhecida».

Isto quer dizer que o arruamento que hoje vemos a ligar a Rua do Cruzeiro com a Rua Dom João de Castro, em resultado da deliberação da Comissão Executiva da CML de 15 de novembro de 1917 e consequente Edital de 14 de dezembro desse ano, foi uma oficialização do seu nome: Travessa dos Fornos.

Falta indagar porque seria assim conhecida como Travessa dos Fornos. E parece lícito supor que a denominação advém da proximidade desta artéria à Estrada dos Fornos d’El-Rei ou Estrada dos Fornos d’El-Rei no Rio Seco. A Estrada dos Fornos d’El-Rei, aparece numa planta de 1890, anexa a um ofício do engenheiro diretor-geral da CML, no  sítio do Rio Seco, assim como surge  da mesma forma designada na planta da cidade de 1896. Mais tarde, na planta de 1911, de Silva Pinto, a sua denominação passa a ser Estrada do Rio Seco e , ainda nesse ano, pelo Edital municipal de 7 de agosto de 1911 é atribuída a Rua Dom João de Castro como topónimo desta Estrada e assim chegou até aos dias de hoje. Por isso, a nossa hipótese é que esta artéria da Ajuda denominada Travessa do Fornos quis ser a Travessa dos Fornos d’El-Rei por estar junto à Estrada que hoje vemos como Rua Dom João de Castro .

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

A Travessa do Bahuto, da Quinta do mesmo nome, oficializada em 1918

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Travessa do Bahuto, que já assim era vulgarmente denominada há muito tempo, foi oficializada pelo Edital municipal de 8 de fevereiro de 1918, assinado pelo presidente da Câmara Municipal de Lisboa, José Carlos da Maia, que foi assassinado na Noite Sangrenta de 1921 e que em 1932 virá também a ser topónimo de Campo de Ourique.

Em 1918, esta Travessa ligava a Rua Saraiva de Carvalho com a Parada dos Prazeres (hoje é a Praça de São João Bosco) e guardava a memória da Quinta do Bahuto, cujo nome seria provavelmente o apelido do seu proprietário.

Um pouco antes do Terramoto de Lisboa, em 1741, foi  criada a freguesia de Santa Isabel, então destacada do território de Santos-o-Velho. Em 1959, a parte em que se incluía a Travessa do Bahuto foi para a nova freguesia de Santo Condestável e desde 2012 que esta artéria é pertença da freguesia de Campo de Ourique.

Por altura do terramoto de 1755, através do Rol dos Confessados da paróquia de Santa Isabel, podemos ter uma ideia aproximada dos lugares já habitados desta zona: Rua Direita da Boa Morte (Rua do Patrocínio), Rua da Fonte Santa (Rua Possidónio da Silva), Quinta do Bahuto, Quinta do Sargento-Mor, Casal Ventoso, Arco do Carvalhão, Vila Pouca, Sítio dos Moinhos e Campo de Ourique. A enorme Quinta do Bahuto ocupava em 1770 toda a área a sudoeste da Rua de Campo de Ourique (na altura era a Rua dos Pousos) até à Rua Saraiva de Carvalho (era então Caminho dos Prazeres).

Bahuto seria, provavelmente, o apelido de família do proprietário da Quinta, se considerarmos que em Belém também existia uma família com esse apelido que até originou junto ao antigo Mercado de Belém uma Rua do Bahuto e Gonçalves, referenciada de 1907 a 1913, no que são hoje  terrenos dos jardins de Belém, assim como em Belas (no concelho de Sintra) existiu uma Quinta do Bahuto e existe hoje uma Rua Felisberto Bahuto da Fonseca. Aliás, um vereador da Câmara Municipal de Lisboa em 1918 e 1919 chamava-se Pedro Midosi Baúto.

Já antes da sua oficialização em 1918, a artéria em causa era vulgarmente conhecida por Travessa do Bahuto, surgindo já assim nos documentos municipais do séc. XIX, para introdução de canalização no arruamento, bem como para construção de prédios entre 1891 e 1901.