A Festa do Japão no jardim da Rua Vieira Portuense

Rua Vieira Portuense e Jardim Vasco da Gama
(Foto: Ana Luísa Alvim| CML)

No próximo sábado, dia 22 de junho de 2019, das 14:00 às 22:00 horas, vai decorrer a 9ª Festa do Japão em Belém, no Jardim Vasco da Gama da Rua Vieira Portuense, inserida nas Festas de Lisboa’19.

Fronteiro à Rua Vieira Portuense o Jardim Vasco da Gama foi construído nos anos oitenta do século XX a partir do traçado do  arquiteto António Saraiva para uma área de 4,2 hectares. Já a Rua Vieira Portuense homenageia o pintor Francisco Vieira e foi atribuído pelo Edital municipal de 7 de agosto de 1911 na artéria até aí designada como Rua da Cadeia. Por Edital de 20 de setembro de 1915 foi-lhe acrescentada a artéria de continuação, a Rua do Cais de Belém e por isso a Rua Vieira Portuense estende-se hoje da Praça Afonso de Albuquerque até à Travessa da Praça.

O conjunto urbano da Rua Vieira Portuense integra prédios do séc. XVI ao XVIII,  junto ao que foi a antiga praia de Belém e ainda assim surge na planta de 1858 de Filipe Folque, sendo então o seu topónimo Rua da Cadeia, que era paralela e maior que a Rua Direita de Belém (hoje Rua de Belém) e que tinha a meio e mais próximo do rio um Mercado. Em 24 de julho de 1880 foi colocada a primeira pedra de um novo Mercado e na planta de 1909 de Silva Pinto já podemos observar o novo Mercado instalado no meio da Rua da Cadeia e da Rua do Cais. Ao lado do Mercado e paralela à Rua da Cadeia existia uma Rua Bahuto e Gonçalves que terminava na Praça Dom Vasco da Gama, sendo hoje ambas espaço dos jardins. O Edital municipal de toponímia de 1911 tornou a Rua da Cadeia em Rua Vieira Portuense e a Rua Bahuto e Gonçalves em Rua Paulo da Game e o Edital de 1915 somou a Rua do Cais à Rua Vieira Portuense. A partir de 1939 toda a zona começa a ser remodelada para aí se instalar a Exposição do Mundo Português de 1940, finda a qual ficou a Rua Vieira Portuense e uma zona de terras a separá-la do Tejo.

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D. Filipa de Vilhena armando seus filhos cavaleiros (1801, Londres) de Vieira Portuense

Francisco Vieira (Porto/13.05.1765 – 02.05.1805/Funchal) distinguiu-se como pioneiro do neoclassicismo na pintura portuguesa, tal como Domingos Sequeira, ambos pintores régios, com o nome artístico de Vieira Portuense, por referência à sua cidade natal e para se distinguir do lisboeta Vieira Lusitano.

Presume-se que terá aprendido a pintar paisagens com o seu pai, Domingos Francisco Vieira, a par do ofício como droguista, assim como terá tido João Glama Strobërle e Jean Pillment como mestres e terá frequentado a Aula de Debuxo e Desenho do Porto. Depois veio para Lisboa, onde estudou na Casa Pia e na Aula Régia de Desenho, a partir de 1787. Seguiu para Roma em 1789, financiado pela família, pela Feitoria Inglesa e talvez também pela Companhia Geral de Agricultura e das Vinhas do Alto Douro. Em Roma, foi discípulo de Domenico Corvi e obteve o 1.º prémio de Desenho no concurso da Academia do Nu do Capitólio. Em Itália, esteve ainda em Parma – onde em 1794 se tornou académico da Academia de Belas Artes local-, Cremona, Bolonha – onde ingressou na Academia Clementina em 1795-, e Nápoles, para além de ter viajado também  pela Alemanha e Inglaterra, onde residiu em Londres na casa do embaixador D. João de Mello e Castro em 1789 e a 9 de julho de 1799 casou com Maria Fabbri, uma bolonhesa viúva de um aluno de Bartolozzi, pelo que após o casamento passou a viver na casa de Bartolozzi em North End (Fulham).

Vieira Portuense regressou a Portugal em 1800 e foi contratado pela Junta da Administração da Companhia Geral de Agricultura e das Vinhas do Alto Douro como professor da Aula de Desenho da Academia Real de Marinha e Comércio da Cidade do Porto, de que viria a ser diretor em 1803. Entre 1801 e 1802 também trabalhou em Lisboa, nas ilustrações de uma edição de “Os Lusíadas“, promovida por D. Rodrigo de Sousa Coutinho.

Ao contrair tuberculose em 1805 mudou-se para a Madeira, por ser considerada mais saudável, mas acabou por falecer lá antes de completar 40 anos de vida. A sua obra está presente no Museu Nacional de Arte Antiga e no Museu Nacional de Soares dos Reis (Porto), sendo famosos os seus quadros Leda e o Cisne (1798) ou D. Filipa de Vilhena armando os filhos cavaleiros (1801), para além de Latona e os camponeses da Lícia pertença da Câmara Municipal do Porto, assim como Banho de Diana que se encontra na Galeria Nacional de Parma.

Freguesia de Belém

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Lisboa Mistura no jardim da quinta dos fósseis pré-históricos

Freguesia do Lumiar

Hoje é último dia do Lisboa Mistura 2019  que desde dia 8 de junho tem decorrido no Jardim da Quinta das Conchas, espaço cuja toponímia  decorre de vestígios aí encontrados, fósseis calcários do Miocénico lisboeta ( ou seja, de cerca de 20 a 7 milhões de anos atrás), como sucedeu no Alto das Conchas, em Marvila, e onde  no séc. XVI nasceu uma quinta agrícola.

Lisboa Mistura é um festival com músicos internacionais do Médio Oriente, da América do Norte e de África, assim  como grupos comunitários, de diferentes gerações e proveniências culturais, para celebrar a comunidade urbana e a diversidade que integra o ADN de Lisboa. Pela primeira vez realiza-se na Quinta das Conchas, na Freguesia do Lumiar, depois de ter tido como palcos o Castelo de São Jorge, o Largo do Intendente Pina Manique ou a Avenida da Ribeira das Naus.

 

A Quinta das Conchas está perpetuada na Rua da Quinta das Conchas e no parque ou jardim da Quinta das Conchas. Os fósseis pré-históricos definiram o nome do lugar e em meados do século XVI aí nasceu a Quinta de Afonso de Torres, sabendo-se que já em 1520 era um morgadio deste rico negociante de origem espanhola. Sucederam-se vários proprietários na Quinta das Conchas de que se destaca no final do séc. XIX,  em 1897, Francisco Mantero, um dos grandes exploradores das roças de café de São Tomé – que dá nome a uma Rua dos Olivais tal como seu filho, Mantero Belard, dá a uma Rua de Santa Clara -, que somou a parte rústica da Quinta das Conchas à sua Quinta dos Lilazes, onde a sua residência reproduzia o modelo  da mansão colonial, e incluindo um grande lago artificial,  com duas pequenas ilhas nas quais plantou palmeiras, em homenagem às ilhas de São Tomé e Príncipe.

Contudo, no século XX, a área desta Quinta foi mais utilizada pela então muito recente indústria cinematográfica, uma vez que  em 1920 foi nela fundada  a Caldevilla Film, que produziu por exemplo, Os Faroleiros e As Pupilas do Senhor Reitor e doze anos depois, em 1932, foi a vez da Tobis Portuguesa adquirir parte da Quinta para aí edificar os seus estúdios. Em 1966, os descendentes de Francisco Mantero transferiram para a Câmara Municipal de Lisboa a gestão da Quinta que recebeu obras de requalificação em 2005 que mereceram o Prémio Valmor e Municipal de Arquitectura desse ano.

Freguesia do Lumiar

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Júlio de Castilho duas vezes topónimo lisboeta: em Largo e em Jardim

Júlio de Castilho com o fotógrafo José Artur Leitão Bárcia
(Foto: José A. Leitão Bárcia, Arquivo Municipal de Lisboa)

No último dia desta semana, 8 de fevereiro de 2019, completam-se cem anos da morte do Mestre da Olisipografia Júlio de Castilho, o autor  de obras tão importantes e pioneiras como Lisboa antiga – Primeira parte: 0 Bairro Alto (1879) – que teve uma 2ª edição ampliada em 5 tomos-,  Lisboa antiga – Segunda parte: Bairros orientais (1884 – 1890) – em 7 tomos – ou A Ribeira de Lisboa, descrição histórica da margem do Tejo desde a Madre de Deus até Santos o Velho (1893), pelo que foi considerado o fundador dos estudos olisiponenses.

De acordo com Raquel Henriques da Silva, na sua palestra de abertura de «Uma casa em Lisboa – Homenagem a José Sarmento Matos» no passado dia 22 de janeiro – dia de São Vicente, o padroeiro de Lisboa – , Lisboa tem uma disciplina própria que mais nenhuma cidade tem que é a Olisipografia que Júlio de Castilho inventou. Por isso mesmo, recomendou a reedição anotada de toda a obra de Mestre Castilho.

Júlio de Castilho (Lisboa/30.04.1840- 08.02.1919/Lisboa), era filho do escritor António Feliciano de Castilho que nascera no Bairro Alto, e por isso ao investigar para escrever as memórias de seu pai acabou por escrever a sua primeira obra sobre a história da cidade de Lisboa, dedicada a esse Bairro. Também por essa condição de nascimento foi o 2º visconde de Castilho e viveu a maior parte da sua vida no Lumiar, vindo a ter o seu nome consagrado no Largo contíguo à artéria onde morava, já que residente do n.º 11 da Travessa do Prior ( hoje n.º 26 da Rua Pena Monteiro),  junto ao Largo da Duquesa, este último topónimo passou a ser o Largo Júlio de Castilho, por Edital municipal de 2 de março de 1925, com a legenda «Erudito Escritor e Historiador/1840 – 1919».

Logo no ano do seu falecimento, havia sido  homenageado com a colocação de uma lápide na sua casa no Lumiar, por iniciativa dos seus amigos José Artur Leitão Bárcia, Miguel Trancoso e António César Mena Júnior.

Largo da Duqueza, depois Largo Júlio de Castilho
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

E quatro anos após a atribuição do Largo com o seu nome, o fundador da Olisipografia, foi também homenageado com a criação do Jardim de Júlio de Castilho, onde a Comissão Administrativa da CML inaugurou  um busto do olisipógrafo, da autoria do escultor Costa Mota (sobrinho), no dia 25 de julho de 1929, integrado num miradouro sobre Alfama, conhecido como Miradouro de Santa Luzia, cerimónia a que compareceram outros olisipógrafos como Gustavo de Matos Sequeira ou o Engº Augusto Vieira da Silva, assim como o fotógrafo José  Artur Leitão Bárcia.

Em 1939, a Câmara Municipal de Lisboa lançou ainda o Prémio Júlio de Castilho e no ano seguinte (1940), no centenário do nascimento de Júlio de Castilho,  promoveu no Palácio Galveias uma Exposição ilustrativa da obra deste olisipógrafo.

Busto de Júlio de Castilho
(Foto: José A. Leitão Bárcia, Arquivo Municipal de Lisboa)

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Jardim do Marquês de Marialva ou do Campo Pequeno

Lápide do Jardim Marquês de Marialva, nos anos 50 do séc. XX (Foto: Fernando Martinez Pozal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Em pleno Campo Pequeno encontramos o Jardim do Marquês de Marialva que ali nasceu no início do século XX.

Aquando da construção da Avenida Ressano Garcia (depois, Avenida da República), entre 1897 e 1903, foi organizado este Jardim, em quatro espaços equilibrados, a rodear a praça de touros que ali fora inaugurada em 1892. Com muitas árvores frondosas tornou-se frequentado nos dias de verão, assim como espaço de reunião dos aficionados para discutir as touradas, antes e depois das corridas. Mais tarde, por volta dos anos quarenta, foi acrescido de um parque infantil.

O Marquês de Marialva neste Jardim celebrado é o 4º, de seu nome completo Pedro José de Alcântara de Menezes Noronha Coutinho (09.11.1713-22.02.1799), filho de Diogo de Noronha e Joaquina Maria de Menezes ( 3ª marquesa de Marialva), conhecido como estribeiro-mor da Coudelaria Real de Alter do Chão, assim nomeado por D. José I, e nessa condição criador do sistema de equitação que ficou conhecido como arte de Marialva, em atenção ao seu nome nobiliárquico.

Na segunda metade do século XVIII foi considerado o melhor cavaleiro de Portugal do seu tempo, tendo tido um papel decisivo no aperfeiçoamento da Picaria Real e da arte equestre portuguesa, sendo conhecido pela chamada arte de Marialva de que foi  sucessora a Escola Portuguesa de Arte Equestre. Foi mesmo retratado demonstrando exercícios da alta escola no tratado de cavalaria do séc. XVIII, a  Luz da Liberal e Nobre Arte da Cavallaria (1790), da autoria de Manuel Carlos de Andrade (1755-1817).

D. João V fundara em 1748   a Coudelaria de Alter, para o Alter-Real ( sub-raça do cavalo Lusitano), um apuramento ordenado pelo próprio rei. Na segunda metade do séc. XVIII, D. José I ampliou a iniciativa de seu pai, estruturou a Coudelaria e deu-lhe o primeiro regime coudélico, para assim iniciar o período áureo da Coudelaria e do Alter-Real, sob orientação de D. Pedro de Alcântara e Menezes.

Este 4º Marquês de Marialva foi marido de Eugénia de Assis Mascarenhas, com quem teve seis filhos.

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Jardim Garcia de Orta ao Parque das Nações

Freguesia do Parque das Nações
(Foto: António Marques, 1998, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Jardim Garcia de Orta ao Parque das Nações é uma herança toponímica da Expo 98, que pelo Edital municipal de 16 de setembro de 2009 se viu acrescido de «ao Parque das Nações», para evitar equívocos com a Rua Garcia de Orta que desde 1911 existe na freguesia da Estrela (antes, Santos-o-Velho).

Estátua de Garcia de Orta, da autoria de Martins Correia, no IHMT desde 1958
(Foto: 1969, António da Silva Fernandes Duarte, Arquivo Municipal de Lisboa)

Junto ao Passeio das Tágides, o Jardim Garcia de Orta ao Parque das Nações evoca o médico e naturalista que nasceu em Castelo de Vide por volta do ano de 1500 e morreu em Goa em 1568, filho de pais de ascendência judaica, que estudou Artes, Filosofia e Medicina nas Universidades de Salamanca e Alcalá. Regressado a Portugal em 1525, foi médico de D. João III e obteve a cátedra de Filosofia Natural da Universidade de Lisboa em 1530. Todavia, por temer a Inquisição, partiu para a Índia em 1534 e aí se dedicou ao estudo de plantas raras desconhecidas na Europa, publicando em Goa em 1563, o Colóquios dos Simples e Drogas e Coisas Medicinais da Índia e Frutas nela Achadas, com a particularidade de nele incluir a primeira poesia impressa de Camões.

Este jardim integra 5 talhões com floras representativas de 5 locais diferentes: o de África, com vegetação representativa do deserto de Moçâmedes ( Angola) e da ilha de Inhaca (Moçambique); o da Macaronésia, com flora da Madeira, dos Açores e de Cabo Verde; o de S. Tomé e do Brasil, com uma estrutura que ajuda a reproduzir o ambiente das plantas tropicais; o de Goa, baseado nos registos de Garcia de Orta; e o de Coloane que representa a vegetação da China meridional.

Cerca de doze anos após a morte de Garcia de Orta, em 1580, como era uso fazer-se aos judeus que tinham escapado com vida às malhas da Inquisição, foram desenterrados os seus ossos e queimados. Por outro lado, foi criado em Castelo de Vide, o Centro de Estudos Luso-Hebraicos Garcia d’ Orta (1988), o seu nome foi dado ao Hospital de Almada (1991), é o nome de uma Escola no Porto e é também topónimo um pouco por todo o país, como acontece em Abrantes, Albufeira, Almada, Amadora, Baixa da Banheira, Braga, Cabanas de Tavira, Caneças, Casal de Cambra, Corroios, Elvas, Ermesinde, Estoril, Lagos, Linda-a-Velha, Montijo, Odivelas, Oeiras, Portimão, Porto, Quinta do Conde (Sesimbra), Rio de Mouro, Rio Tinto, Seixal, Senhora da Hora (Matosinhos), Vale da Amoreira (Moita), Valongo, Vila do Conde ou Vila Nova de Gaia.

Freguesia do Parque das Nações
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Jardim com o busto de Júlio de Castilho

Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Rui Mendes)

Com um miradouro sobre Alfama, a partir do Largo de Santa Luzia, encontramos o Jardim que desde o dia 25 de julho de 1929 se inaugurou com um busto do olisipógrafo Júlio de Castilho, da autoria do escultor Costa Mota (sobrinho).

Falecido dez anos antes, no dia 8 de fevereiro de 1919, o olisipógrafo Júlio de Castilho, havia sido já consagrado na toponímia de Lisboa por via do Edital municipal de 2 de março de 1925, com o Largo Júlio de Castilho, o largo mais próximo da rua onde morara no Lumiar, acrescido da legenda «Erudito Escritor e Historiador/1840 – 1919».

A inauguração em 25 de julho de 1929
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Quatro anos mais tarde, em 25 de julho de 1929, a Comissão Administrativa da CML inaugurou o busto de Júlio de Castilho neste pequeno jardim também conhecido por Jardim de Santa Luzia, pela proximidade à Igreja de São Brás ou de Santa Luzia, erguida sobre a muralha da antiga cerca. O miradouro resultou de uma iniciativa de Quirino da Fonseca, para fornecer à cidade uma panorâmica geral de Alfama e do Rio Tejo, sendo que o assunto esteve alguns anos em discussão. Raul Proença no seu Guia de Portugal afirma no seu 1º volume, publicado pela primeira vez em 1924,  afirma que «Pela parte detrás da igreja existe, suportado pela muralha que desce a calçada de S. João da Praça, contornando-a, um troço de terreno, hoje inculto» e defende que «Como o templo não tem nenhum valor, poder-se-ia arrasar todo esse terreno e transformá-lo num jardim público, o que não só ofereceria aos habitantes uma janela aberta sobre o Tejo como também teria a vantagem de evitar o futuro desaparecimento do mais importante trecho de muralha goda que Lisboa possui.» Mais tarde, o espaço somou um painel de azulejos representando A Tomada do Castelo de São Jorge aos Mouros por Dom Afonso Henriques e outro painel com a a antiga Praça do Comércio (da autoria de António Quaresma e produzidos na Fábrica Viúva Lamego)  e ainda um outro, com uma vista de Lisboa com barcos no Tejo (desenho de Martins Barata e pintado em 1939 por Victoria Pereira).

Júlio de Castilho (Lisboa/30.04.1840- 08.02.1919/Lisboa), 2.º visconde de Castilho por ser filho primogénito de António Feliciano de Castilho (também perpetuado em Lisboa na Rua Castilho), é considerado um percursor dos estudos olisiponenses, tendo acumulado ao logo da vida uma importante coleção pessoal de documentos sobre o tema, que se encontra depositada na Biblioteca Nacional.

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Pulido Garcia: dos jardins de Lisboa para o jardim com o seu nome

Freguesia de Belém
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Com a legenda «Responsável pelos Jardins de Lisboa/1904 – 1983», foi o engº agrónomo Pulido Garcia fixado como topónimo de um pequeno jardim  em Belém, situado junto à Avenida Ilha da Madeira,  no ano de 1985, dois anos após o falecimento do funcionário da autarquia, através do Edital municipal de 20 de agosto de 1985.

O Jardim Pulido Garcia homenageia José da Orta Cano Pulido Garcia (Serpa/21.11.1904 – 02.03.1983/Serpa), natural da freguesia de Salvador, no concelho de Serpa, filho de Domingos Pulido Garcia e de Mariana da Consolação Orta Cano Garcia.

Formado como engenheiro silvicultor e agrónomo foi trabalhar como funcionário da C.M.L., destacando-se na chefia da Repartição de Arborização e Jardinagem, em que foi o responsável pela instalação da maior parte dos espaços verdes da cidade, como o Parque Florestal de Monsanto ou o  Jardim do Castelo de São Jorge, este último com plano do engº agrónomo e arqº paisagista Gonçalo Ribeiro Telles, em 1959.

Curiosamente, na sua terra natal – Serpa – existe também um Jardim com o seu nome, o Jardim Municipal Eng.º Pulido Garcia, o qual em  1975 teve uma grade  remodelação justamente estruturada por Pulido Garcia que se reformara em Lisboa e voltara para Serpa.

Freguesia de Belém
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Jardim dos Jacarandás da Expo 98

Freguesia do Parque das Nações
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

O Jardim dos Jacarandás nasceu com a Expo 98 e desde a publicação do Edital municipal de 16 de setembro de 2009 que este espaço verde de 2.500 metros quadrados que vai da Alameda dos Oceanos à Rua de Moscavide é parte integrante da freguesia lisboeta do Parque das Nações.

Freguesia do Parque das Nações
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Jardim dos Jacarandás caracteriza-se por ser uma zona arborizada que com situações de desníveis, tradicionais em Lisboa, resolvidas com plantações e muros. Por outro lado, guarda na memória o nome popular de várias espécies de árvores dos géneros Jacarandá-da-Bahia, Jacarandá-do-pará, Jacandará-africano, sendo o Jacarandá-mimoso o mais comum e que em Lisboa é possível encontrar, por exemplo, no Parque Eduardo VII, no Largo do Carmo ou ainda nas Avenidas 5 de Outubro ou Dom Carlos I.

Ainda herança da Expo 98 existe também o Passeio dos Jacarandás, que liga a Rua de Moscavide ao Passeio dos Fenícios, assim integrando também os primeiros 102 topónimos oficializados pelo Edital municipal de 16 de setembro de 2009, a que se juntaram mais 60 oficializados pelo Edital municipal de 06/05/2015.

A realização da Expo 98, subordinada ao tema “Os oceanos: um património para o futuro”, implantou para o evento uma toponímia ligada aos oceanos, aos Descobrimentos Portugueses, aos aventureiros marítimos da literatura e banda desenhada mundial, a figuras de relevo para Portugal, a escritores portugueses ou obras de sua autoria e ainda alguns ligados à botânica, como este Jardim dos Jacarandás.

O topónimo Jacarandás também surge em Portugal numa Rua de Brejos de Azeitão e noutra em Albufeira.

Jardim Ferreira de Mira, o médico do Instituto Rocha Cabral

Freguesia de Benfica
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Médico fisiologista da Faculdade de Medicina de Lisboa e historiador da medicina portuguesa, que a partir de 1922 fundou e dirigiu o Instituto Rocha Cabral, Ferreira de Mira dá o seu nome a um jardim lisboeta de Benfica, próximo do Hospital da Luz, 63 anos após o seu falecimento, através da deliberação camarária de 26 de outubro de 2016 e consequente Edital de 10 de novembro, a partir da sugestão do Prof. José Pedro Sousa Dias enquanto membro da Comissão Municipal de Toponímia em representação da Universidade de Lisboa.

Em 1926 na Ilustração Portuguesa

Mathias Boleto Ferreira de Mira (Montijo – Canha/21.02.1875 – 07.03.1953/Lisboa), formado na  Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa em 1898 e discípulo de Mark Athias, foi um médico e professor universitário que também fundou e dirigiu o Instituto Bento da Rocha Cabral a partir de 1922. Começou por exercer medicina no Hospital da Misericórdia da vila de Canha, mas veio viver para Lisboa em 1910 e dois anos depois era já  professor de Fisiologia, na então nova Faculdade de Medicina de Lisboa, a que mais tarde somou a regência da cadeira de Química.

Como investigador científico, Ferreira de Mira teve a oportunidade de fundar e dirigir a partir de 1922 um Instituto de Investigação na área das Ciências Biológicas, com o nome de um transmontano que no Brasil ficou multimilionário –  Bento da Rocha Cabral (1847-1921)- e que  no seu testamento deixou as verbas necessárias para o efeito com a indicação de quem o devia dirigir. O Instituto de Investigação Científica de Bento da Rocha Cabral ficou instalado na casa adquirida e reconstruída em 1902 pelo benemérito e que até aí lhe servira de morada em Lisboa, no nº 14 da Calçada Bento Rocha Cabral – assim denominada desde 1924 já que antes era a Calçada da Fábrica da Louça – e começou a realizar investigação a partir de 1925 com quatro investigadores: o próprio Matias Boleto Ferreira de Mira, o seu filho Manuel Ferreira de Mira (falecido em 1929), Luís Simões Raposo – na toponímia da freguesia do Lumiar desde 25/10/1989- e Fausto Lopo de Carvalho- na toponímia da freguesia de Marvila desde  04/11/1970-, que na década seguinte conseguiu dominar a tuberculose em Portugal. Foi este Instituto que acolheu as primeiras investigações com animais que permitiram a Egas Moniz a descoberta da angiografia e o desenvolvimento da angiopneumografia em conjunto com Almeida Lima e Lopo de Carvalho. Também aqui trabalho como investigadora a  primeira portuguesa doutorada em ciências biológicas, a fitopatologista Matilde Bensaúde.

Matias Ferreira de Mira foi também um membro dirigente da Sociedade Portuguesa de Biologia e, sobretudo nos jornais e revistas Luta de Brito Camacho, Diário de Notícias e Seara Nova, escreveu dezenas de artigos de vulgarização científica, na área da biologia e de outras ciências, assim como redigiu livros didáticos como Lições de Químico-Fisiologia elementar, Exercícios de Química Fisiológica (com Mark Athias) ou Manual de Química Fisiológica. Também deu dezenas de conferências sobre temas científicos e foi o autor da  História da Medicina Portuguesa (1947) e de biografias como a de Brito Camacho (1942), com Aquilino Ribeiro.

Ferreira de Mira foi também um cidadão empenhado na política tendo sido vereador da Câmara Municipal de Lisboa, com o pelouro da Instrução Primária, a partir de 1912, assim como foi  deputado da Primeira República, de 1922 a 1925, por Santarém, eleito com António Tavares Ferreira, Ginestal Machado e João Teixeira de Queiroz Vaz Guedes.

Matias Ferreira de Mira está também presente na toponímia da Charneca da Caparica.

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Jardim do ensaísta Eduardo Prado Coelho, nos Olivais

Freguesia dos Olivais
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

O ensaísta,  crítico literário, cronista  e professor universitário Eduardo Prado Coelho, autor de Tudo o que não escrevi, e falecido há 11 anos, dá o seu nome a um jardim dos Olivais, junto à Avenida Dr. Francisco Luís Gomes desde o ano passado, por via da publicação do Edital municipal de 19 de junho de 2017.

Eduardo Prado Coelho em 1998
(Foto: Nacho Doce, Arquivo Municipal de Lisboa)

Eduardo de Almeida do Prado Coelho (Lisboa/29.03.1944 – 25.08.2007/Lisboa), filho de  Dália dos Reis de Almeida e do Prof. Jacinto Prado Coelho – também presente na toponímia de Lisboa – licenciou-se em Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa e nesta mesma universidade fez o seu doutoramento com a tese «A Noção de Paradigma nos Estudos Literários» para se tornar um professor universitário e ensaísta cuja obra mais destacada foi o seu diário Tudo o que não escrevi (1992).

Enquanto docente exerceu na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, entre 1970 e 1983, e partir do ano seguinte no Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade Nova de Lisboa. Foi ainda professor convidado no Curso de Comunicação Social e Cultural da Universidade Lusófona, de mestrados do ISCTE e ainda do Departamento de Estudos Ibéricos da Universidade da Sorbonne, Paris III (1988).

Eduardo Prado Coelho desempenhou ainda funções públicas como Diretor-Geral de Acção Cultural do Ministério da Cultura (1975 e 1976), conselheiro cultural na Embaixada de Portugal em Paris (entre 1989 e 1998), comissário de Literatura e Teatro na Europália Portuguesa (1990), diretor do Instituto Camões em Paris (1997 e 1998) e comissário da participação portuguesa no Salon du Livre (2000). Por outro lado, também integrou o Conselho Diretivo do Centro Cultural de Belém, o Conselho Superior do ICAM – Instituto do Cinema, Audiovisual e Multimédia,  o Conselho de Opinião da RDP e da RTP, para além de como colaborador do Centro Nacional de Cultura ter organizado os encontros Um Livro um Autor.

Da sua vasta colaboração em jornais e revistas refira-se a sua crónica diária no Público – «O Fio do Horizonte» – durante dez anos até à data da sua morte, tendo sido colaborador deste jornal desde o primeiro número. Dos seus ensaios destacam-se O Reino Flutuante A Palavra Sobre a Palavra (ambos em 1972), A Letra Litoral : ensaios sobre a literatura e seu ensino (1978), Os Universos da Crítica : paradigmas nos estudos literários (1982), Vinte anos de cinema português : 1962-1982 (1983), A Mecânica dos Fluidos : literatura, cinema, teoria e A “nouvelle critique” em Portugal (ambos em 1984), A Noite do Mundo (1988), O Cálculo das Sombras (1997), assim como no ano de 2004 O Fio da Modernidade, Diálogos sobre a fé com D. José Policarpo, Dia Por Ama, com Ana Calhau e A Razão do Azul, para em  2006 sair Nacional e Transmissível.

Na sua vida pessoal foi viveu com Maria Eduarda Colares – com quem teve uma filha, a jornalista Alexandra Prado Coelho – , Teresa Coelho, Maria da Conceição Caleiro e Maria Manuel Viana.

Foi galardoado com o Prémio P.E.N. Clube Português de Ensaio (1985), o Grande Prémio de Literatura Autobiográfica da Associação Portuguesa de Escritores (1996), a Medalha de Mérito Cultural (1997) o Grande Prémio de Crónica João Carreira Bom e o Prémio Arco-íris da Associação ILGA Portugal (ambos em 2004), para além de integrar a toponímia de Albufeira, Amora (Seixal) e Carnaxide.

[Agradecemos a  Maria Manuel Viana a gentil validação de texto]

Freguesia dos Olivais
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)