Calderon Dinis da revista «Cine», num Largo do Parque das Nações

Freguesia do Parque das Nações
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Calderon Dinis, alfacinha nascido e criado em Lisboa, homem de múltiplos talentos, entre os quais o de ter sido editor da Revista Cine, está homenageado na toponímia da Freguesia do Parque das Nações, com a legenda «Jornalista/1902 – 1994».

O Largo Calderon Dinis nasceu no  impasse B do Casal dos Machados, junto à Rua Padre Abel Varzim, pela deliberação camarária de 21 de julho de 1999 e consequente Edital de dia 30 desse mês, quando este arruamento ainda era pertença da Freguesia de Santa Maria dos Olivais, escolhido mesmo por o homenageado ter vivido e falecido nessa freguesia.

Alberto Maria Calderón Dinis (Lisboa/22.12.1902 – 26.03.1994/Lisboa) foi sobretudo um homem dos jornais que também por aí começou a sua ligação ao cinema. No período de 1928 a 1930, ainda no tempo do cinema mudo, foi  editor da revista mensal Cine, com sede no nº 10 do Largo Trindade Coelho. Mais tarde, por volta de 1946, escreveu várias novelas de cinema sobre os filmes então em exibição e, em 1949, elaborou os diálogos do filme Sol e Touros (1949), dos Produtores Associados, com realização de José Buchs.

Calderon Dinis nasceu lisboeta em Santos embora ainda criança tenha ido morar para o Bairro Alto, onde frequentou a escola municipal. Prosseguiu para o Liceu Passos Manuel, altura em que também publicou textos e desenhos no jornal Careca, e quando concluiu o curso liceal, aos 17 anos, começou a trabalhar –  no dia 20 de julho de 1920 –  no Diário de Notícias, à época ainda sediado no Bairro Alto. Foi funcionário deste periódico durante 54 anos, tendo sido primeiro admitido na contabilidade, para escrever letra francesa com aparos de bicos cortados. Depois, o administrador, o Prof. Beirão da Veiga, colocou-o ao pé de si para o ajudar a organizar eventos diversos. Em 1926, começou a fazer banda desenhada para o suplemento Notícias Miudinho, tendo criado as personagens Zé do Coco, Tonecas, Trovão das Pistolas. Na edição de domingo do Diário de Notícias  publicava contos e crónicas de tom satírico, que também ilustrava. Entre 1953 e 1963, lançou, dirigiu e coordenou o Almanaque Diário de Notícias. Também a partir de 1953 dirigiu a Editorial Notícias, até à sua reforma em 1974, com um catálogo de autores nacionais e estrangeiros, obras de consagrados como Ferreira de Castro, Gaspar Simões, Rocha Martins e edições infantis e juvenis.

Trabalhou ainda para outros periódicos como o Diário Popular, o República, o Jornal de Notícias, o Arquivo Nacional e A Noite (em 1939) de Augusto de Castro.

Sob o pseudónimo de Mac Dennis foi também escritor de romances policias, como A herança do banqueiro, o nº 9 da coleção policial da Empresa Nacional de Publicidade. Também usou o pseudónimo Fiscal de Serviço e escreveu o livro intitulado O Quarto 233 (1975), uma escolha dos seus melhores contos antes publicados em jornais. Também escreveu 3 peças para o Teatro Nacional que desapareceram no incêndio de 1964 e redigiu monografias turísticas, também por si ilustradas, como Ribatejo (1964), Braga e seu Distrito (1965), ou Portalegre, Marvão e Castelo de Vide (1970). Também foi tradutor, como por exemplo de Sete anos de aventuras no Tibete de Heinrich Harrer.

Como desenhador e aguarelista, realizou exposições em Lisboa (1925) e no Salão dos Humoristas do Porto (1926). Em 1983, na Galeria do Diário de Notícias, expôs profissões antigas e tipos característicos de Lisboa e três anos depois, publicou na Dom Quixote Tipos e Factos da Lisboa do Meu Tempo, com a memória de acontecimentos e curiosidades da vida de Lisboa, que foi  Prémio Júlio de Castilho da CML. Em 1988, expôs no Palácio dos Coruchéus todos os desenhos e aguarelas desse livro, espólio que a edilidade lisboeta adquiriu para o Museu da Cidade.  Em 1993, a Editorial Notícias lançou uma 2ª edição da obra, com mais textos e desenhos, bem como uma nota introdutória da Drª Salete Salvado. A última exposição de Calderon Dinis em Lisboa, foi realizada postumamente, em 1995, na Casa da Imprensa, por iniciativa de um grupo de amigos.

Freguesia do Parque das Nações
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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António Lopes Ribeiro do «Pai Tirano» numa Rua do Lumiar

António Lopes Ribeiro no centro da foto com todo o elenco e técnicos no 1º dia de filmagens de O Pai Tirano (Foto: Animatógrafo, 14 de julho de 1941)

António Lopes Ribeiro, o realizador de  filmes humorísticos como O Pai Tirano ou A Vizinha do Lado e, irmão mais velho de Francisco Ribeiro (conhecido como Ribeirinho), desde a publicação do Edital municipal de 31 de maio de 2000 que dá o seu nome à Rua A da Urbanização do Parque das Conchas, no Lumiar, nas proximidades do local onde se sediou a sua produtora, que ficava fronteira aos estúdios da Tobis Portuguesa.

Este topónimo surgiu em resultado de uma sugestão inserta na moção de pesar apresentada em 1995 pelo então Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Dr. Jorge Sampaio, e aprovada por unanimidade. Refira-se que nesta mesma freguesia a toponímia consagrou igualmente a Tobis Portuguesa (06/01/1993), bem como os cineastas Manuel Costa e Silva ( 31/05/2000) e Manuel Guimarães (10/04/2007).

Freguesia do Lumiar
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Pioneiro do cinema sonoro português, o alfacinha António Filipe Lopes Ribeiro (Lisboa/16.04.1908 – 14.04.1995/Lisboa) estreou-se  aos vinte anos de idade, em 1928, com o documentário Bailando ao Sol, alicerçado no que aprendera nas visitas que fizera aos estúdios alemães e russos, no final do período mudo. Sobre a cidade Lisboa fixou-nos na retina muitas curtas metragens, como Exposição do Mundo Português (1941), Cortejo Histórico de Lisboa (1947), Lisboa de Hoje e de Amanhã (1948), Lisboa vista pelas suas crianças (1958) e as longas-metragens que ao longo de gerações se mantiveram populares como O Pai Tirano (1941) ou A Vizinha do Lado (1945).

Da sua extensa filmografia contam-se ainda inúmeros documentários encomendados por organismos estatais e pela Câmara Municipal de Lisboa e outros filmes de carácter mais dramático como Gado Bravo (1934), A Revolução de Maio (1937), Amor de Perdição (1943),  Frei Luís de Sousa (1950) e O Primo Basílio (1959). Lopes Ribeiro foi também produtor de filmes, como de Aniki-Bobó de Manoel de Oliveira, de O Pátio das Cantigas do seu irmão Ribeirinho, ambos em 1942,  e também de Camões (1946), de Leitão de Barros.

António Lopes Ribeiro desempenhou ainda funções de presidente do Sindicato dos Profissionais de Cinema (1938 a 1943 e em 1957); de diretor de jornais de atualidades como o Jornal Português e Imagens de Portugal; de fundador do Senhor Doutor (1932) e das revistas Imagem (1928), Kino (1930) e Animatógrafo (1933); para além de crítico cinematográfico, sob o pseudónimo de «Retardador», onde se destaca a sua 1ª publicada no Sempre Fixe, a sua página no Diário de Lisboa a partir de 1927 e que foi a primeira num jornal diário, para além de ter representado Portugal no IV Congresso da Crítica, em 1937, em Paris. Refira-se ainda que realizou muitas traduções e da sua própria lavra publicou as coletâneas de poemas O Livro de Aventuras (1939) e O Livro das Histórias (1940), bem como as compilações de crónicas Esta Pressa de Agora (1963) e Anticoisas e Telecoisas (1971).

Homem também ligado ao teatro, Lopes Ribeiro fundou as companhias Os Comediantes  de Lisboa (1944) e Teatro do Povo (1952), sendo de realçar que foi quem apresentou na Lisboa de 1959 as primeiras peças de Ionesco. Na Rádio, foi Diretor de Música Mecânica da Emissora Nacional (de 1935 a 1937) e exibiu um programa semanal dedicado ao jazz. Na televisão, António Lopes Ribeiro foi o rosto do programa Museu do Cinema que de 1957 a 1974 passou semanalmente na RTP, acompanhado ao piano por António Melo, e que regressou em 1982. Era também ele o autor do poema A Procissão declamado e popularizado na RTP por João Villaret. E ainda de 1959 até aos inícios da década de 70 era responsável pela tradução e legendagem de filmes estrangeiros. Finalmente, em 1984 e 1985 integrou o elenco de Chuva na Areia, a 2ª telenovela portuguesa.

António Lopes Ribeiro recebeu o Prémio Paz dos Reis pelo documentário A Inauguração do Estádio Nacional (1944), o Grande Prémio do Secretariado Nacional de Informação por A Vizinha do Lado (1945), a Ordem de Santiago e Espada (1940) e a Ordem de Mérito Civil de Espanha. O seu nome está também presente na toponímia dos concelhos de Amadora, Oeiras (Queijas), Portimão, Seixal (Corroios) e Sintra (Rio de Mouro).

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Artur Ramos, o primeiro realizador da RTP, numa Rua de Santa Clara

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Artur Ramos, o primeiro realizador efetivo da televisão portuguesa, três anos passados sobre o seu falecimento passou a dar nome a uma artéria do Vale da Ameixoeira, na Freguesia de Santa Clara.

A Rua Artur Ramos foi fixada no arruamento projetado junto à Quinta da Atalaia à Rua 6B do Vale da Ameixoeira, por intermédio do Edital municipal de 16 de setembro de 2009, com a legenda «Encenador e Realizador/1926 – 2006». Pelo mesmo Edital foram perpetuados em ruas do Vale da Ameixoeira mais dois nomes ligados ao teatro, a saber, a atriz Glicínia Quartin e o compositor de teatro de revista Frederico de Brito.

O lisboeta Artur Manuel Moreira Ramos (Lisboa/20.11.1926 – 09.01.2006/Lisboa) foi o primeiro realizador efetivo da televisão portuguesa e o responsável pelas emissões experimentais da RTP, em Palhavã, logo em 1956. A partir de 1951, cursara Realização e Montagem do IDHEC, em Paris, com uma bolsa do governo francês, cuja prova final foi a sua curta-metragem Le Bel indiférent (1954) e no ano seguinte trabalhou na televisão francesa como assistente de realização. Como cineasta,  sobressaiem os seus filmes Pássaros de Asas Cortadas (1962) e A Noite e a Madrugada (1983), a partir das obras de Luiz Francisco Rebello e Fernando Namora, bem como a série adaptada para a RTP de Retalhos da Vida de Um Médico (de 1978 a 1980), tal como Resposta a Matilde (1986) em colaboração com Diniz Machado.  Foi ainda o cineasta autor da média-metragem Before Breakfast  (1961) de E. O’Neill para a ORTF; de L’ Anglaise (1963) para a Paris Match Television; da curta Tragédia do Monte Pereira (1975); de séries de 3 episódios para a RTP: a documental Um Passeio pelo Teatro Português (1987) e A Relíquia (1987) de Eça de QueirozBâton e Vem aí o Pai Natal (ambas em 1988).

Artur Ramos também fez uma carreira muito importante de realizador de teatro televisivo. Para a RTP, logo em 1957, começa a especializar-se em teatro televisivo e escolheu obras de Tchekhov, Garrett, Anselmo Lopes Vieira, Bernard Shaw, Calderón de la Barca, Carlos Selvagem, Cervantes, Claude Spaak, Gervásio Lobato, Gil Vicente, João Pedro de Andrade, John Synge, Lope de Vega, Maeterlinck, Mark Twain, Miguel Barbosa, Oscar Wilde, Pierre Barbier, Teresa Rita,  Thortnton Wilder. Em 1958, realizou também a experiência inédita de transmitir peças teatrais em direto de cenários naturais , com o Amor Posto à Prova  de Marivaux na escadaria do Seminário dos Olivais e, O Doente Imaginário de Molière no Palácio Centeno.

Como encenador, Artur Ramos fundou as companhias teatrais GAT-Grupo de Ação Teatral e a do Teatro Maria Matos, para além de se ter destacado  por ter sido quem primeiro estreou em Portugal Os Dias Felizes, de Samuel Beckett, no ano de 1968. Trabalhou para o Teatro Nacional em 1961, 1967 e 1969; para Solnado no Teatro Villaret em 1965 e 1966; bem como na dramaturgia de ópera, no Grupo Experimental de Ópera de Câmara (1963, 1968 e 1969) que fundou. Em 1972, foi proibida a sua A Mãe, bem como Auschwitz, Oratório em 11 cantos foi retirada de cena pela PIDE. No ano seguinte, ganhou o 1º prémio do concurso da FNAT, com o Retábulo do Flautista, pelo Grupo Teatro da Oliva (de São João da Madeira), de imediato proibida pela censura. Voltou ao teatro a partir de 1977, para encenar nos Bonecreiros, no Teatro da Bugiganga, na Casa da Comédia, no Teatro Nacional, no Grupo de Teatro de Campolide já estabelecido em Almada, no Teatro São Carlos, na Companhia Teatro Estúdio de Lisboa e no Teatro Experimental de Cascais.

Como cidadão, Artur Ramos aderiu ao PCP em 1957, o que lhe valeu em 1961 o despedimento político da RTP, justificado pelo pacifismo da realização da peça O Herói e o Soldado de Bernard Shaw. Em 1969, na primavera marcelista, regressou à RTP como free-lancer e assim realizou mais peças, de António Chiado, Francisco Manuel de Melo, Gil Vicente, Mrozeck, Paddy Chayeefsky, Reginald Rose, A. Miller, Manuel da Fonseca e Brecht. Após o 25 de Abril, foi nomeado Diretor de Programa da RTP, até agosto desse ano, passando depois a dirigir o Departamento de Programas Teatrais. Após o 25 de novembro de 1975 voltou a ser despedido da RTP por motivos políticos e reintegrado em 1986, por sentença judicial.

Este lisboeta, que foi pai de outra cara conhecida da televisão portuguesa – Helena Ramos -, estudou no Liceu Camões e licenciou-se em Filologia Germânica na Faculdade de Letras de Lisboa. Foi ainda crítico de teatro na Seara Nova, tradutor, dirigente da Sociedade Portuguesa de Autores e professor das Escolas de Teatro e Cinema do Conservatório Nacional (1982) e de um curso na Escola de Teatro do Centro Cultural de Évora (1986).

Freguesia de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

A Rua José Rodrigues Miguéis de Saudades para a Dona Genciana

Freguesia de Benfica
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

José Rodrigues Miguéis, autor do conto «Saudades para a Dona Genciana», desde o ano seguinte ao seu falecimento tem o seu nome inscrito na toponímia de Lisboa, numa artéria da freguesia de Benfica, a unir a Estrada de Benfica à Rua Prof. José Sebastião e Silva.

A Rua José Rodrigues Miguéis ficou na Rua C à Estrada de Benfica através do Edital municipal de 1 de junho de 1981, em resultado da Proposta nº 198/80, subscrita pelos vereadores do Partido Socialista, aprovada por unanimidade na reunião camarária de 5 de novembro de 1980.

José Claudino Rodrigues Miguéis (Lisboa/09.12.1901 – 28.10.1980/Nova Iorque – E.U.A. ), nascido no nº 13 da Rua da Saudade, filho de uma beirã e de um galego republicano, formou-se em Direito pela  pela Universidade de Lisboa em 1924 e exerceu a advocacia, foi delegado do Ministério Público e professor do ensino secundário oficial e particular. Em 1933 licenciou-se em Ciências Pedagógicas na Universidade Livre de Bruxelas após o que, com Raúl Brandão, dirigiu um conjunto inacabado de Leituras Primárias, obra que nunca viria a ser aprovada pelo governo. Impedido de ser docente em Portugal, expatriou-se em 1935 para os Estados Unidos da América, voltando esporadicamente a Portugal e em 1942 adquiriu a nacionalidade americana. A partir desse ano e durante cerca de dez anos, exerceu funções de Assistant Editor das Seleções do Reader’s Digest, para além de colaborar regularmente na imprensa de Lisboa e se dedicar à tradução de obras de Stendhal, Carson McCullers, Erskine Caldwell ou F.Scott Fitzgerald.

Como escritor, a sua obra configura sínteses originais do presencismo e do neorrealismo, com mestria no uso da ironia e do humor. As suas novelas e contos fizeram de Rodrigues Miguéis uma referência obrigatória e um dos melhores no género: Páscoa Feliz (1932) – Prémio da Casa da Imprensa – retrato da desagregação mental do sujeito até ao limite da loucura e do crime; Onde a Noite se Acaba (1946), sobre a dissolução do sujeito associada a elementos fantásticos;  Léah e Outras Histórias (1958) – o primeiro Prémio Camilo Castelo Branco – onde se inclui  «Saudades para a Dona Genciana», considerada a obra-prima da ficção migueisiana, em que Dona Genciana representa o espaço humano da Avenida (Almirante Reis) e esta é a cidade de Lisboa; Um Homem Sorri à Morte – Com Meia Cara (1959), experiência autobiográfica; Gente da Terceira Classe (1962), sobre a condição do imigrante. Foi ainda publicado Pass(ç)os Confusos (1982), uma reedição do livro de contos Comércio com o Inimigo (1973), com um conjunto de narrativas antes publicadas na imprensa.

Publicou também 6 romances:  Uma Aventura Inquietante (1958), policial que denuncia as arbitrariedades da Justiça, antes publicado – entre 1934 e 1936- no jornal O Diabo, sob o pseudónimo de Ch. Vander Bosh; A Escola do Paraíso (1960), centrada na infância do herói entre o fim da Monarquia e os alvores da República; Nikalai! Nikalai! (1971), sobre uma comunidade de russos brancos em Bruxelas que pretende repor no trono o czar Nikalai; O Milagre segundo Salomé (1975), fresco da sociedade lisboeta com a degradação dos sonhos republicanos que culminaria no 28 de maio de 1926; O Pão Não Cai do Céu (1981), antes saído como folhetim no Diário Popular, focado no cigano como herói e símbolo unificador da luta pela terra e pela liberdade na planície alentejana; Idealista no Mundo Real (1986) que problematiza as contradições de um jovem magistrado colaborador da Seara Nova em busca da sua identidade ideológica e social.

A crónica surgiu em É Proibido Apontar – Reflexões de um Burguês I (1964), O Espelho Poliédrico (1973), As Harmonias do Canelão – Reflexões de um Burguês II (1974) e, postumamente,  Aforismos & Desaforismos de Aparício (1996) que reuniu textos publicados no Diário Popular sob o título de Tablóides. As suas obras foram traduzidas em alemão, checo, francês, inglês, italiano, polaco e russo.

Desde os anos vinte do séc. XX que colaborou na imprensa portuguesa. Com Bento de Jesus Caraça dirigiu O Globo, semanário que viria a ser proibido pela censura em 1933 e ao longo da vida foi colaborador da Seara Nova, da Revista de Portugal e dos jornais Alma Nova, O Diabo, Diário Popular, Diário de Lisboa e República.

Foi também membro eleito da Hispanic Society of America (1961) e académico correspondente da Academia das Ciências de Lisboa (1976), tendo sido agraciado como Grande-Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada (1979) e, em 1998, Diana Andringa conseguiu finalmente realizar o documentário «José Rodrigues Miguéis — Um homem do povo na história da República» para a RTP, que esteve previsto para 1980.

José Rodrigues Miguéis é também topónimo nos concelhos de Almada, Amadora, Entroncamento, Gondomar, Montijo, Odivelas, Ovar, Póvoa de Varzim, Seixal, Sesimbra e Sintra.

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua do poeta neoclássico Filinto Elísio

Rua Filinto Elísio, algures entre os anos 50 e 60 do séc. XX
(Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

O sacerdote  Francisco Manuel do Nascimento que enquanto poeta neoclássico usou o pseudónimo de Filinto Elísio, é o topónimo de uma Rua da freguesia de Alcântara desde o final do séc. XIX.

A Rua Filinto Elísio nasceu na Rua nº 2 do Bairro Rolão pela deliberação camarária de 8 de julho de 1892, na presidência do Conde de Ottolini na edilidade lisboeta. E nessa mesma deliberação mais artérias do Bairro Rolão tiveram também topónimos de escritores atribuídos:  João de Barros ficou na Rua n.º 1, Soares dos Passos na Rua n.º 4, Bocage nas Ruas n.º 7 e 8 (que é a Rua Amadeu de Sousa Cardoso desde os anos oitenta do séc. XX, pelo Edital municipal de 29/02/1988), Gil Vicente na Rua n.º 9,  e o botânico Avelar Brotero ficou na Rua n.º 6 (que é a Rua Pedro Calmon desde os anos oitenta do séc. XX, pelo Edital municipal de 07/09/1987).

Na década de trinta do século XX a Rua Rua A, situada no prolongamento da Rua Filinto Elísio passou também a ser parte integrante da primeira, conforme Edital municipal em 20 de junho de 1938 e este arruamento dedicado ao poeta arcádico, com dimensão aumentada passou assim a ligar a Rua da Indústria à Rua Soares de Passos.

Na Ilustração Portuguesa em 1905

O homenageado Filinto Elísio é Francisco Manuel do Nascimento (Lisboa/23.12.1734 – 25.02.1819/Paris) de seu nome. Nasceu na freguesia de São Julião, como filho de um casal de Ílhavo, um fragateiro e uma peixeira,  que sempre viveram com João Manuel, um Mestre das Fragatas Reais e depois, Patrão-mor da Ribeira das Naus, que Filinto sempre considerou seu pai.

Francisco Manuel do Nascimento tornou-se sacerdote ordenado em 1754 e o Filinto Elísio poeta arcádico. Quando Leonor de Almeida Portugal, a futura Marquesa de Alorna, estava presa no Mosteiro de São Félix, em Chelas, com a sua irmã Maria, antes da Viradeira,  ele começou a ser visita do local e também como era moda na época começou a cortejar uma das reclusas, Maria, a quem deu  o nome árcade Daphne e à sua irmã, Leonor, o de Alcípe. Leonor retribuiu-lhe esse gesto dando-lhe o nome de Filinto Elísio, para substituir o pseudónimo de Niceno que usara até então no círculo poético do Grupo da Ribeira das Naus.

Este poeta neoclássico compôs odes, epístolas, epigramas e sátiras, tendo as suas poesias sido publicadas ainda em vida, em Paris, em 11 volumes, entre 1817 e 1819, mas só após a sua morte foram editadas em Lisboa as suas Obras Completas, num total de 22 tomos, entre 1836 e 1840, sendo a sua obra considerada precursora do Romantismo. Também os seus restos mortais foram transladados do Père Lachaise para o claustro da Sé de Lisboa em 1843, e mais tarde, para o cemitério do Alto de São João.

Refira-se que a partir de 1778 se refugiou em França, com Avelar Brotero, e foi lá que acabou por falecer, tendo nesses 41 anos conhecido o poeta Lamartine, que até lhe dedicou um poema. As suas ideias enciclopedistas e  liberais  levaram a que fosse denunciado à Inquisição em 22 de junho de 1778, por leituras heréticas proibidas e afirmações blasfemas, o que somado a uma forte amizade que o ligava a Félix da Silva de Avelar tornou-os a ambos suspeitos para o Santo Ofício, pelo que exilaram em Paris. E para sobreviver na capital francesa fez trabalhos de tradução: Os Mártires de Chateaubriand, As Fábulas de La Fontaine, Púnica de Sílio Itálico e o Elogio do Doutor António Nunes Ribeiro Sanches de M. Vicq-d’Azyr para português e verteu as Cartas de Mariana Alcoforado para francês como Lettres Portugaises de Mariana Alcoforado.

Filinto Elísio está também como topónimo nos concelhos de Ílhavo, Almada, Barreiro, Caldas da Rainha, Gondomar,  Odivelas, Oeiras, assim como Francisco Manuel do Nascimento surge em dois topónimos da Charneca da Caparica, no concelho de Almada.

Freguesia de Alcântara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua José Gomes Ferreira para quem está espantado de existir

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Aquele que no seu Panfleto Mágico ousou avisar  «É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir» – o escritor José Gomes Ferreira -, desde o próprio ano da sua morte que está perpetuado na artéria de Campo de Ourique que liga a  Rua Joshua Benoliel à Avenida Engº Duarte Pacheco.

Falecido a 8 de fevereiro de 1985, José Gomes Ferreira, diplomata, compositor, escritor e poeta recebeu três dias depois da sua morte uma deliberação da edilidade alfacinha para ser um topónimo lisboeta, sendo fixado pelo Edital de dia 21 desse mês no arruamento construído no prolongamento da Rua D. João V, entre a Rua Silva Carvalho e a Avenida Engº Duarte Pacheco, também identificado como Rua A da Urbanização das Amoreiras.

José Gomes Ferreira (Porto/09.06.1900-08.02.1985/Lisboa), nasceu na portuense Rua das Musas, filho do empresário e benemérito Alexandre Ferreira, que chegou a ser vereador republicano na Câmara lisboeta na Primeira República, veio morar para Lisboa aos 4 anos de idade. O seu pai estabeleceu-se no Lumiar e foi quem doou as suas propriedades para a construção da Casa de Repouso dos Inválidos do Comércio. José estudou nos liceus Camões e Gil Vicente e também se dedicou a ser compositor, chegando a ter a sua obra Idílio Rústico estreada pela orquestra de David de Sousa, no Politeama. Em 1919 integrou o Batalhão Académico Republicano e depois de licenciado em Direito em 1924 seguiu carreira como Cônsul de Portugal na Noruega,  em Kristiansund, até 1930.

De regresso a Lisboa colaborou em inúmeras publicações como a Presença, a Seara NovaDescobrimentoGazeta Musical e de Todas as Artes, Imagem,  Ilustração Senhor Doutor,  para além de sob o pseudónimo de  Álvaro Gomes ter traduzido filmes. Em 1945-1946, colaborou com outros poetas neorrealistas no álbum das Heróicas compostas por Fernando Lopes Graça, sendo sua a letra de «Jornada».

Para a sua carreira literária é um marco o dia 8 de maio de 1931 em que de rajada escreveu o poema «Viver sempre também cansa», que João Gaspar Simões fez publicar logo na Presença. Já antes, na juventude, editara os livros de poesia  Lírios do Monte (1919) e Longe (1921) mas foi depois de 1931 que se dedicou ao ofício de ser escritor.  Na escrita poética salientamos do que deu a lume Poesia I (1948), Poesia III (1961) que foi Grande Prémio da Sociedade Portuguesa de Escritores, Poesia V (1973), Poeta Militante I, II e III (1978) com prefácio de Mário Dionísio.Também gravou discos com a sua poesia: Poesia (1969) e Poesia IV (1971) na Philips, Poesia V (1973) na Decca / Valentim de Carvalho e Entrevista 12 – José Gomes Ferreira (1973) na Guilda da Música/Sassetti.

Na prosa, José Gomes Ferreira publicou entre outros, O Mundo dos Outros – histórias e vagabundagens (1950), O Mundo Desabitado (1960),  Os segredos de Lisboa (1962), o panfleto mágico As Aventuras de João Sem Medo (1963) do Plano Nacional de Leitura, os contos Tempo Escandinavo (1969), O Irreal Quotidiano – histórias e invenções (1971), Gaveta de Nuvens – tarefas e tentames literários (1975), O sabor das Trevas – Romance-alegoria (1976), as crónicas Intervenção Sonâmbula (1977), Coleccionador de Absurdos (1978), Caprichos Teatrais (1978) e O Enigma da Árvore Enamorada – Divertimento em forma de Novela quase Policial (1980).  Somou ainda livros de memórias como A Memória das Palavras – ou o gosto de falar de mim (1965) que recebeu o Prémio da Casa da Imprensa, Imitação dos Dias – Diário Inventado (1966), Relatório de Sombras – ou a Memória das Palavras II (1980), Passos Efémeros – Dias Comuns I (1990) ou Dias Comuns – Derrota Pairante (2018).

Como cidadão exerceu funções de Vice-Presidente da Associação Portuguesa de Escritores em 1978 e no ano seguinte,  nas eleições legislativas intercalares, foi candidato da APU- Aliança Povo Unido pelo círculo de Lisboa e no ano de 1980 tornou-se militante do PCP. Nesta cidade, ficou ligado à Rua Heliodoro Salgado assim como às suas moradas na Rua Marquês de Fronteira e na Avenida Rio de Janeiro e na sua vida pessoal, foi pai do arquiteto Raul Hestnes Ferreira e do poeta Alexandre Vargas.

Em 1978 foi agraciado com a atribuição do seu nome à Escola Secundária de Benfica projectada pelo seu filho arquiteto e a CML colocou uma placa evocativa no prédio da sua última morada em 1990, deu o seu nome dado à Mata de Alvalade e no ano do centenário do seu nascimento, através da Videoteca produziu o documentário Um Homem do Tamanho do Século. José Gomes Ferreira recebeu também o grau de Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1981) e da Ordem da Liberdade (1985), a distinção de cidadão de mérito de Odemira (1981) e o seu nome consta também da toponímia dos concelhos do Porto, Almada (Charneca da Caparica, Laranjeiro), Amadora (Reboleira), Barreiro (Lavradio, Santo António da Charneca), Beja, Benavente (Samora Correia), Braga, Cascais (São Domingos de Rana), Coimbra, Entroncamento, Gondomar (Baguim do Monte), Évora, Loures (Santo Antão do Tojal, São João da Talha, Unhos), Moita (Alhos Vedros, Baixa da Banheira, Moita, Vale da Amoreira), Montemor-o-Novo, Montijo, Odivelas (Famões, Póvoa de Santo Adrião), Oeiras (Algés), Portimão, Seixal (Arrentela, Corroios), Sesimbra, Setúbal, Sintra (Agualva-Cacém, Mem Martins), Trofa, Vila Franca de Xira ( Forte da Casa, Póvoa de Santa Iria) e Vila Nova de Gaia.

Freguesia de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O seu poema escrito na noite de 8 de maio de 1931 foi:

Viver sempre também cansa!
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde…
Mas nunca tem a cor inesperada.
O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exacto.
Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida…
E obrigam-me a viver até à Morte!
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois, achando tudo mais novo?
Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
“Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela.”
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo…

 

A Rua Augusto Abelaira da Cidade das Flores

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

O romancista Augusto Abelaira, que se estreou em 1959 com A Cidade das Flores, passou a ser o topónimo da Rua Projectada A do PER Rego, quatro anos após o seu falecimento, através do Edital de 23 de abril de 2007.

Augusto José de Freitas Abelaira ( Cantanhede -Ançã/18.03.1926 – 04.07.2003/Lisboa), começou a sua vida literária em 1959 com Cidade das Flores, numa  edição de autor, já que na época nenhuma editora arriscou publicar um romance situado na Florença de Mussolini. Dos seus 13 livros publicados como romancista e mais  3 como dramaturgo foram distinguidos As Boas Intenções (1963) com o Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências,  Enseada Amena (1966) com o Prémio de Romance de IV Encontro da Imprensa Cultural, Sem Tecto entre Ruínas (1978) com o Prémio Cidade de Lisboa e o seu último romance publicado em vida, Outrora Agora (1996), uma homenagem a Fernando Pessoa, recebeu o Grande Prémio Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, o Prémio Municipal Eça de Queirós da Câmara Municipal de Lisboa e ainda o Prémio P.E.N. Clube Português de Ficção.

Os seus outros títulos foram as peças A Palavra É de Oiro (1961), O Nariz de Cleópatra (1962) e Anfitrião, Outra Vez (1980), assim como os romances Os Desertores (1960), Bolor (1968), o monólogo Ode (quase) marítima (1968) com desenhos de Maria Keil, o livro de contos Quatro Paredes Nuas (1972), O Triunfo da Morte (1981), O Bosque Harmonioso (1982), O Único Animal Que publicado primeiro no Jornal de Letras de 16/03/1982 a 29/03/1983, Deste Modo ou Daquele (1990) e o romance póstumo Nem Só Mas Também (2004).

Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras de Lisboa, Augusto Abelaira foi também professor do ensino secundário ao longo de cinco anos, nos liceus lisboetas Dom João de Castro e Pedro Nunes. Foi também tradutor  de 1961 a 1996, sendo de destacar o seu trabalho em  A Roda da Fortuna de Roger Vaillant, O Tambor de Günter Grass, A Segunda Guerra da Indochina de Wilfred G. Burchett, O Doutor Jivago de Boris Pasternak e O Declínio da Idade Média de Johan Huizinga. Refira-se também os seus breves ensaios, como os que publicou na Gazeta Musical e de Todas Artes sobre Fernanda Botelho,  João José Cochofel, José Gomes Ferreira ou Urbano Tavares Rodrigues, para além de ter escrito os prefácios de Puta de Prisão: a prostituição vista em Custóias (1982) de Isabel do Carmo e Fernanda Fráguas e de De Noite as Árvores são Negras (1987) de Maria Isabel Barreno.

Finalmente, Abelaira teve uma forte ligação à comunicação social já que integrou a redação da revista Almanaque,  dirigiu a revista Seara Nova (1968-1969) e a revista Vida Mundial (1974-1975), assinou a  rubrica «Entrelinhas» no diário O Século  (a partir de janeiro de  1974), foi cronista em O Jornal com «Escrever na água» (1978-1992) bem como no Jornal de Letras com «Ao pé das letras» (1981 a 1996). Após o 25 de Abril de 1974, integrou a direção de Programas da RTP (1977-1978) e foi membro do Conselho de Imprensa e da Alta Autoridade para a Comunicação Social.

Augusto Abelaira foi ainda Presidente da Associação Portuguesa de Escritores no biénio 1978-1979. Já antes se havia mostrado um cidadão empenhado e crítico na luta contra o regime salazarista, participando em  movimentos  de oposição e chegou mesmo a ser detido em 1965, por como presidente do júri, ter atribuído o Grande Prémio da Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores ao angolano José Luandino Vieira – que estava então preso no Tarrafal-  pelo seu Luuanda. Neste contexto, ficou proibido de ser docente no ensino particular.

O nome de Augusto Abelaira está presente também na toponímia de Ançã (Cantanhede), Oeiras e Vale de Milhaços.

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Sítio Sitiado da Rua Luísa Neto Jorge

Freguesia de Marvila
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC/ Planta: Sérgio Dias| NT do DPC) )

A autora de Os Sítios Sitiados está desde o ano do seu falecimento como topónimo de uma artéria de Marvila, com a legenda «Poetisa/1939 – 1989».

A Rua Luísa Neto Jorge une a Avenida Avelino Teixeira da Mota à Avenida Dr. Arlindo Vicente na sequência da deliberação camarária  de 13 de março de 1989 e Edital de 29 de dezembro que assim a fixou no arruamento identificado como Rua B da Zona N 1 de Chelas.

Luiza Neto Jorge (Lisboa/10.05.1939 – 23.02.1989/Lisboa) distinguiu-se como poeta e tradutora. Frequentou a Faculdade de Letras de Lisboa onde fundou o Grupo de Teatro de Letras mas acabou por ir viver para Paris de 1962 a 1970.

Como poetisa, herdeira das poéticas simbolistas e surrealistas, o seu primeiro livro foi Noite Vertebrada (1960). Luiza Neto Jorge integrou o grupo de poetas do movimento Poesia 61, com António Ramos Rosa, Casimiro de Brito, Gastão Cruz e Fiama Hasse Pais Brandão, no âmbito do qual publicou Quarta Dimensão (1961). Seguiram-se Terra imóvel (1964) e Dezanove recantos : epopeia sumária (1969). Reuniu a sua obra dessa década sob o título Os Sítios Sitiados (1973). No ano da sua morte, saiu A lume (1989) e quatro anos depois foi coligida a obra completa, editada sob o título de Poesia : 1960-1989 : os sítios sitiados : a lume : dispersos (1993). Postumamente, foram ainda publicados Par le feu (1996), Corpo insurrecto e outros poemas (2008) e Poesia traduzida (2011). A sua obra poética está representada em quase todas as antologias de poesia portuguesa contemporânea e tem grande parte dos poemas traduzidos em diversos idiomas, mostrando como seus motivos a morte, o sexo, a pintura, a poesia e o poder da palavra.

Como tradutora deixou uma obra inigualável, nos domínios da poesia, da ficção e do teatro, tendo sido agraciada com o Grande Prémio de Tradução Literária (1987). Traduziu Céline, Apollinaire, Boris Vian, Breton, Garcia Lorca, Goethe, Ionesco Jean Genet, Karl Valentim, Marguerite Yourcenar, Oscar Panizza, Sade, Verlaine e Witold Gombrowicz, entre outros.

Para teatro fez algumas adaptações de textos, assim como escreveu diálogos para filmes de Paulo Rocha e Solveig Nordlund, o argumento de Os Brandos Costumes (1975) de Alberto Seixas Santos  e prestou assistência literária para o Relação Fiel e Verdadeira (1989) de Margarida Gil.

Na sua vida pessoal foi casada com o também tradutor e crítico teatral Manuel João Gomes (1948-2007), tendo tido como filho o ator Dinis Gomes. Residiram em Lisboa no nº 17 da Rua da Misericórdia.

Como Luiza ou Luísa é também topónimo nos concelhos de Almada, Amadora, Matosinhos, Odivelas, Oeiras, Seixal e Sesimbra para além de em Lisboa dar nome a uma escola básica.

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)