Pote de Água: do sítio à Travessa, passando pelo Largo

Travessa do Pote de Água – Freguesia de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Sítio do Pote de Água deu nome a uma Quinta, destruída pelo terramoto de 1755, para no séc. XX, nos anos sessenta, o nome voltar ao local, primeiro num Largo e depois numa Travessa.

A partir de um pedido do serviço municipal de Escrivania para atribuição de topónimo ao arruamento que ligava o Largo João Vaz à Avenida do Brasil foi atribuída a Travessa do Pote de Água, pela publicação do Edital municipal de 23 de maio de 1969.  Nas proximidades já estava, desde a publicação do Edital de 21 de dezembro de 1960, o Largo do Pote de Água.

Na segunda metade do séc. XVIII encontramos em memórias paroquiais várias referências ao Pote de Água e aos proprietários da Quinta do mesmo nome. Na descrição da Freguesia de Santo André, sabemos que «pela Estrada da Charneca athé a Quinta do Pote de Agoa inclusive, q hoje he de Joseph Antonio Ferreira», esclarecendo ainda que a Quinta «foi dos Padres Jezuitas». Na descrição de 1758, da freguesia do Campo Grande, volta ser referida a Quinta do Pote de Água: «No citio do Pote de Agoa, e Calvanas a [ermida] da Senhora Santa Anna na Quinta do Dr. Joachim Pereira da Sylva Leal hoje demolida por cauza do terramoto (…).»

Também no século XIX, encontramos em documento municipais a menção à construção do  lanço do Campo Grande ao Pote de Água na estrada do Campo Grande aos Olivais (1878-1896), bem como à reparação da Estrada da Charneca desde o Pote de Água até ao lugar da Charneca (1889).

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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Da Estrada para Carnaxide até à Rua da Buraca

Freguesia de Benfica
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A partir do séc. XVIII a freguesia de Benfica ganhou novos lugares com os nomes de Buraca, Alfarrobeira, Borel, Calhau, Feiteira, Pedralvas, Porcalhota, Venda Nova e desse lugar da Buraca nascerá em 1954 a Rua da Buraca.

Este arruamento antigo era vulgarmente conhecido por Estrada para Carnaxide. Após a implantação da República, o Edital municipal de 14/05/1917 denominou-a Avenida 14 de Maio, em homenagem à revolta ocorrida dois antes em Lisboa, levada a cabo por um conjunto de militares numa tentativa de reposição da Constituição de 1911, tendo Manuel de Arriaga demitido-se da presidência da República. Vinte anos mais tarde, o Edital de 19/08/1937 alterou a designação de Avenida 14 de Maio para Avenida Coronel Galhardo; porém, a abertura de novos arruamentos em 1954 no Vale Escuro proporcionou uma oportunidade de homenagem conjunta a diversos militares e o topónimo migrou para lá, para a «Avenida debaixo da ponte», como Avenida Coronel Eduardo Galhardo, sendo a artéria da freguesia de Benfica crismada então como Rua da Buraca, a ligar a Estrada da Circunvalação à Estrada da Buraca, tudo pela publicação do Edital de 23 de março de 1954.

O sítio da Buraca originou também na freguesia de Benfica a Estrada da Buraca, topónimo referenciado desde a 2ª metade do séc. XVIII por aí terem adquirido uns chãos Pedro Caetano Brum Pimentel e D. Mariana Catarina de Pastori, propriedade esta que em 1873 estava na posse de José Maria Pastori e já era conhecida por Quinta da Buraca ou Quinta do Bom Pastor. Também foi esta Estrada da Buraca que em 1771 recebeu um chafariz abastecido pelo Aqueduto das Águas Livres da autoria de Reinaldo Manuel dos Santos.

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Da Praça da Alegria à Praça do Suplício

Praça da Alegria e Jardim Alfredo Keil – Freguesia de Santo António
(Foto: Artur Matos)

A Cotovia foi um termo usado até ao séc. XVIII para designar a cumeada desde a Rua D. Pedro V até ao Largo do Rato assim como a Cotovia de Baixo passou a ser sítio da Alegria, tendo a sua Praça da Alegria sido também um Campo de Forca que por algum tempo a população denominou como Praça do Suplício.

O olisipógrafo Norberto de Araújo recorda que esta Praça da Alegria também foi conhecida como Praça do Suplício durante uns três anos, após ter sido lá enforcada Isabel Xavier Clesse, em 31 de março de 1771. O marido da enforcada, Tomaz Goilão, viajou para a Índia e ela passou esse tempo a viver com um porta-bandeira e quando o marido regressou, envenenou-o com ácido nítrico.

Também na Cotovia de Cima, onde em 1756 fora inaugurada a Basílica Patriarcal que acabou destruída por fogo posto em 1769, teve o culpado do incêndio, um tal Alexandre Vicente, a pena de ser  garrotado e queimado vivo no local.

Sobre a origem deste topónimo Norberto de Araújo sugeriu que o sítio da Alegria era a antiga Patriarcal Queimada ou Praça do Príncipe Real de hoje, que se prolongava até ao Rato: «Ora vamos ver – a Alegria, sítio a-par da velha Cotovia de Baixo (a Cotovia de Cima, ou simplesmente a “Cotovia” era a actual Praça do Rio de Janeiro [hoje Praça do Príncipe Real], em prolongamento até o sítio do Rato). » Por documentos que referem a praça da Alegria de Cima e a praça da Alegria de Baixo ligadas por uma rampa, podemos mesmo considerar viável que a de Cima fosse a do Príncipe Real e a de Baixo, a da Alegria. Na primeira metade do século XVIII esta zona era ainda um local de terrenos de cultivo, conforme também esclarece o mesmo olisipógrafo: «(…) Repizo que na primeira metade do século XVIII tudo por aqui eram terrenos de cultivo, abaixo da quinta ou da cêrca dos Padres da Companhia (Jardim Botânico de hoje), ligados a S. José, razão porque esta zona arrabaldina se chamou também Cotovia de S. José. (Para se entender isto melhor é preciso fechar os olhos, e não ver a Avenida actual)». Depois do Terramoto de 1755 é que as populações se sentiram atraídas para esta área descampada e pouco povoada: «A Alegria, pois, é posterior ao Terramoto; (…) Com a construção e desenvolvimento do Passeio Público, cresceu a Alegria; com a abertura da Avenida tornou-se de maioridade». A partir de 1773 passou a realizar-se na Cotovia de Baixo, ou Alegria, a Feira da Alegria, sendo de 9 de fevereiro o aviso do Marquês de Pombal ao Senado municipal para que ordene a transferência das vendedeiras do Rossio e do Largo de São Domingos para a Praça da Alegria e aí se foi realizando até 1882.

No final do séc. XVII, de 1792 a 1796, encontram-se vários requerimentos de indivíduos que querem ser aguadeiros do Chafariz da Praça da Alegria e até de um mestre marceneiro que quer fazer obras na sua loja na Praça da Alegria. Na cartografia de Lisboa, a Praça da Alegria surge já na planta de Duarte Fava de 1807, no Atlas de Filipe Folque em 1857. Norberto de Araújo defende que a maioria dos prédios da Praça da Alegria são do período de 1840 a 1850 e os registos encontrados no Arquivo Municipal têm 1846, 1852 e 1856 como os anos com maior número de pedido de construção de novos prédios nesta artéria. Em 1881, muitos prédios da Praça foram expropriados e demolidos para a construção da Avenida da Liberdade mas nesse mesmo ano também começou a ser plantado nesta Praça um Jardim.

Em termos da toponímia oficial a Câmara através do Edital de 08/06/1889 atribuiu à antiga Rua Nova da Alegria o topónimo Rua da Alegria. Sabemos que quanto à Praça da Alegria uma deliberação camarária de 24 de maio de 1920 passada a Edital em 8 de junho de 1925 mudou-lhe o nome para  Praça Alfredo Keil. Contudo, no ano seguinte,  a Comissão Executiva da Câmara na sua sessão de 31 de maio  aprovou a proposta do vereador Alfredo Guisado para que o antigo Jardim da Praça da Alegria, denominado Jardim Fialho de Almeida, passasse a denominar-se Jardim Alfredo Keil, por estar autorizada a construção naquele jardim de um monumento à memória de Alfredo Keil por Teixeira Lopes, do que foi feito Edital em 17 de junho de 1926. E desde aí fixaram-se os dois topónimos deste local:  por Edital municipal ficou o Jardim Alfredo Keil e, pelo uso, a Praça da Alegria.

Freguesia de Santo António
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC)

Lisboa do caminho, do casal, do sítio, do terreiro e do outeiro

Caminho da Rainha – Freguesia do Parque das Nações

Na sua toponomenclatura de cariz rural Lisboa ainda comporta para além das azinhagas, mais 17 caminhos, um casal, dois sítios, dois terreiros e mais 6 referências a eles, a que se somam ainda 4 menções a outeiros.

Dos 17 caminhos existentes, 11 são topónimos herdados pelo concelho de Lisboa já no séc. XXI em resultado da Expo 98, na maioria caminhos de terra em parques ajardinados, sendo 8 referentes a aves  – Caminho das Andorinhas, Caminho das Cegonhas, Caminho dos Estorninhos, Caminho dos Flamingos, Caminho das Gaivotas ao Parque das Nações, Caminho dos Melros, Caminho dos Pardais e Caminho dos Rouxinóis -, outros 2 a árvores Caminho do Arboreto, Caminho dos Pinheiros ao Parque das Nações – e ainda um Caminho da Rainha. Este último deve o seu topónimo à Estátua da Rainha D. Catarina de Bragança no Parque do Tejo onde o Caminho se insere que já estava na toponímia de Lisboa pelo Paço da Rainha. Esta estátua é uma réplica da original da artista Audrey Flack, realizada para celebrar o mais famoso bairro de Nova Iorque, Queens, que deve o seu nome à Rainha D. Catarina, que enquanto Rainha de Inglaterra introduziu a tradição do Chá das Cinco.

Caminho da Feiteira – Freguesia de Benfica
(Foto: José Carlos Batista)

Os outros 6 são mesmo memórias de freguesias rurais que se guardaram no tecido urbano de Lisboa: o Caminho de Palma de Cima em São Domingos de Benfica; assim como o Caminho da Feiteira  e ainda o Caminho Velho do Outeiro, um pequeno troço na junção da Estrada da Buraca com o Alto da Boavista, ambos em Benfica; o Caminho da Raposa em Caselas, na freguesia de Belém, mais o  Caminho de Baixo da Penha e o Caminho do Alto do Varejão na Penha de França.

Na Freguesia da Estrela e com início à Estrada do Loureiro  está o Casal de Colares. Restam-nos dúvidas quanto à origem do topónimo já que a planta de Francisco Goullard de julho de 1884 inclui junto à Estrada do Loureiro o Sertão e o Casal do Colares  mas outra planta municipal de 1908 já o denomina como Casal dos Colares. Será alcunha, apelido de família ou refere-se mesmo a acessórios de pescoço?…

Freguesia de Benfica – Placa Tipo IV
(Foto: José Carlos Batista)

Em Benfica e São Domingos de Benfica estão o  Sítio do Barcal e o Sítio do Calhau. O Sítio do Barcal que ainda hoje apresenta características da ruralidade das velhas quintas de recreio é um topónimo registado em documentos desde o tempo de D. Afonso II, no século XIII. Hoje, este arruamento do Bairro do Calhau termina no Largo de São Domingos de Benfica e começa num arruamento vulgarmente conhecido como Avenida 24 de Janeiro que não integra a toponímia oficial de Lisboa. O Sítio do Calhau, já em São Domingos de Benfica, resulta de um surto de povoamento no séc. XVIII devido à necessidade de mão-de-obra para a construção do Aqueduto das Águas Livres. De entre os lugares que cresceram nessa época sobressaem além do Calhau a Estrada da Luz, Bom Nome, Adeão de Baixo, Penedo, Presa, Mira, Alfarrobeira, Venda Nova, Porcalhota, Adeão de Baixo, Adeão de Cima, Borel, Feiteira, Buraca, Salgado e Pedralvas.

No que se relaciona com Terreiros, encontramos dois no Parque das Nações: o Terreiro das Ondas e o Terreiro dos Corvos ao Parque das Nações. Já memórias de terreiros noutras toponomenclaturas Lisboa ainda  tem seis. No norte da cidade, em Santa Clara, temos o Largo do Terreiro, na confluência da Azinhaga das Galinheiras, Rua Direita da Ameixoeira, Azinhaga da Torrinha e Calçada do Forte da Ameixoeira, oficializado por Edital municipal de 16/06/1928, guardando a memória do terreiro desta antiga zona rural. Já ao sul, muito perto do Tejo, na freguesia de Santa Maria Maior, temos 4 arruamentos – Escadinhas, Largo, Rua e Travessa do Terreiro do Trigo – cujo topónimo recorda o edifício do Celeiro Público ou Terreiro do Trigo pombalino, que nesta zona foi construído entre 1765 e 1768, sendo atribuída a sua autoria a Reinaldo Manuel dos Santos, arquiteto da Casa do Risco e que veio substituir o antigo celeiro do reinado de D. Manuel. E por último, na freguesia da Misericórdia, temos a Travessa do Terreiro a Santa Catarina, artéria sem saída que se abre junto à Travessa do Alcaide, que assim se denomina desde a publicação do Edital municipal de 27/02/1917, e antes era a Travessa do Terreirinho, a mostrar o diminuto tamanho do terreiro que ali seria.

Finalmente, ainda topamos com 4 menções a outeiros e outeirinhos, para além do já acima referido Caminho Velho do Outeiro. Frente ao nº 67 da Rua da Bela Vista à Lapa está a Travessa do Outeiro,  numa cota mais elevada do que a rua onde nasce, que ainda não surge nos arruamentos da freguesia de Nª Srª da Lapa em 1780. Relativo ao >Outeirinho da Amendoeira , temos o Beco em Santa Maria Maior, a ligar em escadas a Rua do Vigário ao Beco dos Paus e que de acordo com Luís Pastor de Macedo, se refere a um outeiro já mencionado em 1465 onde eram moradores o almocreve João Anes e a sua mulher Catarina e que  após a remodelação paroquial de 1780 já aparece na Freguesia de Santo Estêvão  como «o becco intitullado o Outeiro da Amendoeira». Em  São Vicente, está o Largo do Outeirinho da Amendoeira que vai do Campo de Santa Clara à Cruz de Santa Helena, e que segundo Norberto de Araújo teria sido a Rua do Arco Pequeno, onde assentou o Postigo do Arcebispo, da muralha fernandina. Ainda em São Vicente, temos o Outeirinho do Mirante, a ligar a Rua do Mirante à Rua de Entre Muros do Mirante e nas proximidades do Beco do Mirante.

Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Mário Marzagão)

A Rua dos Pastéis de Belém

A Confeitaria dos Pastéis de Belém, na Rua de Belém, em 1967
(Foto: João Hermes Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua Direita de Belém,  artéria onde desde 1837 se encontra a Casa dos Pastéis de Belém, passou a ter o seu nome simplificado como Rua de Belém, a partir da publicação do Edital municipal de 8 de junho de 1889.

Este mesmo edital abrangeu perto de 60 arruamentos, cujos topónimos foram alterados para simplificação do nome ou  procurando a sua diferenciação de outros idênticos existentes noutras partes da cidade de forma a evitar equívocos.

Freguesia de Belém
(Foto: Sérgio Dias)

O topónimo deriva do nome do sítio: Belém, por obra de D. Manuel. O rei mudou o nome do sítio de Restelo para Belém quando promoveu a a construção do Mosteiro da Ordem de São Jerónimo, cuja primeira pedra foi lançada provavelmente em 1502, sob a direção de Diogo Boytac até 1516, e de João de Castilho a partir daí.

Já os pastéis de Belém enquanto empresa comercial resultaram da oportunidade nascida com a extinção das ordens religiosas em 1834. Na dependência do Mosteiro dos Jerónimos funcionava no início do século XIX  uma refinação de cana-de-açúcar com um pequeno local de comércio variado. Com a extinção das ordens religiosas,  os frades e os trabalhadores são expulsos do local, tendo alguns frades para garantir o sustento tido a ideia de vender uns pastéis doces, rapidamente conhecidos como Pastéis de Belém, mesmo se nessa época  se chegava de Lisboa a Belém por barco a vapor. Em 1837 estabelece-se formalmente a fábrica e loja dos Pastéis de Belém, num prédio  do séc. XVIII, sob a denominação de Antiga Confeitaria de Belém, que havia de transformar o bolo conventual num ícone da gastronomia lisboeta. Depois, o pasteleiro do convento decidiu vender a receita ao empresário Domingos Rafael Alves, português vindo do Brasil , continuando até hoje na posse dos seus descendentes.

Sobre a Rua de Belém importa referir ainda que ela sofreu algumas modificações no decorrer do séc. XX. O troço com os prédios com os nºs 90 a 96 passou a ser  o Largo Frei Heitor Pinto, e os prédios com os nºs. 74 a 82  originaram o Largo  dos Jerónimos, por deliberação da Câmara de 23/08/1922  e Edital municipal de 17/10/1924.

A título de curiosidade refira-se que esta era uma artéria ampla, a ponto de num requerimento de 1719, o requerente que queria fazer obras em «casas situadas na Rua Direita de Belém» solicita ao Senado municipal «licença para poder estender a obra duas varas no comprimento de cinco, de forma, a alinhar com as casas vizinhas, sem prejuízo do público pois a rua é muito espaçosa.»

Freguesia de Belém
(Planta: Sérgio Dias)

 

Do Sítio do Casalinho à Rua do Sítio do Casalinho à Ajuda

Rua do Sítio ao Casalinho da Ajuda – Freguesia da Ajuda
(Foto: Paulo Catrica, 1998, Arquivo Municipal de Lisboa)

Uma moradora da Ajuda solicitou a alteração do topónimo Sítio do Casalinho após o 25 de Abril mas só em 1978 houve uma modificação tendo então esta artéria sido fixada, pela primeira vez pela Câmara de Lisboa, como Rua do Sítio ao Casalinho da Ajuda.

Em 1974, Amélia de Assunção Duarte solicitou à edilidade a alteração do topónimo Sítio do Casalinho tendo a Comissão Municipal de Toponímia emitido o parecer de «que deverá aguardar-se maior manifestação popular no sentido da pretendida alteração». Em 1975, também Maria José Gonçalves pediu a alteração de outro topónimo da Freguesia da Ajuda, o Casalinho da Ajuda e o parecer da Comissão foi de «Aguardar-se maior manifestação popular no sentido da pretendida alteração».

O nomes na base do topónimo– Sítio e Casalinho – denotam a origem rural deste local da Ajuda. As primeiras casas aí edificadas datam de 1907, junto ao portão da Tapada da Ajuda e até ao final da primeira metade do século XX o Casalinho era um pequeno aglomerado de casas rodeado de terras de cultivo, de Monsanto, da Tapada da Ajuda e das terras e pedreira da empresa de materiais de construção F.H. D’Oliveira.

Em 1960, em consequência das obras da primeira ponte sobre o Tejo, várias famílias foram desalojadas e o município encaminhou-as para barracas de madeira provisórias no Casalinho da Ajuda, onde permaneceram até 1970, altura em que essas famílias receberam as primeiras chaves das casas para pobres do Bairro do Casalinho da Ajuda, construído para esse efeito.

Hoje o Casalinho da Ajuda e o Sítio do Casalinho, quase na orla do Parque Florestal de Monsanto, estão próximos do Palácio da Ajuda e do Pólo Universitário do Alto da Ajuda. O Sítio do Casalinho, que também era vulgarmente conhecido como Calçada do Casalinho, foi fixado pelo Edital de 16 de agosto de 1978 como Rua do Sítio ao Casalinho da Ajuda.

Neste arruamento está sediada a Liga Portuguesa dos Deficientes Motores. Em 1975, a Câmara Municipal de Lisboa cedeu-lhe o terreno para a construção da sede, que se iniciou em 1979, tendo sido inaugurada em 1 de outubro de 1986.

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

A Rua do Sítio da Alegria

Freguesia de Santo António (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua da Alegria está ligada a Ramalho Ortigão por ele ter trabalhado para o periódico O Thalassa que estava instalado no 2.º esquerdo do nº 26 da Rua da Alegria.

O topónimo Rua da Alegria foi atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa à antiga Rua Nova da Alegria, através do Edital de 08/06/1889, e por intermédio do qual foram também alterados alguns topónimos lisboetas com vista à sua simplificação e também à sua diferenciação de outros idênticos em outras partes da cidade, contemplando quase 60 arruamentos. Esta artéria começa na Praça da Alegria, onde se inclui o Jardim Alfredo Keil, começado a plantar no final do séc. XIX.

Sobre a origem do topónimo «Alegria» o olisipógrafo Norberto de Araújo, no início do século XX, avançou o seguinte: «Ora vamos ver – a Alegria, sítio a-par da velha Cotovia de Baixo (a Cotovia de Cima, ou simplesmente a “Cotovia” era a actual Praça do Rio de Janeiro [hoje Praça do Príncipe Real], em prolongamento até o sítio do Rato). (…) Repizo que na primeira metade do século XVIII tudo por aqui eram terrenos de cultivo, abaixo da quinta ou da cêrca dos Padres da Companhia (Jardim Botânico de hoje), ligados a S. José, razão porque esta zona arrabaldina se chamou também Cotovia de S. José. (Para se entender isto melhor é preciso fechar os olhos, e não ver a Avenida actual). Ao Terramoto, que atraíu as populações para áreas descampadas ou mal povoadas, se deve a criação do bairro. A razão porque se chama “da Alegria” não a sei, nem creio que alguém a conheça. (…) Eu lembro que as designações de sítios partiam quási sempre de lindas invocações religiosas, tal a “Glória”, a “Estrêla”. Ora eu adquiri, há anos, uma velha imagem de N. Srª da Alegria, e que bem pode corresponder a uma invocação pessoal, caprichosa, pois “Alegria” não consta dos oragos de qualquer região do país. (…) A Alegria, pois, é posterior ao Terramoto; (…) Com a construção e desenvolvimento do Passeio Público, cresceu a Alegria; com a abertura da Avenida tornou-se de maioridade.»

Norberto Araújo recordou ainda que por aqui se fez a Feira da Alegria que « já se realizava em 1773 na Cotovia de Baixo (êste sítio da Alegria); em 1809 foi confirmada na Alegria, estendendo-se pela Rua Ocidental do Passeio até aos Restauradores de hoje, e, por abuso, até ao Palácio Cadaval (Estação do Rossio). Em 1823 ordenou-se a sua transferência para o Campo de Sant’Ana, onde esteve apenas cinco meses voltando para aqui; em Maio de 1835 foi definitivamente arredada desta zona para o Campo de Sant’Ana, onde se conservou até 1882. De então para cá sobrevive no Campo de Santa Clara [como Feira da Ladra], às terças, e, desde Novembro de 1903, aos sábados também.»

Freguesia de Santo António

Freguesia de Santo António

O Largo da Ajuda

Freguesia da Ajuda (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Ajuda
(Foto: Sérgio Dias)

Em 1984, Luís Dourdil participou na Exposição de homenagens dos Artistas Portugueses a Almada Negreiros  e recebeu o 1º Prémio de Pintura da Secretaria de Estado da Cultura, entidade sediada no Palácio da Ajuda, no Largo do mesmo nome e é assim razão para o incluirmos na toponímia alfacinha ligada a este pintor.

Este Largo fronteiro ao Palácio Nacional da Ajuda, antigo Real Paço de Nossa Senhora da Ajuda, tal como a Calçada e a Travessa homónimas, resultam da deliberação camarária de 21 de setembro de 1916 e do consequente Edital de dia 26 do mês que oficializou os topónimos tradicionais do local perpetuando o nome do sítio: Ajuda.

O Largo da Ajuda nasceu na antiga Quinta de Cima do Alto da Ajuda, quando esta foi o local eleito para a nova morada real após o Terramoto de 1755: o Paço de Madeira ou a Real Barraca.

Refira-se ainda que no nº 10 deste Largo morou Alexandre Herculano, na antiga Quinta do Seminário, quando desempenhou o cargo de bibliotecário da Ajuda, entre 1839 e 1877.

Freguesia da Ajuda

Freguesia da Ajuda

 

A Rua Direita da Lapa

Prédio da Rua da Lapa onde viveu o Engº Vieira da Silva  (Foto: Arquivo Municipal de Lisboa, Firmino Marques da Costa, c. 1952)

Prédio da Rua da Lapa onde viveu o Engº Vieira da Silva
(Foto: Arquivo Municipal de Lisboa, Firmino Marques da Costa, c. 1952)

A antiga Rua Direita da Lapa viu no final do séc. XIX (Edital municipal de 22/08/1881) ser-lhe retirada a palavra Direita, indicadora de artéria central de um sítio para ficar apenas Rua da Lapa.

Este mesmo Edital de Rosa Araújo alegava a «conveniencia de simplificar a denominação das ruas» e assim foi retirada a palavra Direita a mais 10 artérias que assim passaram a ser Rua dos Anjos, Rua de Arroios, Rua da Costa, Rua das Janelas Verdes, Rua das Necessidades, Rua do Rato (hoje, Largo do Rato), Rua do Sacramento a Alcântara, Rua de Santo Estêvão, Rua de São Francisco de Paula e Rua de Santos-o-Velho.

Norberto Araújo explica a origem do topónimo da seguinte forma: «No século XVI o lado poente do actual bairro, que cai sôbre a Pampulha, era de campos matizados de casas e arvoredos, onde aqui e ali afloravam pedreiras. Uma lapa, numa dessas rochas deu origem à “Lapa da Moura”, designação oral, e documentada, que precedeu a de “Cova da Moura” ainda existente. A “lapa” – à Pampulha, sítio mais antigo – subiu para Norte e Nascente até ao Mocambo e, deslocando a designação, firmou a Lapa de Setecentos. Foi o Terramoto que fêz êste Bairro em definição urbanista, e que explica o seu crescimento; (…)». E ainda lhe disntingue dois contornos: «Em verdade existem duas Lapas: a popular e a aristocrática. De uma parte dêste sítio vàdio (…) entrou a desenhar-se um burgo abastado, senhor de si, atracção dos ingleses, do negócio, da burguesia, do dinheiro, da nobreza escorraçada do Oriente da cidade, afastada que foi, ou reduzida a um expressão episódica, a população marítima que subia das margens do rio, pela vereda de Santos: eis a Lapa da distinção, no semblante e nos costumes, a tal ponto criadora de um tipo seu que hoje se costuma dizer de uma pessoa ou de uma família que blasona “tom” – “É muito bairro da Lapa”. Outra parte, a cair para Sul e Nascente, encostada àquela, comum nos limites convencionais do aglomerado, manteve-se agarrada ao seu facies popular; constituíu família, aproveitou do trabalho dos engenheiros pombalinos; trabalha no mar, nas oficinas, nos escritórios; transpira agitação, não chegando ao tumulto da Madragoa, mas é desenvolta, sabe cantar e tem as portas abertas: eis a Lapa popular, que ainda assim, na urbanização, não conseguiu formar uma “póvoa” exclusivamente sua, pois se corta de artérias dessimilhantes que podiam pertencer à Lapa aristocrática.»

Freguesia da Estrela

Freguesia da Estrela

A Calçada do sítio da Ajuda

Freguesias da Ajuda e de Belém  (Foto: Luís Ponte)

Freguesias da Ajuda e de Belém                                                                                             (Foto: Luís Ponte)

Esta comprida e íngreme Calçada, que outrora vencia a passagem de uma ribeira quase seca no Verão denominada Ribeira dos Gafos, tem cerca de um quilómetro de extensão contando desde o Museu dos Coches até ao muro do Jardim Botânico, onde existiu um marco, pouco acima do respectivo portão, com as iniciais CMB (Câmara Municipal de Belém), uma das poucas recordações desse Concelho que após a sua extinção em junho de 1885 persistiram na freguesia da Ajuda.

O topónimo foi atribuído pela deliberação camarária de 21 de setembro de 1916 e consequente Edital municipal de 26 desse mesmo mês, tal como o Largo e a Travessa da Ajuda, oficializando assim a edilidade os topónimos tradicionais do local que perpetuam o nome do sítio: Ajuda.

Placa Tipo II  (Foto: Sérgio Dias)

Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

Antes do Terramoto de 1755, era este sítio  despovoado e nele se cultivavam oliveiras, pomares, vinhas e trigo e só após o cataclismo foi esta artéria aberta. Depois, ao lado de prédios que ainda hoje conservam varandas de sacada e varadins de ferro forjado, numerosos quartéis aqui se estabeleceram. A Calçada da Ajuda deu passagem ao séquito da Família Real aquando do seu embarque para o Brasil, aos círios de Nossa Senhora do Cabo e à procissão do Senhor dos Passos de Belém que ia até à Patriarcal da Ajuda. E grandes ornamentações nela se fizeram aquando da celebração, no ano de 1886, do casamento do Príncipe Real D. Carlos com a Princesa D. Maria Amélia de Orleães. Ao longo de mais de dois séculos e meio de existência, a Calçada da Ajuda foi assim palco de cortejos reais, procissões e desfiles militares.

Em 1939 (Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Em 1939 (Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)