A Rua do criador do Fado Armandinho

Freguesia de Marvila (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias)

Armando Freire, guitarrista de fado e criador do Fado Armandinho, que Artur Paredes muito considerava usando para isso a imagem de que era uma renda tudo o que ele tocava, está desde 2005 presente na toponímia de Lisboa a partir de uma proposta de Appio Sottomayor, enquanto membro da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa.

A proposta de Appio Sottomayor foi aprovada por unanimidade na reunião da Comissão Municipal de Toponímia de 2 de maio de 2005, tendo ainda a Comissão emitido parecer de que a homenagem se estendesse aos fadistas Fernando Farinha e Fernando Maurício, e assim estas propostas foram aprovadas em sessão de câmara de 20 de maio de onde resultou o consequente Edital municipal de 01/08/2005 que fixou a Rua Armandinho na   Via 2 à Rua do Vale Formoso de Cima, junto com a Rua Fernando Farinha (Via 5 à Via 3 à Rua do Vale Formoso de Cima)  e a Rua Fernando Maurício (Via 3 à Rua do Vale Formoso de Cima), todos próximos e todos na freguesia de Marvila onde já estava colocado o primeiro fadista a aparecer na toponímia de Lisboa: Alfredo Duarte (Marceneiro).

armandinho_0001-2Armandinho tinha como nome de registo civil Armando Augusto Salgado Freire (Lisboa/11.10.1891-21.12.1946/Lisboa)  e nasceu no Pátio do Quintalinho junto à Rua das Escolas Gerais, tendo-se distinguido como excelente executante da guitarra portuguesa, criador de estilos e compositor de fados que se tornaram imortais tais como o Fado Armandinho (a sua primeira composição, de 1910), o Fado do Bacalhau (para teatro de revista), o Fado do Cívico (para a  revista Torre de Babel em 1917), o Fado Conde da Anadia, o Fado Estoril, o Fado Fontalva, o Fado Peniche (que se tornou um hino para os que aí estavam presos), o Fado Mayer ou o Fado São Miguel (composto nos Açores no Natal de 1933), entre muitos outros. Armandinho fez a ponte entre duas eras do Fado: a do séc. XIX de conotação marginal e trágica e a do séc. XX de grande popularidade do género.

Em 1914, já Armandinho tocava de ouvido e tornou-se discípulo do célebre Luís Petrolino após o que se estreou como guitarrista profissional no Olímpia Club, na Rua dos Condes, embora tenha mantido em paralelo outros trabalhos  como sapateiro, operário da Companhia Nacional de Fósforos, servente do Casão Militar ou fiscal do Mercado da Ribeira.

O seu estilo fez escola e nela se filiaram outros grandes nomes como Carvalhinho, Fontes Rocha, Jaime Santos, José António Sabrosa, José Marques Piscalareta,  José Nunes, Raúl Nery ou Salvador Freire. As suas interpretações na guitarra tinham tal força que inspiraram ao poeta Silva Tavares as seguintes quadras:

A guitarra – alma da raça,
Amante do meu carinho,
Tem mais perfume e desgraça
Nas mãos do nosso Armandinho.
Benditos os dedos seus
Que arrancam assim gemidos
Tal como se a voz de Deus
Falasse aos nossos ouvidos.

Armandinho, considerado génio da guitarra portuguesa pelo seu dedilhar exímio, acompanhou inúmeras vozes fadistas das décadas de vinte e trinta do séc. XX, quer em palcos, quer em casas de fado como o Solar da Alegria ou o Café Luso, quer em gravações discográficas, como Adelina Ramos, Alberto Costa,  Ângela Pinto, Berta Cardoso, Madalena de Melo, Maria do Carmo Torres, Maria Vitória ou a Santa do Fado Ercília Costa.  Foi dos primeiros a realizar digressões artísticas fora de Portugal nos anos 20 do séc. XX e percorreu também  casas particulares, como as da Família Burnay, Fontalva ou Castelo Melhor.

Em 1926, Armandinho fez a primeira gravação em Portugal em microfone de bobine eléctrica móvel, tendo gravado 6 composições. E dois anos depois, gravou um conjunto de Fados, variações em tons diferentes e uma marcha, no Teatro São Luiz, para um 78 rpm. Refira-se ainda que Armandinho foi em 1927  um dos membros fundadores da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses, onde procedeu à  recolha de muitas melodias de Fado indexadas pelos seus autores o que permite nos nossos dias termos acesso a essas melodias. Em 1930, Armandinho também abriu o seu próprio espaço no Parque Mayer, o Salão Artístico de Fados, onde tocou durante alguns anos.

Armandinho faleceu na sua casa, na Travessa das Flores, junto ao Campo de Santa Clara, tendo o  jornal Guitarra de Portugal feito capa do sucedido sob a ideia do Fado de luto.

Freguesia de Marvila (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias)

Anúncios

A Rua da fidalga fadista Maria Teresa de Noronha

Freguesia da Ajuda (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Ajuda
(Foto: Sérgio Dias)

A fidalga Maria Teresa de Noronha que cedo se fez fadista e pela rádio foi divulgada e conhecida como voz do fado aristocrático,  deu nome à Rua 18 do Bairro do Caramão da Ajuda, por Edital de 16/01/1995, a partir da sugestão de uma moção de pesar da Câmara de Lisboa de 7 de julho de 1994,  juntando-se neste bairro à Rua Hermínia Silva, que desde o Edital de 31/08/1993 tinha passado a ser o topónimo da antiga Rua 15.

A escassez de novas artérias em Lisboa no início da década de noventa do séc. XX, fez com que a edilidade aproveitasse as ruas de denominação numérica e as renomeasse. Assim, a Rua Teresa de Noronha foi atribuída na Rua 18 do Bairro do Caramão da Ajuda, sendo acompanhada no mesmo Edital pela Rua Irene Isidro – Actriz/1907 – 1993  (Rua 16), a Rua Jorge Brum do Canto – Cineasta/1910 – 1994  (Rua 19) e a Rua dos Cravos de Abril (Rua 17), uma homenagem ao 25 de Abril de 1974.

Maria Teresa do Carmo de Noronha de Guimarães Serôdio (Lisboa/07.11.1918 – 04.07.1993/Sintra) foi uma fadista do fado clássico e castiço, sendo considerada uma voz do fado aristocrático, que se notabilizou arredada do circuito das casas de fado mas antes transmitida ao vivo pela rádio.  Decidiu retirar-se da vida artística em 1962 com uma grandiosa festa de homenagem mas pontualmente, terá feito aparições públicas sendo a última  em 1974, em Cascais, onde fora ouvir Manuel de Almeida e este lhe pediu que cantasse.

Maria Teresa de Noronha (ou Baté para os amigos) teve educação musical de piano e canto e desde nova cantava em festas da família e de amigos. Era descendente dos Condes de Paraty, filha de D. António Maria Sales do Carmo de Noronha e de D. Maria Carlota Appleton de Noronha Cordeiro Feio e pelo casamento, a 17 de dezembro de 1947, com o conde José António Barbosa de Guimarães Serôdio, guitarrista amador e compositor, tornou-se Condessa de Sabrosa. Pelo seu irmão foi tia do fadista Vicente da Câmara.

Em 1938, a fadista começou a fazer-se ouvir num programa quinzenal na Emissora Nacional que se manteve em emissão durante 23 anos consecutivos. Era apresentado pelo seu irmão D. João da Câmara e composto por quatro fados e uma guitarrada. Maria Teresa de Noronha era acompanhada pelo guitarrista Fernando Freitas e pelo violista Abel Negrão. Com o seu timbre peculiar ousou cantar temas do fado de Coimbra numa altura em que apenas as vozes masculinas eram suposto fazê-lo. Entre os diversos instrumentistas que a acompanharam nos seus programas, destaque-se o guitarrista Raúl Nery que com ela colaborou ao longo de vinte anos, nomeadamente na deslocação a Espanha em junho de 1946, no Festival da Feira do Livro de Barcelona e em Madrid, no Hotel Ritz, a convite do Governo espanhol . Em 1949, Maria Teresa de Noronha também viajou até ao Brasil, por ocasião da voo de inauguração entre Lisboa e o Rio de Janeiro. Em 6 de maio de 1957,  cantou no banquete oferecido ao Prefeito da Baía, no Castelo de São Jorge, pelo presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Álvaro Salvação Barreto. Na década de sessenta interpretou fado para a família real do Principado do Mónaco e em 1964, deslocou-se a Londres para espetáculos na Embaixada e na Casa de Portugal, bem como na BBC (rádio e televisão), acompanhada pelo conjunto de guitarras de Raúl Nery.

O primeiro álbum de Maria Teresa de Noronha,  O Fado dos Cinco Estilos, foi gravado em 1939 na antiga Emissora Nacional, seguindo-se com alguma regularidade mais alguns exemplares no formato 78 RPM,  até editar o seu último LP em 1972. Duas das apresentações de Maria Teresa de Noronha em programas da RTP (em 1959 e em 1968) foram editados mais tarde  numa cassete video sob o título Recordando Maria Teresa de Noronha e um álbum dos seus maiores êxitos saiu na Valentim de Carvalho em 1993.

Maria Teresa de Noronha baseou o seu repertório nos fados castiços que mais apreciava, em detrimento do fado canção, interpretando poemas muitas vezes recolhidos no seu universo familiar, como é o caso dos temas Fado das Horas, Fado da Verdade, Sete Letras e Fado de Rio Maior, todos da autoria de D. António de Bragança. A fadista tornou grandes êxitos populares o Fado Corrido,  o Fado Hilário e o Fado Anadia, que na sua voz e dicção perfeita ganhavam uma qualidade de interpretação que rivalizava com os temas mais populares do seu repertório, caso de Minhas Penas ou Pintadinho.

Freguesia da Ajuda (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias)

O fado de Marceneiro ou Ti Alfredo numa rua de Marvila

Freguesia de Marvila (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias)

Cerca de um mês e meio após o seu falecimento, o considerado Rei do Fado, Alfredo Marceneiro, foi inscrito como Alfredo Duarte (Marceneiro) na Rua J5 da Zona J de Chelas, por  Edital municipal de 12/08/1982, a partir de uma sugestão do cidadão Manuel Gonçalves Rosa endereçada à edilidade, sendo a primeira vez que o Fado se fixou na toponímia de Lisboa.

O fadista alfacinha Alfredo Rodrigo Duarte (Lisboa/29.02.1888 – 26.06.1982/Lisboa), o primeiro filho do casal Gertrudes da Conceição e Rodrigo Duarte, nascido na Travessa de Santa Quitéria, que ficou mais conhecido como Alfredo Marceneiro ou Ti Alfredo para os amigos, trabalhou como aprendiz de encadernador logo aos  13 anos, após o falecimento do seu pai, numa oficina da Rua da Trindade. Nas cegadas de rua conheceu Júlio Janota que era marceneiro e lhe arranjou lugar como seu aprendiz numa oficina em Campo de Ourique, de onde transitou para as oficinas de Diamantino Tojal na Vila Berta e depois para as Construções Navais no Arsenal do Alfeite, tendo Alfredo apenas deixado a profissão em 1946, para se tornar profissional do fado em exclusivo,  conservando porém em casa o banco de marceneiro e as ferramentas com que se entretinha a fazer trabalhos, um dos quais, A Casa da Mariquinhas,  inspirado na letra de Silva Tavares, e que está exposta no Museu do Fado.

Paralelamente, era cantador em festas de beneficência e em verbenas, entre os 14 e aos 17 anos. Depois começou a cantar em festas de solidariedade e nos retiros do Caliça e do Bacalhau em Benfica, José dos Pacatos na Estrada de Sacavém, Cachamorra ao Campo Grande, Baralisa e Romualdo, mas foi no 14 do Largo do Rato que se tornou mais conhecido, não dispensando a forma aprumada de vestir com gravata ou laço, sendo  por isso conhecido como Alfredo Lulu. Em 1924, participou num Concurso de Fados do Sul-América, na Rua da Palma e  ganhou a Medalha de Ouro. Nesse mesmo ano cantou durante dois meses no Chiado Terrasse para animar as noites de cinema. Só em 1930, por ocasião de uma festa no Club Montanha (no nº57 da Rua da Glória), seria lançado com o nome artístico de Alfredo Marceneiro, lançando a moda de cantar de pé e à luz das velas que ele próprio cantou no poema de Armando Neves:

Orgulho-me de ser em toda a parte
Português e fadista verdadeiro,
Eu que me chamo Alfredo, mas Duarte
Sou para toda a gente o Marceneiro

Ao longo da sua vasta carreira, em que se torna um dos fadistas maiores por dividir os versos cantados de forma a não permitir que as pausas musicais interrompessem o sentido das orações, Marceneiro que acabou por tornar o lenço de seda ao pescoço e as mãos nos bolsos a sua imagem de marca, exibiu-se em casas como o Nova Sintra (Calçada de Carriche), o Ferro de Engomar (na Estrada de Benfica), o Clube Olímpia, onde esteve com Armandinho, a Boémia (na Rua dos Correeiros no troço que foi conhecido como Travessa da Palha),  a Viela (na Rua das Taipas), o Solar da Alegria (Praça da Alegria, 56), a Márcia Condessa (Praça da Alegria, 38), o Júlio das Farturas no Parque Mayer,  A Parreirinha de Alfama (Beco do Espírito Santo),  A Cesária  e O Timpanas (Rua Gilberto Rola),  o Retiro da Severa (Rua António Maria Cardoso), o Café Mondego, A Severa (Rua das Gáveas), o Faia (Rua da Barroca), a Adega Machado e A Tipóia (Rua do Norte), a Adega Mesquita (Rua Diário de Notícias),  ou o Solar da Hermínia ( Rua da Misericórdia).  Chega mesmo a ter a sua própria casa no final da década de 1940, o Solar do Marceneiro, ao fundo da Calçada de Carriche, sem nunca se cingir apenas a cantar diariamente nesse espaço, sendo mesmo consagrado Rei do Fado no Café Luso ( Travessa da Queimada), a 3 de janeiro de 1948.

Gravou o primeiro disco em 1930 para a Casa Cardoso e passou depois a a ser artista privativo da Valentim de Carvalho, onde lançou 4 LP’s e 3 EP’s.  O seu estilo ficou vincado na Marcha do Alfredo Marceneiro, como em A minha freguesiaAmor de Mãe, Bêbado Pintor, Cabecita Louca, É tão bom ser pequenino,  Fado BailadoFado Balada, Fado Cravo, Fado CUF, Fado Laranjeira, Fado Pierrot, Foi na Velha Mouraria, O Pagem, Há Festa na Mouraria,  IroniaLembro-me de ti, Mocita dos Caracóis, Mouraria, Quadras SoltasSenhora do Monte.

Alfredo Marceneiro cantou também no Teatro, subindo ao palco do Coliseu dos Recreios, em 1930, na opereta História do Fado, com Beatriz Costa e Vasco Santana e passou depois também pelas tábuas do São Luiz, do Avenida, do Apolo, do Éden – Teatro, do Capitólio, do Politeama, ou do Maria Vitória. Para o cinema, gravou em 1939, atuações com Berta Cardoso, no Teatro Variedades e no Retiro do Colete Encarnado, para o filme  Feitiço do Império de António Lopes Ribeiro (que esteve em exibição de 1940 a 1952). Para a  televisão, o fadista também só apareceu esporadicamente: uma reportagem em 1969,  um programa gravado para  a RTP em 1979 e editado 28 anos depois em DVD.

A 25 de maio de 1963, realizou-se  no Teatro S. Luiz A Madrugada do Fado – Consagração e despedida do Grande Artista Alfredo Duarte Marceneiro e todavia, Alfredo Marceneiro continuou a cantar durante quase mais duas décadas. Em junho de 1980 foi homenageado no Teatro de S. Luiz  pela Câmara Municipal de Lisboa, recebendo a Medalha de Ouro da Cidade. A título póstumo, foi agraciado com o grau de Oficial da Ordem do Infante D. Henrique (1984) e em  1991, no centenário do seu nascimento, foi lançado o duplo álbum O melhor de Alfredo Marceneiro e foi exibido na RTP o documentário Alfredo Marceneiro é só Fado.

Alfredo Marceneiro passou os últimos anos da sua vida na que foi a sua casa desde novo, no nº2 do pátio da Rua da Páscoa, nº 49.

Freguesia de Marvila (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias)

Berta, a voz de oiro do fado, em Santa Clara

Berta Cardoso por Amarelhe, O Cartaz de Lisboa,1937

Berta Cardoso por Amarelhe, O Cartaz de Lisboa,1937

Dez anos após o seu falecimento, a fadista Berta Cardoso, conhecida como A voz de oiro do fado, deu o seu nome a uma rua da Freguesia de Santa Clara.

Foi pelo Edital municipal de 27/04/2007  que nos arruamentos projetados ao Bairro das Galinheiras foram fixados s nomes de Berta Cardoso na Rua 3, do escultor Barata Feyo (Rua 2) e da pintora Maluda (Rua 1 ), bem como no ano seguinte, do guitarrista Jaime Santos (Rua 4), já pelo edital de 03/07/2008.

Berta dos Santos Cardoso (Lisboa/21.10.1911 – 12.07.1997/Lisboa), nascida alfacinha na Rua da Condessa, no Carmo, foi uma fadista de referência da chamada Época de Ouro,  sendo até considerada como a loucura dos fadistas desde a sua estreia em público, em 1927, no Salão Artístico de Fados, no Parque Mayer, acompanhada por Armandinho e, onde obteve tal êxito que foi convidada para integrar o elenco da casa, o que não se concretizou  por ela ter apenas 16 anos.

Em 1931 gravou o seu primeiro disco, em Espanha, e a partir daí ficou conhecida como A voz de oiro do fado, tendo conseguido no decorrer das décadas de 30, 40 e 50 do século XX uma carreira notável dividida entre os palcos das casas de fado ( Café Luso, Retiro da Severa, Solar da Alegria e Salão Jansen, ) e dos teatros de revista. A partir da década de 60 passou a trabalhar exclusivamente em casas de fado, sobretudo no Faia, na Rua da Barroca e, no Viela. Berta Cardoso finalizou a sua longa carreira artística no ano de 1982, no Poeta, em Alfama, espaço do poeta José Luís Gordo e da sua esposa, a fadista Maria da Fé.

«Fado Antigo», «Fado Faia», «Chinela», «Meu Lar», «Cinta Vermelha»,«Cruz de Guerra»  e «Meu amor fugiu do ninho» foram alguns dos maiores êxitos de Berta Cardoso mas acresce que como nome conceituado do Fado tradicional, esta fadista fez também as suas aparições na televisão, destacando-se a sua presença, em 1969, no programa Zip, Zip e a transmissão da sua festa no programa Bodas de Ouro de uma Fadista. Fez ainda uma aparição no cinema, de atuações suas com Alfredo Marceneiro, para o filme Feitiço do Império, de António Lopes Ribeiro, que estreou em 1940.

Freguesia de Santa Clara (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Clara

Freguesia de Santa Clara

No «Bairro das Marias» a rua da fadista Maria Alice

 

Maria Alice 22

O Bairro da Cruz Vermelha foi popularmente conhecido pelo Bairro das Marias, dado a sua toponímia comportar o nome das senhoras da secção auxiliar feminina da Cruz Vermelha de cuja iniciativa nasceu em Janeiro de 1967 o Bairro Municipal da Cruz Vermelha, para albergar as famílias cujas barracas tinham ardido em 1962, todas Marias de primeiro nome e a que ainda se juntou a Rua das Duas Marias, a Rua das Três Marias, a Rua das Quatro Marias, a Rua das Cinco Marias e o Largo das Seis Marias.

Já no ano 2000 o Edital municipal de  5 de julho juntou à toponímia do Bairro mais três Marias, todas fadistas: Maria do Carmo Torres, Maria José da Guia e Maria Alice, cabendo a esta última a artéria formada pelas Ruas B e C do Bairro da Cruz Vermelha.

Maria Alice foi o nome artístico de Glória Mendes Leal de Carvalho (Figueira da Foz/01.09.1904 – 13.02.1996/Lisboa) que hoje completaria o seu 110º aniversário. Dona de uma voz fina, maviosa e castiça  foi uma fadista muito popular na década de 30 do século XX e gravou mesmo discos na editora Valentim de Carvalho, sendo o dono desta quem lhe escolheu o nome artístico que era também o da sua primeira esposa.

A residir em Lisboa desde os 3 anos de idade Maria Alice estreou-se numa Festa do Fado da Velha Guarda, no retiro Ferro de Engomar, em Benfica, em 1928. E foi nesta cidade que cantou em retiros, festas de beneficência, esperas de toiros, bem como no Brasil por duas vezes e conseguiu sucesso com os fados Perseguição, Fado da Traição, Fado Menor, Fui Dizer Adeus à Barra ou Esse Olhar Dá-me Tristeza, para além de ter gravado discos na Casa Valentim de Carvalho. Retirou-se da carreira artística após o seu casamento com Valentim de Carvalho, na década de 40 do século XX.

Freguesia do Lumiar

Freguesia do Lumiar

A Rua do Miúdo da Bica

Freguesia de Marvila (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias)

O intérprete de O Miúdo da Bica e do Fado das Trincheiras dá o seu nome a uma Rua da Freguesia de Marvila, tal como o fadista Fernando Maurício e o guitarrista Armandinho, todos atribuídos pelo mesmo Edital de 01/08/2005.

A Rua Fernando Farinha era antes designada como Via 5 à Via 3 à Rua do Vale Formoso de Cima,  também conhecida por Rua Projectada à Quinta do Tim-Tim, e recebeu a legenda «Fadista/1928-1988» para homenagear Fernando Tavares Farinha (Barreiro/20.12.1928 – 12.02.1988/Lisboa) que aos 8 anos veio com a família morar para o Bairro da Bica e, aos nove começou a cantar fado e ao participar em representação da Bica num concurso interbairros ganhou para toda a vida o título de  Miúdo da Bica.

Profissionalizou-se aos 11 anos,  com uma licença especial e a ajuda do empresário José Miguel, já que o seu pai falecera e,  ele precisava de contribuir para o sustento da família. Cimentou a sua carreira de fadista, tornando-se uma das vozes mais populares do fado, ao fazer o percurso das casas de fado com actuações no Café Mondego –  a  sua primeira  – Café Latino, Retiro da Severa, Solar da Alegria, Café Luso e a partir de 1951, e durante 10 anos, na Adega Mesquita, no Bairro Alto. Ao longo da década de cinquenta do séc. XX também afirmou a sua voz junto das comunidades portuguesas de emigrantes, onde registou uma grande popularidade, especialmente no Brasil e, ainda esteve presente na televisão desde os seus primórdios, no programa Melodias de Sempre, tendo também integrado o elenco do filme O Miúdo da Bica (1963), de Constantino Esteves, que justamente narra a história da sua vida.

Entre os principais êxitos de Fernando Farinha contam-se Fado das Trincheiras, Sou do PovoDeus Queira  ou Guitarra Triste, destacando-se que também escreveu letras para os seus fados como nos casos de Mãe Há só Uma, Ciumenta, Menina do Rés-do-Chão, Quero-te Mais do Que à Vida, Um Fado à Marceneiro, Um Fado à Juventude e Belos TemposO seu primeiro disco foi gravado em 1940 e incluía os temas Meu Destino e Sempre LindaEm 1955, comemorou no Coliseu de Lisboa e no Palácio de Cristal do Porto as bodas de prata da sua carreira artística, ocasião em que foi premiado com a Guitarra de Prata. Em 1957 ganhou o concurso A Voz Mais Portuguesa de Portugal  da Rádio Peninsular, em 1962 foi coroado Rei da Rádio Portuguesa  e, no ano seguinte recebeu o Óscar da Casa da Imprensa para melhor fadista e o seu 1º Disco de Ouro.

Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua do Dantas, pim!

Freguesias das Avenidas Novas e de Campolide (Foto: José Carlos Batista)

Freguesias das Avenidas Novas e de Campolide (Foto: José Carlos Batista)

Júlio Dantas, que nos dias de hoje é mais conhecido pelo poema-manifesto que Almada Negreiros lhe dedicou em 1915, passou a nome de rua lisboeta pelo Edital de 17/12/1963, como Rua Dr. Júlio Dantas, com a legenda «Escritor e Eminente Académico/1876 – 1962», crismando assim o arruamento que era conhecido como Rua A à Rua Ramalho Ortigão, ou Rua A à Rua Fialho de Almeida ou ainda, Rua A à Avenida Ressano Garcia.

Júlio Dantas (Lagos/19.05.1876 – 25.05.1962/Lisboa),  estudou no Colégio Militar e em 1900 formou-se em Medicina na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, com a tese «Pintores e poetas de Rilhafoles», e dois anos depois ingressou no Exército como oficial médico, no campo da psiquiatria, mas rapidamente abandonou esta área, tendo-se destacado mais como dramaturgo e político.

Das suas obras destaque-se A Severa (1901)A Ceia dos Cardeais (1902)Os Crucificados (1902), A CastroRosas de Todo o Ano (1907) ou O Reposteiro Verde (1921), que alcançaram grande êxito, sendo que a primeira enunciada serviu de base ao 1º filme sonoro português, de Leitão de Barros, em 1931. Consoante as épocas, Júlio Dantas escrevia uma peça que se adequava e assim, quando da Lei da Separação do Estado e da Igreja de Afonso Costa  publicou a peça A Santa Inquisição (1910); com o Estado Novo lançou Frei António das Chagas, um «elogio de quem se sacrifica, se imola pela Pátria» e, com o final da II Guerra, prevendo a queda do salazarismo introduziu na peça Antígona (1946) uma crítica velada a Salazar equivalendo-o ao personagem Creonte. Do ponto de vista estilístico, a sua obra situa-se entre o romantismo e o parnasianismo, sendo predominantes  os temas históricos no teatro e nas novelas , sendo Nada (1896) o seu 1º livro de poesia e, destacando-se ainda a sua novela Pátria Portuguesa (1914) e, as diversas colaborações que manteve em jornais e revistas. 

Foi ainda Comissário do Governo junto do Teatro D. Maria II, Professor de História da Literatura e Diretor da Secção Dramática no Conservatório Nacional bem como, um dos fundadores da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses (SECTP) de que também foi o 1º presidente, assim como se tornou desde 1908 sócio da Academia das Ciências de Lisboa de que viria a ser Presidente a partir de 1922.

Na política, foi deputado na Monarquia (1905),  ministro da Instrução Pública e dos Negócios Estrangeiros na Primeira República (1921-1923) e, no Estado Novo, deputado, embaixador (no Brasil) e Presidente da Comissão Executiva dos Centenários (1938-1940). 

Júlio Dantas casou-se no registo civil e determinou para si uma cerimónia fúnebre exclusivamente civil para além de ter sido agraciado com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade do Brasil (1949) e de Coimbra(1954), bem como com a Ordem Militar de Santiago da Espada (1920 e 1930) e a Ordem Militar de Cristo (1930).

na Ilustração Portuguesa 14.03.1904

na Ilustração Portuguesa de 14.03.1904

 

O Jardim da fadista que gostava de ser quem era

Placa Tipo IV (Foto: Artur Matos)

Placa Tipo IV
(Foto: Artur Matos)

Sete dias após o falecimento  de Amália deliberou a Câmara que o seu nome designasse uma via de Lisboa, o que se concretizou com o Edital de 18/04/2000 que atribuiu o topónimo Jardim Amália Rodrigues ao Jardim do Alto do Parque Eduardo VII,  um espaço de 5,7 ha da autoria do arquitecto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles, que é parte integrante do Corredor Verde, que une o Parque Eduardo VII a Monsanto. 

Freguesia das Avenidas Novas  (Foto: Artur Matos)

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Artur Matos)

Amália da Piedade Rebordão Rodrigues (Lisboa/23.07.1920 – 06.10.1999/Lisboa) por muitos considerada a maior voz portuguesa, por interpretar de um modo único e invulgar o fado, nasceu na Rua Martim Vaz da antiga Freguesia da Pena, quando os seus pais visitavam os seus avós maternos e, dadas as dúvidas sobre o dia exato a artista adotou o dia 1 de julho como data de aniversário durante toda a sua vida. Aos seis anos mudou-se com os avós para Alcântara, bairro onde viveria até aos 19 anos. 

Estreou-se como profissional em 1939 no Retiro da Severa e, rapidamente se tornou cabeça de cartaz  a cantar no Café Luso, com um cachet de valor nunca antes pago a um fadista. Antes, usara Amália Rebordão como nome artístico mas por  sugestão de Filipe Pinto, diretor artístico do Solar da Alegria, mudou para Amália Rodrigues. E ao longo da sua carreira, Amália também se destacou pela singularidade de reinventar a  postura da fadista, à frente e não atrás dos guitarristas, a que juntou um estilo de vestidos e xailes negros. 

O seu êxito como fadista também a levou ao teatro, de 1940 a 1947,  onde foi a voz de fados e canções de sucesso, tendo começado no palco do Teatro Maria Vitória. Amália Rodrigues  passou também pelo cinema, a partir do  filme Capas Negras (estreado no cinema Condes a 16 de maio de 1947), a que se seguiram Fado – História de Uma Cantadeira (1947), Sol e Toiros (1949), Vendaval Maravilhoso (1949), Os Amantes do Tejo (1955), April in Portugal (1955), Sangue Toureiro (1958), Fado Corrido (1964), As Ilhas Encantadas (1965), Via Macao (1965) e  também em curtas-metragens de Augusto Fraga.

Entre os seus inúmeros êxitos musicais podem destacar-se  Ai, Mouraria Barco negro, Casa portuguesaEstranha forma de vida, O fado do ciúmeFoi Deus, Gostava de ser quem era, Povo que lavas no rio ou Vou dar de beber à dor.  Muitos dos fados que interpretou tiveram letra de poetas portugueses contemporâneos, como Alexandre O’Neill, Ary dos Santos, David Mourão-Ferreira, José Afonso, José Régio, Manuel Alegre, Pedro Homem de Mello, Sidónio Muralha, Vasco de Lima Couto. Ela própria escreveu as letras de alguns dos seus temas como é o caso de Gostava de ser quem era e, estes poemas foram editados pela Cotovia, em 1997, com o título Versos. A diferença dos fados de Amália também resultaram da parceria com as composições de Alain Oulman, de 1962 até 1975, muitas vezes referidas como as “óperas” de Amália, onde também cantou poesia dos trovadores galaico-portugueses, do Cancioneiro de Garcia de Resende e de Camões.

Amália foi também considerada a maior embaixatriz de Portugal no mundo, por ter levado o nome de Portugal ao resto do mundo, dada a sua permanente e constante exibição pelos cinco continentes, ao longo da sua carreira. Data de  1943 a sua primeira vez no estrangeiro, em Madrid, a que se seguiram Brasil, Paris, Londres, Berlim, Roma, Dublin, Moscovo, Nova Iorque, entre muitas outras cidades e países. 

A fadista foi galardoada com a Ordem de Santiago de Espada (Cavaleiro em 1958, Oficial em 1970 e  Grã-Cruz em 1990), a Grande Medalha de Prata da Cidade de Paris (1959), a Ordem do Infante D. Henrique (1980), a Medalha de Ouro da Cidade de Lisboa (1980), o Grau de Comendador da Ordem das Artes e Letras (1985), a Medalha de Ouro da Cidade do Porto (1986), a Legião de Honra francesa (1991),  uma homenagem pública num espetáculo na Expo’98 e, a 8 de julho de 2001, o seu corpo foi trasladado do Cemitério dos Prazeres para a Sala da Língua Portuguesa no Panteão Nacional.

amaliazinha adaptada

A Rua Fernando Maurício no 80º aniversário do fadista

Placa Tipo II

Placa Tipo II                                                                                                 (Foto: Sérgio Dias)

Amanhã, completam-se 80 anos do nascimento na Mouraria, na famosa Rua do Capelão, do fadista Fernando Maurício que desde o ano de 2005 crisma a Via 3 à Rua do Vale Formoso de Cima, em Marvila.

Por esse mesmo Edital de 01/08/2005 a edilidade lisboeta também colocou na toponímia da freguesia o fadista Fernando Farinha, o guitarrista Armandinho, o cineasta João César Monteiro, o pároco da freguesia Padre António Ferreira,  e a também ali sediada Associação Ester Janz.

Fernando da Silva Maurício (Lisboa/21.11.1933- 15.07.2003/Lisboa) começou a cantar com apenas oito anos de idade, numa taberna da Rua do Capelão, o Chico da Severa, onde se reuniam fadistas. E, logo aos treze anos, em 1947, quando já trabalhava a fazer calçado, conseguiu uma autorização especial da Inspecção dos Espectáculos para iniciar a sua carreira profissional de fadista, depois de um meritório 3º lugar o concurso de Fados “João Maria dos Anjos” no Café Latino.  Foi então contratado pelo empresário José Miguel para actuar aos fins-de-semana nos seus estabelecimentos:  o Café Latino, o Retiro dos Marialvas, o Vera Cruz e, o Casablanca, no Parque Mayer. Nos anos 50 do séc. XX cantou no Bairro Alto, no Café Luso, na Adega Machado e n’ O Faia. Nas décadas de 60 e 70, passou para casas como a Nau Catrineta, a Kaverna, O Poeta, a Taverna d’El Rey e, regressou ao Café Luso. Nos anos 80, foi actuar para a Adega Mesquita, no Bairro Alto.

Chamado Rei do Fado, também cantou durante cerca de 20 anos em programas de Fados na Emissora Nacional, na RTP, e gravou discos, dos quais se destacam De Corpo e Alma Sou Fadista (1984), Fernando Maurício, Tantos Fados Deu-me a Vida (1995), Fernando Maurício, Os 21 Fados do Rei (1997), Fernando Maurício na coleção O Melhor dos Melhores (1997), Fernando Maurício na coleção Clássicos da Renascença (2000) e, Saudade de Fernando Maurício – Antologia 1961-1995 (2004).

Fernando Maurício foi uma figura incontornável na história do fado de Lisboa e, no seu perfil humanista, cantou durante toda a sua vida em centenas de festas de beneficência por todo o país. Também participou em inúmeros espectáculos no Luxemburgo, Holanda, Inglaterra, Canadá e Estados Unidos e foi galardoado com o Prémio da Imprensa (1969), os Prémios Prestígio e de Carreira da Casa da Imprensa (1985/1986), o Diploma de Mérito da Associação Portuguesa Amigos do Fado e, ainda o título honorífico da Comenda de Bem Fazer (2001) atribuído pela Presidência da República. Teve na Rua do Capelão uma placa evocativa descerrada por Amália, em Junho de 1989 e, mais duas Festas de Homenagem promovidas pela Câmara Municipal de Lisboa em 31 de outubro de 1994 (São Luiz) e em 12 de maio de 2001 (Coliseu) que também lhe dedicou uma   homenagem póstuma – Boa Noite Solidão– em 5 de fevereiro de 2004 (Coliseu).

Freguesia de Marvila

Freguesia de Marvila                                                                                                    (Foto: Sérgio Dias)

Uma Rua bem picadinha p’ra voz da Hermínia sobressair

Placa Tipo II

Placa Tipo II

Hermínia Silva comemoria hoje o seu 106º aniversário e Lisboa guarda-lhe a memória numa Rua do Bairro do Caramão da Ajuda, desde há 20 anos, com a publicação do Edital de 31 de Agosto de 1993 que a inscreveu na que era a Rua 15 do Bairro do Caramão da Ajuda, pouco mais de um mês após o seu falecimento, por recomendação da Assembleia Municipal de Lisboa.

Hermínia da Silva Leite Guerreiro (Lisboa/23.10.1907 – 13.06.1993/Lisboa) foi uma lisboeta fadista e actriz de revista e cinema. Nasceu no Hospital de S. José, morou no Campo dos Mártires da Pátria e, a partir dos 8 anos, no Bairro do Castelo. Foi aprendiza de costureira numa alfaiataria da Rua dos Fanqueiros mas também frequentava a Sociedade Recreativa Leais Amigos, onde fazia teatro amador e aí cantou os primeiros fados, acompanhados ao piano, em 1925. No ano seguinte, integrou a Tournée Artística Gil Vicente, organizada pelo maestro A. Júlio Machado e pelo seu filho Victor Machado, que percorre o país e alguns locais de Espanha. Depois cantou fados no cinema Malacaio, após a exibição dos filmes e, daí passou para o Valente das Farturas, no Parque Mayer, local onde a partir de 1929 estará nas peças da Esplanada Egípcia a interpretar fados. Nos anos seguintes actuará como cantadeira na antiga Cervejaria Jansen, no Salão Artístico de Fados, no Solar da Alegria e no Café Luso.

Hermínia criou um estilo muito próprio expresso em fados como «A Velha Tendinha», «A Casa da Mariquinhas», «Vou Dar de Beber à Alegria», «Fado Mal Falado» ou «Marinheiro Americano» e também inovou ao trautear os refrões ou ao entoar “trolarós”, tendo ainda  popularizado frases como «Anda Pacheco!», «Isso bem picadinho que é p’ra voz sobressair» ou «Eh pá ‘tás à rasca!».

Em 1958, a 13 de Maio, abriu com o seu marido o Solar da Hermínia, no Largo Trindade Coelho, onde passou a cantar até ao encerramento do espaço em 23 de Outubro de 1982, no dia em que a fadista completava 75 anos.

Para além do fado, Hermínia Silva actuou também em revista, rádio, cinema e televisão. Logo em 1932, ainda no Parque Mayer, integrou o elenco da opereta «Fonte Santa» no Teatro Maria Vitória e, no ano seguinte já era segunda figura no Teatro Variedades, logo a seguir a Beatriz Costa, sendo esta uma relação que manterá regularmente até 1958 e, depois esporadicamente, no Teatro ABC em 1964, 1975 e 1976. No cinema, participou em 5 filmes: «A Aldeia da Roupa Branca» (1938), «Costa do Castelo» (1943), «Um Homem do Ribatejo» (1946) – onde interpretou o «Fado da Sina» – , «Ribatejo» (1949) e, «O Diabo Era Outro» (1969) .

Hermínia Silva foi galardoada com o Prémio Nacional de Teatro Ligeiro (1946), a Medalha de Ouro da Cidade de Lisboa (1980), a Comenda (1985) e a Grã-Cruz (1990) da Ordem do Infante D. Henrique.

Freguesia da Ajuda

Freguesia da Ajuda