Os Remédios da Senhora da Ermida do Espírito Santo

Escadinhas dos Remédios, nos anos 40 do séc. XX
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Capela de Nossa Senhora dos Remédios, com o seu portal manuelino, edificada no séc. XVI e profundamente alterada no séc. XVIII deu origem a três topónimos nas freguesias de Santa Maria Maior e São Vicente: as Escadinhas dos Remédios, a Rua dos Remédios e a Travessa dos Remédios.

A Ermida de Nossa Senhora dos Remédios chamava-se do Espírito Santo mas Norberto de Araújo esclarece como se passou de um orago a outro ao relatar que «Nesta Ermida do Espírito Santo havia um poço, onde certo dia apareceu uma imagem de Nossa Senhora, a qual apesar de ser tirada da água, vinha enxuta em sua pintura e tecido. Milagre foi! E acorriam os pescadores e famílias a implorar à Virgem remédio a seus males, e Nossa Senhora os curava. Daí a receber a imagem a invocação de Nossa Senhora dos Remédios foi um salto.»

A Rua dos Remédios, ainda segundo Norberto de Araújo, foi até 1859 a Rua das Portas da Cruz , aludindo a uma das mais importantes portas naturais de Lisboa que ali existia, que se integrou na Cerca de D. Fernando, embora pelo menos no seu troço inicial fosse  no séc. XVIII denominada como Calçada dos Remédios.

Já as Escadinhas dos Remédios, pertença apenas da Freguesia de Santa Maria Maior, ligam o Beco da Lapa à Rua dos Remédios, desde a publicação do Edital municipal de 24/12/1879.

E finalmente, a Travessa dos Remédios que se abre junto ao nº 171 da Rua dos Remédios e não tem saída, foi o resultado de nova categoria dada pelo Edital de 13/12/1882 ao Beco dos Remédios, que ainda antes disso era conhecido como Beco do Frois.

Freguesias de Santa Maria Maior e São Vicente
(Planta: Sérgio Dias)

 

As Escadinhas e a Rua da Senhora da Saúde contra a peste

As Escadinhas da Saúde em 1945 (Foto: Fernando Pozal Martinez, Arquivo Municipal de Lisboa)

As Escadinhas da Saúde em 1945
(Foto: Fernando Pozal Martinez, Arquivo Municipal de Lisboa)

As Escadinhas da Saúde e a Rua da Senhora da Saúde, hoje artérias integrantes da freguesia de  Santa Maria Maior, são topónimos que derivam da proximidade à Ermida da Senhora da Saúde, erguida no séc. XVI em honra de São Sebastião,  para combater a peste que grassava em Lisboa e que a partir de 1661 passou a ser Ermida da Senhora da Saúde.

A Ermida da Senhora da Saúde foi construída em 1505 mas dedicada a São Sebastião, mártir cristão padroeiro contra os males da peste, da fome e da guerra, por iniciativa dos artilheiros da guarnição de Lisboa, denominados bombardeiros, justamente em agradecimento por ajudar a debelar a peste que grassou na cidade.

Em 1570,  também em agradecimento por a epidemia não ter progredido mais o Senado dirigiu uma petição ao rei D. Sebastião para se realizar uma cerimónia religiosa, com toda a solenidade, desta feita já dedicada a Nª Sr.ª da Saúde e assim, em 20 de abril desse ano saiu a 1ª procissão de Nossa Senhora da Saúde, cuja imagem se encontrava então no oratório do Colégio dos Meninos Órfãos. Foi ainda nesse ano que se fundou a Irmandade da Senhora da Saúde, sediada no Colégio dos Meninos Órfãos, onde ficava guardada a imagem da padroeira. A procissão da Senhora da Saúde ganhou tradição, tanto mais que  o Senado da Câmara deliberou em  1572 que a procissão se realizasse todos os anos, na terceira quinta-feira do mês de Abril.

Em 1596 foi criada a paróquia de São Sebastião, na Mouraria, por desmembramento de Santa Justa e a Ermida ficou sede da paróquia. Depois, a sede de paróquia mudou  para a Igreja do Socorro, em 1646. E passados 17 anos, em 1661, as duas irmandades – artilheiros de S. Sebastião e Nª Srª da Saúde –  fundiram-se na Associação da Senhora da Saúde e de S. Sebastião e a Capela passou a ser de Nossa Senhora da Saúde, com a imagem da Senhora a ocupar o altar principal, à qual  Dom Pedro V conferiu a  dignidade de Capela Real, em 1861.

Escadinhas da Saúde -Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Sérgio Dias)

Escadinhas da Saúde -Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Sérgio Dias)

As Escadinhas da Saúde, que ligam a  Rua da Mouraria à Rua Marquês de Ponte de Lima, enquanto topónimo resultaram de uma deliberação camarária de 17 de maio de 1906 e com esta denominação surgem na Planta Topográfica de 1910 de Júlio Silva Pinto e Alberto de Sá Correia. O seu traçado havia sido entregue à Câmara em 12 de dezembro de 1899, por António Caetano Macieira, que no seu terreno  pretendia construir uma escadaria para ligar a Rua da Mouraria à Rua Marquês Ponte de Lima.

Já a Rua da Senhora da Saúde só nasceu no final do séc. XX. Em 1991, a Empresa Pública de Urbanização de Lisboa (EPUL), como Gestora do Plano de Recuperação Urbana do Martim Moniz, solicitou à Câmara a atribuição de nomenclatura própria aos arruamentos recentemente construídos na zona do Martim Moniz e assim, pelo Edital de 30 de abril de 1991 foi atribuída a denominação de Rua Martim Moniz  e ao arruamento compreendido entre a Rua Fernandes da Fonseca e a Rua Martim Moniz, coube a designação de Rua da Senhora da Saúde.

Todavia, passados 6 anos,  o Edital de 15 de dezembro de 1997 uniu as Ruas da Senhora da Saúde e Martim Moniz numa única artéria, sob a denominação Rua da Senhora da Saúde, e levou Martim Moniz a ser o topónimo da Praça adjacente.

Freguesia de Santa Maria Maior (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias)

Ruas com Arcos

Rua do Arco da Torre em 1940 (Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua do Arco da Torre em 1940
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Para além de arcos já desaparecidos ou que não se fixaram na toponímia alfacinha, Lisboa guarda ainda hoje 21 artérias onde estão presentes Arcos que passamos a enumerar, de ocidente para oriente.

Em Belém, encontramos as antigas Rua do Arco da Torre e a Travessa do Arco da Torre, paralelas à Avenida da Torre de Belém. Ora, a antiga Casa do Governador do Forte do Bom Sucesso e onde Almeida Garrett morou em 1852, sita na Rua do Arco da Torre tem justamente um arco que fica fronteiro à Torre de Belém, ou como escreve Luís Pastor de Macedo «Tira o nome do arco que se abre defronte da Rua da Praia do Bom Sucesso e que dá passagem para a Avenida da Índia e para a Torre de Belém.»

Já em Campolide, deparamos com a Rua dos Arcos,  arruamento central do Bairro do Alto da Serafina que ganhou esta denominação por acompanhar parte do percurso dos arcos do Aqueduto das Águas Livres. Esta era a Rua 4 do Bairro da Serafina, atribuída pelo Edital municipal de 15/03/1950, mas popularmente conhecida como Rua dos Arcos e assim ficou oficialmente desde a publicação do Edital de 28/12/1989.

Estendendo-se pelas freguesias de Campolide e Campo de Ourique está a Rua do Arco do Carvalhão, que Norberto de Araújo indica que antes tinha o nome de Rua do Sargento-Mor. O Arco é do Aqueduto e o Carvalhão era o nome pelo qual era conhecido o futuro Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo, que nesta zona possuía terrenos desde a Cruz das Almas até à ribeira de Alcântara com casas, olivais, pedreiras, nomeadamente a da Cascalheira, fornos de cal, moinhos e azenhas.

E ainda em Campolide, temos a Rua do Meio ao Arco do Carvalhão, que já referimos nos artigo «Ruas do Meio».

A Rua do Arco a São Mamede, entre 1898 a 1908 (Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua do Arco a São Mamede, entre 1898 a 1908
(Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

Já nas freguesias de Campo de Ourique e Santo António, deparamos com a Rua do Arco a São Mamede que liga a Rua de São Bento à Rua da Escola Politécnica, que já aparece referida nas plantas da cidade após a remodelação paroquial de 1770.  A ligação desta artéria ao século XVIII fica ainda mais vincada se nos lembrarmos que o seu nome deriva do facto desta artéria ostentar um dos 127 arcos do Aqueduto das Águas Livres que começou a fornecer água à cidade de Lisboa a partir de 1748, aumentando de 6 para 15 litros o volume de água diário que cada cidadão de Lisboa dispunha.  Durante séculos foi conhecida como Rua do Arco e só em 1953, por parecer da Comissão Municipal de Toponímia homologado pelo Vice-Presidente da CML no dia 21 de outubro é que recebeu de acrescento as palavras «a São Mamede».

Já na freguesia da Estrela, na zona da Lapa, encontramos a Rua do Arco do Chafariz das Terras,  denominação que deve ser do final do século XVIII já que a denominação deriva do Chafariz das Terras, construído em 1791, um pouco mais a norte desta artéria. O chafariz que hoje vemos data de 1867. Assim, o topónimo refere um dos arcos do Aqueduto das Águas Livres a partir do qual derivava a água para o chafariz que a ele se encosta.

Ainda na freguesia da Estrela, ligando a Praça da Armada à Rua Vieira da Silva temos a Rua do Arco a Alcântara, cuja denominação se explica por nela existir uma poterna – porta falsa de uma fortificação – do pano de muralha do Baluarte do Sacramento. Este Baluarte contíguo ao Convento do Sacramento, fez parte da projectada defesa de Lisboa do séc. XVII e começou a ser construído em 1650, na Quinta do Marquês de Marialva, que chegava à beira-rio e onde aquele organizara uma conspiração contra Filipe II, diz-se que à sombra de uma alfarrobeira pelo que o baluarte também foi conhecido por Forte de Alfarrobeira. O Terramoto de 1755 quase o destruiu mas ainda aparecia nas plantas de Lisboa da primeira metade do século XIX. Em parte da sua área veio a ser construído em 1865 o Quartel de Marinheiros que deu nome à actual Praça da Armada e na outra parte, cedida à edilidade, foi construída parte da Avenida 24 de Julho.

Seguindo para as freguesias de Santo António e Misericórdia deparamos com o Arco do Evaristo,  arruamento entre a Rua da Mãe D’Água e a Rua D. Pedro V, na zona do Alto do Penalva ou do Marquês de Penalva, que ali morou, e poderá estar ligado à informação que  Luís Pastor de Macedo dá de «(…) Nos verbetes da Câmara Municipal declara-se que esta serventia pública [Alto do Penalva] se denominou também pátio da Evarista o que ainda não achámos confirmado por qualquer outra via.»

Travessa do Arco de Jesus - Placa Tipo II (Foto: Mário Marzagão, 2012)

Travessa do Arco de Jesus – Placa Tipo II
(Foto: Mário Marzagão, 2012)

Ainda na freguesia da Misericórdia está a Travessa do Arco a Jesus,  desde a publicação do Edital municipal de 08/02/1884, a ligar a Travessa da Horta à Rua da Academia das Ciências, em resultado da proximidade ao Convento de Jesus que foi construído em 1615, inaugurado em 1632 e reconstruído depois do Terramoto, com o traço do arqº Joaquim de Oliveira.

Seguimos agora para a a freguesia de Santa Maria Maior onde surge o Arco de Jesus , situado entre o Campo das Cebolas e a Rua de São João da Praça e cuja denominação provém de uma imagem do Menino Jesus colocada sobre o fecho do arco, pelo lado inferior e que já existiria em 1627. Este arco correspondia à Porta da muralha da Cerca moura, onde segundo o Padre Castro, embora não o prove, a cidade foi invadida pelos cruzados que auxiliaram D. Afonso Henriques na tomada de Lisboa aos mouros.

Já entre a Rua dos Bacalhoeiros e a Rua Afonso de Albuquerque apresenta-se o Arco das Portas do Mar que faz referência a uma das portas da muralha (da Cerca Moura de D. Afonso Henriques), a Porta Nova do Mar, e que ainda não existia no século XII.

Também entre a Rua dos Bacalhoeiros e a Rua Afonso de Albuquerque topamos com o Arco da Conceição, que se apresenta em túnel com um escadinha apertada e íngreme e no seu interior existe um oratório a Nossa Senhora da Conceição de onde advém o topónimo. Esta artéria já se denominou Passadiço de Gaspar Pais (1657), Passadiço que sobe da Ribeira para a Cruzes da Sé (1676), Passadiço da Ribeira (1755), Passadiço da Ribeira Velha (1801), Arco da Senhora da Conceição (1804) e Passadiço da Conceição (1807). A designação que hoje vemos vigora desde 1822.

Beco do Arco Escuro - Placa Tipo I (Foto: Sérgio Dias)

Beco do Arco Escuro – Placa Tipo I
(Foto: Sérgio Dias)

E ainda a começar na Rua dos Bacalhoeiros surge o Arco Escuro,  que fazia parte da cerca moura de Lisboa, quiçá a primeira serventia rasgada na muralha, pois já o cruzado R. (também conhecido como Osberno) a ele se referiu na sua carta onde relata a conquista de Lisboa por Afonso Henriques e os cruzados aos mouros. Este Arco também foi vulgarmente conhecido por Postigo da Rua das Canastras, Arco do Armazém Velho ou ainda Arco de São Sebastião.

A partir da artéria anterior nasce 0 Beco do Arco Escuro, topónimo atribuído pelo Edital do Governo Civil de Lisboa de 01/09/1859 ao arruamento com a denominação anterior de Beco do Jardim.

Arco do Rosário era um troço da Rua da Judiaria com início no Largo do Terreiro do Trigo que já aparece assim identificado no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa, de 1858, de Filipe Folque. Antes foi a Porta da Judiaria e passou a Arco do Rosário porventura devido a uma capelinha onde se venerava Nª Sª do Rosário, localizada no cimo do arco, mas que entretanto desapareceu. O Arco do Rosário fez parte integrante da antiga cerca moura e foi reaproveitado para ser uma das 34 portas da cerca nova, denominada de D. Fernando. Resta mencionar que o Arco do Rosário teria uma volta completa, de que hoje apenas se vislumbra meia volta, estando a outra meia aparentemente integrada no prédio que a suporta.

Já entre o Poço do Borratém e a Praça Martim Moniz oferece-se a Rua do Arco do Marquês de Alegrete,  referente ao 1º Marquês de Alegrete, proprietário do palácio que ali ergueu  em 1694. E segundo o olisipógrafo Vieira da Silva, o Arco sobre o qual assentavam dois andares unia dois prédios pertencentes à mesma família e foi construído por volta de 1674, por proposta da Câmara para que «se rompesse a Torre das Portas da Mouraria, com um arco que tenha capacidade de passarem coches». Em 1946 o palácio foi demolido para dar lugar ao espaço que hoje conhecemos como Praça Martim Moniz.

Nas freguesias de Santa Maria Maior e Arroios apresenta-se a Rua do Arco da Graça e a Travessa do Arco da Graça em que a Travessa era um troço da Travessa da Palma, até por Edital camarário de 08/06/1889 passar a denominar-se Travessa do Arco da Graça, por referência à Rua do Arco da Graça onde se inicia, a qual por seu turno advirá de uma imagem de Nossa Senhora da Graça colocada no arco em 1657.

Já entre as freguesias de Santa Maria Maior e São Vicente topamos com as Escadinhas do Arco de Dona Rosa, que ligam a Rua dos Remédios ao Largo do Outeirinho da Amendoeira, perpetuando uma Dona Rosa que ali era proprietária de uma casa que tinha uma capela que mais tarde foi transformada em taberna. De acordo com  Norberto de Araújo «Morta D. Rosa (…) seus herdeiros venderam em 1882 o prédio a Francisco Cândido Máximo de Abreu que dos baixos (incluindo a Capela) fez um armazém de linho.» Em 1889, passou a ser taberna explorada por Jerónimo Pedro do Carmo e em 1924 foi vendida a outros proprietários.

Avançando mais pela freguesia de São Vicente, oferece-se o Arco Grande de Cima, desde o Campo de Santa Clara até ao Largo de São Vicente que terá sido o Arco Grande. Norberto de Araújo informa que « Êste Arco foi erguido em 1808, um pouco adiante do sítio onde se rasgava desde 1373-1375 a Porta ou Postigo de S. Vicente, da Cerca (nova) de D. Fernando. Ligava esse Arco o Convento às suas quintas e jardins, e hoje faz ligação ao Liceu (antigos Paços Patriarcais) à cerca-recreio dos alunos e que atrás vimos.»

Escadinhas do Arco de Dona Rosa em 1962 (Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Escadinhas do Arco de Dona Rosa em 1962
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Os Altos das 7 colinas de Lisboa

Alto das Conchas em 1964 (Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Alto das Conchas em 1964
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Lisboa com as suas 7 colinas encontrou nos Altos uma referência  de fácil localização que foi usada na toponímia mais antiga da cidade e a partir da qual advieram ruas ou travessas com o mesmo nome subsistindo hoje os vinte topónimos oficiais seguintes.

O Alto das Conchas, em Marvila, georrefencia a posição altaneira do lugar de Conchas e deve ter sido fixado por abundarem no local vestígios fósseis de conchas de moluscos do Miocénico de Lisboa (há cerca de 24 milhões de anos). Já em documentos do séc. XII aparece referido o sítio de Concha, onde o Mosteiro de São Vicente de Fora e a Ordem do Templo tinham vinhas. E no séc. XIII são mencionados os lugares de Chelas e Conchas. Em documentos municipais encontramos a primeira referência em 1899, num documento sobre o alinhamento da Calçada do Perdigão que inclui o Alto das Conchas e também a Quinta das Conchas e a Quinta das Conchinhas.

Na Freguesia de Santa Clara, encontramos a Rua do Alto do Chapeleiro, atribuída  por Edital de 29/08/1991 à Rua A da Urbanização do Alto do Chapeleiro, a partir de uma sugestão da vogal da Comissão Municipal de Toponímia Drª Salete Salvado, de modo a preservar a toponímia tradicional da zona. De igual forma, no Lumiar, na urbanização erguida na antiga Quinta dos Alcoutins foi atribuído por Edital de 02/10/2009 o topónimo Rua do Alto dos Alcoutins na Rua E1 da Quinta dos Alcoutins.

Alto do Varejão em 1944 (Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Alto do Varejão em 1944
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

E se virarmos para a Freguesia da Penha de França, para além da Parada do Alto de São João, encontramos vários topónimos relacionados com o Alto do Varejão.

De acordo com Norberto de Araújo «Vamos entrar no Alto do Varejão, sítio da encosta arrabaldina começado a povoar tìmidamente depois do Terramoto, e desenvolvido há já cem anos [o autor escreveu na década de 30 do séc. XX]; é sem dúvida o avô urbano desta área que por aí acima sobe até ao Alto de S. João. Estes terrenos fizeram parte da Cêrca do Mosteiro de Santos-o-Novo, na sua orla do lado nascente; é um aglomerado popular, com algum pitoresco triste, e no qual a principal artéria – a Rua Lopes (indeciso nome) – se prolongou já na urbanização dos últimos oito anos a ligar com o novo bairro, hoje já arruado e edificado, mas ainda sem designação oficial, tal as suas ruas, e que se situa a sul da rotunda do Alto de S. João, entre as Avenidas Jacinto Nunes (por concluir) e Afonso III, esta de bem triste aspecto. (…) A única artéria, já com designação que não seja a das letras A ou B, é a Rua Lopes, prolongada do trôço velho do Alto do Varejão. (Não sei qual fôsse a orígem deste dístico; não creio que ele advenha de um almirante Sequeira Verejão, do tempo de D. João IV, como foi aventado por um erudito respeitável).» Já Luís Pastor de Macedo aponta que «O Varejão que encontrámos morando nestas paragens – na sua quinta de Chelas – foi Diogo de Varejão, filho de Pedro Fernandes, que em 31 de Março de 1599 se casou com Joana Veltim, filha de João Veltim, ao tempo já defunto. Trinta e cinco anos depois, D. Isabel, a Varejoa, era moradora “nas suas casas da cruz da pedra” onde, Ana Pinta, sua sobrinha, faleceu em 7 de Janeiro de 1634. Nenhuma outra pessoa da família Varejão encontrámos vivendo nestes sítios. Teria sido pois aquele Diogo de Varejão o que deu o seu nome ao local?»

Hoje, oficialmente, o Alto do Varejão tem início no Largo de Santos-O-Novo e termina na Rua Lopes. Começa na Rua Lopes a Azinhaga do Alto do Varejão que termina na Praceta do Alto Varejão, fazendo esta a ligação do Alto do Varejão à Travessa do Alto Varejão, que une a Praceta do Alto do Varejão à Calçada das Lajes. Há ainda o Caminho do Alto do Varejão que se estende da Azinhaga do Alto Varejão à Rua Henrique Barrilaro Ruas.

Alto do Penalva em 1946 (Foto: Fernando Martinez Pozal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Alto do Penalva em 1946
(Foto: Fernando Martinez Pozal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Já o Alto do Penalva, espaço sem saída e com início junto ao nº 51 da Rua da Mãe d’Água, na Freguesia de Santo António, seria o Alto do Marquês de Penalva segundo Luís Pastor de Macedo, que adianta «Vêmo-lo mencionar pela primeira vez no ano de 1826 (Livro VII de óbitos, fl.254- Encarnação). O nome adviera-lhe da circunstância do Marquês de Penalva ter morado ali – no prédio nºs. 20 e 22 da praça do Rio de Janeiro [Praça do Príncipe Real]. Nos verbetes da Câmara Municipal declara-se que esta serventia pública se denominou também pátio da Evarista o que, ainda não achámos confirmado por qualquer outra via.» E Norberto de Araújo acrescenta que «Um pouco antes de 1755, neste alto cômoro da Cotovia, sobranceiro sôbre a ponta do Salitre e portas de Valverde – mais largo para norte do que é hoje, depois de urbanizado – existia apenas o Palácio dos Penalvas, à esquina das actuais Escadinhas da Mai d’Água, e ao fundo do curto Arco do Evaristo. (…) A propriedade mais antiga do sítio é o Palácio do Conde de Penalva, erguido em 1738 pela Condessa D, Joana Rosa de Menezes. Situa-se hoje no fundo extremo da Rua da Conceição da Glória, nº 11, e tinha seu pátio e jardins voltados para o alto da Cotovia, já nos Moinhos de Vento, no tempo em que tudo isto era descampado, e em que, por consequência, o Palácio, isolado, avultava no que foi depois a Patriarcal. Ainda hoje, nas traseiras do Arco do Evaristo, há uma travessa sem saída “Pátio do Conde de Penalva”, por trás dos prédios da extrema da Rua D. Pedro V, e à qual se encosta o muro dos jardins, parte rústica da antiga Casa Penalva.» 

Ainda na Freguesia de Santo António existe o Alto de São Francisco junto ao nº 19 da Rua João Penha, tal como na Freguesia da Estrela fica o Alto da Cova da Moura que liga a Travessa do Chafariz das Terras à Rua Maestro António Taborda.

Alto do Carvalhão em 1961 (Foto: Augusto de Jesus Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Alto do Carvalhão em 1961
(Foto: Augusto de Jesus Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Seguimos para Campolide, para o Alto do Carvalhão, para as terras do Carvalhão, alcunha de Sebastião José de Carvalho e Melo.  Segundo Norberto de Araújo, estes terrenos eram de Sebastião José de Carvalho e Melo, ainda antes de ser Marquês de Pombal e Conde de Oeiras, pelo que  do Carvalhão «(…) derivaram os nomes da Rua actual (da direita) que leva à Cruz das Almas, e da ladeira (à esquerda) só há poucos anos (1933) edificada em forma, e que leva a D. Carlos Mascarenhas.» Por escritura de 21/02/1920 sabemos que neste ano no Alto do Carvalhão estavam a ser construídas ruas por Gustavo de Araújo Santos Moreira e que dois anos depois (escritura de 27/01/1924), o mesmo individuo obteve licença para abertura e construção de ruas nos terrenos sitos no Alto do Carvalhão cedendo 2571,25 m2 de terreno à Câmara Municipal de Lisboa. A pavimentação das ruas ocorreu dez anos depois como prova a escritura de adjudicação da empreitada de pavimentação das ruas do Alto do Carvalhão a Emílio Hidalgo datada de 22/05/1934.

Em Benfica, fica um topónimo que acumula duas georreferências: o Alto da Boavista. Começa na Estrada da Buraca e termina na rotunda onde confluem a Estrada do Calhariz de Benfica, a do Monsanto e a Rua da Portela. E em São Domingos de Benfica, o arruamento denominado Alto dos Moinhos tem início na Rua Cidade de Rabat e não tem saída. Este outeiro suave fica a norte da chamada Serra de Monsanto e entre ambos os altos fica o vale que conhecemos como Estrada de Benfica.

Já em Belém, encontramos o Alto de Caselas no Bairro de Caselas e um pouco mais abaixo estão as Escadinhas do Alto do Restelo, topónimo atribuído pelo Edital de 30/07/1999 ao arruamento construído em escadaria, entre o lote 5 e o lote 9 da Urbanização da Encosta do Restelo. E daqui, virando para a direita, deparamos com a Estrada do Forte do Alto do Duque, topónimo  evocativo da quinta do Duque do Cadaval que existia já no séc. XVII e onde em 1717 D. João V vinha com alguma frequência e em cujos terrenos viria a ser construído em 1865 o Forte do Alto do Duque. Este arruamento já era vulgarmente designado por Estrada do Forte do Alto do Duque e a CML através do seu edital de 24/04/1986 oficializou o topónimo nesta via entre a Avenida das Descobertas ( junto ao Colégio de S. José) e a Estrada Militar. Já desde o Edital de 29/04/1948 a Rua IV do plano de Urbanização da Encosta da Ajuda se tornara a Rua do Alto do Duque, unindo a Avenida Dom Vasco da Gama à Rua Dom Jerónimo Osório.

Na próxima segunda publicaremos um artigo sobre o Alto do Longo, no Bairro Alto.

O Alto do Duque em 1941 (Foto:Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Alto do Duque em 1941
(Foto:Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Farinhas e fornos na toponímia de Lisboa

Largo dos Trigueiros - Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Nuno Correia)

Largo dos Trigueiros – Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Nuno Correia)

O pão como elemento básico da alimentação e os fornos para o cozer marcam presença em inúmeros topónimos da cidade de Lisboa e que perduram nas zonas mais antigas da cidade assim como nas franjas urbanas que se mantiveram essencialmente rurais até ao início do século XX.

Na parte mais antiga da cidade, hoje integrada na Freguesia de Santa Maria Maior, encontramos  o Largo dos Trigueiros, mais o Largo do Terreiro do Trigo, a  Rua do Terreiro do Trigo, as  Escadinhas do Terreiro do Trigo  e a Travessa do Terreiro do Trigo, sendo estes quatros últimos derivados do edifício do Celeiro Público ou Terreiro do Trigo, aqui construído entre 1765 e 1768 sob o traço de Reinaldo Manuel dos Santos, sendo que com este Terreiro do Trigo pombalino, procurava D. José I assegurar «a abundância de pão aos moradores da sua nobre e leal cidade de Lisboa». Mais tarde, o espaço passou a ser o Mercado Central de Produtos Agrícolas até cessar essas funções em 1937 para aí serem instalados serviços alfandegários.

Para a moagem dos cereais, temos topónimos com atafonas e moinhos. Atafona é uma palavra de origem árabe que significa moinho que funciona sem vento nem água mas é antes impulsionado por homens ou por bestas. As artérias que guardaram este nome devem ter tido um engenho destes ou então algum morador do arruamento que fosse atafoneiro, ofício cuja irmandade tinha a invocação de Santo Antão. Em Alfama, subsiste o Beco das Atafonas, já referido em 1712, e junto à Rua das Janelas Verdes, temos a Travessa das Atafonas que perpetua a memória de atafonas por estas paragens e que  segundo Júlio de Castilho seriam do final do século XV . No singular, ainda se regista um Largo e um Beco da Atafona na antiga Freguesia de São Cristóvão e São Lourenço (hoje Santa Maria Maior), sendo que este último, de acordo com Pastor de Macedo, teria sido Rua desde 1694 e até pelo menos 1701 pelo que o Largo só com topónimo atribuído em 1915 deriva o seu nome do Beco. Existe também na Freguesia de São Vicente  um Beco da Mó. Com moinhos encontramos ainda hoje 7 topónimos em zonas altas e ventosas: o Alto dos Moinhos (em São Domingos de Benfica) que apenas um vale o distancia de Monsanto, a Calçada do Moinho de Vento (Freguesias de Arroios e Santo António), a Calçada dos Sete Moinhos ( em Campolide) onde ainda se mantinham alguns no final do séc. XX e a Rua dos Sete Moinhos (Campo de Ourique) pela proximidade à Calçada, a Travessa do Moinho de Vento (Estrela) perto da Rua de Buenos Aires, a Travessa dos Moinhos em Santo Amaro (Alcântara) e Travessa do Moinho Velho na Boa-Hora (Ajuda).

Largo do Peneireiro - Freguesia de Santa maria maior - Placa Tipo I (Foto: Mário Marzagão)

Largo do Peneireiro – Freguesia de Santa Maria Maior – Placa Tipo I
(Foto: Mário Marzagão)

E para escolher os cereais ou as farinhas, ou perpetuar quem vendia peneiras, encontramos ainda no norte lisboeta o Largo das Peneireiras, na zona das antigas quintas da Charneca do séc. XIX , bem como o Largo e o Pátio do Peneireiro em Alfama.

O Beco e a Rua das Farinhas, mais as Escadinhas da Rua das Farinhas são topónimos da Lisboa seiscentista já que Cristóvão de Oliveira no seu Sumário enumera já na Lisboa de 1551 o Beco das Farinhas em Santa Justa e a Rua das Farinhas em S. Lourenço onde ainda hoje as encontramos.

E finalmente nos fornos temos a Travessa do Forno aos Anjos (Freguesia de Arroios), a Travessa do Forno do Maldonado e a Travessa do Forno do Torel que antes foi Beco (ambas na Freguesia de Arroios), e todas dadas pelo Edital do Governo Civil de 01/09/1859, o que denota por um lado, serem topónimos anteriores a esta data e por outro que haveriam em Lisboa várias Travessas do Forno  para haver necessidade de destrinçá-las.

Travessa dos Fornos - Freguesia da Ajuda (Foto: Sérgio Dias)

Travessa dos Fornos – Freguesia da Ajuda
(Foto: Sérgio Dias)

Ainda hoje subsistem mais duas Travessas do Forno: a Travessa do Forno junto à Rua das Portas de Santo Antão ( Freguesia de Santa Maria Maior) e a Travessa dos Fornos na Ajuda, que o Edital municipal de 14/12/1917 reconhece que já  era o «nome porque vulgarmente era conhecida». Assim, é lícito supor que a denominação advém da proximidade à antiga Estrada dos Fornos d’El-Rei. Já numa planta de 1890, anexa a um ofício do engenheiro diretor-geral da CML aparece esta Estrada dos Fornos d’El-Rei, no Rio Seco, e como tal também aparece designada na planta da cidade de 1896, passando a Estrada do Rio Seco na planta de 1911, e pelo edital de 07/08/1911 se torna a Rua Dom João de Castro.

Já os becos são 5 : o Beco do Forno junto do Largo da Severa, o Beco do Forno (a São Paulo) referido no levantamento de 1856 de Filipe Folque, mais o Beco do Forno do Castelo, o Beco do Forno da Galé e o Beco do Forno do Sol junto à Vila Berta, todos com acrescento para aumentar a diferenciação dado pelo Edital do Governo Civil de Lisboa de 01/09/1859.

Por último, lembramos que toponímia lisboeta guarda ainda outra memória deste património português: a Rua da Padaria.

Escadinhas da Rua das Farinhas (Foto; Ana Luísa Alvim)

Escadinhas da Rua das Farinhas
(Foto: Ana Luísa Alvim)

A I Guerra na Toponímia do Bairro América

Freguesia de São Vicente (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias)

Os Estados Unidos da América declararam guerra à Alemanha em abril de 1917 e no ano seguinte findou a I Guerra Mundial. Em Lisboa, 14 dias após a assinatura do armistício de Compiègne (11 de novembro), a deliberação camarária de 25 de novembro de 1918, denominou um novo bairro,  construído entre 1915 e 1920 na antiga Quinta das Marcelinas, como Bairro América e as suas artérias com os nomes de dois norte-americanos e de outras figuras ligadas ao continente americano.

Já antes mesmo da assinatura do armistício, por deliberação camarária de 19 de setembro e edital de 24 de setembro de 1918, Lisboa homenageara numa Avenida o então Presidente dos Estados Unidos da América, Thomas Woodrow Wilson.

A deliberação municipal especificou «Que se denomine Bairro America, o bairro em construção na Quinta das Marcelinas na rua do Vale de Santo Antonio e que os respectivos arruamentos tenham as designações seguintes: o nº 1, rua Franklin [Benjamin Franklin, estadista norte-americano fulcral na independência das 13 colónias inglesas para a construção dos estados americanos]; o nº 2, rua Washington [o 1º Presidente dos Estados Unidos da América]; o nº3, rua Ruy Barbosa [político e jornalista brasileiro que defendia o princípio da igualdade das nações]; o nº 4, rua Bolivar [Simon Bolívar que combateu o domínio espanhol na América do Sul, fundou a República da Bolívia e procurou implantar a República dos Estados Unidos do Sul com a junção da Bolívia, Venezuela e Colômbia]; a nº 5, rua do Costa Reais [refere-se aos Cortes Reais, família de navegadores portugueses que empreenderam navegações para o continente americano]; o nº 6, rua Fernão de Magalhães [o primeiro navegador a fazer uma viagem de circum-navegação], e o nº7, rua Alvaro Fagundes [navegador português do século XVI que explorou a costa austral da Terra Nova]. Deliberação camararia de 25 de Novembro de 1918». O Edital municipal foi publicado 6 anos mais tarde, em 17 de outubro de 1924, justificando «Por não terem sido publicados, em devido tempo, os respectivos editais, e por cumprir a esta Comissão Executiva dar execução ás deliberações do Senado Municipal».

Refira-se ainda que os arruamentos Rua Bolívar e Rua Álvaro Fagundes nunca tiveram execução prática, embora, em 1971, o nome de Álvaro Fagundes tenha regressado para a toponímia lisboeta para dar nome à Rua C, à Rua General Justiniano Padrel.

Já as Escadinhas do Bairro América, que ligam a Rua Washington à Rua Rui Barbosa, foram um topónimo atribuído 14 anos depois dos anteriores, pelo Edital de 28/12/1932,  tomando a denominação do Bairro.

Freguesia de São Vicente (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias)

As Escadinhas do Santo Espírito da Pedreira

Placa Tipo III - Freguesia de Santa Maria Maior

Placa Tipo III – Freguesia de Santa Maria Maior

A recuperação urbanística do Chiado em consequência do Incêndio de 25 de agosto de 1988, de acordo com o plano traçado por Siza Vieira, permitiu o nascimento de um novo arruamento neste tecido urbano, de ligação entre a Rua Nova do Almada e a Rua do Crucifixo, que o Edital municipal de 12/04/1995 denominou Escadinhas do Santo Espírito da Pedreira.

Estas escadinhas que foram abertas entre a Rua Nova do Almada e a Rua do Crucifixo e que ladeiam uma parte do edifício dos contemporâneos Armazéns do Chiado, recuperam o topónimo antigo de Santo Espírito da Pedreira,   documentado pelo menos desde 1551 por Cristóvão Rodrigues de Oliveira, nas seculares freguesias de São Nicolau e Nossa Senhora dos Mártires.

O topónimo faz referência ao antigo convento que existiu no local, da Irmandade do Santo Espírito da Pedreira, fundado em data anterior a 1279, por D. Antão e Dona Sancha. Possuía uma ermida e um hospital sendo que o espaço conventual se situava na confluência da que é hoje a Rua Garrett com a Rua Nova do Almada, e a entrada do Hospital na Rua do Carmo. À Irmandade da Casa do Espírito Santo, de nobres e mercadores ricos, provavelmente de origem judaica, juntou-se em 1445 a Confraria dos Mercadores. A igreja tinha o altar-mor da invocação ao Espírito Santo e o nome Pedreira tem origem na grande rocha que caía sobre o vale a que chamamos Baixa.

Em 1514 as instalações estavam em estado de abandono  e  durante o séc. XVII sofreram várias obras de reconstrução tendo D. João III em 1671 feito delas doação aos Oratorianos. Com o terramoto de 1755, o convento ficou em ruínas e a comunidade de religiosos foi transferida provisoriamente para o Convento das Necessidades. Após a reconstrução do convento concluída em 1792, os Oratorianos voltaram em 1833 e até 1834, após o que o edifício teve outros usos como sede da 1ª Companhia da Guarda Municipal e Repartição de Saúde, morada do Barão de Barcelinhos e de vários hotéis como o Hotel Universal, bem como de diversas lojas e associações, sendo a partir de 1894 os Grandes Armazéns do Chiado.

Freguesia de Santa Maria Maior

Freguesia de Santa Maria Maior

Freguesia de Santa Maria Maior

Freguesia de Santa Maria Maior

As Escadinhas de São Miguel de Alfama

São Miguel Arcanjo tem 6 topónimos a perpetuá-lo nesta zona de Alfama que foi da antiga freguesia de São Miguel: a Calçadinha, o Largo, a Rua, a que se juntaram no final do séc. XIX o Beco e a Travessa e, já no séc. XX, em 1963, as Escadinhas de São Miguel.

A Rua de São Miguel funcionou como uma típica rua Direita medieval deste local. O Beco e a Travessa que hoje encontramos foram obra do Edital Municipal de 09/07/1894, em vez das respetivas anteriores denominações de Beco dos Mortos e Beco de São Miguel. Estas Escadinhas foram as últimas a integrar a toponímia local, nascidas do Edital municipal de 25/01/1963, para substituir o Largo da Cantina Escolar que a autarquia lisboeta quis ali colocar pelo Edital de 27/10/1916 em homenagem à Cantina Escolar de São Miguel, ali fundada em 1909, e que antes era o Beco do Alegrete.

São Miguel tido como o defensor do Povo de Deus no tempo de angústia e aquele que acompanha as almas dos mortos até o céu, tem aqui lugar derivado à proximidade à Igreja de São Miguel que ali está desde o século XII. A primitiva ermida terá começado a ser construída cerca de 1150 e a sede da paróquia do mesmo nome criada em 1180, ocupando a zona norte de Alfama, mais rural que a da freguesia de São Pedro. A Igreja de São Miguel foi reedificada em 1222 e, a partir de 1428 acolheu a constituição da Irmandade do Espírito Santo, dos pescadores linhéus. Nos séculos XVI e XVII os espaços  urbanos mais vivenciados pela população local eram as escadas e a envolvente da igreja matriz, a Rua de São Miguel, a de São Pedro, a da Regueira e o Largo do Salvador. O edifício que hoje encontramos foi erguido sobre o original, entre 1673 e 1720, sob a orientação do arquiteto João Nunes Tinoco, conferiu o estilo maneirista e barroco. O terramoto de 1755 danificou-a mas foi rapidamente recuperada e, em 1880, teve novas obras de restauro, sendo classificada Imóvel de Interesse Público em 1982.

Freguesia de Santa Maria Maior (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias)

As Escadinhas da Praia fluvial da Madragoa de Santos

Antes de 1945 (Foto: Fernando Pozal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Antes de 1945 (Foto: Fernando Pozal,  Arquivo Municipal de Lisboa)

Este arruamento do século XIX que nos nossos dias liga a Avenida 24 de Julho à Calçada Ribeiro Santos, guarda nesta área ribeirinha a memória da praia fluvial da Madragoa.

No ano de 1501 começou a construção do Paço Real de Santos, no sítio das Comendadeiras de Santiago, no que era propriedade de Fernão Lourenço – que era feitor das Casas da Mina e da Índia -, e a vai ceder a D. Manuel I, sendo que então as águas do Tejo batiam no muro sul da cerca. O Paço ergueu-se sobre o rio e esteve ocupado pelos reis portugueses até à partida de D. Sebastião para Alcácer Quibir.

Em 1843 ainda o Tejo banhava  a muralha do jardim do Palácio dos Marqueses de Abrantes e é em 1850 que Lisboa vai conquistar terrenos ao Tejo. É a construção do aterro e da linha Lisboa-Belém, em 1886, que afasta a Madragoa do rio. A Calçada de Santos (hoje, Calçada Ribeiro Santos) só foi aberta em 1859 e o  quarteirão do Largo Vitorino Damásio foi construído entre 1875 e 1880.

Lisboa exibe ainda mais 4 arruamentos evocativos das suas praias fluviais, a saber, o Boqueirão da Praia da Galé ( Santa Maria Maior ), a Rua da Praia de Pedrouços e a Rua da Praia do Bom Sucesso (ambos em Belém) e, a Travessa da Praia (Alcântara).

Freguesia da Estrela (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias)