A Praça do arquiteto do Cine-Teatro Tivoli

Freguesia de Marvila
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Entre a Rua Luís Cristino da Silva e a Rua Keil do Amaral fica a Praça dedicada ao arquiteto que traçou o cinema Tivoli para a Avenida da Liberdade, a Praça  Raúl Lino, acolhida em Marvila desde  a publicação do Edital municipal de 20 de agosto de 1985.

Raúl Lino da Silva (Lisboa/21.11.1879-13.07.1974/Lisboa) foi estudar para a Grã-Bretanha desde os  10 anos de idade, por orientação de seu pai,  tendo seguido depois para Hannover, na Alemanha, a partir de 1893, onde trabalhou no atelier do historiador e arquiteto Albrecht Haupt (1852-1932). Regressado a Portugal em 1897, Raúl Lino desenhou numerosas obras ao longo da sua vida, cerca de 700, de que que se salientam as seguintes para Lisboa:

  • o modelo de Jardim-Escola João de Deus (1909) e o edifício  da Avenida Álvares Cabral, 69 (1918);
  • os arranjos das instalações dos animais no Jardim Zoológico de Lisboa (1912), na Quinta das Laranjeiras;
  • a loja Gardénia (1917) no nº 54 da Rua Garrett;
  • o Cine-Teatro Tivoli (1918 – 1924) que desde 2015 é  Monumento de Interesse Público;
  • a moradia na Rua Castilho nº 64 a 66, que foi Prémio Valmor  em 1930 (já demolida);
  • as alterações ao antigo Picadeiro Régio/Museu dos Coches (1940) e o Pavilhão do Brasil na Exposição do Mundo Português (1940).

A moradia na Rua Castilho nº 64 a 66 que foi Prémio Valmor  em 1930
(Foto: Paulo Guedes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Fora da capital refira-se a sua autoria  na casa Montsalvat para o pianista Alexandre Rey Colaço (1901), no Monte Estoril; no Solar dos Patudos para José Relvas (1904); na Casa da Quinta da Comenda no Outão (1909); o Sanatório de Sousa Martins  (1907) na Guarda; na Casa do Cipreste (1907-1913), em Sintra, para si próprio; na Pérgola em Penacova (1918); na Casa de Santa Maria (1918) em Cascais; na Casa dos Penedos (1920) em Sintra;  no Cine-Teatro Curvo Semedo (1923) em Montemor-o-Novo; na Casa do Soar de Cima (1925) em Viseu; na Quinta das Romeiras em Câmara de Lobos (1933); ou nos Paços do Concelho de Setúbal (1938).

Raúl Lino foi ainda autor de numerosos textos teóricos sobre  arquitetura, como A Nossa Casa (1918), A casa portuguesa (1929), Casas portuguesas (1933) e L´évolution de l´ architecture domestique au Portugal (1937), neles revelando a sua principal preocupação de criar uma arquitetura integrada na paisagem, assente na  ideia de que só o conhecimento do terreno sobrevaloriza os valores tradicionais da pura arquitetura portuguesa, procurando assim conciliar a arquitetura erudita com a tradição popular.

Raúl Lino foi agraciado com o Prémio Valmor e Municipal de Arquitectura de 1930, o Prémio José de Figueiredo  de 1948 e a Comenda da Ordem Militar de Cristo (1941). Também integrou o júri do prémio Valmor em 1931, que premiou o edifício da Rua Infantaria 16, da autoria dos arquitetos Miguel Jacobethy Rosa e António Reis Camelo.

Para além do seu traço de arquiteto, Raúl Lino também desempenhou cargos como  Chefe da Repartição de Estudos e Obras em Monumentos da Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (entre 1936 e 1949),  Superintendente Artístico dos Palácios Nacionais a partir de 1938 e ainda, Diretor dos Monumentos Nacionais a partir de 1949.

Raúl Lino foi ainda membro fundador da Academia Nacional de Belas Artes em 1932 e seu presidente a partir de 1967. Refira-se também que a produção artística de Raúl Lino inclui o design de mobiliário, painéis, azulejos e porcelanas; a cenografia (sobretudo no São Carlos e com Almada Negreiros) e a programação cultural, principalmente para o cinema Tivoli onde exibiu, entre outros, filmes de Fritz Lang e de Chaplin, para além de colaborar em publicações como a Atlantida, Homens Livres, Ilustração ou a Revista Municipal de Lisboa.

Na vida pessoal, escolheu viver numa casa na Avenida António Augusto de Aguiar e teve duas filhas: Isolda Lino Norton de Matos e Maria Cristina Lino Pimentel . O seu espólio foi doado pela família, em 1989, à Fundação Calouste Gulbenkian.

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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Fernando Gusmão, encenador do Teatro Moderno de Lisboa, no Bairro teatral do Vale da Ameixoeira

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Fernando Gusmão, o ator e encenador alfacinha, fundador e encenador do Teatro Moderno de Lisboa em 1961 , dá nome à Rua 6A do Vale da Ameixoeira desde abril de 2004, sendo assim também o primeiro topónimo de um Bairro cujos arruamentos têm topónimos relacionados com o meio teatral.

Foi pelo Edital municipal nº 20/2004 de 19 de abril de 2004 que foi fixada a Rua Fernando Gusmão na Rua 6A que hoje une a Rua Artur Ramos à Rua António Vilar. No mesmo dia, pelo Edital nº 21/2004, o Vale da Ameixoeira recebeu na sua Rua 3 a Rua Fernanda Alves.  Quase três meses depois, mais artérias do Vale da Ameixoeira foram preenchidas com nomes de atores: António Vilar (Rua 4 A), Arnaldo Assis Pacheco (Rua 1 A à Estrada da Circunvalação), José Viana (Rua 1 B), Raul de Carvalho (Rua 4 B) e Varela Silva (Rua 2A). E cinco anos mais tarde, pelo Edital de 16 de setembro de 2009, nasceu na Rua 6B a Avenida Glicínia Quartin, a primeira vez que uma  Avenida lisboeta recebeu o topónimo de um ator.

Fernando Morais Ferreri Gusmão (Lisboa/06.02.1919 – 17.02.2002/Casa do Artista – Lisboa) foi um ator e encenador que participou na construção desse marco no teatro português que foi o Teatro Moderno de Lisboa, fundado em 1961 por uma sociedade de atores que o unia a Armando Caldas, Armando Cortez, Carmen Dolores e Rogério Paulo. Foi nesta Companhia que se estreou como encenador de Humilhados e Ofendidos  a partir do original de Dostoievski (1961), Os Três Chapéus Altos de Miguel Mihura e Render dos Heróis de José Cardoso Pires (1965), a última da sociedade teatral, retirada de cena pela censura teatral. De 1961 a 1965 o Teatro Moderno de Lisboa funcionou no Cinema Império, no  inovador horário das 18: 30 horas e 11:00 horas de domingo, em sessões que transbordavam de público. Entre tantos outros, neste palco representaram Armando Cortez,  Armando Caldas, Cármen Dolores, Clara Joana, Fernanda Alves,  o próprio Fernando Gusmão, Morais e Castro, Rogério Paulo, Rui de Carvalho ou  Rui Mendes. Lauro António, no seu blogue, considera mesmo que « Desde “O Tinteiro” até ao “Render dos Heróis” foi uma actividade magnífica, desenvolvida por uma sociedade de actores que pretendia acima de tudo rumar contra o marasmo, abrir horizontes, rasgar janelas.» 

Fernando Gusmão viveu em Cabo Verde dos 5 aos 19 anos mas regressou em 1938 e dez anos depois, iniciou-se no teatro como amador, no Grupo Os Companheiros do Pátio das Comédias, onde interpretou O Casamento de Nicolau Gogol,  Continuação da Comédia de João Pedro de Andrade (que em 1957 também  interpretaria para a televisão numa realização de Artur Ramos) ou a Escola de Maridos de Molière. Nos anos 50, profissionalizou-se ao ingressar na Companhia Amélia Rey Colaço/Robles Monteiro, no Teatro Nacional D. Maria II, representando Curva Perigosa, de Priestley, A Senhora das Brancas Mãos de Alejandro Casona ou A Comédia da Morte e da Vida, de Henrique Galvão.

Nesta década de cinquenta Fernando Gusmão ainda se destacou no Rei Lear de Shakespeare e em O Príncipe Disfarçado de Marivaux, tendo trabalhado  na Companhia Alves da Cunha no Teatro Gymnasio (1951); no Teatro do Povo, com Francisco Ribeiro, no Alfageme de Santarém de Almeida Garrett; no Teatro Avenida, em Joana D’ Arc de Jean Anouilh e João Gabriel Bockman de Ibsen (1955); no Teatro Nacional Popular,  sediado no Teatro da Trindade, de 1957 a 1959, interpretando sucessivamente Noite de Reis de Shakespeare, Um Dia de Vida de Costa Ferreira, Doze Homens Fechados de Reginald Rose, Diário de Anne Frank de Goodrich e Hackett, Pássaros de Asas Cortadas de Luiz Francisco Rebello ou À Espera de Godot de Samuel Beckett.  Também se estreou no teatro de revista, em Aqui é Portugal, numa temporada no Teatro Sá da Bandeira, no Porto, em 1955.

A partir dos anos sessenta a sua faceta de encenador começou a mostrar-se, no Teatro Moderno de Lisboa. Também dirigiu o Grupo Cénico de Direito (1965 e 1966); encenou O Tempo e a Ira de John Osborne  e A Renúncia de Unamuno no Teatro Experimental do Porto-TEP, assim como  A Voz Humana de Jean Cocteau, interpretado por Maria Barroso, tudo em 1967;   dirigiu o  Grupo 4 (1968), o Teatro dos Estudantes Universitários de Moçambique (1970) e a A Excepção e a Regra de Bertolt Brecht no Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra- TEUC.

Após o 25 de Abril, foi presidente do Sindicato de Atores  e membro fundador do Grupo de Teatro Proposta, ao lado de Augusto Sobral, Manuel Coelho,  Luís Alberto e Victor Esteves (1975); ministrou um curso de formação para atores na Guiné-Bissau (1978); encenou Corpo-Delito para o Grupo 4, já renomeado Novo Grupo, no  Teatro Aberto (1979); passou a encenar o Grupo de Campolide (1981) e regressou ao TEP, bem como ao TEUC para encenar O Sonho de Enrique Buenaventura (1990), na mesma década em que publicou o livro autobiográfico A Fala da Memória (1993).

Fernando Gusmão também trabalhou para rádio e televisão, para além do cinema, onde figurou algumas longas-metragens como Saltimbancos de Manuel de Guimarães (1952),  O Mal Amado de Fernando Matos Silva (1974) ou Os Demónios de Alcácer Quibir de José Fonseca e Costa (1977).

Morou no nº 12 da Rua das Taipas, no prédio onde Sá Nogueira teve atelier e em Almada (Sobreda), dá também nome a uma rua, próxima das Ruas Luzia Martins e Armando Cortez.

Freguesia de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua César de Oliveira, o argumentista de revista e letrista do Sr. Feliz e do Sr. Contente

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

César de Oliveira , autor de teatro de revista  e de programas de televisão, logo dois dias  após o seu falecimento teve uma decisão da edilidade lisboeta em sessão de câmara para ser homenageado com a atribuição do seu nome a uma rua da cidade.

A sessão de câmara de 18 de janeiro de 1988 decidiu a atribuição do nome de César de Oliveira a um arruamento lisboeta, tendo para o efeito a Comissão Consultiva Municipal de Toponímia escolhido a Rua A à Azinhaga do Jogo da Bola, no Paço do Lumiar, arruamento que também era designado vulgarmente por Lugar das Areias, processo este que terminou com a publicação do edital em 29 de fevereiro de 1988 ficando a Rua César de Oliveira fixada com a legenda «Autor Teatral/1928 – 1988», a ligar a Azinhaga dos Ulmeiros à Azinhaga da Torre do Fato. Pelo mesmo edital foram também homenageadas em arruamentos da então freguesia de Nª Senhora de Fátima as atrizes Laura Alves e Ivone Silva.

César de Oliveira (Lisboa/14.08.1928 – 16.01.1988) foi a partir dos anos 60 do séc. XX uma figura fundamental do teatro de revista desenvolvido no Parque Mayer, como autor de peças de revista em parceria. Estreou-se em 1960, em parceria com José Augusto Ramos, na revista Espero-te à saída, para o Teatro ABC.  A partir de 1964, estabeleceu parceria com Rogério Bracinha e Paulo da Fonseca, terminada em 1973 por morte do último, com inúmeros êxitos como É regar e pôr ao luar, Sete colinas ou Alto lá com elas. Ficou popular a sua  letra da canção Cheira Bem, Cheira a Lisboa, com música do maestro Carlos Dias, criada para interpretação de Anita Guerreiro na revista Peço a Palavra (1969). César de Oliveira também redigiu outras letras para fados ou marchas populares, para as vozes de Fernanda Batista, Hermínia Silva, Tony de Matos ou António Calvário.

Do muito que escreveu destaquem-se as revistas Quem tem boca vai a Roma para o Teatro Capitólio, Peço a palavra para o Variedades, Pra frente Lisboa e Mulheres é comigo para o Teatro Monumental. Ainda nos anos setenta assinou a autoria das revistas O Zé Faz Tudo (1971), Saídas da Casca (1972) e Aldeia da Roupa Suja (1975). Foi também o responsável por levar até ao Parque Mayer  Ary dos Santos e Bernardo Santareno, para serem co-autores de Uma no cravo outra na ditadura, Pra trás mija a burra, Afinal como é, Águas de bacalhau (1977) e Ó da guarda, todas no ABC. Escreveu também para  A grande cegada do Teatro Ádóque e  o seu último êxito foi Lisboa, Tejo e Tudo (1987), com argumento seu e de Raul Solnado e Fialho Gouveia, assim como encenação sua.

Também foi argumentista dos filmes Rapazes de táxi, de Constantino Esteves, com Rogério Bracinha, Jerónimo Bragança, Paulo da Fonseca e José Ramos bem como de Um cão e dois destinos de Alain Bornet, com Rogério Bracinha e Paulo da Fonseca, ambos em 1965; Sarilho de fraldas (1966) de Constantino Esteves, com Augusto Ramos e Rogério Bracinha; e O destino marca a hora (1970) do realizador Henrique Campos, em parceria com Rogério Bracinha e Paulo da Fonseca.

O seu envolvimento na televisão portuguesa acontece após o 25 de Abril de 1974, sendo ele o autor das letras musicadas por Thilo Krassman para o Sr. Feliz e o Sr. Contente, a dupla que encantava com o seu «diga à gente, diga à gente, como vai este país…», protagonizada por Herman José e Nicolau Breyner, rábula da série televisiva de 1975 intitulada Nicolau no País das Maravilhas, de que era argumentista com Rogério Bracinha e Ary dos Santos. César de Oliveira ficou ainda na memória dos portugueses como o autor de Sabadabadu, em parceria com Melo Pereira, programa de entretenimento que passou na RTP em 1981, onde pontificavam Ivone Silva e Camilo de Oliveira. Foi ainda o autor de programas de humor como O espelho dos Acácios (1978), Ivone Silva A Faz Tudo  (1978) programa realizado por José Fonseca e Costa, Gente fina é outra coisa (1982), Eu show Nico (1987- 1988).

César de Oliveira foi galardoado com a medalha de Mérito Municipal de Lisboa, bem como com o Prémio da Imprensa na categoria Teatro de Revista (1964).

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua Ângela Pinto à volta do Mercado de Arroios

Freguesia de Arroios
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua Ângela Pinto é a rua que encontramos a toda a volta do Mercado de Arroios, desde a publicação do Edital municipal de 12 de março de 1932, assim perpetuando a memória da protagonista da Severa e do Hamlet na toponímia da cidade de Lisboa.

O projeto urbanístico aprovado em sessão de Câmara de 7 de abril de 1928 determinou o futuro da zona contida entre a Praça do Chile e a Alameda Dom Afonso Henriques, tendo a Rua Ângela Pinto sido o topónimo dado à «Circular, em volta do mercado», conforme  regista o Edital, que acolheria obras a partir de 1939 para a construção de um mercado novo, do risco do Arqº Luís Benavente, que foi oficialmente inaugurado em 28 de fevereiro de 1942.

Já o Edital de 12 de março de 1932 consagrou também na mesma zona o empresário teatral Eduardo Brazão (Rua 8), bem como os atores Ferreira da Silva (na antiga Rua nº 7A), Joaquim Costa (Rua Particular), José Ricardo (Rua 7), Lucinda Simões (Rua nº 8A) e Rosa Damasceno (Rua nº 6),  para além de uma Avenida Rey Colaço (Rua 23) que nunca foi executada e foi este conjunto de topónimos que fez com que o sítio ficasse conhecido como Bairro dos Atores.

Ângela Rita Clara de Almeida Pinto (Lisboa/15.11.1869 – 09.03.1925/Lisboa) foi uma atriz que teve como os pontos altos da sua carreira uma magistral interpretação da Severa, na peça homónima de Júlio Dantas, estreada no  Teatro D. Amélia (depois, São Luiz) em 25 de janeiro de 1901, desempenho onde cantava fado, bem como o seu papel em travesti protagonizando Hamlet, em 1910, representação em que usou uns sapatos pretos feitos especialmente com mais 3 centímetros de sola. Ângela Pinto era muito acarinhada pelo público que enchia as plateias dos teatros para a ver.

Nascida no nº 30 da Rua do Arco da Graça, filha de Júlia de Almeida Pinto e de João de Almeida Pinto – músico por vezes contratado pelo São Carlos, jornalista e um dos proprietários de O Contemporâneo, publicação dedicada a assuntos de teatro -, desde a infância privava com redatores do jornal paterno como Gervásio Lobato, Sousa Bastos, Salvador Marques ou Pedro Vidoeira. Ângela frequentou o Colégio da D. Carolina junto à Calçada do Duque e depois um outro na Rua de Betesga, que era pertença de Alberto Bramão, um ensaiador teatral, tendo aprendido a falar bem francês.

Começou por subir à cena em 1885, aos 15 ou 16 anos, numa barraca de feira em Setúbal, na zarzuela em 1 ato Simão, Simões & C.ª. Depois, foi para os Teatros do Porto iniciar a sua carreira profissional e por volta dos  20 anos voltou a Lisboa, onde se estreou no Teatro da Rua dos Condes, no dia 29 de outubro de 1889, na opereta Lobos do Mar, uma tradução do original de  Ramos Carion.  Em 24 de maio de 1890 passa para o  Teatro do Príncipe Real (depois, Apolo) e a 29 de outubro voltou ao Porto, ao Teatro D. Fernando, a convite da Companhia Afonso Taveira & José Ricardo. Aí criou Ravolet, em travesti, na opereta A Bela Perfumista de Offenbach e a 4 de setembro de 1892 regressou ao Teatro da Rua dos Condes para criar a Manuela do Solar dos Barrigas, uma ópera cómica de Gervásio Lobato e D. João da Câmara. Em 1898, fazia parte da Companhia Taveira, então no Teatro da Trindade mas que depois passou ao Teatro do Príncipe Real do Porto, onde nesse mesmo ano protagonizou Ali…à Preta! para, em 1900, estar no alfacinha Teatro do Ginásio, em A Bisbilhoteira de Eduardo Schwalbach e depois no Teatro D. Amélia a protagonizar Lagartixa. Em 1903 passou a integrar o D. Maria II, onde fez a Madalena de Vilhena do Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett, ou no ano seguinte, a Mariana do  Amor de Perdição  de Camilo, adaptado por D. João da Câmara, a Gonerill do Rei Lear, numa adaptação de Júlio Dantas e A Mártir, de Adolph d’Ennery, numa tradução de Guiomar Torresão. Ficaram também na memória o seu Compère da revista Corações à Larga (1915) a imitar a figura de Afonso Costa, para além de ter contracenado com Joaquim Costa em Castelos no Ar (1916) de Eduardo Schwalbach. Em 1919, integrou a Companhia do Teatro da Trindade, dirigida por Augusto Pina, para A Exilada(1919) e depois esteve no Teatro de São Carlos. Na sua longa carreira, Ângela tanto interpretou revista como comédia ou drama, tendo pisado os palcos da época no Porto, em Lisboa e no Brasil, em diversas digressões.

Por fim, em 1922, Ângela Pinto ainda entra no cinema, interpretando a criada Juliana na rodagem do filme mudo de O Primo Basílio, de Georges Pallu e da Invicta Film do Porto, estreado no ano seguinte no Condes em Lisboa e no Jardim Passos Manuel do Porto.

Na sua vida pessoal, foi conhecida como muito bondosa e caritativa, bem  como uma das grandes boémias de Lisboa, que amou livremente quem achou por bem, depois de em novinha a terem casado com um homem bastante mais velho de quem fugiu logo no dia do casamento. Fazia banquetes no Restaurante Tavares e ceias no Botequim Magrinho. Sabe-se que manteve um relacionamento com D. Luís do Rego e que viveu os seus  últimos dias com um amigo, no nº 3 da Rua da Emenda, assim como teria 2 netos  referidos numa notícia de 1938 sobre uma homenagem que lhe foi prestada no Retiro da Severa.

Aos 54 anos, Ângela Pinto ficou paralisada de um lado do corpo, em pleno palco do  Teatro Politeama, o que a impediu de trabalhar a partir daí e ainda nesse ano de 1923, foi homenageada pelos seus colegas a 19 de novembro, no Teatro de São Carlos, onde recebeu também as insígnias de Oficial da Ordem de Santiago e a receita desse espetáculo no valor de 32.173$64, que foi depositado na Casa Bancária Pinto & Sotto Mayor, para render juros e lhe permitir levantar uma pensão mensal. Os seus colegas atores também reclamaram ao Parlamento em maio de 1923 que lhe fosse concedida uma pensão mensal vitalícia que acabou fixada em 700 escudos. Faleceu na casa da Rua da Emenda, de onde saiu na carreta dos Bombeiros Voluntários de Campo de Ourique, de que Ângela Pinto era sócia honorária, para a Igreja das Chagas, de onde seguiu o funeral para o Cemitério dos Prazeres, para o jazigo 1500 da Rua 11, pertença da Associação dos Socorros Mútuos Montepio dos Actores Portugueses.

O Teatro Águia de Ouro do Porto também a agraciou com a colocação de uma lápide alusiva, o S.N.I. criou o Prémio Ângela Pinto para os Concursos de Arte Dramática e a 29 de janeiro de 1938, foi-lhe prestada ainda uma homenagem no Retiro da Severa, para além de o seu nome estar fixado também em Ruas da Charneca de Caparica, de Fernão Ferro e de Setúbal.

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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Armando Cortez dá morada ao Teatro Aberto

Freguesia de Campolide
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Armando Cortez  somou  mais de 50 anos de carreira como ator, na cena de um Teatro, perante as câmaras de Televisão ou de Cinema, como uma figura inesquecível da memória cultural portuguesa, estando desde o ano seguinte à sua morte perpetuado na toponímia alfacinha, na artéria que dá morada ao Teatro Aberto.

A Rua Armando Cortez, que liga a Rua Ramalho Ortigão à Avenida Calouste Gulbenkian, foi atribuída pelo Edital municipal de 20 de novembro de 2003, com a legenda «Actor/1928 – 2002» e a inauguração deste arruamento foi feita significativamente no dia 27 de Março, Dia Mundial do Teatro.

Armando Cortez e Almeida (Lisboa/23.01.1928 – 11.04.2002/Lisboa) foi ator, encenador, argumentista, produtor, e um homem sempre ligado ao teatro, fosse qual fosse a sua forma de transmissão. Filho do oficial da Marinha Luís Carlos da Cunha e Almeida e de Heloísa dos Santos Cortez, estudou na École Française de Lisbonne e logo após, fez teatro radiofónico no Liceu Pedro Nunes  para depois prosseguir estudos no Conservatório de Lisboa que concluiu com 18 valores em 1949. Ainda nesse ano estreou-se profissionalmente no Teatro Apolo, em Um Chapeú de Palha de Itália, ao lado de Canto e Castro e Rogério Paulo. Já três anos antes, em 1946, entrara em As Coéforas de Molière, no Teatro Universitário, e a sua primeira encenação data de 1948, na peça Degredados, de Virgínia Vitorino, sendo que dez anos depois, em 1958, tinha carteira profissional de encenador.

Armando Cortez trabalhou na companhia Teatro do Povo (1950), com Vasco Santana, Alves da Cunha, Maria Matos, António Silva, Ribeirinho e Nascimento Fernandes e chegou mesmo a dirigi-la. No ano seguinte, fundou o grupo Os Seis Novos e em 1952, com Maria Lalande, dirigiu uma companhia de comédia no Teatro Maria Vitória.  Depois , representou em todos os teatros de que Vasco Morgado era o empresário e fundou ainda o Teatro Moderno de Lisboa (1962) a residir no Cinema Império, com Carmen Dolores, Costa Ferreira e Fernando Gusmão, após nos dois primeiros anos da década de sessenta ter sido bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian em França. Em 1973 dirigiu a companhia do Teatro São Luiz e, três anos depois estava na fundação da Cooperativa de Teatro Repertório (1976) que durou até 1983. Representou em mais de 150 peças de teatro, de todos os géneros, desde a comédia ao drama, da farsa à revista, sendo de destacar as suas interpretações como Lucky em  À Espera de Godot de Samuel Beckett (1959), a 1ª vez que esta obra foi apresentada em Portugal, ao lado de Ribeirinho e de Fernando Gusmão; como protagonista de Schweik na Segunda Guerra Mundial (1975) de Bertolt Brecht , ao lado Raul Solnado ou em O Diretor de Ópera (1976), ambas no Teatro Maria Matos. Em 1979, ganhou o prémio melhor ator de teatro da revista Nova Gente.

Cortez foi também o mestre de várias gerações de jovens atores que dirigiu e acarinhou, sendo ainda de referir que    dirigiu o musical Annie para o Teatro Maria Matos (1983) e  encenou outras peças como A Casa-Fronteira (1969) ou Pisca Pisca (1989), de que foi também argumentista,  tal como o foi para Quem Manda Sou Eu ou Nem o Pai Morre Nem a Gente Almoça (ambas em 1990), Primeiro Amor (1995) e para a telenovela Roseira Brava (1996).

Na televisão, Armando Cortez para além de ter participado em mais de 40 peças gravadas, de 1957 a 1978, logo em 1964, foi protagonista com Francisco Nicholson do programa Riso e Ritmo, do qual também foi o argumentista. A partir de 1984, a presença de Armando Cortez na televisão tornou-se mais constante, em inúmeras séries e telenovelas. Nas séries, destaca-se Lá em Casa Tudo Bem, de Raul Solnado, Mário Zambujal e Artur Couto e Santos e Esquadra de PolíciaA Raia dos Medos e Alves dos Reis (todas em 2000), bem como O Processo dos Távoras (2001) de Francisco Moita Flores. Nas telenovelas, sobressai a sua participação em Chuva na Areia (1984) de Luís de Sttau MonteiroPalavras Cruzadas (1986), Cinzas ( 1993), Na Paz dos Anjos (1994) de José Fanha, Roseira Brava de que foi argumentista Vidas de Sal, ambas em 1996 e Ajuste de Contas (2000). Em 1987, ganhou o prémio da revista Nova Gente para melhor ator de televisão.

No cinema, contracenou em 11 filmes portugueses, 3 franceses, dois ingleses e um alemão. Estreou-se no cinema com um pequeno papel em O Cerro dos Enforcados (1954) de Fernando Garcia. Depois, continuou entre outros, de que damos de exemplo O Dinheiro dos Pobres  (1956) de Artur Semedo;  Operação Dinamite (1967), realizado por Pedro Martins e escrito por Armando Cortez, Francisco Nicholson, Luís Campos e Colette Dubois; O Cerco  (1968) de António da Cunha Telles;  O Diabo desceu à Vila (1980) de Teixeira da Fonseca; Sem Sombra de Pecado (1982) de José Fonseca e Costa; O Desejado ou As Montanhas da Lua (1986) de Paulo Rocha; Encontro em Lisboa (1990) de Claude Boissol;  e em 1992, em três filmes:  Das Tripas Coração de Joaquim Pinto, Vertigem de Leandro Ferreira e Passagem por Lisboa de Eduardo Geada.

Armando Cortez também teve participação cívica ao ter sido Deputado na Assembleia Municipal de Lisboa, nos mandatos de 1980 a 1982 e de 1983 a 1985 e, no último grande empreendimento que acarinhou a partir de 1982: a criação, com  outros colegas de profissão, da Apoiarte – Casa do Artista, associação de reconhecido mérito social e cultural de que foi dirigente, onde em  1999 foi inaugurada a casa de repouso para pessoas do espetáculo e em cujo jardim foram espalhadas as suas cinzas.

Na sua vida pessoal, Armando Cortez apenas casou com atrizes: Fernanda Borsatti (de 1950 a 1958) e Manuela Maria (de 1967 até ao final da vida). Com a primeira, teve em 1953  José Eduardo da Fonseca Cortez e Almeida que viria a ser médico e, com a segunda, teve em 1968, Pedro Lima Cortez e Almeida que veio a ser arquiteto.

Foi lhe concedido o subsídio de Mérito Cultural em 1995 e foi agraciado com o grau de Grande Oficial da Ordem do Infante Dom Henrique (2000), a Medalha de Mérito Municipal   de Oeiras  – Grau Ouro ( 1997) e o seu nome foi dado ao Auditório da Casa do Artista passando a ser o Teatro Armando Cortez (2003). E para além de Lisboa, Armando Cortez é o topónimo de ruas do Algueirão, de Almada, Montijo, Paço de Arcos,  Póvoa de Santa Iria, Santa Iria da Azóia, Unhos e Vila Franca de Xira.

Freguesia de Campolide
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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Mariana Vilar numa Rua de Carnide

Freguesia de Carnide
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Lucinda Costa Alves Figueira, nascida algarvia em 1927, foi uma atriz de cinema, teatro e televisão que ficou conhecida pelo nome artístico de Mariana Vilar e ficou perpetuada numa artéria de Lisboa três anos depois do seu falecimento, em 2001.

Carnide foi a freguesia em que Rua A da Urbanização da Cerâmica de Carnide ( antiga Quinta das Barradas ), pela publicação do Edital municipal de 21 de dezembro de 2001,  com a legenda «Actriz/1927 – 1998», passou a ser a Rua Mariana Vilar, no topo da Rua Álvaro Benamor e paralela à Rua José Gamboa, outros dois nomes do teatro.

Lucinda Costa Alves Figueira (São Brás de Alportel/14.03.1927 – 29.04.1998/Lisboa) veio com a mãe para Lisboa em 1949, após o divórcio dos pais. Começou a sua carreira pelo cinema, concorrendo a uma audição na Lisboa-Filmes que venceu e assim lhe foi confiado o principal papel feminino nos filmes do realizador Henrique Campos: Rosa de Alfama (1952), Duas Causas (1953) e Quando o Mar Galgou a Terra (1954).  Ainda em 1954, Mariana Vilar também protagonizou Bom Dia Senhora Professora, uma curta metragem de Fernando Garcia para educação de adultos. Em 1982 João Mário Grilo trouxe-a de volta às telas cinematográficas, em A Estrangeira.

No teatro, estreou-se em 1954 na comédia Lua-de-Mel… Entre Três, ao lado de Irene Isidro, António Silva, Assis Pacheco e Barroso Lopes, no palco do  Monumental.  Prosseguiu em peças como Yerma (1955) de Garcia Lorca; Joana d’Arc de Jean Anouilh e Envelhecer  de Marcelino Mesquita, encenado por José Gamboa, ambas em 1956; a comédia musical João Valentão (1957) de Amadeu do Vale e encenada por Eugénio Salvador; A Cidade Não é Para Mim (1966); O Processo (1970) de Kafka encenado por Artur Ramos; tendo até 1971 pisado os palcos do Monumental, do Teatro Avenida, do Trindade na companhia Teatro d’Arte de Lisboa, do Maria Vitória,  do Villaret no «Grupo de Acção Teatral», para regressar aos palcos em 1981, na Casa da Comédia, para Seis Aparições de Lenine Sobre um Piano, uma peça de Noel Coward.

Na televisão, Mariana Vilar estreou-se em 1957 ou 58 em Querida Ruth e até 1971 surgiu em várias outras produções de teatro televisivo como Longa Ceia de Natal de Thorton Wilder, Nós os dois somos quatro de A. Vieira Pinto e Luiz Francisco Rebello (1959), Tanto Barulho por nada (1960), Os fidalgos da casa mourisca de Júlio Dinis Carmosina de Musset (1963), Poeira nos olhos de Labiche (1966), Fronteira de Mrozek (1969). Na década de oitenta participou na série Retalhos da Vida de um Médico (1980), no telefilme de Eduardo Geada Pôr do Sol no Areeiro  (1983), na telenovela Chuva na Areia (1985), baseada no romance Agarra o Verão, Guida, Agarra o Verão de Sttau Monteiro e ainda, no teledrama Todo o Amor é Amor de Perdição (1990), sobre o processo de Camilo e Ana Plácido, escrito por Luiz Francisco Rebello e realizado por Herlander Peyroteo.

Na sua vida particular foi casada com Luiz Francisco Rebello desde 1959 e o  casal teve um filha a que chamaram Catarina. Em 1962, o dramaturgo escreveu expressamente para ela a peça Condenados à Vida mas a censura não permitiu que subisse à cena, tal como lhe dedicou ainda obra Mariana Villar – Uma Existência Luminosa que organizou e  coordenou, publicada no ano 2000 pelas Edições Hugin.

Mariana Vilar também dá o seu nome a arruamentos de São Brás de Alportel, Cascais e Fernão Ferro.

Freguesia de Carnide
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua Helena Félix do Teatro Estúdio de Lisboa na Feira Popular

Freguesia de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

No ano seguinte ao falecimento de Helena Félix, a atriz foi perpetuada numa Rua próxima do Teatro Vasco Santana , na Feira Popular, onde em 1964 havia fundado com Luzia Maria Martins o TEL- Teatro Estúdio de Lisboa, tendo sido a artéria oficialmente inaugurada no Dia Internacional da Mulher de 1993.

A partir da sugestão da Assembleia Municipal de Lisboa para que Helena Félix desse nome a uma artéria lisboeta,  por deliberação camarária de 13/05/1992 e consequente Edital municipal de 18/05/1992, Helena Félix passou a ser o topónimo do Impasse 1 à Avenida das Forças Armadas (junto ao nº 34-A), com a legenda «Actriz/1920 – 1991».  A cerimónia de inauguração do arruamento foi agendada significativamente para o Dia Internacional da Mulher de 1993, tal como aconteceu com a Rua Elvira Velez, tendo a placa toponímica da Rua Helena Félix sido descerrada por Luzia Martins, acompanhada pelo Vereador Anselmo Aníbal, Presidente da Comissão Municipal de Toponímia, tendo ainda usado da palavra Luiz Francisco Rebello, representante da Sociedade Portuguesa de Autores na Comissão Municipal de Toponímia.

Ao longo de meio século, Maria Helena de Carvalho Félix (Porto/10.04.1920 – 7 ou 17.03.1991/Lisboa) dignificou o teatro português com o seu talento e criatividade, usando a sua formação de dois anos de canto no Conservatório de Música do Porto e o estudo em Londres, de 1961 a 1964, onde frequentava um curso de aperfeiçoamento de Arte de Representar no Instituto Literário, cidade onde conheceu  Luzia Maria Martins que trabalhava na BBC.

Já antes,  em 1941, Helena se havia estreado como atriz na revista O jogo da laranjinha, no Teatro da Trindade, a partir daí trabalhando em teatro musicado, da opereta e da revista. De 1949 até 1961, integrou a Companhia Amélia Rey-Colaço/Robles Monteiro instalada no Teatro Nacional D. Maria II, em mais de 50 peças. E no regresso de Londres, em 1964, com Luzia Maria Martins e Valentina Trigo de Sousa, fundou a Companhia Teatro Estúdio de Lisboa (TEL), a primeira companhia de teatro independente de Lisboa, instalada no Teatro Vasco Santana, na Feira Popular de Lisboa. O primeiro espetáculo aconteceu em dezembro de 1964,  sendo Joana de Lorena de Maxwell Anderson e até 1991 subiram a cena inúmeras peças de autores contemporâneos e de grande relevo, quer fossem portugueses – como  Sttau Monteiro, Fernando Luso Soares, Prista Monteiro e a própria Luzia Maria Martins – quer fossem estrangeiros – como John Osborne, Marguerite Duras, Rafael Alberti, Strindberg, Tchekov, Thornton Wilder ou Vaclav Havel.

Helena Félix também trabalhou no cinema, integrando os elencos de Aqui, Portugal (1947) de Armando de Miranda, Quando o Mar Galgou a Terra (1954) e Os Touros de Mary Foster (1972) de Henrique Campos, O Mal-Amado (1974) de Fernando Matos Silva e A Noite e a Madrugada (1985) de Artur Ramos.

Foi agraciada com  os Prémios Bordalo da Casa da Imprensa para melhor interpretação feminina (em 1968 e em 1970) nas peças A Louca de Chaillot de Jean Girardoux e Quem é esta mulher de Marguerite Duras e com a Medalha de Mérito Cultural (1990) do Ministério da Cultura. Helena Félix é ainda o topónimo de Ruas na Charneca da Caparica, Fernão Ferro e São Domingos de Rana.

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua Virgílio Martinho, surrealista do Café Gelo e do Teatro de Almada

Freguesia de Carnide
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A partir de uma sugestão de Francisco Nicholson, enquanto membro da Comissão Municipal de Toponímia, ficou o escritor Virgílio Martinho, surrealista do Grupo do Café Gelo e dramaturgo da Companhia de Teatro de Almada, inscrito na toponímia de Lisboa, pelo Edital municipal nº 82/1997, a ligar a Rua Prista Monteiro à Rua Eugénio Salvador, artérias de Carnide  que consagram outro dramaturgo e um ator.

Francisco Nicholson, enquanto representante da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) na Comissão Municipal de Toponímia,  sugeriu a homenagem na toponímia de Lisboa aos escritores Fernanda de Castro, Prista Monteiro e Virgílio Martinho, tendo a Rua Virgílio Martinho sido atribuída pelo Edital municipal de 30 de setembro de 1997, com a legenda «Dramaturgo/1928 – 1994», tal como a Rua Prista Monteiro o foi pelo  Edital nº 81/1997 da mesma data. Tanto a Rua Virgílio Martinho como a Rua Prista Monteiro foram inauguradas no mês em que se comemorou os 25 anos do 25 de Abril, no dia 16 de abril de 1999, sendo oradora Alice Vieira, que era então a representante da SPA na Comissão Municipal de Toponímia.

Virgílio Alberto Nunes Martinho (Lisboa/18.09.1928 – 04.12.1994/Almada), funcionário público e membro do Grupo do Café Gelo, estreou-se na ficção em 1958, com a novela fantástica Festa Pública a que se seguiu o romance  O Grande Cidadão (1963) que em 1976 adaptou para teatro, os contos Orlando em Tríptico e Aventuras (1961), Rainhas Cláudias ao Domingo (1972),  Relógio de Cuco (1973), A Caça (1974), o romance O Concerto das Buzinas (1976) onde relatou a sua experiência de 1949-1950 na prisão do Aljube e os contos O Menino Novo (1989). Martinho usou uma escrita comprometida com o tempo que vivia e crítica do Salazarismo, com alegorização ideológica.

Das várias tertúlias de cafés lisboetas que Virgílio Martinho frequentou nas décadas de 50 e 60 do séc. XX, destaque-se a do Café Gelo, próxima do movimento surrealista, com Alexandre O’Neill, António José Forte, António Maria Lisboa, Cruzeiro Seixas, Herberto Helder, Luiz Pacheco, Mário Cesariny, Mário Henrique Leiria e Pedro Oom, entre outros. Note-se que Martinho escreveu o texto de apresentação da exposição de António Maria Lisboa de 1961 no Instituto Superior Técnico, colaborou nas antologias Surrealismo/Abjeccionismo (1963) e Intervenção Surrealista (1966), prefaciou em 1967 a Crítica de Circunstância de Luiz Pacheco logo apreendida pela PIDE e com Ernesto Sampaio, escolheu os textos para a Antologia do Humor Português editada em 1969 pela Afrodite. Em 1991, fez também uma colagem de textos dos membros da tertúlia deste Café, O Gelo à Mesa, ainda hoje inédita.

O dramaturgo começou logo na peça  Filopópulus que só foi publicado em 1970 e deu então brado na imprensa quando em 1973 foi encenada por Joaquim Benite e levada à cena pelo Grupo de Teatro de Campolide. Depois, foi o sucesso com a sua  1383 (1977), o fresco histórico construído a partir das crónicas de Fernão Lopes, que também adaptou para a infância, intitulando-a 1383zinho (1983) . Foi uma fase importante de Virgílio Martinho, a partir de 1972, quando se consagrou quase em exclusivo ao Grupo de Teatro de Campolide, mais tarde designado Companhia de Teatro de Almada, onde adaptou para esta Companhia, entre muitos outras peças, A Vida do Grande D. Quixote de La Mancha e do Gordo Sancho Pança (1972) de António José da Silva, As Aventuras de Till Eulenspiegel (1978) de Charles de Coster ou Réus e Juizes (1986) a partir de textos de Gil Vicente e de António José da Silva sendo também a partir de textos vicentinos que construiu Amor a Quanto Obrigas (1990). Ainda nos anos setenta, a portuense Seiva Trupe produziu em 1975 Aqui é que a Porca Torce o Rabo,  com textos de Virgílio Martinho, Luís Humberto, Luíz Valdes e Fernando Luso Soares, tendo ainda Martinho feito os diálogos da curta-metragem  Os Prisioneiros (1977) de Sérgio Ferreira. Virgílio Martinho ainda publicou a farsa satírica em 2 atos A Sagrada Família (1980), O herói Chegado da Guerra e Outros textos de teatro e  a peça Pão de Mel, Lda.(1982), tendo ainda escrito a peça de teatro infantil Valentim e Valentina em palco em 1989 e publicada em 1993, bem como A Próxima Peça, em 1994, numa encomenda da Câmara Municipal do Seixal.

Virgílio estudou na Escola Industrial Machado de Castro e em 1949, quando transportava uma máquina de stencil do MUD juvenil, foi preso  preventivamente no Aljube, sendo presente a tribunal plenário na Boa Hora em julho do ano seguinte, junto com António Horácio Simões de Abreu, Henrique Correia dos Santos Carvalho, José Maria de Figueiredo Sobral, Manuel Gomes, entre outros.  Também trabalhou como escriturário na Câmara Municipal de Lisboa a partir de 1 de abril de 1953, passando rapidamente a desenhador pelas suas apitidões mas no 1º dia do ano de 1955 foi demitido por razões políticas e em 1956, foi admitido como desenhador tarefeiro da Direção Geral de Obras Públicas e Comunicações do Ministério do Ultramar.

Na sua vida pessoal, Virgilio Martinho teve um filho de seu nome Rui Martinho, aderiu ao PCP em 1976 e em 1981, saiu de Lisboa morar na Margem Sul, tendo morado sucessivamente no Laranjeiro, em Brejos de Azeitão, em Cacilhas e na Cova da Piedade.Em 1985, filiou-se no Sindicato dos Trabalhadores de Espectáculos.

A sua obra artística foi reconhecida com o Prémio 25 de Abril da Associação Portuguesa de Críticos (1984), como a personalidade homenageada no festival de Teatro de Nantes de 1988, com a Medalha de Ouro de Mérito Cultural da Câmara Municipal de Almada (1995), uma exposição sobre a sua vida na 12ª edição do Festival de Teatro de Almada e um número inteiro da revista Cadernos ( o nº de setembro de 1995) da Companhia de Teatro de Almada, bem como o seu nome foi dado a uma sala do Teatro Municipal Joaquim Benite. É também o topónimo de Ruas da freguesia de Laranjeiro e Feijó (Almada), de Paio Pires (Seixal) e de Alcochete.

Freguesia de Carnide
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua Elvira Velez no Dia Internacional da Mulher

Freguesia de Benfica
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Elvira Velez, atriz de palco, do teatro radiofónico, do cinema e da televisão , foi consagrada numa artéria de Benfica, inaugurada significativamente no Dia Internacional da Mulher, como hoje, mas no ano de 1993.

A Rua Elvira Velez  passou a ser o topónimo do Impasse I à Rua da Quinta do Charquinho por deliberação camarária de 03/02/1993 e consequente Edital municipal de  04/02/1993, com a legenda «Actriz/1892 – 1981», passados quase doze anos após o falecimento da atriz, a partir de uma sugestão de vários admiradores seus enviada por carta à edilidade alfacinha. A cerimónia de inauguração da artéria foi agendada para o Dia Internacional da Mulher de 1993, tendo sucedido nesse dia o mesmo com a Rua que consagrou a também atriz Helena Félix. O descerramento da placa toponímia foi feito pelo Vereador do Pelouro, Engº Rego Mendes, com o genro da homenageada, Igrejas Caeiro, tendo Appio Sottomayor usado da palavra em representação da Comissão Municipal de Toponímia.

Elvira Velez assina autógrafos, em 1960, no Jardim da Estrela
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Elvira Sales Velez Pereira (Lisboa/19.11.1892 – 08.04.1981/Caxias), nasceu na então freguesia de Santa Isabel e dos 6 aos 18 anos foi viver com a família para Torres Novas, já que o seu pai era aí o empresário do Teatro da vila e, mesmo contrariando a vontade dele, começou por isso mesmo a desejar ser atriz. Depois de mudar para Tomar conseguiu aí  entrar num grupo de teatro de amadores e de novo em Lisboa, após várias tentativas de chegar à carreira teatral, conseguiu finalmente estrear-se  aos 21 anos, em 1913, no Teatro Moderno da Rua Álvaro Coutinho, na opereta Os Grotescos, com o consagrado ator cómico Augusto Costa (Costinha).

Elvira Velez passou a interpretar  comédia, tragédia, farsa, revista e opereta, tendo representado em quase todos os teatros do País e tendo começado na Companhia do Teatro Moderno, passou para a de Chaby Pinheiro no Teatro Apolo, também pelo elenco do Teatro de S. Luís, pela Companhia Palmira Bastos (1921), a de Vasco Santana e Alves da Cunha, a do ABC do Parque Mayer e a do seu genro  Igrejas Caeiro no Teatro Maria Matos.

Também na rádio Elvira Velez se destacou, sobretudo como a sogra do folhetim radiofónico Lélé e Zéquinha (1952), da autoria de Aníbal Nazaré e Nélson de Barros, contracenando com Irene Velez e  Vasco Santana que desempenhavam os protagonistas, programa produzido por Igrejas Caeiro, na Emissora Nacional, embora a atriz também tenha colaborado no Rádio Clube Português.

No cinema, fez parte do elenco dos filmes Aldeia da Roupa Branca de Chianca de Garcia e Sorte Grande de Erico Braga (1938);  Um Homem às Direitas (1944) de Jorge Brum do Canto; Três Dias Sem Deus (1946) de Bárbara Virgínia; O Comissário de Polícia de Constantino Esteves e Duas Causas de Henrique Campos (1953); Agora é que São Elas (1954) uma revista filmada por Fernando Garcia; O Primo Basílio (1959) de António Lopes Ribeiro e ainda mais dois filmes todos em 1960: As Pupilas do Senhor Reitor de Perdigão Queiroga e Encontro com a Vida de Artur Duarte.

Na televisão, era presença frequente nas peças das Noites de Teatro da RTP, nas décadas de 60 e 70 do séc. XX, tendo também participado na série Lisboa em Camisa, realizada por Herlander Peyroteo em 15 episódios.

Na sua vida, Elvira Velez casou com o também ator Henrique Pereira, união da qual nasceu Irene Velez que viria a seguir a mesma carreira teatral, tendo a morada de família sido no nº 82 da Rua Passos Manuel.

Elvira Velez foi distinguida com o prémio Lucília Simões (1970) pela sua interpretação  no papel da Titi de A Relíquia, a partir do original de Eça de Queiroz, que esteve vários meses em exibição no Teatro Maria Matos e foi o fecho da sua carreira. Foi ainda agraciada com a Ordem de Santiago de Espada, assim como pela Caritas e pela Cruz Vermelha.

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua do autor da letra d’A Casa da Mariquinhas e d’A minha casinha

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Silva Tavares, o autor da letra do fado A Casa da Mariquinhas primeiro consagrado na voz de Alfredo Marceneiro – bem como da canção A minha casinha – para Milú no filme Costa do Castelo –, com a legenda «Poeta/1893 – 1964» deu  nome a uma Rua da freguesia do Lumiar, em 1972, oito anos após o falecimento do poeta.

Foi por sugestão do Presidente da CML de então, Engº Santos e Castro, que o nome de Silva Tavares foi consagrado na toponímia de Lisboa, unindo numa única artéria da Urbanização da Tóbis Portuguesa a Rua B com o troço da Rua A que lhe ficava paralelo,  pelo Edital municipal de 1 de fevereiro de 1972. Dezasseis anos mais tarde, pelo Edital de 29 de fevereiro de 1988, também a Rua II à Rua Silva Tavares foi incorporada neste arruamento, estendendo-se desde aí da Alameda das Linhas de Torres à Rua Ladislau Patrício.

João da Silva Tavares (Estremoz/27.06.1893 – 03.06.1964/Lisboa) trabalhou na Emissora Nacional, na Repartição dos Serviços de Produção, como chefe da Secção de Coordenação de Programas, de 1934 a 1963. Em paralelo, desenvolveu a sua faceta de dramaturgo e poeta, aquela que o ligou mais estreitamente ao fado, produzindo letras para Alfredo Marceneiro, como A Casa da Mariquinhas ou o Fado da Balada, assim como para Amália Rodrigues, sendo neste caso de salientar o Sabe-se lá ou o Que Deus me perdoe – ambos com música de Frederico Valério -, bem como  Fado de Cada Um (para o filme Fado de 1948) ou Céu da Minha RuaNa canção ligeira Silva Tavares também colaborou com diversos maestros como Tavares Belo, sendo mais famosa a sua parceria com António Melo, da qual nasceu a letra de 6 estrofes para Milú cantar no filme O Costa do Castelo (1943), intitulada A minha casinha que mereceu uma versão dos Xutos & Pontapés, a partir da década de oitenta do século passado, que a começaram a cantar como último tema dos seus concertos e que foi aquela que a Seleção Nacional de Futebol entoou após vencer o Euro 2016.

Silva Tavares começou a publicar poesia aos 18 anos, com a obra  Nuvens, corria então o ano de 1911, e a este livro seguiram-se Luz Poeirenta (1916), Poemas do Olimpo (1917), Claustro (1918), Gente Humilde (1934) e Viagem à Minha Infância (1950). Escreveu ainda  cerca de 90 peças de teatro de vários géneros, desde a ópera à farsa, passando muito pela revista, sendo de destacar a autoria do libreto da ópera D. João IV, para música de Rui Coelho, estreada em 1940, bem como o seu Vasco da Gama (1922) em verso e o Auto da Fundação das Caldas da Rainha (1935). Com  Virgínia Vitorino e Adolfo Simões Muller foi ainda em 1940  membro do Júri de Quadras do XII Concurso de Quadras de São João, promovido pelo Jornal de Notícias.