Lisboa do caminho, do casal, do sítio, do terreiro e do outeiro

Caminho da Rainha – Freguesia do Parque das Nações

Na sua toponomenclatura de cariz rural Lisboa ainda comporta para além das azinhagas, mais 17 caminhos, um casal, dois sítios, dois terreiros e mais 6 referências a eles, a que se somam ainda 4 menções a outeiros.

Dos 17 caminhos existentes, 11 são topónimos herdados pelo concelho de Lisboa já no séc. XXI em resultado da Expo 98, na maioria caminhos de terra em parques ajardinados, sendo 8 referentes a aves  – Caminho das Andorinhas, Caminho das Cegonhas, Caminho dos Estorninhos, Caminho dos Flamingos, Caminho das Gaivotas ao Parque das Nações, Caminho dos Melros, Caminho dos Pardais e Caminho dos Rouxinóis -, outros 2 a árvores Caminho do Arboreto, Caminho dos Pinheiros ao Parque das Nações – e ainda um Caminho da Rainha. Este último deve o seu topónimo à Estátua da Rainha D. Catarina de Bragança no Parque do Tejo onde o Caminho se insere que já estava na toponímia de Lisboa pelo Paço da Rainha. Esta estátua é uma réplica da original da artista Audrey Flack, realizada para celebrar o mais famoso bairro de Nova Iorque, Queens, que deve o seu nome à Rainha D. Catarina, que enquanto Rainha de Inglaterra introduziu a tradição do Chá das Cinco.

Caminho da Feiteira – Freguesia de Benfica
(Foto: José Carlos Batista)

Os outros 6 são mesmo memórias de freguesias rurais que se guardaram no tecido urbano de Lisboa: o Caminho de Palma de Cima em São Domingos de Benfica; assim como o Caminho da Feiteira  e ainda o Caminho Velho do Outeiro, um pequeno troço na junção da Estrada da Buraca com o Alto da Boavista, ambos em Benfica; o Caminho da Raposa em Caselas, na freguesia de Belém, mais o  Caminho de Baixo da Penha e o Caminho do Alto do Varejão na Penha de França.

Na Freguesia da Estrela e com início à Estrada do Loureiro  está o Casal de Colares. Restam-nos dúvidas quanto à origem do topónimo já que a planta de Francisco Goullard de julho de 1884 inclui junto à Estrada do Loureiro o Sertão e o Casal do Colares  mas outra planta municipal de 1908 já o denomina como Casal dos Colares. Será alcunha, apelido de família ou refere-se mesmo a acessórios de pescoço?…

Freguesia de Benfica – Placa Tipo IV
(Foto: José Carlos Batista)

Em Benfica e São Domingos de Benfica estão o  Sítio do Barcal e o Sítio do Calhau. O Sítio do Barcal que ainda hoje apresenta características da ruralidade das velhas quintas de recreio é um topónimo registado em documentos desde o tempo de D. Afonso II, no século XIII. Hoje, este arruamento do Bairro do Calhau termina no Largo de São Domingos de Benfica e começa num arruamento vulgarmente conhecido como Avenida 24 de Janeiro que não integra a toponímia oficial de Lisboa. O Sítio do Calhau, já em São Domingos de Benfica, resulta de um surto de povoamento no séc. XVIII devido à necessidade de mão-de-obra para a construção do Aqueduto das Águas Livres. De entre os lugares que cresceram nessa época sobressaem além do Calhau a Estrada da Luz, Bom Nome, Adeão de Baixo, Penedo, Presa, Mira, Alfarrobeira, Venda Nova, Porcalhota, Adeão de Baixo, Adeão de Cima, Borel, Feiteira, Buraca, Salgado e Pedralvas.

No que se relaciona com Terreiros, encontramos dois no Parque das Nações: o Terreiro das Ondas e o Terreiro dos Corvos ao Parque das Nações. Já memórias de terreiros noutras toponomenclaturas Lisboa ainda  tem seis. No norte da cidade, em Santa Clara, temos o Largo do Terreiro, na confluência da Azinhaga das Galinheiras, Rua Direita da Ameixoeira, Azinhaga da Torrinha e Calçada do Forte da Ameixoeira, oficializado por Edital municipal de 16/06/1928, guardando a memória do terreiro desta antiga zona rural. Já ao sul, muito perto do Tejo, na freguesia de Santa Maria Maior, temos 4 arruamentos – Escadinhas, Largo, Rua e Travessa do Terreiro do Trigo – cujo topónimo recorda o edifício do Celeiro Público ou Terreiro do Trigo pombalino, que nesta zona foi construído entre 1765 e 1768, sendo atribuída a sua autoria a Reinaldo Manuel dos Santos, arquiteto da Casa do Risco e que veio substituir o antigo celeiro do reinado de D. Manuel. E por último, na freguesia da Misericórdia, temos a Travessa do Terreiro a Santa Catarina, artéria sem saída que se abre junto à Travessa do Alcaide, que assim se denomina desde a publicação do Edital municipal de 27/02/1917, e antes era a Travessa do Terreirinho, a mostrar o diminuto tamanho do terreiro que ali seria.

Finalmente, ainda topamos com 4 menções a outeiros e outeirinhos, para além do já acima referido Caminho Velho do Outeiro. Frente ao nº 67 da Rua da Bela Vista à Lapa está a Travessa do Outeiro,  numa cota mais elevada do que a rua onde nasce, que ainda não surge nos arruamentos da freguesia de Nª Srª da Lapa em 1780. Relativo ao >Outeirinho da Amendoeira , temos o Beco em Santa Maria Maior, a ligar em escadas a Rua do Vigário ao Beco dos Paus e que de acordo com Luís Pastor de Macedo, se refere a um outeiro já mencionado em 1465 onde eram moradores o almocreve João Anes e a sua mulher Catarina e que  após a remodelação paroquial de 1780 já aparece na Freguesia de Santo Estêvão  como «o becco intitullado o Outeiro da Amendoeira». Em  São Vicente, está o Largo do Outeirinho da Amendoeira que vai do Campo de Santa Clara à Cruz de Santa Helena, e que segundo Norberto de Araújo teria sido a Rua do Arco Pequeno, onde assentou o Postigo do Arcebispo, da muralha fernandina. Ainda em São Vicente, temos o Outeirinho do Mirante, a ligar a Rua do Mirante à Rua de Entre Muros do Mirante e nas proximidades do Beco do Mirante.

Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Mário Marzagão)

A Rua dos Pastéis de Belém

A Confeitaria dos Pastéis de Belém, na Rua de Belém, em 1967
(Foto: João Hermes Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua Direita de Belém,  artéria onde desde 1837 se encontra a Casa dos Pastéis de Belém, passou a ter o seu nome simplificado como Rua de Belém, a partir da publicação do Edital municipal de 8 de junho de 1889.

Este mesmo edital abrangeu perto de 60 arruamentos, cujos topónimos foram alterados para simplificação do nome ou  procurando a sua diferenciação de outros idênticos existentes noutras partes da cidade de forma a evitar equívocos.

Freguesia de Belém
(Foto: Sérgio Dias)

O topónimo deriva do nome do sítio: Belém, por obra de D. Manuel. O rei mudou o nome do sítio de Restelo para Belém quando promoveu a a construção do Mosteiro da Ordem de São Jerónimo, cuja primeira pedra foi lançada provavelmente em 1502, sob a direção de Diogo Boytac até 1516, e de João de Castilho a partir daí.

Já os pastéis de Belém enquanto empresa comercial resultaram da oportunidade nascida com a extinção das ordens religiosas em 1834. Na dependência do Mosteiro dos Jerónimos funcionava no início do século XIX  uma refinação de cana-de-açúcar com um pequeno local de comércio variado. Com a extinção das ordens religiosas,  os frades e os trabalhadores são expulsos do local, tendo alguns frades para garantir o sustento tido a ideia de vender uns pastéis doces, rapidamente conhecidos como Pastéis de Belém, mesmo se nessa época  se chegava de Lisboa a Belém por barco a vapor. Em 1837 estabelece-se formalmente a fábrica e loja dos Pastéis de Belém, num prédio  do séc. XVIII, sob a denominação de Antiga Confeitaria de Belém, que havia de transformar o bolo conventual num ícone da gastronomia lisboeta. Depois, o pasteleiro do convento decidiu vender a receita ao empresário Domingos Rafael Alves, português vindo do Brasil , continuando até hoje na posse dos seus descendentes.

Sobre a Rua de Belém importa referir ainda que ela sofreu algumas modificações no decorrer do séc. XX. O troço com os prédios com os nºs 90 a 96 passou a ser  o Largo Frei Heitor Pinto, e os prédios com os nºs. 74 a 82  originaram o Largo  dos Jerónimos, por deliberação da Câmara de 23/08/1922  e Edital municipal de 17/10/1924.

A título de curiosidade refira-se que esta era uma artéria ampla, a ponto de num requerimento de 1719, o requerente que queria fazer obras em «casas situadas na Rua Direita de Belém» solicita ao Senado municipal «licença para poder estender a obra duas varas no comprimento de cinco, de forma, a alinhar com as casas vizinhas, sem prejuízo do público pois a rua é muito espaçosa.»

Freguesia de Belém
(Planta: Sérgio Dias)

 

Do Sítio do Casalinho à Rua do Sítio do Casalinho à Ajuda

Rua do Sítio ao Casalinho da Ajuda – Freguesia da Ajuda
(Foto: Paulo Catrica, 1998, Arquivo Municipal de Lisboa)

Uma moradora da Ajuda solicitou a alteração do topónimo Sítio do Casalinho após o 25 de Abril mas só em 1978 houve uma modificação tendo então esta artéria sido fixada, pela primeira vez pela Câmara de Lisboa, como Rua do Sítio ao Casalinho da Ajuda.

Em 1974, Amélia de Assunção Duarte solicitou à edilidade a alteração do topónimo Sítio do Casalinho tendo a Comissão Municipal de Toponímia emitido o parecer de «que deverá aguardar-se maior manifestação popular no sentido da pretendida alteração». Em 1975, também Maria José Gonçalves pediu a alteração de outro topónimo da Freguesia da Ajuda, o Casalinho da Ajuda e o parecer da Comissão foi de «Aguardar-se maior manifestação popular no sentido da pretendida alteração».

O nomes na base do topónimo– Sítio e Casalinho – denotam a origem rural deste local da Ajuda. As primeiras casas aí edificadas datam de 1907, junto ao portão da Tapada da Ajuda e até ao final da primeira metade do século XX o Casalinho era um pequeno aglomerado de casas rodeado de terras de cultivo, de Monsanto, da Tapada da Ajuda e das terras e pedreira da empresa de materiais de construção F.H. D’Oliveira.

Em 1960, em consequência das obras da primeira ponte sobre o Tejo, várias famílias foram desalojadas e o município encaminhou-as para barracas de madeira provisórias no Casalinho da Ajuda, onde permaneceram até 1970, altura em que essas famílias receberam as primeiras chaves das casas para pobres do Bairro do Casalinho da Ajuda, construído para esse efeito.

Hoje o Casalinho da Ajuda e o Sítio do Casalinho, quase na orla do Parque Florestal de Monsanto, estão próximos do Palácio da Ajuda e do Pólo Universitário do Alto da Ajuda. O Sítio do Casalinho, que também era vulgarmente conhecido como Calçada do Casalinho, foi fixado pelo Edital de 16 de agosto de 1978 como Rua do Sítio ao Casalinho da Ajuda.

Neste arruamento está sediada a Liga Portuguesa dos Deficientes Motores. Em 1975, a Câmara Municipal de Lisboa cedeu-lhe o terreno para a construção da sede, que se iniciou em 1979, tendo sido inaugurada em 1 de outubro de 1986.

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

A Rua do Sítio da Alegria

Freguesia de Santo António (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua da Alegria está ligada a Ramalho Ortigão por ele ter trabalhado para o periódico O Thalassa que estava instalado no 2.º esquerdo do nº 26 da Rua da Alegria.

O topónimo Rua da Alegria foi atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa à antiga Rua Nova da Alegria, através do Edital de 08/06/1889, e por intermédio do qual foram também alterados alguns topónimos lisboetas com vista à sua simplificação e também à sua diferenciação de outros idênticos em outras partes da cidade, contemplando quase 60 arruamentos. Esta artéria começa na Praça da Alegria, onde se inclui o Jardim Alfredo Keil, começado a plantar no final do séc. XIX.

Sobre a origem do topónimo «Alegria» o olisipógrafo Norberto de Araújo, no início do século XX, avançou o seguinte: «Ora vamos ver – a Alegria, sítio a-par da velha Cotovia de Baixo (a Cotovia de Cima, ou simplesmente a “Cotovia” era a actual Praça do Rio de Janeiro [hoje Praça do Príncipe Real], em prolongamento até o sítio do Rato). (…) Repizo que na primeira metade do século XVIII tudo por aqui eram terrenos de cultivo, abaixo da quinta ou da cêrca dos Padres da Companhia (Jardim Botânico de hoje), ligados a S. José, razão porque esta zona arrabaldina se chamou também Cotovia de S. José. (Para se entender isto melhor é preciso fechar os olhos, e não ver a Avenida actual). Ao Terramoto, que atraíu as populações para áreas descampadas ou mal povoadas, se deve a criação do bairro. A razão porque se chama “da Alegria” não a sei, nem creio que alguém a conheça. (…) Eu lembro que as designações de sítios partiam quási sempre de lindas invocações religiosas, tal a “Glória”, a “Estrêla”. Ora eu adquiri, há anos, uma velha imagem de N. Srª da Alegria, e que bem pode corresponder a uma invocação pessoal, caprichosa, pois “Alegria” não consta dos oragos de qualquer região do país. (…) A Alegria, pois, é posterior ao Terramoto; (…) Com a construção e desenvolvimento do Passeio Público, cresceu a Alegria; com a abertura da Avenida tornou-se de maioridade.»

Norberto Araújo recordou ainda que por aqui se fez a Feira da Alegria que « já se realizava em 1773 na Cotovia de Baixo (êste sítio da Alegria); em 1809 foi confirmada na Alegria, estendendo-se pela Rua Ocidental do Passeio até aos Restauradores de hoje, e, por abuso, até ao Palácio Cadaval (Estação do Rossio). Em 1823 ordenou-se a sua transferência para o Campo de Sant’Ana, onde esteve apenas cinco meses voltando para aqui; em Maio de 1835 foi definitivamente arredada desta zona para o Campo de Sant’Ana, onde se conservou até 1882. De então para cá sobrevive no Campo de Santa Clara [como Feira da Ladra], às terças, e, desde Novembro de 1903, aos sábados também.»

Freguesia de Santo António

Freguesia de Santo António

O Largo da Ajuda

Freguesia da Ajuda (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Ajuda
(Foto: Sérgio Dias)

Em 1984, Luís Dourdil participou na Exposição de homenagens dos Artistas Portugueses a Almada Negreiros  e recebeu o 1º Prémio de Pintura da Secretaria de Estado da Cultura, entidade sediada no Palácio da Ajuda, no Largo do mesmo nome e é assim razão para o incluirmos na toponímia alfacinha ligada a este pintor.

Este Largo fronteiro ao Palácio Nacional da Ajuda, antigo Real Paço de Nossa Senhora da Ajuda, tal como a Calçada e a Travessa homónimas, resultam da deliberação camarária de 21 de setembro de 1916 e do consequente Edital de dia 26 do mês que oficializou os topónimos tradicionais do local perpetuando o nome do sítio: Ajuda.

O Largo da Ajuda nasceu na antiga Quinta de Cima do Alto da Ajuda, quando esta foi o local eleito para a nova morada real após o Terramoto de 1755: o Paço de Madeira ou a Real Barraca.

Refira-se ainda que no nº 10 deste Largo morou Alexandre Herculano, na antiga Quinta do Seminário, quando desempenhou o cargo de bibliotecário da Ajuda, entre 1839 e 1877.

Freguesia da Ajuda

Freguesia da Ajuda

 

A Rua Direita da Lapa

Prédio da Rua da Lapa onde viveu o Engº Vieira da Silva  (Foto: Arquivo Municipal de Lisboa, Firmino Marques da Costa, c. 1952)

Prédio da Rua da Lapa onde viveu o Engº Vieira da Silva
(Foto: Arquivo Municipal de Lisboa, Firmino Marques da Costa, c. 1952)

A antiga Rua Direita da Lapa viu no final do séc. XIX (Edital municipal de 22/08/1881) ser-lhe retirada a palavra Direita, indicadora de artéria central de um sítio para ficar apenas Rua da Lapa.

Este mesmo Edital de Rosa Araújo alegava a «conveniencia de simplificar a denominação das ruas» e assim foi retirada a palavra Direita a mais 10 artérias que assim passaram a ser Rua dos Anjos, Rua de Arroios, Rua da Costa, Rua das Janelas Verdes, Rua das Necessidades, Rua do Rato (hoje, Largo do Rato), Rua do Sacramento a Alcântara, Rua de Santo Estêvão, Rua de São Francisco de Paula e Rua de Santos-o-Velho.

Norberto Araújo explica a origem do topónimo da seguinte forma: «No século XVI o lado poente do actual bairro, que cai sôbre a Pampulha, era de campos matizados de casas e arvoredos, onde aqui e ali afloravam pedreiras. Uma lapa, numa dessas rochas deu origem à “Lapa da Moura”, designação oral, e documentada, que precedeu a de “Cova da Moura” ainda existente. A “lapa” – à Pampulha, sítio mais antigo – subiu para Norte e Nascente até ao Mocambo e, deslocando a designação, firmou a Lapa de Setecentos. Foi o Terramoto que fêz êste Bairro em definição urbanista, e que explica o seu crescimento; (…)». E ainda lhe disntingue dois contornos: «Em verdade existem duas Lapas: a popular e a aristocrática. De uma parte dêste sítio vàdio (…) entrou a desenhar-se um burgo abastado, senhor de si, atracção dos ingleses, do negócio, da burguesia, do dinheiro, da nobreza escorraçada do Oriente da cidade, afastada que foi, ou reduzida a um expressão episódica, a população marítima que subia das margens do rio, pela vereda de Santos: eis a Lapa da distinção, no semblante e nos costumes, a tal ponto criadora de um tipo seu que hoje se costuma dizer de uma pessoa ou de uma família que blasona “tom” – “É muito bairro da Lapa”. Outra parte, a cair para Sul e Nascente, encostada àquela, comum nos limites convencionais do aglomerado, manteve-se agarrada ao seu facies popular; constituíu família, aproveitou do trabalho dos engenheiros pombalinos; trabalha no mar, nas oficinas, nos escritórios; transpira agitação, não chegando ao tumulto da Madragoa, mas é desenvolta, sabe cantar e tem as portas abertas: eis a Lapa popular, que ainda assim, na urbanização, não conseguiu formar uma “póvoa” exclusivamente sua, pois se corta de artérias dessimilhantes que podiam pertencer à Lapa aristocrática.»

Freguesia da Estrela

Freguesia da Estrela

A Calçada do sítio da Ajuda

Freguesias da Ajuda e de Belém  (Foto: Luís Ponte)

Freguesias da Ajuda e de Belém                                                                                             (Foto: Luís Ponte)

Esta comprida e íngreme Calçada, que outrora vencia a passagem de uma ribeira quase seca no Verão denominada Ribeira dos Gafos, tem cerca de um quilómetro de extensão contando desde o Museu dos Coches até ao muro do Jardim Botânico, onde existiu um marco, pouco acima do respectivo portão, com as iniciais CMB (Câmara Municipal de Belém), uma das poucas recordações desse Concelho que após a sua extinção em junho de 1885 persistiram na freguesia da Ajuda.

O topónimo foi atribuído pela deliberação camarária de 21 de setembro de 1916 e consequente Edital municipal de 26 desse mesmo mês, tal como o Largo e a Travessa da Ajuda, oficializando assim a edilidade os topónimos tradicionais do local que perpetuam o nome do sítio: Ajuda.

Placa Tipo II  (Foto: Sérgio Dias)

Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

Antes do Terramoto de 1755, era este sítio  despovoado e nele se cultivavam oliveiras, pomares, vinhas e trigo e só após o cataclismo foi esta artéria aberta. Depois, ao lado de prédios que ainda hoje conservam varandas de sacada e varadins de ferro forjado, numerosos quartéis aqui se estabeleceram. A Calçada da Ajuda deu passagem ao séquito da Família Real aquando do seu embarque para o Brasil, aos círios de Nossa Senhora do Cabo e à procissão do Senhor dos Passos de Belém que ia até à Patriarcal da Ajuda. E grandes ornamentações nela se fizeram aquando da celebração, no ano de 1886, do casamento do Príncipe Real D. Carlos com a Princesa D. Maria Amélia de Orleães. Ao longo de mais de dois séculos e meio de existência, a Calçada da Ajuda foi assim palco de cortejos reais, procissões e desfiles militares.

Em 1939 (Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Em 1939 (Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Estrada da Torre do Lumiar

Em 1963 (Foto: Artur Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

Em 1963 (Foto: Artur Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Estrada da Torre é um  topónimo antigo da Freguesia do Lumiar cuja data de fixação na memória de Lisboa se desconhece embora seja provável que advenha do sítio da Torre do Lumiar, assim já denominado e conhecido no séc. XVI.

No séc. XVI a documentação da época a par da Torre do Lumiar menciona outros novos lugares como Chão do Meirinho, Vale do Forno, Mejam Frio, Poço do Ouro ou Ribeiro do Porto. De acordo com as Memórias Paroquias de 1758 o sítio ou lugar da Torre do Lumiar tinha nesse ano 19 fogos e 104 habitantes, bem como uma Ermida de Nª Srª do Livramento.

Esta artéria acolhe a sede da Junta de Freguesia do Lumiar. E na freguesia do Lumiar existem mais 5 Estradas:  da Ameixoeira, do Desvio, do Lumiar, do Paço do Lumiar e de Telheiras.

Freguesia do Lumiar (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua de São Sebastião do sítio da Pedreira

(Foto:  Joshua Benoliel, s/d, Arquivo Municipal de Lisboa)

(Foto: Joshua Benoliel, s/d, Arquivo Municipal de Lisboa)

No sítio da Pedreira o padroeiro do local, S. Sebastião, deu também o seu nome à Rua de São Sebastião da Pedreira.

Já no século XVI aqui existia uma pequena ermida de invocação a São Sebastião, construída pelos moradores da Rua das Arcas da freguesia de S. Nicolau, que tomaram este santo como protetor contra o mal da peste, prometendo ir lá todos os domingos com um sacerdote para celebrar missa, festejando o orago no seu dia – 20 de janeiro – e fazendo procissão, que se realizou sempre até 1755. No século XVII,  em 1652, D. João IV também dedicou uma igreja no largo do mesmo nome a S. Sebastião da Pedreira.

Esta Rua de São Sebastião da Pedreira, hoje parte integrante da freguesias das Avenidas Novas, liga o Largo de Andaluz ao Largo de São Sebastião da Pedreira e, acolhe a sede da Junta de Freguesia das Avenidas Novas.

Nas proximidades existem mais dois topónimos com a mesma origem: o Largo de S. Sebastião da Pedreira que deve ser coevo da rua e, a Travessa de São Sebastião da Pedreira, que assim se designa desde a publicação do  Edital municipal de 04/05/1948, tendo antes sido a  Travessa de São Francisco Xavier.

Chafariz da Rua de São Sebastão da Pedreira (Foto: António Passaporte, s/d, Arquivo Municipal de Lisboa)

Chafariz da Rua de São Sebastião da Pedreira                                                                                                           (Foto: António Passaporte, s/d, Arquivo Municipal de Lisboa)

Freguesia das Freguesia das Avenidas Novas (Mapa: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua da Praia do Bom Sucesso

(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

(Foto: Eduardo Portugal, s/d, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua da Praia do Bom Sucesso retira o seu nome desta praia que teve o seu apogeu nos finais do séc. XIX, por sua vez derivado do Sítio do Bom Sucesso, originado pela presença próxima do Convento de Nossa Senhora do Bom Sucesso, cuja 1ª pedra foi lançada em 1645.

A Rua da Praia do Bom Sucesso nasce junto ao nº 59 da Rua Bartolomeu Dias e termina na Rua da Praia de Pedrouços.  Nesta zona ribeirinha, as praias da Torre de Belém, da Cruz da Pedra, de Pedrouços e do Bom Sucesso eram populares nos finais do século XIX e princípios do século XX, tendo depois declinado em favor de outras praias da Linha do Estoril.

O Sítio do Bom Sucesso compreendia uma área ribeirinha e outrora rural, delimitada a este pela antiga Quinta da Praia (o espaço ocupado hoje pelo Centro Cultural de Belém), a oeste pela Quinta da Princesa (por referência à irmã de D. Maria I), a norte pela antiga cerca do Mosteiro dos Jerónimos e a sul pelo Rio Tejo.

Nesta artéria funcionou uma fábrica de farinhas, o antigo Diário da Manhã e depois o Orbis, assim como a empresa Gelmar de congelação de peixe e, o Sport Bom Sucesso aqui foi fundado em 1913.

Lisboa comporta mais 4 topónimos relativos a praias fluviais alfacinhas:  o Boqueirão da Praia da Galé (Santa Maria Maior), as Escadinhas da Praia (Estrela), a Rua da Praia de Pedrouços (Belém) e ainda, a Travessa da Praia (Alcântara).

Freguesia de Belém

Freguesia de Belém

Freguesia de Belém (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Belém
(Planta: Sérgio Dias)