José Régio e Vergilio Ferreira em Avenidas lisboetas

Vergílio Ferreira (ao centro) com Régio e o irmão Júlio, em Portalegre
(Foto: © CER)

Ambos escritores, ambos ensaístas, ambos professores do ensino liceal, estão  José Régio e Vergílio Ferreira de igual modo consagrados em Lisboa em Avenidas, dois homens que esgrimiram argumentos numa recíproca admiração e longa amizade que os ligava.

Em 1965, ano em que Régio foi um dos duzentos subscritores de uma declaração de solidariedade com a Direção da Sociedade Portuguesa de Escritores e o Júri do Grande Prémio que o atribuiu a Luandino Vieira, Vergílio Ferreira declarou «Régio é hoje o maior de todos nós» e em 1969, redigiu o artigo Na morte de Régio, mais tarde inserido no Espaço do Invisível II (1991).

Freguesia de Marvila

Quinze anos mais novo que José Régio, Vergílio António Ferreira (Gouveia – Melo/28.01.1916 – 01.03.1996/Lisboa) nasceu às 15 horas de uma sexta-feira, filho de António Augusto Ferreira e Josefa Ferreira, que emigraram deixando-o ao cuidado das tias. Já a Avenida lisboeta que homenageia o autor de Aparição resultou da aprovação por unanimidade em sessão de Câmara, cinco dias após o seu falecimento, de uma proposta de atribuição do seu nome a uma artéria da cidade, o que se concretizou através do Edital municipal de 24 de setembro de 1996 na Rua M 3 do Bairro do Armador, na freguesia de Marvila.

Vergílio Ferreira defendeu que «Toda a biografia é uma rede de sinais que apontam o vazio do que jamais poderemos saber. Mas é nesse vazio que falta que está a razão do que chegou até nós» e assim narramos que o seu primeiro romance se intitulava O caminho fica longe (1939), a que se seguiram Onde Tudo Foi Morrendo (1944) e Vagão J (1946). Em 1949, foi a vez do romance Mudança que faz a passagem do neorrealismo para o existencialismo. E a partir daí construiu uma obra literária onde pontuam romances, contos, diarística e ensaios, a interrogar o mistério da existência, o destino da humanidade, o lugar do Homem no Mundo, o absurdo da vida e da morte, a solidão e os problemas da condição humana, de que se salientam Manhã Submersa (1954), Aparição(1959), Cântico Final (1960), Alegria Breve (1965) Nítido Nulo (1971), Signo Sinal (1979), Para Sempre (1983), Uma Esplanada sobre o Mar (1987), Até ao Fim (1987), Em Nome da Terra (1990) ou Na Tua Face (1993).

Algumas das suas obras serviram de argumento para filmes como o de Manuel Guimarães a partir de Cântico Final (1974) ou  o de António Macedo a partir do conto «Encontro» (1978), bem como também o fez  Lauro António com a Manhã Submersa (1979), com o conto «Mãe Genoveva» (1983) para uma série da RTP, e ainda com as curtas Prefácio a Vergílio Ferreira (1975) e Vergílio Ferreira Numa Manhã Submersa (1979).

Licenciado em Filologia Clássica desde 1940, Vergílio Ferreira foi também o ensaísta que publicou Sobre o Humorismo de Eça de Queirós (1943), Da Fenomenologia a Sartre (1963) ou os 5 volumes Espaço do Invisível (1965, 1976,1977, 1987, 1998), para além de ter sido professor de Português e de Latim do ensino secundário em Faro, Bragança, Évora, Gouveia e, finalmente, a partir de 1959, no alfacinha Liceu Camões, tendo desde então fixado residência nesta cidade, no Bairro de Alvalade, com a sua mulher Regina Kasprzykowsky, professora polaca que se encontrava refugiada em Portugal da Guerra, com quem casara em 1946.

Vergílio Ferreira foi galardoado com o Prémio Camilo Castelo Branco (1960) por Aparição, o Prémio da Casa da Imprensa (1965) por Alegria Breve, a comenda de Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1979), o Prémio D. Dinis da Casa de Mateus (1981), o Prémio PEN Clube (1983) por Para Sempre bem como do Município de Lisboa, o Prémio do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários pelo conjunto da sua obra (1985), o Prémio da Associação Portuguesa de Escritores (1987) por Até ao Fim, o francês Prémio Femina (1990) por Manhã Submersa,  o Prémio Europália (1991) pelo conjunto da sua obra, o Prémio Camões (1992), o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (1994) por Na Tua Face, para além de ter sido eleito para a Academia Brasileira de Letras (1984) e para a Academia de Ciências de Lisboa (1992) e dar o seu nome à Biblioteca de Gouveia e aos Prémios Literários da Câmara Municipal de Gouveia e da Universidade de Évora.

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Régio, «As Encruzilhadas de Deus» e a Alameda António Sérgio

Publicado em 1936
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José Régio publicou em 1936 As Encruzilhadas de Deus, com capa e desenhos do seu irmão Júlio, nas Edições Presença – Atlântida de Coimbra e enviou esta obra a António Sérgio que lhe retribuiu com o seu parecer, em carta datada de 21 de setembro de 1936, escrita na Pensão Colaço de Alcoentre, sendo sabido que os dois escritores se corresponderam entre 1933 e 1958.

Desde a estreia de Régio em 1926 com Poemas de Deus e do Diabo, que o poeta vilacondense terá delineado manter a temática religiosa e foi assim reunindo os poemas que produzia neste âmbito, para intitular «Novos Poemas de Deus e do Diabo» mas de que acabou por resultar cerca de dez anos o novo título de 1936, por muitos considerado uma obra-prima com a sua poesia torrencial, reflexiva, lírica e dramática. Também em 1926, de  23 a 26 de abril, realizaram-se na Lusa Atenas sessões de divulgação da Seara Nova, dinamizadas por António Sérgio, a que  José Régio assistiu tendo depois colaborado na revista até 1940, ano em que António Sérgio e Mário de Azevedo Gomes abandonaram a da revista embora António Sérgio tenha regressado em 1947 e Régio em 1949, no n° 1116, de 28 de maio de 1949. Nesse ano de 1949, José Régio escreveu o artigo «O recurso ao medo», anunciado pelo jornal República de 16 de Janeiro, acabando por ser publicado num pequeno volume de 64 páginas dos Serviços Centrais da Candidatura de Norton de Matos, com o título genérico de «Depoimento contra Depoimento», numa clara alusão ao discurso «O meu Depoimento», de Salazar, de 7 de janeiro de 1949, no Palácio da Bolsa do Porto.

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António Sérgio, cujo cinquentenário da morte passa este ano, deu nome à Alameda António Sérgio na Freguesia de Santa Clara, onze anos após o seu falecimento, artéria que liga a Rua Jorge de Sena à Rua Vitorino Nemésio, atribuída através da publicação do Edital municipal de 23 de abril de 1980, na via identificada urbanisticamente como Impasse 1 e 2 da Quinta de Santa Clara à Ameixoeira.

António Sérgio de Sousa Júnior (Índia – Damão/03.09.1883 – 12.02.1969/Lisboa) foi um importante pensador do século XX, que em Portugal lançou a ideia do Cooperativismo, mas cuja vasta obra abarca também a teoria do conhecimento e a filosofia política, a pedagogia e a filosofia da educação, assim como a filosofia da história. Radicado em Lisboa desde 1893,  estudou no Colégio Militar, na Escola Politécnica e na Escola Naval, tendo sido oficial da Marinha Portuguesa até 1910.

A partir da implantação da República em 1910, António Sérgio dedicou-se ao mundo editorial, como colaborador da revista Águia (1910), onde conheceu Teixeira de Pascoais e Fernando Pessoa, para no ano seguinte ser o diretor da revista Serões. Em 1918-1919 ( durante o consulado sidonista), fundou e dirigiu a revista Pela Grei, para a qual convocou diversos especialistas para apresentar um programa de Fomento Nacional; a partir de 1923, colabora na revista Seara Nova, como membro da direção  com Raúl Proença e Jaime Cortesão, sendo assim convidado para ministro da Instrução no governo de Álvaro de Castro, onde se manteve apenas dois meses, tempo que lhe foi suficiente para criar o ensino para deficientes, o cinema educativo e o Instituto Português para o Estudo do Cancro (decreto de 29/12/1923).

Integrou também o grupo da Biblioteca Nacional a partir do qual  lançará em 1924 a revista Lusitânia (1924), sendo  mais tarde o diretor da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Depois, residiu na Travessa do Moinho de Vento, no Bairro da Lapa, de 1926 a 1969,  numa habitação traçada pelo Arqt.º Raúl Lino, com excepção do exílio parisiense de 1926 a 1933.

Por outro lado, António Sérgio para além de teórico de pedagogia foi também professor, quer ao ministrar lições particulares na residência de alunos durante o exílio parisiense – após a subida ao poder de António Oliveira Salazar e, de onde passou para Madrid, até ter sido abrangido por uma amnistia- quer em Portugal, como docente de português no Liceu  Pedro Nunes e da Universidade de Santiago de Compostela, em 1932.

Da sua vasta obra destaquem-se Notas sobre os Sonetos e as Tendências Gerais da Filosofia de Antero de Quental (1909), Educação Cívica (1915), Bosquejo da História de Portugal (1923), O Desejado (1924), O Seiscentismo (1926), História de Portugal (1926), Cartesianismo Ideal e Cartesianismo Real (1937), Introdução Actual ao Problema Cooperativista (1937), Antero de Quental e António Vieira (1948), Antologia Sociológica (1956), oito volumes de Ensaios (1920-1958) e Democracia (edição póstuma em 1974).

A título póstumo foi agraciado com a Ordem da Liberdade (Grande Oficial em 30 de junho de 1980) e a Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (Grande Oficial em 3 de agosto de 1983) e nessa mesma década, a sua casa da Lapa, passou a servir a Biblioteca do INSCOOP e a Biblioteca António Sérgio, para além do seu nome ser o de um Prémio Cooperação e Solidariedade que a CASES criou em 2012 para distinguir pessoas singulares ou coletivas na Economia Social.

Na sua vida pessoal, António Sérgio casado com Luísa Epifâneo da Silva que chegou a assinar escritos pedagógicos como Luísa Sérgio.

Carta de António Sérgio a José Régio (Foto: © CER)
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O Grupo de Coimbra, José Régio e a Rua Fernando Lopes Graça

Colegas de Coimbra : Miguel Torga, José Régio, Prof. Paulo Quintela
(Foto: © CER)

Coimbra foi o ponto de encontro de Fernando Lopes Graça e José Régio, através do grupo da Presença, e assim permitiu que o primeiro compusesse para a peça Jacob e o Anjo do segundo, quando esteve a ser encenada pela Companhia Rey Colaço – Robles Monteiro, no Teatro Nacional D. Maria II.

Cinco anos mais novo que José Régio, Fernando Lopes Graça recebeu dele o epíteto de revolucionário, pela sua atitude modernista no conservador meio musical português, e musicou poemas do escritor vilacondense.

Lopes Graça chegou a Coimbra em 1932, onde foi professor no Instituto de Música e aí conviveu e colaborou com o grupo da Presença, de 1933 a 1936. Mais tarde, musicará vários poemas de presencistas como a Balada de Coimbra de José Régio ou outros de Adolfo Casais Monteiro. Matriculou-se na Faculdade de Letras em Histórico-Filosóficas, curso que iniciara em Lisboa, mas que não termina por ser novamente preso por razões políticas, desta vez em Caxias e depois de solto, em 1937, partiu para Paris. Mas manteve a ligação a Coimbra através do seu contributo para a Revista de Portugal, fundada e dirigida por Vitorino Nemésio, bem como pela correspondência que manteve desde os anos 30 até final dos anos 60 do século XX com José Régio, João Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca, Adolfo Casais Monteiro, Miguel Torga e Albano Nogueira da revista Manifesto, Júlio, António de Sousa, Afonso Duarte ou Alberto de Serpa.

O compositor, maestro, pianista e professor de música que muito enriqueceu o património artístico português Fernando Lopes Graça (Tomar/17.12.1906 – 29.11.1994/Parede) recebeu uma Moção de Pesar da reunião de câmara da edilidade lisboeta logo no dia seguinte ao seu falecimento, o que originou que viesse a dar nome à Rua E da Urbanização do Paço do Lumiar, pelo Edital de 20 de março de 1995.

Na sua obra musical, Lopes Graça começou com a composição de canções com poemas dos maiores vultos da poesia nacional, onde além dos já referidos incluiu Fernando Pessoa e Antero de Quental. Regressado de Paris, faz  estadias na casa de João José Cochofel, que o ligam ao grupo do Novo Cancioneiro e aí nascerão em 1945 as Marchas, as Danças e as Canções (Heróicas), com poemas de João José Cochofel, Joaquim Namorado, Carlos de Oliveira, Arquimedes da Silva Santos, Ferreira Monte e Edmundo de Bettencourt, bem como a duradoura colaboração com a revista conimbricense Vértice. Ainda na década de quarenta, Fernando Lopes Graça também compôs exclusivamente para a peça Jacob e o Anjo,  partitura inédita até ser apresentada pelo contrabaixista Carlos Barreto em 16 de julho de 2013, no lançamento do livro Jacob e o Anjo – o drama intemporal da condição humana, da autoria de Isabel Cadete Novais, Presidente do Centro de Estudos Regianos.

Lopes Graça começou a trabalhar logo aos 14 anos,  como pianista no Cine-Teatro de Tomar. Passados três anos abalou para Lisboa para estudar no Conservatório, onde foi aluno de Adriano Meira (Piano), Tomás Borba (Composição), Luís de Freitas Branco (Ciências Musicais) e, a partir de 1927, de Viana da Mota (Classe de Virtuosidade). De 1928 a 1931 também frequentou o curso de Ciências Históricas e Filosóficas da Faculdade de Letras de Lisboa, mas abandonou-o em protesto contra a repressão feita a uma greve académica.

Fernando Lopes Graça procurou uma linguagem estética portuguesa  e definiu o conceito de «música portuguesa» como uma fórmula que exprime uma relação alicerçada na tradição musical do povo, sendo pioneiro no estudo e recolha do folclore nacional, assim como na criação de ciclos de canções com textos de grandes poetas portugueses. Em 1942, fundou a Sociedade de Concertos Sonata, que dirigiu até 1961, dedicada à divulgação da música contemporânea e que se tornou numa referência da vanguarda intelectual.

Como compositor apresentou-se pela primeira vez  em 1929, com as Variações sobre um Tema Popular Português, para piano, e com Poemeto, para orquestra de cordas. Destacam-se depois  La fièvre du temps (1937),  Concerto para piano e orquestra nº1 (Prémio do Círculo de Cultura Musical, 1940), História Trágico-Marítima (Prémio CCM, 1942), Sinfonia per Orchestra (Prémio CCM, 1944), Sonata para piano nº 3 (Prémio CCM, 1952), Quarteto de cordas (Prémio Príncipe Rainier III do Mónaco, 1965), Sete Lembranças para Vieira da Silva (1966),  Requiem pelas Vitimas do Fascismo em Portugal (1979),  Melodias Rústicas (1979), Charneca em Flor (1981), Meu País de Marinheiros (1981) e Dez  Novos Sonetos de Camões (1984).

Fernando Lopes Graça também publicou ensaios sobre música como Introdução à Música Moderna (1942) ou A Canção Popular Portuguesa (1953) e, em 1951 lançou a revista Gazeta Musical.

Finalmente, como cidadão opositor do regime salazarista, Lopes Graça integrou o MUD-Movimento de Unidade Democrática a partir de 1945 e nesse âmbito criou o Coro do Grupo Dramático Lisbonense, mais tarde Coro da Academia dos Amadores de Música, renomeado Coro Lopes-Graça após a sua morte, responsável pela divulgação em todo o país das Canções Regionais Portuguesas e das Canções Heróicas. Também conheceu a PIDE e a prisão política : preso em 1931 no Aljube e, mais tarde, desterrado para Alpiarça; em 1934, bolsa de estudo em Paris, na área da música anulada pela PIDE; nova prisão em Caxias e partida para Paris após ser libertado. Na década de quarenta do séc. XX aderiu ao Partido Comunista Português e, na década seguinte as orquestras nacionais foram proibidas de interpretar obras dele, anularam-lhe o diploma de professor do ensino particular e teve de abandonar a Academia dos Amadores de Música, à qual só regressou em 1972.

Freguesia do Lumiar

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A Rua Áurea da Livraria Rodrigues e de Camões organizado por Régio

(Imagem: © CER)

A Livraria Rodrigues, que era também Sociedade Editorial e Livreira, fundada em 1863 e sediada nos nºs 186-188 da Rua Áurea, publicou a poesia lírica de Camões numa edição organizada por José Régio, que também redigiu uma introdução e colocou notas que facilitassem a compreensão do poeta Luís Vaz de Camões para o público em geral.

A Livraria Rodrigues foi até aos anos sessenta do séc. XX uma editora de livros escolares, graças a uma gráfica instalada na sua retaguarda.

José Régio foi também um antologista em cuja obra se  incluem várias, sendo esta Luís de Camões publicada em 1944, na coleção «As melhores páginas da Literatura Portuguesa» da lisboeta Livraria Rodrigues. Refira-se que no mesmo ano, mas na Portugália da Rua do Carmo, vieram a lume As Mais Belas Líricas Portuguesas, também com seleção, prefácio e notas de José Régio.

Régio organizou mais antologias publicadas de 1945 a 1967. Com Alberto de Serpa organizou Poesia de Amor (1945), para a portuense Livraria Tavares Martins;  Alma Minha Gentil (1957), antologia de poesia de amor portuguesa, assim como Na Mão de Deus (1958), antologia de poesia religiosa portuguesa, ambas para a Livraria Portugália. A solo, organizou e prefaciou Poesia de Ontem e de Hoje Para o Nosso Povo Ler (1956), para a Campanha Nacional de Educação de Adulto e a partir de 1958 organizou e anotou para a lisbonense editora Artis dezanove antologias:  Os mais belos sonetos de Camões (1958); Os mais belos sonetos de Bocage, A mais bela écloga portuguesa: Crisfal  e As mais belas poesias de Rodrigues Lobo (todas em 1959); As mais belas poesias trovadorescas e As mais belas poesias de Tomás Gonzaga (em 1960); As mais belas poesias de Sá de Miranda e As mais belas poesias de António Ferreira (em 1961); Cancioneiro Geral de Garcia de Resende As mais belas poesias de Diogo Bernardes (em 1962); As mais belas redondilhas de Camões, As mais belas poesias de Frei Agostinho da Cruz e As mais belas canções e odes de Camões (todas as três em 1963); Os mais belos cantos de Gonçalves Dias e As mais belas poesias gongóricas (1964); As mais belas poesias de Castro Alves (1965); As mais belas poesias de Olavo Bilac e Os mais belos sonetos de Antero (1966) e As mais belas poesias de Bernardim Ribeiro (1967).

Vulgarmente conhecida como Rua do Ouro, a Rua Áurea,  é uma das artérias da Baixa pombalina que consta da Portaria de 5 de Novembro de 1760, aquela que  inaugurou em Lisboa a prática da atribuição de nomes de ruas por documento oficial e, assim, é o primeiro diploma de toponímia.

D. José I fez publicar a Portaria na qual se estabelece a denominação dos arruamentos da Baixa lisboeta, reconstruída com ruas largas sob o plano moderno de Eugénio dos Santos e Carlos Mardel«entre as Praças do Comercio e a do Rocîo», ao mesmo tempo que regulamenta a distribuição dos ofícios e ramos do comércio pelas diferentes 14 artérias: «Rua Nova d’El Rey [hoje, Rua do Comércio], Rua Augusta, Rua Áurea, Rua Bella da Rainha [hoje, Rua da Prata], Rua Nova da Rainha [hoje, Rua dos Fanqueiros], Rua dos Douradores, Rua dos Correeiros, Rua dos Sapateiros, Rua de S. Julião, Rua da Conceição, Rua de S. Nicolau, Rua da Victoria, Rua da Assumpção e Rua de Santa Justa». Para a Rua Áurea determinava que nela se instalassem os ourives da cidade e que nas lojas que sobrassem ficassem relojoeiros e os volanteiros, aqueles que vendiam artigos variados.

Recorde-se também que Lisboa da 2ª metade do século XVI já tinha uma Rua Nova dos Ourives, também denominada Rua dos Ourives do Ouro ou Rua Ourivesaria do Ouro. Fora aberta sobre um antigo esteio do Tejo que D. João II mandou parcialmente tapar e supõe-se que se situava na área hoje ocupada pelas ruas de São Nicolau e de São Julião.

A Rua Áurea no Natal de 1959
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

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José Régio e Mário Dionísio, dois intelectuais multifacetados como topónimos de Lisboa

Poema de Mário Dionísio na Presença nº53 e 54, 1938
((Imagem: © CER))

José Régio e Mário Dionísio, ambos professores de carreira e intelectuais multifacetados empenhados na literatura, nas artes plásticas, na crítica e ensaio, também partilham a homenagem de darem nome a artérias de Lisboa, o primeiro desde 7 de agosto de 1997 e o segundo, desde 1 de agosto de 2005.

José Régio, o teorizador da Presença que logo no nº 1, na primeira página, publicou Literatura Viva, texto que pode ser visto como manifesto programático da publicação, aceitou a colaboração do jovem Mário Dionísio, quinze anos mais novo,  durante a década de trinta até este se afastar, em conjunto com João José Cochofel, Fernando Namora e Carlos de Oliveira.  E no espólio de Mário Dionísio, encontram-se originais manuscritos ou dactilografados de vários autores, sendo Régio um deles, o que nos recorda a ideia de 1937 nunca concretizada, por falta de sala, de organizar o I Certame de Arte Moderna, pelo que  pediu para uma brochura de inéditos a colaboração dos poetas contemporâneos José Régio, Edmundo de Bettencourt, Fausto José, Francisco Bugalho, José Gomes Ferreira, João Falco/Irene Lisboa e Vitorino Nemésio. Tanto Régio como Dionísio também publicaram nas páginas de Cadernos da Poesia, a revista literária de Tomás Kim, José Blanc de Portugal e Ruy Cinatti nas décadas de quarenta e cinquenta.

A Rua Mário Dionísio nasceu do Edital municipal de 1 de agosto de 2005, na Rua A do PER 8, na Freguesia do Lumiar, doze anos após o falecimento de Mário Dionísio de Assis Monteiro (Lisboa/16.07.1916-17.11.1993/Lisboa), nascido que fora no nº 2 da Rua Andrade  e licenciado em Filologia Românica em 1939, pela Universidade de Lisboa, que se mostrou um intelectual multifacetado como escritor, ensaísta, pintor, crítico de arte e tradutor, para além de ter sido professor do Ensino Secundário durante praticamente quarenta anos, no Colégio Moderno e no Liceu Camões, assim como a partir de 1978 e até 1987 foi docente de Técnicas de Expressão do Português na Faculdade de Letras de Lisboa.

Mário Dionísio foi autor de uma obra literária autónoma, com ensaio, poesia, conto e romance, onde se podem salientar Poemas (1941), As Solicitações e Emboscadas (1945), O Riso Dissonante (1950), Memória dum Pintor Desconhecido (1965), os poemas em francês Le Feu qui dort (1967), Terceira Idade (1982), o seu único romance Não há morte nem princípio (1969),os seus contos O Dia Cinzento (1944), Monólogo a Duas Vozes (1986) , a sua Autobiografia (1987) e o seu último livro, de contos,A morte é para os outros (1988).

Ao longo da sua vida foi um dos principais promotores e teorizadores do neorrealismo português, sendo assinalável a sua regular colaboração em jornais e revistas literárias para além da Presença, como Altitude, A Capital, Diário de LisboaO DiaboGazeta MusicalLiberdadeRepúblicaRevista de PortugalSeara Nova, O Tempo e o Modo ou Vértice. Foi ainda diretor de programas da RTP de dezembro 1975 a março de 1976.

Pintor desde 1941, usou os pseudónimos de Leandro Gil e José Alfredo Chaves, expondo em mostras coletivas desde a década de quarenta mas só em 1989 realizou a sua primeira exposição individual de pintura. Publicou também A Paleta e o Mundo,  obra editada em fascículos a partir de 1956 ( e até 1962) com orientação gráfica de Maria Keil que lhe valeu o Grande Prémio de Ensaio da Sociedade Portuguesa de Escritores (1963). Refira-se ainda que na sua obra pictórica pintou retratos dos seus contemporâneos, como Joaquim Namorado (1952),  Carlos de Oliveira e João José Cochofel (1988) ou José Gomes Ferreira (1989). Obteve também o troféu «Pintor do Ano» da Antena 1, em 1989.

Como cidadão, casou em 1940  com a sua antiga colega de curso Maria Letícia Clemente da Silva, de quem terá uma única filha, a escritora Eduarda Dionísio. Também se mostrou empenhadamente antirregime desde o início dos anos 30 do século passado, integrando o Movimento de Unidade Democrática (MUD), onde ficará responsável por estabelecer a ligação entre a sua Comissão de Escritores, Jornalistas e Artistas e o Partido Comunista Português, para onde entrará em 1945 e ficará até 1952. Na década de 60 frequentava ainda a tertúlia do Café Bocage, na Avenida da República, onde se encontrava com Augusto Abelaira, José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira, João José Cochofel,  e outros.

Mário Dionísio foi galardoado com o Prémio do Centro Português da Associação Internacional de Críticos, ex-aequo com Alexandre O’Neill, em 1982 e, nove anos depois, em 1991, o Museu do Neo-Realismo organizou em Vila Franca de Xira e em Lisboa, exposições e colóquios sobre os seus 50 Anos de Vida Literária e Artística. Finalmente, em setembro de 2008, familiares, amigos, ex-alunos, ex-assistentes, conhecedores e estudiosos da sua obra fundaram em Lisboa, na Rua da Achada, a Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, que abriu ao público um ano depois.

Rua Mário Dionísio na Freguesia do Lumiar

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Os correspondentes José Régio e Jorge de Sena na toponímia de Lisboa

Na Livraria Leitura, no Porto, (da esquerda para a direita) Eugénio de Andrade, José Régio e Jorge de Sena (Foto: © CER)

José Régio tinha mais 18 anos que Jorge de Sena (que na Presença assinava como Teles de Abreu) mas tal não impediu que os dois escritores tivessem trocado inúmera correspondência ao longo da vida de ambos, que foi reunida por Mécia de Sena e editada pela primeira vez em 1986, tal como ambos se encontram homenageados na toponímia de Lisboa através da Avenida José Régio e da Rua Jorge de Sena.

Cinco meses após o seu falecimento, Jorge de  Sena  foi colocado como topónimo da Rua A da Quinta de Santa Clara à Ameixoeira, na  Freguesia de Santa Clara, enquanto na Rua B ficava Vitorino Nemésio, ambos através de Edital municipal de 20 de novembro de 1978.

De seu nome completo Jorge Cândido Alves Rodrigues Telles Grilo Raposo de Abreu de Sena (Lisboa/02.11.1919 – 04.06.1978/Santa Barbara – E.U.A.), que este ano cumpre o centenário de nascimento, foi um engenheiro de formação que se distinguiu com escritor e professor universitário, ensaísta e historiador da cultura, pelo que desde 2009 os seus restos mortais passaram a repousar em Lisboa, num jazigo do Cemitério dos Prazeres.

Em  março de 1938 era Jorge de Sena um Cadete da Escola Naval quando em foi demitido da Marinha por motivos políticos, tema que ele abordará em Sinais de fogo. Em 1944 concluiu a sua licenciatura em Engenharia Civil na Universidade do Porto e foi depois trabalhar para a Junta Autónoma de Estradas, de 1948 a 1959. Mas nesse mesmo ano de 1959, por causa da ditadura, partiu para o exílio e nunca mais regressou a Portugal a não ser para participação em eventos. Fixou-se no Brasil, receando as perseguições políticas resultantes de uma falhada tentativa de golpe de estado, a 11 de março desse ano, em que esteve envolvido.

No Brasil, Jorge de Sena exerceu como engenheiro e professor de engenharia  em algumas universidades, mas em paralelo doutorou-se em Letras, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara (em São Paulo) em 1964, momento a partir do qual fez uma reconversão profissional e se dedicou ao ensino da literatura. Em 1965, partiu com Mécia de Sena e os nove filhos de ambos, para os Estados Unidos da América, por temor do golpe militar ocorrido no Brasil no ano anterior e aí foi docente na Universidade de Wisconsin, onde se tornou  professor catedrático em 1967, passando depois para a Universidade de Santa Barbara (1970), onde também exerceu funções do diretor do Departamento de Espanhol e Português e do Programa de Literatura Comparada.

Na sua obra literária estreou-se em 1942  com Perseguição e construiu uma obra multifacetada que soma mais de vinte coletâneas de poesia, uma tragédia em verso, uma dezena de peças em um ato, mais de 30 contos, uma novela e um romance, cerca de 40 volumes dedicados à crítica e ao ensaio – com destaque para os estudos sobre Camões e Pessoa-, à história e à teoria literária e cultural -com trabalhos pioneiros sobre o Maneirismo-, ao teatro, ao cinema e às artes plásticas, sem esquecer que traduziu duas antologias gerais de poesia, da Antiguidade Clássica aos Modernismos do século XX assim como autores de ficção como Faulkner, Hemingway, Graham Greene, teatro de Eugene O’Neill e ensaios de Chestov. Do conjunto da sua obra, destacamos os títulos As evidências (1955), Metamorfoses (1963), Peregrinatio ad loca infecta (1969), O Indesejado (1951), Novas andanças do demónio (1966), Os Grão-Capitães (1976), O físico prodigioso(1977) e Sinais de fogo (1979). O seu espólio foi doado pela família à Biblioteca Nacional em 2009.

Jorge de Sena foi ainda cofundador do grupo de teatro Os Companheiros do Páteo das Comédias, em 1948, e colaborador, nesse mesmo ano, de António Pedro, no programa de teatro radiofónico Romance Policial, no Rádio Clube Português; conferencista; crítico de teatro e de literatura em diversos jornais e revistas; comentador de cinema; diretor de publicações como os Cadernos de Poesia e coordenador editorial da revista Mundo Literário; consultor literário da Livros do Brasil (em Lisboa) e da Editora Agir (no Rio de Janeiro).

 

Rua Jorge de Sena na Freguesia de Santa Clara

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Nascidos em 1901: Nemésio e Régio em ruas lisboetas

Freguesia de Santa Clara

Vitorino Nemésio e José Régio, que ao longo das suas vidas se vão corresponder, nasceram no mesmo ano de 1901 e partilharam também a participação em revistas comuns: Nemésio pontificou na Presença de Régio a partir de 1930 e Régio publicou na Revista Portugal  de Nemésio. Refira-se ainda que Vitorino Nemésio publicou no jornal académico Gente Nova, em abril de 1927, uma crítica favorável ao primeiro livro de José Régio, Poemas de Deus e do Diabo.

Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva (Ilha Terceira-Praia da Vitória/19.12.1901 – 20.02.1978/Lisboa), filho de Vitorino Gomes da Silva e de Maria da Glória Mendes Pinheiro, notabilizou-se como professor universitário da Faculdade de Letras de Lisboa, ensaísta, escritor e autor do famoso programa televisivo Se bem me lembro, estando desde o ano do seu falecimento na toponímia de Lisboa, através do Edital municipal de 20 de novembro de 1978, na Rua B da Quinta de Santa Clara à Ameixoeira, tendo ficado na Rua A o também escritor e professor universitário Jorge de Sena.

Na sua carreira académica, Vitorino Nemésio foi também diretor da Faculdade de Letras de Lisboa, de 1956 a 1958, bem como agraciado com o Doutoramento Honoris Causa pelas Universidades de Montpellier e do Ceará. Cumprido o serviço militar, como voluntário, a partir de 1919, concluiu o liceu em Coimbra, em 1921 e inscreveu-se no curso de Direito. Passados  três anos,  trocou pelo curso de Ciências Histórico-Filosóficas, e no ano seguinte voltou a mudar, desta feita para o curso de Filologia Românica, que concluiu em 1931 na Faculdade de Letras de Lisboa,  onde começou desde logo a ensinar Literatura Italiana e, mais tarde, Literatura Espanhola. Doutorou-se em 1934 com a tese A Mocidade de Herculano até à Volta do Exílio. Nemésio foi também professor na Universidade Livre de Bruxelas, entre 1937 e 1939, assim como no Brasil, em 1958. Publicou diversos ensaios de que se salientam Sob os Signos de Agora (1932), Relações Francesas do Romantismo Português (1936) ou Conhecimento de Poesia (1958).

Na carreira literária, Nemésio tanto foi poeta como prosador de crónicas ou romances. Se o seu primeiro livro publicado, como Régio, foi de poesia –Canto Matinal (1916) -, ele é o autor de obras incontornáveis como o romance Mau Tempo no Canal (1944) –  galardoado com o Prémio Ricardo Malheiros – ou as crónicas de Corsário das Ilhas (1956), para além da ficção Varanda de Pilatos (1926) ou Quatro prisões debaixo de armas (1971). Na poesia, destaquem-se as suas obras Eu, Comovido a Oeste (1940), Limite de idade (1972), Sapateia Açoriana, Andamento Holandês e Outros Poemas (1976) e o póstumo Caderno de Caligraphia e outros Poemas a Marga (2003).

Na comunicação social, Vitorino Nemésio construiu uma história longa: fundou e dirigiu as revistas  Estrela d’Alva (1916) e a Revista Portugal (1937); dirigiu o jornal O Dia (entre 11 de dezembro de 1975 a 25 de outubro de 1976); fundou a revista Tríptico (1924) com Branquinho da Fonseca e João Gaspar Simões, assim como a Gente Nova. Jornal Republicano Académico (1927) com Paulo Quintela, Cal Brandão e Sílvio Lima; foi redator de A Pátria, A Imprensa de Lisboa, Última Hora (1921), do Humanidade de Coimbra (1925); e ainda colaborou na revista Bizâncio (1923), na Seara Nova (1928), na Presença ( a partir de 1930), em O Diabo (1935), no Diário Popular (1946) com uma rubrica regular, na revista Vértice (1947) e na revista Observador (1971).

Na televisão ficou célebre pelo seu programa semanal Se bem me lembro, de meia hora em horário nobre, onde com uma postura descontraída, de 1970 a 1975, discorria sobre mentalidades e cultura em geral.

Vitorino Nemésio foi galardoado com o Grande Oficialato da Ordem da Infante D. Henrique (1961), o Prémio Nacional de Literatura (1965), o Prémio Montaigne (1974), a Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1967) de que também recebeu,  a título póstumo, a Grã-Cruz (1978).

Freguesia de Santa Clara

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Dois Josés Maria inovadores na literatura presentes na toponímia de Lisboa

Avenida José Régio e Rua Ferreira de Castro -Freguesias de Alvalade e de Marvila

José Maria dos Reis Pereira e José Maria Ferreira de Castro são dois Josés Marias que a escrita uniu e se corresponderam, ambos presentes na toponímia de Lisboa, em artérias paralelas, o primeiro numa Avenida de Alvalade e de Marvila e o segundo, numa Rua de Marvila.

Quando Régio publicou o seu primeiro livro – Poemas de Deus e do Diabo – Ferreira de Castro na sua página «Livros e Autores» do jornal ABC (de Rocha Martins), logo em 22 de abril de 1926 deu conta da sua chegada, testemunhando que «É um poeta, um autêntico poeta, este José Régio que agora solta o primeiro grito desde o campo, até aqui silente, do seu anonimato. É um poeta original, aqui e ali irreverente – uma irreverência que não está mui longe da profundidade. (…) O seu “Poemas de Deus e do Diabo” é uma verdadeira revelação – a revelação de uma forte personalidade que não está volvida para cinzas arcaicas, mas sim para os torreões onde se desfraldam os mais novos e deslumbrantes estandartes literários.»

Ferreira de Castro e Régio também estiveram presentes no nº especial da Vértice de 1951 – comemorativo do 10º aniversário e do nº 100 da revista – assim como em 11 de novembro de 1966, com David Mourão Ferreira, Luís Amaro e Natália Correia, ambos assistiram à deposição dos restos mortais de António Botto num gavetão do Cemitério do Alto de São João.

Ferreira de Castro, o autor de A Selva – fruto da sua experiência como emigrante no Brasil-, está desde a publicação do Edital municipal de 28 de fevereiro de 1984 como o topónimo de Marvila. O mesmo Edital colocou numa rua da mesma freguesia a escritora brasileira Dinah Silveira de Queiroz. Cinco anos depois,  junto à Rua Ferreira de Castro nasceu a Rua como o nome da poetisa Luísa Neto Jorge e em 1997, paralela, surgiu a Avenida José Régio.

José Maria Ferreira de Castro (Oliveira de Azeméis- Ossela/24.05.1898 – 29.06.1974/Porto) foi um escritor e jornalista que se destacou por retratar na  sua obra a vida dos emigrantes no Brasil, nomeadamente no romance Os Emigrantes (1926) e em A Selva (1930), no qual narra a vida nos seringais da Amazónia inspirando-se na sua própria experiência de trabalho. A edição de A Selva no Brasil, em 1935, foi prefaciada por Afrânio Peixoto  e, em 2002, numa produção luso-hispano-brasileira, a obra foi adaptada ao cinema por Leonel Vieira. Ferreira de Castro foi considerado precursor do neorrealismo pela sua inovadora obra marcada pelo sofrimento e pobreza, em resultado da morte prematura do pai em 1906 e a sua experiência de emigração no Brasil desde os 12 anos, corria então o ano de 1910: viveu durante quatro anos como caixeiro no seringal Paraíso (em plena selva amazónica) e depois recorreu a trabalhos como colar cartazes em Belém ou ser embarcadiço em navios entre Belém e a Guiana Francesa. Ainda no seringal escreveu o seu primeiro romance Criminoso por ambição (1916)  que publicou em fascículos no Brasil.

«Alma Nova», dezembro de 1925

Do conjunto das suas 31 obras refiram-se ainda a peça A Alma Lusitana(1916), O Êxito Fácil (1923), Sangue Negro (1923),  A Metamorfose (1924)A Epopeia do Trabalho (1926)O voo nas Trevas (1927), Terra Fria (1934) – que foi Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências e também adaptada a filme de António Campos em 1992-  A Tempestade (1940), A Lã e a Neve (1947), O Instinto Supremo (1968) , Os Fragmentos (1974) e os dois volumes de  As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-1963), que receberam em 1965 Prémio Catenacci da Academia de Belas Artes de Paris. Duas das suas obras de 1936- O Intervalo e a peça Sim, uma Dúvida Basta, feita para o Teatro Nacional e censurada  por despacho governamental – só foram publicadas em 1974 e 1994.

Nos periódicos, colaborou no Jornal do Novos de Belém (1916); fundou e dirigiu com outro emigrante, João Pinto Monteiro, o semanário Portugal (1917)  e O Luso (1919), as revistas A Hora (1922) e Civilização (1928); colaborou nos jornais Imprensa Livre (1921), no «Suplemento Literário» do diário A Batalha e da revista Renovação (1925) da Confederação Geral do Trabalho anarco-sindicalista, no jornal O Século (1927), O domingo ilustrado e Ilustração (1934), o jornal O Diabo (1935) e o jornal carioca A Noite (1938). Em 1926 foi eleito presidente do Sindicato dos Profissionais da Imprensa de Lisboa.

Como cidadão, José Maria Ferreira de Castro denunciou os efeitos nefastos da censura sobre os escritores portugueses numa entrevista ao Diário de Lisboa em 1945, e nessse mesmo ano integrou a Comissão Consultiva e a Comissão de Escritores Jornalistas e Artistas do Movimento da Unidade Democrática (MUD). Em 1949, apoiou empenhadamente a candidatura de Norton de Matos à presidência da República. Em 1962, foi eleito por unanimidade presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores, da qual era o sócio nº 2 e Aquilino o nº 1.

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A polémica de José Régio e Álvaro Cunhal na Seara Nova e três topónimos lisboetas

Freguesia do Lumiar

José Régio e  Álvaro Cunhal, ambos guardados na memória de avenidas topónimos lisboetas, foram os protagonistas de uma famosa polémica ocorrida em 1939 nas páginas da  Seara Nova, revista que é também nome de rua alfacinha.

Nas páginas dos nºs. 608, 609, 611, 615 e 619 da revista Seara Nova,  entre abril e junho de 1939, foram trocados argumentos entre Álvaro Cunhal e José Régio, constituindo-se como a polémica da visão neorrealista versus a visão presencista, entre intervenção social na arte e subjetivismo, em que o estava em causa era fundamentalmente a relação da arte com a vida. Todos os artigos discorrem numa perspetiva de são espírito de polémica e de respeito mútuo. Se o neorrealismo mostrava as questões sociais ou outras que marcavam o tempo a acontecer, o presencismo defendia a arte como um fim em si mesmo, uma revelação íntima do seu autor.

José Régio, então com 38 anos, publicou Cartas Intemporais do nosso Tempo, tendo as três primeiras o subtítulo comum de A um Moço Camarada, sobre Qualquer Possível Influência do Romance Brasileiro na Literatura Portuguesa, dirigindo-se assim ao então jovem Álvaro Cunhal, com 25 anos. José Régio defendia a autonomia da obra de arte contra o que chamava a sua instrumentalização ideológica feita por alguns jovens seareiros, com  uma visão algo neorromântica da criação artística muito centrada na individualidade do criador, no isolamento do poeta na sua torre de marfim, como então se dizia.

Álvaro Cunhal intitulou a sua primeira réplica como Numa encruzilhada dos homens – alusão ao título  de Régio Numa encruzilhada de Deus, acabado de publicar-, defendendo um compromisso social da arte e da literatura. A passagem dos anos trinta para os quarenta mostrara o fascismo alemão na guerra que incendiará a Europa, a Espanha saída duma guerra civil onde o fascismo de Franco impôs a lei da morte, a Itália de Mussolini, o aumento da repressão em Portugal. Contudo, Cunhal ressalvou a importância do movimento da Presença na sua rotura com o passado academizante e contra a mediocridade existente na literatura portuguesa de então.

A Avenida Álvaro Cunhal foi atribuída por Edital municipal de 6 de outubro de 2005, na que era a Avenida Avenida 1 do Plano de Urbanização no Alto do Lumiar, na Freguesia do Lumiar, na sequência da moção de pesar dos Vereadores do PCP aprovada na reunião de Câmara de 22 de junho de 2005, para homenagear Álvaro Barreirinhas Cunhal (Coimbra/10.11.1913 – 13.06.2005/Lisboa), político que foi Secretário-Geral do Partido Comunista Português mas que teve também uma intervenção cultural no seu tempo, quer como romancista sob o pseudónimo de Manuel Tiago, quer como desenhador, para além de toda a sua reflexão teórica sobre as artes plásticas, a estética e a criação cultural.

Dez anos depois, em 2015, foi a vez da atribuição da Rua Seara Nova, através do Edital municipal de 25 de novembro de 2015. Esta revista fundada em Lisboa, em 1921, por figuras do então denominado Grupo da Biblioteca Nacional, como Raúl ProençaJaime CortesãoAquilino Ribeiro, Câmara Reis, António Tomás Conceição Silva, Faria de Vasconcelos e outros, teve o seu 1º número saído para a rua no dia 15 de outubro de 1921, com capa do pintor Tomás Leal da Câmara. A partir dessa data atravessou  todo o século XX influenciando gerações sucessivas.

Freguesia de Santo António

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A lisboeta Avenida José Régio de não sei por onde vou

Capa do primeiro livro de José Régio, publicado em 1926
(Imagem: © CER)

José Régio, o escritor vilacondense que a maioria reconhece como autor do poema «Cântico Negro», inserido em Poemas de Deus e do Diabo, edição com que em 1926 se iniciou na literatura, esteve desde 1971 para ser topónimo de Lisboa mas tal só se concretizou em 1997 com a Avenida José Régio atribuída no arruamento projectado entre a Avenida Dom Rodrigo da Cunha e a Avenida Dr. Arlindo Vicente, pelo Edital municipal de 7 de agosto de 1997.

Antes de se completarem dois anos da morte de José Régio, a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa na sua reunião de 5 de março de 1971, ao escolher topónimos para a Quinta do Morgado foi de parecer que a Rua A, incluindo o Impasse A 5, se denominasse Rua José Régio e levasse como legenda «Poeta/1901 – 1969». Todavia, cerca de quinze dias passados, na reunião seguinte da Comissão de Toponímia – em 19 de março de 1971- , o arruamento designado passou a servir para concretizar a Rua Vice-Almirante Augusto de Castro Guedes dado que o então Presidente da CML,  Engº Santos e Castro, solicitou  «indicação de arruamentos condignos para perpetuar os nomes de José Régio e Doutor João de Barros», tendo a Comissão considerado «a dificuldade de encontrar arruamentos condignos» e sugerido a Rua O da Malha I de Chelas para executar uma Avenida José Régio.

Contudo, só na reunião da Comissão de Toponímia de 9 de maio de 1997 voltamos a encontrar José Régio como prioritário na lista dos nomes em carteira, recebendo parecer favorável na reunião de 20 de junho de 1997 da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa, nascendo assim pelo Edital municipal de 7 de agosto de 1997 a Avenida José Régio, com a legenda «Escritor/1901 – 1969», que mereceu cerimónia de inauguração em 12 de setembro desse mesmo ano, mês de aniversário de nascimento do homenageado.

Freguesias de Alvalade e de Marvila

José Régio foi o pseudónimo escolhido por José Maria dos Reis Pereira, nascido em Vila do Conde a 17 de setembro de 1901, cidade onde também veio a falecer em 22 de dezembro de 1969.

Em Vila do Conde, viveu a infância e adolescência e após concluir o 3.º ciclo do curso liceal no Porto, seguiu para a Faculdade de Letras de Coimbra, onde se licenciou em Filologia Românica, em 1925, com a tese intitulada As correntes e as individualidades na Moderna Poesia Portuguesa, o primeiro trabalho que faz a apologia dos poetas da revista Orpheu. Será também em Coimbra que em março de 1927, vai fundar com João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca a revista Presença, que durou treze anos e foi considerada o órgão do Segundo Modernismo. Já antes, nessa mesma década de vinte, colaborara nas revistas portuenses Crisálida e A Nossa Revista, assim como nas coimbrãs Bizâncio e Tríptico.

E no ano seguinte à conclusão da licenciatura, em 1926, publicou o seu primeiro livro: Poemas de Deus e do Diabo, com capa do seu irmão Júlio. Mas além da criação literária nas vertentes da poesia, ficção, dramaturgia, ensaio e memórias, ainda organizou antologias, somando mais de trinta obras publicadas, e manteve colaboração em jornais e revistas como crítico e polemista, nomeadamente na Seara Nova.

Em paralelo com a sua vida literária, Régio fez também uma carreira docente, em que após uma experiência como professor provisório no Liceu Alexandre Herculano do Porto, foi nomeado professor efetivo no Liceu Mouzinho da Silveira de Portalegre, onde permaneceu desde 1930 até se reformar, em 1962.

Como cidadão, também se envolveu politicamente sempre que considerou que as situações da vida nacional o justificavam, mostrando-se firme e frontal nos seus ideais socialistas. E para além do seu gosto pelo desenho, também frequentava tertúlias de cafés e mantinha intensa comunicação com os meios literários por via epistolar, sendo ainda de destacar a sua vertente de colecionador de peças antigas de arte sacra e popular, que acumulou nas suas casas de Portalegre e de Vila do Conde, hoje transformadas em casas-museu.

Para além de Lisboa, José Régio é também o topónimo de Avenidas em Vila do Conde e Massamá-Queluz. Em Ruas aparece por todo o país com quatro em Vila do Conde, duas em Portalegre ( Ponte de Sor e Foros de Arão) e na Trofa, para além de Abrantes, Águas Santas, Alcabideche, Alcochete, Alhos Vedros, Amadora, Amora, Arrifana, Azeitão, Beja, Braga, Bragança, Carcavelos, Charneca da Caparica, Coimbra, Corroios, Entroncamento, Ermesinde, Évora, Esposende, Fafe, Famões, Fernão Ferro, Fiães, Guimarães, Maia, Mangualde, Marvão, Mem Martins, Moita, Monte Abraão-Queluz, Montemor-o-Novo, Odivelas, Oeiras, Oliveira do Hospital, Palmela, Pinhal Novo, Póvoa de Santa Iria, Póvoa de Varzim, Quinta do Anjo, Ramada-Odivelas, Rio Tinto, Santo Antão do Tojal, Santo António dos Cavaleiros, São Domingos de Rana, São João da Madeira, Seixal , Unhos, Valbom-Gondomar, Vialonga, Vila Chã de Ourique e Vila Nova de Famalicão. Pracetas surgem em Alverca do Ribatejo, Baixa da Banheira, Bobadela, Borba, Carcavelos, Carnaxide, Damaia-Amadora, Massamá-Queluz, Odivelas, Porto, Rio de Mouro, Setúbal e Vila Nova de Gaia. Travessas aparecem em Vila do Conde, Albufeira, Carcavelos, Gandra e Trofa. Existem ainda com o nome de Régio Praças em Vila do Conde, Matosinhos e Ovar, um Impasse em Agualva-Cacém, um Largo na Parede e uma Via em Vila do Conde.

Manuscrito de Régio. A 1ª página de «Cântico Negro»
(Imagem: © CER)

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