A Rua do autor da letra d’A Casa da Mariquinhas e d’A minha casinha

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Silva Tavares, o autor da letra do fado A Casa da Mariquinhas primeiro consagrado na voz de Alfredo Marceneiro – bem como da canção A minha casinha – para Milú no filme Costa do Castelo –, com a legenda «Poeta/1893 – 1964» deu  nome a uma Rua da freguesia do Lumiar, em 1972, oito anos após o falecimento do poeta.

Foi por sugestão do Presidente da CML de então, Engº Santos e Castro, que o nome de Silva Tavares foi consagrado na toponímia de Lisboa, unindo numa única artéria da Urbanização da Tóbis Portuguesa a Rua B com o troço da Rua A que lhe ficava paralelo,  pelo Edital municipal de 1 de fevereiro de 1972. Dezasseis anos mais tarde, pelo Edital de 29 de fevereiro de 1988, também a Rua II à Rua Silva Tavares foi incorporada neste arruamento, estendendo-se desde aí da Alameda das Linhas de Torres à Rua Ladislau Patrício.

João da Silva Tavares (Estremoz/27.06.1893 – 03.06.1964/Lisboa) trabalhou na Emissora Nacional, na Repartição dos Serviços de Produção, como chefe da Secção de Coordenação de Programas, de 1934 a 1963. Em paralelo, desenvolveu a sua faceta de dramaturgo e poeta, aquela que o ligou mais estreitamente ao fado, produzindo letras para Alfredo Marceneiro, como A Casa da Mariquinhas ou o Fado da Balada, assim como para Amália Rodrigues, sendo neste caso de salientar o Sabe-se lá ou o Que Deus me perdoe – ambos com música de Frederico Valério -, bem como  Fado de Cada Um (para o filme Fado de 1948) ou Céu da Minha RuaNa canção ligeira Silva Tavares também colaborou com diversos maestros como Tavares Belo, sendo mais famosa a sua parceria com António Melo, da qual nasceu a letra de 6 estrofes para Milú cantar no filme O Costa do Castelo (1943), intitulada A minha casinha que mereceu uma versão dos Xutos & Pontapés, a partir da década de oitenta do século passado, que a começaram a cantar como último tema dos seus concertos e que foi aquela que a Seleção Nacional de Futebol entoou após vencer o Euro 2016.

Silva Tavares começou a publicar poesia aos 18 anos, com a obra  Nuvens, corria então o ano de 1911, e a este livro seguiram-se Luz Poeirenta (1916), Poemas do Olimpo (1917), Claustro (1918), Gente Humilde (1934) e Viagem à Minha Infância (1950). Escreveu ainda  cerca de 90 peças de teatro de vários géneros, desde a ópera à farsa, passando muito pela revista, sendo de destacar a autoria do libreto da ópera D. João IV, para música de Rui Coelho, estreada em 1940, bem como o seu Vasco da Gama (1922) em verso e o Auto da Fundação das Caldas da Rainha (1935). Com  Virgínia Vitorino e Adolfo Simões Muller foi ainda em 1940  membro do Júri de Quadras do XII Concurso de Quadras de São João, promovido pelo Jornal de Notícias.

 

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A Rua Maestro Raúl Ferrão da popular tendinha

Freguesia de Benfica
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Raúl Ferrão, o compositor da lisboeta A tendinha celebrizada por Hermínia ou Amália, está perpetuado numa Rua do Bairro de Santa Cruz de Benfica, desde 1969 e dezasseis anos após a morte do maestro.

A sugestão de topónimo partiu do próprio Presidente da CML de então, António Vitorino França Borges, tendo o  Edital municipal de 10 de abril de 1969 atribuído a Rua Maestro Raúl Ferrão à Rua 6 do Bairro de Santa Cruz. O mesmo Edital também deu topónimo às restantes ruas do Bairro de Santa Cruz, correspondendo à solicitação da Junta de Freguesia de Benfica já feita em 25 de março de 1966, tendo sido escolhidos para o efeito o nome de 2 militares, 4 atores, 7 jornalistas e escritores, um escultor, um médico e um benemérito, a saber: a Rua Comandante Augusto Cardoso, a Rua Coronel Campos Gonzaga, a Rua Actor Alves da Cunha, a Rua Actor Estêvão Amarante, a Rua Actor Nascimento Fernandes, a Rua Actor Vasco Santana, a Rua Alfredo Pimenta, a Rua Dr. Cunha Seixas, a Rua Eduardo Schwalbach, a Rua Helena de Aragão, a Rua Irene Lisboa, a Rua Jaime Brasil, a Rua Moreira de Almeida, a Rua Júlio Vaz Júnior, a Rua Dr. José Alberto de Faria e a Rua Albino Sousa Cruz.

Raul Ferrão (Lisboa/25.10.1890 – 30.04.1953/Lisboa) era um oficial de artilharia que em paralelo desenvolveu uma carreira de compositor e maestro de música ligeira produzindo para centenas de revistas, operetas, marchas populares e até para alguns filmes como a Canção de Lisboa (1933), a Maria Papoila (1937), Aldeia da Roupa Branca e Varanda dos Rouxinóis (ambos de 1939). Os seus dois temas mais populares foram o fado «A Tendinha» e a canção «Coimbra» (também conhecida como «Avril au Portugal»), que ainda hoje nos assomam à memória. Todavia, também foram êxitos na época inúmeros fados ou canções da sua autoria como «Adeus», «O Balãozinho»«Campino», «Canção de Alcântara», «Carta de um Soldado», «O Cochicho»«Fado das Caldas», «Fado do Marinheiro», «Fado da Melancia», «Lá vai Lisboa»«Lisboa não sejas francesa»«Madragoa», «Maldito Fado», «Maria Severa», «Não Gosto de Ti», «Rosa Enjeitada», «Só à noitinha»ou «Velho Friagem» .  Somou também as vozes de Alberto Ribeiro, Amália, Beatriz Costa, Carlos Ramos, Fernando Farinha, Hermínia, José Pracana, Júlia Barroso, Lucília do Carmo, Maria Clara, Maria da Fé, Maria Teresa de Noronha, Max, Nuno da Câmara Pereira ou Vicente da Câmara, como intérpretes das suas composições.

Raúl Ferrão foi um militar de carreira que frequentou o Colégio Militar e alcançou o posto de tenente-coronel do Exército, tendo sido ainda professor na Escola de Guerra (1917 e 1918), depois de ter cumprido comissões de serviço em África durante a I Guerra Mundial. Foi agraciado com a Comenda da Ordem de Mérito Industrial (1932) e a Comenda da Ordem Militar de Avis (1935), assim como recebeu em 1945/1946 o Prémio Filipe Duarte do SNI  por «Menina Lisboa» da opereta A Invasão (juntamente com José Galhardo e Mirita Casimiro) e em 1946/1947, o Prémio Del Negro por «Trapeiras de Lisboa» incluída na revista Canções Unidas, para além de em Coimbra existir uma Rua Raúl Ferrão.

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua Maestro Frederico de Freitas, autor do fado Rua do Capelão

Freguesia de São Domingos de Benfica                                             (Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Maestro Frederico de Freitas, autor das partituras dos filmes A Severa (1931) e Fado (1948), passou a ser o topónimo de uma Rua de São Domingos de Benfica três anos após o seu falecimento, sendo o 1º filme sonoro português sobre a 1ª fadista que o tornou popular e nele pontuou o seu fado Rua do Capelão, ainda hoje uma memória muito presente no imaginário português.

A Rua Maestro Frederico de Freitas, que une a Rua Cidade de Rabat  à Rua Augusto Pina, foi atribuída pelo Edital municipal de 11 de novembro de 1983 na Rua 2 (entre a Rua Augusto Pina e a Rua dos Soeiros), também identificada como Prolongamento da Rua Augusto Pina, artéria onde desde 1972 estava sediada a então Escola Preparatória Prof. Delfim Santos, a partir de uma solicitação da Sociedade Portuguesa de Autores, que além do nome de Frederico de Freitas propôs os escritores Pedro Bandeira e José Galhardo, assim como o ator Paulo Renato, tendo sido todos incluídos no mesmo Edital.

Frederico Guedes de Freitas (Lisboa/15.11.1902- 12.01.1980/Lisboa) notabilizou-se como compositor, maestro, pedagogo, musicólogo e crítico musical. Revelou-se um músico abrangente e eclético, do fado à música erudita. Somou música erudita, como por exemplo, Concerto para Flauta,  Hino Asas AtlânticasMissa SoleneQuarteto ConcertanteRibatejo  ou Suite Medieval, com música produzida para cinema, teatro ou dança. Adicionou ao património musical português tanto música de câmara como Quinteto de sopros ou Dez Canções Galegas como música sinfónica ( A Lenda dos BailarinosSuite Africana ou Sinfonia Os Jerónimos ), música para comédias, óperas, operetas, revistas (1927 – 1937) e até filmes como Pátio das Cantigas ou As Pupilas do Senhor Reitor (de Leitão de Barros como A Severa), de 1930 e até 1947, fazendo música tanto destinada ao público do Parque Mayer como ao do Teatro Nacional de São Carlos.

Funcionário da  Emissora Nacional entre 1935 e 1975, como Segundo Maestro da Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional,  tanto colaborou em 1940 nas comemorações da celebração do Estado Novo  como esteve na fundação da Sociedade Coral de Lisboa (1940-1949) para apresentação de obras do repertório coral sinfónico. Depois, na Orquestra Sinfónica do Conservatório de Música do Porto (1949-1953), dirigiu as primeiras audições no Porto de obras de Fernando Lopes Graça, um resistente musical durante o Estado Novo. Acresce que Frederico de Freitas foi o compositor português de música sacra mais destacado do século XX, autor de As Sete Palavras de Nossa Senhora, tal como foi o responsável por orquestrar A Portuguesa e Grândola Vila Morena. A sua versatilidade revela-se no índice do seu catálogo musical que junta Bailado, Música de Câmara, Música para Cinema, Música Coral, Harmonizações, Hinos, Música para Instrumento Solista, Música de Cena, Ópera, Opereta, Música Sinfónica, Orquestrações, Música de Teatro de Revista, Vaudeville, Voz e Piano. Registe-se ainda que Frederico de Freitas também exerceu  funções de chefe de orquestra no Brasil, na Bélgica, em Espanha, França, Holanda, Itália e Suíça.

Frederico de Freitas  foi  ainda docente de Canto Coral, a partir de 1924, no Liceu Camões (onde fora aluno em 1913 e 1914) e no Liceu Gil Vicente, assim como desde  1967, ensinou Composição, Contraponto e Fuga no Centro de Estudos Gregorianos de Lisboa. Na dança, também trabalhou como diretor musical e compositor na Companhia de Portuguesa de Bailado Verde Gaio fundada pelo Secretariado de Propaganda Nacional/SPN (1940 – 1950), assim como compôs música para dança para o seu amigo de juventude e coreógrafo Francis Graça durante a década de 1940. Somou ainda a direção musical da delegação portuguesa da His Master’s Voice na transição para a década de 1930 e a função de crítico musical no jornal Novidades, sendo ainda autor de vários estudos como «O fado, canção da cidade de Lisboa» ou «O fado veio do Brasil».

Refira-se que Frederico havia iniciado os seus estudos de música com a sua mãe, a pianista Elvira Cândida Guedes de Freitas e a partir de 1915 no Conservatório Nacional em Lisboa. Morou na Rua do Prior Coutinho, entre a Rua de Santa Marta e a Rua do Passadiço. Em 1918, aos 16 anos, compôs as suas primeiras obras – Duas Ave Marias –, cuja primeira audição pública ocorreu em 1922.  Concluiu o curso de Composição no Conservatório Nacional em 1925, e foi seleccionado para Pensionista do Estado no estrangeiro nesse mesmo ano, o que lhe possibilitou a realização de viagens a vários países europeus em 1927 e 1928.

Foi um dos mais empenhados membros da Sociedade Portuguesa de Autores, em cuja fundação participou quando tinha 23 anos (era então denominada Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses) e da qual foi mais tarde Presidente de Honra. Frederico de Freitas foi também agraciado, por ordem cronológica, com  Prémio da CML para a Sonata Violino e Violoncelo (1924), o Prémio Nacional de Composição Carlos Seixas (1926), o Prémio de Composição Domingos Bomtempo ( 1935), a Comenda de Santiago de Espada (1967), o seu nome dado ao Auditório da SPA (1981).

Em 2010,  o espólio do compositor Frederico de Freitas foi doado à Universidade de Aveiro pela filha do compositor, Elvira de Freitas, tendo dois anos depois sido também instituído o Prémio de Interpretação Frederico de Freitas/Universidade de Aveiro.

Freguesia de São Domingos de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua Leitão de Barros, do realizador da Severa e criador das Marchas Populares

Leitão de Barros, o realizador de A Severa o primeiro filme sonoro português, exibido em 1931 – e  criador das Marchas Populares de Lisboa em 1932, conhecido como o homem dos sete instrumentos, teve o seu nome perpetuado numa Rua de São Domingos de Benfica, pelo Edital municipal de 4 de novembro de 1970, três anos após o seu falecimento.

A Rua Leitão de Barros resultou de uma sugestão do próprio Presidente da edilidade de então, Engº Santos e Castro,  e ficou no 1º Impasse à Rua Padre Francisco Álvares e pelo mesmo Edital municipal o 2º Impasse ficou para a Rua Raquel Roque Gameiro, cunhada de Leitão de Barros e igualmente ilustradora como Helena Roque Gameiro.

José Júlio Marques Leitão de Barros (Lisboa/22.10.1896 – 29.06.1967/Lisboa), homem dos sete ofícios, foi professor do ensino secundário, pintor, cenógrafo, dramaturgo e ainda, jornalista e cineasta (as duas áreas pelas quais ganhou mais fama), bem como aquilo que hoje designaríamos como produtor de eventos.

Foi o pioneiro da primeira geração de cineastas do sonoro, sendo seu o primeiro filme sonoro português, A Severa, em 1931, a partir do romance de Júlio Dantas. Leitão de Barros começou em 1918 como cineasta com Malmequer e Mal de Espanha, distinguindo-se depois pelas suas super produções históricas como Bocage (1936), Inês de Castro (1945) ou Camões (1946), para além de Maria do Mar (1930), Lisboa, Crónica Anedótica (1930), As Pupilas do Senhor Reitor (1935),  Maria  Papoila (1937), Ala Arriba! (1942) ou Vendaval Maravilhoso (1949), no qual Amália Rodrigues integrou o elenco.  No documentário, salientam-se os seus Sidónio Pais – Proclamação do Presidente da República (1918), Nazaré (1927),  Legião Portuguesa (1937), Mocidade Portuguesa (1937), A Pesca do Atum (1939), Comemorações Henriquinas (1960), A Ponte da Arrábida Sobre o Rio Douro (1961) ou A Ponte Salazar sobre o Rio Tejo em Portugal (1966).  Leitão de Barros foi também o principal animador da construção dos estúdios da Tobis Portuguesa, na Quinta das Conchas, no Lumiar.

Leitão de Barros frequentou a Faculdade de Ciências e a de Letras mas  acabou por concluir o curso de arquitetura na  Escola de Belas Artes de Lisboa e o curso da Escola Normal Superior de Lisboa, após o que   foi professor de Desenho, Geometria Descritiva e Matemática nos liceus Camões e Passos Manuel. Casou em 17 de agosto de 1923 com a ilustradora Helena Roque Gameiro (1895 – 1986), a 2ª filha de Alfredo Roque Gameiro.

Em 1916 iniciou-se no jornalismo. Fundou e dirigiu O Domingo Ilustrado (1925-1927) e O Notícias Ilustrado (1928-1935). Colaborou nos jornais O Século – onde criou O Século Ilustrado e a Feira Popular de Lisboa, em 1943 -,   A Capital,  ABC, assim como na revista Contemporânea e na de cinema Movimento, tendo sido o Diário de Notícias a sua última tribuna, de 1953 a 1967, onde saía aos domingos a sua crónica semanal «Os Corvos».

Nas décadas de trinta e quarenta, Leitão de Barros investiu em eventos de animação da cidade. Começou as Marchas Populares em 1932, no Capitólio, para revitalizar o Parque Mayer, sendo que em 1934 já foram cerca de 300 mil pessoas que assistiram ao desfile da Praça do Comércio ao Parque Eduardo VII. Depois, foram os monumentais cortejos como o Cortejo das Viaturas (1934), os Cortejos das Festas da Cidade (em 1934 e 1935), o da Embaixada do século XVIII (1936),  o Cortejo e o Torneio Medieval dos Jerónimos (1938) e o Cortejo Histórico de Lisboa (1947).  Em 1939 e 1940, foi o Secretário Geral da Exposição do Mundo Português e o  responsável pela Nau Portugal.  Foi agraciado com a comenda da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada em 1935 e com o Grande- Oficialato da Ordem Militar de Cristo em 1941. Também foi o organizador das receções triunfais a Franco (1949) e à Rainha Isabel II (1957).

Como pintor, dispunha de  ateliê na Rua D. Pedro V e expôs em museus portugueses, no Museu de Arte Contemporânea de Madrid e ainda, no Brasil. Foi também cenógrafo e dramaturgo de muitas peças que subiram à cena em Lisboa, nomeadamente no Teatro Nacional, para além de ter sido diretor da Sociedade Nacional de Belas-Artes.

Freguesia de São Domingos de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

Sete novos topónimos na freguesia do Lumiar

Pelo Edital nº 38/2017, de 17/03/2017,  foram atribuídos sete novos topónimos na freguesia do Lumiar:  Largo Gérard Castello-Lopes, Rua Irisalva Moita, Rua Isabel Magalhães Colaço, Rua Joaquim Rodrigo, Largo Michel’Angelo Lambertini, Rua Padre Manuel Antunes e Rua Pedro Bandeira Freire.

A Rua Flores do Lima nascida a 7 de julho e o Quarteto das 4 salas e 4 filmes

O cinema Quarteto, na Rua Flores do Lima, em 1977 (Foto: Vasques, Arquivo Municipal de Lisboa9

O cinema Quarteto, na Rua Flores do Lima, em 1977
(Foto: Vasques, Arquivo Municipal de Lisboa)

A obra Flores do Lima  da autoria de Diogo Bernardes, impressa em 1597,  deu origem em 1961 à Rua Flores do Lima que justamente tem entrada a partir da Rua Diogo Bernardes,  no Bairro de São Miguel da Freguesia de Alvalade, e na qual esteve sediado de 1975 até 2007 o cinema Quarteto, obra do empenhado Pedro Bandeira Freire para toda a cidade.

A Rua Diogo Bernardes foi atribuída pelo Edital municipal de 6 de março de 1952 e nove anos mais tarde,  os moradores de um arruamento paralelo à Avenida Estados Unidos da América cujo acesso se fazia a partir dessa artéria pediram a atribuição de denominação ao mesmo, tendo a Comissão Municipal de Toponímia proposto «que o referido arruamento se denomine: Rua Flores do Lima, porque Flores do Lima é o título de um livro da autoria de Diogo Bernardes, que teve várias edições», o que se veio a verificar pelo Edital municipal de 7 de julho de 1961.

Freguesia de Alvalade (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias)

O cinema Quarteto,obra do Arqt.º Nuno San-Payo, foi inaugurado no nº 16 da Rua Flores do Lima em 21 novembro de 1975, com 716 lugares e apresentando-se como o 1º complexo de salas de Lisboa,  característica justamente realçada  no slogan que usava: «4 Salas / 4 Filmes.». Foi gerido pelo cinéfilo Pedro Bandeira Freire, garantindo uma atmosfera de cinefilia com exibições exclusivas. Ficaram memoráveis as famosas maratonas de 24 horas de cinema, a exibição de A Religiosa (1967) de Jacques Rivette, um dos mais espantosos sucessos do pós 25 de Abril e o 2º maior êxito do Quarteto, o ter dado a conhecer em Portugal o realizador Martin Scorcese com Taxi Driver  (a partir de 15 de abril de 1977),e a estreia de All That Jazz (1979) de Bob Fosse, em exclusivo e nas quatro salas, sendo o maior êxito de sempre deste cinema, propriedade de Pedro Bandeira Freire e do seu sócio, o escritor Almeida Faria. O Quarteto albergou ainda numa das suas salas, em 1981, a Cinemateca, devido a um incêndio que destruiu o edifício da Rua Barata Salgueiro.

Encerrou no dia 16 de novembro de 2007, por ordem da Inspecção-Geral das Actividades Culturais (IGAC) que invocou falhas de segurança, sobretudo no combate a incêndios. Pedro Bandeira Freire faleceu 5 meses depois, a 17 de abril de 2008, aos 68 anos de idade. Em 2014, o edifício passou para a Igreja da Plenitude de Cristo, de protestantes evangélicos.

Freguesia de Alvalade (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias)

O Apolo 70 na Avenida do autor d’As Pupilas do Senhor Reitor

O cinema Apolo 70 na Avenida Júlio Dinis em 1977 (Foto: Vasques, Arquivo Municipal)

O cinema Estúdio Apolo 70 na Avenida Júlio Dinis em 1977
(Foto: Vasques, Arquivo Municipal)

A artéria do início do séc. XX – primeiro Rua e depois Avenida – que perpetua em Lisboa o escritor portuense Júlio Dinis, autor de As Pupilas do Senhor Reitor e criador do romance campesino, acolheu em 1971 o cinema Estúdio Apolo 70, no Drugstore do mesmo nome, simbolizando a sua modernidade com a colagem à chegada do homem à Lua no Programa Apollo, que na 5ª missão tripulada – Apollo 11 – conseguiu  realizar a primeira alunagem, no dia 20 de julho de 1969.

Júlio Dinis começou por ser topónimo lisboeta com a categoria de Rua, através da deliberação camarária de 4 de fevereiro de 1909, passando a Avenida dezasseis anos depois, pelo Edital municipal de 8 de junho de 1925, que também tornou Avenidas as Ruas António de Serpa, Barbosa du Bocage, Elias Garcia, João Crisóstomo e Visconde de Valmor.

 em 26 de maio de 1971 foi inaugurado no nº 10 A da Avenida Júlio Dinis o Drugstore Apolo 70, com o nome que se dava então na Europa aos centros comerciais. No dia seguinte, abriu nele uma sala de cinema com 300 lugares, o Estúdio Apolo 70, planificado pelo Arqº Augusto Silva e decorado por Paulo Guilherme. A programação estava a cargo de Lauro António (entre 1969 e 1985) que escolheu como filme de estreia O Vale do Fugitivo, de Abraham Polonsky, um western que era uma metáfora da guerra do Vietname. O cinema fechou em 1990 e o seu espaço foi ocupado por um restaurante.

Branco e Negro, 13 de setembro de 1896

Branco e Negro, 13 de setembro de 1896

Júlio Dinis é o pseudónimo do médico Joaquim Guilherme Gomes Coelho (Porto/14.11.1839-12.09.1871/Porto) mas que se notabilizou sobretudo pela escrita, considerado cultor da transição entre o romantismo e o realismo, através dos títulos As Pupilas do Senhor Reitor (1867), publicado no ano anterior em fascículos no Jornal do PortoUma Família Inglesa (1868), também publicado no ano anterior em fascículos no Jornal do Porto; A Morgadinha dos Canaviais (1868); as novelas Serões da Província (1870); Os Fidalgos da Casa Mourisca (1871). Postumamente, foram acrescentados à sua obra impressa os volumes Poesias (1873), Inéditos e Esparsos (1910) e Teatro Inédito (1946-1947). No decorrer do séc. XX  os seus romances foram diversas vezes adaptados ao cinema e mais tarde, também à televisão.

Formado em medicina na Escola Médica do Porto,em 27 de julho de 1861,  passou a maior parte da sua vida entre o Porto e Ovar, e por ter contraído tuberculose não chegou a exercer medicina e ocupou-se com a escrita, tendo também publicado textos literários em A Grinalda,  O Jornal do Comércio, Semana de Lisboa e Serões. Contudo, foi lente substituto no corpo docente da Escola Médica-Cirúrgica do Porto. Júlio Dinis também usou o pseudónimo de Diana de Aveleda, com que assinou pequenas narrativas ingénuas como Os Novelos da Tia Filomena e o Espólio do Senhor Cipriano (1862 e 1863), assim como  pequenas crónicas no Diário do Porto.

Júlio Dinis ainda foi duas vezes para a Madeira, considerada na época um lugar eficaz para a cura da tuberculose, mas acabou por falecer antes de completar 32 anos de idade, como antes acontecera a sua mãe e aos seus 8 irmãos.

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

A Rua do pintor romântico Francisco Metrass e as duas vidas do cinema Europa

Grupo de artistas. Em primeiro plano, da esquerda para a direita, José Rodrigues, António Manuel da Fonseca, Francisco Augusto Metrass; em segundo plano João Cristino da Silva e Tomás da Anunciação e Vitor Figueiredo Bastos (Foto: José Leitão Bárcia, Arquivo Municipal de Lisboa)

Em baixo da esquerda para a direita: José Rodrigues, António Manuel da Fonseca, Francisco Metrass; em cima: João Cristino da Silva, Tomás da Anunciação e Vítor Bastos
(Foto: José Leitão Bárcia, depois de 1890, Arquivo Municipal de Lisboa)

O romântico pintor Francisco Metrass   foi colocado numa artéria do Bairro de Campo de Ourique em 1880 e já no séc. XX foi nela que se ergueu o Cinema Europa que foi também Europa Cinema.

Por deliberação camarária de 23 de agosto de 1880 e consequente Edital de 30 de agosto, Rua Francisco Metrass foi o topónimo dado à  3ª rua nova aberta paralelamente à Rua Ferreira Borges ou Rua nº 4 aberta nos terrenos da antiga Parada de Campo de Ourique, em memória do pintor que falecera 19 anos antes. Por esse mesmo Edital municipal foi também colocado na Rua nº 3 o pintor Tomás da Anunciação, falecido no ano anterior, bem como a Rua do Quatro de Infantaria (na Rua nº 1 ) e a Rua Ferreira Borges (na Avenida de Campo de Ourique).

Cinema Europa na década de 30 do séc. XX

Cinema Europa na década de 30 do séc. XX

 

Numa esquina da Rua Francisco Metrass abriu portas em 14 de fevereiro de 1931 o Cinema Europa, traçado pelo Arqº Raul Martins e que se tornou um dos edifícios emblemáticos de Campo de Ourique. Em 1936 foi modificado na fachada e no interior, segundo um plano do Arqº João Carlos Silva mas acabou por ser demolido em 1957. No seu lugar foi construído em 1958 o Europa Cinema, esboçado pelo Arqº Antero Ferreira e com uma escultura em alto-relevo na fachada, da autoria de Euclides Vaz, com 843 lugares à disposição. Assim, funcionou como sala de cinema até 1981 e em 2010 foi demolido.

Europa Cinema após 1957

Europa Cinema após 1958

Francisco Augusto Metrass ( Lisboa/07.02. 1825 – 14.02.1861/Funchal) foi um pintor da época romântica que ingressou   aos 11 anos, em 1836, como aluno voluntário da Academia das Belas Artes de Lisboa, onde foi colega de Tomás da Anunciação, Manuel Maria Bordalo Pinheiro e João Cristino da Silva e teve como professores Joaquim Rafael e António Manuel da Fonseca. Dedicava-se sobretudo à pintura de retratos até partir em 1844 para estudar para Roma, com os pintores de origem alemã do Grupo dos Nazarenos Cornelius e Overbeck, e pintar Jesus acolhendo as crianças. No regresso, empenhou-se sobretudo na pintura histórica mas face à falta de reconhecimento vendeu toda a sua obra a um corretor de leilões e estabeleceu-se a tirar retratos na zona do Cais do Sodré. Voltou depois a partir, para Paris, onde estudou as obras de Rubens, Rembrandt e Van Dyck. De volta a Portugal em 1853, com melhor técnica, o rei D. Fernando comprou-lhe o quadro Camões na Gruta de Macau e a sua obra passou a ser admirada pelo grande público e, a partir do ano seguinte exerceu também como professor de pintura histórica na Academia de Belas Artes.  O seu quadro Só Deus (1856), foi considerado a mais poderosa imagem do romantismo português.

Francisco Metrass morreu aos 36 anos de idade, vítima de tuberculose e a sua obra está representada no Museu do Chiado/ Museu de Arte Contemporânea.

Freguesia de Campo de Ourique                                                                                 (Planta: Sérgio Dias)

 

O regenerador Martens Ferrão na rua onde se ergueu o Cinema Mundial

O Cinema Mundial, na Rua Martens Ferrão, em 1967 (Foto: Augusto de Jesus Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Cinema Mundial, na Rua Martens Ferrão, em 1967
(Foto: Augusto de Jesus Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

O político regenerador conhecido como Martens Ferrão está desde 1902 perpetuado numa artéria de Picoas, graças a um Edital da câmara presidida pelo Conde d’Ávila que perpetuou mais onze políticos regeneradores em artérias lisboetas e nesta rua partilhada hoje pelas freguesias das Avenidas Novas e de Arroios nasceu há 51 anos o Cinema Mundial.

O Edital de 29 de novembro de 1902 colocou nesta zona, em Avenidas, os nomes dos políticos António de Serpa, Casal Ribeiro, Duque D’Ávila, Hintze Ribeiro (hoje Avenida Miguel Bombarda), José Luciano (hoje Avenida Elias Garcia),  e em Ruas, os nomes de Andrade Corvo, António Enes, Barros Gomes (hoje Rua Viriato), Latino Coelho , Luís Bivar (hoje Avenida), Martens Ferrão e Pinheiro Chagas, bem como o médico Pedro Nunes e o matemático e cartógrafo Filipe Folque.

Martens Ferrão no Diário Ilustrado de 3 de novembro de 1890

Martens Ferrão no Diário Ilustrado de 3 de novembro de 1890

Sessenta e três depois, a 22 de setembro de 1965 abriu no nº 12 A da Rua Martens Ferrão o Cinema Mundial, concebido pelo Arqº Manuel Ramos Chaves. Encerrou em 2004, no ano seguinte a ter exibido a última obra de João César Monteiro (Vaivém) .

Este topónimo perpetua na memória da cidade João Baptismo da Silva Ferrão de Carvalho Martens (Lisboa – Olivais/28.01.1824 – 15.11.1895/Florença), mais conhecido como Martens Ferrão, um jurisconsulto que se destacou sobretudo como um deputado muito interventivo do Partido Regenerador (de 1854 a 1871) e com capacidade de produzir propostas de legislação, ficando também famoso por ter apoiado o governo do Duque d’Ávila na decisão de proibir as Conferências do Casino ( que decorreram de 22 de março a 26 de junho de 1871). Foi também ministro da justiça e negócios eclesiásticos (de 16 de março de 1859 a 4 de julho de 1860) e ministro do reino (1866 a 1868), substituindo António Augusto Aguiar no Ministério dos Negócios do Reino e assim promoveu a Lei da Administração Civil de 26 de junho de 1867, conhecida como Código Martens Ferrão, cujo mapa final de divisão do território ao ser publicado em dezembro gerou descontentamento generalizado e manifestações populares que levaram à queda do governo em janeiro de 1868 ( a Janeirinha) e à revogação da reforma.

Martens Ferrão exerceu ainda funções de procurador geral da Coroa e da Fazenda (1868- 1885), par do reino ( 1871), conselheiro de Estado (1874), aio dos príncipes na educação literária e científica (1874) e embaixador de Portugal junto da Santa Sé (1885-1895). Refira-se ainda que a partir de 1858 foi também lente da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, afirmando-se como um reputado especialista em Direito.

Fregeusias de Arroios e das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias de Arroios e das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

A Avenida de Roma que alimentou três cinemas

Cinema Alvalade nos anos 50 do séc. XX (Foto: Salvador de Almeida Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Cinema Alvalade nos anos 50 do séc. XX
(Foto: Salvador de Almeida Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Avenida de Roma, hoje pertença das Freguesias de  Alvalade e do Areeiro, nasceu no último mês do ano de 1930 e nesta grandiosa artéria se ergueram sucessivamente, a partir do fim da II Guerra, três cinemas: o  Alvalade, 0 Roma e o Londres.

Antes era a  Avenida nº 19 do plano de melhoramentos aprovado por deliberação camarária de 7 de abril de 1928, compreendida entre a Rotunda a norte da Avenida de António José de Almeida (hoje, Avenida Guerra Junqueiro) e a Avenida Alferes Malheiro (hoje, Avenida do Brasil), que a partir do Edital de 27 de dezembro de 1930 passou a ser a Avenida de Roma.

Como existe uma Via Lisbona em Roma e embora desconheçamos a sua data de atribuição, a Avenida de Roma em Lisboa pode ter sido atribuída apenas como retribuição. As atas das sessões de Câmara apenas informam que em 11 de dezembro de 1930, por proposta José Vicente de Freitas, que presidia então à Câmara,  foram sugeridos como topónimos as Avenidas de Roma, Avenida General Roçadas e a do Poeta Mistral «Considerando que se torna necessário dar nomes a diversos arruamentos da Capital que não possuem ainda nomenclatura», e todas foram aprovadas por unanimidade. Já antes, em 20 de março,  o mesmo Presidente da CML havia proposto um voto de sentimento pela morte do General Primo de Rivera que foi aprovado por aclamação. Sabemos também que o primeiro-ministro italiano, Benito Mussolini, em 11 de fevereiro de 1929, ratificou com Pio XI a Concordata de São João Latrão, pela qual se criava o Estado do Vaticano, o Papa  recebia uma indemnização monetária pelas perdas territoriais, o ensino religioso passava a ser obrigatório nas escolas italianas e o catolicismo a religião oficial da Itália e que  a 19 de abril desse mesmo ano de 1929, Benito Mussolini foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem Militar da Torre e Espada portuguesa.

Cinema Roma nos anos 50 do séc. XX (Foto: Salvador de Almeida Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Cinema Roma nos anos 50 do séc. XX
(Foto: Salvador de Almeida Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Dos três cinemas da Avenida de Roma o primeiro a nascer foi o Cinema Alvalade, sob o traçado dos Arqºs Lima Franco e Filipe de Figueiredo em 1945, mas inaugurado em 8 de dezembro de 1953 no nº 100 da Avenida de Roma e esquina com a Rua Luís Augusto Palmeirim. Era um cinema de estreia com mais de mil lugares. Fechou portas em 1985 e o espaço foi arrendado à Igreja Universal do Reino de Deus até 2000, sendo demolido em 2003. No seu lugar está desde 2009 outro edifício onde está o Cinema City Alvalade com 389 lugares.
Em 15 de março de 1957 foi inaugurado o Cinema Roma no nº 14 da Avenida de Roma, da autoria de Licínio Cruz  e com 1107 lugares. É desde 1997 a sede da Assembleia Municipal de Lisboa, e designado o espaço como Fórum Lisboa, que voltou em 2016 a ter sessões regulares de cinema aos fins de semana, exibindo filmes realizados entre 1970 e 1990.
E finalmente, a 30 de janeiro de 1972, abriu portas no nº 7-A da Avenida de Roma o Cinema Londres, que originalmente possuía mais de 400 lugares, segundo o risco de Eduardo Goulart de Medeiros . A Socorama, distribuidora de cinema ligada à família Castello Lopes, ocupou o Londres até 21 de fevereiro de 2013. E a 1 de setembro de 2015 abriu neste espaço a Londres Shopping, uma loja chinesa.

O Cinema Londres em 1977 (Foto: Vasques , Arquivo Municipal de Lisboa)

O Cinema Londres em 1977
(Foto: Vasques , Arquivo Municipal de Lisboa)