David Mourão-Ferreira, o «escrevivente» do amor feliz, na toponímia de Lisboa

Freguesia do Lumiar
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Poeta, romancista, novelista, contista, dramaturgo, professor, ensaísta, cronista, tradutor e crítico literário, assim era David Mourão-Ferreira que tanto na vida como na escrita celebrou o amor, o erotismo e o corpo em palavras porque, como ele dizia, tinha «o ofício de escreviver»: precisava de viver para escrever e de escrever para viver.

David Mourão-Ferreira começou por ser o topónimo de uma Rua lisboeta através do Edital Municipal de 18 de novembro de 2003, aquela que hoje conhecemos como Rua da Quinta das Conchas, mas por se entender que o escritor devia estar consignado num arruamento de maior extensão passou o seu nome para uma Avenida – que era a Rua 3 da Malha 14,6,1,2 e 3 do Alto do Lumiar, também na freguesia do Lumiar, pelo Edital de 22 de julho de 2005, ficando a unir a Rotunda onde confluem a Avenida Carlos Paredes e a Rua General Vasco Gonçalves ao Eixo Central. 

Com David Mourão-Ferreira são dez os escritores que estão homenageados em Avenidas de Lisboa: Carlos Pinhão, Eugénio de Andrade, Fernando Pessoa, Guerra Junqueiro, José Régio, Júlio Dinis, Miguel Torga, o Poeta Mistral e Vergílio Ferreira.

David de Jesus Mourão-Ferreira (Lisboa/24.02.1927-16.06.1996/Lisboa), filho de David Ferreira – secretário do diretor da Biblioteca Nacional – e de Teresa de Jesus Mourão-Ferreira, apesar das suas múltiplas facetas ficou mais conhecido como o poeta do amor  e da sensualidade. Nasceu e viveu até aos 15 anos no bairro da Lapa, frequentou o Colégio Moderno e já nas brincadeiras de infância fazia peças de teatro e jornais que o seu irmão mais novo –  Jaime Alberto – ilustrava. Licenciou-se em 1951 em Filologia Românica, na Faculdade de Letras de Lisboa,  onde veio a ser professor e catedrático de Teoria da Literatura e Literatura Portuguesa.

Começou a sua vida literária na poesia com a A Viagem (1950) a que somou, entre outros, Tempestade de Verão (1954) que foi Prémio Delfim Guimarães, Os Quatro Cantos do Tempo (1958), In Meae ou A Arte de Amar (1962), Cancioneiro de Natal (1971) que foi Prémio Nacional de Poesia, Matura Idade  (1973),  Sonetos do Cativo (1974), Os Ramos e os Remos (1985), No Veio de Cristal (1988) que foi Grande Prémio Inasset de Poesia, Nos Passos de Pessoa (1988) que ganhou o Prémio Jacinto Prado Coelho e uma antologia erótica: Música de Cama (1994).

São também de destacar as novelas Gaivotas em Terra (1959) com o Prémio Ricardo Malheiros, a peça O Irmão (1965) que foi Prémio de Teatro da Casa da Imprensa, os contos Os Amantes (1968), As Quatro Estações (1980) premiada pela Associação Internacional dos Críticos Literários, o romance Um Amor Feliz (1986) que recebeu o  Prémio de Narrativa do Pen Clube Português, o Prémio D. Dinis da Fundação da Casa de Mateus, o Prémio de Ficção Município de Lisboa, o Grande Prémio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores e a Medalha Oskar Nobiling da Academia Brasileira de Letras. Refira-se ainda  Duas Histórias de Lisboa (1987) e o CD Um Monumento de Palavras que David Mourão-Ferreira gravou com a sua voz.

Com o contributo determinante de Alain Oulman, David Mourão-Ferreira levou os seus poemas também para o fado e para a voz de Amália, destacando-se Barco Negro (1954), AbandonoEspelho Quebrado, SombraAnda o Sol na Minha Rua, Nome de Rua ou Maria Lisboa (1961). Depois, fez também letras para  Simone de Oliveira, Francisco Pessoa, Mercês da Cunha Rego, Dário de Barros ou Luís Cília, apesar de ter sido alvo de uma campanha de difamação e de um processo judicial, por ter subscrito a apresentação da Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, organizada por Natália Correia e prefaciado a tradução de A Filosofia da Alcova do Marquês de Sade.

Colaborou em jornais e revistas, como o Diário Popular ou a Seara Nova onde em 1945 publicou os seus primeiros poemas-, para além de ter sido um dos fundadores da revista literária Távola Redonda (1950-1954)  que dirigiu com António Manuel Couto Viana e Luís de Macedo. Em 1967, tinha a rubrica «Poesia para Todos» no Diário de Lisboa e após o 25 de Abril dirigiu A Capital e foi diretor-adjunto de O Dia. Na Emissora Nacional foi o autor de Música e Poesia nos anos 60, década em que para a RTP fez Hospital das Letras e Imagens da Poesia Europeia, assim como nos anos 70, O Dom de Contar.

Desempenhou ainda as funções de Secretário de Estado da Cultura (nos anos de 1976, 1977 e 1979), sendo dele o despacho que criou a Companhia Nacional de Bailado. A partir de 1981 dirigiu o Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Fundação Calouste Gulbenkian e presidiu à Associação Portuguesa de Escritores (1984 – 1986) e ao  Pen Club Português (1991).

Do primeiro casamento nos anos 50, com Maria Eulália , sobrinha de Valentim de Carvalho, teve dois filhos: David João e Adelaide Constança. Em 1966 voltou a casar, com Maria do Pilar de Jesus Barata.

Foi agraciado como Chevalier de L´Ordre des Arts et des Lettres (1973), a Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco (1976), como Grande Oficial (1981) e a Grã-Cruz (1996) da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, o título de Cidadão Honorário de Cascais e a Medalha de Ouro da Câmara Municipal de Oeiras (1996), o Prémio de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores (1996) e a abertura da Cátedra David Mourão-Ferreira na Universidade italiana de Bari (2005).

Em Lisboa, dá também o seu nome a uma biblioteca na freguesia do Parque das Nações. O escritor integra também a toponímia de Alcabideche, Alhos Vedros, Amadora, Amora (Seixal), Barcarena, Beja, Braga, Caparica, Cascais, Corroios, Eixo (Aveiro), Évora, Fafe, Faro, Odivelas, Pombal (Leiria), Portimão, Póvoa de Santa Iria, Prior Velho, Quinta do Anjo, Regadas (Braga), Rio Tinto, Santa Iria de Azóia, Santarém, Santo António dos Cavaleiros, São Domingos de Rana, São Julião do Tojal, Sesimbra, Sobreda (Almada), Vialonga e Vila Nova da Barquinha.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

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A Rua da fadista Maria do Carmo Torres no Bairro das Marias

Freguesia do Lumiar
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Maria do Carmo Torres foi uma  das cantadeiras mais queridas do público nos anos 30 e 40 do século passado e está perpetuada desde o ano 2000 no Bairro da Cruz Vermelha, popularmente conhecido como Bairro das Marias, em resultado da sua toponímia.

Através do edital camarário de 5 de julho de 2000 Maria do Carmo Torres ficou na Rua A à Rua Maria Carlota, juntamente com mais duas outras fadistas: Maria Alice (Ruas B e C) e Maria José da Guia (Rua com início na Rua Pedro Queirós Pereira e fim na Rua Maria Carlota), todos por sugestão de Appio Sottomayor enquanto membro da Comissão Municipal de Toponímia.

O Bairro da Cruz Vermelha ganhou o epíteto de Bairro das Marias, dado a sua toponímia comportar o nome das senhoras da secção auxiliar feminina da Cruz Vermelha de cuja iniciativa nasceu em janeiro de 1967 o Bairro Municipal da Cruz Vermelha, para albergar as famílias cujas barracas tinham ardido em 1962, todas Marias de primeiro nome e a que ainda se juntou a Rua das Duas Marias, a Rua das Três Marias, a Rua das Quatro Marias, a Rua das Cinco Marias e o Largo das Seis Marias.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Maria do Carmo Alves Torres foi uma cantadeira do fado nascida na piscatória vila algarvia da Fuzeta (Olhão), no dia 8 de janeiro de um dos primeiros anos do século XX,  que ainda em bebé foi morar para Setúbal e seguiu o percurso de trabalhar numa fábrica de conservas de peixe, que como ela conta no jornal Guitarra de 21/08/1934 «(…) fui para o trabalho, nas conservas, onde cheguei a ser alguém, com muita gente sob as minhas ordens. Quantas vezes aos serões, para entreter o pessoal, que escabeceava com sono, me sentava a um canto da fábrica cantando o Fado, entretendo o pessoal e patrões, entretendo-me a mim própria, que já tanto adorava o Fado».

Mas, em paralelo, fazia teatro amador e foi assim que aos 19 anos ( supõe-se que seja à roda de 1926) se estreou como intérprete  do garoto das filhoses numa revista de amadores levada à cena no Salão Recreio do Povo, em Setúbal, de onde seguiu para outra revista no Casino de Setúbal, onde imitou o conhecido pescador António Gouga, tendo sido obrigada pelos aplausos a cantar 7 vezes seguidas e depois, passou para outra no Casino Estoril.

Após o suicídio do seu filho de 16 anos a castiça intérprete acabou por fixar-se em Lisboa, no 2º andar do n.º 119 da Travessa dos Fiéis de Deus, para esquecer  essa perda. Teve depois uma filha a que chamou Maria Carolina Relvas. Na capital, trabalhava como empregada de balcão no Café-Restaurante Sul-América e um dia em que acabou por substituir a cantadeira Maria Virgínia, o diretor Mendes Leal e Alfredo Madeira proporcionaram-lhe a aquisição do carteira profissional.

A partir daí, cantou o fado em todos os retiros da capital, nas esperas de touros do Campo Pequeno, nos teatros e salões de festas dos cinemas, em festas de caridade e nas particulares como as da Condessa de Ficalho, bem como até na então denominada Emissora Nacional. Ficou célebre a sua presença nas peças Adeus, Artur! no Teatro Variedades ou O Chico do Intendente exibida em 1936 no Teatro Apolo. Do seu reportório foram sucessos O SonhoMaria da Graça,  Não Me PersigasMaria da EsperançaCarta em Verso, Fado da Amora e O Que é de Mais Faz Mal, sendo Adriano Reis o seu letrista favorito. A partir de 1934, integrou a Embaixada do Fado, organizada por Maria do Carmo Alta e dirigida por Alberto Reis, que se exibiu no Porto e fez uma digressão pelo Brasil, Argentina e Uruguai, incluindo o guitarrista Armandinho, Berta Cardoso, Branca Saldanha, Lina Duval, Filipe Pinto, Joaquim Pimentel e Eugénio Salvador, entre outros.

Cantou nas diversas casas especializadas de fado lisboetas como o Retiro da Severa (Rua António Maria Cardoso, n.º 5), o Solar da Alegria (Praça da Alegria, n.º 56, num prédio já desaparecido), o Café Luso (no n.º 27 da Avenida da Liberdade, de onde passou em 01/11/1939 para o n.º 131 da mesma Avenida e ainda mais tarde, para a Travessa da Queimada, n.º 8), o Café Mondego (Rua da Barroca, 124), o Retiro dos Marialvas (Rua da Barroca, 122 a 126), a Adega da Lucília (Rua da Barroca, 54) antes de se chamar O Faia e o Solar do Marceneiro (ao fundo da Calçada de Carriche).

No final de 1944 apadrinhou a estreia artística de Deolinda Rodrigues e cerca de 7 anos depois,  após 1951, e acordo com o estudioso do fado Eduardo Sucena retirou-se do fado, para casa de uma irmã, e faleceu nessa mesma década em Leça do Bailio.

Da Travessa da Palha à Rua dos Correeiros

A Adega Friagem, na Rua dos Correeiros, em data entre 1910 e 1919
(Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

Foi na Travessa da Palha
Que o meu amante, um canalha,
Fez sangrar meu coração:
Trazendo ao lado outra amante
Vinha a gingar petulante
Em ar de provocação.

Na Taberna do Friagem
Entre muita fadistagem
Enfrentei os seus rancores,
Porque a mulher que trazia
Com certeza não valia
Nem sombra do meu amor.

São estes os versos iniciais de Foi na Travessa da Palha, fado com letra de Gabriel de Oliveira e música de Frederico de Brito, que recorda a Taberna ou Adega do Friagem na artéria que dá título ao tema e que hoje conhecemos como a Rua do Correeiros da Baixa lisboeta.

Foi na Travessa da Palha terá sido originalmente um fado intitulado Cena fadista criado para o repertório de Maria Alice, algures entre 1928 e a década de 40, quando esta fadista terminou a carreira por se ter casado com Valentim de Carvalho. Certo é que o fado ficou famoso na interpretação de Lucília do Carmo,  em 1958, já com o título mudado para Foi na Travessa da Palha e assim foi passando pelas vozes de Augusta Ermida, Cidália Moreira, Lenita Gentil e Diamantina, para além de no filme-documentário Fados (2007), do espanhol Carlos Saura, o tema surgir na voz de Lila Downs.

Quanto à história do arruamento sabemos que a Travessa da Palha é uma denominação popular anterior ao Terramoto de 1755, que resistiu na memória da população alfacinha pelo menos até ao século XX, para designar a Rua dos Correeiros, topónimo oficial desde 1760, em resultado do primeiro documento legal de toponímia que houve na cidade de Lisboa: a Portaria pombalina de 5 de novembro de 1760 que atribuiu denominações às ruas da Baixa lisboeta, entre a Praça do Comércio e a Praça do Rossio.

Conforme Norberto de Araújo escreveu  nas suas Peregrinações em Lisboa, em 1939, «Neste troço da Rua de Santa Justa, entre as Ruas dos Correeiros (vulgo Travessa da Palha) e a Rua da Prata, passava antes de 1755 em terminus a formosa Rua das Arcas, o Largo da Palha, do qual nascia a Rua da Palha que ia desembocar na Rua da Betesga, velha. A Rua dos Correeiros, que foi destinada aos ofícios dos seleiros – ainda hoje subsistentes – e que se chamou também Correaria Nova, e Nova dos Correeiros, deve a sua designação oral, sobrevivente, à vizinhança com o Largo e Praça da Palha.»

Recordemos que no séc. XIX, o século de nascimento do fado, era comum usar-se a denominação oficial e a popular em muitos topónimos da Baixa lisboeta. Por exemplo, em 1830 a Gazeta de Lisboa publica um anúncio em que se pode ler «vendem-se duas courellas de terra, nos campos de Azambuja; na rua dos Corrieiros, vulgo travessa da Palha, nº 79 – 1º andar». Também Francisco Inácio dos Santos Cruz, na sua obra Da prostituição na cidade de Lisboa, publicada em 1841,  refere a «Rua dos Correeiros (Travessa da Palha)» a propósito de ser preferida pelas «prostitutas de 2ª ordem», tal como a «Rua dos Sapateiros (Arco do Bandeira.

Finalmente, importa referir que Palha foi um topónimo usado em mais artérias lisboetas até ao século XIX.  No princípio do séc. XVII existia a Rua da Palha ou Rua da Palha de Santos que o Edital do Governo Civil de Lisboa de 1 de setembro de 1859 incorporou na Rua do Guarda-Mor, ficando assim esta artéria da Madragoa a unir a Rua das Trinas à Rua de São João da Mata. Em 1846 ainda aparece registado o Boqueirão da Palha da Boavista, em frente ao Largo do Conde de Barão;  em 1858 também ainda surge um Beco da Palha na Ribeira Velha,  ao pé do edifício da Alfândega e, na Junqueira, documentos municipais de 1887 também registam uma Travessa da Palha.

A antiga Travessa da Palha passou a Rua dos Correeiros em 1760
Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

A Rua do autor da letra d’A Casa da Mariquinhas e d’A minha casinha

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Silva Tavares, o autor da letra do fado A Casa da Mariquinhas primeiro consagrado na voz de Alfredo Marceneiro – bem como da canção A minha casinha – para Milú no filme Costa do Castelo –, com a legenda «Poeta/1893 – 1964» deu  nome a uma Rua da freguesia do Lumiar, em 1972, oito anos após o falecimento do poeta.

Foi por sugestão do Presidente da CML de então, Engº Santos e Castro, que o nome de Silva Tavares foi consagrado na toponímia de Lisboa, unindo numa única artéria da Urbanização da Tóbis Portuguesa a Rua B com o troço da Rua A que lhe ficava paralelo,  pelo Edital municipal de 1 de fevereiro de 1972. Dezasseis anos mais tarde, pelo Edital de 29 de fevereiro de 1988, também a Rua II à Rua Silva Tavares foi incorporada neste arruamento, estendendo-se desde aí da Alameda das Linhas de Torres à Rua Ladislau Patrício.

João da Silva Tavares (Estremoz/27.06.1893 – 03.06.1964/Lisboa) trabalhou na Emissora Nacional, na Repartição dos Serviços de Produção, como chefe da Secção de Coordenação de Programas, de 1934 a 1963. Em paralelo, desenvolveu a sua faceta de dramaturgo e poeta, aquela que o ligou mais estreitamente ao fado, produzindo letras para Alfredo Marceneiro, como A Casa da Mariquinhas ou o Fado da Balada, assim como para Amália Rodrigues, sendo neste caso de salientar o Sabe-se lá ou o Que Deus me perdoe – ambos com música de Frederico Valério -, bem como  Fado de Cada Um (para o filme Fado de 1948) ou Céu da Minha RuaNa canção ligeira Silva Tavares também colaborou com diversos maestros como Tavares Belo, sendo mais famosa a sua parceria com António Melo, da qual nasceu a letra de 6 estrofes para Milú cantar no filme O Costa do Castelo (1943), intitulada A minha casinha que mereceu uma versão dos Xutos & Pontapés, a partir da década de oitenta do século passado, que a começaram a cantar como último tema dos seus concertos e que foi aquela que a Seleção Nacional de Futebol entoou após vencer o Euro 2016.

Silva Tavares começou a publicar poesia aos 18 anos, com a obra  Nuvens, corria então o ano de 1911, e a este livro seguiram-se Luz Poeirenta (1916), Poemas do Olimpo (1917), Claustro (1918), Gente Humilde (1934) e Viagem à Minha Infância (1950). Escreveu ainda  cerca de 90 peças de teatro de vários géneros, desde a ópera à farsa, passando muito pela revista, sendo de destacar a autoria do libreto da ópera D. João IV, para música de Rui Coelho, estreada em 1940, bem como o seu Vasco da Gama (1922) em verso e o Auto da Fundação das Caldas da Rainha (1935). Com  Virgínia Vitorino e Adolfo Simões Muller foi ainda em 1940  membro do Júri de Quadras do XII Concurso de Quadras de São João, promovido pelo Jornal de Notícias.

 

A Travessa do Rosário onde José Malhoa viveu 13 anos

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Travessa do Rosário que liga a Travessa da Conceição da Glória à Rua da Alegria foi a morada do pintor José Malhoa em Lisboa durante os seus últimos 13 anos de vida.

José Malhoa que pintou o célebre quadro O Fado, em duas versões, uma em 1909 e a final em 1910 – mesmo que Lisboa só  tenha visto exposto o quadro em 1917, por até aí ser considerado um tema marginal e impróprio -, viveu no nº 8 da Travessa do Rosário de 1922 a 1933, ano da sua morte.

Foto: Eduardo Portugal, 1954, Arquivo Municipal de Lisboa

Só na planta de Lisboa de 1807 de Duarte Fava é que encontramos esta Travessa do Rosário próxima da Praça da Alegria – já que a cidade alfacinha acolhe também uma Travessa do Rosário a Santa Clara -, o que até faz sentido se recordarmos que o sítio da Alegria passou de rural a urbanizado e aumentou de população apenas após o Terramoto de 1755.

Na primeira metade do século XVIII esta zona era ainda um local de terrenos de cultivo, conforme esclarece Norberto de Araújo«(…) Repizo que na primeira metade do século XVIII tudo por aqui eram terrenos de cultivo, abaixo da quinta ou da cêrca dos Padres da Companhia (Jardim Botânico de hoje), ligados a S. José, razão porque esta zona arrabaldina se chamou também Cotovia de S. José. (Para se entender isto melhor é preciso fechar os olhos, e não ver a Avenida actual)».  Depois do Terramoto de 1755 é que as populações se sentiram atraídas para esta área descampada e pouco povoada: «A Alegria, pois, é posterior ao Terramoto; (…) Com a construção e desenvolvimento do Passeio Público, cresceu a Alegria; com a abertura da Avenida [da Liberdade] tornou-se de maioridade». Repara-se que o Chafariz da Mãe d’Água foi para ali transferido em 1840, oriundo do Passeio Público, denotando também a necessidade de maior abastecimento de água neste local.

Para a explicação do topónimo religioso se ter fixado nesta Travessa podemos levantar a hipótese de ter sido denominação dada pelos Jesuítas ou por uma Irmandade. O Noviciado ou Colégio jesuíta da Cotovia esteve aqui sediado entre 1609 e 1759 e foi até nos terrenos mais próximos desta Travessa do Rosário que a partir de 1873 foi começado a plantar o Jardim Botânico. Por outro lado, um pouco por todo o país eram muito populares as Irmandades do Rosário e em Lisboa, a primeira data de 1478. Existiu mesmo em Lisboa uma Confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, pelo menos desde 1494, instalada na Igreja de São Domingos, sobre a qual precisa Cristóvão Rodrigues de Oliveira em 1551 que «e a confraria de Nossa Senhora do Rosário, repartida em duas, uma de pessoas honradas, e outra dos pretos forros e escravos de Lisboa». Com a perda da independência do país na Dinastia Filipina a irmandade foi impedida de ter existência autónoma, proibição que resultou numa dispersão da devoção por outras igrejas, tendo-se destacado nos séculos XVII e XVIII, a irmandade de Nª. Sª. de Guadalupe dos Homens Pretos, no mosteiro de São Francisco,  assim como as de Nª. Srª. do Rosário dos Homens Pretos, nas igrejas do Salvador, da Graça e da Trindade.

Freguesia de Santo António
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)