Ruas com Arcos

Rua do Arco da Torre em 1940 (Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua do Arco da Torre em 1940
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Para além de arcos já desaparecidos ou que não se fixaram na toponímia alfacinha, Lisboa guarda ainda hoje 21 artérias onde estão presentes Arcos que passamos a enumerar, de ocidente para oriente.

Em Belém, encontramos as antigas Rua do Arco da Torre e a Travessa do Arco da Torre, paralelas à Avenida da Torre de Belém. Ora, a antiga Casa do Governador do Forte do Bom Sucesso e onde Almeida Garrett morou em 1852, sita na Rua do Arco da Torre tem justamente um arco que fica fronteiro à Torre de Belém, ou como escreve Luís Pastor de Macedo «Tira o nome do arco que se abre defronte da Rua da Praia do Bom Sucesso e que dá passagem para a Avenida da Índia e para a Torre de Belém.»

Já em Campolide, deparamos com a Rua dos Arcos,  arruamento central do Bairro do Alto da Serafina que ganhou esta denominação por acompanhar parte do percurso dos arcos do Aqueduto das Águas Livres. Esta era a Rua 4 do Bairro da Serafina, atribuída pelo Edital municipal de 15/03/1950, mas popularmente conhecida como Rua dos Arcos e assim ficou oficialmente desde a publicação do Edital de 28/12/1989.

Estendendo-se pelas freguesias de Campolide e Campo de Ourique está a Rua do Arco do Carvalhão, que Norberto de Araújo indica que antes tinha o nome de Rua do Sargento-Mor. O Arco é do Aqueduto e o Carvalhão era o nome pelo qual era conhecido o futuro Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo, que nesta zona possuía terrenos desde a Cruz das Almas até à ribeira de Alcântara com casas, olivais, pedreiras, nomeadamente a da Cascalheira, fornos de cal, moinhos e azenhas.

E ainda em Campolide, temos a Rua do Meio ao Arco do Carvalhão, que já referimos nos artigo «Ruas do Meio».

A Rua do Arco a São Mamede, entre 1898 a 1908 (Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua do Arco a São Mamede, entre 1898 a 1908
(Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

Já nas freguesias de Campo de Ourique e Santo António, deparamos com a Rua do Arco a São Mamede que liga a Rua de São Bento à Rua da Escola Politécnica, que já aparece referida nas plantas da cidade após a remodelação paroquial de 1770.  A ligação desta artéria ao século XVIII fica ainda mais vincada se nos lembrarmos que o seu nome deriva do facto desta artéria ostentar um dos 127 arcos do Aqueduto das Águas Livres que começou a fornecer água à cidade de Lisboa a partir de 1748, aumentando de 6 para 15 litros o volume de água diário que cada cidadão de Lisboa dispunha.  Durante séculos foi conhecida como Rua do Arco e só em 1953, por parecer da Comissão Municipal de Toponímia homologado pelo Vice-Presidente da CML no dia 21 de outubro é que recebeu de acrescento as palavras «a São Mamede».

Já na freguesia da Estrela, na zona da Lapa, encontramos a Rua do Arco do Chafariz das Terras,  denominação que deve ser do final do século XVIII já que a denominação deriva do Chafariz das Terras, construído em 1791, um pouco mais a norte desta artéria. O chafariz que hoje vemos data de 1867. Assim, o topónimo refere um dos arcos do Aqueduto das Águas Livres a partir do qual derivava a água para o chafariz que a ele se encosta.

Ainda na freguesia da Estrela, ligando a Praça da Armada à Rua Vieira da Silva temos a Rua do Arco a Alcântara, cuja denominação se explica por nela existir uma poterna – porta falsa de uma fortificação – do pano de muralha do Baluarte do Sacramento. Este Baluarte contíguo ao Convento do Sacramento, fez parte da projectada defesa de Lisboa do séc. XVII e começou a ser construído em 1650, na Quinta do Marquês de Marialva, que chegava à beira-rio e onde aquele organizara uma conspiração contra Filipe II, diz-se que à sombra de uma alfarrobeira pelo que o baluarte também foi conhecido por Forte de Alfarrobeira. O Terramoto de 1755 quase o destruiu mas ainda aparecia nas plantas de Lisboa da primeira metade do século XIX. Em parte da sua área veio a ser construído em 1865 o Quartel de Marinheiros que deu nome à actual Praça da Armada e na outra parte, cedida à edilidade, foi construída parte da Avenida 24 de Julho.

Seguindo para as freguesias de Santo António e Misericórdia deparamos com o Arco do Evaristo,  arruamento entre a Rua da Mãe D’Água e a Rua D. Pedro V, na zona do Alto do Penalva ou do Marquês de Penalva, que ali morou, e poderá estar ligado à informação que  Luís Pastor de Macedo dá de «(…) Nos verbetes da Câmara Municipal declara-se que esta serventia pública [Alto do Penalva] se denominou também pátio da Evarista o que ainda não achámos confirmado por qualquer outra via.»

Travessa do Arco de Jesus - Placa Tipo II (Foto: Mário Marzagão, 2012)

Travessa do Arco de Jesus – Placa Tipo II
(Foto: Mário Marzagão, 2012)

Ainda na freguesia da Misericórdia está a Travessa do Arco a Jesus,  desde a publicação do Edital municipal de 08/02/1884, a ligar a Travessa da Horta à Rua da Academia das Ciências, em resultado da proximidade ao Convento de Jesus que foi construído em 1615, inaugurado em 1632 e reconstruído depois do Terramoto, com o traço do arqº Joaquim de Oliveira.

Seguimos agora para a a freguesia de Santa Maria Maior onde surge o Arco de Jesus , situado entre o Campo das Cebolas e a Rua de São João da Praça e cuja denominação provém de uma imagem do Menino Jesus colocada sobre o fecho do arco, pelo lado inferior e que já existiria em 1627. Este arco correspondia à Porta da muralha da Cerca moura, onde segundo o Padre Castro, embora não o prove, a cidade foi invadida pelos cruzados que auxiliaram D. Afonso Henriques na tomada de Lisboa aos mouros.

Já entre a Rua dos Bacalhoeiros e a Rua Afonso de Albuquerque apresenta-se o Arco das Portas do Mar que faz referência a uma das portas da muralha (da Cerca Moura de D. Afonso Henriques), a Porta Nova do Mar, e que ainda não existia no século XII.

Também entre a Rua dos Bacalhoeiros e a Rua Afonso de Albuquerque topamos com o Arco da Conceição, que se apresenta em túnel com um escadinha apertada e íngreme e no seu interior existe um oratório a Nossa Senhora da Conceição de onde advém o topónimo. Esta artéria já se denominou Passadiço de Gaspar Pais (1657), Passadiço que sobe da Ribeira para a Cruzes da Sé (1676), Passadiço da Ribeira (1755), Passadiço da Ribeira Velha (1801), Arco da Senhora da Conceição (1804) e Passadiço da Conceição (1807). A designação que hoje vemos vigora desde 1822.

Beco do Arco Escuro - Placa Tipo I (Foto: Sérgio Dias)

Beco do Arco Escuro – Placa Tipo I
(Foto: Sérgio Dias)

E ainda a começar na Rua dos Bacalhoeiros surge o Arco Escuro,  que fazia parte da cerca moura de Lisboa, quiçá a primeira serventia rasgada na muralha, pois já o cruzado R. (também conhecido como Osberno) a ele se referiu na sua carta onde relata a conquista de Lisboa por Afonso Henriques e os cruzados aos mouros. Este Arco também foi vulgarmente conhecido por Postigo da Rua das Canastras, Arco do Armazém Velho ou ainda Arco de São Sebastião.

A partir da artéria anterior nasce 0 Beco do Arco Escuro, topónimo atribuído pelo Edital do Governo Civil de Lisboa de 01/09/1859 ao arruamento com a denominação anterior de Beco do Jardim.

Arco do Rosário era um troço da Rua da Judiaria com início no Largo do Terreiro do Trigo que já aparece assim identificado no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa, de 1858, de Filipe Folque. Antes foi a Porta da Judiaria e passou a Arco do Rosário porventura devido a uma capelinha onde se venerava Nª Sª do Rosário, localizada no cimo do arco, mas que entretanto desapareceu. O Arco do Rosário fez parte integrante da antiga cerca moura e foi reaproveitado para ser uma das 34 portas da cerca nova, denominada de D. Fernando. Resta mencionar que o Arco do Rosário teria uma volta completa, de que hoje apenas se vislumbra meia volta, estando a outra meia aparentemente integrada no prédio que a suporta.

Já entre o Poço do Borratém e a Praça Martim Moniz oferece-se a Rua do Arco do Marquês de Alegrete,  referente ao 1º Marquês de Alegrete, proprietário do palácio que ali ergueu  em 1694. E segundo o olisipógrafo Vieira da Silva, o Arco sobre o qual assentavam dois andares unia dois prédios pertencentes à mesma família e foi construído por volta de 1674, por proposta da Câmara para que «se rompesse a Torre das Portas da Mouraria, com um arco que tenha capacidade de passarem coches». Em 1946 o palácio foi demolido para dar lugar ao espaço que hoje conhecemos como Praça Martim Moniz.

Nas freguesias de Santa Maria Maior e Arroios apresenta-se a Rua do Arco da Graça e a Travessa do Arco da Graça em que a Travessa era um troço da Travessa da Palma, até por Edital camarário de 08/06/1889 passar a denominar-se Travessa do Arco da Graça, por referência à Rua do Arco da Graça onde se inicia, a qual por seu turno advirá de uma imagem de Nossa Senhora da Graça colocada no arco em 1657.

Já entre as freguesias de Santa Maria Maior e São Vicente topamos com as Escadinhas do Arco de Dona Rosa, que ligam a Rua dos Remédios ao Largo do Outeirinho da Amendoeira, perpetuando uma Dona Rosa que ali era proprietária de uma casa que tinha uma capela que mais tarde foi transformada em taberna. De acordo com  Norberto de Araújo «Morta D. Rosa (…) seus herdeiros venderam em 1882 o prédio a Francisco Cândido Máximo de Abreu que dos baixos (incluindo a Capela) fez um armazém de linho.» Em 1889, passou a ser taberna explorada por Jerónimo Pedro do Carmo e em 1924 foi vendida a outros proprietários.

Avançando mais pela freguesia de São Vicente, oferece-se o Arco Grande de Cima, desde o Campo de Santa Clara até ao Largo de São Vicente que terá sido o Arco Grande. Norberto de Araújo informa que « Êste Arco foi erguido em 1808, um pouco adiante do sítio onde se rasgava desde 1373-1375 a Porta ou Postigo de S. Vicente, da Cerca (nova) de D. Fernando. Ligava esse Arco o Convento às suas quintas e jardins, e hoje faz ligação ao Liceu (antigos Paços Patriarcais) à cerca-recreio dos alunos e que atrás vimos.»

Escadinhas do Arco de Dona Rosa em 1962 (Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Escadinhas do Arco de Dona Rosa em 1962
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Da Estrada à Rua do Arco do Cego

Padrão comemorativo da intervenção da Rainha Santa Isabel no reencontro de Dom Dinis com o filho Dom Afonso, no Arco do Cego, em 1949 (Foto: Estúdio Mário Novais, Arquivo Municipal de Lisboa)

Padrão comemorativo da intervenção da Rainha Santa Isabel no reencontro de Dom Dinis com o filho Dom Afonso, na Rua do Arco do Cego, em 1949
(Foto: Estúdio Mário Novais, Arquivo Municipal de Lisboa)

As pazes entre D. Diniz e seu filho Afonso, feitas em 1323 por intermédio da Rainha Santa Isabel, foram assinaladas no local com um arco de pedra na via que passou a ser conhecida como Estrada do Arco do Cego.

No entanto, Norberto de Araújo questiona se foi aqui o local onde esteve para se dar a batalha de “Alvalade”, pelo que a colocação do padrão neste sítio, no século XVII, pode ter sido apenas uma circunstância de comodidade.

Contudo, séculos mais tarde a estreiteza desse arco dificultava a passagem dos coches e carruagens. Assim, quando em maio de 1742, D. João V adoeceu e os seus médicos resolveram que ele fosse a banhos nas Caldas da Rainha, verificou-se que o seu coche real não passava de modo algum e o rei mandou demolir o arco.

Enquanto topónimo o Arco do Cego surge em 1858 como Estrada do Arco do Cego, na cartografia de Filipe Folque. Em 1894, encontra-se um orçamento para o calcetamento do passeio da Estrada do Arco do Cego, ao Lumiar, entre o Arco do Cego e a Quinta do Conde das Galveias. E já no séc. XX, foi aprovado em sessão de Câmara de 21 de maio de 1936 um projeto de novos arruamentos entre a Avenida Defensores de Chaves, ruas Carvalho Araújo, Visconde de Santarém e o Bairro Social do Arco do Cego onde surge então a denominação Rua do Arco do Cego, com as definições que hoje lhe conhecemos entre a Avenida Visconde Valmor e o Campo Pequeno.

Rua do Arco do Cego - Freguesias das Avenidas Novas e do Areeiro

Rua do Arco do Cego – Freguesias das Avenidas Novas e do Areeiro

 

O Arco do Rosário das Cercas Moura e Fernandina

Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Sérgio Dias)

O Arco do Rosário, que se abre no Largo do Terreiro do Trigo e nos conduz à Rua da Judiaria, fez parte integrante da antiga Cerca Moura e foi depois reaproveitado para ser uma das 34 portas da Cerca Fernandina, construída entre 1373 e 1375.

Com a designação anterior de Porta da Judiaria, passou a Arco do Rosário provavelmente devido à presença da Ermida de Nossa Senhora do Rosário no cimo do arco mas que entretanto desapareceu. Da transição entre a Judiaria e o Arco do Rosário ficou metade do arco entaipado, já que este teria uma volta completa sendo que hoje a outra meia volta está aparentemente integrada no prédio que a suporta.

Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior

Freguesia de Santa Maria Maior

O Arco Escuro

Freguesia da Sé – futura Freguesia de Santa Maria Maior

Após a conquista de Lisboa aos mouros em 1147 as Portas medievais da Cerca Moura tornaram-se Arcos, já que a finalidade militar de defesa das primeiras deixou de ter utilidade e o espaço urbano se abriu.

Este Arco seria o antigo postigo da Rua das Canastras, aberto na muralha depois da reconquista, segundo alguns autores, mas para outros, seria o lugar da Porta do Mar, por onde entrava o mar aquando da maré-cheia. Norberto Araújo identifica o Arco Escuro com a Porta do Mar avançando que «Porta do Mar (erradamente dita a Antiga), depois Postigo da Rua das Canastras, que sendo antiquíssima tudo leva a crer não fosse, militarmente, do tempo mouro; situava-se onde é hoje o Arco Escuro, na Rua dos Bacalhoeiros.»

Do final deste arruamento nasce o Beco do Arco Escuro que fora o Beco do Jardim mas que o Edital do Governador Civil de 1 de Setembro de 1859 quis associar à proximidade ao Arco Escuro.