A Fábrica das Sedas que saiu de duas Ruas e ficou numa Travessa de Lisboa

A Travessa da Fábrica das Sedas, hoje na Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Fábrica das Sedas, manufactura joanina, cujo processo de instalação começou cerca de 1730, com a chegada a Lisboa do francês Robert Godin, deu nome como Rua Direita da Fábrica das Sedas ao arruamento onde estava instalada até passar a ser uma parte da Rua da Escola Politécnica, ao mesmo tempo que estava como Rua da Fábrica das Sedas numa artéria paralela à Rua do Arco de São Mamede, bem como no Alto de São Francisco, próximo da Fábrica pombalina das Amoreiras numa Travessa que é a única via que ainda hoje preserva a memória da Fábrica na toponímia de Lisboa.

Entre 1727 e 1730, o tecelão francês Robert Godin, chegou a a Lisboa para estabelecer fábricas de seda. Com o também francês e especialista no fabrico de sedas Sibert fez um requerimento a D. João V em 1731 para a instalação de uma fábrica de sedas  saindo o  alvará real de fundação apenas em 13 de fevereiro de 1734, com privilégios concedidos por 20 anos, como a exclusividade da manufactura de tecidos de seda e a obrigação de instruir aprendizes portugueses na arte das sedas. Foi lavrada  em 5 de outubro desse mesmo ano a escritura da sociedade de capitais da fábrica e Godin que não havia entrado com capitais, tinha direito a  15% dos lucros e a um salário anual de 480$00. A Fábrica foi construída segundo o risco de Carlos Mardel, com uma planta  longitudinal em L, ocupando todo um quarteirão, o do topo do Largo do Rato e ficou concluída em 1741, nos terrenos da Quinta do Morgado dos Soares de Noronha à Cotovia. O Imóvel está classificado como de Interesse Público pelo Decreto n.º 5/2002, de 19 de fevereiro de 2002.

Troço da antiga Rua Direita da Fábrica das Sedas em 1898
(Foto: Machado & Souza, Arquivo Municipal de Lisboa)

Esta Real Fábrica das Sedas joanina tornou-se georreferência da toponímia local através da Rua Direita da Fábrica das Sedas. Ou seja, o topónimo é posterior a 1741  e durou até o Edital do Governo Civil de Lisboa de 1 de setembro de 1859 que determinou que esta artéria, tal como a Rua da Patriarcal Queimada, passassem a ser uma só sob a  denominação de Rua da Escola Politécnica, a nova referência forte da zona.

Esta Real Fábrica das Sedas permaneceu sob a administração privada, até 1750, ano da insolvência da Fábrica das Sedas e consequente passagem a propriedade do Estado, por Decreto de 14 de maio de 1750. Já com Pombal adquiriu a designação de Real Fábrica das Sedas do Rato a partir de 1757 e por Alvará de 22 de setembro de 1758, o fundador da Companhia da Fábrica das Sedas, Robert Godin, foi nomeado como quinto diretor.

Em data também posterior à instalação da Fábrica surgiu paralela à Rua do Arco a São Mamede, uma Rua da Fábrica das Sedas, no Bairro dos trabalhadores da Fábrica e assim ficou até 1968, ano em que o Edital municipal de 10 de maio a transformou em Rua Maestro Pedro de Freitas Branco, por ter sido a artéria de residência desse compositor.

Em 1759, o Decreto de 14 de março aprovou a edificação do Bairro das Águas Livres para o estabelecimento dos fabricantes de seda incorporados na Real Fábrica pombalina, cujo epíteto de Real Colégio de Manufacturas Nacionais demonstrava que a Real Fábrica das Sedas para além de manufaturas de seda se dedicava a dar aulas aos aprendizes. Registou-se ainda a instalação de um conjunto de Fábricas Anexas  de cartas de jogar, botões, lençaria, chapéus, cutelaria, fundição de metais, pentes, relógios, serralharia, tapeçaria, tecidos e louça. É neste conjunto que o Marquês idealiza o jardim de amoreiras, cuja arborização com 331 amoreiras junto à fábrica das sedas (hoje Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva), se conclui em 1771. Em volta da praça da fábrica, a   Praça das Amoreiras, foram rasgadas diversas ruas, onde foram edificados prédios de estrutura pombalina, destinados a residências dos fabricantes que trabalhavam na fiação e aos aprendizes que trabalhavam com eles.

A Fábrica de Tecidos de Seda na Praça das Amoreiras, em 1961
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

É neste conjunto urbanístico que surge o bloco de edifícios da designada Travessa da Fábrica das Sedas, a unir a Rua de São Francisco de Sales à Travessa da Légua da Póvoa.  Esta Travessa da Fábrica das Sedas aparece depois mencionada  na planta de Filipe Folque de julho de 1857 e num requerimento de 22 de outubro de 1877, de diversos proprietários e moradores no Alto de S. Francisco e da Travessa da Fábrica das Sedas, solicitando  providências para melhorar aquele local, uma vez que não existia canalização e os despejos se faziam para a rua.

A retirada da família real e de parte da nobreza para o Brasil, devido às invasões francesas de 1807, a abertura dos portos brasileiros e a permissão de fabrico de sedas no Brasil em 1808,  bem como o tratado de comércio com a Inglaterra de 1810, conduziram à decadência da fábrica e à sua venda em hasta pública, decretada pela portaria de 27 de julho de 1835 e  na segunda metade do século XIX o edifício foi destinado pelos seus proprietários a novas utilizações, comerciais e particulares.

Refira-se que Cassiano Branco viveu no nº 7-7A desta Travessa da Fábrica das Sedas, numa moradia que ele próprio traçou.

A Travessa da Fábrica das Sedas, hoje na Freguesia de Santo António
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Travessa da Escola Araújo

Freguesia de Arroios
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Travessa da Escola Araújo, na Freguesia de Arroios, foi um topónimo solicitado à edilidade lisboeta pelo dono de umas propriedades nessa artéria e desconhece-se que Escola seria essa cujo mentor teria Araújo como apelido.

Um requerimento de «Raymundo da Silva Leal, dono d’umas propriedades situadas na via publica, que dá serventia para a Quinta do Pinheiro, no bairro Estephania, freguezia de S. Jorge» solicitou a denominação Travessa da Escola Araújo para poder ser atribuída numeração às suas propriedades, o que teve o parecer favorável da repartição de polícia municipal e a câmara deliberou nesse sentido na sua reunião de 10 de janeiro de 1894, tendo no dia 26 do mesmo mês, sido publicado o Edital que identificava a «2ª à direita na Rua de Dona Estefânia, vindo do lado sul e que partindo desta rua vai terminar no portão da entrada da Quinta do Pinheiro» doravante como Travessa Escola Araújo. O roteiro das ruas de Lisboa de Queirós Veloso, do ano seguinte (1895) refere ainda que o arruamento não tinha saída.

Menos de quarenta anos antes, em 1856, na planta de Filipe Folque o espaço era um conjunto de terrenos e ainda antes, na planta de  1807, de Duarte Fava,  era uma espécie de azinhaga que dava acesso à Rua da Cruz do Tabuado. Recuando ainda mais à planta de Lisboa de 1780, vemos nela apenas um espaço rural.

Como curiosidade, refira-se que o pintor Henrique Medina, talvez o maior pintor retratista do séc. XX,  tinha casa e ateliê nesta artéria,  para atender as personalidades da capital ou outras a quem a cidade de Lisboa fosse mais favorável para deslocação, situação que manteve até ao final da sua vida.

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Travessa do Tesouro das Necessidades

Freguesia da Estrela
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Travessa do Tesouro surge já com tal nome em 1857, no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque, na época o mais completo levantamento dos arruamentos da cidade.

Norberto de Araújo dá-nos a explicação do topónimo quando nas suas Peregrinações em Lisboa afirma que «Depois da proclamação da República, o Palácio, com todas as suas preciosidades de ourivesaria, que ficaram constituindo o “Tesouro das Necessidades” – do qual quase todas as peças mais notáveis foram transportadas anos depois para o Museu Nacional de Arte Antiga – esteve encerrado (…).»

Grato à Senhora das Necessidades pelas melhoras da paralisia de que padecera, D. João V comprou este local  e resolveu ampliar a ermida que lhe era dedicada, bem como erguer para si próprio um palácio no local, para além de ter mandado construir um hospício e um convento que em 1744 doou à Congregação do Oratório: o Convento de Nossa Senhora das Necessidades. Com a extinção das ordens religiosas em 1834, o edifício do convento foi anexado para os serviços da Casa Real e tornou-se Paço Real a partir de D. Maria II (Rio de Janeiro/1815 – 1853/Lisboa) e até 1910, embora o seu filho D. Luís tenha usado antes o Palácio da Ajuda. Refira-se assim que o 2º marido de D. Maria II, desde 9 de abril de 1836, D. Fernando II (Viena/1816 – 1885/Lisboa), pai dos reis D. Pedro V e D. Luís I, reuniu no Palácio das Necessidades uma  grande coleção de arte, tanto mais ele que ele próprio pintava, o que lhe valeu o cognome de Rei Artista. D. Fernando também se dedicou à  proteção do património arquitectónico português edificado, nomeadamente com obras de restauração e manutenção na vila da Batalha, no Convento de Mafra, no Convento de Cristo e em Lisboa, no Mosteiro dos Jerónimos, na e  na Torre de Belém.

Após a implantação da República em 5 de outubro de 1910, com grande parte do Tesouro colocado no Museu de Arte Antiga, o Palácio das Necessidades ficou desocupado até em 1950 ser transformado em sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros, sob o traçado do arqº Raúl Lino.

Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

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O Aqueduto das Águas Livres em 3 topónimos lisboetas

O Aqueduto das Águas Livres cerca de 1912
(Foto: Paulo Guedes, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Aqueduto das Águas Livres erguido entre 1732 a 1748 para melhorar o abastecimento de água a Lisboa, por ordem de D. João V, deu origem a 3 topónimos lisboetas no decorrer do século XX, sendo por ordem cronológica a Travessa das Águas Livres (1911), a Praça das Águas Livres (1948 e 1986) e a Rua do Aqueduto das Águas Livres (1990).

A Travessa das Águas Livres quando ainda era Travessa das Bruxas, em 1908
(Foto: Machado & Souza, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Travessa das Águas Livres que liga a Rua das Amoreiras à Praça das Amoreiras, hoje sob administração da Freguesia de Santo António, por deliberação de câmara de 3 de agosto de 1911 e consequente Edital  municipal de 7 de agosto de 1911, foi o topónimo escolhido para substituir a denominação existente de Travessa das Bruxas às Amoreiras. Refira-se que esta nova designação se fazia por referência de proximidade à Rua dos Arcos das Águas Livres que até 1874 foi o nome da Rua das Amoreiras, onde aliás se encontra  o arco triunfal que celebrou a entrada das águas do Aqueduto na cidade de Lisboa.

A Praça das Águas Livres em 1959
(Foto: Fernando Manuel de Jesus Matias, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Praça das Águas Livres, hoje parte da Freguesia de Campo de Ourique, foi o nome atribuído à praça situada no extremo oriental da Rua D às Amoreiras, por Edital municipal de 18 de junho de 1948 e assim se manteve por 33 anos. No entanto, sendo este o espaço onde o Ginásio Clube Português fez a sua sede passou então esta artéria a designar-se Praça Ginásio Clube Português, pelo Edital municipal de 10 de agosto de 1981. Cinco anos depois, o Edital de 3 de novembro de 1986 resolveu criar duas praças da seguinte forma: o troço da Praça Ginásio Clube Português constituído pela antiga Praça das Águas Livres passou a constituir novamente um arruamento distinto, com a antiga denominação de Praça das Águas Livres, mantendo o restante troço a denominação de Praça Ginásio Clube Português.

Rua do Aqueduto das Águas Livres – Freguesia de Campolide
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Por último, temos a Rua do Aqueduto das Águas Livres, no Bairro do Alto da Serafina, na Freguesia de Campolide. Pelo Edital de 15 de março de 1950 foi dada toponímica numérica no Bairro do Alto da Serafina e a outros Bairros Sociais da cidade, sendo então este arruamento a Rua 19. No final de 1989, o Edital de 28 de dezembro, denominou-a como Rua dos Ardinas, sendo alterados os restantes topónimos do Bairro, o que gerou protestos da população residente, pelo que com mediação da  Junta de Freguesia de Campolide e da Comissão de Moradores do Bairro foi possível chegar a um acordo para nova toponímia, desta feita relacionada com a época da construção do Aqueduto das Águas Livres ou instituições com uma forte ligação ao Bairro, que a Câmara fixou através do Edital de 14 de dezembro de 1990 e desde aí é a Rua do Aqueduto das Águas Livres.

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Da Travessa da Palha à Rua dos Correeiros

A Adega Friagem, na Rua dos Correeiros, em data entre 1910 e 1919
(Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

Foi na Travessa da Palha
Que o meu amante, um canalha,
Fez sangrar meu coração:
Trazendo ao lado outra amante
Vinha a gingar petulante
Em ar de provocação.

Na Taberna do Friagem
Entre muita fadistagem
Enfrentei os seus rancores,
Porque a mulher que trazia
Com certeza não valia
Nem sombra do meu amor.

São estes os versos iniciais de Foi na Travessa da Palha, fado com letra de Gabriel de Oliveira e música de Frederico de Brito, que recorda a Taberna ou Adega do Friagem na artéria que dá título ao tema e que hoje conhecemos como a Rua do Correeiros da Baixa lisboeta.

Foi na Travessa da Palha terá sido originalmente um fado intitulado Cena fadista criado para o repertório de Maria Alice, algures entre 1928 e a década de 40, quando esta fadista terminou a carreira por se ter casado com Valentim de Carvalho. Certo é que o fado ficou famoso na interpretação de Lucília do Carmo,  em 1958, já com o título mudado para Foi na Travessa da Palha e assim foi passando pelas vozes de Augusta Ermida, Cidália Moreira, Lenita Gentil e Diamantina, para além de no filme-documentário Fados (2007), do espanhol Carlos Saura, o tema surgir na voz de Lila Downs.

Quanto à história do arruamento sabemos que a Travessa da Palha é uma denominação popular anterior ao Terramoto de 1755, que resistiu na memória da população alfacinha pelo menos até ao século XX, para designar a Rua dos Correeiros, topónimo oficial desde 1760, em resultado do primeiro documento legal de toponímia que houve na cidade de Lisboa: a Portaria pombalina de 5 de novembro de 1760 que atribuiu denominações às ruas da Baixa lisboeta, entre a Praça do Comércio e a Praça do Rossio.

Conforme Norberto de Araújo escreveu  nas suas Peregrinações em Lisboa, em 1939, «Neste troço da Rua de Santa Justa, entre as Ruas dos Correeiros (vulgo Travessa da Palha) e a Rua da Prata, passava antes de 1755 em terminus a formosa Rua das Arcas, o Largo da Palha, do qual nascia a Rua da Palha que ia desembocar na Rua da Betesga, velha. A Rua dos Correeiros, que foi destinada aos ofícios dos seleiros – ainda hoje subsistentes – e que se chamou também Correaria Nova, e Nova dos Correeiros, deve a sua designação oral, sobrevivente, à vizinhança com o Largo e Praça da Palha.»

Recordemos que no séc. XIX, o século de nascimento do fado, era comum usar-se a denominação oficial e a popular em muitos topónimos da Baixa lisboeta. Por exemplo, em 1830 a Gazeta de Lisboa publica um anúncio em que se pode ler «vendem-se duas courellas de terra, nos campos de Azambuja; na rua dos Corrieiros, vulgo travessa da Palha, nº 79 – 1º andar». Também Francisco Inácio dos Santos Cruz, na sua obra Da prostituição na cidade de Lisboa, publicada em 1841,  refere a «Rua dos Correeiros (Travessa da Palha)» a propósito de ser preferida pelas «prostitutas de 2ª ordem», tal como a «Rua dos Sapateiros (Arco do Bandeira.

Finalmente, importa referir que Palha foi um topónimo usado em mais artérias lisboetas até ao século XIX.  No princípio do séc. XVII existia a Rua da Palha ou Rua da Palha de Santos que o Edital do Governo Civil de Lisboa de 1 de setembro de 1859 incorporou na Rua do Guarda-Mor, ficando assim esta artéria da Madragoa a unir a Rua das Trinas à Rua de São João da Mata. Em 1846 ainda aparece registado o Boqueirão da Palha da Boavista, em frente ao Largo do Conde de Barão;  em 1858 também ainda surge um Beco da Palha na Ribeira Velha,  ao pé do edifício da Alfândega e, na Junqueira, documentos municipais de 1887 também registam uma Travessa da Palha.

A antiga Travessa da Palha passou a Rua dos Correeiros em 1760
Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

A Travessa do Rosário onde José Malhoa viveu 13 anos

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Travessa do Rosário que liga a Travessa da Conceição da Glória à Rua da Alegria foi a morada do pintor José Malhoa em Lisboa durante os seus últimos 13 anos de vida.

José Malhoa que pintou o célebre quadro O Fado, em duas versões, uma em 1909 e a final em 1910 – mesmo que Lisboa só  tenha visto exposto o quadro em 1917, por até aí ser considerado um tema marginal e impróprio -, viveu no nº 8 da Travessa do Rosário de 1922 a 1933, ano da sua morte.

Foto: Eduardo Portugal, 1954, Arquivo Municipal de Lisboa

Só na planta de Lisboa de 1807 de Duarte Fava é que encontramos esta Travessa do Rosário próxima da Praça da Alegria – já que a cidade alfacinha acolhe também uma Travessa do Rosário a Santa Clara -, o que até faz sentido se recordarmos que o sítio da Alegria passou de rural a urbanizado e aumentou de população apenas após o Terramoto de 1755.

Na primeira metade do século XVIII esta zona era ainda um local de terrenos de cultivo, conforme esclarece Norberto de Araújo«(…) Repizo que na primeira metade do século XVIII tudo por aqui eram terrenos de cultivo, abaixo da quinta ou da cêrca dos Padres da Companhia (Jardim Botânico de hoje), ligados a S. José, razão porque esta zona arrabaldina se chamou também Cotovia de S. José. (Para se entender isto melhor é preciso fechar os olhos, e não ver a Avenida actual)».  Depois do Terramoto de 1755 é que as populações se sentiram atraídas para esta área descampada e pouco povoada: «A Alegria, pois, é posterior ao Terramoto; (…) Com a construção e desenvolvimento do Passeio Público, cresceu a Alegria; com a abertura da Avenida [da Liberdade] tornou-se de maioridade». Repara-se que o Chafariz da Mãe d’Água foi para ali transferido em 1840, oriundo do Passeio Público, denotando também a necessidade de maior abastecimento de água neste local.

Para a explicação do topónimo religioso se ter fixado nesta Travessa podemos levantar a hipótese de ter sido denominação dada pelos Jesuítas ou por uma Irmandade. O Noviciado ou Colégio jesuíta da Cotovia esteve aqui sediado entre 1609 e 1759 e foi até nos terrenos mais próximos desta Travessa do Rosário que a partir de 1873 foi começado a plantar o Jardim Botânico. Por outro lado, um pouco por todo o país eram muito populares as Irmandades do Rosário e em Lisboa, a primeira data de 1478. Existiu mesmo em Lisboa uma Confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, pelo menos desde 1494, instalada na Igreja de São Domingos, sobre a qual precisa Cristóvão Rodrigues de Oliveira em 1551 que «e a confraria de Nossa Senhora do Rosário, repartida em duas, uma de pessoas honradas, e outra dos pretos forros e escravos de Lisboa». Com a perda da independência do país na Dinastia Filipina a irmandade foi impedida de ter existência autónoma, proibição que resultou numa dispersão da devoção por outras igrejas, tendo-se destacado nos séculos XVII e XVIII, a irmandade de Nª. Sª. de Guadalupe dos Homens Pretos, no mosteiro de São Francisco,  assim como as de Nª. Srª. do Rosário dos Homens Pretos, nas igrejas do Salvador, da Graça e da Trindade.

Freguesia de Santo António
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Travessa do Poço da Cidade onde a Severa morou

A Travessa do Poço da Cidade num excerto da planta de Filipe Folque de 1856

A Travessa do Poço da Cidade, hoje pertença da Freguesia da Misericórdia, foi uma das moradas da lisboeta Severa, em 1844 ou em 1845, residindo então com a sua mãe, de acordo com o olisipógrafo Luís Pastor de Macedo.

Esta artéria que vai da Rua da Misericórdia à Rua da Rosa integra o  núcleo inicial do Bairro Alto e «Quando em 1622 começa a ser citada nos livros paroquiais, davam-lhe a categoria de rua», segundo Pastor de Macedo.

Júlio de Castilho sugeriu que o topónimo se devia a um poço público desta artéria, então já no interior de um prédio privado, no que é secundado por Norberto de Araújo ao defender a existência de diversos poços públicos e particulares neste arruamento. Em 1844, na edição de 12 de setembro, a Revista Universal Lisbonense a propósito do abastecimento de água na cidade menciona que «Temos o grande poço que ainda hoje dá o nome a uma travessa notável, a do Poço da Cidade. Este poço, situado na esquina da Rua da Atalaia, na propriedade nº 33, abasteceu em tempos antigos aquelle districto, e ha poucos annos, que em igual escassèz concorriam alli grande numero de carroças, a que o senhorio, ou inquilinos facilitaram a agua, que nunca diminuiu.»

Por documentos municipais sabemos que a Travessa do Poço da Cidade teve o seu pavimento reparado em 1886, numa empreitada com envolvendo diversas ruas de Lisboa. Registe-se ainda que esta artéria com a contígua antiga Rua dos Calafates (e a partir de 31/12/1885 Rua do Diário de Notícias) foi a morada de tipografias e jornais:  a oficina de impressão de Francisco Luís Ameno (1740), a  tipografia Morandiana (1830) , a tipografia de Aguiar Viana, a tipografia de Eduardo de Faria,  a Tipografia Universal (1853) e a sua ampliação por  Sebastião José Ribeiro de Sá e Luís Augusto Rebelo da Silva , o  jornal  Diário Notícias (29 de dezembro de 1864 até 24 de setembro de 1940) e o jornal A Capital .

A Travessa do Poço da Cidade, em data incerta entre 1898 a 1908, a nascer junto à Rua da Misericórdia, então Rua de São Roque
(Foto: Machado & Souza, Arquivo Municipal de Lisboa)

 

Pote de Água: do sítio à Travessa, passando pelo Largo

Travessa do Pote de Água – Freguesia de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Sítio do Pote de Água deu nome a uma Quinta, destruída pelo terramoto de 1755, para no séc. XX, nos anos sessenta, o nome voltar ao local, primeiro num Largo e depois numa Travessa.

A partir de um pedido do serviço municipal de Escrivania para atribuição de topónimo ao arruamento que ligava o Largo João Vaz à Avenida do Brasil foi atribuída a Travessa do Pote de Água, pela publicação do Edital municipal de 23 de maio de 1969.  Nas proximidades já estava, desde a publicação do Edital de 21 de dezembro de 1960, o Largo do Pote de Água.

Na segunda metade do séc. XVIII encontramos em memórias paroquiais várias referências ao Pote de Água e aos proprietários da Quinta do mesmo nome. Na descrição da Freguesia de Santo André, sabemos que «pela Estrada da Charneca athé a Quinta do Pote de Agoa inclusive, q hoje he de Joseph Antonio Ferreira», esclarecendo ainda que a Quinta «foi dos Padres Jezuitas». Na descrição de 1758, da freguesia do Campo Grande, volta ser referida a Quinta do Pote de Água: «No citio do Pote de Agoa, e Calvanas a [ermida] da Senhora Santa Anna na Quinta do Dr. Joachim Pereira da Sylva Leal hoje demolida por cauza do terramoto (…).»

Também no século XIX, encontramos em documento municipais a menção à construção do  lanço do Campo Grande ao Pote de Água na estrada do Campo Grande aos Olivais (1878-1896), bem como à reparação da Estrada da Charneca desde o Pote de Água até ao lugar da Charneca (1889).

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Travessa das Zebras oriundas de Angola

Freguesia de Belém
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Zebras oriundas de Angola, como presente para o rei D. José I, originaram no séc. XVIII o topónimo Pátio das Zebras  no local onde elas viveram, em Belém, junto à Calçada da Ajuda, sendo que já na passagem do século XIX para o XX passou a ser conhecida como Travessa das Zebras.

A Travessa das Zebras, que hoje encontramos a ligar a Calçada da Ajuda à Travessa do Desembargador, fixou-se na memória de Lisboa em virtude de algumas  zebras terem vindo de Angola, como presente para o rei D. José I, e terem sido instaladas naquele local. Segundo o Archivo Popular de 15 de abril de 1837, procuraram domesticá-las embora sem sucesso e os animais definharam, experiência que voltou a ser repetida mais tarde, com outras zebras mas com o mesmo resultado.

Seriam entre 10 a 13 zebras que vieram de Angola para Lisboa como presente, entre  1770 e 1775. Segundo alguns autores teriam sido enviadas por militares empenhados na exploração de Angola e que assim mereceram subida de posto, com evidentes vantagens económicas. Foram instaladas num pátio próprio, a exemplo do que acontecera antes houvera com o Pátio dos Elefantes e ainda em 1858, a planta de Filipe Folque denomina o espaço como Pátio das Zebras, sendo  no mesmo local da hoje Travessa das Zebras embora mais amplo.

Por plantas municipais elaboradas por Augusto César dos Santos, de 20 de setembro de 1897, sabemos que se fizeram obras de ligação do Pátio das Zebras à Travessa das Terras (hoje, Travessa do Desembargador) e foi a artéria pavimentada. Em 1909, a planta de Silva Pinto já mostra uma artéria mais estreita e com a designação de Travessa das Zebras.

D. José I (Lisboa/06.06.1714 – 24.02.1777/Lisboa) vivia na Real Barraca da Ajuda quando foi o destinatário da prenda das zebras. Após o terramoto de 1750 a corte instalou-se na encosta Belém/Ajuda, por mor de ter sido uma zona pouca atingida pela catástrofe, havendo mesmo então a ideia da construção de uma nova capital entre Ajuda e Belém o que contribuiu para uma intensificação da urbanização do local, com famílias da nobreza a adquirirem quintas nesta zona, desde o Tejo até ao Alto da Ajuda, bem como ao longo da Praia do Bom Sucesso e da Praia de Pedrouços.

Freguesia de Belém (Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Travessa de Santo Aleixo em homenagem à Madre Maria de Santo Aleixo

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: Sérgio Dias | NT do DPC )

Em Campo de Ourique, a Travessa de Santo Aleixo deve-se a uma homenagem a Madre Maria de Santo Aleixo, de acordo com o olisipógrafo Gomes de Brito.

Gomes de Brito na sua obra Ruas de Lisboa, escreve o seguinte no seu verbete sobre este topónimo: «Acaso por comemoração da Madre Maria de Santo Aleixo [falecida em 4 de novembro de 1689], uma das quatro Religiosas Capuchas Francesas, que a rainha D. Maria Francisca Isabel de Saboia trouxe de Paris em 1666, e que veio a ser a primeira Abadessa do Mosteiro da Sua ordem [ Mosteiro do Santo Crucifixo, conhecido como das Francesinhas], fundado em Lisboa pela Rainha sobredita e começado a habitar em 1667.  Actualmente em ruínas na Rua João das Regras [desde 1950 é a Rua das Francesinhas], esquina da Calçada da Estrêla. O retrato desta Religiosa constitue umas das três gravuras que ornamentam a “Historia da fundação do Real Convento do Santo Christo das religiosas capuchinhas francesas” – 1748, por D. José Barbosa.»

Podemos equacionar que o topónimo desta artéria que hoje vemos a ligar a  Rua Silva Carvalho à Travessa de Cima dos Quartéis tenha sido fixado no séc. XVII ou no seguinte, mas sem certeza. Após o Terramoto, o Reitor de Santa Isabel (que era então a paróquia deste sítio) escrevia em 26 de março de 1758,  que «Esta freguezia fica no suburbio da cidade de Lisboa, a cujo Patriarchado pertence» e não mencionava nomes de arruamentos.

Com segurança, sabemos que a Travessa de Santo Aleixo aparece na planta de Lisboa de Filipe Folque, de 1857, fronteira à Travessa de Jesus Maria José (que desde 1911 é a Travessa do Cabo). Sabemos igualmente que a partir da 2ª metade do séc. XIX esta artéria acolheu vilas operárias, como também aconteceu na Rua de Campo de Ourique e na Rua da Páscoa, para alojar  os trabalhadores das fábricas próximas da Ribeira de Alcântara. E em 1892 e 1896 a Travessa de Santo Aleixo teve obras de pavimentação executadas pela Câmara Municipal de Lisboa.

Refira-se que Santo Aleixo foi um romano rico que fugiu do seu casamento para ser mendigo, sendo depois apontado como Homem de Deus e o seu culto introduzido em Roma  no século XI, por monges orientais. No entanto, foi retirado do hagiológico Calendário Romano Geral em 1969.

Freguesia de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )