A Rua Primeiro de Dezembro e a Restauração

Placa Tipo II 
(Foto: Artur Matos)

Amanhã, comemora-se o Primeiro de Dezembro, data da Restauração da Independência Nacional em 1640 e de que Lisboa guarda memória numa rua desde 7 de agosto de 1911.

A Rua do Príncipe e o Largo da Rua do Príncipe passaram pelo Edital municipal de 07.08.1911 a denominar-se Rua Primeiro Dezembro, em homenagem à libertação do país do domínio espanhol e à restauração da sua independência em 1 de Dezembro de 1640. Ainda antes, de acordo com o olisipógrafo Norberto de Araújo, «A serventia parece que fora chamada pelo vulgo, no tempo de Pombal, depois do Terramoto, Rua Nova das Hortas e Rua das Hortas (e que constituiria referência oral à Horta da Mancebia ou a horta dos terreiros do Duque de Cadaval ou dos Condes de Faro, mais para Norte). Antes de 1755 a Rua tinha já o traçado sensivelmente idêntico ao de hoje, e chamava-se Rua de Valverde – lindo nome.» 

Por este mesmo edital de 1911 a vereação republicana procedeu a mais substituições das referências monárquicas ou religiosas por outras ligadas a figuras históricas ou personalidades de ideário republicano. Assim, a Rua do Príncipe a Alcântara passou a Rua 5 de Abril, a Rua da Piedade a Rua da Infantaria 16, a Travessa de Jesus Maria José ficou Travessa do Cabo, a Rua de Nossa Senhora do Resgate passou a Rua Álvaro Coutinho (o cavaleiro Magriço do séc. XV), a Rua da Santíssima Trindade tornou-se Rua Garcia de Orta, a Rua da Madre de Deus passou para o escritor Manuel Bernardes, a Rua de Nossa Senhora da Conceição ficou para o compositor Marcos Portugal, a Rua de São Joaquim tornou-se Rua Primeiro de Maio, a Travessa das Bruxas passou a Travessa das Águas Livres, a Rua da Cadeia ficou para o pintor  Vieira Portuense, a Rua do Conselheiro José Cavalheiro tornou-se referência ao historiador Diogo do Couto, a Rua do Conselheiro Adriano Cavalheiro passou a homenagear o poeta anticlerical Guilherme Braga, a Rua Barros Gomes ficou Rua Viriato e, a  Avenida Joaquim Larcher tornou-se Avenida dos Estados Unidos da América, um país formado por uma federação de Repúblicas.

Nas proximidades desta Rua Primeiro de Dezembro existe ainda a Praça dos Restauradores, evocativa da mesma data e acontecimento, mas que a antecede já que o chão do arruamento foi terraplanado em 1882, o topónimo foi atribuído por Edital de 22 de julho de 1884 e, em 28 de abril de 1886 nele se inaugurou o monumento aos Restauradores. A bandeira da República Portuguesa foi apresentada oficialmente ao país e hasteada pela 1ª vez no 1º de Dezembro de 1910, junto ao monumento dos Restauradores.

Freguesia de Santa Maria Maior

Freguesia de Santa Maria Maior

A primeira jornalista de reportagem portuguesa numa rua de Caselas

Placa Tipo V – Freguesia de São Francisco Xavier – futura Freguesia de Belém
(Foto: José Carlos Batista)

A primeira jornalista de reportagem portuguesa, de seu nome Virgínia Quaresma, desde 1988 que dá nome a uma rua do Bairro de Caselas, quinze anos após o seu falecimento.

Foi pelo Edital municipal de 20.04.1988, que atribuiu denominações aos arruamentos do Bairro de Caselas que antes tinham apenas denominações numéricas, correspondendo a uma solicitação da Junta de Freguesia e, que assim a juntou a outras mulheres pioneiras como Carolina Ângelo (a primeira mulher a votar em Portugal ) e Aurora de Castro (a primeira notária em Portugal), às escritoras Alice Pestana, Leonor Pimentel e Olga Morais Sarmento, à pintora Sara Afonso, a antigas figuras daquela zona como os Margiochis, o Manuelzinho D’ Arcolena, o Padre Reis Lima e a Quinta do Paizinho (de António José Paizinho) e ainda, ao nome antigo da toponímia local que é o Pai Calvo.

Virgínia Sofia da Guerra Quaresma (Elvas/28.12.1882 – 26.10.1973/Lisboa) foi uma das primeiras licenciadas do então Curso Superior de Letras (hoje, Faculdade de Letras de Lisboa), em 1903, e a 1ª mulher que exerceu a profissão de jornalista em Portugal.

Começou a trabalhar no Jornal da Noite e, a colaborar na secção “Jornal da Mulher” d’ O Mundo, onde assinou importantes textos em defesa do feminismo, até Manuel Guimarães a convidar para O Século, em 1908, onde voltou repetidas vezes na sua carreira. Passou por outros jornais, como A Capital, quando em 1910 Manuel Guimarães fundou este jornal, tendo até Virgínia arrendado um apartamento na Rua do Norte, mesmo em frente ao jornal que era no nº 3, o prédio da esquina com a Praça de Luís de Camões. Virgínia Quaresma distinguiu-se nas reportagens políticas e, no Século chegou a chefe de Informações Gerais e Reportagens Especiais, dando um forte impulso à reportagem e fazendo dela um género nobre.

Entrevistada para A Capital em 26 de Agosto de 1911, confessou adorar a sua profissão e afirmou que os colegas homens sempre a acolheram muito bem, desejando ver outras mulheres a ganhar a vida como jornalistas. Assumia-se como feminista e republicana, tendo engrossado a campanha de 1909 a favor da aprovação da Lei do Divórcio e discursado na Assembleia Geral da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas de 26 de Outubro de 1910, onde foi aprovado o caderno reivindicativo feminista a apresentar a Afonso Costa. Consequentemente, escreveu pelo direito ao voto das mulheres e acesso às mesmas profissões que os homens, à administração dos bens e ao divórcio, nomeadamente na revista Sociedade Futura de Olga Morais Sarmento, bem como na revista Alma Feminina (1907-1908), na qual pela 1ª vez em Portugal colocou uma mulher operária em destaque. 

De 1912  a 1917 foi para o Brasil onde fez carreira n’ A Época, Correio Português e Gazeta de Notícias e, ganhou a distinção de Cidadã Carioca Honorária. Voltou mais tarde ao Rio de Janeiro para organizar a visita do Presidente da República António José de Almeida de 1922 e, a Semana de Portugal na Feira de Amostras do Rio de Janeiro (1933). Foi ainda no Brasil que conheceu Óscar de Carvalho Azevedo que a convidou para chefiar a delegação lisboeta da Agência Americana de Notícias (agência noticiosa criada por Olavo Bilac), paredes meias com o Chiado Terrace ali na Rua António Maria Cardoso. Durante a I Guerra, colocou esta estrutura ao serviço da Cruzada das Mulheres Portuguesas, promovendo o auxílio aos estropiados de guerra, órfãos e viúvas e foi por isso condecorada com a Ordem de Santiago.

O Largo do Diretor do Museu das Janelas Verdes

José Figueiredo no Museu de Arte Antiga em 1924                                                      (Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Doze dias após o falecimento do 1º diretor do Museu Nacional de Arte Antiga foi o seu nome inscrito no largo fronteiro a esta instituição, como Largo do Doutor José de Figueiredo, cujo edital conta que «Considerando que o Sr. Dr. José de Figueiredo, eminente crítico de arte, prestou à Cidade de Lisboa e ao Município relevantes e desinteressados serviços na defesa do seu património estético e na valorização das suas belezas naturais (…) Que ao Largo das Janelas Verdes, fronteiro ao Museu Nacional de Arte Antiga, se dê o nome de Largo do Dr. José de Figueiredo, em homenagem ao eminente crítico e erudito primeiro Director dessa modelar galeria de arte».

Este pequeno largo em U, datável de 1778, com projeto de Reinaldo Manuel dos Santos, fora o Largo do Chafariz das Janelas Verdes até a deliberação camarária de 04.04.1881 o transformar em Largo das Janelas Verdes e depois, por Edital municipal de 30.12.1937, em Largo do Doutor José de Figueiredo, forma em que tem sido preservado até aos nossos dias.

Freguesia da Estrela - Placa Tipo II (Foto: José Carlos Batista)

Freguesia da Estrela – Placa Tipo II
(Foto: José Carlos Batista)

Nascido há 140 anos, José de Figueiredo (Porto/21.12.1872 – 18.12.1937/Porto) foi um ensaísta e crítico de arte que se distinguiu pelos seus estudos sobre os Painéis de S. Vicente de Fora atribuindo a sua autoria a Nuno Gonçalves assim como, por ter sido o primeiro e, durante 26 anos, Diretor do Museu Nacional de Arte Antiga, popularmente conhecido como Museu das Janelas Verdes. Foi nomeado para este cargo, enquanto funcionário do Ministério da Instrução Pública, por Decreto de 27 de maio de 1911. O Dr. José de Figueiredo conseguiu ampliar as instalações deste Museu instalado num palacete do séc. XVII, assim como o restauro dos Painéis de S. Vicente. Publicou a 1ª apresentação ao público português desta estrutura museológica na revista Atlântida, em 15 de dezembro de 1915, com o título «O Museu Nacional de Arte Antiga de Lisboa». Organizou várias exposições de pintura portuguesa no estrangeiro e, em 1928, na celebração do 4º centenário da morte de Albrecht Dürer, levou o famoso quadro de São Jerónimo até Nuremberga e, sempre defendeu o reconhecimento da pintura portuguesa como arte original e autónoma em relação às outras escolas europeias como está patente no seu Algumas Palavras sobre a Evolução da Arte em Portugal.

José de Figueiredo estudou Direito na Universidade de Coimbra e, Arte em Paris, durante 6 anos, tendo privado com Rodin e Delmotte. E, na senda do seu pioneirismo foi também o 1º presidente da restaurada Academia Nacional de Belas-Artes, criada em 1932 com o Decreto n.º 20 977, por iniciativa do então ministro da Instrução Pública, Gustavo Cordeiro Ramos.

Da sua obra publicada, destacamos o seu estudo sobre os Painéis de São Vicente de Fora que lhe permitiram atribuir a autoria de grande parte deles a Nuno Gonçalves publicado em 1910, bem como Portugal na Exposição de Paris (1901), O legado Valmor e a Reformas dos Serviços de Belas Artes (1901), Introdução a um ensaio sobre a pintura quinhentista em Portugal (1921), Prefácio e notas ao Catálogo da Exposição Cultural de Sevilha – Época dos descobrimentos (1929), L’Art Portugais de l’Époque des grandes découvertes ao XX éme siecle (1931), para além ter colaborado regularmente no Diário de Notícias e nas revistas Atlântida e Lusitânia.

José de Figueiredo foi agraciado pela edilidade lisboeta com a Medalha de Mérito Municipal- Grau Ouro (1937), com a criação do Instituto José de Figueiredo pelo Museu Nacional de Arte Antiga, com um prémio com o seu nome para os melhores livros publicados em Portugal sobre arte e património instituído pela Academia Nacional de Belas-Artes e, com o Círculo Dr. José de Figueiredo (1940) sediado no Museu Soares dos Reis, no Porto.

Freguesia da Estrela (Foto: José Carlos Batista)

Freguesia da Estrela
(Foto: José Carlos Batista)

O Fado e a Rua do Capelão

 Neste dia em que se comemora o 1º aniversário do Fado como Património Imaterial da Humanidade vamos até à Rua do Capelão, artéria por vários motivos icónica do Fado de Lisboa.

 De acordo com Cristóvão Rodrigues de Oliveira, no seu Sumário de 1551, já nesse ano existia em Lisboa a Rua do Capelão, tal como a Rua da Mouraria, a dos Cavaleiros, a do João do Outeiro e a da Amendoeira. Seguindo depois Norberto Araújo, nas suas Peregrinações em Lisboa, sabemos que o nome da rua advém de “um oratório armado numa parede, com frente à rua, e que merecia a maior devoção aos habitantes do sítio; às tardes, a população reunia-se, e rezava em conjunto deante da imagem“.

A ligação desta artéria ao Fado prende-se com o fato da fadista Severa, de seu nome completo Maria Severa Onofriana, durante o século XIX, nela ter vivido e morrido, no atual nº 36 e, a sua figura ter sido popularizada pela romantização que dela fez Júlio Dantas numa peça em 4 atos levada à cena no então Teatro D. Amélia (hoje Teatro Municipal de São Luiz) em 1901, e depois também adaptada para um filme de Leitão de Barros exibido em 1931 e, regressando à cena no palco do Monumental em 1955 com Amália no papel de Severa.

A edilidade lisboeta pegou mesmo num troço da própria Rua do Capelão, compreendido entre o Beco do Forno e a Rua da Guia, para consagrar a Severa na toponímia de Lisboa, conforme se comprova no edital municipal de 18 de Dezembro de 1989. Acresce que também o fadista Fernando Maurício foi morador da Rua Capelão.

Na toponímia de Lisboa estão inscritos um total de 21 topónimos relacionados com personalidades do Fado, que são os fadistas Amália, Alfredo Duarte (Marceneiro), Berta Cardoso, Fernando Farinha, Fernando Maurício, Hermínia Silva, Joaquim Cordeiro, Lucília do Carmo, Maria Albertina, Maria Alice, Maria do Carmo Torres, Maria José da Guia, Maria Teresa de Noronha, Severa, Tristão da Silva, os guitarristas Armandinho e Jaime Santos, os letristas Carlos Conde, Silva Tavares e Vasco de Lima Couto, assim como Frederico de Brito que tanto fazia músicas como letras.

Ser ou não ser Carlos Daniel

Os moradores do Bairro dos Retornados solicitaram à edilidade, no final da década de 90 do século XX, que a denominação do Bairro fosse alterada para Bairro do Oriente e tal veio acontecer, até com uma inauguração de novos topónimos nos seus arruamentos, no dia 7 de maio de 1999, neles consagrando nomes do panorama teatral e musical português, a saber, os cantores António Variações e Carlos Paião, o compositor Jaime Mendes, o artista plástico e ilustrador Fernando Bento, o Palhaço Luciano e, os atores Mário Viegas e Carlos Daniel, cabendo a este último a Rua A do Bairro dos Retornados.

De seu nome completo Carlos Daniel da Silva Gonçalves Fernando (Lisboa/11.05.1952 – 09.04.1996/Lisboa), nasceu no rés-do-chão do nº 17 da Travessa da Memória, na Ajuda e, sonhou ser padre, decorador e finalmente ator, palco de criação que abraçou para toda a sua vida e que só um ataque cardíaco fulminante aos 43 anos interrompeu.

Carlos Daniel foi um ator de talento excecional que se diplomou com o 1º prémio no Curso Superior de Teatro e Encenação do Conservatório de Lisboa mas que ainda antes, aos 17 anos, se estreou na Antígona de Sófocles, no palco do Teatro Popular de Lisboa e, no ano seguinte, ingressou na Companhia Metrull.

Aos 20 anos foi para o elenco do Teatro Experimental de Cascais (TEC) e mais tarde, em 1975, com Carlos César, António Assunção e Francisco Costa fundou o TAS – Teatro de Animação de Setúbal, no qual permaneceu até 1978, ano em que integrou o Teatro Nacional D. Maria II, em cujo palco principal representou 17 peças, entre as quais O Alfageme de Santarém de Almeida Garrett, Felizmente Há Luar de Luís de Sttau Monteiro, O Traído Imaginário de Molière, As Três Irmãs de Tchekov, Jardim Zoológico de Cristal de Tenesse Williams, Fígados de Tigre de Gomes de Amorim, O Gebo e a Sombra de Raúl Brandão  ou Mãe Coragem de Brecht. Foi ainda no palco do Nacional que foi o protagonista de D. João de Molière e em 1995, de Ricardo II de Shakespeare.

Realizou o sonho da sua vida de ator ao encarnar Hamlet, encenado por Carlos Avilez para a Fundação Gulbenkian e, também foi protagonista de Les Galanteries du Duc d’Ossone, Vice-Roi de Napoles, de Jean-Marie Villégier, apresentada no Théâtre Municipal de Caen e no Théâtre National de Chaillot em 1988, bem como integrou o Amor de Perdição encenado por Ricardo Pais para a Europália 91.

Na televisão, Carlos Daniel participou em programas de teatro, de poesia, em telenovelas (Chuva na Areia, Desencontros e, Pedra Sobre Pedra para a Globo do Brasil) e ainda séries, para além de no cinema ter dado corpo ao rei louco D. Afonso VI em O Processo do Rei (1988) e ao operário suburbano de O Fim do Mundo (1993), ambos do realizador João Mário Grilo, para além de um português galerista no telefilme francês L’Absent (1996).

Freguesia do Parque das Nações (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Parque das Nações
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua que pula e avança como bola colorida

   Hoje comemora-se o Dia Nacional da Cultura Científica, em homenagem a Rómulo de Carvalho, já que este era o dia do seu nascimento e, por isso, trazemos a história da rua lisboeta que o guardou na sua memória, na sua faceta de poeta, como António Gedeão.

  O Edital de 11.07.1997, cerca de 5 meses após o seu falecimento, colocou este alfacinha nascido na Sé num antigo Troço da Rua F do Bairro dos Alfinetes, junto à Escola de Ensino Básico 2+3 de Marvila a recordar o seu importante papel de professor e, perto de outros escritores como Dinah Silveira de Queiroz que lá estava desde 1984 e Luís de Sttau Monteiro que lá chegou em 2001.

Vasco Rómulo de Carvalho (Lisboa/24.11.1906 – 19.02.1997/Lisboa) foi um professor, um investigador, um historiador da ciência portuguesa e um poeta, que logo aos 5 anos escreveu os primeiros poemas e aos 10 decidiu completar Os Lusíadas.

Licenciou-se  em Físico-Químicas na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, em 1931 e, no ano seguinte, em Ciências Pedagógicas na Faculdade de Letras de Lisboa e, após estagiar no Liceu Pedro Nunes, dedicou-se durante 40 anos a ser professor e pedagogo, tendo ensinado em Lisboa nos Liceu Camões e Pedro Nunes e em Coimbra, no Liceu D. João III.

Teve um papel importante na divulgação de temas científicos, colaborando em revistas da especialidade e organizando obras no campo da história das ciências e das instituições, como A Actividade Pedagógica da Academia das Ciências de Lisboa nos Séculos XVIII e XIX. Publicou ainda outros estudos, como História da Fundação do Colégio Real dos Nobres de Lisboa (1959), O Sentido Científico em Bocage (1965) e Relações entre Portugal e a Rússia no Século XVIII (1979).

E só em 1956, quando Rómulo de Carvalho já contava 50 anos de idade, é que fez nascer o poeta António Gedeão com a publicação de Movimento Perpétuo, onde podemos encontrar a «Pedra Filosofal» de que Manuel Freire fez canção. Seguiram-se Teatro do Mundo (1958), Máquina de Fogo (1961), Poema para Galileu (1964), Linhas de Força (1967) e ainda Poemas Póstumos (1983) e Novos Poemas Póstumos (1990), tornando visível a simbiose entre a ciência e a poesia, entre a vida e o sonho, entre Rómulo de Carvalho e António Gedeão. Muito dos seus poemas foram musicados logo em 1972, quando José Nisa produziu o álbum “Fala do homem nascido” com 12 poemas cantados por Carlos Mendes, Duarte Mendes, Samuel e Tonicha.

Note-se ainda que em 1990, já com 83 anos, Rómulo de Carvalho assumiu a direção do Museu Maynense da Academia das Ciências de Lisboa, função que desempenhará até ao fim dos seus dias.

Foi galardoado com a Grã Cruz da Ordem Militar de Santiago da Espada, a Medalha de Mérito Cultural do Ministério da Cultura, a Medalha de homenagem do Senado da Universidade Nova de Lisboa, a Medalha da Universidade de Évora e as Insígnias de Grande Oficial da Ordem de Instrução Pública.

Freguesia de Marvila                                                                                      (Foto: Rui Mendes)

Trindade à volta de Alvalade

Placa Tipo IV

Numa rua defronte do Estádio de Alvalade, que liga a Avenida Padre Cruz à Rua Prof. Fernando da Fonseca, está inscrito na toponímia de Lisboa o nome do ciclista Alfredo Trindade, cujo centenário do nascimento se comemora este ano e, que ficou conhecido como uma glória do Sporting Clube de Portugal.

Dá o seu nome às placas daquele arruamento desde a publicação do Edital de 04.02.1993, que o juntou nas ruas de Lisboa ao seu amigo pessoal apesar de rival nas competições, o benfiquista José Maria Nicolau, que desde 09.06.1992 tinha já o seu nome numa rua próxima do Estádio da Luz. E assim se juntaram os 3 ciclistas da toponímia lisboeta, sendo o primeiro Joaquim Agostinho, pelo Edital de 07.09.1987.

Alfredo Trindade (Cartaxo – Valada do Ribatejo/03.01.1912 – 11.10.1977) começou por conduzir éguas na sua terra natal e depois aprendeu o ofício de carpinteiro. A seguir, começou como ciclista individual e, em 1931 ficou em 2º lugar na Volta a Portugal, logo atrás de Nicolau, prova que também ganhou no ano seguinte ao serviço da equipa do União Ciclista Rio de Janeiro, coletividade do Bairro Alto que ganhou o nome pela proximidade à Praça Rio de Janeiro, hoje Praça do Príncipe Real. Aliás, Alfredo Trindade foi o primeiro ciclista a conseguir a vitória em duas Voltas a Portugal consecutivas -1932 e 1933- sendo a segunda já com a camisola leonina, o que deu também ao clube a vitória na competição por equipas, sendo então Trindade sócio nº 3127 do clube de Alvalade. Trindade triunfou num total de 14 etapas da prova rainha do calendário nacional velocipédico, e ainda na Valença-Matosinhos-Valença de 1933, no Campeonato Nacional de Fundo, nas Oito Voltas ao Cartaxo e nas Cinco Voltas a Mafra (todas em 1934), bem como no Porto – Lisboa de 1936.

Alfredo Trindade foi ainda convidado pela Federação Ciclista Brasileira para correr em 3 provas, no Rio de Janeiro e em S. Paulo, tendo-se sagrado o vencedor em todas. Em 1934, esteve também em França para 3 provas e descobriu com surpresa da obrigatoriedade de nesse país ter de rapar os pelos das pernas.

Após a carreira de ciclista ainda foi técnico de ciclismo do Benfica mas, essencialmente, dedicou-se à cultura de vinha, trigo, melões e tomate nas terras que herdara de seu pai. E em 2005, o Sporting distinguiu-o com o Prémio Stromp, na categoria Saudade.

Um fidalgo da Junqueira à esquina do Rossio

O alfacinha D. João Gonçalves Zarco da Câmara (Lisboa/27.12.1852 -02.01.1908/Lisboa) que nasceu e viveu no Palácio sito no nº 66 da Rua da Junqueira – onde mais tarde vão funcionar o Liceu D. João de Castro e  o Rainha D. Amélia –  passou a dar nome ao Largo do Camões, arruamento na confluência da Rua Primeiro de Dezembro,  Praça D. Pedro IV (vulgarmente conhecida como Rossio) e Largo do Regedor, pelo Edital municipal de 17.10.1924.

Esta artéria já era denominada Largo do Camões, pelo menos desde 1858, porque é assim mencionada no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque, tal como em 1895 aparece num projeto municipal para alinhamento do Largo do Regedor e do Largo do Camões visando a ampliação da Caserna do Serviço de Incêndios.

E foi neste arruamento próximo do Teatro D. Maria I que a edilidade decidiu perpetuar como Praça, o nome do dramaturgo D. João da Câmara, com a legenda «Figura Gloriosa do Teatro Português/1852 – 1908», embora o edital de 1924 tenha por lapso mencionado Largo e, durante décadas, se tenha mantido a duplicação de referências, ora como Largo ora como Praça.

D. João da Câmara era engenheiro do caminho-de-ferro com trabalho reconhecido nessa área, nomeadamente na direção da construção da linha de Cárceres, mas também se dedicou com paixão à escrita, sobretudo à de teatro, tendo estreado a sua obra num palco em 19 de dezembro de 1876, no Teatro D. Maria, com a comédia Ao Pé do fogão. As operetas O burro do Sr. Alcaide (1891) e Cocó, reineta e facada (1893) foram dos seus maiores êxitos mas ele ainda escreveu mais cerca de 40 peças das quais se salientam, os dramas históricos D. Afonso VI (1890) e Alcácer Quibir (1891), os dramas realista de costumes Os Velhos (1893), Rosa Enjeitada (1901) e Triste Viuvinha (1897), os dramas simbolistas O Pântano (1894) e Meia-Noite (1900), bem como A Toutinegra Real (1894), O Amigo das mulheres (1896), e Ali-babá (1904). Enquanto escritor publicou também poemas, romances e contos, para além das suas crónicas regulares na revista O Ocidente, através das quais se pode conhecer o ambiente do rotativismo partidário entre regeneradores e progressistas e do governo ditatorial de João Franco

Na sua versatilidade, D. João da Câmara ainda ensinou Arte de Representar no Conservatório de Lisboa e foi pai de 7 filhos.

Madrid numa Avenida de Lisboa

Freguesia do Areeiro (Foto: Artur Matos)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Artur Matos)

Na década de 40 do século XX, passadas que estavam a Exposição dos Centenários, em Belém e, a 2ª Guerra Mundial que trouxe muitos estrangeiros à capital, a Câmara Municipal de Lisboa procurou imprimir algum cosmopolitismo à cidade atribuindo-lhe topónimos de cidades estrangeiras e de personalidades de cariz internacional.

E foi assim que Madrid deu nome a uma avenida de Lisboa, antes conhecida como Rua C dos arruamentos da zona compreendida entre a Alameda Dom Afonso Henriques e a Linha Férrea de Cintura, pelo Edital de 29 de julho de 1948, junto com Paris e Rio de Janeiro em Avenidas e, Londres numa Praça. O mesmo Edital colocou na mesma zona da cidade os cientistas europeus Pasteur, Marconi e o inventor americano Edison, bem como os escritores Cervantes, Vítor Hugo e os brasileiros Afrânio Peixoto e João do Rio. Foi ainda fixado o nome de João XXI numa Avenida, o único papa português e, como tal, uma figura portuguesa de relevo internacional.

Freguesia do Areeiro (Foto: Artur Matos)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Artur Matos)

Santos e Castro numa Avenida da Charneca

Freguesia de Santa Clara – Placa Tipo V              (Foto: José Carlos Batista)

Santos e Castro que foi o 56º Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, entre 1970 e 1972, ficou perpetuado numa avenida da Charneca tendo esta artéria sido escolhida pela Comissão Municipal de Toponímia porque «(…) entre as obras de renovação viária da cidade, realizadas durante o mandato do Engenheiro Santos e Castro, se conta a ligação da Avenida Marechal Craveiro Lopes ao limite do concelho, na freguesia da Charneca, o que lhe granjeou a simpatia da população local (…)».

Assim, pelo Edital de 09.12.1988, o troço da Estrada das Amoreiras, compreendido entre a Avenida Marechal Craveiro Lopes e o Campo das Amoreiras passou a designar-se Avenida Santos e Castro, para homenagear Fernando Augusto Santos e Castro (Funchal/20.07.1922 – 10.11.1983/Lisboa).

Engenheiro agrónomo de formação, desempenhou diversas funções administrativas e políticas havendo sido sucessivamente Presidente da Comissão Concelhia de Lisboa da União Nacional, Vice-presidente da Comissão Distrital de Lisboa da União Nacional, procurador à Câmara Corporativa na IX Legislatura, Chefe dos serviços técnicos (1955) e Presidente (1969) da FNPT – Federação Nacional dos Produtores de Trigo, Chefe de gabinete do Secretário de Estado da Agricultura (1958-1961), Chefe da Repartição do Quadro Técnico da Direcção-Geral dos Serviços Agrícolas (1961-1967), deputado à Assembleia Nacional (1965 – 1973), Presidente do Grupo de Trabalho n.º 1 do Secretariado Técnico da Presidência do Conselho, vereador da Câmara Municipal de Lisboa (1968), Presidente da CML (1970-1971) e depois, foi o 120º Governador de Angola (de 10.10. 1972 a 25.04.1974), local onde havia passado parte da infância e da adolescência.

Voltou a Lisboa e também viveu algum tempo no exílio. Refira-se ainda que é pai de José Ribeiro e Castro e, irmão de Gilberto Santos e Castro, co-fundador dos Comandos que, em 1975, em Angola, lutou contra o MPLA combatendo ao lado da FNLA.

Santos e Castro 1º Congresso Luso-brasileiro de Gastroenterologia 1970 Geraldes, João Brito

Santos e Castro a discursar no 1º Congresso Luso-brasileiro de Gastroenterologia, em 1970 (Foto: João Brito Geraldes, Arquivo Municipal de Lisboa)