A Travessa do Convento de Santa Mónica e da Cadeia das Mónicas

Freguesia de São Vicente
(Foto: Sérgio Dias)

A Travessa das Mónicas, topónimo derivado de um convento quinhentista convertido em cadeia, recebeu após o 25 de Abril um requerimento para que o topónimo fosse alterado mas a Comissão Municipal de Toponímia manteve o princípio de não alterar topónimos tradicionais, salvo « haja maior manifestação popular tendente à alteração toponímica».

Na reunião de 20 de dezembro de 1974, a Comissão Municipal de Toponímia analisou um requerimento de António Ferreira de Oliveira solicitando que o topónimo Travessa das Mónicas fosse alterado e emitiu o parecer de que «entende que se trata de um topónimo tradicional que, em princípio, não deve ser alterado. No entanto, admite que possa vir a reconsiderar, desde que haja maior manifestação popular tendente à alteração toponímica».

Freguesia de São Vicente – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

A Travessa das Mónicas, entre a Rua de São Vicente e o Largo da Graça, deve o seu nome ao Convento de Santa Mónica ali fundado em  1585/1586 por D. Maria Abranches, em propriedade de seu pai D. Álvaro de Abranches –  capitão-mor de Azamor -,destinado às religiosas eremitas descalças de Santo Agostinho. Sofreu danos consideráveis com o Terramoto de 1755 mas foi reconstruído. Após a extinção das ordens religiosas de  1834 e com a morte da última religiosa em 1870 o Estado instalou no Convento a Casa da Correcção dos Rapazes em 1871, que ao ser transferida para Caxias em 1901 deu lugar a uma casa similar para raparigas, que em 1912 passaram para o Colégio de São Patrício à Costa do Castelo, dando espaço para cinco anos mais tarde, em 1917, passar a ser uma cadeia para mulheres, que aliviasse a sobrelotação da Cadeia do Aljube, que ficou conhecida como Cadeia das Mónicas e assim funcionou até 1953, quando a  população prisional foi transferida para a então nova Cadeia Central de Mulheres em Tires. A partir de 1961 voltou a ser usada como a parte feminina da Cadeia Comarcã de Lisboa, passando em 2005 para os reclusos em Regime Aberto Voltado para o Exterior (RAVE) do Estabelecimento Prisional de Lisboa. No decurso de todas estas modificações na população que foi albergada no edifício manteve-se o painel de azulejos  do século XVIII representando Santa Mónica.

A poeta Sophia de Mello Breyner Andresen e o seu marido, Francisco Sousa Tavares, ambos presentes na toponímia de Lisboa, residiram nesta artéria.

Freguesia de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias)

A Senhora do Monte do Carmo entre a Penha de França e a Procissão

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias)

A Travessa do Monte do Carmo,  paralela à Rua da Escola Politécnica, liga hoje a Rua Cecílio de Sousa [ antiga Rua da Procissão do Corpo de Deus] à Calçada Engenheiro Miguel Pais [antes Calçada de João do Rio, e ainda antes Rua e primitivamente, Calçada da Penha de França], na freguesia de Santo António.

O topónimo pode estar relacionado com uma Ermida ou com um hospício, já que o cura Joachim Ribeiro de Carvalho, na sua memória da paróquia das Mercês, datada de 26 de abril de 1758, regista que «Ha mais nesta parochia, e na rua Fermosa della [é a que hoje conhecemos como Rua de O Século] huma Ermida de Nossa Senhora do Monte do Carmo, anexa desta parochia que he de Manoel de Sampayo e Pina, cavaleiro professo na ordem de Christo, (…) e no altar mor em hum nicho se venera a imagem da May Santissima do Monte do Carmo e lhe fas a sua festa todos os annos em o seu dia e teve esta Ermida seu principio no ano de mil e sete centos e trinta e dous (…) Há mais nesta freguezia quatro hospicios (…); outro dos Religiozos de Nossa Senhora do Monte do Carmo, de Pernambuco; outro dos Religiozos de Santo Antonio do Ryo de Janeiro;(…)».

Na planta de Lisboa após a remodelação paroquial de 1770, na freguesia de «N. Sª das Merces» surge este arruamento como Rua dos Nobres, já nessa época como hoje, paralela à Rua Direita do Colégio dos Nobres [hoje, Rua da Escola Politécnica]. Mais de 40 anos depois, na planta do Duque de Wellington de 1812, a artéria já aparece referida como Senhora do Carmo, indo da Rua da Penha de França à Rua da Procissão, com indicação tracejada de que poderia continuar, assim como em novembro de 1857 a planta de Filipe Folque a designa como Travessa da Senhora do Carmo.

A partir da década de sessenta do séc. XIX, encontramos o arruamento sempre com o topónimo de Travessa do Monte do Carmo: em 1864 no prospeto do prédio que Henry Ramel pretendia aumentar no n.º 65 da rua do Monte Olivete e a fazer esquina para a Travessa do Monte do Carmo; no levantamento topográfico de Francisco Goullard de 1882; bem como na Planta Topográfica de Lisboa de 1911, de Júlio Silva Pinto e Alberto Sá Correia. A primeira Comissão Municipal de Toponímia, criada em 1943, procedeu à confirmação ou alteração dos topónimos existentes na cidade, tendo na sua reunião de 11 de dezembro de 1945 confirmado o topónimo Travessa do Monte do Carmo.

Freguesia de Santo António
(Planta: Sérgio Dias)

De Santo Antoninho e da Vitória à misteriosa Senhora da Piedade

Travessa da Piedade – Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias)

A Senhora da Piedade tomou conta de duas artérias lisboetas quando a Travessa de Santo Antoninho passou a Rua Nova da Piedade assim como a Travessa da Vitória, que lhe estava próxima, foi transformada em Travessa da Piedade, embora se desconheça se tais acontecimentos se devem a uma ermida local ou a um registo de azulejos representando Nossa Senhora da Piedade, já que após o Terramoto de 1755 se tornaram comuns em Lisboa os registos de azulejos representando em conjunto Nossa Senhora da Piedade, Santo António e São Marçal e a Rua de São Marçal é uma artéria vizinha cuja denominação data pelo menos de 1769.

Outra hipótese que se pode formular para a origem do topónimo radica na proximidade à antiga Patriarcal, onde existia uma Irmandade da Senhora da Piedade desde  1716, conforme a memória do cura André de Oliveira sobre a paróquia da Patriarcal, em 7 de abril de 1758: «Consta mais da Irmandade da Senhora da Piedade, que instituhio o Padre Bernardo Pinto dos Santos no anno de mil, e sete centos, e dezaseis com hum grande numero de Irmãos.»

Sobre a Rua Nova da Piedade, que liga a Praça das Flores à Rua de São Bento, afirma Luís Pastor de Macedo que «O vulgo, durante algum tempo, designou-a por travessa de Santo Antoninho, conforme se vê num anúncio publicado em 1831 na “Gazeta de Lisboa”». Mas em 1857, no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa, de Filipe Folque,  já surge como Rua Nova da Piedade, tendo sido os passeios laterais do arruamento construídos em 1877.

Rua Nova da Piedade – Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias)

Ainda segundo o olisipógrafo Pastor de Macedo, «Houve nesta rua dois moradores que não podemos deixar de mencionar: o insigne pianista e compositor João Domingos Bomtempo e o jornalista e escritor Silva Pinto, o dedicado amigo do infeliz poeta Cesário Verde».

Já a Travessa da Piedade era a Travessa da Vitória até o Governo Civil de Lisboa determinar a alteração do nome, pelo seu Edital de 1 de setembro de 1859, seguindo a sua filosofia bem manifesta nesse documento de designar as travessas com o mesmo topónimo que a rua mais próxima.

Esta artéria que liga a Travessa da Palmeira à Rua Nova da Piedade foi em parte macadamizada em março de 1875. Cinco anos depois, os moradores da Travessa da Piedade e imediações fizeram um requerimento à edilidade a pedir para a calçada ser substituída por macadame na Travessa da Piedade, desde a Rua de São Marçal até à esquina da Travessa da Palmeira, devido ao transtorno que a referida calçada causava aos condutores de gado. E doze anos depois a artéria sofreu novas obras no pavimento, seguindo um plano delineado pelos funcionários municipais Ressano Garcia e Augusto César dos Santos.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias)

Os Remédios da Senhora da Ermida do Espírito Santo

Escadinhas dos Remédios, nos anos 40 do séc. XX
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Capela de Nossa Senhora dos Remédios, com o seu portal manuelino, edificada no séc. XVI e profundamente alterada no séc. XVIII deu origem a três topónimos nas freguesias de Santa Maria Maior e São Vicente: as Escadinhas dos Remédios, a Rua dos Remédios e a Travessa dos Remédios.

A Ermida de Nossa Senhora dos Remédios chamava-se do Espírito Santo mas Norberto de Araújo esclarece como se passou de um orago a outro ao relatar que «Nesta Ermida do Espírito Santo havia um poço, onde certo dia apareceu uma imagem de Nossa Senhora, a qual apesar de ser tirada da água, vinha enxuta em sua pintura e tecido. Milagre foi! E acorriam os pescadores e famílias a implorar à Virgem remédio a seus males, e Nossa Senhora os curava. Daí a receber a imagem a invocação de Nossa Senhora dos Remédios foi um salto.»

A Rua dos Remédios, ainda segundo Norberto de Araújo, foi até 1859 a Rua das Portas da Cruz , aludindo a uma das mais importantes portas naturais de Lisboa que ali existia, que se integrou na Cerca de D. Fernando, embora pelo menos no seu troço inicial fosse  no séc. XVIII denominada como Calçada dos Remédios.

Já as Escadinhas dos Remédios, pertença apenas da Freguesia de Santa Maria Maior, ligam o Beco da Lapa à Rua dos Remédios, desde a publicação do Edital municipal de 24/12/1879.

E finalmente, a Travessa dos Remédios que se abre junto ao nº 171 da Rua dos Remédios e não tem saída, foi o resultado de nova categoria dada pelo Edital de 13/12/1882 ao Beco dos Remédios, que ainda antes disso era conhecido como Beco do Frois.

Freguesias de Santa Maria Maior e São Vicente
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Senhora da Arrábida de azulejos

Registo de azulejos com a Senhora da Arrábida, na Rua da Arrábida
(Foto: Eduardo Portugal, 1945, Arquivo Municipal de Lisboa)

Na freguesia de Campo de Ourique estão sediadas uma Rua e uma Travessa da Arrábida cujo topónimo parece derivar de um registo de azulejos de Nossa Senhora da Arrábida existente na Rua da Arrábida.

Segundo Norberto de Araújo, a Rua da Arrábida é do século XVIII e deve o seu nome ao painel de azulejos que representa a Nossa Senhora da Arrábida, incrustado na frontaria do prédio que ostenta o número 71.

Na descrição paroquial da Freguesia de Santa Isabel, redigida após o Terramoto sobre as existências anteriores à catástrofe, a Rua da Arrábida já é mencionada. Ao certo sabe-se que a Freguesia foi criada em 14 de maio de 1741, e que «Esta freguezia fica no suburbio da cidade de Lisboa, a cujo Patriarchado pertence», conforme se pode ler nas memórias paroquiais de  26 de março de 1758 escritas pelo Reitor  da Paróquia, Felisberto Leitão de Carvalho.

Nesta artéria que liga a Rua Dom Dinis à Rua Silva Carvalho, morou no nº 7 o escultor Delfim Maya (1886 – 1978); no nº 38 abriu em 1949 a já extinta Aveirense – Fábrica de Salsicharia Fina e Conservas de Carne; foi construído em 1892 o palacete do visconde de Semelhe nos nºs 40-42; e esteve durante alguns anos e até 18 de agosto de 1956, no nº 70, a segunda sede da Sociedade Filarmónica Alunos de Apolo.

Já a Travessa da Arrábida foi constituída por um troço da Rua da Arrábida (prédios com os nºs 9 e 11)  e um troço da Rua de São Joaquim ( prédio com os nºs 2 – 2A e 2B), conforme deliberação camarária de 23 de agosto de 1922,  publicitada pelo Edital de  17/10/1924, por referência à Rua da Arrábida onde se inicia.

Freguesia de Campo de Ourique (Planta: Sérgio Dias)

A Senhora da Boa-Hora no Bairro Alto

A Travessa da Boa-Hora, entre 1898 e 1908
(Foto: Machado & Souza, Arquivo Municipal de Lisboa)

A seiscentista Travessa da Boa-Hora no Bairro Alto deve o seu nome à Ermida de Nossa Senhora da Conceição e da Boa Hora,  fundada no séc. XVI, na esquina desta artéria com a Rua da Rosa e que foi destruída pelo Terramoto de 1755.

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Mário Marzagão)

Luís Pastor de Macedo aponta que este arruamento seiscentista do Bairro Alto de São Roque, seria  «Nos meados do século XVI, esta (com mais probabilidades) ou a Travessa da Água da Flor seria a ‘traveça q vay da portaria de san roq pª a rua datalaia’. Em 1649 aparece pela primeira vez a Travessa da Boa-Hora e o Sítio de Nossa Senhora da Boa-Hora (…) Depois, até hoje, a travessa manteve sempre o mesmo nome».

A Travessa da Boa-Hora liga a Rua de São Pedro de Alcântara à Rua da Rosa e, segundo Norberto de Araújo, deriva da «Ermida de N. Senhora da Conceição e da Boa Hora que existiu à esquina da Rua da Rosa; o seu local perdeu-se».  Destruída pelo Terramoto de 1755, era o seu espaço ocupado na segunda metade do século XVIII por uma residência senhorial. No século XIX , foi morada da família Sousa Azevedo, viscondes de Algés, para depois, dos finais da centúria até 1910, ficar arrendado à Marcenaria Primeiro de Dezembro que produzia  mobiliário Arte Nova. Em 1912. tornou-se uma Escola Primária pública: as números 12 e 21 para o sexo masculino e para o sexo feminino. A Câmara Municipal de Lisboa adquiriu o edifício e desde 2005 passou a ser a Escola Padre Abel Varzim.

Sobre esta Travessa da Boa-Hora sabe-se também que aqui faleceu na sua residência o municipalista Henriques Nogueira em 23 de janeiro de 1858; que em 1886 a Câmara Municipal procedeu à reparação do pavimento desta Travessa, bem como que  no nº 3 existiu a casa de pasto O Tacão, onde no final do séc. XIX e início do séc. XX os atores Telmo e Cardoso do Ginásio vinham cear depois do espetáculo.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias)

A Senhora da Boa-Hora da Baixa para a Ajuda

O Largo da Boa-Hora à Ajuda em 1943
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Calçada da Boa-Hora, o Largo  e a Travessa da Boa-Hora à Ajuda são três topónimos que resultam da deslocação dos Eremitas Descalços de Santo Agostinho do seu Convento no Largo da Boa Hora, junto à Rua Nova do Almada, na Baixa lisboeta, para o lugar do Espargal, em Belém, após o  terramoto de 1755.

A Ordem dos Eremitas Descalços de Santo Agostinho estabeleceu-se em Portugal em 1663, com a proteção da rainha D. Luísa de Gusmão, e uma das suas comunidades estava instalada em Lisboa, desde 1677, no Convento da Boa Hora, que havia sido fundado em 1633 por D. Luís de Castro do Rio para os padres dominicanos irlandeses e foi mais tarde aproveitado para ser quartel do 1º Batalhão dos Voluntários do Comércio (1834) e Tribunal da Boa Hora (1843). O terramoto de 1 de novembro de 1755 deixou o convento em ruínas e logo em 1756 passaram os frades para um novo Convento da Boa Hora em Belém, no lugar do Espargal , cuja igreja foi dedicada a Nª Srª da Boa Hora e Stª Rita em 7 de abril de 1766. Com a extinção das ordens religiosas em 1834, a igreja do Convento da Boa Hora, no actual Largo da Boa-Hora à Ajuda, acolheu logo no ano seguinte a paróquia de Nª Srª da Ajuda.

O Palácio Ega, no nº 30 da Calçada da Boa-Hora
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Calçada da Boa-Hora, encontra-se hoje repartida pelas freguesias de Alcântara , Belém , Ajuda, delimitada entre a Rua da Junqueira e o Largo da Boa-Hora, conforme Edital municipal de 26 de setembro de 1916, que oficializou topónimos herdados do extinto concelho de Belém. Já também na alçada da edilidade lisboeta foram em 1887-1888 construídos canos de esgoto para esta Calçada.  Refira-se ainda que no nº 30 desta Calçada encontramos o Palácio da Ega que dá sede ao Arquivo Histórico Ultramarino desde 1931.

Ao Largo e à Travessa da Boa-Hora foi acrescentada a expressão «à Ajuda», para evitar equívocos com o Largo da Boa-Hora (Freguesia de Santa Maria Maior) e a Travessa da Boa-Hora (Freguesia da Misericórdia), através do Edital municipal de 8 de junho de 1889.

O Largo da Boa-Hora à Ajuda é o espaço na confluência da Travessa do Moinho de Vento, Rua do Machado, Travessa da Boa-Hora à Ajuda e Calçada da Boa-Hora. Em 1883, a Administração dos Correios e Telégrafos solicitou autorização ao presidente da Câmara de Belém para lá colocar um marco postal.  A partir de desde 1890 passou a funcionar nas antigas dependências do Convento, neste largo, o Hospital Militar de Belém, que se especializou em doenças infecto-contagiosas.

Já a Travessa da Boa-Hora à Ajuda une o Largo da Boa-Hora à Ajuda à Calçada da Ajuda. Segundo Luís Pastor de Macedo, esta artéria foi designada no séc. XVIII «por Travessa da Abegoaria, e algum tempo depois por Travessa do Teixeira, nome que lhe foi dado pelo tenente José Teixeira, mais tarde sargento-mor, e que foi proprietário da abegoaria que dera à travessa o nome anterior. Depois foi ainda a Rua das Piteiras, porque o povo, coerente, via que parte da serventia era marginada por piteiras.»

O Largo, a Travessa da Boa-Hora à Ajuda e a Calçada da Boa-Hora
(Planta: Sérgio Dias)

A Travessa da primeira Igreja das Mercês, a do Marquês de Pombal

Travessa das Mercês a terminar junto da Rua de O Século
(Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

A Travessa das Mercês, que une a Rua da Atalaia à Rua de O Século, perpetua em Lisboa a memória da Capela de Nossa Senhora das Mercês, a primeira onde nasceu a paróquia lisboeta das Mercês, erguida na esquina desta Travessa com a Rua Formosa [Rua de O Século] e onde foi batizado o Marquês de Pombal (em 6 de junho de 1699), tal como o seu túmulo aí permaneceu até ser transladado em 1923 para a Igreja da Memória.

A «traveça das Merces» já surge como topónimo na planta da «Freguezia de N. Sª das Merces» após a remodelação paroquial de 1770. Segundo o olisipógrafo Júlio de Castilho, na Rua Formosa, entre as Travessas dos Fiéis de Deus e das Mercês, existiu até 1672 um Recolhimento de mulheres com a invocação de Nossa Senhora das Mercês,  fruto do Alvará Régio de D. Filipe III de 23 de dezembro de 1623. Foi neste lugar, ou próximo, que se criou o orago da paróquia da Nossa Senhora das Mercês em 1 de dezembro 1632, desanexada que foi da administração territorial do Loreto e de Santa Catarina, tendo inicialmente funcionado, em termos físicos,  na Ermida da Ascensão de Cristo, na Calçada do Combro.

Depois, em 25 de novembro de 1651, o padroado da Igreja Paroquial das Mercês foi doado pelo Cabido a Paulo de Carvalho, Desembargador do Paço e tio do Marquês de Pombal, que a transferiu para a sua Ermida da Rua Formosa, estabelecendo-a como Cabeça de Morgado. Em 23 de setembro de 1679, a viúva do Desembargador Paulo de Carvalho conseguiu licença do Arcebispo D. Luís de Sousa para se restituir o Santíssimo Sacramento da Paróquia das Mercês à Igreja de Nossa Senhora das Mercês, vindo da Igreja Velha dos Padres Ingleses, o que pode indicar que se concluíram neste ano as obras de reedificação referidas.

Contudo, esta  paroquial de Nª Srª das Mercês sofreu danos com o terremoto de 1755 e  voltou a ser instalada na Ermida da Ascensão de Cristo e Nª Srª do Amparo, durante quase dois anos, voltando a paroquial para a igreja reparada em 22 de maio de 1757. No século seguinte, em 26 de abril de 1835, a paróquia das Mercês sediada nesta Capela das Mercês foi transferida em definitivo para a Igreja do Convento de Nossa Senhora de Jesus, no Largo de Jesus, sendo a antiga Igreja entregue aos familiares do Marquês de Pombal.

A Travessa das Mercês a partir da Rua da Atalaia – Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias)

Já no século XX, sabemos que em 1900 estavam estabelecidas na antiga Capela das Mercês as freiras Mères rèparatrices de Marie. Na década de quarenta a igreja foi desmantelada e o edifício adaptado para habitação e comércio. Em 28 de abril de 1942 foi vendido a um particular que por sua vez arrendou o rés-do-chão ao Comando da Polícia Cívica, passando depois e até há pouco tempo a ser a conhecida esquadra das Mercês – Bairro Alto, da Polícia de Segurança Pública.

Refira-se que a devoção à Senhora das Mercês é bastante antiga em Portugal, tendo sido introduzida nos séculos XIV e XV pelos castelhanos Frades Mercedários, em Merceana e na região de Alenquer. No século XVIII, a forte devoção de Sebastião José de Carvalho e Melo pela Senhora das Mercês, de acordo com a sua tradição familiar, reforçou a base de implantação deste orago um pouco por toda a região de Lisboa.

Finalmente, recordamos que no espaço entre a Travessa das Mercês, a Rua Luz Soriano e a Rua dos Caetanos ficava o antigo Cemitério das Mercês, onde foram sepultados, como recorda Norberto de Araújo, os poetas Bocage e Nicolau Tolentino, tendo sido todas as ossadas removidas em 1897 para os cemitérios dos Prazeres e do Alto de São João.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Senhora da Saúde que ficou das Necessidades em 5 topónimos de Lisboa

O Largo das Necessidades - Freguesia da Estrela (Foto: Sérgio Dias)

O Largo das Necessidades – Freguesia da Estrela
(Foto: Sérgio Dias)

A Ermida de Nª Srª das Necessidades, erguida em 1607, fixou-se na memória de Lisboa em 5 topónimos: a Calçada das Necessidades, o Largo das Necessidades, a Rampa das Necessidades, a Rua das Necessidades e a Travessa das Necessidades, todos na Freguesia da Estrela.

A Ermida da Nª Sr.ª das Necessidades foi construída em 1607 para abrigar uma imagem da Senhora da Saúde roubada na Ericeira por devotos ali refugiados da peste de 1580. A irmandade que cuidou do templo e o ampliou era de marítimos da carreira da Índia. depois de 1613, Pedro de Castilho, conselheiro de D. João IV comprou as casas ligadas à ermida e transformou-as na sua residência, tendo mais tarde ficado com o assento da ermida e mandou erigir a capela-mor, obra terminada em 1659. Depois, D. João V comprou o local, grato à Senhora das Necessidades pelas melhoras da paralisia de que padecera, e resolveu ampliar a ermida, erguer para si  um palácio no local – que foi Paço Real até 1910 – e ainda construir um hospício e um convento que em 1744 doou à Congregação do Oratório: Convento de São Filipe de Néri e Convento de Nossa Senhora das Necessidades. Com a extinção das ordens religiosas em 1834, o edifício do convento foi anexado para os serviços da Casa Real e em 1950 foi transformado em sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

A Calçada das Necessidades liga o Largo do Rilvas à Rua do Possolo. Em documentação municipal já a encontramos referida em 1861 no plano de um prédio que João António da Luz Robim pretendia aumentar, nos n.º 2 a 6 da Calçada das Necessidades, assim como em 1884 « sobre a necessidade de providências rápidas para a construção de um cano geral de esgoto para que o cano de despejos do prédio n.º 2 da rua do Borga não continue a verter as imundices para a calçada das Necessidades.»

O Largo das Necessidades encontra-se na confluência da Rua das Necessidades, Rua Capitão Afonso Pala e Calçada do Sacramento. Antes foi o Largo das Cortes, conforme planta de 1856 de Filipe Folque, dado que em 1820 foi o local escolhido para as primeiras Cortes Constituintes. Em 1883 já o encontramos como Largo das Necessidades em diversas informações municipais propondo melhoramentos para o local.

A Rua das Necessidades era a  antiga Rua Direita das Necessidades até o Edital municipal de 22/08/1881 lhe retirar a palavra «Direita» e delimitá-la da Travessa do Sacramento a Alcântara ao Largo das Necessidades.

A Rampa das Necessidades vai da Praça da Armada à Rua das Necessidades e em outubro de 1890, assim está registada numa planta municipal referente ao estado da Rua da Correnteza de Baixo, da Rampa das Necessidades e do Beco dos Contrabandistas, .

Finalmente, a Travessa das Necessidades une a Travessa do Sacramento a Alcântara ao Largo do Rilvas. Foi revestida com macadame em 1877.

O topónimo Necessidades na Freguesia da Estrela (Planta: Sérgio Dias)

O topónimo Necessidades na Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

Da Rua Direita da Boa Morte à Rua da Senhora do Patrocínio ou das Dores

Rua do Patrocínio, na década de 10 do séc. XX (Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua do Patrocínio, na década de 10 do séc. XX
(Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

A antiga Rua Direita da Boa Morte, topónimo derivado da presença no local da Igreja da Boa Morte, passou após o Terramoto de 1755 a ser a  Rua do Patrocínio, que tal como a Travessa do Patrocínio nasceram da proximidade à Igreja de Nossa Senhora das Dores ou do Patrocínio, erguida nas últimas décadas do séc. XVIII.

A Rua do Patrocínio, segundo o olisipógrafo Norberto de Araújo, terá sido aberta antes do Terramoto de 1 de novembro de 1755 mas o topónimo foi gerado pela presença da Igreja de Nossa Senhora das Dores ou do Patrocínio,  que «(…) é coeva da construção da Basílica da Estrêla, e foi fundada – diz-se que com materiais que do monumento de D. Maria I sobejaram – pelo Padre António Luiz de Carvalho, em honra das Sete Dores de Maria Santíssima» para além de que «a fachada dêste templo, bem proporcionada, de ordem jónica, acusa o final do século XVIII.»

Esta Igreja do Patrocínio foi escolhida em 1934  para sede provisória da então criada Paróquia do Beato Nuno Álvares, enquanto se construía a nova Igreja do Santo Condestável cujas obras se iniciaram em 1946. Este templo , identificado como nº 8 da Rua do Patrocínio, tornou-se a Igreja Católica Alemã na segunda metade do séc. XX, englobando nas suas traseiras o Cemitério Alemão.

Já a Rua do Patrocínio, que hoje une a Rua de Santo António à Estrela à Rua Domingos Sequeira, antes do Terramoto de 1755 era a Rua Direita da Boa Morte, e em conjunto com a Rua do Possolo, a Rua Possidónio da Silva, a Rua de Santana e a Rua de Santo António constituíram o sítio designado por Boa Morte, dada a existência no local do Convento da Congregação do Senhor da Boa Morte e Caridade, com a invocação do Senhor Jesus da Boa Morte, templo construído em 1736 e demolido em 1835.

Finalmente, a Travessa do Patrocínio, conforme consta no Edital municipal de 2 de agosto de 1888 que a atribuiu, era a «rua formadas por duas, em angulo obtuso, que contornam, respectivamente, pelo nascente e pelo sul, o quarteirão de casas ultimamente edificado no supprimido largo denominado do – Monteiro – na rua do Patrocinio» e hoje está limitada entre a Travessa do Jardim e a Rua do Patrocínio.

Freguesias de Campo de Ourique e Estrela (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias de Campo de Ourique e Estrela
(Planta: Sérgio Dias)