Cecília e Dinah, duas escritoras brasileiras na toponímia de Lisboa

Rua Cecília Meireles – Freguesia de São Domingos de Benfica
(Foto: Sérgio Dias)

Cecília Meireles em 1964 e Dinah Silveira de Queiroz em 1984, são duas escritoras brasileiras que a partir dessas datas ficaram inscritas na toponímia de Lisboa, em São Domingos de Benfica e em Marvila.

A Rua Cecília Meireles nasceu do Edital de 28/12/1964 nas Ruas A e B à Travessa de São Domingos de Benfica, pouco mais de um mês após o seu falecimento, e a Rua Dinah Silveira de Queiroz foi através do Edital de 28/02/1984, na Rua L1 da Zona L de Chelas, quase 2 anos após a sua morte, em resultado de uma moção aprovada por unanimidade na reunião de Câmara de 11 de julho de 1983.

Cecília Benevides de Carvalho Meireles (Rio de Janeiro/07.11.1901 – 09.11.1964/Rio de Janeiro), neta de açorianos, foi uma professora, cronista e poetisa brasileira que iniciou a sua carreira literária com a publicação do livro de poesia Espectro (1919). A sua vasta produção literária de poesia, teatro, romance e ensaio, conta com títulos como por exemplo, Nunca mais… e Poema dos Poemas (1923); Baladas para El-Rei (1925); o ensaio O Espírito Vitorioso (1929); publica em Lisboa uma apologia do Simbolismo, a Saudação à menina de Portugal (1930), assim como o ensaio Batuque, Samba e Macumba (1935) com ilustrações de sua autoria; Viagem ( 1939) que lhe valeu o Prémio de Poesia Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras; Olhinhos de Gato, publicado em capítulos na revista Ocidente (1939-1940); uma biografia de Rui Barbosa para crianças Rui — Pequena História de uma Grande Vida (1949); Romanceiro da Inconfidência (1953) que foi adaptado para filme por Joaquim Pedro de Andrade com o título Os inconfidentes (1972); os ensaios Panorama Folclórico de Açores (1955), A Bíblia na Literatura Brasileira (1957) , Ou Isto ou Aquilo (1964) ou Solombra (1964) que foi Prémio Jabuti de Poesia.

Paralelamente, enquanto professora do magistério primário desde 1917, em escolas oficiais do antigo Distrito Federal do Rio de Janeiro, espelhou a sua vertente de pedagoga em crónicas sobre educação, como a página diária no Diário de Notícias em 1930 e 1931, ensaios sobre educação e obras para crianças. Em 1934, organizou a primeira biblioteca infantil do Rio de Janeiro, no Bairro de Botafogo, no Centro Infantil que dirigia. Aposentou-se em 1951 como diretora de escola, trabalhando a partir de então como produtora e redatora de programas culturais, na Rádio Ministério da Educação, no Rio de Janeiro.

Foi ainda docente de Literatura Luso-Brasileira e de Técnica e Crítica Literária, na Universidade do Distrito Federal (hoje UFRJ), de 1935 a 1938, assim como de Literatura e Cultura Brasileira na Universidade do Texas em 1940. Proferiu ainda conferências na Europa, Estados Unidos, África e Ásia sobre Literatura, Educação e Folclore e colaborou também, de 1936 a 1938, no jornal A Manhã e na revista Observador Econômico. 

Cecília Meireles recebeu as distinções de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Nova Deli (1953) e Oficial da Ordem de Mérito do Chile (1952), para além do Prémio de Tradução/Teatro da Associação Paulista de Críticos de Arte (1962), do Prémio Jabuti de Tradução de Obra Literária da Câmara Brasileira do Livro (1963),  do Prémio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra (1965),  e da sua efígie ser posta na nota de cem cruzados do  Banco Central do Brasil (1989).

O seu nome foi dado à Escola Municipal de Primeiro Grau do Bairro de Cangaíba em São Paulo (1963), à Escola Municipal de Educação Infantil, no Jardim Nove de Julho em São Paulo (1974), à Biblioteca de Valparaiso no Chile (1964), ao grande salão de concertos e conferências do Largo da Lapa no Rio de Janeiro (1965), à Biblioteca Infanto-Juvenil no Bairro Alto da Lapa de São Paulo (1991), assim como foi consagrada em artérias de Ponta Delgada, do Porto, Curitiba, Itajaí, Ilha Comprida, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Santos, São Paulo, Xinguara do Pará, entre outras.

Na sua vida pessoal, casou-se em 1922, com o pintor português Fernando Correia Dias, mas 5 anos após o suicídio deste casou-se com o professor e engenheiro agrónomo Heitor Vinícius da Silveira Grilo.

Dinah Silveira de Queiroz (São Paulo/09.11.1911 – 27.11.1982/Rio de Janeiro) foi uma escritora brasileira que abarcou diversos géneros, desde o romance, contos e crónicas, à literatura infantil. Escreveu Pecado (1937); a novela Sereia Verde (1938); Floradas na Serra (1939) que recebeu o Prémio Antônio de Alcântara Machado da Academia Paulista de Letras e foi transposto para o cinema em 1955; os romance Margarida La Roque (1950) e A Muralha (1954); a peça bíblica O oitavo dia (1956); os contos Eles herdarão a terra (1960); Os invasores (1964); A Princesa dos Escravos (1965); Verão do Infiéis (1965) distinguido com o prémio de ficção da Prefeitura do Distrito Federal; Comba Malina (1969); O Livro dos Transportes (1969) dedicado ao público infantil e Memorial de Cristo (1974-1977). Foi laureada em 1954, com o Prémio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra, pela Academia Brasileira de Letras.

Na sua vida pessoal casou-se em 1929 com o desembargador Narcélio de Queiroz, tendo enviuvado e em 1962, foi nomeada Adido Cultural da Embaixada do Brasil em Madrid, casando novamente nesse mesmo ano com o embaixador Dario Castro Alves (1927-2010), com quem residiu em Lisboa durante largos anos, e nesta cidade escreveu o seu último livro Guida, caríssima Guida (1981).

Dinah Silveira de Queiroz ainda escreveu artigos e crónicas para a Rádio Nacional, a Rádio Ministério da Educação e Jornal do Commercio no Brasil, para além de um programa semanal na Rádio do Vaticano.

Foi a 2ª mulher membro da Academia Brasileira de Letras (1980), para além de ter integrado a Academia Paulista de Letras e a Academia de Ciências de Lisboa, e ter sido distinguida com o seu nome em artérias do Balneário Camboriú, Campinas, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo, entre outras.

Rua Dinah Silveira de Queiroz - Freguesia de Marvila (Foto: Sérgio Dias)

Rua Dinah Silveira de Queiroz – Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias)

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A Rua Maestro Pedro de Freitas Branco na rua onde viveu

Freguesia de Santo António (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias)

Pedro de Freitas Branco, que hoje faria hoje 120 anos, foi acolhido como topónimo na antiga Rua da Fábrica das Sedas, arruamento onde o maestro viveu muitos anos , na sequência de um pedido da Juventude Musical Portuguesa e do Sindicato Nacional dos Músicos.

Foi cinco anos após o falecimento do músico que o Edital municipal de 10 de maio de 1968 atribuiu o topónimo Rua Maestro Pedro de Freitas Branco, com a legenda «1896 – 1963», na Rua da Fábrica das Sedas, a unir a Rua Gustavo de Matos Sequeira à  Rua da Escola Politécnica.

Pedro António da Costa de Freitas Branco (Lisboa/31.10.1896 – 24.03.1963/Lisboa) nasceu na Calçada da Quintinha e viveu  a maior parte da sua vida no nº 23 da Rua Fábrica das Sedas, onde veio a falecer. Aos 7 anos iniciou-se no violino para além de ter estudado harmonia e contraponto com Tomás Borba e o seu irmão Luís de Freitas Branco. Em 1924, abandonou o curso de engenharia no Instituto Superior Técnico para se dedicar à música e foi estagiar regência de orquestra em Londres (1925-1927). De regresso,  fundou em 1928 a Companhia Portuguesa de Ópera Lírica, no Teatro São João do Porto e notabilizou-se como chefe de orquestra nos Concertos Sinfónicos de Lisboa, no Tivoli (1928 a 1932).  E após o convite do próprio Maurice Ravel, em 1932, para dirigir em Paris o concerto nº 1 do compositor alcançou renome internacional e fixou-se em Paris, de 1933 a 1937, para dirigir diversas orquestras francesas e europeias.

Pedro de Freitas Branco somou ainda o trabalho na Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, desde a sua criação em 1934, tendo-a dirigido até falecer. Acumulou ainda com a regência de Ópera no Teatro Nacional de São Carlos, tanto mais que nos anos 40 e 50, também nessa área fez carreira internacional, com  cantores como Beniamino Gigli, Giuseppe di Steffano e Victoria de los Angeles, ou instrumentistas como o pianista Wilhelm Kempff. Também até 1961 dirigiu igualmente a Orquestra Sinfónica de Lisboa, à frente da qual estreou em Portugal muitas obras de compositores do século XX como Bartók, Luigi Dallapiccola, Paul Hindemith,  Prokofiev, Ravel, Richard Strauss e Stravinski.

Escreveu ainda o livro História da Música Popular em Portugal (1947), revelando a história e a dinamização cultural criada pelas filarmónicas, bandas civis e sociedades de recreio portuguesas. E ainda editou gravações históricas, como a do Concerto para Violoncelo em ré menor, de Edouard Lallo, com Guilhermina Suggia e a London Symphony Orchestra (1946) e aquelas em que perpetuou compositores portugueses como Luís de Freitas Branco e Viana da Mota, mas só dois receberam o Grand Prix du Disque da Academia Charles Cros: em 1954 com obras de Maurice Ravel e em 1962 com obras de Manuel de Falla.

Pedro de Freitas Branco, casado com a pianista Marie Antoinette Levêque, foi ainda agraciado com a Ordem de Sant’iago da Espada no grau de Cavaleiro (1931) e de Comendador (1939). Também a Câmara Municipal de Lisboa, mesmo antes de o colocar na toponímia da cidade, já no ano anterior o homenageara através da colocação de uma lápide no prédio onde ele vivera na então Rua da Fábrica das Sedas.

Freguesia de Santo António (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua do violinista Luís Barbosa no Beato

Freguesia do Beato (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Beato
(Foto: Sérgio Dias)

O alfacinha Luís Barbosa, considerado o melhores violinista da sua geração, dá nome a uma artéria do  Beato desde 1979, com a legenda «Músico/1887 – 1952».

A Rua Luís Barbosa nasceu do Edital municipal de 19/06/1979 no arruamento de ligação à Rua Dr. Manuel Espírito Santo, situado entre os Impasse 2 e 3. Este Edital fixou os topónimos dos arruamentos da Quinta do Ourives, colocando também o nome do bibliotecário e historiador António Joaquim Anselmo e figuras das artes como o escultor Faustino José Rodrigues, o pintor José Rodrigues e o barítono Francisco de Andrade (arruamento entretanto desaparecido e bem, já que desde a publicação do Edital de 20/10/1955 este cantor lírico estava fixado numa artéria de Alvalade).

José Luiz Barbosa (Lisboa/23.05.1887 – 03.10.1952/Lisboa),  começou os seus estudos musicais com o seu pai, com menos de 4 anos de idade e aos 5 já ganhava a vida tocando em cafés. A condessa de Edla, viúva de D. Fernando, protegeu-o custeando a despesa com o seu ingresso como aluno do Conservatório de Lisboa, mas este viu-se forçado a interrompê-los, dos 8 aos 17 anos, voltando a prosseguir os estudos depois com o professor e violinista Júlio Cardona, que foi o seu grande mestre, tendo também recebido lições do professor do Conservatório Alexandre de Bettencourt de Vasconcelos. Ficaram memoráveis as suas interpretações, com orquestras dirigidas por David de Sousa, Joaquim Fernandes Fão, Viana da Mota ou Pedro de Freitas Branco, dos difíceis concertos de Marc Bruch, Mendelssohn, Paganini, Saint-Saens e Tartini. A sua composição para violino e piano Romance, uma deliciosa peça de encore, característica do repertório dos violinistas concertistas do princípio do séc. XX, ficou também muito conhecida e curiosamente, Luís Barbosa casou com uma sua discípula que depois optou por ser pianista e os seus filhos foram o violinista Vasco Barbosa e a pianista Grazie Barbosa.

Luís Barbosa fez parte do Quarteto de Cordas da Emissora Nacional, com o qual interpretou praticamente todo o reportório clássico para esta formação e com o violoncelista Fernando Costa interpretou, em primeira audição em Portugal, o duplo concerto de Brahms para violino e violoncelo.

Luiz Barbosa foi ainda professor, tendo sido seus discípulos nomes como César Lobo, Fausto Caldeira, Herberto de Aguiar e foi agraciado com a Ordem de Sant’iago da Espada em 5 de outubro de 1928.

Freguesia do Beato (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Beato
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua da Constança que era a pianista Nina

Freguesia de Benfica (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Benfica
(Foto: Sérgio Dias)

A pianista Constança Marques Pereira que preferia ser conhecida como Nina Marques Pereira, está perpetuada numa artéria de Benfica, na sequência de uma sugestão do jornal O Século, tendo sido fixada na  Rua Projetada à Avenida Gomes Pereira pela publicação do Edital municipal de 25/10/1971, com a legenda «Pianista/1911 – 1968».

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De seu nome completo Constança Carlota Prazeres Marques Pereira (Goa/21.02.1911 – 25.08.1968/Lisboa), arribou a Lisboa em 1928 e concluiu o Curso Superior do Conservatório Nacional com 20 valores, em 1931, tendo sido aluna do mestre António Duarte da Costa Reis. Foi depois bolseira do Instituto de Alta Cultura em Paris, onde fez o Curso de Virtuosidade como discípula  de Alfred Corlot.

Tornou-se uma pianista muito aclamada, sobretudo como solista da Orquestra Sinfónica Nacional, sob a regência dos maestros Pedro de Freitas Branco, Pedro Blanc ou Jaime Silva (Filho). Tocou em Paris, Londres, Lourenço Marques e outras cidades africanas, nos Açores,na Madeira, no Conservatório do Porto, no Rivoli, na Sociedade de Música de Câmara, no São Carlos, no Trindade de Lisboa ou no Pavilhão dos Desportos, a convite da Câmara Municipal de Lisboa.  Deu ainda concertos em Espanha, Suíça, Bélgica e Holanda, privilegiando sempre os compositores nacionais como Domingos Bomtempo, Francisco António de Almeida ou Viana da Mota.

Na rádio, executou para a Emissora Nacional as 32 sonatas de Beethoven e também transcrições para piano de obras de cravistas portugueses, assim como também cumpriu vários contratos com a BBC londrina. Em paralelo com a sua carreira de pianista, Nina  organizou também Festivais de Música no Funchal (1964), em Lisboa (1966) e no Porto (1967) para além de ter abraçado o projeto de ensino artístico Pássaro Azul, no Parque Infantil das Necessidades, dirigido por Fernanda de Castro, onde foi  uma das professoras como Arminda Correia (na Música), Águeda Sena e Ana Máscolo (na Dança),   Eunice Muñoz e Carmen Dolores  (Teatro) ou Sarah Afonso (Pintura), entre outras.

Foi distinguida com os Prémios Oficial do Conservatório (1932), Beethoven(1933), Viana da Mota  e o Oficialato da Ordem de Santiago da Espada (1967).

Faleceu na sua casa na Rua Padre António Vieira, nº 1 – r/c esqº, em Lisboa.

Freguesia de Benfica (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

A Rua da fidalga fadista Maria Teresa de Noronha

Freguesia da Ajuda (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Ajuda
(Foto: Sérgio Dias)

A fidalga Maria Teresa de Noronha que cedo se fez fadista e pela rádio foi divulgada e conhecida como voz do fado aristocrático,  deu nome à Rua 18 do Bairro do Caramão da Ajuda, por Edital de 16/01/1995, a partir da sugestão de uma moção de pesar da Câmara de Lisboa de 7 de julho de 1994,  juntando-se neste bairro à Rua Hermínia Silva, que desde o Edital de 31/08/1993 tinha passado a ser o topónimo da antiga Rua 15.

A escassez de novas artérias em Lisboa no início da década de noventa do séc. XX, fez com que a edilidade aproveitasse as ruas de denominação numérica e as renomeasse. Assim, a Rua Teresa de Noronha foi atribuída na Rua 18 do Bairro do Caramão da Ajuda, sendo acompanhada no mesmo Edital pela Rua Irene Isidro – Actriz/1907 – 1993  (Rua 16), a Rua Jorge Brum do Canto – Cineasta/1910 – 1994  (Rua 19) e a Rua dos Cravos de Abril (Rua 17), uma homenagem ao 25 de Abril de 1974.

Maria Teresa do Carmo de Noronha de Guimarães Serôdio (Lisboa/07.11.1918 – 04.07.1993/Sintra) foi uma fadista do fado clássico e castiço, sendo considerada uma voz do fado aristocrático, que se notabilizou arredada do circuito das casas de fado mas antes transmitida ao vivo pela rádio.  Decidiu retirar-se da vida artística em 1962 com uma grandiosa festa de homenagem mas pontualmente, terá feito aparições públicas sendo a última  em 1974, em Cascais, onde fora ouvir Manuel de Almeida e este lhe pediu que cantasse.

Maria Teresa de Noronha (ou Baté para os amigos) teve educação musical de piano e canto e desde nova cantava em festas da família e de amigos. Era descendente dos Condes de Paraty, filha de D. António Maria Sales do Carmo de Noronha e de D. Maria Carlota Appleton de Noronha Cordeiro Feio e pelo casamento, a 17 de dezembro de 1947, com o conde José António Barbosa de Guimarães Serôdio, guitarrista amador e compositor, tornou-se Condessa de Sabrosa. Pelo seu irmão foi tia do fadista Vicente da Câmara.

Em 1938, a fadista começou a fazer-se ouvir num programa quinzenal na Emissora Nacional que se manteve em emissão durante 23 anos consecutivos. Era apresentado pelo seu irmão D. João da Câmara e composto por quatro fados e uma guitarrada. Maria Teresa de Noronha era acompanhada pelo guitarrista Fernando Freitas e pelo violista Abel Negrão. Com o seu timbre peculiar ousou cantar temas do fado de Coimbra numa altura em que apenas as vozes masculinas eram suposto fazê-lo. Entre os diversos instrumentistas que a acompanharam nos seus programas, destaque-se o guitarrista Raúl Nery que com ela colaborou ao longo de vinte anos, nomeadamente na deslocação a Espanha em junho de 1946, no Festival da Feira do Livro de Barcelona e em Madrid, no Hotel Ritz, a convite do Governo espanhol . Em 1949, Maria Teresa de Noronha também viajou até ao Brasil, por ocasião da voo de inauguração entre Lisboa e o Rio de Janeiro. Em 6 de maio de 1957,  cantou no banquete oferecido ao Prefeito da Baía, no Castelo de São Jorge, pelo presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Álvaro Salvação Barreto. Na década de sessenta interpretou fado para a família real do Principado do Mónaco e em 1964, deslocou-se a Londres para espetáculos na Embaixada e na Casa de Portugal, bem como na BBC (rádio e televisão), acompanhada pelo conjunto de guitarras de Raúl Nery.

O primeiro álbum de Maria Teresa de Noronha,  O Fado dos Cinco Estilos, foi gravado em 1939 na antiga Emissora Nacional, seguindo-se com alguma regularidade mais alguns exemplares no formato 78 RPM,  até editar o seu último LP em 1972. Duas das apresentações de Maria Teresa de Noronha em programas da RTP (em 1959 e em 1968) foram editados mais tarde  numa cassete video sob o título Recordando Maria Teresa de Noronha e um álbum dos seus maiores êxitos saiu na Valentim de Carvalho em 1993.

Maria Teresa de Noronha baseou o seu repertório nos fados castiços que mais apreciava, em detrimento do fado canção, interpretando poemas muitas vezes recolhidos no seu universo familiar, como é o caso dos temas Fado das Horas, Fado da Verdade, Sete Letras e Fado de Rio Maior, todos da autoria de D. António de Bragança. A fadista tornou grandes êxitos populares o Fado Corrido,  o Fado Hilário e o Fado Anadia, que na sua voz e dicção perfeita ganhavam uma qualidade de interpretação que rivalizava com os temas mais populares do seu repertório, caso de Minhas Penas ou Pintadinho.

Freguesia da Ajuda (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua da voz do Hino do Benfica, Luís Piçarra

Freguesia do Lumiar (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

O cantor Luís Piçarra, ainda hoje reconhecido por dar a sua voz ao Hino do Sport Lisboa e Benfica, tem desde 2003 o seu nome gravado nas placas toponímicas de uma artéria do Lumiar, por sugestão da Casa do Artista (APOIARTE).

Este arruamento que liga a Rua José Cardoso Pires à Rua Helena Vaz da Silva teve o seu topónimo fixado pelo Edital municipal de 15/12/2003, na Rua 3.1 da Malha 15 do Alto do Lumiar, junto com mais 6 arruamentos próximos com nomes de cantores, instrumentistas e maestros – Arminda Correia, Adriana de Vecchi, Tomás Del Negro, Nóbrega e Sousa, Shegundo Galarza e Belo Marques –, e que em conjunto com a Alameda da Música, permitiu criar um Bairro da Música no Alto do Lumiar que significativamente teve a sua inauguração no Dia Mundial da Música de 2004.

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Luís Raul Janeiro Caeiro de Aguilar Barbosa Piçarra Valdeterazzo y Ribadenayra (Moura/23.06.1917 – 22.09.1999/Lisboa)  deixou gravadas 999 canções, tendo ele próprio escrito dezenas delas e a sua voz é reconhecida por todos na interpretação do segundo e atual hino do Sport Lisboa e Benfica, intitulado Ser Benfiquista, para além de ter sido ele o criador da famosa Granada, que lhe foi oferecida pelo compositor mexicano Agustin Lara.

Filho do produtor de vinho Luís da Costa de Aguilar Barbosa Piçarra e de Luísa Maria Caeiro, frequentou os dois primeiros anos de Arquitetura da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa mas interrompeu o curso em 1937 para se dedicar a uma carreira musical. Estudou  canto com Fernando de Almeida e Hermínia de Alargim e estreou-se na ópera O Barbeiro de Sevilha levada a cena na Academia dos Amadores de Música de Lisboa. A partir daqui  fez uma carreira de sucesso, cantando pelo mundo inteiro, com espetáculos no Brasil, Argentina, México, Egito, Chipre, Líbano, Síria, Grécia, Turquia, Itália ou Paris. Refira-se especialmente que foi cantor privativo no palácio do rei Faruk (1947/48), parceiro de Edith Piaf numa série de programas do show This is Europe organizado pela ECA (agência encarregada de aplicar o Plano Marshall), tenor da Orquestra de Paul Durand e membro da digressão ao Brasil de A Rosa Cantadeira, com Amália Rodrigues. Na rádio e televisão francesas ficou conhecido como Lou Pizarra e aí estreou nos anos 50 do séc. XX temas como Avril au Portugal, Granada ou Luna Lunera. Na década seguinte também gravou programas para diversas televisões incluindo a NBC norte –americana.

Em Portugal, Luís Piçarra distinguiu-se  como tenor oficial da Emissora Nacional, bem como interpretando ópera, opereta e teatro de revista. No cinema, também cantou pela primeira vez O Meu Alentejo no filme Pão Nosso (1940)  de Armando Miranda. Depois da morte da sua primeira esposa em 1968, Luís Piçarra escolheu viver em Angola até 1975, onde foi diretor do Centro de Preparação de Artistas da Rádio e professor de canto teatral na Academia de Música. Após o regresso a Portugal, publicou  em edição de autor Luís Piçarra instantâneos da minha vida (1987) e em 1996 foi lançada uma compilação de temas seus com Granada, Avril Au Portugal, Canção do Ribatejo, Caminho Errado, Anda Cá, Aninhas, Batalha, Guitarra da Mouraria, Morena da Raia, Santa Maria dos Mares, Ser Benfiquista e  O Meu Alentejo.

No dia 23 de abril de 1964 foi homenageado no Pavilhão dos Desportos, em Lisboa, pelos seus 25 anos de carreira e, a 9 de novembro de 1985, foi-lhe atribuída a comenda da Ordem do Infante D. Henrique. Luís Piçarra faleceu em Lisboa, na Casa do Artista, onde passou os últimos meses de vida.

Freguesia do Lumiar (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias)

A Avenida do mestre da guitarra portuguesa Carlos Paredes

Freguesia do Lumiar (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

Como se fosse o braço de uma guitarra portuguesa está a Avenida Carlos Paredes, sendo o corpo do instrumento os arruamentos com topónimos ligados à música, de ambos os lados, e a Alameda da Música um dedo a tanger as cordas.

O que quer dizer mais prosaicamente que o mestre da guitarra portuguesa Carlos Paredes ficou perpetuado na freguesia do Lumiar, na Avenida 2 do Plano de Urbanização no Alto do Lumiar através da publicação do Edital municipal de 06/10/2005,  junto à Alameda da Música e de outras ruas com topónimos de compositores, instrumentistas e cantores, sendo a primeira vez que um nome ligado à Música foi consagrado numa avenida de Lisboa.

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Carlos Paredes (Coimbra/16.02.1925 – 23.07.2004/Lisboa), símbolo ímpar da cultura portuguesa e um dos seus grandes guitarristas, nasceu filho, neto e bisneto de grandes vultos da guitarra portuguesa – Artur, Gonçalo e António Paredes -, o que o influenciou a estudar  este instrumento logo a partir dos 4 anos. Veio residir para Lisboa aos 9 anos, estudou no Liceu Passos Manuel e num colégio particular e aos 18 anos fez o exame de admissão ao Curso industrial do Instituto Superior Técnico, onde frequentou o primeiro ano.

Em 1949, aos 24 anos, apresentou-se em parceria com o seu pai no programa semanal deste na Emissora Nacional e nesse mesmo ano tornou-se funcionário do Hospital de São José, como arquivista de radiografias. Em 1958 aderiu ao Partido Comunista Português e por denúncia de colegas de trabalho, foi preso pela PIDE no dia 26 de setembro acusado de ser militante comunista, sendo libertado 18 meses depois e expulso da função pública, pelo que trabalhou alguns anos como delegado de propaganda médica.

E contudo, Carlos Paredes tornar-se-á uma figura nacional e até reconhecida internacionalmente, como executante, compositor e um dos grandes responsáveis pela divulgação e popularidade da guitarra portuguesa, o que lhe granjeou os epítetos de O Mestre da guitarra portuguesa e O homem dos mil dedos. Usou uma guitarra de Coimbra e a afinação do Fado de Coimbra mas a sua vida em Lisboa inspirou-lhe e marcou inúmeras das suas composições.

A sua discografia soma os singles  Mudar de Vida, António Marinheiro e Balada de Coimbra (todos em 1972); os EP’s Carlos Paredes (1957), Porto Santo, Divertimento e  Variações em Ré Menor (todos em 1968); bem como os álbuns Guitarra Portuguesa (1967), Movimento Perpétuo (1971), Carlos Paredes-Meister der portugiesischen Guitarre (1977, na RDA), O Oiro e o Trigo (1980, na RDA), Concerto em Frankfurt (1983), Espelho de Sons ( 1988), Na Corrente (1996), Canção para Titi (2000). Acrescem ainda os seguintes: acompanhou Ary dos Santos a declamar poemas (1969) ; foi  produtor, diretor musical e acompanhador em Meu País (1971) da cantora Cecília de Melo; É preciso um País (1974), música com poemas de Manuel Alegre declamados pelo poeta; colabora em Que Nunca Mais (1975) de Adriano Correia de OliveiraInvenções Livres (1986) em dueto com o piano de António Vitorino de Almeida; Dialogues (1990) em dueto com o contrabaixista de jazz Charlie Haden; participação especial no disco dos Madredeus, gravado ao vivo no Coliseu dos Recreios (1992).

Para o cinema entrou  em 1960, ao compor a banda sonora da curta-metragem Rendas de Metais Preciosos de Cândido Costa Pinto, a que seguiu dois anos depois o êxito de Os Verdes Anos para o realizador Paulo Rocha, de que sairá também um EP no mesmo ano de 1962. E durante está década foi pródigo em ligar-se ao cinema novo português ao compor para filmes de outros cineastas como Pierre Kast (P.X.O., 1962), Jorge Brun do Canto (Fado corrido, 1964), Manoel de Oliveira (As pinturas do meu irmão Júlio,1965), Paulo Rocha (Mudar de vida, 1966), António de Macedo (Crónica do esforço perdido, 1966), José Fonseca e Costa (A cidade, 1968; The Columbus route, 1969), Manuel Guimarães (Tráfego e estiva, 1968) ou Augusto Cabrita ( Na corrente, documentário para a RTP, 1969). Em 1974 o próprio Pier Paolo Pasolini o convidou para musicar um filme seu mas a morte do realizar inviabilizou o intento.

Mas Paredes também compôs para teatro: na histórica encenação de Fernando Gusmão para o Teatro Moderno de Lisboa (1964);nas Bodas de Sangue do CITAC; em A Casa de Bernarda Alba pelo Teatro Experimental de Cascais; em O avançado centro morreu ao amanhecer encenada pelo Grupo de Teatro de Campolide (1971), mantendo até 1977 colaboração com este Grupo; O Avarento produzida pelo Teatro Na Caixa (1984).  Vasco Wallenkamp    também usou a    música de Paredes para criar o bailado Danças para Uma Guitarra (1982).

Após o 25 de Abril de 1974, Carlos Paredes  foi reintegrado nos quadros do Hospital de S. José e o anúncio televisivo diário das primeiras eleições livres para a Assembleia Constituinte tinha música sua.

A última actuação em público de Carlos Paredes foi em Outubro de 1993, na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, acompanhado por Luísa Amaro.

Ao longo da sua carreira acumulou o Prémio da Casa da Imprensa como Solista (1961), o  Prémio da Casa da Imprensa para Música Ligeira e o Prémio Consagração de Carreira (1981), o  Troféu Nova Gente, o Troféu Prestígio do Jornal Sete e  o Prémio Bordalo da Casa da Imprensa (todos em 1984 ), o  Prémio Antena Um em 1987 e em 1988, bem como feito Comendador da Ordem Militar de Santiago da Espada (1992), Pedro Jóia gravou Variações Sobre Carlos Paredes (2001), a Câmara Municipal de Vila Franca de Xira instituiu um prémio com o seu nome (2002) e  em junho de 2003, a Universal lançou um disco de homenagem intitulado Movimentos Perpétuos: Música para Carlos Paredes, para além de Mísia ter lançado Canto (2003), composto por canções expressamente escritas para músicas de Carlos Paredes.

Uma doença do sistema nervoso central diagnosticada em dezembro de 1993 impediu-o de tocar durante os últimos 11 anos da sua vida, tendo sido decretado um dia de Luto Nacional aquando do seu falecimento e sepultado no Talhão dos Artistas do Cemitério dos Prazeres. Postumamente,  Edgar Pêra dedicou-lhe o filme Movimentos Perpétuos: Tributo a Carlos Paredes (2006).

Freguesia do Lumiar (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do médico Ladislau Patrício da Assistência aos Militares Tuberculosos

Freguesia do Lumiar (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

O médico Ladislau Patrício foi nomeado vogal da Comissão Central de Assistência aos Militares Tuberculosos durante a I Guerra Mundial e dirigiu o Sanatório Militar de São Fiel, em Louriçal do Campo (Castelo Branco), entre 1917 e 1919, onde coordenou o tratamento dos militares do Corpo Expedicionário Português que voltavam tuberculosos. Desta experiência publicou um testemunho intitulado A assistência em Portugal aos feridos da guerra por tuberculose no ano de 1920.

Dezoito anos após o seu falecimento e a partir de uma sugestão do seu filho João Patrício, foi o nome de Ladislau Patrício inserido na toponímia de Lisboa, por Edital de 21/10/1985, no arruamento Z1 ou Rua 1 da Célula E do plano de Pormenor da Zona Central da Unor – 32, ao Lumiar, entre a Alameda das Linhas de Torres e a Rua Silva Tavares, que colocou também nas proximidades a Praça Bernardino Machado.

rua ladislau livroLadislau Fernando Patrício (Guarda/07.12.1883 – 25.12.1967/Lisboa) foi médico, professor, escritor e republicano. Licenciado em Medicina pela Universidade de Coimbra, em 1908, iniciou o seu desempenho profissional no ano seguinte como médico municipal em Loulé e depois, regressou à Guarda onde, além de exercer medicina foi professor de Ciências Naturais e de Matemática no Liceu da Guarda. Com o seu cunhado Augusto Gil envolveu-se na defesa da República e em 1911 foi eleito Presidente da Comissão Municipal Republicana do Concelho da Guarda. Após dirigir o Sanatório Militar de São Fiel tornou-se médico assistente do Sanatório Sousa Martins em 1922, e mais tarde, em 1934, foi nomeado seu diretor, tendo exercido o cargo até 1953, período em que publicou O Bacilo de Koch e o Homem (1940). Em 1949 foi nomeado médico municipal, subdelegado de saúde do concelho da Guarda e vogal do conselho geral da Ordem dos Médicos, para além de ao longo da sua carreira ter colaborado com jornais diários e imprensa médica.

Paralelamente, desde cedo escreveu poesia, teatro e contos de que se destaca Aquela família (1914), uma crónica sobre a implantação da República em Moimenta da Beira, bem como O mundo das pequenas coisas (1927), Augusto Gil: notas sôbre a sua vida, a sua doença e a sua morte; o seu espólio literário (1942) e a peça A doente do Quarto 23 (1950). A partir de finais da década de quarenta do século XX, foi também um notável impulsionador da radiodifusão e terá sido o autor do primeiro regulamento da Rádio Altitude (1947), que funcionava no Sanatório Sousa Martins e na qual colaborou regularmente.

Freguesia do Lumiar (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias)

 

Raul de Carvalho nos palcos da Primeira Guerra e dos teatros

Movimento, 01.08.1933

Movimento, 01.08.1933

Raul de Carvalho, conhecido pelo seu trabalho no teatro e no cinema, participou também na I Guerra Mundial quando resolveu alistar-se como voluntário, e tem o seu nome inscrito na Freguesia de Santa Clara, na que era a Rua 4 B do Vale da Ameixoeira, desde a publicação do Edital municipal de 14 de julho de 2004.

Este topónimo insere-se no núcleo de atores criado no Vale da Ameixoeira com este Edital, que atribuiu também a Rua Arnaldo Assis Pacheco, a Rua António Vilar, a Rua José Viana e a Rua Varela Silva. Já o Edital de 19 de abril desse mesmo ano havia colocado naquele bairro a Rua Fernanda Alves e a Rua Fernando Gusmão. E cinco anos mais tarde, em 16 de setembro de 2009, foi a vez da Rua Artur Ramos e da Avenida Glicínia Quartin.

Freguesia de Santa Clara - Placa Tipo IV (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Clara – Placa Tipo IV
(Foto: Sérgio Dias)

Raul de Carvalho Soares (Salvaterra do Extremo/15.02.1901 – 11.08.1984/Lisboa), após frequência do Colégio Militar entrou como voluntário para a I Guerra Mundial, com apenas 16 anos. Depois,  estreou-se como ator em 1921, numa reposição da peça Zilda, de Alfredo Cortez, na Companhia de Rey Colaço-Robles Monteiro, na qual se manteve durante a maior parte da sua carreira. Num breve interregno da sua ligação a esta Companhia, foi também empresário teatral, tendo formado uma companhia com a atriz Ilda Stichini. Fez a sua despedida dos palcos no Teatro São Luiz, no dia 16 de dezembro de 1966, interpretando O Ciclone de Somerset Maugham.

No cinema, começou logo na década de vinte do século XX , ainda no mudo, em O Primo Basílio  (1922) de George Pallu e em O Fado (1923) de Maurice Mariaud, tendo cumprido uma vasta carreira integrando os elencos de, entre outros, Gado Bravo (1934) e Frei Luís de Sousa (1950) de António Lopes Ribeiro, Bocage (1936) e Inês de Castro (1945) de Leitão de Barros, Bola ao Centro (1947), Fado –  História d’uma Cantadeira (1947) e As Pupilas do Senhor Reitor (1960) de Perdigão Queiroga, Não Há Rapazes Maus! (1948), A Morgadinha dos Canaviais (1949) de Caetano Bonucci e Amadeu Ferrari, A Garça e a A Serpente (1952) de Arthur Duarte, Rosa de Alfama (1953) de Henrique Campos, O Cerro dos Enforcados (1954) de Fernando Garcia, ou  O Tarzan do 5º Esquerdo (1958) de Augusto Fraga.

Raul de Carvalho também fez locução para rádio e televisão, e integrou os elencos de telefilmes, áreas de que se retirou no decorrer da década de setenta do séc. XX. Foi distinguido como Oficial da Ordem de Santiago de Espada (1947) e da Ordem de Cristo (1966), bem como com a medalha de mérito da Câmara Municipal de Lisboa (1967).

Freguesia de Santa Clara (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do investigador olisiponense Gustavo de Matos Sequeira

Freguesia de Santo António (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias)

Gustavo de Matos Sequeira, olisipógrafo que publicou O Carmo e a Trindade, nasceu, residiu e faleceu na Rua Nova de Santo António e a esta artéria deu nome no ano seguinte ao seu falecimento, com a legenda «Olisipógrafo/1880-1962».

Do historial deste arruamento sabemos que foi por edital do Governo Civil de 05/08/1867 que a Travessa de Santo António se passou a denominar  Travessa Nova de Santo António, mas em 1885, já por edital municipal de 14 de março, tomou o nome de Rua Nova de Santo António e finalmente, o edital municipal de 22/01/1963 determinou que passasse a ser a Rua de Gustavo de Matos Sequeira.

Freguesia de Santo António - Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

Gustavo Adriano de Matos Sequeira (Lisboa/09.12.1880 – 21.08.1962/Lisboa) foi um alfacinha que se fez olisipógrafo e integrou a Comissão Consultiva Municipal de Toponímia, no período de 1951 a 1959, com Durval Pires de Lima, Jaime Lopes Dias e o vereador Pedro Correia Marques.

Gustavo Matos Sequeira havia frequentado a Escola Politécnica, o Instituto Industrial e o Curso Superior de Letras, enveredando por escrever  para diversos jornais e revistas,  como O Século, O Ocidente e a Ilustração Portuguesa, sobretudo nos temas de crítica de teatro, arte e arqueologia. Com Norberto de Araújo e Luís Pastor de Macedo agitou nos jornais a ideia de fundar o Grupo Amigos de Lisboa, no qual viria a exercer funções de vice-presidente, presidente e mais tarde, de diretor da revista da Associação, a Olisipo. Da sua obra publicada salienta-se os 4 volumes de  Depois do Terramoto – Subsídios para a História dos bairros Ocidentais de Lisboa  (1916- 1934), História do Trajo (1932), os 3 volumes de O Carmo e a Trindade (1939-1941) e a  História do Palácio Nacional da Ajuda (1959), para além das mais de 100 conferências que proferiu.

Matos Sequeira foi também comissário do Teatro Nacional, de 1915 até 1936, situação que o conduziu a fazer investigação histórica nesta área, tendo editado  Teatro de Outros Tempos (1933) e os 2 volumes da História do Teatro Nacional D. Maria II (1955) que lhe valeram a atribuição do Prémio Municipal Júlio de Castilho. Também avançou para a dramaturgia com as peças O Diabo Azul (1933), O Auto de S. João (1936) e a alegoria em verso Afonso Henriques (1940), bem como para adaptações radiofónicas.

Gustavo de Matos Sequeira foi ainda em 1915 chefe de gabinete do Ministro das Finanças, Engº Herculano Galhardo; organizador do Congresso da Crítica (em 1931)  e com Leitão de Barros, do Mercado do Século XVII no Largo de São Domingos (1925 e 1926 ), da reconstituição de Lisboa Antiga na cerca das Francesinhas (1927 e 1935), do Cortejo Histórico Colonial do Porto (1934) e da reconstituição duma Feira Antiga no Parque da Palhavã (1943).

Matos Sequeira pertenceu ainda à Academia das Belas-Artes de Lisboa, à Academia das Ciências de Lisboa, à Academia Portuguesa de História, à Associação dos Arqueólogos Portugueses, tendo sido agraciado com a medalha de ouro de mérito municipal,  a Ordem Militar de Santiago da Espada (1939) e a Ordem Militar de Cristo (1941).

Em 1963 (Foto: Ferreira da Cunha, Arquivo Municipal de Lisboa)

Em 1963
(Foto: Ferreira da Cunha, Arquivo Municipal de Lisboa)

 

Rua Gustavo Matos Sequeira mapa

Freguesia de Santo António (Foto: Sérgio Dias)