O Aqueduto das Águas Livres em 3 topónimos lisboetas

O Aqueduto das Águas Livres cerca de 1912
(Foto: Paulo Guedes, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Aqueduto das Águas Livres erguido entre 1732 a 1748 para melhorar o abastecimento de água a Lisboa, por ordem de D. João V, deu origem a 3 topónimos lisboetas no decorrer do século XX, sendo por ordem cronológica a Travessa das Águas Livres (1911), a Praça das Águas Livres (1948 e 1986) e a Rua do Aqueduto das Águas Livres (1990).

A Travessa das Águas Livres quando ainda era Travessa das Bruxas, em 1908
(Foto: Machado & Souza, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Travessa das Águas Livres que liga a Rua das Amoreiras à Praça das Amoreiras, hoje sob administração da Freguesia de Santo António, por deliberação de câmara de 3 de agosto de 1911 e consequente Edital  municipal de 7 de agosto de 1911, foi o topónimo escolhido para substituir a denominação existente de Travessa das Bruxas às Amoreiras. Refira-se que esta nova designação se fazia por referência de proximidade à Rua dos Arcos das Águas Livres que até 1920 era o nome da Rua das Amoreiras, onde aliás se encontra  o arco triunfal que celebrou a entrada das águas do Aqueduto na cidade de Lisboa.

A Praça das Águas Livres em 1959
(Foto: Fernando Manuel de Jesus Matias, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Praça das Águas Livres, hoje parte da Freguesia de Campo de Ourique, foi o nome atribuído à praça situada no extremo oriental da Rua D às Amoreiras, por Edital municipal de 18 de junho de 1948 e assim se manteve por 33 anos. No entanto, sendo este o espaço onde o Ginásio Clube Português fez a sua sede passou então esta artéria a designar-se Praça Ginásio Clube Português, pelo Edital municipal de 10 de agosto de 1981. Cinco anos depois, o Edital de 3 de novembro de 1986 resolveu criar duas praças da seguinte forma: o troço da Praça Ginásio Clube Português constituído pela antiga Praça das Águas Livres passou a constituir novamente um arruamento distinto, com a antiga denominação de Praça das Águas Livres, mantendo o restante troço a denominação de Praça Ginásio Clube Português.

Rua do Aqueduto das Águas Livres – Freguesia de Campolide
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Por último, temos a Rua do Aqueduto das Águas Livres, no Bairro do Alto da Serafina, na Freguesia de Campolide. Pelo Edital de 15 de março de 1950 foi dada toponímica numérica no Bairro do Alto da Serafina e a outros Bairros Sociais da cidade, sendo então este arruamento a Rua 19. No final de 1989, o Edital de 28 de dezembro, denominou-a como Rua dos Ardinas, sendo alterados os restantes topónimos do Bairro, o que gerou protestos da população residente, pelo que com mediação da  Junta de Freguesia de Campolide e da Comissão de Moradores do Bairro foi possível chegar a um acordo para nova toponímia, desta feita relacionada com a época da construção do Aqueduto das Águas Livres ou instituições com uma forte ligação ao Bairro, que a Câmara fixou através do Edital de 14 de dezembro de 1990 e desde aí é a Rua do Aqueduto das Águas Livres.

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Da Travessa da Palha à Rua dos Correeiros

A Adega Friagem, na Rua dos Correeiros, em data entre 1910 e 1919
(Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

Foi na Travessa da Palha
Que o meu amante, um canalha,
Fez sangrar meu coração:
Trazendo ao lado outra amante
Vinha a gingar petulante
Em ar de provocação.

Na Taberna do Friagem
Entre muita fadistagem
Enfrentei os seus rancores,
Porque a mulher que trazia
Com certeza não valia
Nem sombra do meu amor.

São estes os versos iniciais de Foi na Travessa da Palha, fado com letra de Gabriel de Oliveira e música de Frederico de Brito, que recorda a Taberna ou Adega do Friagem na artéria que dá título ao tema e que hoje conhecemos como a Rua do Correeiros da Baixa lisboeta.

Foi na Travessa da Palha terá sido originalmente um fado intitulado Cena fadista criado para o repertório de Maria Alice, algures entre 1928 e a década de 40, quando esta fadista terminou a carreira por se ter casado com Valentim de Carvalho. Certo é que o fado ficou famoso na interpretação de Lucília do Carmo,  em 1958, já com o título mudado para Foi na Travessa da Palha e assim foi passando pelas vozes de Augusta Ermida, Cidália Moreira, Lenita Gentil e Diamantina, para além de no filme-documentário Fados (2007), do espanhol Carlos Saura, o tema surgir na voz de Lila Downs.

Quanto à história do arruamento sabemos que a Travessa da Palha é uma denominação popular anterior ao Terramoto de 1755, que resistiu na memória da população alfacinha pelo menos até ao século XX, para designar a Rua dos Correeiros, topónimo oficial desde 1760, em resultado do primeiro documento legal de toponímia que houve na cidade de Lisboa: a Portaria pombalina de 5 de novembro de 1760 que atribuiu denominações às ruas da Baixa lisboeta, entre a Praça do Comércio e a Praça do Rossio.

Conforme Norberto de Araújo escreveu  nas suas Peregrinações em Lisboa, em 1939, «Neste troço da Rua de Santa Justa, entre as Ruas dos Correeiros (vulgo Travessa da Palha) e a Rua da Prata, passava antes de 1755 em terminus a formosa Rua das Arcas, o Largo da Palha, do qual nascia a Rua da Palha que ia desembocar na Rua da Betesga, velha. A Rua dos Correeiros, que foi destinada aos ofícios dos seleiros – ainda hoje subsistentes – e que se chamou também Correaria Nova, e Nova dos Correeiros, deve a sua designação oral, sobrevivente, à vizinhança com o Largo e Praça da Palha.»

Recordemos que no séc. XIX, o século de nascimento do fado, era comum usar-se a denominação oficial e a popular em muitos topónimos da Baixa lisboeta. Por exemplo, em 1830 a Gazeta de Lisboa publica um anúncio em que se pode ler «vendem-se duas courellas de terra, nos campos de Azambuja; na rua dos Corrieiros, vulgo travessa da Palha, nº 79 – 1º andar». Também Francisco Inácio dos Santos Cruz, na sua obra Da prostituição na cidade de Lisboa, publicada em 1841,  refere a «Rua dos Correeiros (Travessa da Palha)» a propósito de ser preferida pelas «prostitutas de 2ª ordem», tal como a «Rua dos Sapateiros (Arco do Bandeira.

Finalmente, importa referir que Palha foi um topónimo usado em mais artérias lisboetas até ao século XIX.  No princípio do séc. XVII existia a Rua da Palha ou Rua da Palha de Santos que o Edital do Governo Civil de Lisboa de 1 de setembro de 1859 incorporou na Rua do Guarda-Mor, ficando assim esta artéria da Madragoa a unir a Rua das Trinas à Rua de São João da Mata. Em 1846 ainda aparece registado o Boqueirão da Palha da Boavista, em frente ao Largo do Conde de Barão;  em 1858 também ainda surge um Beco da Palha na Ribeira Velha,  ao pé do edifício da Alfândega e, na Junqueira, documentos municipais de 1887 também registam uma Travessa da Palha.

A antiga Travessa da Palha passou a Rua dos Correeiros em 1760
Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

A Travessa do Rosário onde José Malhoa viveu 13 anos

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Travessa do Rosário que liga a Travessa da Conceição da Glória à Rua da Alegria foi a morada do pintor José Malhoa em Lisboa durante os seus últimos 13 anos de vida.

José Malhoa que pintou o célebre quadro O Fado, em duas versões, uma em 1909 e a final em 1910 – mesmo que Lisboa só  tenha visto exposto o quadro em 1917, por até aí ser considerado um tema marginal e impróprio -, viveu no nº 8 da Travessa do Rosário de 1922 a 1933, ano da sua morte.

Foto: Eduardo Portugal, 1954, Arquivo Municipal de Lisboa

Só na planta de Lisboa de 1807 de Duarte Fava é que encontramos esta Travessa do Rosário próxima da Praça da Alegria – já que a cidade alfacinha acolhe também uma Travessa do Rosário a Santa Clara -, o que até faz sentido se recordarmos que o sítio da Alegria passou de rural a urbanizado e aumentou de população apenas após o Terramoto de 1755.

Na primeira metade do século XVIII esta zona era ainda um local de terrenos de cultivo, conforme esclarece Norberto de Araújo«(…) Repizo que na primeira metade do século XVIII tudo por aqui eram terrenos de cultivo, abaixo da quinta ou da cêrca dos Padres da Companhia (Jardim Botânico de hoje), ligados a S. José, razão porque esta zona arrabaldina se chamou também Cotovia de S. José. (Para se entender isto melhor é preciso fechar os olhos, e não ver a Avenida actual)».  Depois do Terramoto de 1755 é que as populações se sentiram atraídas para esta área descampada e pouco povoada: «A Alegria, pois, é posterior ao Terramoto; (…) Com a construção e desenvolvimento do Passeio Público, cresceu a Alegria; com a abertura da Avenida [da Liberdade] tornou-se de maioridade». Repara-se que o Chafariz da Mãe d’Água foi para ali transferido em 1840, oriundo do Passeio Público, denotando também a necessidade de maior abastecimento de água neste local.

Para a explicação do topónimo religioso se ter fixado nesta Travessa podemos levantar a hipótese de ter sido denominação dada pelos Jesuítas ou por uma Irmandade. O Noviciado ou Colégio jesuíta da Cotovia esteve aqui sediado entre 1609 e 1759 e foi até nos terrenos mais próximos desta Travessa do Rosário que a partir de 1873 foi começado a plantar o Jardim Botânico. Por outro lado, um pouco por todo o país eram muito populares as Irmandades do Rosário e em Lisboa, a primeira data de 1478. Existiu mesmo em Lisboa uma Confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, pelo menos desde 1494, instalada na Igreja de São Domingos, sobre a qual precisa Cristóvão Rodrigues de Oliveira em 1551 que «e a confraria de Nossa Senhora do Rosário, repartida em duas, uma de pessoas honradas, e outra dos pretos forros e escravos de Lisboa». Com a perda da independência do país na Dinastia Filipina a irmandade foi impedida de ter existência autónoma, proibição que resultou numa dispersão da devoção por outras igrejas, tendo-se destacado nos séculos XVII e XVIII, a irmandade de Nª. Sª. de Guadalupe dos Homens Pretos, no mosteiro de São Francisco,  assim como as de Nª. Srª. do Rosário dos Homens Pretos, nas igrejas do Salvador, da Graça e da Trindade.

Freguesia de Santo António
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Travessa do Poço da Cidade onde a Severa morou

A Travessa do Poço da Cidade num excerto da planta de Filipe Folque de 1856

A Travessa do Poço da Cidade, hoje pertença da Freguesia da Misericórdia, foi uma das moradas da lisboeta Severa, em 1844 ou em 1845, residindo então com a sua mãe, de acordo com o olisipógrafo Luís Pastor de Macedo.

Esta artéria que vai da Rua da Misericórdia à Rua da Rosa integra o  núcleo inicial do Bairro Alto e «Quando em 1622 começa a ser citada nos livros paroquiais, davam-lhe a categoria de rua», segundo Pastor de Macedo.

Júlio de Castilho sugeriu que o topónimo se devia a um poço público desta artéria, então já no interior de um prédio privado, no que é secundado por Norberto de Araújo ao defender a existência de diversos poços públicos e particulares neste arruamento. Em 1844, na edição de 12 de setembro, a Revista Universal Lisbonense a propósito do abastecimento de água na cidade menciona que «Temos o grande poço que ainda hoje dá o nome a uma travessa notável, a do Poço da Cidade. Este poço, situado na esquina da Rua da Atalaia, na propriedade nº 33, abasteceu em tempos antigos aquelle districto, e ha poucos annos, que em igual escassèz concorriam alli grande numero de carroças, a que o senhorio, ou inquilinos facilitaram a agua, que nunca diminuiu.»

Por documentos municipais sabemos que a Travessa do Poço da Cidade teve o seu pavimento reparado em 1886, numa empreitada com envolvendo diversas ruas de Lisboa. Registe-se ainda que esta artéria com a contígua antiga Rua dos Calafates (e a partir de 31/12/1885 Rua do Diário de Notícias) foi a morada de tipografias e jornais:  a oficina de impressão de Francisco Luís Ameno (1740), a  tipografia Morandiana (1830) , a tipografia de Aguiar Viana, a tipografia de Eduardo de Faria,  a Tipografia Universal (1853) e a sua ampliação por  Sebastião José Ribeiro de Sá e Luís Augusto Rebelo da Silva , o  jornal  Diário Notícias (29 de dezembro de 1864 até 24 de setembro de 1940) e o jornal A Capital .

A Travessa do Poço da Cidade, em data incerta entre 1898 a 1908, a nascer junto à Rua da Misericórdia, então Rua de São Roque
(Foto: Machado & Souza, Arquivo Municipal de Lisboa)

 

Pote de Água: do sítio à Travessa, passando pelo Largo

Travessa do Pote de Água – Freguesia de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Sítio do Pote de Água deu nome a uma Quinta, destruída pelo terramoto de 1755, para no séc. XX, nos anos sessenta, o nome voltar ao local, primeiro num Largo e depois numa Travessa.

A partir de um pedido do serviço municipal de Escrivania para atribuição de topónimo ao arruamento que ligava o Largo João Vaz à Avenida do Brasil foi atribuída a Travessa do Pote de Água, pela publicação do Edital municipal de 23 de maio de 1969.  Nas proximidades já estava, desde a publicação do Edital de 21 de dezembro de 1960, o Largo do Pote de Água.

Na segunda metade do séc. XVIII encontramos em memórias paroquiais várias referências ao Pote de Água e aos proprietários da Quinta do mesmo nome. Na descrição da Freguesia de Santo André, sabemos que «pela Estrada da Charneca athé a Quinta do Pote de Agoa inclusive, q hoje he de Joseph Antonio Ferreira», esclarecendo ainda que a Quinta «foi dos Padres Jezuitas». Na descrição de 1758, da freguesia do Campo Grande, volta ser referida a Quinta do Pote de Água: «No citio do Pote de Agoa, e Calvanas a [ermida] da Senhora Santa Anna na Quinta do Dr. Joachim Pereira da Sylva Leal hoje demolida por cauza do terramoto (…).»

Também no século XIX, encontramos em documento municipais a menção à construção do  lanço do Campo Grande ao Pote de Água na estrada do Campo Grande aos Olivais (1878-1896), bem como à reparação da Estrada da Charneca desde o Pote de Água até ao lugar da Charneca (1889).

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Travessa das Zebras oriundas de Angola

Freguesia de Belém
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Zebras oriundas de Angola, como presente para o rei D. José I, originaram no séc. XVIII o topónimo Pátio das Zebras  no local onde elas viveram, em Belém, junto à Calçada da Ajuda, sendo que já na passagem do século XIX para o XX passou a ser conhecida como Travessa das Zebras.

A Travessa das Zebras, que hoje encontramos a ligar a Calçada da Ajuda à Travessa do Desembargador, fixou-se na memória de Lisboa em virtude de algumas  zebras terem vindo de Angola, como presente para o rei D. José I, e terem sido instaladas naquele local. Segundo o Archivo Popular de 15 de abril de 1837, procuraram domesticá-las embora sem sucesso e os animais definharam, experiência que voltou a ser repetida mais tarde, com outras zebras mas com o mesmo resultado.

Seriam entre 10 a 13 zebras que vieram de Angola para Lisboa como presente, entre  1770 e 1775. Segundo alguns autores teriam sido enviadas por militares empenhados na exploração de Angola e que assim mereceram subida de posto, com evidentes vantagens económicas. Foram instaladas num pátio próprio, a exemplo do que acontecera antes houvera com o Pátio dos Elefantes e ainda em 1858, a planta de Filipe Folque denomina o espaço como Pátio das Zebras, sendo  no mesmo local da hoje Travessa das Zebras embora mais amplo.

Por plantas municipais elaboradas por Augusto César dos Santos, de 20 de setembro de 1897, sabemos que se fizeram obras de ligação do Pátio das Zebras à Travessa das Terras (hoje, Travessa do Desembargador) e foi a artéria pavimentada. Em 1909, a planta de Silva Pinto já mostra uma artéria mais estreita e com a designação de Travessa das Zebras.

D. José I (Lisboa/06.06.1714 – 24.02.1777/Lisboa) vivia na Real Barraca da Ajuda quando foi o destinatário da prenda das zebras. Após o terramoto de 1750 a corte instalou-se na encosta Belém/Ajuda, por mor de ter sido uma zona pouca atingida pela catástrofe, havendo mesmo então a ideia da construção de uma nova capital entre Ajuda e Belém o que contribuiu para uma intensificação da urbanização do local, com famílias da nobreza a adquirirem quintas nesta zona, desde o Tejo até ao Alto da Ajuda, bem como ao longo da Praia do Bom Sucesso e da Praia de Pedrouços.

Freguesia de Belém (Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Travessa de Santo Aleixo em homenagem à Madre Maria de Santo Aleixo

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: Sérgio Dias | NT do DPC )

Em Campo de Ourique, a Travessa de Santo Aleixo deve-se a uma homenagem a Madre Maria de Santo Aleixo, de acordo com o olisipógrafo Gomes de Brito.

Gomes de Brito na sua obra Ruas de Lisboa, escreve o seguinte no seu verbete sobre este topónimo: «Acaso por comemoração da Madre Maria de Santo Aleixo [falecida em 4 de novembro de 1689], uma das quatro Religiosas Capuchas Francesas, que a rainha D. Maria Francisca Isabel de Saboia trouxe de Paris em 1666, e que veio a ser a primeira Abadessa do Mosteiro da Sua ordem [ Mosteiro do Santo Crucifixo, conhecido como das Francesinhas], fundado em Lisboa pela Rainha sobredita e começado a habitar em 1667.  Actualmente em ruínas na Rua João das Regras [desde 1950 é a Rua das Francesinhas], esquina da Calçada da Estrêla. O retrato desta Religiosa constitue umas das três gravuras que ornamentam a “Historia da fundação do Real Convento do Santo Christo das religiosas capuchinhas francesas” – 1748, por D. José Barbosa.»

Podemos equacionar que o topónimo desta artéria que hoje vemos a ligar a  Rua Silva Carvalho à Travessa de Cima dos Quartéis tenha sido fixado no séc. XVII ou no seguinte, mas sem certeza. Após o Terramoto, o Reitor de Santa Isabel (que era então a paróquia deste sítio) escrevia em 26 de março de 1758,  que «Esta freguezia fica no suburbio da cidade de Lisboa, a cujo Patriarchado pertence» e não mencionava nomes de arruamentos.

Com segurança, sabemos que a Travessa de Santo Aleixo aparece na planta de Lisboa de Filipe Folque, de 1857, fronteira à Travessa de Jesus Maria José (que desde 1911 é a Travessa do Cabo). Sabemos igualmente que a partir da 2ª metade do séc. XIX esta artéria acolheu vilas operárias, como também aconteceu na Rua de Campo de Ourique e na Rua da Páscoa, para alojar  os trabalhadores das fábricas próximas da Ribeira de Alcântara. E em 1892 e 1896 a Travessa de Santo Aleixo teve obras de pavimentação executadas pela Câmara Municipal de Lisboa.

Refira-se que Santo Aleixo foi um romano rico que fugiu do seu casamento para ser mendigo, sendo depois apontado como Homem de Deus e o seu culto introduzido em Roma  no século XI, por monges orientais. No entanto, foi retirado do hagiológico Calendário Romano Geral em 1969.

Freguesia de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

O Cais do Tojo repartido por rua, travessa e Largo Vitorino Damásio

O Cais do Tojo em sobreposição da planta de 1856 de Filipe Folque na dos dias de hoje

O antigo Cais do Tojo, lugar aberto de execução de penas capitais para servir de exemplo público, que em 1842 teve erguido o seu último patíbulo, tem a sua memória guardada em Lisboa através da Rua e da Travessa do Cais do Tojo, bem como do Largo Vitorino Damásio em cujo espaço ele se situava até cerca de 1858, razão para que a placa evocativa dos 150 Anos da Abolição da Pena de Morte tenha sido nele colocada pela edilidade, no primeiro dia de julho deste ano, dia do 150º aniversário da abolição da pena de morte em Portugal.

A última execução no Cais do Tojo, que ocupava o espaço onde hoje vemos o Largo Vitorino Damásio a encontrar-se com a Avenida Dom Carlos I, foi em 16 de abril de 1842 : o enforcamento de Francisco Matos Lobo, após prisão no Limoeiro, pelo assassinato da sua tia por afinidade, os seus dois filhos e a criada, na sua casa na Praça de São Paulo. Em  19 de fevereiro de 1841, também a forca ali se tinha erguido para Diogo Alves, condenado não pelas mortes daqueles que atirara do alto do Aqueduto das Águas Livres depois de os roubar mas pelo massacre da família de um médico no decorrer de um assalto com a sua quadrilha. No entanto, mesmo em 1842 já a pena de morte seria considerada desumana sendo disso exemplo o caso do sacerdote que acompanhava a última aplicação da pena capital em Lisboa ter morrido no local vítima de apoplexia.

Travessa do Cais do Tojo – Freguesia da Misericórdia – Placa Tipo II
(Foto: Mário Marzagão)

Rua do Cais do Tojo – Freguesias da Misericórdia e da Estrela
(Foto: Sérgio Dias|NT do DPC)

A Rua do Cais do Tojo ( nas freguesias da Estrela e da Misericórdia ) liga o Boqueirão do Duro à Avenida Dom Carlos I e a Travessa do Cais do Tojo (freguesia da Misericórdia) une a Rua do Cais Tojo ao Largo do Conde Barão, tendo ambos os topónimos sido atribuídos pela Câmara alfacinha através do Edital de 8 de junho de 1889, para substituir as antigas Rua Nova do Cais do Tojo e a Travessa Nova do Cais do Tojo.

A ligação ribeirinha de Lisboa ao Tejo é uma constante da história da cidade, enumerando a Chancelaria Régia em 1725 as praias de Alfama, Remolares, São Paulo e Boavista. O Cais do Tojo da Boavista – assim denominado para de distinguir do Cais do Tojo do lado oriental, conhecido como Cais do Tojo da Bica do Sapato – já surge mencionado em 1766, numa apresentação feita pelo juiz do povo, a referir a necessidade da construção de um Cais para a descarga e venda de tojo, carqueja, carvão e lenha, tanto na parte oriental como ocidental da cidade de Lisboa. Refira-se que tojo é uma planta arbustiva usada para cama de gado, estrume ou combustível.

O Cais do Tojo passou mesmo a ter um cais de madeira e nele aportavam inúmeros produtos, pelos quais se cobrava o donativo, um imposto municipal sobre os rendimentos, criado por resolução régia de 21 de março de 1766 e que começou a ser arrecadado a partir da publicação do edital municipal de 2 de novembro de 1769.  Sabe-se ainda que este arruamento teve em tempos um chafariz, muito frequentado por aguadeiros e populares e que em 11 de setembro de 1820 ocorreu um incêndio nas estâncias de lenha que lá existiam, tal como no ano seguinte o posto da 4.ª Companhia de Infantaria da Guarda Real da Polícia, nele situado, sofreu um grande incêndio, após o que surgiu nas imediações o topónimo Boqueirão do Duro.

Largo Vitorino Damásio – Freguesia da Estrela
(Foto: Sérgio Dias|NT do DPC)

O Largo Vitorino Damásio ( na freguesia da Estrela ), na confluência da Avenida Dom Carlos I e o Largo de Santos, nasceu de remodelações urbanísticas na zona que se espelharam no Edital municipal de 17/06/1947, tendo o troço da Rua Vasco da Gama com os prédios com os nºs 1 a 51 e 24 a 66 passado a ser o Largo em homenagem ao engenheiro que veio para Lisboa concretizar o Aterro da Boa Vista. Este Largo que até  1787 tinha o seu lado sul parcialmente sob a linha de água resulta das obras do Aterro.

O Aterro era uma ideia que pairava pelo menos desde o reinado de D. João V mas as obras para a sua construção apenas foram decididas após o surto de cólera morbus que grassou na Lisboa de 1857, como medida preventiva contra novos focos de epidemia e assim, em 1858,  o eng.º Vitorino Damásio foi encarregado de proceder ao aterro da margem, desde o Boqueirão da Moeda até à praia de Santos, com os trabalhos executados pela empresa Lucotte. Em  1859, rasgou-se também a Calçada de Santos (hoje, Calçada Ribeiro Santos) para ligar o Aterro à Rua das Janelas Verdes. O Aterro ficou concluído no mesmo ano – 1867 – da abolição da pena de morte mas em agosto. Foram ainda demolidas habitações entre a Praça D. Luís e a Rua das Janelas Verdes para a construção de um paredão que constituiu o 1º acesso ao troço inicial do Aterro e que mais tarde, em  13 de setembro de 1878,  recebeu o nome de Rua 24 de Julho.

A partir de 1881 operam-se ainda mais transformações neste espaço urbano. São abertas a Rua Dom Carlos I (hoje Avenida) e a Rua Vasco da Gama (onde hoje encontramos o Largo de Santos e o Largo Vitorino Damásio). Em 1887 e 1888 é também alargada a Rua Nova do Cais do Tojo (antes denominada Travessa Nova do Cais do Tojo), à qual o Edital municipal de 8 de junho de 1889 retirou a partícula «nova», tal como fez à Travessa Nova do Cais do Tojo (antes Travessa do Chafariz do Cais do Tojo).

José Vitorino Damásio (Feira/02.11.1807 – 19.10.1875/Lisboa), licenciado em Matemática e Filosofia desde 1837 e engenheiro do Conselho Superior de Obras Públicas e Minas desde 1852, foi escolhido para dirigir as obras do Aterro, tendo depois também desempenhado o cargo de Reitor do Instituto Industrial (1853), bem como de presidente da administração do Caminho-de-Ferro do Leste e diretor da Companhia das Águas (ambos em 1858), e ainda, de Diretor-Geral dos Telégrafos (1864).

Vitorino Damásio fora Lente da Academia Politécnica do Porto e engenheiro das Obras Públicas desse mesmo Distrito, tendo sido pioneiro na utilização do processo de cilindragem e construído a 1ª draga a vapor portuguesa, para além de, com Faria de Guimarães e Silva Guimarães, ter fundado a Fundição do Bolhão, onde se fabricou a primeira louça estanhada nacional, estando também em 1852 na criação da Associação Industrial Portuense. Ainda estudante, Vitorino Damásio alistara-se no Batalhão Académico dos exércitos liberais, tendo chegado a General de Brigada, condecorado com a Torre e Espada pelo seu comportamento durante o cerco do Porto.

O Largo Vitorino Damásio, a Rua do Cais do Tojo e a Travessa do Tojo
(Planta: Sérgio Dias|NT do DPC)

As quietas Travessas de Lisboa

Freguesia da Estrela  – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

Lisboa tem hoje 361 Travessas. Só as Freguesias do Areeiro e de Marvila não possuem nenhuma. A Travessa é uma rua estreita, secundária e transversal a duas outras artérias principais que põe em comunicação e, a sua toponímia é na sua grande maioria antiga e vinculativa das vivências locais.

Assim, começamos por mencionar as Travessas cujo topónimo é igual a uma Rua, Calçada ou Largo próximo, mesmo se no decorrer do tempo foi substituído por outro, que são 104. São disso exemplo a Travessa da Cruz da Era ( Benfica ), a Travessa de Palma ( São Domingos de Benfica ), a Travessa da Luz ( Carnide ), a Travessa dos Jerónimos ( Belém ), a Travessa Dom João de Castro (Ajuda), a Travessa Artur Lamas ( Belém, Alcântara ), a Travessa do Calvário (Alcântara), a Travessa dos Prazeres ( Campo de Ourique ), a Travessa do Possolo ( Estrela ), a Travessa de São Paulo ( Misericórdia ), a Travessa da Glória (Santo António), a Travessa da Cruz do Torel (Santo António, Arroios), a Travessa de Dona Estefânia,  a Travessa do Desterro ( Arroios , Santa Maria Maior ), a Travessa de Santa Luzia ( Santa Maria Maior ), a Travessa de São Tomé ( Santa Maria Maior, São Vicente ), a Travessa de Santa Marinha ( São Vicente ), a Travessa do Alto do Varejão (Penha de França),  a  Travessa da Picheleira ( Beato ), a Travessa de São Sebastião da Pedreira (Avenidas Novas), a Travessa do Pote de Água ( Alvalade ), a Travessa do Alqueidão (Lumiar) e a Travessa de São Bartolomeu (Santa Clara).

Também alguns becos viram ao longo do tempo a sua toponomemclatura ser mudada para Travessa, quer por pedido dos residentes, quer por as suas características urbanísticas se terem modificado.  Neste caso, encontramos 19 Travessas, como por exemplo, Travessa de Paulo Jorge (Belém), Travessa do Chafariz (Ajuda), Travessa do Livramento (Alcântara), Travessa do Barbosa (Campo de Ourique),  Travessa do Norte à Lapa (Estrela), Travessa do Carvalho ( Misericórdia ), Travessa do Chão da Feira (Santa Maria Maior), Travessa de Gaspar Trigo (  Santa Maria Maior, Arroios ), Travessa da Pena (Arroios), Travessa dos Remédios ( São Vicente , Santa Maria Maior ), Travessa de Santo André à Ameixoeira (Santa Clara).

Freguesia da Estrela – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

Já as Travessas cujas características e o local onde estão inseridas se reproduz no topónimo são 118. Escolhendo uma por freguesia podemos apontar como exemplos a Travessa do Poço (Parque das Nações),  a Travessa dos Buracos (Olivais), a Travessa de Santo António (Santa Clara), a Travessa do Canavial (Lumiar), a Travessa do Jogo da Bola (Carnide), a  Travessa do Rio (Benfica), a Travessa das Águas-Boas (São Domingos de Benfica), a Travessa do Espírito Santo ( São Domingos de Benfica , Avenidas Novas ), a Travessa do Rio Seco ( Ajuda ), Travessa da Memória ( Ajuda , Belém ), Travessa dos Algarves ( Belém ), a Travessa da Praia ( Alcântara ), a Travessa da Rabicha ( Campolide ), a Travessa de Cima dos Quartéis ( Campo de Ourique ), a Travessa do Convento das Bernardas (Estrela), a Travessa da Fábrica dos Pentes (Santo António), a Travessa do Poço da Cidade (Misericórdia), a Travessa do Cotovelo( Misericórdia , Santa Maria Maior ), a Travessa dos Teatros ( Santa Maria Maior ), a Travessa do Hospital ( Santa Maria Maior , Arroios ),  Travessa do Forno do Maldonado ( Arroios ), Travessa do Açougue ( Santa Maria Maior , São Vicente ), Travessa do Recolhimento de Lázaro Leitão (São Vicente).

Freguesia de Santo António – Placa de Azulejo
(Foto: Mário Marzagão)

Também as figuras com relevância local deram o seu nome a 72 Travessas. No seguimento de uma por freguesia, destacamos a Travessa do Morais ( Lumiar ), a Travessa do Pregoeiro (Carnide), a Travessa do Desembargador (Belém), a Travessa do Machado ( Ajuda ), a Travessa do Conde da Ponte (Alcântara), a Travessa de Estêvão Pinto ( Campolide ), a Travessa do Pasteleiro ( Estrela ), a Travessa do Fala-Só (Santo António), a  Travessa dos Inglesinhos (Misericórdia),  a Travessa do Almada (Santa Maria Maior), a Travessa do Torel (Arroios), a Travessa das Mónicas ( São Vicente ) e a Travessa do Calado (Penha de França).

Mas também figuras com relevância nacional foram colocadas em 12 Travessas, em épocas em que a carência de novos arruamentos se fazia sentir em Lisboa. Na Ajuda, pelo Edital de 07/08/1911, foi  Travessa Silva Porto, com a legenda «Herói de Ultramar/1817 – 1890» e a  Travessa Rui de Pina (um cronista do séc. XV ao serviço de D. João II).  Em Alcântara, pelo Edital de 27/04/1914 foi a vez da Travessa Teixeira Júnior, um jornalista republicano. Cerca de 12 anos depois foi a vez do Edital de 18/06/1926 atribuir em Benfica as Travessas Abade Pais, Miguel VerdialSargento Abílio, todos participantes do 31 de Janeiro de 1891, o escritor e polemista de jornais absolutista com a Travessa de José Agostinho de Macedo, um compositor com a Travessa Marques Lésbio e um pintor com a  Travessa de Francisco Rezende. Seis dias depois foi o Edital que 24/06/1926 que colocou em Alvalade a Travessa Henrique Cardoso, jornalista que também participou no 31 de Janeiro de 1891. E cerca de dois meses depois, pelo Edital de 20/08/1926, foi a vez de colocar o compositor e fundador dos Bombeiros Voluntários Guilherme Cossoul numa Travessa da hoje freguesia da Misericórdia. E finalmente, pelo Edital de  03/11/1986, em São Domingos de Benfica, foi atribuída a  Travessa Carlo Paggi, que homenageia um diplomata genovês do séc. XVII que publicou a sua tradução de Os Lusíadas em 1658. Aqui podemos juntar uma 13ª Travessa que trata de uma associação nacional, a Travessa do Vintém das Escolas em Benfica, atribuída pelo Edital de 14/10/1915, sendo Vintém das Escolas uma associação criada no Porto em 1901, para recolher por todo o país contribuições individuais de um vintém (20 réis) e assim reunir fundos destinados a um vasto movimento em benefício da instrução e educação das classes menos privilegiadas, dirigida por Francisco Gomes da Silva, Filipe da Mata e Heliodoro Salgado, entre outros.

Freguesia do Parque das Nações
(Foto: Sérgio Dias)

A freguesia do Parque das Nações tem ainda algumas peculiaridades nas suas Travessas herdadas da Expo 98. Tem 6 dedicadas a personagens da literatura, da banda desenhada e à mascote da Expo 98 – Travessa Corto MalteseTravessa do Gulliver, Travessa Robinson Crusoé, Travessa Sandokan, Travessa Sinbad, o Marinheiro Travessa do Gil – , mais 4 que fixam especiarias que os portugueses comerciaram a partir dos Descobrimentos – Travessa da Canela, Travessa da Malagueta, Travessa do Açafrão, Travessa do Gengibre – e ainda outras 3 referentes a aves: Travessa das Corujas, Travessa dos Mochos e Travessa dos Pintassilgos. 

Existem ainda em Lisboa outras 7 Travessas de universo florais que quando são usadas e não correspondem à flora local indicam a colocação de uma toponímia a que propositadamente não se quer dar sentido. São elas a  Travessa da Giesta, a Travessa do Alecrim, a Travessa da Madressilva, a Travessa da Verbena e a Travessa das Verduras na Ajuda;  a Travessa do Jasmim na Misericórdia e a Travessa das Flores em São Vicente.

Restam 12 Travessas cuja origem é um mistério e sobre as quais se podem levantar as mais variadas hipóteses. A Travessa da Galé em  Alcântara refere uma prisão ou um barco?… As outras onze são a Travessa das Florindas na  Ajuda, a Travessa da Paz e a Travessa do Castro na Estrela, a Travessa da Água-da-Flor, a Travessa da Cara, a Travessa da Arrochela, a Travessa da Espera e a Travessa da Portuguesa, todas na Misericórdia, a Travessa da Légua da Póvoa e a Travessa do Despacho em  Santo António e a Travessa da Amorosa, repartida pela  Penha de França e Beato.

Freguesias da Penha de França e do Beato – Placa de Azulejo
(Foto: Mário Marzagão)

Os Becos ou Vielas de Lisboa

Beco dos Beguinhos – Freguesia de São Vicente
(Foto: Mário Marzagão)

Lisboa conta nos nossos dias com 153 Becos, sendo que no decorrer dos séculos alguns deles ganharam o estatuto de travessa por via de alterações urbanísticas ou por solicitação dos residentes.

O Beco é uma rua estreita e curta, muitas vezes sem saída, ou se quisermos numa só palavra, é sinónimo de viela. A toponímia empregue nos becos lisboetas caracteriza-se pelo uso das suas peculiaridades, do tipo de artesãos que lá trabalhavam, das referências geográficas próximas como igrejas ou outras instituições passíveis de rápida identificação e  dos nomes dos seus moradores.

Freguesia de Benfica
(Foto: José Carlos Batista)

Primeiro, falemos da excepção que confirma a regra enunciada no parágrafo anterior: o Beco Pato Moniz, em Benfica, que homenageia um escritor ( 1781-1826) que faleceu no desterro a que o condenaram após a Vilafrancada por ser liberal. Atribuído pelo Edital municipal de 18/06/1926,  foi acompanhado na mesma zona com a atribuição em  Travessas e Largos dos também escritores José Agostinho de Macedo e Curvo Semedo, de três intervenientes no 31 de Janeiro de 1891 – Abade Pais, Sargento Abílio e Miguel Verdial – e do também republicano General Sousa Brandão, para além do compositor Marques Lésbio e do pintor Francisco Resende.

Beco do Quebra Costas – Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Artur Matos)

Dos outros 152 Becos alfacinhas, encontramos 32 relativos às características do próprio local: Beco do Norte ( Carnide ); Beco do CasalBeco da Pedreira da Caneja ( Campo de Ourique ); Beco da Galheta por corruptela de Calheta junto ao Tejo,  Beco do Olival, Beco do Tremoceiro ( Estrela );  Beco do Sabugueiro ( Alcântara ); Beco dos Aciprestes, Beco da Boavista do Alto de Santa Catarina ( Misericórdia); Beco da Achada, Beco do Alfurja, Beco do Funil, Beco da Amendoeira, Beco do Azinhal, Beco das Barrelas, Beco das Canas, Beco Cascalho, Beco do Forno junto ao Largo da Severa, Beco da Lapa,  Beco do Loureiro, Beco da Oliveira,  Beco do Pocinho, Beco do Quebra Costas por ser tão íngreme e dois Becos do Jasmim (todos em Santa Maria Maior ); Beco da Bombarda,  Beco do Monte de S. Gens ( Arroios ); Beco da Laje ( São Vicente e Santa Maria Maior ); Beco da Bica do Sapato, Beco da Era, Beco do Mirante ( São Vicente ); Beco das Taipas  ( Marvila ).

Beco da Mó – São Domingos de Benfica
(Foto: Sérgio Dias)

Referindo as profissões neles exercidas temos 23 : Beco dos Ferreiros ( Santa Clara ); Beco da Mestra ( Carnide ); Beco da Botica ( São Domingos de Benfica ); Beco do Fogueteiro ( Campo de Ourique ); Beco da Bolacha,  Beco dos Contrabandistas, Beco do Funileiro ( Estrela ); Beco dos Armazéns do LinhoBeco do Carrasco ( Misericórdia ); Beco do Almotacé, Beco da Atafona, Beco das Atafonas, Beco dos Cortumes por curtumes, Beco das FarinhasBeco do Imaginário pelo escultor de imagens de santos, Beco das Olarias,  Beco do Surra, Beco dos Surradores, Beco dos Três Engenhos ( Santa Maria Maior ); Beco dos Agulheiros, Beco da Mó, Beco dos Vidros ( São Vicente ); Beco dos Toucinheiros ( Beato ).

Com referências próximas  são 38 : Beco do Vintém das Escolas ( Benfica); Beco da Enfermaria por referência a um pequeno hospital que ali existiu no séc. XIX para os criados da Casa Real ( Belém ); Beco das Fontaínhas ( Alcântara ); Beco do Paiol da pólvora, Beco de Santa Quitéria por referência à Travessa do mesmo nome para substituir o Beco dos Mortos ( Campo de Ourique ); Beco dos Apóstolos que queria dizer jesuítas ( Misericórdia ); Beco da Cruz pela proximidade à  Rua da Cruz dos Poiais, Beco do Forno a São Paulo, Beco da Moeda por estar junto à Casa da Moeda ( Misericórdia ); Beco do Colégio dos Nobres, Beco de Santa Marta do Convento da mesma invocação que hoje vemos como Hospital (Santo António); Beco do Arco Escuro, Beco do Benformoso junto à Rua do Benformoso, Beco da Caridade  por via da Ermida do mesmo nome, Beco do Castelo Beco do Forno do Castelo de São Jorge, Beco dos Cavaleiros para substituir o Beco do Forno junto à Rua dos Cavaleiros, Beco das Cruzes  em Alfama, Beco do Espírito Santo da Ermida da mesma invocação que depois passou a ser dos Remédios, Beco do Forno da Galé junto à Rua da Galé, Beco das Gralhas pela proximidade ao Largo das Gralhas para substituir o Beco do Jasmim, Beco da Guia por mor de um oratório embutido numa parede, Beco do Outeirinho da Amendoeira, Beco do Penabuquel por proximidade ao Arco do Penabuquel da muralha fernandina, Beco de Santa Helena pelo Palácio seiscentista conhecido pelo mesmo nome, Beco de São Francisco por estar junto ao Terreirinho de São Francisco que depois passou a Largo da Achada, Beco de São Miguel pela proximidade à igreja da mesma invocação, Beco do Recolhimento de Nossa Senhora da Encarnação ( Santa Maria Maior ); Beco de São Lázaro junto à Rua do mesmo nome, Beco de São Luís da Pena por mor da Igreja da mesma invocação ( Santa Maria Maior e Arroios); Beco do Forno do Sol junto à Rua do Sol à Graça, Beco do Hospital de Marinha, Beco dos Lóios pela proximidade ao Largo dos Lóios e para substituir o Beco das Cabras, Beco dos Peixinhos por proximidade à Quinta dos Peixinhos, Beco do Salvador da Ermida de Jesus Salvador da Mata, Beco da Verónica pela proximidade à Ermida de Santa Verónica ( São Vicente ); Beco do Grilo dos Conventos dos Agostinhos Descalços ( Beato ) e Beco da Mitra ( Marvila ).

Beco do Penabuquel – Santa Maria Maior
(Foto: Artur Matos)

Com nomes ou alcunhas de moradores e/ou proprietários temos 36 : Beco do Chão Salgado do Palácio do Duque de Aveiro arrasado e salgado o seu chão, Beco de Domingos Tendeiro ( Belém); Beco da Ferrugenta, Beco dos GalegosBeco de João Alves ( Ajuda ); Beco de Estêvão Pinto ( Campolide ); Beco do Batalha,  Beco do Julião ( Campo de Ourique ); Beco do Machadinho  do Tabaco ( Estrela ); Beco do Caldeira por estar próximo da Travessa do Caldeira e substituir o Beco do Esfola Bodes, Beco de Francisco André ( Misericórdia ); Beco do Alegrete por estar junto ao Palácio dos Marqueses do Alegrete, Beco da Barbadela,  Beco do Belo, Beco da Cardosa, Beco do Chanceler de D. Dinis de seu nome Pedro Salgado, Beco dos Clérigos, Beco da Corvinha, Beco dos Fróis, Beco do Garcês, Beco do Guedes, Beco do Maldonado, Beco do Maquinez, Beco de Maria da Guerra, Beco do Marquês de Angeja, Beco do Melo, Beco do Mexias, Beco da Ricarda, Beco do Rosendo que seria Resende, Beco do Vigário ( Santa Maria Maior ); Beco dos Birbantes que esmolavam, Beco do Borralho de António de Moura Borralho, Beco do Félix, Beco de Maria Luísa, Beco do Petinguím ( Arroios ) e Beco da Amorosa ( Beato ).

Outros de ainda indefinida génese e alvo de discussão entre os olisipógrafos são 23: Beco da Ré por ser uma arguida ou um termo naval?( Belém ); Beco do Viçoso por ser alcunha ou um local verdejante, Beco do Xadrez por ser alcunha ou um padrão na arquitetura local? ( Ajuda ); Beco do Monteiro por ser alcunha ou sítio de montado? ( Campolide ); Beco dos Capachinhos por alcunha ou local de feitura de capachos?, Beco das Pirralhas por alcunha ou pela presença de crianças? ( Estrela ); Beco da Rosa por ser nome de moradora ou pela presença da flor? (Misericórdia );  Beco da Bicha por ser alcunha ou um animal?,  Beco do Bugio por se cravarem estacas no chão ou por haver um macaco?, Beco do Carneiro por ser apelido ou alcunha ou animal?, Beco dos Cativos por ter escravos ou presos?, Beco das Flores por ser inócuo ou por ter mesmo flores?, Beco da Formosa por uma mulher ou por uma paisagem bonita?, Beco do Leão por alcunha ou por símbolo?, Beco das Mil Patacas por uma lenda ou por uma comunidade macaense?, Beco dos Paus em sentido literal ou figurado?, Beco dos Ramos em sentido literal ou um apelido?, Beco de São Marçal por um azulejo do santo ou por um oratório dessa invocação? ( Santa Maria Maior ); o Beco da Bempostinha por alcunha ou outra coisa?, o Beco do Índia, o Beco da Índia aos Anjos uma alcunha ou alguém que esteve na Índia?( Arroios ); Beco das Beatas e o Beco dos Beguinhos ( São Vicente ).

Beco do Mexias – Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Mário Marzagão)