A Rua Domingos Rebelo, o pintor etnógrafo dos Açores

Freguesia de Carnide (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Carnide
(Foto: Sérgio Dias)

O pintor Domingos Rebelo que desde 2004 dá nome a uma rua de Carnide era um dos que, como Eduardo Viana, Emmérico Nunes, Francisco Smith  ou Manuel Bentes -, frequentava o estúdio nº 21 que Amadeu de Sousa Cardoso arrendara em 1908, em Paris, no 14 Cité Falguiére.

Numa entrevista de Domingos Rebelo ao jornal O Século, em 20 de outubro de 1970, o pintor recordou que « […] o atelier de Amadeo de Sousa Cardoso, no 14 Cité Falguière, que era de todos nós o que vivia com maior abastança, pois era filho de uma rica família de Amarante […] tornou-se um centro de reunião. Iam lá todas as noites o Manuel Bentes, o Ferraz, o arquitecto Collin, o Emmérico Nunes e eu. […] .»

A Rua Domingos Rebelo foi um topónimo proposto pelos jornalistas António Valdemar e Appio Sottomayor enquanto membros da Comissão Municipal de Toponímia, e atribuído à Rua C à Quinta do Bom Nome, com início e fim na Rua José Farinha, pelo Edital  municipal de 10/02/2004. Pelo mesmo Edital e na mesma Freguesia de Carnide, foi também atribuído o nome da pintora Maria de Lourdes de Mello e Castro na Rua B à Avenida Professor Francisco da Gama Caeiro.

Autorretrato

Autorretrato

Domingos Maria Xavier Rebelo (Ponta Delgada/03.12.1891 – 11.01.1975/Lisboa) foi um pintor açoriano que se especializou na temática religiosa e nos cenários rurais da sua terra natal o que lhe valeu o título de Pintor Etnógrafo dos Açores, destacando-se da sua obra o quadro Os Emigrantes (1926) e os frescos da Igreja de São João de Deus (1953), em Lisboa.

Domingos Rebelo estudou no Colégio Fisher, e o seu mestre de talha, João Soares Cordeiro, incentivou-o a seguir uma carreira artística pelo que em 1912, quando estudava em Paris, retratou-o. Foi graças ao apoio desse professor que começou a expor logo aos 13 anos e aos 15 partiu para Paris, para estudar a expensas dos Condes de Albuquerque. Em 1911, aos 20 anos, expôs na Exposição dos Livres, ao lado de Alberto Cardoso, Eduardo Viana, Emmérico Nunes, Francisco Álvares Cabral, Francisco Smith e Manuel Bentes. Foi também professor e diretor (1940 – 1942) da Escola Velho Cabral/Escola Industrial e Comercial de Ponta Delgada.  Em 1942, aos 49 anos, veio fixar residência em Lisboa e completou a obra a fresco iniciada pelo pintor Sousa Lopes (quatro dos sete painéis que decoram o Salão Nobre da Assembleia da República), para além de ter dirigido a Biblioteca-Museu do Ensino Primário, em Benfica, junto da Escola do Magistério Primário de Lisboa.

A sua obra artística incluiu ainda composições para tapeçarias, como as que se encontram na Cidade Universitária de Coimbra, bem como miniaturas em barro de cariz etnográfico e foi galardoado com a Medalha da Sociedade Nacional de Belas Artes (1925), os Prémios Silva Porto (1937), Rocha Cabral e Roque Gameiro, bem como com a  Primeira Medalha em aguarela no Salão do Estoril.

Domingos Rebelo foi ainda diretor e vogal da Sociedade Nacional de Belas Artes (1947 – 1970) e a sua obra está representada no Museu do Chiado/Museu de Arte Contemporânea, Museu da Marinha, Museu Carlos Machado de Ponte Delgada e inúmeras igrejas. A Escola de Artes e Ofícios Velho Cabral, inaugurada no ano do seu nascimento e que o artista frequentou,  passou a partir de 1979 a ostentar o seu nome como Escola Secundária Domingos Rebelo.

Freguesia de Carnide (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Carnide
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

A primeira Rua de 1916 : Frei Manuel do Cenáculo na Penha de França

Freguesia da Penha de França

Freguesia da Penha de França                                                                                      (Foto: Sérgio Dias)

Há cem anos, o primeiro topónimo atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa foi a Rua Frei Manuel do Cenáculo, na Penha de França, através do Edital de 8 de janeiro de 1916.

(Foto do quadro: Arquivo Municipal de Lisboa)

(Foto do quadro: Arquivo Municipal de Lisboa)

O homenageado é Manuel de Villas-Boas Anes de Carvalho (Lisboa/01.03.1724- 26.01.1814/Évora), conhecido como Frei Manuel do Cenáculo, que se notabilizou enquanto arcebispo de Évora, pensador iluminista e criador de bibliotecas.

Enquanto jovem frequentou as lições do Padre João Baptista da Congregação do Oratório (1737-1740) e aos 16 anos vestiu o hábito de franciscano da Ordem Terceira. Depois teve também aulas com Frei Joaquim de São José, que lhe deu uma orientação mais moderna e coincidente com uma movimentação intelectual de crítica da Escolástica. Doutorou-se em Teologia na Universidade de Coimbra em 26 de maio de 1749 e foi nomeado lente de Artes do Colégio de São Pedro de Coimbra (1746-1749), vindo depois a reger uma cadeira de teologia (1751 a 1755) na Universidade, instituição onde mais tarde foi também mentor da Junta Reformadora (1772).

Frei Manuel do Cenáculo que chegou a desempenhar as funções de Superior provincial da Ordem Terceira de São Francisco, na sua viagem a Roma de 1750 conheceu bibliotecas que o influenciarão na sua dedicação a esta área, nomeadamente como dinamizador da reconstrução da Real Biblioteca Pública e da Biblioteca Pública de Évora (1775).

Foi uma  figura de relevo do iluminismo em Portugal, caracterizando-se o seu pensamento filosófico por matematismo, gosto do real e  crítica moderada da escolástica, de acordo com os seus estudiosos Hernâni Cidade e Francisco da Gama Caeiro. Tornou-se uma referência no círculo político e intelectual português que lhe valeram sucessivas nomeações por parte de D. José I e do Marquês de Pombal:  Presidente da Real Mesa Censória (1768) e consequentemente, participação na organização do ensino através da sua função neste organismo que lhe permitiu dinamizar a abertura de escolas em zonas rurais, sobretudo no Sul do País, em 1771; Bispo de Beja (1770 a 1795), instituindo um curso de humanidades e de teologia no seu paço episcopal onde também instalou uma biblioteca e um museu e em 1779  mandou escolher alguns rapazes das famílias pobres da zona entre Campo de Ourique e o Algarve para serem instruídos em Beja e depois instruírem aquela localidade da sua diocese de onde provinham, para além de ter fundado a Academia Eclesiástica de Beja (1793);  Presidente da Junta de Providência Literária criada para tratar da reforma dos estudos, Preceptor do Príncipe Herdeiro D. José, Príncipe da Beira (todos em 1770); e ainda, Presidente da Junta do Subsídio Literário (1772).

Freguesia da Penha de França (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia da Penha de França
(Planta: Sérgio Dias)

Ventura Terra na Rua Alexandre Herculano

Freguesia de Santo António (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias)

Ventura Terra pode ser encontrado por três vezes na Rua Alexandre Herculano – um topónimo de 1882 – já que nesta artéria deparamos no nº25 com a obra de Ventura Terra que foi  o Prémio Valmor de 1911, no nº 57  com a própria casa do arquiteto e exemplo da Arte Nova também galardoada com o Prémio Valmor (1903) e ainda, com a terceira obra que é a Sinagoga de Lisboa (1904), também designada como Shaaré Tikvá ou Portas da Esperança.

Ali bem próximo, no nº  37 da Rua Duque Palmela, está outra vez o traço de Ventura Terra, no prédio do Comendador Emílio Liguori, de 1902.

Alexandre Herculano que foi Presidente da Câmara Municipal de Belém (1854 e 1855) teve o seu nome atribuído pela 1ª vez em Lisboa cerca de 4 meses após a sua morte, por edital do Governo Civil de Lisboa de 18 de janeiro de 1878,  mas 9 anos depois, o Edital municipal de 10 de janeiro de 1888,  alterou o topónimo para Rua Fradesso da Silveira, e ainda hoje assim se mantêm na Freguesia de Alcântara, evitando assim duas ruas com o mesmo nome em Lisboa já que mais ou menos seis antes a deliberação camarária de 6 de maio de 1882 atribuíra o topónimo Rua Alexandre Herculano à artéria perpendicular à Avenida da Liberdade dirigida para o Largo do Rato, ao mesmo tempo que também instituía nesta zona a Rua Castilho, a Rua Barata Salgueiro, a Rua Mouzinho da Silveira, a Rua Passos Manuel (depois Rua Rosa Araújo pelo Edital de 19/04/1887) e a Praça do Marquês de Pombal.

Freguesia de Santo António (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Planta: Sérgio Dias)

Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo (Lisboa/28.03.1810 – 13.09.1877/Vale de Lobos) foi sobretudo um escritor e historiador, considerado o introdutor do Romantismo em Portugal como Almeida Garrett e um  renovador do estudo da História de Portugal, mas também um político que terminou a sua vida como agricultor e afamado produtor do azeite «Herculano», negócio que acabou por vender à Jerónimo Martins.

Alexandre Herculano nasceu no Pátio do Gil (memória de um António Rodrigues Gil) na Rua de São Bento, onde foi colocada uma lápide em 26 de abril de 1910 para o assinalar e aqui  também residiu o arquiteto Manuel Caetano de Sousa, irmão da avó materna de Herculano. Começou a estudar com os padres Oratorianos de S. Filipe Nery, no Convento das Necessidades, mas após a cegueira do seu pai em 1827 não conseguiu seguir para a universidade e em  1830 seguiu escolheu a Aula de Comércio, a que acrescentou um curso de Diplomática  e estudos de francês, italiano, inglês e alemão. Com a a Revolução Liberal interrompeu os estudos e pelo seu envolvimento na Revolta  de 21 de agosto de 1831 do 4 de Infantaria contra o governo miguelista foi mesmo obrigado a emigrar para Inglaterra. Depois juntou-se ao exército liberal de D. Pedro IV na Ilha Terceira, onde conheceu Garrett, desembarcou no Mindelo e participou no cerco do Porto. Ajudou a organizar a Biblioteca Pública do Porto e voltou a Lisboa para dirigir a revista Panorama, de que foi também redator principal de 1837 a 1839 e depois, a partir de 1842. Alexandre Herculano foi agraciado como cavaleiro da ordem da Torre e Espada em 1839 e a partir desse ano passou a dirigir as bibliotecas reais das Necessidades e da Ajuda, nomeado pelo rei D. Fernando. Em paralelo, para somar ao seu romance O Pároco de Aldeia (1825) e à poesia de A Harpa do Crente (1837), foi publicando algumas das sua obras de que destacamos os 2 volumes de Lendas e Narrativas (entre 1839 e 1844), a peça Os Infantes em Ceuta (1842), o romance histórico Eurico, o Presbítero (1842), a sua História de Portugal (1846 – 1853) que introduz em Portugal  a historiografia científica, O Monge de Cister (1848) e História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal (1854-1859).  A Academia das Ciências de Lisboa nomeou-o sócio efetivo em 1852 e encarregou-o da recolha dos Portugaliae Monumenta Historica  (documentos valiosos dispersos pelos cartórios conventuais do país), investigação a que se dedicou em 1853 e 1854 e cuja publicação decorreu de 1856 a 1873.

Alexandre Herculano foi ainda preceptor do futuro rei D. Pedro V, deputado por um dos círculos do Porto em 1840, bem como vereador e depois Presidente da Câmara Municipal de Belém (1854 e 1855), após o que foi um dos fundadores do Partido Progressista Histórico, em 1856. Conhecido pela sua posição anticlerical Herculano participou na redação do primeiro Código Civil português (1860-1865) e chegou a propor a introdução do casamento civil a par do religioso.

Em 1867 casou com D. Mariana Meira e retirou-se para a sua quinta de Vale de Lobos (Azoia de Baixo – Santarém) dedicando-se quase exclusivamente à agricultura e, já que 21 dos seus 40 hectares de terra eram olival, produziu o azeite «Herculano» que ganhou medalhas de cobre, prata e ouro em Exposições Internacionais, e cujos direitos de comercialização vendeu em 1876 à Jerónimo Martins.

Freguesia de Santo António (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias)

De uma Rua do Campo Grande para Alvalade foi Lopes de Mendonça

Henrique Lopes de Mendonça (Foto: s/d, s/a, Arquivo Municipal de Lisboa)

Henrique Lopes de Mendonça
(Foto: s/d, s/a, Arquivo Municipal de Lisboa)

Nascido lisboeta na então Rua dos Calafates, Henrique Lopes de Mendonça foi o autor da letra de uma Marcha contra o Ultimatum inglês, com música de Alfredo Keil, intitulada A Portuguesa, que após a implantação da República veio a ser o Hino Nacional  e, por duas vezes, o seu nome foi pensado para ruas de Lisboa, primeiro no Campo Grande (em 1932) e depois, no ano do centenário do seu nascimento, em 1956, ficou em definitivo numa artéria de Alvalade.

A sua ligação à gastronomia prende-se com a sua participação no livro Cozinheiro dos Cozinheiros (1870), de Paulo Plantier, para o qual enviou a receita de uma sopa que lhe lembrava Urbano de Castro, também membro do Corpo Redatorial da Revista do Conservatório Real de Lisboa, com o desejo «que os seus leitores a alcunhem de deliciosa».

Na toponímia alfacinha, Henrique Lopes de Mendonça foi primeiro colocado na Rua A do projecto aprovado em sessão camarária de 13/10/1927 delimitado entre a Rua Ocidental do Campo Grande e o Hipódromo, através do Edital de 12/03/1932, como Rua Lopes de Mendonça, ficando na Rua B, Francisco Mantero (hoje na Freguesia dos Olivais); na C, Ernesto Vasconcelos e, na D, Aires de Ornelas (hoje numa Praça da Penha de França). Mas só se fixou em definitivo através do Edital de 26/05/1956 na Rua 31 do Sítio de Alvalade, a que foi acrescentada a legenda «Escritor/1856 – 1931», seguindo o parecer da Comissão de Toponímia da sua reunião de 15/05/1970, homologado pelo Presidente da Câmara municipal de Lisboa.

Refira-se ainda que o jardim da Praça José Fontana, também é conhecido como Jardim Henrique Lopes de Mendonça, provavelmente a partir de uma deliberação de câmara de 1925 mas a edilidade não terá oficializado este topónimo com Edital.

A Rua Henrique Lopes de Mendonça em 1956 (Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua Henrique Lopes de Mendonça em 1956
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Henrique Lopes de Mendonça (Lisboa/12.02.1856 – 24.08.1931/Lisboa) foi um alfacinha nascido no Bairro Alto, oficial da Armada Portuguesa, escritor e dramaturgo que fez a letra do Hino Nacional e casou em 1880 com Maria Amélia, uma das quatro irmãs de Columbano e Rafael Bordalo Pinheiro. Foi oficial embarcado entre 1874 e 1886, tendo navegado por Cabo Verde, São Tomé e Angola, e até apresentado a sua candidatura a Deputado por Luanda por força dos seus ideais republicanos.

Ingressou em 27 de Outubro de 1871  na Armada Portuguesa e aí alcançou o posto de Capitão de Mar-e-Guerra, para além de se ter dedicado à história naval e publicado Estudos sobre Navios Portugueses nos Séculos XV e XVI (1892) ou O Padre Fernando Oliveira e a sua obra náutica (1898). Em 1887 coadjuvou Andrade Corvo na publicação dos estudos sobre as possessões ultramarinas e foi ainda membro das Comissões Oficiais dos Centenários de Colombo e de Vasco da Gama.

Foi também professor da Escola Prática de Artilharia Naval, então instalada a bordo da Fragata D. Fernando II e Glória, assim como das cadeiras de Geografia, História e Literatura da Escola de Belas Artes de Lisboa (entre 1901 e 1929) e entre 1897 e 1901 foi ainda Bibliotecário da Escola Naval.

Como escritor e dramaturgo, Lopes de Mendonça iniciou a sua carreira em 1884 com a peça A Noiva, no palco do teatro D. Maria II, a que se seguiu A Morta (1888), que foi  galardoada com o prémio D. Luís I da Academia de Ciências de Lisboa. Deixou quase uma centena de obras literárias de teatro como Afonso de Albuquerque (1897) ou A crise do teatro português (1901). Também escreveu poesia, por vezes com os pseudónimos Lusos ou Ele, e romances como Os orfãos de Calecut (1894). Por ocasião do Ultimato Inglês de 1890, escreveu para a música de Alfredo Keil, a marcha A Portuguesa que, em 1910 o Governo da República adoptou como Hino Nacional, trocando apenas a palavra «bretões» por «canhões». Em 1916 foi também nomeado pelo Governo para a comissão que propôs as versões definitivas e oficiais para piano, canto, orquestra e banda do Hino Nacional. Refira-se ainda que Lopes de Mendonça era  membro eleito da Academia das Ciências de Lisboa desde 1900 e veio a ser seu presidente em 1915 , tal como dez anos depois,  em 1925, integrou o grupo de fundadores da Sociedade Portuguesa de Autores.

No ano do centenário do seu nascimento foi homenageado pela Câmara Municipal de Lisboa  não apenas com a atribuição do seu nome a uma rua de Alvalade mas também através da colocação de uma lápide no prédio nº 120 da Rua do Diário de Notícias, onde nascera,  e uma exposição comemorativa no  Palácio Galveias.

E se quiserem experimentar a sopa de Lopes de Mendonça é seguir a sua receita:

«Coza-se uma porção de batatas. Faça-se um refogado com azedas, e misture-se-lhe a água em que se cozeu peixe. Junte-se-lhe o polme de batata, e deixe-se ferver um pedaço. Tem-se já pronto ovo cozido, cortado aos quadradinhos, azeitonas sem caroços, ervilhas ou feijão verde (havendo), camarão cozido e, já se sabe, convenientemente descascado. Isto tudo se junta ao caldo, depois de tirado do lume. E, em seguida, come-se.»

Freguesia de Alvalade (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Avenida de Manuel da Maia da «Carta Topographica da parte mais arruinada de Lisboa»

Freguesias do Areeiro e de Arroios (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias do Areeiro e de Arroios
(Foto: Sérgio Dias)

A Avenida Manuel da Maia homenageia o autor da «Carta Topographica da parte mais arruinada de Lisboa», executada para permitir a reconstrução de Lisboa após o Terramoto de 1755, e que pelo Edital camarário de 25/11/1929 assinado pelo vice-presidente da Comissão Administrativa Carlos Mardel Ferreira assim ficou fixado na «Avenida Nº 3 prolongada com a Nº5, compreendida entre o Largo do Leão e a Rotunda a oriente do Bairro Popular do Arco do Cego [Praça de Londres]».

Avenida Manuel da Maia a óleo no Palácio de Queluz foto António Passaporte AML

Manuel da Maia (Lisboa/1677 – 17.09.1768/Lisboa) foi um engenheiro militar nomeado Engenheiro-Mor na época pombalina, em 1758. Era quem estava à frente dos engenheiros da Academia Militar da Corte e que procedeu ao levantamento de todos os bairros de Lisboa, para aferir das áreas mais sensíveis que precisavam de maiores intervenções, elaborando uma planta geral para a recuperação e reedificação de Lisboa, que estava praticamente em ruínas, a  Carta Topographica da parte mais arruinada de Lisboa na forma, em que se achava antes da sua destruição pra sobre ella se observarem os melhoramentos necessários, na escala de 100 varas [1:1100], abrangendo o sítio onde hoje encontramos o Largo do Corpo Santo e a Rua da Misericórdia até às Igrejas da Sé e de São Cristóvão, e para o norte até ao Largo Trindade Coelho e o Largo de São Domingos.

Manuel da Maia começara como engenheiro militar em 26 de maio de 1698 e foi incumbido em 1701 das fortificações de Lisboa, tendo reforçado a linha de fortes, desde Santa Apolónia até à Torre de São Julião da Barra e em 1718 apresentou a planta da cidade de Lisboa completa. Outra importante obra sua e que resistiu ao Terramoto foi o Aqueduto das Águas Livres cujos estudos lhe demoraram 6 anos e depois delineou, tendo também com Custódio Vieira dirigido a execução da obra, sucedendo-lhe como responsáveis José da Silva Pais, Rodrigo Franco, Carlos Mardel, Miguel Ângelo Blasco, Reinaldo Manuel dos Santos e Francisco António Ferreira. Foi também ele responsável pela construção da estátua equestre de D. José I, na Praça do Comércio.

Refira-se ainda que foi nomeado guarda-mor da Torre do Tombo, em 1745, onde organizou o corpo cronológico desde 1161 até 1698 e salvou o arquivo na altura do Terramoto, assim como traduziu obras de natureza militar e engenharia, por ser conhecedor de Latim, Italiano, Inglês e Francês.

Freguesias do Areeiro e de Arroios (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias do Areeiro e de Arroios
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do professor de Arqueologia Leite de Vasconcelos

Freguesia de São Vicente (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de São Vicente
(Foto: Sérgio Dias)

José Leite de Vasconcelos, médico que foi professor universitário de Arqueologia e o primeiro diretor do Museu Nacional de Arqueologia, chegou à toponímia de Lisboa oito anos após o seu falecimento, pelo Edital municipal de 13/05/1949, a dar nome à Rua B à Quinta do Ferro.

Pelo mesmo Edital foram dados mais 6 nomes de figuras que foram professores universitários, filólogos ou historiadores, a saber, a Rua José Maria Rodrigues e a Rua Agostinho de Campos na freguesia de Alcântara, assim como a Rua Braamcamp Freire, a Rua Adolfo Coelho, a Rua Sousa Viterbo e a Rua David Lopes no Bairro da Quinta dos Apóstolos, na  freguesia da Penha de França.

Ilustração Portuguesa, 1926

Ilustração Portuguesa, 1926

José Leite de Vasconcelos Cardoso Pereira de Melo (Ucanha/07.07.1858 – 17.05.1941/Lisboa), médico formado pela Escola Médico-Cirúrgica do Porto em 1886 com a dissertação de licenciatura «A Evolução da linguagem» preferiu antes dedicar-se a ser professor universitário, etnógrafo, arqueólogo, filólogo e museólogo.

Assegurou os seus estudos na Escola Médico-Cirúrgica do Porto a trabalhar num liceu e num colégio,  e foi no decorrer do curso que escreveu Tradições Populares Portuguesas e editou o opúsculo Portugal Pré-Histórico (1885). Finda a licenciatura exerceu durante seis meses as  funções de subdelegado de Saúde do Cadaval. Todavia, Leite de Vasconcelos acabou por fixar-se em Lisboa como conservador da Biblioteca Nacional de Lisboa durante 23 anos (a partir de 1888), professor do Liceu Central de Lisboa e mais tarde, da Faculdade de Letras (de 1911 a 1929), como docente de Filologia Clássica, área em que se havia doutorado em 1901, na Universidade de Paris, com a tese «Esquisse d’une dialectologie portugaise», para além de reger as cadeiras de Numismática, Epigrafia e Arqueologia.

Leite de Vasconcelos empenhou-se na criação de um museu dedicado ao conhecimento das origens e tradições do povo português, de que nasceu em 1893 o Museu Etnográfico Português (hoje Museu Nacional de Arqueologia). Inicialmente numa sala da Direção dos Trabalhos Geológicos, foi transferido em 1900 para uma ala do Mosteiro dos Jerónimos até ser inaugurado a 22 de abril de 1906. Quando se aposentou em 1929 o Museu Etnológico de que foi diretor passou a ter o seu nome Museu Etnológico do Doutor Leite de Vasconcelos e o homenageado dedicou-se então à publicação dos vários volumes da Etnografia Portuguesa.

Refira-se finalmente que Leite de Vasconcelos viveu em Lisboa, no nº 40 da Rua Dom Carlos de Mascarenhas, e nessa casa colocou a edilidade uma lápide dessa memória, no dia 7 de março de 1944.

Freguesia de São Vicente (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua do Sampaio que gostava de Giordano Bruno

Freguesia de Campo de Ourique (Foto: José Carlos Batista)

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: José Carlos Batista)

José Pereira de Sampaio que escolheu ser Bruno de pseudónimo por causa de Giordano Bruno ficou imortalizado como  Sampaio Bruno no arruamento até aí designado por Rua nº 5 do Bairro de Campo de Ourique, por via do Edital municipal de 12 de março de 1932 que, para além deste defensor dos ideais republicanos, também consagrou o oficial e político republicano Carlos da Maia.

na Ilustração Portuguesa, 02.05.1904

na Ilustração Portuguesa, 02.05.1904

José Pereira de Sampaio (Porto/30.11.1857 – 06.11.1915/Porto), notabilizou-se como jornalista, escritor e propagandista da República. Fundou vários semanários na sua cidade do Porto como O Democrata O Norte Republicano (em 1881) ou o diário A Discussão (1883 – 1887).  Com Joaquim Gomes de Macedo também  fundou A República Portuguesa (em 1890) mas com o 31 de janeiro de 1891 o jornal foi suspenso pelas autoridades logo no dia seguinte, reaparecendo dois meses depois para nova suspensão e consequente substituição pelo A Voz Pública, onde Sampaio Bruno colaborou de 1894 a 1908. Colaborou ainda nas revistas HarpaTribuna (1874) , Galeria Republicana (1882-1883) e Serões (1901-1911), assim como no diário Folha Nova. A paixão jornalística vinha de trás já que aos catorze anos vira o seu 1º artigo publicado no Diário da Tarde (1872), ano em que com Júlio Barbosa e Silva, Henrique Barbosa e A. Cardoso fundou o jornal académico O Laço Branco e, no ano seguinte, em colaboração com Gervásio Ferreira de Araújo e António Pereira de Sampaio produziu o jornal Vampiro.

Sampaio Bruno integrou o Directório do Partido Republicano Português e, na sequência do Ultimato britânico de 1890, elaborou os estatutos da Liga Patriótica do Norte, com Antero de Quental e Basílio Teles e, participou na Revolta republicana de 31 de janeiro de 1891, de cujo Manifesto foi aliás redator, pelo que depois teve de se exilar, em Madrid e Paris, experiência da qual nasceu a publicação de «Manifesto dos Emigrados da Revolução Republicana Portuguesa de 31 de janeiro de 1891» e  Notas do Exílio (1893), no seu regresso a Portugal após amnistia.

O seu primeiro ensaio publicado foi Análise da Crença Cristã – Estudos críticos sobre o cristianismo (1874) que na época suscitou polémica na conservadora sociedade portuguesa de então. Em 1876 editou um ensaio intitulado A propósito do Positivismo e dez anos depois coligiu uma série de ensaios sobre os modernos novelistas portugueses no volume A Geração Nova. Depois, Sampaio Bruno começou a defender contornos místicos e esotéricos em títulos como A Ideia de Deus (1902) ou O Encoberto (1904),  num progressivo afastamento do racionalismo mas sempre com traços deístas, anticlericais e progressistas. Refira-se que influenciou Fernando Pessoa que em 1915 lhe enviou o 1º nº da Orfeu pedindo opinião.

Em 1911, depois de receber ameaças terminou a publicação do Diário da Tarde, no Porto e, desde 1909 que era diretor da Biblioteca Pública Municipal do Porto, cargo que manteve até à sua morte em 1915.

Freguesia de Campo de Ourique - Placa Tipo II (Foto: José Carlos Batista)

Freguesia de Campo de Ourique – Placa Tipo II
(Foto: José Carlos Batista)

Freguesia de Campo de Ourique

Freguesia de Campo de Ourique

A Rua do Cardeal Saraiva do Liberalismo Vintista

Freguesia de Campolide - Placa Tipo IV

Freguesia de Campolide – Placa Tipo IV

Com a legenda «Patriarca de Lisboa e Regente do Reino/1766 – 1845» foi a Rua Cardeal Saraiva atribuída pelo Edital de 29/12/1993 à Rua A à Avenida José Malhoa ou Rua I à Avenida Calouste Gulbenkian, a partir de uma sugestão dirigida à edilidade pelo Professor Catedrático da Universidade do Porto, Luís A. Oliveira Ramos.

O Cardeal Saraiva era Frei Francisco de São Luís Saraiva (Ponte de Lima/26.01.1766 – 07.05.1845/Lisboa), o mais famoso benedito português que professou aos 14 anos em Tibães, tendo-se também doutorado em Teologia na Universidade de Coimbra. Foi Patriarca de Lisboa, Regente e Par do Reino e um dos fundadores do regime liberal já que a partir da invasão francesa de 1808 começou a participar na vida política portuguesa e foi um dos pais da Constituição Liberal de 1820. Após o triunfo do Liberalismo foi guarda-mor da Torre do Tombo, conselheiro de Estado, presidente das Cortes, ministro e secretário de estado. Também como escritor e investigador foi um autor de referência durante mais de um século, sobretudo no sector da Filologia e da História, sendo de salientar os seus 10 volumes das suas «Obras Completas» (1856-1878).

cardeal saraiva edital

Freguesia de Campolide

Freguesia de Campolide

A Rua do primeiro Bibliotecário de Lisboa

Freguesia da Penha de França

Freguesia da Penha de França

Já que hoje se comemora o Dia Mundial das Bibliotecas, evocamos Feio Terenas, o 1º bibliotecário da Câmara Municipal de Lisboa, que desde Maio de 1926 passou a dar nome a uma rua da Penha de França.

Foi por proposta do Vereador Avelino Ribeiro, aprovada em sessão de câmara de 30/04/1926, que se colocou o nome de Feio Terenas  na Rua nº 5 do Bairro Lamosa (conforme o Edital 15/05/1926 corrigido pelo Edital de 22/08/1928), com a legenda «Jornalista e Propagandista do Ideal Republicano/1847 – 1920»

José Maria de Moura Barata Feio Terenas (Covilhã/05.11.1847 – 29.01.1920/Lisboa) foi um dos fundadores do Partido Republicano e figura muito ligada ao Centro Republicano Democrático de Lisboa. Integrou a organização do I Congresso Republicano, em 1887 e, ainda durante o regime monárquico foi eleito deputado pelo círculo de Setúbal, sendo reeleito em 1910  para as Constituintes.

No jornalismo, este beirão fundou com Abílio Roque de Sá Barreto, Emídio Garcia e Rodrigues de Sousa, o 1º jornal que hasteou a bandeira republicana, O Partido do Povo (1878)  e, em 1885, o Diário da Tarde, com Gomes da Silva. Dirigiu A Vanguarda e A Revolução de Janeiro e, com Rodrigues Sampaio e Pinheiro Chagas, foi um dos fundadores da 1ª associação de imprensa em Lisboa, a Associação de Jornalistas e Escritores, criada em 1880 por altura das comemorações do tricentenário de Camões. Redigiu ainda para A Batalha e A Democracia – tendo substituído várias vezes o diretor Elias Garcia – , assim como para o Archivo Republicano, Enciclopédia Republicana, Galeria Republicana, República e O Século.

Na administração municipal foi o primeiro bibliotecário da Câmara Municipal da capital, de 1881 até à implantação no regime republicano, exercendo funções de conservador na Biblioteca Municipal da Rua do Saco, onde teve como ajudante Luz de Almeida .

Também quando a instrução primária passou para a administração municipal, colaborou com Elias Garcia, tanto mais que em 1882 havia  publicado a revista de instrução primária Froëbel, em defesa da educação cívica e do ensino laico e, do mesmo modo   fundou e dirigiu o periódico O Vintém das Escolasa partir de 1 de Julho de 1902, com a  frase «Beneficência, Instrução, Educação Cívica» estampada no cabeçalho, bem como a 1ª missão fundada em Lisboa desta associação.

Rua Feio Terenas planta

A Rua do «Senhor Guia de Portugal»

Freguesia da Ajuda - Placa Tipo IV

Freguesia da Ajuda – Placa Tipo IV

No passado sábado completou-se o 130º aniversário de Raúl Proença, bibliotecário e grande dinamizador do Guia de Portugal, que 52 anos após o seu falecimento deu nome à Rua 12 do Bairro do Caramão da Ajuda, por Edital de 31 de agosto de 1993.

O mesmo Edital municipal deu no mesmo Bairro os nomes de Francisco Sousa Tavares e  Hermínia Silva, ambos falecidos nesse ano de 1993.

Raúl Sangreman Proença (Caldas da Rainha/10.05.1884 – 20.05.1941/Porto) destacou-se como coordenador do Guia de Portugal, bibliotecário, investigador  e, membro do  grupo fundador da revista Seara Nova em 1921. Raul Proença definia-se  filosoficamente como idealista e realista, defensor de um socialismo democrático no seio de um regime parlamentarista.

Raul Proença foi o criador e organizador do Guia de Portugal, sob a tutela da Biblioteca Nacional de Lisboa, cujo volume inaugural foi publicado em novembro de 1924, com a temática «Generalidades. Lisboa e Arredores». O II volume saiu em 1927 focado na «Estremadura, Alentejo e Algarve». A edição foi concluída na década de 70 do século passado pela Fundação Calouste Gulbenkian. Além dos seus próprios textos, Raúl Proença congregou para esta publicação nomes como Aquilino Ribeiro, António Sérgio, Jaime Cortesão, Matos Sequeira e Reinaldo dos Santos, entre outros. 

Integrava o quadro da Biblioteca Nacional desde 1911 e, como Chefe dos Serviços Técnicos (a partir de 1919) colaborou estreitamente com Jaime Cortesão quando este dirigiu a instituição.  Procurou elaborar regras de catalogação inovadoras, que se revelassem mais eficazes e consentâneas com o papel que a Biblioteca deveria desempenhar no espaço cultural português e, por via deste trabalho, tornou-se num dos mais reputados especialistas portugueses de biblioteconomia. A Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas criou em 1998 o Prémio Raúl Proença.

Participou no movimento da Renascença Portuguesa (1912) e, integrou os chamados grupos da Seara Nova (de que foi fundador, 1921) e da Biblioteca Nacional (1919-1926). Defendeu ardentemente a participação portuguesa na I Guerra Mundial e, após a entrada oficial de Portugal no conflito, em março de 1916,  alistou-se voluntariamente nas fileiras do Exército português e assim entrou para o Curso de Administração Militar na Escola Prática de Oficiais Milicianos mas acabou por não ser enviado para o Corpo Expedicionário Português, ao contrário do seu amigo Jaime Cortesão.

Depois, Raúl Proença combateu  o sidonismo (1918) e a Ditadura Militar, nomeadamente, como elemento das áreas de informações e inter-ligação entre os vários grupos de revoltosos na sublevação de fevereiro de 1927, pelo que foi demitido da Biblioteca Nacional de Lisboa, tal como Jaime Cortesão e, assim passou à clandestinidade e ao exílio em Paris, apenas regressando a Portugal em março de 1932, já acometido da grave doença mental que o levaria ao internamento no Hospital Conde de Ferreira, onde faleceu.

Já enquanto adolescente Raúl Proença se empenhava na propaganda republicana e colaborava nos jornais republicanos de Lisboa, sendo próximo de António José de Almeida e do Alma Nacional. Concluídos os estudos no Liceu do Carmo e no Instituto Industrial e Comercial de Lisboa, em 1906, rumou a Alcobaça para aí exercer o cargo de professor do curso particular do ensino secundário mas durante toda a sua vida colaborou em inúmeras publicações desde as Caldas da Rainha ao Algarve. Finalmente, refira-se que Florbela Espanca que lhe dera versos seus a ler, lhe dedicou o poema «Prince Charmant» do seu Livro de Sóror Saudade (1923).

Rua Raul Proença em 1999 (Foto: Paulo Catrica, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua Raul Proença em 1999 (Foto: Paulo Catrica, Arquivo Municipal de Lisboa)