Quatro médicos militares na toponímia de Lisboa em 1970

Francisco Luís Gomes

Em 1970, nove anos após o início da Guerra Colonial, foram colocados na toponímia de Lisboa quatro médicos militares, com a característica comum de terem prestado serviço no Hospital Militar de Lisboa e/ou nos territórios que eram colónias na época: Francisco Luís Gomes, José Baptista de Sousa, Mário Moutinho e Nicolau de Bettencourt.

O primeiro caso ocorreu através do Edital  municipal de 14 de fevereiro e foi a  Avenida Dr. Francisco Luís Gomes (na freguesia dos Olivais), a que se seguiu no Edital de  dia 17  a Avenida Dr. Mário Moutinho (Belém), e que se completou no Edital de 31 de março com a Rua Dr. José Baptista de Sousa (Benfica) e a Rua Dr. Nicolau de Bettencourt (Avenidas Novas).

A Avenida Dr. Francisco Luís Gomes foi atribuída com a legenda «Médico e Escritor/1829 – 1869» no arruamento que começa na Avenida de Berlim (junto à Piscina), no topo das Avenidas Infante Dom Henrique e Dr. Alfredo Bensaúde, para homenagear o cidadão que nasceu em 1829 na Índia e se licenciou em Medicina pela Escola de Goa (1850), tendo sido Cirurgião-mor  do exército português na Índia a partir de 1860, e ainda o autor de A Economia Rural da Índia Portuguesa, entre outras obras. Este topónimo é único no país.

Mário Moutinho

Mário Moutinho

A Avenida Dr. Mário Moutinho, nasceu com a legenda «Oftalmologista/1877-1961», para perpetuar o médico que dirigiu o serviço de Oftalmologia do Hospital Militar Principal de Lisboa a partir de 1909, e que nove anos depois foi seu subdiretor e mais tarde, diretor. Também este é um topónimo exclusivo de Lisboa.

No último dia do mês de março foram atribuídas a Rua Dr. José Baptista de Sousa/ Coronel Médico/1904 – 1967 na  Rua B à Travessa da Granja na freguesia de Benfica, bem como a Rua Dr. Nicolau de Bettencourt/ Brigadeiro-Médico/1900 – 1965 no troço da Estrada de Benfica compreendido entre o Largo de São Sebastião da Pedreira e o Largo então  vulgarmente conhecido como Praça de Espanha,  e as legendas destes dois topónimos expressam claramente a componente militar destes homenageados, sendo neste sentido os dois primeiros na toponímia de Lisboa em que a referência militar se liga à medicina.

A escolha do coronel-médico alfacinha  José Baptista de Sousa foi sugerida por um cidadão de seu nome Eduardo Mimoso Serra e a atribuição do nome de Nicolau de Bettencourt resultou de um pedido dos C.T.T. para que houvesse topónimo que evitasse equívocos na distribuição de correio naquela artéria.

José Baptista de Sousa

José Baptista de Sousa

Baptista de Sousa integrou as Forças Expedicionárias a Cabo Verde, e permaneceu em S. Vicente de 22 de fevereiro de 1942 até 10 de setembro de 1944, como diretor do Hospital Militar Principal de Cabo Verde, trabalhando também para os civis, o que lhe granjeou muitas simpatias locais e o epíteto de engenheiro humano. Ao contrário das orientações oficiais declarou a fome como causa de morte em diversos atestados de óbito, demonstrando coragem cívica. De 1947 a 1950, prestou serviço na Escola Médico-Cirúrgica de Goa. De 1951 a 1961 foi  Chefe da Clínica Cirúrgica do Hospital Militar Principal de Lisboa e a partir de 1964, foi  Consultor de Cirurgia da Direção do Serviço de Saúde Militar. O Dr. José Baptista de Sousa foi agraciado com o grau de oficial da Ordem de Avis e, em Mindelo (S. Vicente) o hospital passou a denominar-se Hospital Baptista de Sousa. Este topónimo é único no país.

Nicolau José Martins de Bettencourt concluiu o curso de Medicina em 1924 e, dois anos depois, também o curso de Medicina Tropical. Na sua carreira destacou-se como instrutor dos cursos de oficiais milicianos e dos enfermeiros militares das Escolas Centrais de Defesa do Território bem como Inspetor da Instrução do Serviço de Saúde Militar (1960 e 1961); dirigiu o Hospital Militar de Belém (1945 a 1949), o Hospital Militar Principal (a partir de 1957), os Serviços de Saúde Militar (a partir de  1962) e o Serviço de Saúde da Legião Portuguesa. Durante a presidência do general França Borges na Câmara Municipal de Lisboa, foi também vereador, no mandato de 1960 a 1963.  O seu nome integra também a toponímia da Marinha Grande.

Antes da Guerra Colonial apenas dois médicos militares tinham integrado a toponímia de Lisboa, a saber, a Rua Dr. Mascarenhas de Melo com a legenda «1868 – 1950», por Edital municipal de 24/07/1957, para homenagear um diretor do Hospital Militar da Estrela, e pelo Edital de 19/09/1960 foi a Praça Dr. Teixeira de Aragão com a legenda «Escritor-numismata/1823-1903» que perpetuou o diretor do gabinete de numismática e arqueologia do rei D. Luís I.

Após o 25 de Abril foram dois os médicos militares que tiveram a honra de serem topónimos alfacinhas: a  Escadaria José António Marques, com a legenda «Fundador da Cruz Vermelha Portuguesa/1822 – 1884», por via do Edital de 11 de fevereiro de 1985; e a Rua Dr. Bastos Gonçalves, com a legenda «Brigadeiro – Médico/1898 – 1985», pelo Edital de 21 de fevereiro de 2001, em memória daquele que dirigiu a Revista Portuguesa de Medicina Militar.

Nicolau de Bettencourt

Nicolau de Bettencourt

A Rua da primeira pediatra portuguesa, Drª Sara Benoliel

Freguesia do Parque das Nações (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Parque das Nações
(Foto: Sérgio Dias)

A primeira pediatra portuguesa, Sara Benoliel,  ficou perpetuada no Impasse 5 à Estrada de Moscavide, hoje na Freguesia do Parque das Nações, três meses após o seu falecimento através do Edital municipal de 26 de março de 1971, por despacho do Presidente da edilidade, então o Engº Santos e Castro, como Rua Drª Sara Benoliel, para homenagear a médica que numa época de grande mortalidade infantil se preocupou com a puericultura, esforçando-se por educar as mães e sensibilizar a sociedade geral para os cuidados a ter com uma criança, não a considerando um adulto em miniatura como era habitual na época.

dra-saraSara Barchilon Benoliel (Brasil-Manaus/1898 – 20.12.1970/Lisboa), filha de pais originários de Marrocos e formada na Faculdade de Medicina de Lisboa em 1925, doutorou-se com uma tese sobre a meningite tuberculosa (1926) e naturalizou-se portuguesa em 1928. Especializou-se em Pediatria e construiu uma carreira multifacetada no decorrer da qual criou uma creche no Hospital D. Estefânia (1924), organizou o Dispensário do Tribunal de Infância (1930) com cursos de puericultura gratuitos para mães e raparigas, criou o Auxílio Maternal do Pessoal Feminino – ou masculino com filhos a cargo – dos Hospitais Civis (1931), primeiro na Rua Senhora do Monte e depois, no Hospital dos Capuchos. Exerceu pediatria no Hospital D. Estefânia como assistente do Prof. Salazar de Sousa (1927-1935) – que introduziu em Portugal a especialidade de Pediatria -, bem como na consulta de latentes da Faculdade de Medicina de Lisboa (a partir de 1935), no Jardim Escola de João de Deus e na Beneficência de S. Mamede, no Dispensário Popular de Alcântara (1938-1942) e no Centro de Assistência Social à Infância (1943-1951), no Instituto Maternal (1951-1953) e como pediatra das Caixas de Previdência (a partir do final da década de cinquenta).

Dos seus trabalhos publicados destacam-se  Algumas Notas sobre a Assistência Maternal e Infantil no Estrangeiro (1927), Os Preconceitos em Puericultura e a Maneira de Combatê-los (1935)Subsídios para a História da Pediatria em Portugal (1938).

Sara Benoliel foi também uma das primeiras mulheres do seu tempo a conduzir um automóvel, o que causou algum escândalo, para além de ter sido ativista do Hehaber, Associação da Juventude Israelita criada em 1925 por jovens israelitas de Lisboa, com sede na Rua Alexandre Herculano, que teve um papel relevante durante a II Guerra Mundial, a apoiar refugiados de Hitler que procuraram asilo em Portugal e também integrou o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas.

Para além de Lisboa, Sara Benoliel dá nome a artérias de Fernão Ferro e Rio de Mouro.

Freguesia do Parque das Nações (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Parque das Nações
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

 

O Apolo 70 na Avenida do autor d’As Pupilas do Senhor Reitor

O cinema Apolo 70 na Avenida Júlio Dinis em 1977 (Foto: Vasques, Arquivo Municipal)

O cinema Estúdio Apolo 70 na Avenida Júlio Dinis em 1977
(Foto: Vasques, Arquivo Municipal)

A artéria do início do séc. XX – primeiro Rua e depois Avenida – que perpetua em Lisboa o escritor portuense Júlio Dinis, autor de As Pupilas do Senhor Reitor e criador do romance campesino, acolheu em 1971 o cinema Estúdio Apolo 70, no Drugstore do mesmo nome, simbolizando a sua modernidade com a colagem à chegada do homem à Lua no Programa Apollo, que na 5ª missão tripulada – Apollo 11 – conseguiu  realizar a primeira alunagem, no dia 20 de julho de 1969.

Júlio Dinis começou por ser topónimo lisboeta com a categoria de Rua, através da deliberação camarária de 4 de fevereiro de 1909, passando a Avenida dezasseis anos depois, pelo Edital municipal de 8 de junho de 1925, que também tornou Avenidas as Ruas António de Serpa, Barbosa du Bocage, Elias Garcia, João Crisóstomo e Visconde de Valmor.

 em 26 de maio de 1971 foi inaugurado no nº 10 A da Avenida Júlio Dinis o Drugstore Apolo 70, com o nome que se dava então na Europa aos centros comerciais. No dia seguinte, abriu nele uma sala de cinema com 300 lugares, o Estúdio Apolo 70, planificado pelo Arqº Augusto Silva e decorado por Paulo Guilherme. A programação estava a cargo de Lauro António (entre 1969 e 1985) que escolheu como filme de estreia O Vale do Fugitivo, de Abraham Polonsky, um western que era uma metáfora da guerra do Vietname. O cinema fechou em 1990 e o seu espaço foi ocupado por um restaurante.

Branco e Negro, 13 de setembro de 1896

Branco e Negro, 13 de setembro de 1896

Júlio Dinis é o pseudónimo do médico Joaquim Guilherme Gomes Coelho (Porto/14.11.1839-12.09.1871/Porto) mas que se notabilizou sobretudo pela escrita, considerado cultor da transição entre o romantismo e o realismo, através dos títulos As Pupilas do Senhor Reitor (1867), publicado no ano anterior em fascículos no Jornal do PortoUma Família Inglesa (1868), também publicado no ano anterior em fascículos no Jornal do Porto; A Morgadinha dos Canaviais (1868); as novelas Serões da Província (1870); Os Fidalgos da Casa Mourisca (1871). Postumamente, foram acrescentados à sua obra impressa os volumes Poesias (1873), Inéditos e Esparsos (1910) e Teatro Inédito (1946-1947). No decorrer do séc. XX  os seus romances foram diversas vezes adaptados ao cinema e mais tarde, também à televisão.

Formado em medicina na Escola Médica do Porto,em 27 de julho de 1861,  passou a maior parte da sua vida entre o Porto e Ovar, e por ter contraído tuberculose não chegou a exercer medicina e ocupou-se com a escrita, tendo também publicado textos literários em A Grinalda,  O Jornal do Comércio, Semana de Lisboa e Serões. Contudo, foi lente substituto no corpo docente da Escola Médica-Cirúrgica do Porto. Júlio Dinis também usou o pseudónimo de Diana de Aveleda, com que assinou pequenas narrativas ingénuas como Os Novelos da Tia Filomena e o Espólio do Senhor Cipriano (1862 e 1863), assim como  pequenas crónicas no Diário do Porto.

Júlio Dinis ainda foi duas vezes para a Madeira, considerada na época um lugar eficaz para a cura da tuberculose, mas acabou por falecer antes de completar 32 anos de idade, como antes acontecera a sua mãe e aos seus 8 irmãos.

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

A Rua Francisco Sanches do Pathé/Imperial

O Cinema Imperial em 1960 (Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Cinema Imperial em 1960
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

O médico e filósofo Francisco Sanches, considerado o maior filósofo português, desde 1893 que está perpetuado numa artéria de Lisboa onde em meados do anos 20 do séc. XX se ergueu o Cinema Pathé que em 1931 passará a designar-se Imperial.

A Rua Francisco Sanches nasceu ainda no séc. XIX, através do Edital municipal de 18/12/1893 na «rua que parte da Travessa do Caracol da Penha ou Nascente da Avenida dos Anjos e que deve vir a findar na antiga Estrada de Circunvalação». Já  na primeira metade dos anos 20 abriu no seu nº 154  o Pathé, um cinema de bairro, que foi modernizado  em 1931 e passou a denominar-se Imperial, com  732 lugares,  mas que encerrou portas em 1987.

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Nota portuguesa de 4 de outubro de 1979, com efígie de Francisco Sanches

Francisco Sanches (Valença?Braga?Tui?/1550  – 16.11.1622/Toulouse), filho de pais judeus mas batizado em Braga em 25 de julho de 1551, foi viver para Bordéus com os seus pais  cerca de 1565, onde frequentou o Colégio da Guiana e, a partir de 1569 estudou em Roma e noutras cidades italianas e acabou por licenciar-se em Medicina, na Faculdade de Montpellier, em 1574, seguindo a mesma profissão que seu pai. Radicou-se em Toulouse onde exerceu medicina e dirigiu o Hospital local, para além de ensinar filosofia e medicina na Universidade.

Como filósofo contestou Aristóteles e o pretenso saber da escolástica e tentou definir o seu próprio ideal de conhecimento, sendo o seu pensamento apresentado como precursor da crítica gnoseológica de Descartes e do experimentalismo de Francis Bacon. Ficou célebre pelo seu tratado Quod Nihil Scitur (1581) e o seu empenhamento na experiência e na observação pessoal que se pode constatar no seu livro Opera Medica (1636). São ainda obras suas Carmen de Cometa (1577), De divinatione per somnum, ad Aristotelem (1585), Tractatus Philosophici ( 1649).

Freguesia de Arroios (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Marcelino de Mesquita na 2ª fase do Bairro dos Aliados

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

O médico, dramaturgo e jornalista Marcelino de Mesquita  foi perpetuado numa artéria do Bairro dos Aliados na sua 2ª fase de atribuição de topónimos, através do Edital municipal de 31 de março de 1932.

Marcelino de Mesquita ficou na Rua nº 6 do Bairro dos Aliados, a ligar a Rua Egas Moniz à Rua Barão de Sabrosa, e o mesmo Edital fixou o nome do jornalista e escritor Alberto Pimentel (Rua nº 3) e do diretor da Real Fábrica das Sedas José Acúrcio das Neves (Rua nº 7).

Já antes, por uma deliberação camarária de 1925 que nunca teve Edital, o Jardim das Amoreiras passou a designar-se Jardim Marcelino Mesquita, já que o homenageado vivera e falecera na Rua das Amoreiras.

O Branco e Negro, 18 de março de 1899

O Branco e Negro, 18 de março de 1899

Marcelino António da Silva Mesquita (Cartaxo/01.09.1856 – 07.07.1919/Cartaxo) aos 15 anos morava num quarto na Rua da Rosa e estudou na Escola Académica, na Politécnica e tendo morado também num hotel do Largo de São Paulo acabou por se formar em Medicina em 1885 na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa mas apesar de ter publicado um livro de poemas intitulado Meridionais (1882) sempre dedicou particular atenção foi ao teatro, tendo começado com a comédia em cinco actos Pérola – Episódio da vida académica (1885), que  por ter a prostituição e  a boémia como tema provocou escândalo, a que se seguiram O Senhor Barão (1887) e  o drama histórico Leonor Teles (1889), que foi o seu primeiro êxito, e posteriormente transformou num romance histórico, sendo ainda de destacar A Noite do Calvário (1903) impedida pela comissão de censura de subir a palco, Margarida do Monte (1910) prefaciado por Teófilo Braga e os inúmeros êxitos de crítica e de público que conseguiu, quer em Portugal quer no Brasil.

Em 1886, ano do seu 1º casamento, fixou-se no Cartaxo onde exerceu clínica e comprou a tipografia Cartaxense e o jornal O Povo do Cartaxo, mudando-lhe o nome para O Cronista, vendendo tudo dois anos depois para vir residir em Lisboa, para a Rua das Amoreiras nº 198, e nesta cidade fundou e dirigiu o jornal satírico A Comédia Portuguesa (1888) e o diário Portugal (1891), bem como foi o diretor literário da Parodia: comedia portugueza (1903- 1907), que em 1903 se fundiu  com a A Paródia (1900-1902) de Rafael Bordalo Pinheiro, para além de ter colaborado em Ribaltas e Gambiarras, Jornal do Domingo, O Branco e Negro, A Imprensa, Serões, Revista do Conservatório Real de Lisboa e Revista de turismo.

Da sua participação política recorde-se que foi deputado do Partido Regenerador pelo Círculo da Guarda (1890 a 1892), participou no movimento do opositor ao Ultimatum de 1890, recusou a condecoração proposta pelo rei D. Carlos (1899) informando ser republicano, ministrou um curso de Ciências Naturais no Centro Escolar Republicano do Cartaxo (1907) e em em 1918, integrou  a embaixada de intelectuais enviada por Portugal ao Brasil.

Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua de Fialho, autor de Os Gatos e do Arroz de Perdizes

Freguesia das Avenidas Novas (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias)

O escritor Fialho de Almeida enviou para o Cozinheiro dos Cozinheiros (1870) de Paulo Plantier  a sua receita de Arroz de perdizes e como Bulhão Pato, costumava frequentar o retiro da hortas da Quinta da Rabicha, assim como a exemplo de Ramalho Ortigão ou Almeida Garrett frequentava em Belém o António das Caldeiradas, antiga casa de pasto que até registou no seu Os Gatos.

 Já na toponímia alfacinha Fialho de Almeida entrou 21 anos após os seu falecimento,  numa Rua das Avenidas Novas, que pelo Edital municipal de 12/03/1932 que passou a ser o topónimo da Rua E do projeto aprovado em sessão da Câmara Municipal de Lisboa de 15/05/1930, ficando na Rua D o escritor Ramalho Ortigão ( que também enviou receitas para a obra de Paulo Plantier), na Avenida B a nobelizada Madame Curie, na Rua A o Mestre de Armas António Martins, e nas Rua F e G, os políticos António Granjo e Basílio Teles.

Busto de Fialho de Almeida na Biblioteca Nacional (Foto: Armando Serôdio, 1956 Arquivo Municipal de Lisboa)

Busto de Fialho de Almeida na Biblioteca Nacional
(Foto: Armando Serôdio, 1956 Arquivo Municipal de Lisboa)

José Valentim Fialho de Almeida (Vidigueira – Vila de Frades/07.05.1857 -04.03.1911/Cuba) veio aos 9 anos para Lisboa, para estudar no Colégio Europeu (entre 1866 e 1871), que abandonou aos quinze por dificuldades económicas e foi trabalhar como ajudante numa farmácia de Lisboa. Contudo, conseguiu mais tarde concluir o curso de medicina que acabou por não exercer para se dedicar quase exclusivamente à escrita.

Em Lisboa, frequentou cafés e tertúlias onde conviveu com a intelectualidade da época e estabeleceu a sua casa na Rua Senhora do Monte até aos 36 anos (1893) se casar com Emília Pego, natural de Cuba, e se instalar naquela vila, onde passou a tratar das propriedades agrícolas recebidas pelo matrimónio, mesmo após enviuvar cerca de um ano depois.

A sua obra literária, de ficção e crónicas que vão da crítica de arte à de costumes, publicadas nos jornais e revistas da época, em Portugal e no Brasil, serão depois coligidas em livros como Os Gatos (textos redigidos entre 1889 e 1894), Pasquinadas (1890), Lisboa Galante (1890), Vida Irónica (1892) ou O País das Uvas (1893). Colaborou na imprensa periódica, como nos jornais humorísticos Pontos nos ii  e A Comédia Portuguesa,  nas revistas Renascença, A Mulher, Ribaltas e Gambiarras, Branco e Negro, Brasil-Portugal ou Serões. Rebelde e marginal, Fialho utilizou por vezes o pseudónimo «Valentim Demónio» que lhe permitiu criticar tudo o que na sociedade merecia a sua reprovação, fosse da monarquia em que viveu a maior parte da sua vida, fosse da recente república, como o fez na revista literária A Crónica, por ele fundada e dirigida, em 1880.

A Câmara Municipal de Lisboa fez em 1957 uma Exposição comemorativa do centenário do seu nascimento e o Jardim da Praça das Flores também é conhecido como Jardim Fialho de Almeida, por via de uma deliberação camarária de 1925 que não terá tido Edital mas a população não enraizou a denominação.

Finalmente, para quem quiser experimentar aqui fica o Arroz de Perdizes do Fialho:

«Primeira operação. – Ferver duas perdizes bem limpas, em agua, com algumas tiras de presunto e linguiça magra, fresca podendo ser, e não rançosa. A trecho de meia cozedura, tirar para um prato as perdizes, e acessórios, ficando na panela o caldo posto em sossego, como nos Lusíadas, a linda Inês.

Segunda operação. – Em caçarola lavada, pôr a refogar à parte, e a fogo brando, em três colheres de manteiga de vaca, três dentes de alho, pimenta, salsa picada, cravo da Índia e, loiro – o loiro em mui exígua quantidade. Quando a manteiga tiver já feito estes temperos, sem lhes consumir porém o perfume, juntar tomates bastantes (uns cinco ou seis, dos grandes, cortados em bocados, e completamente limpos da buxada interior), e duas ou três cebolinhas de Lisboa, descascadas, bem limpas, e aos bocados.          Refogar tudo, até ficar n’um todo uniforme, e em termos que no paladar predomine um ligeiro queimor de pimenta. Ao refogado juntareis então uma massa picada feita com os bocados de presunto e linguiça da primeira operação, e bem assim os miúdos das perdizes, ou quaisquer outras de aves e caça que se possam obter das outras olhas do jantar Nova fervura, e incorporar aos poucos, dois decilitros de vinho tinto (velho, e até generoso, quem quiser), e todo o caldo de fervura da chamada primeira operação.          Apura-se tudo isto a fogo brando, sem deixar de ir provando sempre, até que o paladar de cozinheiro confirme e reconheça a permanência e boa altura dos aromas e mais riquezas sapidas do molho.         Por fim, junta-se no molho, arroz em quantidade, que se vai cozendo a fogo lento, mexendo constantemente, porque se não toste e pegue ao fundo da caçarola. Quando está pronto, ajuntem as perdizes, cortadas em bocados certos e bonitos, e que se farão embeber completamente dos perfumes do guisado, metendo por fim a caçarola no forno do fogão, com ramos de salsa por cima, para tostar e aloirar a crosta do arroz, que deve-se servir quente e a pouco trecho de tirado.»

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

As Avenidas dedicadas a António José de Almeida

António José de Almeida e o marechal Joffre durante a homenagem aos soldados mortos na Grande Guerra 1921 sa

António José de Almeida e o marechal Joffre em 1921, durante a homenagem aos soldados mortos na Grande Guerra (Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

António José de Almeida era Chefe de Governo quando Portugal entrou na I Grande Guerra e Presidente da República no ano em que foi assinada a paz em Versailles sendo homenageado na toponímia alfacinha no mesmo ano em que faleceu, naquela que hoje conhecemos como Avenida Guerra Junqueiro, embora decorridos quatro anos tenha passado para o local onde hoje encontramos a Avenida de António José de Almeida.

Cerca de quinze dias após o falecimento de António José de Almeida decidiu a edilidade, pela deliberação camarária de 07/11/1929 e o edital de 12/11/1929 que a  a Avenida 12 do Novo Bairro no seguimento da Avenida Almirante Reis (hoje, Avenida Guerra Junqueiro) se denominasse Avenida Dr. António José de Almeida. Mas em 1933, pela deliberação camarária de 13 e edital de 18 de julho passou a Avenida António José de Almeida a ser no prolongamento da Avenida Miguel Bombarda, entre a Avenida dos Defensores de Chaves e a Avenida de Manuel da Maia, onde ainda hoje a encontramos, sendo ao mesmo tempo Guerra Junqueiro colocado no arruamento que antes levava o nome do antigo Presidente da República. Acresce que conforme um parecer da Comissão de Toponímia na sua reunião de 13/04/1951, homologado pelo Vice-presidente da edilidade, foi acrescentada a partícula «de», sendo desde então Avenida de António José de Almeida.

Freguesias das Avenidas Novas e do Areeiro - Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias das Avenidas Novas e do Areeiro – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

António José de Almeida defendeu a participação de Portugal na Guerra logo em 1914, caso a Inglaterra o desejasse, posição sintetizada na frase «Vamos até onde for preciso, mas sendo preciso!». Foi Chefe do Governo da União Sagrada e Ministro das Colónias (1916-1917) e depois, como Presidente da República (1919-1923) – o único da I República a cumprir integralmente o seu mandato -, participou com o marechal Joffre na homenagem aos soldados mortos na Grande Guerra em 1921 e deu andamento à transladação dos restos mortais dos soldados portugueses mortos na Flandres.

Monumento a António José de Almeida, na Avenida do mesmo nome, em 1937 (Foto: Fernando Martinez Pozal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Monumento a António José de Almeida, na Avenida do mesmo nome, em 1937
(Foto: Fernando Martinez Pozal, Arquivo Municipal de Lisboa)

António José de Almeida (Penacova – Vale da Vinha/27.07.1866 – 31.10.1929/Lisboa), formado em Medicina pela Universidade de Coimbra (1895) aderiu logo nessa época ao Partido Republicano e em 23 de março de 1890 publicou na folha académica Ultimatum o artigo «Bragança, o último», que lhe custou a pena de três meses de prisão. Exerceu medicina em Angola e depois, em São Tomé e Príncipe até 1903, após o que estagiou em Paris e regressou a Lisboa onde abriu o seu primeiro consultório, na Baixa, primeiro na Rua Áurea, que depois transferiu para Largo do Camões nº 6 – 1º (hoje, Praça Dom João da Câmara), onde ganhou fama de médico dos pobres.

Contudo, a sua carreira política foi a que  mais importância ganhou na sua vida. Foi eleito deputado pelo círculo oriental de Lisboa (1906) e integrou a Maçonaria (1907) ainda antes da proclamação da República, tendo depois exercido as funções de Ministro do Interior do Governo Provisório (1910-1911), formado o Partido Republicano Evolucionista (24 de fevereiro de 1912), sido Chefe do Governo da chamada «União Sagrada» e Ministro das Colónias (1916-1917) e ainda Presidente da República (1919-1923), sendo de destacar o seu papel na reforma do ensino superior, sobretudo no estudo da medicina  e  na criação das Universidades de Lisboa e do Porto, bem como a sua visita ao Brasil em setembro de 1922 por ocasião do Centenário da sua independência de que Luís Derouet fez reportagem: Duas Pátrias – O que foi a visita do Sr. Dr. António José de Almeida ao Brasil.

António José de Almeida ainda colaborou em vários periódicos e fundou a revista Alma Nacional (1909) e o diário República (1911). Foi também ele que proferiu um discurso no funeral de Rafael Bordalo Pinheiro (1905), e postumamente, em 1934, foram coligidos os seus principais artigos e discursos e publicados em 3 volumes sob o título Quarenta anos de vida literária e política. Três anos mais tarde,  em 31 de dezembro de 1937, foi inaugurada uma estátua a homenageá-lo, da autoria do escultor Leopoldo de Almeida e do arquiteto Pardal Monteiro, na Avenida com o seu nome.

Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas e do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Avenida do oftalmologista Mário Moutinho

Freguesias de Belém e Ajuda (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias de Belém e da Ajuda
(Foto: Sérgio Dias)

O médico oftalmologista Mário Moutinho que integrou o CEP – Corpo Expedicionário Português em França, em 1917 e 1918, sendo por isso condecorado com a medalha de Bons Serviços em Campanha, dá nome a uma Avenida do Restelo que era Rua CD à Avenida das Descobertas, desde a publicação do Edital municipal de 17/02/1970, artéria onde se encontra o Centro Infantil Helen Keller que ele fundou. Dezassete anos depois, o arruamento construído no prolongamento da Avenida Dr. Mário Moutinho foi denominado Avenida Helen Keller, através do edital de 07/09/1987.

Mário Moutinho

Mário Moutinho (Angra do Heroísmo/28.05.1877 – 18.01.1961/ Lisboa) que foi aluno do Colégio Militar de 1888 a 1894, formou-se como médico-cirurgião na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa e ainda completou o curso de Oftalmologia do Prof. Gama Pinto. Este médico militar oftalmologista  integrou o Corpo Expedicionário Português em França em 1917 e 1918,  onde desempenhou o cargo de Chefe dos Serviços de Oftalmologia e por isso foi condecorado com a medalha de Bons Serviços em Campanha. O Tenente Coronel Médico Mário Moutinho havia fundado em 1905 a clínica oftalmológica no Hospital Militar Principal de Lisboa, no Largo da Estrela, serviço que dirigiu a partir de 1909. A partir de 1918 foi mesmo subdiretor e depois diretor deste Hospital pelo que teve de abandonar a Clínica Oftalmológica Militar e assim resolveu fundar uma nova clínica no Asilo-Escola de Cegos A. F. de Castilho (1935) e a Liga Portuguesa de Profilaxia da Cegueira (1936), a que presidiu, e a partir da qual desenvolveu o seu plano de criar uma clínica de reeducação de diminuídos visuais em Portugal, o que veio a concretizar em 1955, com o seu filho, o também oftalmologista Dr. Henrique Moutinho ( existe a Rua Henrique Moutinho na freguesia de Belém desde a publicação do Edital de 03/07/2008), o psiquiatra Dr. João dos Santos  e a pedagoga Drª Maria Amália Borges, que a partir do ano seguinte teve o nome de Centro Infantil Helen Keller, sediado no nº 20 desta que viria a ser a Avenida Dr. Mário Moutinho. Quando em março de 1956 Helen Keller veio a Portugal a convite da LPPC, passou a designar-se Centro Infantil Helen Keller.

Mário Moutinho foi agraciado com a Ordem de Sant’iago da Espada (1928) e as comendas de Avis (1928) e de Mérito (1932).

Freguesia de Belém (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias de Belém e Ajuda
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do médico Ladislau Patrício da Assistência aos Militares Tuberculosos

Freguesia do Lumiar (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

O médico Ladislau Patrício foi nomeado vogal da Comissão Central de Assistência aos Militares Tuberculosos durante a I Guerra Mundial e dirigiu o Sanatório Militar de São Fiel, em Louriçal do Campo (Castelo Branco), entre 1917 e 1919, onde coordenou o tratamento dos militares do Corpo Expedicionário Português que voltavam tuberculosos. Desta experiência publicou um testemunho intitulado A assistência em Portugal aos feridos da guerra por tuberculose no ano de 1920.

Dezoito anos após o seu falecimento e a partir de uma sugestão do seu filho João Patrício, foi o nome de Ladislau Patrício inserido na toponímia de Lisboa, por Edital de 21/10/1985, no arruamento Z1 ou Rua 1 da Célula E do plano de Pormenor da Zona Central da Unor – 32, ao Lumiar, entre a Alameda das Linhas de Torres e a Rua Silva Tavares, que colocou também nas proximidades a Praça Bernardino Machado.

rua ladislau livroLadislau Fernando Patrício (Guarda/07.12.1883 – 25.12.1967/Lisboa) foi médico, professor, escritor e republicano. Licenciado em Medicina pela Universidade de Coimbra, em 1908, iniciou o seu desempenho profissional no ano seguinte como médico municipal em Loulé e depois, regressou à Guarda onde, além de exercer medicina foi professor de Ciências Naturais e de Matemática no Liceu da Guarda. Com o seu cunhado Augusto Gil envolveu-se na defesa da República e em 1911 foi eleito Presidente da Comissão Municipal Republicana do Concelho da Guarda. Após dirigir o Sanatório Militar de São Fiel tornou-se médico assistente do Sanatório Sousa Martins em 1922, e mais tarde, em 1934, foi nomeado seu diretor, tendo exercido o cargo até 1953, período em que publicou O Bacilo de Koch e o Homem (1940). Em 1949 foi nomeado médico municipal, subdelegado de saúde do concelho da Guarda e vogal do conselho geral da Ordem dos Médicos, para além de ao longo da sua carreira ter colaborado com jornais diários e imprensa médica.

Paralelamente, desde cedo escreveu poesia, teatro e contos de que se destaca Aquela família (1914), uma crónica sobre a implantação da República em Moimenta da Beira, bem como O mundo das pequenas coisas (1927), Augusto Gil: notas sôbre a sua vida, a sua doença e a sua morte; o seu espólio literário (1942) e a peça A doente do Quarto 23 (1950). A partir de finais da década de quarenta do século XX, foi também um notável impulsionador da radiodifusão e terá sido o autor do primeiro regulamento da Rádio Altitude (1947), que funcionava no Sanatório Sousa Martins e na qual colaborou regularmente.

Freguesia do Lumiar (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias)