A Rua José Gomes Ferreira para quem está espantado de existir

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Aquele que no seu Panfleto Mágico ousou avisar  «É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir» – o escritor José Gomes Ferreira -, desde o próprio ano da sua morte que está perpetuado na artéria de Campo de Ourique que liga a  Rua Joshua Benoliel à Avenida Engº Duarte Pacheco.

Falecido a 8 de fevereiro de 1985, José Gomes Ferreira, diplomata, compositor, escritor e poeta recebeu três dias depois da sua morte uma deliberação da edilidade alfacinha para ser um topónimo lisboeta, sendo fixado pelo Edital de dia 21 desse mês no arruamento construído no prolongamento da Rua D. João V, entre a Rua Silva Carvalho e a Avenida Engº Duarte Pacheco, também identificado como Rua A da Urbanização das Amoreiras.

José Gomes Ferreira (Porto/09.06.1900-08.02.1985/Lisboa), nasceu na portuense Rua das Musas, filho do empresário e benemérito Alexandre Ferreira, que chegou a ser vereador republicano na Câmara lisboeta na Primeira República, veio morar para Lisboa aos 4 anos de idade. O seu pai estabeleceu-se no Lumiar e foi quem doou as suas propriedades para a construção da Casa de Repouso dos Inválidos do Comércio. José estudou nos liceus Camões e Gil Vicente e também se dedicou a ser compositor, chegando a ter a sua obra Idílio Rústico estreada pela orquestra de David de Sousa, no Politeama. Em 1919 integrou o Batalhão Académico Republicano e depois de licenciado em Direito em 1924 seguiu carreira como Cônsul de Portugal na Noruega,  em Kristiansund, até 1930.

De regresso a Lisboa colaborou em inúmeras publicações como a Presença, a Seara NovaDescobrimentoGazeta Musical e de Todas as Artes, Imagem,  Ilustração Senhor Doutor,  para além de sob o pseudónimo de  Álvaro Gomes ter traduzido filmes. Em 1945-1946, colaborou com outros poetas neorrealistas no álbum das Heróicas compostas por Fernando Lopes Graça, sendo sua a letra de «Jornada».

Para a sua carreira literária é um marco o dia 8 de maio de 1931 em que de rajada escreveu o poema «Viver sempre também cansa», que João Gaspar Simões fez publicar logo na Presença. Já antes, na juventude, editara os livros de poesia  Lírios do Monte (1919) e Longe (1921) mas foi depois de 1931 que se dedicou ao ofício de ser escritor.  Na escrita poética salientamos do que deu a lume Poesia I (1948), Poesia III (1961) que foi Grande Prémio da Sociedade Portuguesa de Escritores, Poesia V (1973), Poeta Militante I, II e III (1978) com prefácio de Mário Dionísio.Também gravou discos com a sua poesia: Poesia (1969) e Poesia IV (1971) na Philips, Poesia V (1973) na Decca / Valentim de Carvalho e Entrevista 12 – José Gomes Ferreira (1973) na Guilda da Música/Sassetti.

Na prosa, José Gomes Ferreira publicou entre outros, O Mundo dos Outros – histórias e vagabundagens (1950), O Mundo Desabitado (1960),  Os segredos de Lisboa (1962), o panfleto mágico As Aventuras de João Sem Medo (1963) do Plano Nacional de Leitura, os contos Tempo Escandinavo (1969), O Irreal Quotidiano – histórias e invenções (1971), Gaveta de Nuvens – tarefas e tentames literários (1975), O sabor das Trevas – Romance-alegoria (1976), as crónicas Intervenção Sonâmbula (1977), Coleccionador de Absurdos (1978), Caprichos Teatrais (1978) e O Enigma da Árvore Enamorada – Divertimento em forma de Novela quase Policial (1980).  Somou ainda livros de memórias como A Memória das Palavras – ou o gosto de falar de mim (1965) que recebeu o Prémio da Casa da Imprensa, Imitação dos Dias – Diário Inventado (1966), Relatório de Sombras – ou a Memória das Palavras II (1980), Passos Efémeros – Dias Comuns I (1990) ou Dias Comuns – Derrota Pairante (2018).

Como cidadão exerceu funções de Vice-Presidente da Associação Portuguesa de Escritores em 1978 e no ano seguinte,  nas eleições legislativas intercalares, foi candidato da APU- Aliança Povo Unido pelo círculo de Lisboa e no ano de 1980 tornou-se militante do PCP. Nesta cidade, ficou ligado à Rua Heliodoro Salgado assim como às suas moradas na Rua Marquês de Fronteira e na Avenida Rio de Janeiro e na sua vida pessoal, foi pai do arquiteto Raul Hestnes Ferreira e do poeta Alexandre Vargas.

Em 1978 foi agraciado com a atribuição do seu nome à Escola Secundária de Benfica projectada pelo seu filho arquiteto e a CML colocou uma placa evocativa no prédio da sua última morada em 1990, deu o seu nome dado à Mata de Alvalade e no ano do centenário do seu nascimento, através da Videoteca produziu o documentário Um Homem do Tamanho do Século. José Gomes Ferreira recebeu também o grau de Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1981) e da Ordem da Liberdade (1985), a distinção de cidadão de mérito de Odemira (1981) e o seu nome consta também da toponímia dos concelhos do Porto, Almada (Charneca da Caparica, Laranjeiro), Amadora (Reboleira), Barreiro (Lavradio, Santo António da Charneca), Beja, Benavente (Samora Correia), Braga, Cascais (São Domingos de Rana), Coimbra, Entroncamento, Gondomar (Baguim do Monte), Évora, Loures (Santo Antão do Tojal, São João da Talha, Unhos), Moita (Alhos Vedros, Baixa da Banheira, Moita, Vale da Amoreira), Montemor-o-Novo, Montijo, Odivelas (Famões, Póvoa de Santo Adrião), Oeiras (Algés), Portimão, Seixal (Arrentela, Corroios), Sesimbra, Setúbal, Sintra (Agualva-Cacém, Mem Martins), Trofa, Vila Franca de Xira ( Forte da Casa, Póvoa de Santa Iria) e Vila Nova de Gaia.

Freguesia de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O seu poema escrito na noite de 8 de maio de 1931 foi:

Viver sempre também cansa!
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde…
Mas nunca tem a cor inesperada.
O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exacto.
Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida…
E obrigam-me a viver até à Morte!
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois, achando tudo mais novo?
Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
“Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela.”
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo…

 

Anúncios

O compositor teatral Wenceslau Pinto numa Rua de Santa Clara

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC/ Planta: Sérgio Dias| NT do DPC) )

Compositor sobretudo de teatro, maestro e professor, Wenceslau Pinto está desde 2008 como topónimo da Rua que liga a Rua Maluda à Rua Barata Feyo, na freguesia de Santa Clara, numa zona em que a toponímia comporta nomes de figuras de diversas artes.

A sugestão partiu de António Valdemar, enquanto membro da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa, considerando ser «figura de Lisboa que merece ser assinalada na toponímia da cidade». A concretização nasceu da publicação do Edital municipal de 3 de julho de 2008 na Rua 5 (projetada ao Bairro das Galinheiras), o mesmo que colocou o guitarrista Jaime Santos na Rua 4 e o maestro Carlos Rocha na Rua 6. Cerca de um ano e 3 meses antes, por Edital de 27 de abril de 2007, já haviam sido dados neste bairro os nomes da fadista Berta Cardoso (à Rua 3), do escultor Barata Feyo (Rua 2) e da pintora Maluda (Rua 1).

Refira-se ainda que nas proximidades existe também um núcleo toponímico teatral anterior que através do Edital municipal de 14/07/2004 juntou as Ruas Raul Carvalho, Arnaldo Assis Pacheco, António Vilar, José Viana e Varela Silva aos nomes que ali se fixaram pelo Edital de 19 de abril desse mesmo ano:  a Rua Fernanda Alves e a Rua Fernando Gusmão. Em  2009, por Edital de 16 de setembro, ganhou mais a Rua Artur Ramos e a Avenida Glicínia Quartin.

Wenceslau Pinto (Oliveira do Hospital/1883 – 1973/Lisboa), educado na Casa Pia,  tornou-se maestro e compositor com o curso de Contraponto, Composição e de Oboé do Conservatório Nacional, escola onde foi também professor de Composição de 1919 a 1953. Também  foi docente da Sociedade de Concertos e Escola de Música, na Rua do Alecrim nº 17, como se pode ver na publicidade da época.

Fez parte da primeira equipa escolar de futebol da Casa Pia e começou a sua carreira musical como primeiro-oboísta nas orquestras de Lambertini, Pedro Blanch, Viana da Mota e David de Sousa, tendo sido um dos sócios fundadores da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses (SECTP) em 1925, estrutura presidida por Júlio Dantas.

Ao longo da sua carreira teve a função de diretor musical de várias companhias teatrais ( como as de Taveira, de Luís Galhardo, de Estêvão Amarante ou de Armando de Vasconcelos), assim como regeu a Orquestra Sinfónica Popular da Emissora Nacional. Wenceslau Pinto compôs sinfonias, quartetos, canções para piano e canto, o quadro sinfónico Fandango, o poema sinfónico 1140 ou o auto Nun’Álvares, bem como inúmeras operetas de que se destacam Pérola Negra (1922), Poço do Bispo, Onze Mil Virgens, Flor do Bairro ou El-Rei Soviet. Também musicou comédias e teatro de revista e ainda escreveu música para os seguintes filmes: Mademoiselle Écran (1919), A Revolução de Maio (1937), Viagem de Sua Excelência o Presidente da República a Angola (1939), Feitiço do Império (1940) com Jaime Silva Filho e algumas canções para Rapsódia Portuguesa (1959).

No fado, ainda hoje se recordam êxitos seus, em conjunto com Raúl Portela e Alves Coelho, concebidos para o teatro, como o Fado do Bairro Alto e o Fado das Iscas (1927), criados para a  opereta Bairro Alto. Para o Parque Mayer produziu o Fado Culinário, tema de autoria partilhada com Álvaro Santos, António Lopes, Lopo Lauer, Gustavo Matos Sequeira e Lino Ferreira. Wenceslau Pinto concebeu ainda três fados que foram grandes sucessos: o Fado Ganga – que esteve proibido de passar na Emissora Nacional -, o Fado Maioral e o Fado Pão de Ló para o vaudeville homónimo.

Por último, recorde-se a sua colaboração com a Câmara Municipal de Lisboa, particularmente nos anos de 1961 e 1962, em que a edilidade lhe comprou a partitura O Aqueduto das Águas Livres e outros temas relacionados com a cidade e Wenceslau Pinto regeu alguns concertos da Orquestra Filarmónica de Lisboa, no Pavilhão dos Desportos.

Freguesia de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Largo de Lambertini, o homem dos 7 ofícios musicais

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Largo Michel’Angelo Lambertini homenageia na freguesia do Lumiar o homem dos 7 ofícios na arte musical – pianista, maestro e compositor, musicólogo e organizador de eventos, professor de canto, editor e comerciante de instrumentos musicais -,  assim existindo desde a publicação do Edital municipal de 17 de março de 2017 no largo interior formado entre a Alameda das Linhas de Torres, a Rua Luís de Freitas Branco e a Rua Virgínia Vitorino, a partir de uma sugestão de Miguel Lambertini Gouveia à Autarquia lisboeta.

O Occidente, 20 de novembro de 1907

Michel’Angelo Lambertini (Porto/14.04.1862 – 21.12.1920/Lisboa) foi um pianista, maestro e compositor, musicógrafo e organizador de eventos, professor de canto coral, além de editor da revista A Arte Musical e ainda, comerciante lisboeta de fabrico e revenda de instrumentos musicais.

Neto do compositor e construtor de pianos Luiz Joaquin Lambertini  – que veio para Lisboa em 1864 e montou a sua 1ª fábrica no Palacete do então Largo de São Roque [hoje Largo Trindade Coelho] à esquina da Travessa da Queimada – começou a estudar piano aos 6 anos no Conservatório. Concluiu os cursos de Piano (1879) e de Harmonia e Contraponto (1881) no Real Conservatório de Lisboa, bem como o Instituto Comercial e o Liceu.

O seu grande sonho foi criar um Museu Instrumental em Lisboa. Recomendado por vultos da I República como José Relvas,  foi incumbido por portaria de 22/12/1911  da recolha e ordenação dos instrumentos musicais que encontrasse em edifícios públicos ou religiosos, sem quaisquer custos para o Estado e desempenhou essa missão até à sua morte. Dos contributos recebidos ia dando notícia no seu quinzenário A Arte Musical.  A partir de janeiro de 1912, as peças eram colocadas em exíguas salas do Palácio das Necessidades e sobre essa experiência publicou O Museu Instrumental e as minhas relações com o Estado (1913). O seu sonho não esmoreceu e publica Primeiro nucleo de um museu instrumental em Lisboa : catalogo summario (1914) para no ano seguinte, o Decreto nº 1681, de 28 de junho, o instituir no Conservatório e nomeando Lambertini conservador mas que ficou sem execução prática. Assim, num andar do Palácio Quintela da Rua do Alecrim, instalou e dirigiu o Museu Instrumental Português, com cerca de cinco centenas de peças. A partir de 1929 o espólio do Museu Instrumental foi sendo adquirido pelo Conservatório Nacional e é deste modo que a herança de Lambertini , através de inúmeras vicissitudes, passa a ser uma parte considerável do atual acervo do Museu Nacional da Música, na Estação do Metropolitano dos Altos do Moinhos, em Lisboa.

Na cultura portuguesa de finais do século XIX, princípios do século XX, Michel’Angelo Lambertini foi relevante como organizador e animador de eventos musicais e literários, a ponto de Margarida Rebocho Ferreira o classificar como «benemérito  na cultura da música do Portugal dos inícios de novecentos». Foi o promotor da representação Portuguesa à Exposição Musical de Milão de 1881 – tendo conseguido reunir 121 obras-, o fundador da Sociedade de Música de Câmara em 1899 bem como da Grande Orquestra Portuguesa em 1907, para além de ter sido o responsável pela primeira apresentação em Portugal da Filarmónica de Berlim, em 1901.

Lambertini foi o autor do 1ª grande síntese da história musical portuguesa, publicado em 1915, na Encyclopédie de la Musique Et Dictionnaire du Conservatoire, dirigida por Lavignac. No mesmo ano publicou Pela Índia, sobre a música desse país. Já em 1900, editara os 2 volumes do Diccionario Biograhico de Músicos Portuguezes de Ernesto Vieira e  editou e dirigiu a sua revista A Arte Musical fazendo-a publicar de 15 de janeiro 1889 a 31 de dezembro de 1915, sendo que já nos seus 15 anos  havia sido redator da revista musical A Chitara – revista de musica e theatros, sedeada na Rua do Benformoso nº 266.

Em dezembro de 1887, com a morte do seu tio Ermete Lambertini, assumiu com seu pai a gerência da Casa Lambertini & Irmão, então sediada na Praça dos Restauradores nº 43 a 49, detentora do exclusivo da venda de pianos Bechstein para Portugal e fornecedores da Casa Real, desde o alvará de 2 de novembro de 1868. Neste âmbito publicou Annuario musical da Casa Lambertini (1900), As collecções de instrumentos musicos (1913), Indústria instrumental portuguesa (1914).

Michel’angelo Lambertini  foi também professor de canto coral das escolas  municipais centrais nºs 14 e 15, desde 1883 e redigiu o relatório da Comissão para Melhorar o Ensino da Música em Portugal, presidida por Viana da Mota. Foi ainda fundador da Caixa de Socorro a Músicos Pobres e sócio da Academia Marcos de Portugal.

Em Lisboa, vivia no Palacete Lambertini na Avenida da Liberdade, da autoria de Nicola Bigaglia, que foi Menção Honrosa no Prémio Valmor de 1904.

Lambertini foi condecorado como Cavaleiro da Real Ordem Militar de Cristo (1888) e da Coroa de Itália (1896), bem como Comendador da Ordem Militar de Nª Srª da Conceição de Vila Viçosa (1898) e da Ordem de Santiago de Espada (1908) e no 140º aniversário do seu nascimento o Museu Nacional da Música inaugurou uma exposição em sua homenagem.

A Rua do compositor Jorge Croner de Vasconcelos

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

O compositor Jorge Croner de Vasconcelos está perpetuado na toponímia da urbanização da Quinta da Torrinha à Ameixoeira, desde a publicação do  Edital municipal de 1 de fevereiro de 1993, onde deu nome à Rua E, assim como nas Ruas D e B ficaram os compositores Rui Coelho e Constança Capdeville e na Rua projectada à Rua Particular fixou-se o cantor lírico Hugo Casaes.

Jorge Croner de Sant’Ana e Vasconcellos Moniz de Bettencourt (Lisboa/11.04.1910 – 09.12.1974/Lisboa),  oriundo de uma vasta família de músicos e  filho do violinista Alexandre Bettencourt e da pianista Laura Croner, distinguiu-se também na área musical, como pianista,  compositor e professor de música.

Estudou solfejo com a mãe e a partir de 1927, no Conservatório de Lisboa: piano com Alexandre Rey Colaço, composição com Luís de Freitas Branco, António Eduardo da Costa Ferreira, Francisco Lacerda e Eduardo Libório. Com Fernando Lopes Graça, Armando José Fernandes e Pedro do Prado formou o Grupo dos Quatro, com jovens e alunos do Conservatório Nacional de Lisboa, que influenciou a música neoclássica portuguesa na década de trinta do séc. XX.

Croner de Vasconcelos também frequentou Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras de Lisboa e findos os estudos no Conservatório Nacional de Lisboa, em 1934, abalou para Paris, com uma bolsa da Junta de Educação Nacional, para estagiar na École Normale de Musique, até ao verão de 1937: harmonia, contraponto e história da música com Nadia Boulanger; composição, com Paul Dukas, Roger Ducasse e  Igor Stravinsky; piano com Mme Giraud-Latarse; e interpretação, com Alfred Cortot.

Exerceu como docente de História da Música na Academia de Amadores de Música a partir de 1937, assim como a partir do ano seguinte marcou várias gerações no Conservatório Nacional, nas disciplinas de Composição, Canto e História da Música, como Constança Capdeville, Maria de Lourdes Martins, Filipe Pires, Armando Santiago ou Filipe de Sousa. Também deu aulas particulares de Canto e Piano, para além dos  Cursos de Verão do Estoril dos anos sessenta do séc. XX.

Chegou a apresentar-se em recitais internacionais, em Paris, Londres e Bruxelas, em 1939, com a cantora Arminda Correia mas em 1843 abandonou a carreira de pianista. Como compositor produziu algumas obras neoclássicas muito importantes, de música dramática, coral e sinfónica, muitas delas compostas a partir de textos de poetas clássicos da Literatura Portuguesa – como Comigo me desavim de 1938 ou Erros Meus de 1972 -, misturando modalismo e cromatismo, mostrando evidentes raízes na música portuguesa de Carlos Seixas, para a qual fez  um repertório para piano e arranjos para diversas peças, como Três Tocatas a Seixas  de 1942. Criou também obras de música sinfónica para o Secretariado Nacional de Informação (SNI) nas décadas de quarenta e cinquenta e os Oito Cantos de Natal no seu último ano de vida.

Jorge Croner de Vasconcelos está também na toponímia da Charneca da Caparica (Almada) e de Corroios (Seixal).

Freguesia de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

A Rua do autor do Hino da Maria da Fonte, Ângelo Frondoni

Freguesia de Belém
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Com a legenda «Autor do Hino da Maria da Fonte/1812 – 1891» nasceu a Rua Ângelo Frondoni em Belém, no arruamento de ligação entre a Rua Conselheiro Martins de Carvalho e a Rua Nuno de Bragança, por via da publicação do Edital municipal de 3 de maio de 1989, a partir de uma sugestão de Eduardo António da Costa Soares dirigida à edilidade lisboeta.

O Palco – Revista Teatral, 5 de maio de 1912

O cidadão italiano Angelo Frondoni (Itália-Parma/26.02.1812 – 04.06.1891/Lisboa), radicou-se no nosso país no ano de 1838, com cerca de 26 anos, quando veio para Portugal para ser maestro do Teatro de S. Carlos, contratado pelo 1.º Conde de Farrobo, Joaquim Pedro Quintela. As suas primeiras composições em Portugal foram dois bailados – A Ilha dos Portentos e A Volta de Pedro o Grande de Moscovo – exibidos em 1839.

O seu sucesso como compositor proveio das operetas e revistas populares. No Teatro da Rua dos Condes alcançou muito êxito com a farsa O Beijo, estreada em 26 de novembro de 1844, tendo a música sido publicada pelo editor Sassetti dada a sua grande popularidade.

Mas o que tornou Ângelo Frondoni mais famoso foi em 1846 ter composto  o Hino do Minho, com letra de Paulo Midosie, que ficou conhecido popularmente como Hino da Maria da Fonte. Esta música patriótica teve larga divulgação e chegou mesmo a ser aceite nos últimos tempos da Monarquia quase como um hino nacional. No entanto, como era contra o Cabralismo e Cartismo e tinha enorme popularidade, o governo de Costa Cabral, proibiu-a. Na sequência da Revolução da Maria de Fonte, Costa Cabral havia sido demitido em 20 de maio de 1846 e exilou-se em Espanha, mas D. Maria II que sempre o apoiou voltou a nomeá-lo para governar o país em 18 de junho de 1849 ( e durou até  1 de Maio de 1851). Ângelo Frondoni teve dissabores nesses anos, a ponto de se ver obrigado a esconder-se para não ser preso e, ao contrário do que fazia com outros artistas, D. Maria II nunca o recebeu no Paço Real.

O Conde de Farrobo que sempre estimou Frondoni,  encomendou-lhe então uma opereta para o Teatro das Laranjeiras, Mademoiselle de Mérange, em francês,  que se cantou a 11 de junho de 1847. Dedicou-se também a ser professor de Canto, para além de escrever música para muitas comédias e dramas, tendo mesmo dirigido uma companhia de ópera-cómica italiana que em 1859 se organizou no Teatro D. Fernando.  Quando se construiu o Teatro da Trindade, Francisco Palha quis explorar a ópera cómica burlesca e chamou Frondoni para maestro, onde trabalhou desde O Barba Azul de 1868 até 1873. Também para o próximo Ginásio musicou o drama Evangelho em acção (1870) e na época de 1873/74 voltou para o São Carlos, como  maestro, para em 1874 apresentar a ópera burlesca O filho da senhora Angot, no Teatro do Príncipe Real.

Ângelo Frondoni também se empenhou em difundir o canto coral, para o que publicou artigos em jornais, solicitou ajuda a pessoas importantes e das sociedades de canto coral de Paris e da Bélgica e abriu até um curso gratuito, tentando concretizar a ideia sem sucesso, em Lisboa e depois, no Porto.

Interessado em literatura publicou dois  folhetins na Revolução de Setembro – Da Poética em música ( 1854 ) e Efeitos de música (1867)-,  um soneto em italiano à memória de D. Pedro V (1861) na Revista Contemporânea e a composição para canto Camões e o Jau, a partir de fragmentos de poesia de António Feliciano de Castilho, elaborada por ocasião das festas do centenário de Camões de 1880.

O nome de Frondoni está também na toponímia da Póvoa do Lanhoso – onde começou a Revolução da Maria da Fonte –  e da cidade do Porto.

Freguesia de Belém
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua do multifacetado David de Sousa

Freguesias do Areeiro e de Alvalade
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

O multifacetado músico David de Sousa – violoncelista, maestro e compositor-, que faleceu prematuramente vítima da gripe pneumónica de 1918, dá o seu nome à artéria que liga a Avenida Óscar Monteiro Torres à Rua João Villaret, desde a publicação do Edital municipal de 12 de março de 1932, na que era a Rua D do projeto ao Campo Pequeno e aprovado em sessão de câmara de 30 de março de 1923.

Freguesias do Areeiro e de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O figueirense David de Souza (Figueira da Foz/06.05.1880 – 03.10.1918/Figueira da Foz), filho de Maria Leonor Marques de Figueiredo e de Mariano Augusto dos Reis Souza,  iniciou-se aos 9 anos  no solfejo e no canto, em Lisboa,  na Escola da Sé Patriarcal, sendo que aos 20 já completara o curso de violoncelo do Conservatório de Lisboa, onde entrara em 1895/96, tendo sido discípulo de Eduardo Wagner e de Cunha e Silva, tal como foi aluno de Freitas Gazul em teoria musical.  A partir de 1904 e até 1908, como bolseiro do estado, prosseguiu os estudos no Conservatório de Leipzig, na Alemanha.

Entre 1908 e 1910, surgiu como violoncelista de orquestra em Inglaterra, França, na Alemanha, na Áustria Imperial e na Rússia, sendo solista na Orquestra de Concertos Históricos de Moscovo e será aqui que começará a gerar o seu primeiro êxito como compositor, a Rapsódia Eslava de 1908. Em 1911, regressou a Londres, que repetirá mais tarde,  em 1914 e 1917, para exercer quer como solista quer como maestro.

Em Lisboa está em 1913, para se estrear como diretor de orquestra  no Teatro Nacional (no dia 19 de outubro). No ano seguinte é contratado como maestro titular da Orquestra Sinfónica Portuguesa, sediada no Politeama, que regeu até à sua morte, tendo ficado famosas os seus concertos das tardes de domingo. David de Sousa interpretou pela primeira vez em Portugal peças como a Segunda Sinfonia de Vincent D’Indy, as Valsas Nobres e Sentimentais de Maurice Ravel ou o poema sinfónico de Luís de Freitas Branco intitulado Depois de uma leitura de Antero de Quental. Apaixonado pela música russa, revelou igualmente ao público português, inúmeras obras dos compositores daquele país.

Como compositor a sua obra revelou-se eminentemente nacionalista, englobando composições para piano, canto e piano, violino e piano ou violoncelo e piano, poemas sinfónicos, obras para orquestra, das quais se destacam a já referida Rapsódia Eslava, bem como a Rapsódia Cantares Portugueses, o Intermezzo Saudade ou o poema sinfónico Babilónia, para além de ter deixado inédita a sua ópera Inês de Castro. David de Sousa exerceu ainda como professor de Violoncelo e da classe de Orquestra do Conservatório Nacional, a partir do ano letivo de 1915/16.

Faleceu aos 38 anos, em 1918, vítima da pneumónica que nesse ano fustigou Portugal, e está perpetuado também no nome de um Coro da Figueira da Foz ebem como na toponímia da Figueira da Foz e de Corroios.

A Rua do compositor Rui Coelho na antiga Quinta da Torrinha

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

O compositor Rui Coelho, pioneiro da música portuguesa para bailado, é o topónimo da Rua D da Quinta da Torrinha à Ameixoeira, com a legenda «Maestro e Compositor/1889-1986», desde a publicação do Edital municipal de 1 de fevereiro de 1993.

Nos arruamentos da antiga Quinta da Torrinha, a edilidade consagrou pelo mesmo Edital mais 4 figuras ligadas ao mundo das artes e da música com a  Rua Brunilde Júdice (Rua C), a Rua Constança Capdeville (Rua B), a Rua Hugo Casaes (Rua Projetada à Rua Particular) e a Rua Jorge Croner de Vasconcelos (Rua E).

Rui Coelho na Ilustração Portuguesa de 20 de novembro de 1911

Ruy Coelho (Alcácer do Sal/03.03.1889 – 05.05.1986/Lisboa) fez carreira como compositor, maestro, autor de bailados e óperas, pianista de mérito, produtor de música coral e música para cinema, bem como de crítico musical. Filho do barqueiro Manoel Coelho e da empregada doméstica Adelaide Augusta Costa, teve 4 irmãos e começou os seus estudos musicais por volta dos 10 anos, na Sociedade Filarmónica Progresso Matos Galamba, a tocar flautim e bombo, tendo então nesses anos trabalhado numa mercearia, na apanha da azeitona e como ajudante de seu pai.

Pessoas como os padres Francisco de Mattos Galamba e José Lopes Manso ajudaram-no a poder estudar no Conservatório Nacional de Lisboa. Até ao ano letivo de 1908/1909 frequentou os cursos de Flauta, de Piano, de Harmonia, de Contraponto e  de Composição, tendo sido aluno de Júlio Neuparth, António Eduardo da Costa Ferreira ou Tomás Borba. Em paralelo, era pianista num café-restaurante do Cais Sodré e vivia na Rua da Infância (é a Rua da Voz do Operário desde 1915), para além de ter criado amizade com Alexandre Rey Colaço, de quem foi aluno de piano, em aulas particulares e gratuitas. A primeira apresentação pública de composições suas ocorreu na festa do Conservatório de 25 de outubro de 1907 e a segunda, em que dirigiu peças de orquestra, em 1 de abril de 1908.

Graças ao empresário e violinista amador Jorge Yerosch, proprietário de um estabelecimento comercial em Lisboa, estudou em Berlim, de 1909 a 1913, sob a influência de E. Humperdinck, Max Bruch, A. Schoenberg, e nessa cidade ficou também amigo do barítono Francisco d’Andrade.  Dessa época ficou ainda a partitura de uma dança para orquestra, a  sonata de feição romântica Bouquet (que só estreará em Portugal em 1924, num serão da revista Contemporânea, a anteceder a conferência A Idade do Jazz-Band de António Ferro ) e cerca de 1910, Intermezzo,  Si je vous disais, um trio para violino, violoncelo e piano dedicado a Richard Strauss e vários Lieder, para além da partitura do bailado A princesa dos sapatos de ferro (1912) que estreou em 1918 no Teatro São Carlos, tal como o seu  Bailado do Encantamento, já que no regresso a Portugal se aproximou da geração da revista Orpheu, nomeadamente colaborando com Almada Negreiros e José Pacheco em diversos bailados.

Ruy Coelho produziu composições de timbre patriótico, com evocações historicistas e óperas cantadas em português – no que foi apoiado pelo tenor alentejano Tomás Alcaide -, sendo também o autor do hino da cidade de Lisboa ou do famoso fado de Coimbra O Beijo, musicando o poema de Afonso Lopes Vieira que a interpretação de António Menano popularizou. Destaque-se ainda a sua Sinfonia Camoniana nº 1 (1913), a ópera Serão da Infanta (1913) com libreto de Teófilo de Braga, a ópera D. João IV para as Comemorações dos Centenários de 1940 com libreto de João da Silva Tavares ou a oratória Fátima. A sua Ópera Belkiss foi galardoada com o 1º Prémio no Concurso Oficial de Espanha (1924). Realcem-se ainda as suas sinfonias Petite Symphonie n.º 1 (1927) e n.º 2 (1932), a Sinfonia Camoniana nº 5 por encomenda da cidade de S. Paulo, a Sinfonia d’Além-mar (1968), bem como a ópera-declamação-ballet-mímica Orfeu em Lisboa (1966) em três atos, a ópera sobre poema de Charles Oulmont La belle dame qui n’as pas peché (1970) e a Auto da Barca da Glória (1971).

Em 1934, fundou a Ação Nacional de Ópera, organização semi-oficial do regime, que serviu essencialmente para a divulgação da sua própria obra, se somarmos que entre 1947 e 1969, o Teatro São Carlos assistiu a 15 produções das suas óperas. Como maestro, dirigiu a Orquestra da Emissora de Berlim em 1939 e a Orquestra Filarmónica de Berlim, no Coliseu de Lisboa, em 1942, assim como em 1946 regeu a Orquestra da Rádio de Espanha, em Madrid e em 1949, a Orquestra Colonne, na Sala Gavean (Paris).

No cinema, refiram-se as banas sonoras que fez para Ala-Arriba! (1942) e Camões (1946), ambos de Leitão de Barros. Em 1948, começou a trabalhar no Gabinete de Estudos Musicais da Emissora Nacional, onde executou a sua 2ª Sinfonia Camoniana, bem como a 3ª em 1951. Em 1960, Ruy Coelho também dirigiu a Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, nos Estúdios Valentim de Carvalho, em Paço d’Arcos.

Exibiu as suas obras por todo o país, levando a música erudita a locais tão improváveis na época como Amadora, Almada, Aveiro, Alcácer, Beja, Covilhã, Évora, Funchal, Santarém, e tantos outros, fazendo o mesmo em vários países europeus e sul-americanos, para além de ter levado em 1959, as primeiras companhias portuguesas de Ópera a Paris, e a Madrid, em 1961.

O seu nome integra também a toponímia da sua terra natal, da Charneca da Caparica e de Sesimbra.

Rui Coelho na Atlântida N.º 32, 1918

Raúl Portela, do fado Lisboa Antiga, numa Rua do Alto do Chapeleiro

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Na Urbanização do Alto do Chapeleiro nasceu em 1991 a Rua Raúl Portela, na Rua E, com a legenda «Compositor Musical/1889 – 1942», através do Edital de 28 de agosto de 1991, por sugestão de Luiz Francisco Rebello enquanto membro da Comissão Municipal de Toponímia.

O mesmo Edital também guardou na Rua A a memória do lugar com a Rua do Alto do Chapeleiro, bem como na Rua B colocou o «Homem de Letras» Norberto Lopes; na C o poeta António Botto e na D o dramaturgo Carlos Amaro.

Raúl Portela Santos (Lisboa/1889 – 20.08.1942/Caxias) fez os seus estudos no Reformatório Central de Lisboa em  Caxias, onde acabou por aos 20 anos ser o professor e o maestro da Banda. Também ensaiou os coros da Tutoria da Infância e foi regente da Banda do Grémio Literário e do Orfeão de Vila Franca de Xira,  dos Bombeiros de Paço de Arcos, entre outras.

Na música ligeira foi o autor de canções que se tornaram clássicos como o fado-marcha Lisboa Antiga, com letra de José Galhardo e Amadeu do Vale, estreada por Hermínia Silva em 1932, na revista Pirilau, no Teatro Politeama, mas também interpretada por Amália Rodrigues (1953) e que ao ser incluída no filme Lisbon (1956) pela voz de Anita Guerreiro contribuiu para o sucesso internacional do tema, sendo que a versão instrumental de Nelson Riddle (1955) já havia sido n.º 1 nos E.U.A. e permaneceu 24 semanas no Top, a que seguiram inúmeras versões internacionais como a de Carlos Galhardo (1956), Gloria Lasso (1957), Ray Conniff (1961) ou Los Indios Tabajaras  (1965).

Foram também sucessos de Raúl Portela a Triste Feia por Zulmira Miranda, nos anos vinte do séc. XX, para a revista Tic Tac ou o fado-fox-trot Nota Falsa (1925) para a revista Rataplan, sendo um dos mais prestigiados compositores da época, em paralelo com Frederico Valério, Raúl Ferrão ou Frederico de Freitas, sendo o autor do Fado Magala, e dos fados Perna de Pau ou Bagdad.

Refira-se também  a música que produziu para filmes: algumas canções para Bocage (1936), de Leitão de Barros com argumento de Rocha Martins;  a banda sonora do filme As Três Graças (1937) – a versão espanhola do filme Bocage -por Leitão de Barros; o fado do Zé Ninguém e outras canções para o filme Maria Papoila (1937), de Leitão de Barros; a música de Aldeia da Roupa Branca (1938), com letra de Ramada Curto para o filme homónimo de Chianca de Garcia, à excepção de dois fados; e toda a banda sonora de  O Pai Tirano (1941), de António Lopes Ribeiro, com Fernando Carvalho. Também, em parceria com Raúl Ferrão, fez os sucessos Coimbra é uma lição, assim como A Canção de Lisboa ou Fado do Estudante (1932), para o filme de Cottineli Telmo.

Raúl Portela foi pai de Hermes Portela em 1917 e faz parte também da toponímia de Caxias.

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

O maestro jorgense Francisco Lacerda numa rua de Campo de Ourique

Freguesia de Campo de Ourique                                                     (Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Francisco Lacerda, o maestro açoriano da Ilha de São Jorge, que fora discípulo do maestro Freitas Gazul,  voltou a juntar-se ao seu mestre na toponímia de Campo de Ourique ao passar o ser o topónimo da Rua Projetada à Rua Freitas Gazul, pelo Edital municipal de 1 de agosto de 2005.

Freguesia de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Francisco Inácio da Silveira de Sousa Pereira Forjaz de Lacerda (Ilha de S. Jorge – Ribeira Seca/11.05.1869 -18.06.1934/Lisboa) recebeu a primeiras lições de música de seu pai, João Caetano Pereira de Sousa e Lacerda, aos 4 anos e construiu-se como um compositor e musicólogo que veio a ser o primeiro chefe de orquestra português a alcançar renome internacional, trabalhando em França e na Suíça.

Já em 1886, na Terceira, onde frequentava o Liceu, compôs a mazurka Uma Garrafa de Cerveja, dedicada ao amigo Luiz da Costa e nesse mesmo ano passou a  residir na cidade do Porto, para frequentar o curso de Medicina. Ao mesmo tempo, fazia estudos musicais com António Maria Soller, que o aconselhou a estudar no Conservatório de Lisboa e ele assim procedeu,  tendo sido aluno de Freitas Gazul e logo no ano de conclusão do seu curso, sido professor dessa escola de artes, de 1891 a 1895, sendo nesse último ano que partiu para Paris, como bolseiro da Coroa (foi a 1ª bolsa oficial de música em Portugal), para se aperfeiçoar no Conservatório e depois na então nova Schola Cantorum, em piano, órgão e composição, onde se tornou discípulo e também amigo de Vincent d’Indy que o incentivou a revelar a sua vocação para chefe de orquestra em 1900 e o escolheu para seu substituto na classe de orquestra, sendo inegável  a influência da escola francesa nas suas composições e no seu estilo de direção musical.

De 1904 a 1913, dirigiu concertos em França, nomeadamente, no Casino de La Baule e no Kursaal de Montreux, sendo o primeiro chefe de orquestra português a alcançar renome internacional. Por isso, foi a sua obra escassa como compositor, mesmo que de alta qualidade e dela se destacam os poemas para orquestra Almourol, Alcácer e Epitáfio para um Herói, as Trovas para canto e piano ou orquestra, a música de cena para A Intrusa de Maeterlinck, os bailados Danse du voile e Três Danças Rítmicas,  peças para órgão, piano, guitarra, trios e quartetos de cordas ou Anteriana, Trente Six Histoires e Petites histoires pour amuser l’enfant d’un artiste, bem como a Canção do Berço para o Centenário do Nascimento de Almeida Garrett (1899).

Consideremos ainda Francisco de Lacerda como professor de direção de orquestra;  fundador em 1905 da Association des Concerts Historiques de Nantes, que dirigiu até 1908;  estudioso do folclore que se dedicou  à recolha de música tradicional açoriana (em 1899-1900 e de 1913 a 1921); bem como quando viveu em Lisboa a partir de 1921, foi conferencista e fundador  de Uma Hora de Arte (1922) dedicada aos operários, assim como no ano seguinte da Pró-arte, com Eugénio de Castro, Afonso Lopes Vieira, Carlos Malheiro Dias e Raúl Lino, bem como da  Filarmónica de Lisboa que se apresentou em concertos em Lisboa e no Porto. Regressou a França  entre 1925 e 1928, para voltar a dirigir os Grands Concerts Classiques de Marseille e ser chefe de orquestra em Paris, Marselha, Nantes, Toulouse e Angers.

Impedido de reger por motivos de saúde (tuberculose pulmonar), voltou a Lisboa em 1928, onde organizou as iniciativas musicais da representação portuguesa na Exposição Ibero-Americana de Sevilha de 1929, para além de se dedicar à composição, ao estudo do folclore e da música antiga portuguesa, tendo o resultado das suas recolhas pelo país sido publicado postumamente como Cancioneiro Musical Português. Quando buscou cura nos ares da Madeira ainda presidiu à Comissão das Festas da Cidade do Funchal (1932).

Foi agraciado com o 1º  prémio da Revue Musical (1904) pela Danse du Voile; Ordre National de la Légion d’ Honneur (1905); como Oficial da Ordem de Santiago (1910) e a Medalha de Serviços Distintos da Cruz Vermelha (1920) pelos serviços prestados «na grippe pneumonica de 1918» na ilha de S. Jorge.

O seu nome está presente num Museu açoriano da sua ilha natal, desde 1991, assim como também na toponímia da Calheta e na de Velas (São Jorge), assim como na de Alhos Vedros.

Música – Revista de Artes, 1 de setembro de 1924

A Rua do flautista e compositor sacro Dom Pedro Cristo

Freguesia de Alvalade
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Domingos de seu nome secular, Dom Pedro de Cristo por escolha, exímio flautista e compositor sacro coimbrão da passagem do séc. XVI para o XVII, quando o Mosteiro de Santa Cruz era um centro de produção musical, cujo 4º centenário da morte passa este ano, está homenageado numa Rua de Alvalade desde a publicação do Edital municipal de 14 de junho de 1950.

Era a Rua 36 do Sítio de Alvalade situada na confluência das Ruas Domingos Bomtempo e Filipe de Magalhães, ambos compositores, tanto mais que a Câmara alfacinha colocou pelo mesmo Edital de 1950 mais 7 topónimos de músicos no Bairro: Rua Alexandre Rey Colaço (Rua 35), Rua Carlos de Seixas (Rua 38), Rua Domingos Bomtempo (Rua 37), Rua Duarte Lobo (Rua 34-A), Rua Filipe Magalhães (Rua 40), Rua Frei Manuel Cardoso (Rua 34) e Rua Viana da Mota (Rua 35-A).

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

De seu nome Domingos (Coimbra/c. 1545 a 1551 – 16.12.1618/Coimbra) e filho de António Nunes e Isabel Pires, ao tomar o hábito  de monge de Santo Agostinho em 4 de setembro de 1571 escolheu ser Pedro de Cristo. Destacou-se como um excelente executante de flauta e de fagote renascentista, assim como de harpa e ainda um celebrado cantor e professor de música.  Foi o mais célebre compositor de música sacra do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra e mestre de capela a partir de 1597. Produziu vasta obra vocal polifónica de 3 a 6 vozes, com motetos, responsórios, salmos, missas, hinos, paixões, lamentações, cânticos e vilancicos espirituais (denominados chansonetas no Mosteiro). As suas obras conservam todo o elevado sentido espiritual da oração cantada mas moldada na polifonia do Renascimento. Permaneceu também algum tempo no mosteiro-irmão de São Vicente de Fora, em Lisboa. Quando faleceu era cantor-mor do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, cargo em que sucedera a D. Francisco Castelhano.

Existe em Coimbra um Coro com o seu nome desde 1970 e também integra a toponímia de Coimbra e de Fernão Ferro.

A Rua Dom Pedro de Cristo em 1961
(Foto: Artur João Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)