Novo topónimo em Lisboa: Rua Ernâni Lopes

Pelo Edital nº 14/2017, de 20/01/2017, ao arruamento paralelo à Avenida Lusíada, foi atribuído o topónimo Rua Ernâni Lopes.

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Os últimos topónimos atribuídos em 1916

Freguesias de Arroios e Penha de França (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias de Arroios e Penha de França
(Planta: Sérgio Dias)

O último Edital municipal de toponímia de 1916 foi publicado no dia 27 de novembro e incluiu 6 topónimos: dois relacionados com o topónimo Penha de França em dois locais distintos da cidade, três de conselheiros já sediados em Arroios aos quais foi retirado esse título,  e um referente a heróis da I Guerra Mundial numa artéria repartida entre a Penha de França e Arroios.

De acordo com as deliberações da sessão de câmara de 23/11/1916, o vereador Manuel Joaquim dos Santos apresentou uma solicitação da Junta de Freguesia de Arroios para que fossem alterados alguns topónimos de forma a «que se instaure um processo de expropriação de uma parcela de terreno na quinta do Fole à estrada da Penha de França e se passe a dar denominação de rua da Penha de França, à rua da Penha de França (á Escola Politecnica) a de calçada da Penha de França, á rua Conselheiro Carrilho a de Antonio Pereira Carrilho, à rua Conselheiro Monteverde a de rua Achiles Monteverde, à Rua Conselheiro Morais Soares, a de rua Morais Soares, e á do Caracol da Penha, a de rua dos Herois do Kionga», o que foi aprovado por unanimidade.

Assim, a Estrada da Penha de França passou a Rua da Penha de França  e importa esclarecer a origem do topónimo Penha de França neste local. António Simões, um escultor de imagens sacras ou imaginário, como se dizia na sua época, encontrando-se perdido em Alcácer Quibir fez promessa de que se voltasse a Portugal fabricaria várias imagens de Nossa Senhora e lhes daria um destino condigno. De regresso,  chamou Senhora da Penha de França (uma invocação de um santuário de Salamanca) à última imagem que produziu  e esta foi inicialmente colocada na Igreja da Vitória da Baixa lisboeta até o escultor ter erguido uma Ermida,  no Monte Alperche, em terrenos de Afonso Torres de Magalhães, onde a dita imagem de Nossa Senhora da Penha de França se acolheu em 1597, apesar da Ermida ter ficado concluída apenas no ano seguinte. Passados seis anos, em 1604, começou a construir-se no local uma nova Igreja, maior e com Casa Conventual, concluída em 1635 e que acabou por estender o nome da Senhora da Penha de França a todo o sítio, até chegar a ser também o da própria freguesia.

Pormenor da planta de Filipe Folque de 1857 (Arquivo Municipal de Lisboa)

Pormenor da planta de Filipe Folque de 1857
(Arquivo Municipal de Lisboa)

Ora já existia uma Rua da Penha de França nas proximidades da Rua da Escola Politécnica,  o que causaria equívocos caso existissem duas na cidade pelo que foi aprovado que esta passasse a designar-se como Calçada da Penha de França em 1916, embora de seguida tenha sido a Calçada João do Rio e hoje a encontremos como Calçada Engº Miguel Pais (desde a publicação do Edital municipal de 23/12/1948). Nesta artéria, quando ainda era designada como Rua da Penha de França, nasceu Maria Matos em 1886.

Já António Pereira Carrilho, Aquiles Monteverde e Morais Soares ficaram sem o título de conselheiro no enunciado dos topónimos, trocado que foi pelos seus próprios nomes, uma vez que na  I República era característico eliminar da toponímia referências à monarquia e o título de conselheiro era atribuído pelo soberano, tradicionalmente aos magistrados do Supremo Tribunal, mas também concedido a quem tivesse prestado serviços honrosos ao país.

Antonio Pereira Carrilho, Diário Ilustrad, 19 de março de 1880

António Pereira Carrilho, Diário Ilustrado, 19 de março de 1880

António Pereira Carrilho, a cujo topónimo acresceu mais tarde a legenda «Notável Economista e Jornalista/1835 – 1903 » por parecer da Comissão Municipal de Toponímia de 03/03/1960, antes de ser Rua do Conselheiro Pereira Carrilho era um troço da antiga Estrada de Circunvalação. O homenageado é António Maria Pereira Carrilho (Lisboa/10.10.1835 – 16.11.1903/Paris) que se notabilizou como Diretor Geral da Contabilidade Pública e Secretário Geral do Ministério da Fazenda, responsável por elaborar o Orçamento Geral do Estado ao serviço de diversos Governos e os explicar na Câmara dos Deputados. Carrilho desempenhou também a função de Presidente do Conselho de Administração da Real Companhia dos Caminhos-de-Ferro e também foi recompensado com a Grã-Cruz da Ordem de Cristo. Fundou ainda O Economista em 1880 e colaborou com os jornais Diário Mercantil do Porto, Gazeta do Povo, Opinião O Progressista. Esta figura do rotativismo liberal foi ainda diversas vezes deputado a partir de 1875 e par do reino em 1902 e 1903.

aquiles-monteverde-livroAquiles Monteverde, cujo topónimo recebeu mais tarde a legenda «Escritor Didáctico e Diplomata/ 1803 – 1881» por parecer da Comissão Municipal de Toponímia de 19/04/1960, antes de ser Rua do Conselheiro Monteverde (Edital de 14/02/1882) era a Travessa Cruz do Tabuado. Perpetua o nome de Emílio Aquiles Monteverde (Lisboa/09.06.1803 – 07.01.1881/Lisboa), funcionário público desde que em 1821 começou como adido à legação portuguesa de Madrid, tendo chegado a secretário geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros em 1869 e antes, em 1850 foi galardoado com o título de conselheiro, a comenda da Ordem de Cristo e a de Cavaleiro da Torre e Espada. Foi também o autor Manual Enciclopédico para uso das Escola de Instrução Primária, no último quartel do séc. XIX, aprovado pela Junta Consultiva de Instrução Pública, sendo cada edição de dezenas e centenas de milhares de exemplares.

Finalmente, sobre a Rua Morais Soares e a Rua dos Heróis de Quionga, basta aqui carregar nos seus nomes sublinhados para ser dirigido para os artigos que já publicámos sobre eles.

Pereira de Moura e mais dois professores no Bairro Padre Cruz

prof. f.p. de moura

Perpendiculares à Rua de Barcelona, no Bairro Padre, estão 3 arruamentos com topónimos de professores universitários, todos dados pelo Edital camarário de 15 de Junho de 2000:  a rua do escultor Jorge Vieira, a rua da filóloga Maria Leonor Buescu e, a Rua Prof. Francisco Pereira de Moura que se fixou na Rua A da 3ª Fase do Bairro Padre Cruz.

Francisco José da Cruz Pereira de Moura (Lisboa/17.04.1925 – 06.04.1998/Lisboa) foi um economista licenciado (1949) e doutorado (1961) pelo ISCEF (Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras) , que fundou o Centro de Estudos de Economia Aplicada na Associação Industrial Portuguesa e, que também foi procurador à Câmara Corporativa (1957-1965). Foi também um mestre para gerações de estudantes universitários no Instituto Superior de Economia e Gestão (1950-1957 e 1961-1970), no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas Ultramarinas (1962-1963), bem como foi Professor visitante da Universidade Estadual de S. Paulo – Brasil (1964) e da Universidade Eduardo Mondlane – Moçambique (1977). Enquanto docente, Pereira de Moura desempenhou ainda as funções de Presidente do Conselho Directivo do ISE (1979-1980) e do Conselho Científico do ISEG (nos anos de 1984-1986 e 1989 e 1990).

Da obra publicada, são fundamentais «Lições de Economia» (1961 ou 1964) , «Análise Económica da Conjuntura» (1969) ou «A Banca, o Estado Social e a Expansão dos Lucros» (1973). Também foi

Francisco Pereira de Moura foi um opositor do regime salazarista e, um dos fundadores da Comissão Democrática Eleitoral (CDE), pelo qual em 1969 foi Candidato de Lisboa às eleições legislativas e, a partir de onde nasceria o MDP/CDE, em cuja representação aliás, Pereira de Moura foi ministro sem pasta no I Governo Provisório, de Adelino da Palma Carlos e, também no  IV Governo Provisório, bem como Ministro dos Assuntos Sociais no V Governo Provisório de Vasco Gonçalves.

Em 1995 foi galardoado com a Ordem Militar de Santiago e Espada.

professor francisco pereira de moura

Freguesia de Carnide                                                                                                      (Foto: Sérgio Dias)

Nota: Para efeitos de clareza na leitura deste texto informamos que o ISCEF (Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras) nasceu enquanto tal em 1930; em 1972,  passou a denominar-se ISE (Instituto Superior de Economia) e,  em 1989, aumentou a designação para ISEG (Instituto Superior de Economia e Gestão).