Sete novos topónimos na freguesia do Lumiar

Pelo Edital nº 38/2017, de 17/03/2017,  foram atribuídos sete novos topónimos na freguesia do Lumiar:  Largo Gérard Castello-Lopes, Rua Irisalva Moita, Rua Isabel Magalhães Colaço, Rua Joaquim Rodrigo, Largo Michel’Angelo Lambertini, Rua Padre Manuel Antunes e Rua Pedro Bandeira Freire.

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A Rua Flores do Lima nascida a 7 de julho e o Quarteto das 4 salas e 4 filmes

O cinema Quarteto, na Rua Flores do Lima, em 1977 (Foto: Vasques, Arquivo Municipal de Lisboa9

O cinema Quarteto, na Rua Flores do Lima, em 1977
(Foto: Vasques, Arquivo Municipal de Lisboa)

A obra Flores do Lima  da autoria de Diogo Bernardes, impressa em 1597,  deu origem em 1961 à Rua Flores do Lima que justamente tem entrada a partir da Rua Diogo Bernardes,  no Bairro de São Miguel da Freguesia de Alvalade, e na qual esteve sediado de 1975 até 2007 o cinema Quarteto, obra do empenhado Pedro Bandeira Freire para toda a cidade.

A Rua Diogo Bernardes foi atribuída pelo Edital municipal de 6 de março de 1952 e nove anos mais tarde,  os moradores de um arruamento paralelo à Avenida Estados Unidos da América cujo acesso se fazia a partir dessa artéria pediram a atribuição de denominação ao mesmo, tendo a Comissão Municipal de Toponímia proposto «que o referido arruamento se denomine: Rua Flores do Lima, porque Flores do Lima é o título de um livro da autoria de Diogo Bernardes, que teve várias edições», o que se veio a verificar pelo Edital municipal de 7 de julho de 1961.

Freguesia de Alvalade (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias)

O cinema Quarteto,obra do Arqt.º Nuno San-Payo, foi inaugurado no nº 16 da Rua Flores do Lima em 21 novembro de 1975, com 716 lugares e apresentando-se como o 1º complexo de salas de Lisboa,  característica justamente realçada  no slogan que usava: «4 Salas / 4 Filmes.». Foi gerido pelo cinéfilo Pedro Bandeira Freire, garantindo uma atmosfera de cinefilia com exibições exclusivas. Ficaram memoráveis as famosas maratonas de 24 horas de cinema, a exibição de A Religiosa (1967) de Jacques Rivette, um dos mais espantosos sucessos do pós 25 de Abril e o 2º maior êxito do Quarteto, o ter dado a conhecer em Portugal o realizador Martin Scorcese com Taxi Driver  (a partir de 15 de abril de 1977),e a estreia de All That Jazz (1979) de Bob Fosse, em exclusivo e nas quatro salas, sendo o maior êxito de sempre deste cinema, propriedade de Pedro Bandeira Freire e do seu sócio, o escritor Almeida Faria. O Quarteto albergou ainda numa das suas salas, em 1981, a Cinemateca, devido a um incêndio que destruiu o edifício da Rua Barata Salgueiro.

Encerrou no dia 16 de novembro de 2007, por ordem da Inspecção-Geral das Actividades Culturais (IGAC) que invocou falhas de segurança, sobretudo no combate a incêndios. Pedro Bandeira Freire faleceu 5 meses depois, a 17 de abril de 2008, aos 68 anos de idade. Em 2014, o edifício passou para a Igreja da Plenitude de Cristo, de protestantes evangélicos.

Freguesia de Alvalade (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias)

O Apolo 70 na Avenida do autor d’As Pupilas do Senhor Reitor

O cinema Apolo 70 na Avenida Júlio Dinis em 1977 (Foto: Vasques, Arquivo Municipal)

O cinema Estúdio Apolo 70 na Avenida Júlio Dinis em 1977
(Foto: Vasques, Arquivo Municipal)

A artéria do início do séc. XX – primeiro Rua e depois Avenida – que perpetua em Lisboa o escritor portuense Júlio Dinis, autor de As Pupilas do Senhor Reitor e criador do romance campesino, acolheu em 1971 o cinema Estúdio Apolo 70, no Drugstore do mesmo nome, simbolizando a sua modernidade com a colagem à chegada do homem à Lua no Programa Apollo, que na 5ª missão tripulada – Apollo 11 – conseguiu  realizar a primeira alunagem, no dia 20 de julho de 1969.

Júlio Dinis começou por ser topónimo lisboeta com a categoria de Rua, através da deliberação camarária de 4 de fevereiro de 1909, passando a Avenida dezasseis anos depois, pelo Edital municipal de 8 de junho de 1925, que também tornou Avenidas as Ruas António de Serpa, Barbosa du Bocage, Elias Garcia, João Crisóstomo e Visconde de Valmor.

 em 26 de maio de 1971 foi inaugurado no nº 10 A da Avenida Júlio Dinis o Drugstore Apolo 70, com o nome que se dava então na Europa aos centros comerciais. No dia seguinte, abriu nele uma sala de cinema com 300 lugares, o Estúdio Apolo 70, planificado pelo Arqº Augusto Silva e decorado por Paulo Guilherme. A programação estava a cargo de Lauro António (entre 1969 e 1985) que escolheu como filme de estreia O Vale do Fugitivo, de Abraham Polonsky, um western que era uma metáfora da guerra do Vietname. O cinema fechou em 1990 e o seu espaço foi ocupado por um restaurante.

Branco e Negro, 13 de setembro de 1896

Branco e Negro, 13 de setembro de 1896

Júlio Dinis é o pseudónimo do médico Joaquim Guilherme Gomes Coelho (Porto/14.11.1839-12.09.1871/Porto) mas que se notabilizou sobretudo pela escrita, considerado cultor da transição entre o romantismo e o realismo, através dos títulos As Pupilas do Senhor Reitor (1867), publicado no ano anterior em fascículos no Jornal do PortoUma Família Inglesa (1868), também publicado no ano anterior em fascículos no Jornal do Porto; A Morgadinha dos Canaviais (1868); as novelas Serões da Província (1870); Os Fidalgos da Casa Mourisca (1871). Postumamente, foram acrescentados à sua obra impressa os volumes Poesias (1873), Inéditos e Esparsos (1910) e Teatro Inédito (1946-1947). No decorrer do séc. XX  os seus romances foram diversas vezes adaptados ao cinema e mais tarde, também à televisão.

Formado em medicina na Escola Médica do Porto,em 27 de julho de 1861,  passou a maior parte da sua vida entre o Porto e Ovar, e por ter contraído tuberculose não chegou a exercer medicina e ocupou-se com a escrita, tendo também publicado textos literários em A Grinalda,  O Jornal do Comércio, Semana de Lisboa e Serões. Contudo, foi lente substituto no corpo docente da Escola Médica-Cirúrgica do Porto. Júlio Dinis também usou o pseudónimo de Diana de Aveleda, com que assinou pequenas narrativas ingénuas como Os Novelos da Tia Filomena e o Espólio do Senhor Cipriano (1862 e 1863), assim como  pequenas crónicas no Diário do Porto.

Júlio Dinis ainda foi duas vezes para a Madeira, considerada na época um lugar eficaz para a cura da tuberculose, mas acabou por falecer antes de completar 32 anos de idade, como antes acontecera a sua mãe e aos seus 8 irmãos.

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

A Rua do pintor romântico Francisco Metrass e as duas vidas do cinema Europa

Grupo de artistas. Em primeiro plano, da esquerda para a direita, José Rodrigues, António Manuel da Fonseca, Francisco Augusto Metrass; em segundo plano João Cristino da Silva e Tomás da Anunciação e Vitor Figueiredo Bastos (Foto: José Leitão Bárcia, Arquivo Municipal de Lisboa)

Em baixo da esquerda para a direita: José Rodrigues, António Manuel da Fonseca, Francisco Metrass; em cima: João Cristino da Silva, Tomás da Anunciação e Vítor Bastos
(Foto: José Leitão Bárcia, depois de 1890, Arquivo Municipal de Lisboa)

O romântico pintor Francisco Metrass   foi colocado numa artéria do Bairro de Campo de Ourique em 1880 e já no séc. XX foi nela que se ergueu o Cinema Europa que foi também Europa Cinema.

Por deliberação camarária de 23 de agosto de 1880 e consequente Edital de 30 de agosto, Rua Francisco Metrass foi o topónimo dado à  3ª rua nova aberta paralelamente à Rua Ferreira Borges ou Rua nº 4 aberta nos terrenos da antiga Parada de Campo de Ourique, em memória do pintor que falecera 19 anos antes. Por esse mesmo Edital municipal foi também colocado na Rua nº 3 o pintor Tomás da Anunciação, falecido no ano anterior, bem como a Rua do Quatro de Infantaria (na Rua nº 1 ) e a Rua Ferreira Borges (na Avenida de Campo de Ourique).

Cinema Europa na década de 30 do séc. XX

Cinema Europa na década de 30 do séc. XX

 

Numa esquina da Rua Francisco Metrass abriu portas em 14 de fevereiro de 1931 o Cinema Europa, traçado pelo Arqº Raul Martins e que se tornou um dos edifícios emblemáticos de Campo de Ourique. Em 1936 foi modificado na fachada e no interior, segundo um plano do Arqº João Carlos Silva mas acabou por ser demolido em 1957. No seu lugar foi construído em 1958 o Europa Cinema, esboçado pelo Arqº Antero Ferreira e com uma escultura em alto-relevo na fachada, da autoria de Euclides Vaz, com 843 lugares à disposição. Assim, funcionou como sala de cinema até 1981 e em 2010 foi demolido.

Europa Cinema após 1957

Europa Cinema após 1958

Francisco Augusto Metrass ( Lisboa/07.02. 1825 – 14.02.1861/Funchal) foi um pintor da época romântica que ingressou   aos 11 anos, em 1836, como aluno voluntário da Academia das Belas Artes de Lisboa, onde foi colega de Tomás da Anunciação, Manuel Maria Bordalo Pinheiro e João Cristino da Silva e teve como professores Joaquim Rafael e António Manuel da Fonseca. Dedicava-se sobretudo à pintura de retratos até partir em 1844 para estudar para Roma, com os pintores de origem alemã do Grupo dos Nazarenos Cornelius e Overbeck, e pintar Jesus acolhendo as crianças. No regresso, empenhou-se sobretudo na pintura histórica mas face à falta de reconhecimento vendeu toda a sua obra a um corretor de leilões e estabeleceu-se a tirar retratos na zona do Cais do Sodré. Voltou depois a partir, para Paris, onde estudou as obras de Rubens, Rembrandt e Van Dyck. De volta a Portugal em 1853, com melhor técnica, o rei D. Fernando comprou-lhe o quadro Camões na Gruta de Macau e a sua obra passou a ser admirada pelo grande público e, a partir do ano seguinte exerceu também como professor de pintura histórica na Academia de Belas Artes.  O seu quadro Só Deus (1856), foi considerado a mais poderosa imagem do romantismo português.

Francisco Metrass morreu aos 36 anos de idade, vítima de tuberculose e a sua obra está representada no Museu do Chiado/ Museu de Arte Contemporânea.

Freguesia de Campo de Ourique                                                                                 (Planta: Sérgio Dias)

 

O regenerador Martens Ferrão na rua onde se ergueu o Cinema Mundial

O Cinema Mundial, na Rua Martens Ferrão, em 1967 (Foto: Augusto de Jesus Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Cinema Mundial, na Rua Martens Ferrão, em 1967
(Foto: Augusto de Jesus Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

O político regenerador conhecido como Martens Ferrão está desde 1902 perpetuado numa artéria de Picoas, graças a um Edital da câmara presidida pelo Conde d’Ávila que perpetuou mais onze políticos regeneradores em artérias lisboetas e nesta rua partilhada hoje pelas freguesias das Avenidas Novas e de Arroios nasceu há 51 anos o Cinema Mundial.

O Edital de 29 de novembro de 1902 colocou nesta zona, em Avenidas, os nomes dos políticos António de Serpa, Casal Ribeiro, Duque D’Ávila, Hintze Ribeiro (hoje Avenida Miguel Bombarda), José Luciano (hoje Avenida Elias Garcia),  e em Ruas, os nomes de Andrade Corvo, António Enes, Barros Gomes (hoje Rua Viriato), Latino Coelho , Luís Bivar (hoje Avenida), Martens Ferrão e Pinheiro Chagas, bem como o médico Pedro Nunes e o matemático e cartógrafo Filipe Folque.

Martens Ferrão no Diário Ilustrado de 3 de novembro de 1890

Martens Ferrão no Diário Ilustrado de 3 de novembro de 1890

Sessenta e três depois, a 22 de setembro de 1965 abriu no nº 12 A da Rua Martens Ferrão o Cinema Mundial, concebido pelo Arqº Manuel Ramos Chaves. Encerrou em 2004, no ano seguinte a ter exibido a última obra de João César Monteiro (Vaivém) .

Este topónimo perpetua na memória da cidade João Baptismo da Silva Ferrão de Carvalho Martens (Lisboa – Olivais/28.01.1824 – 15.11.1895/Florença), mais conhecido como Martens Ferrão, um jurisconsulto que se destacou sobretudo como um deputado muito interventivo do Partido Regenerador (de 1854 a 1871) e com capacidade de produzir propostas de legislação, ficando também famoso por ter apoiado o governo do Duque d’Ávila na decisão de proibir as Conferências do Casino ( que decorreram de 22 de março a 26 de junho de 1871). Foi também ministro da justiça e negócios eclesiásticos (de 16 de março de 1859 a 4 de julho de 1860) e ministro do reino (1866 a 1868), substituindo António Augusto Aguiar no Ministério dos Negócios do Reino e assim promoveu a Lei da Administração Civil de 26 de junho de 1867, conhecida como Código Martens Ferrão, cujo mapa final de divisão do território ao ser publicado em dezembro gerou descontentamento generalizado e manifestações populares que levaram à queda do governo em janeiro de 1868 ( a Janeirinha) e à revogação da reforma.

Martens Ferrão exerceu ainda funções de procurador geral da Coroa e da Fazenda (1868- 1885), par do reino ( 1871), conselheiro de Estado (1874), aio dos príncipes na educação literária e científica (1874) e embaixador de Portugal junto da Santa Sé (1885-1895). Refira-se ainda que a partir de 1858 foi também lente da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, afirmando-se como um reputado especialista em Direito.

Fregeusias de Arroios e das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias de Arroios e das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

A Avenida de Roma que alimentou três cinemas

Cinema Alvalade nos anos 50 do séc. XX (Foto: Salvador de Almeida Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Cinema Alvalade nos anos 50 do séc. XX
(Foto: Salvador de Almeida Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Avenida de Roma, hoje pertença das Freguesias de  Alvalade e do Areeiro, nasceu no último mês do ano de 1930 e nesta grandiosa artéria se ergueram sucessivamente, a partir do fim da II Guerra, três cinemas: o  Alvalade, 0 Roma e o Londres.

Antes era a  Avenida nº 19 do plano de melhoramentos aprovado por deliberação camarária de 7 de abril de 1928, compreendida entre a Rotunda a norte da Avenida de António José de Almeida (hoje, Avenida Guerra Junqueiro) e a Avenida Alferes Malheiro (hoje, Avenida do Brasil), que a partir do Edital de 27 de dezembro de 1930 passou a ser a Avenida de Roma.

Como existe uma Via Lisbona em Roma e embora desconheçamos a sua data de atribuição, a Avenida de Roma em Lisboa pode ter sido atribuída apenas como retribuição. As atas das sessões de Câmara apenas informam que em 11 de dezembro de 1930, por proposta José Vicente de Freitas, que presidia então à Câmara,  foram sugeridos como topónimos as Avenidas de Roma, Avenida General Roçadas e a do Poeta Mistral «Considerando que se torna necessário dar nomes a diversos arruamentos da Capital que não possuem ainda nomenclatura», e todas foram aprovadas por unanimidade. Já antes, em 20 de março,  o mesmo Presidente da CML havia proposto um voto de sentimento pela morte do General Primo de Rivera que foi aprovado por aclamação. Sabemos também que o primeiro-ministro italiano, Benito Mussolini, em 11 de fevereiro de 1929, ratificou com Pio XI a Concordata de São João Latrão, pela qual se criava o Estado do Vaticano, o Papa  recebia uma indemnização monetária pelas perdas territoriais, o ensino religioso passava a ser obrigatório nas escolas italianas e o catolicismo a religião oficial da Itália e que  a 19 de abril desse mesmo ano de 1929, Benito Mussolini foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem Militar da Torre e Espada portuguesa.

Cinema Roma nos anos 50 do séc. XX (Foto: Salvador de Almeida Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Cinema Roma nos anos 50 do séc. XX
(Foto: Salvador de Almeida Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Dos três cinemas da Avenida de Roma o primeiro a nascer foi o Cinema Alvalade, sob o traçado dos Arqºs Lima Franco e Filipe de Figueiredo em 1945, mas inaugurado em 8 de dezembro de 1953 no nº 100 da Avenida de Roma e esquina com a Rua Luís Augusto Palmeirim. Era um cinema de estreia com mais de mil lugares. Fechou portas em 1985 e o espaço foi arrendado à Igreja Universal do Reino de Deus até 2000, sendo demolido em 2003. No seu lugar está desde 2009 outro edifício onde está o Cinema City Alvalade com 389 lugares.
Em 15 de março de 1957 foi inaugurado o Cinema Roma no nº 14 da Avenida de Roma, da autoria de Licínio Cruz  e com 1107 lugares. É desde 1997 a sede da Assembleia Municipal de Lisboa, e designado o espaço como Fórum Lisboa, que voltou em 2016 a ter sessões regulares de cinema aos fins de semana, exibindo filmes realizados entre 1970 e 1990.
E finalmente, a 30 de janeiro de 1972, abriu portas no nº 7-A da Avenida de Roma o Cinema Londres, que originalmente possuía mais de 400 lugares, segundo o risco de Eduardo Goulart de Medeiros . A Socorama, distribuidora de cinema ligada à família Castello Lopes, ocupou o Londres até 21 de fevereiro de 2013. E a 1 de setembro de 2015 abriu neste espaço a Londres Shopping, uma loja chinesa.

O Cinema Londres em 1977 (Foto: Vasques , Arquivo Municipal de Lisboa)

O Cinema Londres em 1977
(Foto: Vasques , Arquivo Municipal de Lisboa)

O Cinearte e o Largo dos Santos Mártires Veríssimo, Máxima e Júlia

O Cinearte no Largo de Santos em 1960 (Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Cinearte no Largo de Santos em 1960
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Cinearte foi inaugurado em 1940 na via pública que na época se denominava Rua Vasco da Gama e hoje conhecemos por Largo de Santos, topónimo evocativo dos Santos Mártires Veríssimo, Máxima e Júlia.

O Cinearte foi  encomendado pela Sociedade Administradora de Cinemas, Lda. ao Arqº. Rodrigues Lima (1909-1980) que planificou um volume modernista coberto por terraço, contrastante com a traça urbana envolvente e que está classificado como Imóvel de Interesse Público (Decreto n.º 2/96, DR, 1.ª série-B, n.º 56 de 06/03/ 1996). Começou a ser construído em 1938 na então Rua Vasco da Gama e abriu ao público em 14 de março de 1940, encerrando como cinema  em dezembro de 1981. A partir de 1989 o nº2-A do Largo de Santos passou a ser a casa da companhia de teatro A Barraca.

Só 7 anos após a abertura de portas do Cinearte é que  nasceu o Largo de Santos, formado pelo troço da Rua Vasco da Gama que tinha os prédios com os nºs 68 a 172 e pela Rua Vitorino Damásio, através do Edital municipal de 17 de junho de 1947. O topónimo ligava-se à então Calçada de Santos (desde 30 de dezembro de 1974 é a Calçada Ribeiro dos Santos) e à Paroquial de Santos-ao-Velho, junto ao antigo Mosteiro de Santos-o-Velho (e Embaixada de França no ano seguinte), nome que se relaciona com os três irmãos Santos Mártires Veríssimo, Máxima e Júlia, mortos em 303 ou 304 nesta cidade de Lisboa, a mando do imperador romano Diocleciano por confirmaram a sua fé cristã e cujos corpos terão dado à praia de Santos, segundo a tradição.

A Rua Vasco da Gama em 1901 (Foto: Machado & Souza; Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua Vasco da Gama em 1901 (Foto: Machado & Souza, Arquivo Municipal de Lisboa)

Talvez tenha existido um  templo tardoromano do século IV provavelmente, dedicado aos santos mártires Veríssimo, Máxima e Júlia, e sobre ele (ou não) foi edificada uma igreja em 1147 por determinação de D. Afonso Henriques, já que a devoção lisboeta a estes Santos Mártires seria já enraizada. A igreja e o Mosteiro de Santos-o-Velho foram doados pelo filho do 1º rei português, D. Sancho I , em 1194, aos freires da Ordem de Santiago, mas que em 1290, por força da partida dos cavaleiros para o sul do país para fazerem a Reconquista, estava sobretudo ocupados pelas mulheres, filhas e viúvas daqueles monges-cavaleiros, convertendo-se no Mosteiro das Comendadeiras da Ordem de Santiago, que acabou por ser transferido para Coimbra e regressar a Lisboa em 1490, mas desta feita para a zona de Xabregas (Calçada da Cruz da Pedra) que ficou conhecido como Santos-o-Novo.

Já em Santos-o-Velho, o espaço foi arrendado a Fernão Lourenço, banqueiro e armador. Em 1497, por acordo entre as partes passou a ser um Paço Real e foi sendo ora morada de reis ora morada dos nobres Lancastre que o conseguiram comprar às Comendadeiras em 1629. Já a Igreja Paroquial de Santos-o-Velho teve intervenções em 1696 do arqº João Antunes  e obras de restauro em 1861 e 1876. Em 1870, o Palácio foi arrendado ao Ministro de França em Lisboa, o Conde Armand, que aí instalou a legação francesa e em 1909 o governo francês comprou mesmo o edifício, no qual instalou em parte, em 1937, o Institut Français e a partir de 1948, a Embaixada de França.

Largo de Santos -Freguesia da Estrela (Planta: Sérgio Dias)

Largo de Santos -Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias)

A Avenida Torre de Belém do Cinema Restelo

Freguesia de Belém (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Belém
(Foto: Sérgio Dias)

Desde 1945 que a Avenida Torre de Belém é a  via da capital que segue a direito para o Baluarte de São Vicente – estrutura mais conhecida como Torre de Belém- , e na qual, na década seguinte, se ergueu o Cinema Restelo.

Belém acolheu em 1940 a Exposição do Mundo Português e nessa mesma década os arruamentos da Baixa lisboeta receberam um novo tipo de placa toponímica – a Tipo III – mais trabalhada e luxuosa, para Lisboa exibir dois postais de modernidade. A edilidade também denominou a Avenida CD da Encosta da Ajuda, pelo Edital de 7 de agosto de 1945, como Avenida Torre de Belém que ficou contida, quase três anos depois, pelo Edital de 29 de abril de 1948, entre a Avenida da Índia e a Avenida do Restelo.

Nos anos 50, procedeu-se a um aterro e terraplanagem da zona junto à Torre de Belém, para facilitar a estada e passeio junto a este monumento nacional desde 1907, icónico de uma época de grandeza e modernidade de Portugal. Em 1955 foi exposto no Pavilhão Municipal da Feira Popular o Plano de Urbanização da Encosta do Restelo. Mas já a partir do ano anterior, e durante 45 anos se exibia na Avenida Torre de Belém o Cinema Restelo, da Sociedade Cinema Restelo, Lda.,  para substituir o antigo cinema Belém-Jardim da Rua Bartolomeu Dias, através de um projeto de 1952 dos serviços técnicos da Câmara Municipal de Lisboa (da autoria de Carlos João Chambers Ramos e Carlos Manuel Ventura de Oliveira Ramos), colocando à disposição 1064 lugares, que mais tarde chegaram a ser cerca de 1400. Ainda hoje este Cinema Restelo tem um grupo que lhe é dedicado no Facebook.

 

Cinema Restelo na Avenida Torre de Belém em 1960 (Foto: Arnaldo Madureira., Arquivo Municipal de Lisboa)

Cinema Restelo na Avenida Torre de Belém em 1960
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

A icónica Torre de Belém foi erguida num afloramento rochoso da  praia de Belém em 1520, cercada então pelas águas em todo o seu perímetro, denominada em honra do padroeiro da cidade de Lisboa Baluarte de São Vicente a par de Belém, mas também conhecida como Torre de São Vicente ou Baluarte do Restelo. Esta fortificação integrava o plano defensivo da barra do rio Tejo traçado por D. João II que incluía também o Baluarte de Cascais ou Torre de Santo António de Cascais (1488) e o Baluarte da Caparica ou Torre de São Sebastião da Caparica (1481).  A obra só começou em 1514, no reinado de D. Manuel, sendo arquiteto Francisco de Arruda e as obras prosseguiram a cabo de Diogo Boitaca, que dirigia em paralelo as da construção do Mosteiro dos Jerónimos.

Com a evolução dos meios de ataque e defesa, esta estrutura  militar foi gradualmente, perdendo a sua função original de defesa da barra do Tejo, tendo ao longo dos séculos sido utilizada como registo aduaneiro, posto de sinalização telegráfico e farol. Também os seus paióis serviram de masmorras para os presos políticos durante o reinado de Filipe I de Portugal e para o Arcebispo de Braga (1586-1641) por ter feito frente a D. João IV, defendendo Espanha.

A Torre de Belém,  considerada pela UNESCO Património Mundial desde 1983, foi também eleita uma das Sete Maravilhas de Portugal em 7 de julho de 2007.

Nesta artéria, para além do Cinema Restelo nasceu também em 1954 The AngloPortuguese Telephone e em 1965 A Familiar, Sociedade Cooperativa de Pão, Crédito e Consumo, para além de contar com inúmeras moradias  de que se destacam as do nº 26 e nº 30 do Arqº Raul Francisco Tojal; a do Engº António da Cunha Coutinho no nº 10; a do nº 20 em 1943 e a do nº 15 em 1947, ambas do arqº Manuel Joaquim Norte Júnior; a do nº 32  do Arqº Vasco Regaleira que foi Prémio Municipal 1945; a do Arqº João Simões no nº 22 que foi Prémio Valmor 1947; a da autoria do Arqº Jorge Segurado de 1948 e  já demolida; a do nº 14 da autoria de Victor Palla e Bento d’Almeida, bem como a do nº 18 do Arqº Alberto José Pessoa, ambas em 1964; a do nº 9 do Arqº Rodrigues Fernandes e a nº 12  do Arqº Carlos Tojal, ambas de 1966.

Freguesia de Belém (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Belém
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Bartolomeu Dias do Cinema Belém Jardim

O Cinema Belém Jardim na Rua Bartolomeu Dias em 1953 (Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua Bartolomeu Dias estabelecida em Belém desde 1911, sobre a Rua do Bom Sucesso, acolheu em 1925 nos nºs 25 e 27 o Cinema Belém Jardim que funcionou como tal até ao ano de 1968.

A antiga Rua Direita do Bom Sucesso passou a  Rua do Bom Sucesso por Edital municipal de 8 de junho de 1889 e mais tarde, pelo Edital de 7 de agosto de 1911 ganhou a denominação de Rua Bartolomeu Dias. A legenda «Navegador/Século XV» foi colocada cerca de 46 anos depois, por proposta de 4 de junho de 1957 da Comissão Consultiva Municipal de Toponímia.

Em junho de 1925 abriu portas nesta artéria o Cinema Belém Jardim que veio a fechar em 1968, embora a partir de 1954  tenha sofrido com a concorrência do moderno Cinema Restelo, na Avenida Torre de Belém.  No entanto, encerrou no decorrer da II Guerra Mundial, para servir de depósito de cereais com destino à Suíça.  O Cinema Belém Jardim estava situado entre a fábrica de artigos de borracha Repenicado & Bengala que ocupava os nºs 21 e 23 e 29 a 33 do arruamento e este conjunto de edifícios da Rua Bartolomeu Dias foi demolido entre 1989 e 1990, por ocasião das obras para a construção do Centro Cultural de Belém.

Bartolomeu Dias no Museu Militar (Foto: José Pascoal)

Bartolomeu Dias no Museu Militar
(Foto: José Pascoal)

Bartolomeu Dias, descendente de Dinis Dias e sobre o qual se ignora onde e quando nasceu foi um navegador português, a quem D. João II entregou o comando de duas caravelas, para ir colher notícias do Prestes João, em 1486. Entre várias peripécias descobriu primeiro a angra dos Ilhéus (hoje, baía de Spencer) e o cabo das Voltas; a tripulação não quis passar além do que apelidaram Rio do Infante e a acabaram por dobrar o cabo  a que Bartolomeu Dias deu o nome de Tormentoso e D. João II substituiu por Boa Esperança (1487) . Já em 1500, Bartolomeu Dias acompanhou Pedro Álvares Cabral na viagem à Índia em que se descobriu o Brasil.

No âmbito da Expo 98  os arruamentos do evento ficaram com topónimos ligados aos oceanos pelo que quando o concelho de Lisboa recebeu este território passou a somar também o Largo Bartolomeu Dias ao Parque das Nações.

Freguesia de Belém (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Belém
(Planta: Sérgio Dias)

A Avenida do Duque d’Ávila e o cinema dos três nomes

Freguesias das Avenidas Novas, de Arroios e do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias das Avenidas Novas, de Arroios e do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

O político liberal e também conde, marquês e duque de Ávila,  desde 1902 que tem assento numa avenida lisboeta onde a partir do primeiro dia do ano de 1930 abriu um cinema que foi sendo denominado  sucessivamente Trianon, Palácio e Avis.

Foi pelo Edital municipal de 29 de novembro de 1902  que nasceu a Avenida Duque d’Ávila, na época situada entre a Estrada do Arco do Cego e a Rua Marquês de Sá da Bandeira e que nos nossos dias começa na Rua Alves Redol e termina na Rua Marquês de Sá da Bandeira e na Rua Marquês de Fronteira. Foi por este Edital da presidência do Conde de Ávila (António José de Ávila – 07.11.1842 – 13.08.1917 – 2º Conde e Marquês de Ávila) que se fixaram nas Avenidas Novas um conjunto de de 15 topónimos referentes essencialmente a políticos regeneradores da Monarquia Constitucional, a saber:  em Avenidas, os nomes dos políticos António de Serpa, Casal Ribeiro, Duque d’Ávila, Hintze Ribeiro (hoje, Avenida Miguel Bombarda), José Luciano (hoje, Avenida Elias Garcia), e em Ruas, os também políticos Andrade Corvo, António Enes, Barros Gomes (hoje, Rua Viriato), Latino Coelho, Luís Bivar ( que passou a Avenida em 1926), Martens Ferrão,  o político e escritor Pinheiro Chagas, o  matemático e cartógrafo Filipe Folque,   e o médico Pedro Nunes.

O Cinema Avis na Avenida Duque d'Avila em 1960 (Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Cinema Avis na Avenida Duque d’Ávila em 1960
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

Já o cinema Trianon abriu portas nesta Avenida no dia 1 de janeiro de 1930, garantindo lugar para 733 espetadores, sendo então uma das maiores salas de Lisboa. Augusto de Ornelas Bruges comprara  para o efeito terreno na Avenida Duque d’Ávila, frente à antiga estação dos elétricos do Arco do Cego. Mais tarde, o cinema  mudou de nome para Palácio e voltou  a ser reaberto em 1956 com a designação de Avis, mantendo-se assim durante mais de 30 anos até encerrar no final dos anos 80 e ser demolido na década seguinte para dar lugar à construção de prédios.

António José de Ávila (Faial/08.03.1806 – 03.05.1881/Lisboa), 1º conde (1864) e 1º marquês (1870) de Ávila e único duque de Ávila e Bolama (1878), foi um político Cartista, cuja carreira acompanhou os altos e baixos motivados pelas guerras liberais. Desempenhou as funções de deputado, conselheiro de Estado efetivo, presidente da Câmara dos Pares, ministro das Finanças, Presidente do Conselho de Ministros por três vezes (1868, 1870/71, 1877/78) e ainda, de embaixador junto das cortes de Paris e de Madrid.

Entrou como sócio da Academia Real das Ciências em março de 1855 e pouco depois foi nomeado vice-presidente, tendo sido também agraciado com inúmeras condecorações portuguesas e estrangeiras, de que se destacam a  Grã-Cruz da Ordem de Nª Srª da Conceição e de S. Tiago, a Ordem da Torre e Espada e a comenda da Ordem de Cristo.

Freguesias das Avenidas Novas, de Arroios e do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias das Avenidas Novas, de Arroios e do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)