A Praça António Sardinha que não passou a Praça Maria Pimentel Montenegro

Freguesia da Penha de França
(Foto: Sérgio Dias)

O poeta e rosto do Integralismo Lusitano António Sardinha, colocado como topónimo lisboeta em 1932, e numa Praça desde 1951, recebeu após o 25 de Abril  um pedido para que fosse substituído pela poetisa Maria Pimentel Montenegro, que já era topónimo desde março de 1974 numa rua de Benfica pelo que não sucedeu modificação alguma.

O caso ocorreu logo na 1ª reunião da 1ª Comissão Municipal de Toponímia pós-25 de Abril, em 15 de novembro de 1974, a partir de uma carta de Branca Alvarez Lopes a propor à edilidade a troca do topónimo Praça António Sardinha para Praça Maria Pimentel Montenegro. Como desde a publicação do Edital municipal de 4 de março de 1974, a artéria que ligava a Rua Dr. João de Barros a uma parte da Rua K já era a Rua Maria Pimentel Montenegro, a Comissão entendeu «que o pedido não é de considerar, porquanto, o nome de Maria Pimentel Montenegro está já consagrado num arruamento da zona de Benfica e quanto à substituição do nome de António Sardinha, deverá aguardar-se maior manifestação popular nesse sentido.»

António Sardinha havia sido consagrado pelo Edital de 31 de março de 1932  na Rua H do plano de  arruamentos da Quinta da Marquesa de Abrantes, em Marvila, aprovado em sessão de 15 de maio de 1930, mas o arruamento nunca chegou a ser executado, como os outros que integravam o plano, pelo que o seu nome voltou a ser dado à Praceta nº 1 da Rua da Penha de França, compreendida entre os nºs 150 e 152 da Rua da Penha de França, através do Edital municipal de 10/01/1951, onde permaneceu até aos dias de hoje.

Política, 10 de janeiro de 1930

O homenageado é António Maria de Sousa Sardinha (Monforte/09.09.1887-10.01.1925/Elvas), formado em Direito pela Universidade de Coimbra, época em que defendeu a implantação da República em Portugal,  para a partir de 1912 se tornar o mentor do Integralismo Lusitano assim como deputado monárquico durante o consulado de Sidónio Pais. A sua obra de cariz doutrinário, define o Integralismo Lusitano como um pensamento político que conjuga a defesa da monarquia, do nacionalismo e do catolicismo, como mostram os seus ensaios O Valor da Raça (1915), A Questão Ibérica (1916), Ao Princípio Era o Verbo A Aliança Peninsular (ambos em 1924), Ao Ritmo da Ampulheta e Teoria das Cortes Gerais (ambos em 1925).

O seu pensamento político teve como órgãos de divulgação as revistas Nação Portuguesa (1914) e A Monarquia (1917), ambas co-fundadas por António Sardinha, com Alberto de Monsaraz, Hipólito Raposo, Luiz de Almeida Braga e Pequito Rebelo no primeiro caso. O seu pensamento antirrepublicano e nacionalista encontrou eco em alguns dos defensores do Estado Novo.

Como poeta, António Sardinha fundiu saudosismo com os valores integralistas lusitanos, tendo publicado Tronco Reverdecido (1910), A Epopeia da Planície (1915), Quando as Nascentes Despertam (1921), Na Corte da Saudade (1922), Chuva da Tarde (1923), para além dos póstumos Era uma Vez um Menino (1926), O Roubo da Europa (1931) e Pequena Casa Lusitana (1937).

Após a morte de Sidónio Pais e o fracasso do movimento da Monarquia do Norte António Sardinha exilou-se em Espanha, no período de 1919 a 1921. De volta a Portugal dirigiu o diário A Monarquia e colaborou no quinzenário A Farça e na revista Lusitania, até falecer aos 37 anos.

Freguesia da Penha de França
(Planta: Sérgio Dias)

Da Travessa das Chagas para a Rua de Ruben A.

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias)

O semanário O Tempo, fundado em 29 de maio de 1975 e sediado no nº 4 da Travessa das Chagas, solicitou logo nesse seu 1º ano a alteração do topónimo da artéria onde estava instalado e no ano seguinte, o topónimo mudou para Rua Ruben A. Leitão.

A Comissão Municipal de Toponímia analisou o pedido pela primeira vez na sua reunião de 22 de julho de 1975 mas entendeu que deveria colher o parecer da Junta de Freguesia, que na época era a das Mercês. A 2ª Comissão de Toponímia pós-25 de Abril reapreciou o assunto na sua reunião de 15 de junho de 1976 e «resolveu estudar previamente a origem do topónimo, reservando para uma próxima oportunidade o seu parecer sobre a pretendida alteração», conforme referem as Atas da Comissão. Finalmente, na sua reunião de 6 de julho seguinte,  a Comissão foi do parecer que «o topónimo existente não tem qualquer significado especial nem pode considerar-se tradicional» e sugeriu que passasse a denominar-se Rua Ruben A. Leitão, com a legenda «Escritor/1920 – 1975», o que se concretizou com a publicação do Edital de 6 de outubro de 1976.

Assim, a Travessa das Chagas Velhas ou Travessa das Chagas, entre a Rua da Palmeira e a Rua Eduardo Coelho, passou a ser a Rua Ruben A. Leitão, homenageando o  jornalista e escritor mais conhecido por Ruben A., que nascera no 1º andar do nº 25 da Praça do Príncipe Real e depois residira ali perto, no nº 37 da Rua do Monte Olivete, conforme consta no envelope de uma carta dirigida a Eduardo Lourenço em 1967, tendo aos 55 anos de idade, em setembro de 1975, falecido repentinamente.

Diário Popular, 10 de junho de 1975

Ruben Alfredo Andresen Leitão (Lisboa/26.05.1920 – 23.09.1975/Londres), licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas em Coimbra e ensinou cultura portuguesa no King’s College da Universidade de Londres, de 1947 a 1952,  tendo também sido convidado para docente na Universidade de Oxford alguns meses antes de falecer.

Enquanto escritor usava o pseudónimo Ruben A.  Das suas obras publicadas  são de destacar a biografia D. Pedro V: um homem e um rei (1950) bem como a edição das Cartas de D. Pedro V aos seus Contemporâneos (1961) até então inéditas; vários verbetes no Dicionário de História de Portugal dirigido por Joel Serrão; os romances Caranguejo (1954) e A Torre da Barbela (1965) que foi Prémio Ricardo Malheiros; a peça Júlia (1963); os três volumes de O Mundo à Minha Procura (1964, 1966 e 1968); O Outro que era Eu (1966); seis diários com ficção sob o título de Páginas ( de 1949 a 1970) ou a novela Silêncio para 4 (1973). A escrita de Ruben A. caracteriza-se pela irreverência linguística, desconstrução dos eixos narrativos tradicionais e mordacidade.

Foi ainda funcionário da Embaixada do Brasil em Lisboa, de 1954 até 1972, ano em passou para membro do  Conselho de Administração da Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Também desempenhou funções como diretor-geral dos Assuntos Culturais do Ministério da Educação e Cultura e colaborou em diversos jornais como o Expresso, onde foi membro do conselho editorial, e com recensões críticas no Diário Popular de 1963 a 1974.

Em termos pessoais refira-se que era reconhecido pela sua cultura ilimitada e criatividade excepcional, assim como por ter inventado o nome PPD para um partido de que nunca fez parte.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Fernando Piteira Santos, membro da 1ª Comissão Municipal de Toponímia pós 25 de Abril

Freguesia de Carnide
(Foto: Sérgio Dias)

Fernando Piteira Santos foi membro da primeira Comissão Municipal de Toponímia após o 25 de Abril de 1974, bem como da primeira Comissão Municipal de Toponímia da década de 90 do séc. XX, e desde o ano seguinte ao seu falecimento dá nome a uma Rua de Carnide, com a legenda «Político e historiador/1918 – 1992».

A primeira Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa após o 25 de Abril de 1974 era presidida pelo Vereador Henrique José Monteiro Chaves  e integrava o Dr. Fernando Castelo Branco, em representação da autarquia, bem como três personalidades convidadas, a saber a Drª Maria da Conceição Machado, a  Drª Leonor Pizarro Beleza e o Dr. Fernando Piteira Santos. A primeira reunião desta Comissão ocorreu em 15 de novembro de 1974 e a última, no dia 22 de julho de 1975.

Piteira Santos voltou a ser convidado para a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa, na primeira dos anos 90 do séc. XX, onde participou desde a primeira reunião, em 8 de junho de 1990, até à data do seu falecimento.

No ano seguinte, a partir de uma moção aprovada por unanimidade na reunião de Câmara de 30 de setembro de 1992  e formalizado através do Edital municipal de  26/01/1993, Fernando Piteira Santos  passou a ser o topónimo do Impasse G da Nova Urbanização do Bairro Padre Cruz, a ligar hoje a Rua Prof. Arsénio Nunes à Rua Prof. Sedas Nunes. O mesmo edital também colocou o professor catedrático Tiago de Oliveira no Impasse I, contribuindo para reforçar a presença de professores universitários naquela  zona da cidade.

Piteira Santos com Oliveira Marques (à esquerda) em 25 de outubro de 1975, numa conferência no São Luiz
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Fernando António Piteira Santos (Amadora/23.01.1918 – 28.09.1992/Lisboa) foi um político, historiador, professor universitário e jornalista. Logo nos anos quarenta do séc. XX dirigiu movimentações estudantis contra as propinas e pela Autonomia Universitária e veio a ser membro do Comité Central do PCP entre 1941 e 1950, ano em que foi expulso a pretexto de uma falsa acusação de delação, aproximando-se então da Resistência Republicana e Socialista. Oposicionista ativo ao Estado Novo conheceu os cárceres da ditadura, tendo sido preso por três vezes. Colaborou na tentativa de assalto ao Quartel de Beja (1961) vendo-se por isso obrigado a passar à clandestinidade e depois ao exílio político em Argel, onde foi um dos membros fundadores da Frente Patriótica de Libertação Nacional (FPLN) e de lá só regressou após a revolução de 25 de Abril de 1974.

Em maio de 1974 foi nomeado Diretor-Geral da Cultura Popular e Espetáculos mas exerceu o cargo apenas por um mês e passou a dirigir os Centros Populares 25 de Abril e a integrar a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa. Em 1977 esteve na fundação da associação Fraternidade Operária, criada por destacados dirigentes e militantes do PS, entre os quais Lopes Cardoso e César Oliveira, descontentes com o rumo político tomado pelo partido.

De 1974 a 1988 Piteira Santos também lecionou na Faculdade de Letras de Lisboa e na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, dedicando-se sobretudo ao estudo das questões metodológicas da História e dos regimes fascistas e totalitários, em especial o Estado Novo.

Enquanto fundador da Sociedade Portuguesa de Autores teve um papel preponderante na luta pela independência e liberdade dos autores portugueses mas também trabalhou nas editoras Europa-América e Sá da Costa, para além de se dedicar ao jornalismo, particularmente no Diário de Lisboa, de que foi diretor-adjunto de 1974 a 1989 e onde assinou a coluna de análise política «Política de A a Z» a partir de 1976. Também colaborou na Seara Nova e na revista Ler, da qual chegou a ser chefe de redação.

Freguesia de Carnide
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do político liberal Rodrigo da Fonseca

A Rua Rodrigo da Fonseca em data entre 1898 e 1908                                                                                  (Foto: Machado & Souza, Arquivo Municipal de Lisboa)

Na antiga Azinhaga do Vale de Pereiro está desde 1884 fixado o político liberal Rodrigo da Fonseca, pela deliberação camarária de  28 de fevereiro e consequente Edital de 4 de março, na artéria que hoje se estende da Rua do Salitre à Rua Marquês de Fronteira.

Rodrigo da Fonseca Magalhães (Condeixa-a-Nova/24.07.1787-11.05.1858/Lisboa), ainda quando estudante em Coimbra, abraçou a carreira militar alistando-se no  Batalhão Académico sob o comando do lente de Matemática Tristão de Oliveira, para combater as invasões francesas de 1807. Dez anos depois, em 1817, sendo tenente e estando implicado na conspiração de Gomes Freire, abandonou o exército e refugiou-se no Brasil onde foi secretário do seu antigo comandante Luís do Rego Barreto e a partir de 1821, da Junta Governativa organizada após a Revolução Liberal do Porto. Ainda nesse ano de 1821, fundou o primeiro jornal político de Pernambuco, o Aurora Pernambucana.

Regressou a Portugal em 1822 com o general Luís do Rego Barreto de quem já era então genro, mas após o triunfo da Vilafrancada foram ambos deportados para a Figueira da Foz. Em 1824, Rodrigo da Fonseca obteve licença para morar em Viana do Castelo mas  em 1828, após se recusar a aderir à causa da monarquia absoluta de D. Miguel teve de se refugiar em Inglaterra, tendo embarcado com o seu amigo Silva Carvalho. Em Londres apresentou-se a Pedro de Sousa Holstein, futuro Duque de Palmela, que liderava a emigração constitucional portuguesa, sendo colocado na secretaria da embaixada, encarregue de dirigir os jornais liberais Aurora e Paquete de Portugal. 

Voltou de vez ao nosso país após o desembarque de D. Pedro IV no Mindelo, sendo então diretor-geral do Ministério dos Negócios Eclesiásticos e da Justiça e administrador da Imprensa Nacional. Foi também deputado pelo Minho (1934); fundador com António Pereira dos Reis e redator do Revista; Ministro dos Negócios do Reino do Duque de Saldanha (1835)  período em que criou por decreto o Instituto de Ciências Físicas e Matemáticas em Lisboa mas revogado após protestos da Universidade de Coimbra e queda do governo, repetindo a pasta no governo do 1º Conde de Bonfim (1839) embora tenha contribuído para a sua queda defendeu no parlamento que não podia governar sem a liberdade da imprensa, voltando à pasta em 1851-1856 outra vez com o Marechal Saldanha; Ministro dos Negócios Estrangeiros (1841) no governo de Joaquim António de Aguiar; Conselheiro de Estado (1842); e ainda Par do Reino (1847).

Tendo fixado a sua residência em Lisboa na Rua dos Navegantes, onde veio a falecer, Rodrigo da Fonseca foi ainda sócio emérito da Academia Real das Ciências de Lisboa, sócio do Conservatório Real de Lisboa e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil. Recusou títulos nobiliárquicos mas mesmo assim foi galardoado como fidalgo cavaleiro da Casa Real (2 de agosto de 1835), com a grã-cruz da Ordem de Cristo, o grau de cavaleiro da Ordem da Torre e Espada, a Cruz n.º 4 das Campanhas da  Guerra Peninsular e a medalha britânica de 7 ações.

Freguesias de Santo António, Avenidas Novas e Campolide (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias de Santo António, Avenidas Novas e Campolide
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

Ferreira de Castro, emigrante no Brasil e autor de «A Selva», numa rua de Marvila

Freguesia de Marvila (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias)

Ferreira de Castro, o autor de A Selva – fruto da sua experiência como emigrante no Brasil-, desde a publicação do Edital municipal de 28 de fevereiro de 1984 é o topónimo de uma rua de Marvila, identificada até então como Rua E da Zona N 1 de Chelas.

O mesmo Edital colocou numa rua da mesma freguesia, mas na Zona L de Chelas,  a escritora brasileira Dinah Silveira de Queiroz. Cinco anos depois,  junto à Rua Ferreira de Castro nasceu a Rua como o nome da poetisa Luísa Neto Jorge e em 1997, paralela, surgiu a Avenida José Régio.

Ilustração, 1 de novembro de 1933

Ilustração, 1 de novembro de 1933

José Maria Ferreira de Castro (Oliveira de Azeméis- Ossela/24.05.1898 – 29.06.1974/Porto) foi um escritor e jornalista que retratou na sua obra a vida dos emigrantes no Brasil, nomeadamente no romance Os Emigrantes (1926), e em A Selva (1930), no qual narra a vida nos seringais da Amazónia inspirando-se na sua própria experiência de trabalho. A Selva, romance focado no drama dos trabalhadores dos seringais na Amazónia, com muito de reportagem e objetividade quase fotográfica, foi traduzida para dezenas de línguas e tornar-se-ia num dos romances portugueses mais lidos desde sempre, sendo em 1973 um dos dez romances mais lidos em todo o mundo segundo a UNESCO. A edição de A Selva no Brasil, em 1935, foi prefaciada por Afrânio Peixoto  e, em 2002, numa produção luso-hispano-brasileira, a obra foi adaptada ao cinema por Leonel Vieira.

Ferreira de Castro foi considerado precursor do neorrealismo, pela sua inovadora obra marcada pelo sofrimento e pobreza causados pela morte prematura do pai em 1906, assim como pela sua dura experiência de emigração no Brasil desde os 12 anos (1910). Viveu durante quatro anos como caixeiro, no seringal Paraíso, em plena selva amazónica e depois teve de  recorrer a trabalhos como colar cartazes em Belém ou ser embarcadiço em navios entre Belém e a Guiana Francesa.

Escreveu o seu primeiro romance Criminoso por ambição (1916) no seringal e publicou-o em fascículos no Brasil. Do conjunto das suas 31 obras refiram-se ainda a peça A Alma Lusitana (1916), O Êxito Fácil (1923), Sangue Negro (1923),  A Metamorfose (1924), A Epopeia do Trabalho (1926), O voo nas Trevas (1927), Terra Fria (1934) – que foi Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciênciastambém adaptada a filme de António Campos em 1992-  A Tempestade (1940), A Lã e a Neve (1947), O Instinto Supremo (1968) , Os Fragmentos (1974) e os dois volumes de  As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-1963), que receberam em 1965 Prémio Catenacci da Academia de Belas Artes de Paris. Duas das suas obras, que terminou em 1936- O Intervalo e a peça Sim, uma Dúvida Basta, feita para o Teatro Nacional e censurada  por despacho governamental – só foram publicadas em 1974 e 1994.

No jornalismo, colaborou logo em 1916 no Jornal do Novos (em Belém). Fundou e dirigiu com outro emigrante, João Pinto Monteiro, em 1917, o semanário Portugal , destinado à comunidade lusa de Belém do Pará e dois anos depois, também O Luso, com a intenção de promover a aproximação luso-brasileira para além de A Hora, «revista panfleto de arte, actualidades e questões sociais» (1922), a revista Civilização (1928) com Campos Monteiro, para além de ter colaborado nas revistas O domingo ilustrado e Ilustração (1934), o jornal O Diabo (1935) e ainda, co-dirigido com António Ferro, a «Página Portuguesa» da Gaceta Literaria. Tornou-se colaborador do jornal Imprensa Livre (1921), revista A. B. C. dirigida por Rocha Martins (1922), «Suplemento Literário» do diário A Batalha e da revista Renovação (1925),  ambos da Confederação Geral do Trabalho anarco-sindicalista, do jornal O Século (1927) e do jornal carioca A Noite (1938). Assinou crónicas vibrantes, como o dia em que se deixou prender no Limoeiro para testemunhar a vida dos reclusos nas cadeias portuguesas ou a sua entrevista exclusiva em 1930, em Dublin, com Eamon de Valera, líder do Sinn Fein , ao serviço do jornal de João Pereira da Rosa.

Em 1926 foi eleito presidente do Sindicato dos Profissionais da Imprensa de Lisboa. Em 1945, denunciou os efeitos nefastos da censura sobre os escritores portugueses numa entrevista ao Diário de Lisboa, integrou a Comissão Consultiva e a Comissão de Escritores Jornalistas e Artistas do Movimento da Unidade Democrática (MUD) e em 1949, apoiou vivamente a candidatura de Norton de Matos à presidência da República. Em 1962, foi eleito por unanimidade presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores, da qual era o sócio nº 2 e Aquilino o nº 1. em 1974 acolheu o 25 de Abril com grande emoção e participou logo no primeiro 1º de Maio.

Em 1959  visitou o Brasil a convite da União Brasileira de Escritores e tornou-se cidadão honorário do Rio de Janeiro com entrega da chave da cidade. Em 1966, nos 50 anos da sua vida literária foi inaugurado um monumento à sua obra numa praça de Oliveira de Azeméis. Recebeu o prémio Águia de Ouro Internacional no Festival do Livro de Nice em 1970 e no ano seguinte, a Academia do Mundo Latino atribui-lhe o Prémio da Latinidade e o seu nome foi dado a um troço da Rodovia Transamazónica, no Brasil. De outras homenagens que recebeu, refiram-se ainda uma biblioteca e uma escola secundária com o seu nome em Oliveira de Azeméis e em Ossela, a Casa-Museu Ferreira de Castro na Rua Escritor José Maria Ferreira de Castro, para além de ter um busto seu no espaço público de Manaus e de dar nome a um Prémio Literário e a um Museu  da Câmara Municipal de Sintra.

Dá ainda o seu nome a artérias de Águas Santas, Almada, Amadora, Barreiro, Bragança, Casal de Cambra, Coimbra, Corroios, Fafe, Mafra, Mem Martins, Miratejo, Ovar, Paio Pires, Pinhal Novo, Porto, Póvoa de Santa Iria, Rio de Mouro, Santa Maria da Feira, São João da Madeira, Sassoeiros, Sintra, Trofa, Viana do Castelo, bem como no Brasil, em Manaus, Ourinhos, Porto Novo, São Paulo e Teresópolis.

Freguesia de Marvila (Planta: Sérgio Dias)

A Rua de Zelins, o autor do «Menino de engenho»

Freguesia de Alvalade (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias)

Por sugestão de Guedes de Amorim num artigo publicado no Século Ilustrado,  a Comissão Municipal de Toponímia deu parecer positivo a que o autor do romance Menino de engenho, conhecido pelos amigos como Zélins, integrasse a toponímia de Lisboa no arruamento ou Praceta projetado entre a Avenida do Brasil e as Ruas Antónia Pusich e Afonso Lopes Vieira, na Freguesia de Alvalade, como Rua José Lins do Rego, o que aconteceu pelo Edital de 28 de outubro de 1960.

Escritor José Lins do Rego, 2 negativos 6x6 cm PB nitrato

José Lins do Rego Cavalcanti (Pernambuco/03.06.1901 – 12.09. 1957/Rio de Janeiro) morou no Engenho Tapuá de seu pai, e após o falecimento de sua mãe mudou-se para o engenho do seu avô materno, que era o Coronel Bubu do Corredor (José Lins Cavalcanti de Albuquerque), senhor de 8 engenhos da várzea do Rio Paraíba.

Formou-se em Direito no Recife colaborando também  no Diário de Recife e sendo um dos fundadores do semanário Dom Casmurro. Em 1925 ingressou no Ministério Público de Minas Gerais, como promotor em Manhuaçu, mas no ano seguinte transferiu-se  para a capital de Alagoas, onde passou a exercer as funções de fiscal de bancos até 1930, e fiscal de consumo, de 1931 a 1935, sendo assim que participou do movimento regionalista de 33 organizado por Gilberto Freyre no Recife. Em Maceió, colaborou no Jornal de Alagoas e participou no grupo de Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Aurélio Buarque de Holanda, Jorge de Lima, Valdemar Cavalcanti, Aloísio Branco e Carlos Paurílio, entre outros. Publicou o seu 1º livro, Menino de engenho (1932), que foi Prémio da Fundação Graça Aranha e impulsionou a literatura regionalista do nordeste do Brasil. Em 1933 publicou Doidinho, o 2º livro do «Ciclo da Cana-de-Açúcar», a que se seguiram Bangüê (1934), O Moleque Ricardo (1935), e Usina (1936), no mesmo ano em que deu à estampa o seu único livro infantil: Histórias da Velha Totonha.

Em 1935 mudou-se para o Rio de Janeiro e passou a colaborar com O Globo e Diários Associados. Foi também este o ano em que ganhou  paixão pelo futebol, passando de sócio do Flamengo a cronista desportivo e a dirigente do Clube de Regatas do Flamengo, tendo publicado 1571 crónicas desportivas só no Jornal dos Sports. A sua obra passou a espelhar  o neorrealismo pós-modernista brasileiro, com títulos como Fogo Morto (1942) ou Cangaceiros (1953). Entre muitas outras obras de Lins do Rego, destacam-se Água mãe (Prémio da Fundação Felipe de Oliveira), Eurídice (Prémio Fábio Prado). Lins do Rego foi ainda membro da Academia Paraibana de Letras e da Academia Brasileira de Letras (1955).

No presente, podemos encontrar o seu nome também perpetuado em artérias brasileiras de Belo Horizonte, Curitiba, Estado de São Paulo, Estado do Paraná, Goiás, Paraíba, Pelotas, Petrolina, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.

Freguesia de Alvalade (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do poeta Gonçalves Crespo

Capa da revista Occidente, 21 de junho de 1883

Capa da revista Ocidente, 21 de junho de 1883

Junto à Rua do Conde de Redondo está desde 1902, através da publicação do Edital de 11 de dezembro, a Rua Gonçalves Crespo, que 19 anos após o seu falecimento perpetuou o poeta nascido no Brasil, filho de uma escrava mulata (Francisca Rosa da Conceição) e de um negociante português (António José Gonçalves Crespo), cujos poemas chegaram a ser reproduzidos em postais e leques, em Portugal e no Brasil, como o seguinte:

Amar e ser amado, que ventura!
Não amar, sendo amado, triste horror:
Mas na vida há uma noite mais escura,
É amar alguém que não nos tenha amor!

Freguesia de Arroios (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias)

António Cândido Gonçalves Crespo (Rio de Janeiro/11.03.1846 – 11.06.1883/Lisboa)  veio residir para Portugal a partir dos 10 anos de idade. Seguiu para Coimbra onde se formou em Direito e nessa cidade também se iniciou na literatura, como colaborador de A Folha, fundada em 1868 por João Penha, onde colheu a sua influência parnasiana. Foi o autor de Miniaturas (1870) e Nocturnos (1882), expressando-se em poemas com reminiscências da vida familiar e cenas do quotidiano. Quatorze anos após o seu falecimento, em 1897, foram também editadas as suas Obras Completas, que em 1942 tiveram reedição com honras de prefácio de Afrânio Peixoto e capa de Maria Helena Vieira da Silva.

Gonçalves Crespo foi ainda deputado pela Índia, nas legislaturas de 1879 e 1882, e trabalhou no Diário da Câmara dos Pares, assim como colaborou no Jornal do Comércio, Artes e Letras, Cenáculo e na revista Ocidente.

Ainda estudante, casou-se com Maria Amália Vaz de Carvalho em 1874, que conhecera por um diálogo literário mantido por correspondência. Em conjunto com ela escreveu Contos para os Nossos Filhos que publicaram em 1886. O casal viveu a partir de 1875 no nº 7 da Travessa de Santa Catarina, em Lisboa, onde Gonçalves Crespo faleceu vítima de tuberculose, e a Câmara Municipal de Lisboa colocou em outubro de 1934 uma lápide evocativa de ambos na fachada do prédio.

Como curiosidades, refira-se que a Sociedade Portuguesa de Autores tem sede na Rua Gonçalves Crespo e que existe uma artéria homónima da lisboeta no Bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro.

Freguesia de Arroios (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias)

 

Os últimos topónimos atribuídos em 1916

Freguesias de Arroios e Penha de França (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias de Arroios e Penha de França
(Planta: Sérgio Dias)

O último Edital municipal de toponímia de 1916 foi publicado no dia 27 de novembro e incluiu 6 topónimos: dois relacionados com o topónimo Penha de França em dois locais distintos da cidade, três de conselheiros já sediados em Arroios aos quais foi retirado esse título,  e um referente a heróis da I Guerra Mundial numa artéria repartida entre a Penha de França e Arroios.

De acordo com as deliberações da sessão de câmara de 23/11/1916, o vereador Manuel Joaquim dos Santos apresentou uma solicitação da Junta de Freguesia de Arroios para que fossem alterados alguns topónimos de forma a «que se instaure um processo de expropriação de uma parcela de terreno na quinta do Fole à estrada da Penha de França e se passe a dar denominação de rua da Penha de França, à rua da Penha de França (á Escola Politecnica) a de calçada da Penha de França, á rua Conselheiro Carrilho a de Antonio Pereira Carrilho, à rua Conselheiro Monteverde a de rua Achiles Monteverde, à Rua Conselheiro Morais Soares, a de rua Morais Soares, e á do Caracol da Penha, a de rua dos Herois do Kionga», o que foi aprovado por unanimidade.

Assim, a Estrada da Penha de França passou a Rua da Penha de França  e importa esclarecer a origem do topónimo Penha de França neste local. António Simões, um escultor de imagens sacras ou imaginário, como se dizia na sua época, encontrando-se perdido em Alcácer Quibir fez promessa de que se voltasse a Portugal fabricaria várias imagens de Nossa Senhora e lhes daria um destino condigno. De regresso,  chamou Senhora da Penha de França (uma invocação de um santuário de Salamanca) à última imagem que produziu  e esta foi inicialmente colocada na Igreja da Vitória da Baixa lisboeta até o escultor ter erguido uma Ermida,  no Monte Alperche, em terrenos de Afonso Torres de Magalhães, onde a dita imagem de Nossa Senhora da Penha de França se acolheu em 1597, apesar da Ermida ter ficado concluída apenas no ano seguinte. Passados seis anos, em 1604, começou a construir-se no local uma nova Igreja, maior e com Casa Conventual, concluída em 1635 e que acabou por estender o nome da Senhora da Penha de França a todo o sítio, até chegar a ser também o da própria freguesia.

Pormenor da planta de Filipe Folque de 1857 (Arquivo Municipal de Lisboa)

Pormenor da planta de Filipe Folque de 1857
(Arquivo Municipal de Lisboa)

Ora já existia uma Rua da Penha de França nas proximidades da Rua da Escola Politécnica,  o que causaria equívocos caso existissem duas na cidade pelo que foi aprovado que esta passasse a designar-se como Calçada da Penha de França em 1916, embora de seguida tenha sido a Calçada João do Rio e hoje a encontremos como Calçada Engº Miguel Pais (desde a publicação do Edital municipal de 23/12/1948). Nesta artéria, quando ainda era designada como Rua da Penha de França, nasceu Maria Matos em 1886.

Já António Pereira Carrilho, Aquiles Monteverde e Morais Soares ficaram sem o título de conselheiro no enunciado dos topónimos, trocado que foi pelos seus próprios nomes, uma vez que na  I República era característico eliminar da toponímia referências à monarquia e o título de conselheiro era atribuído pelo soberano, tradicionalmente aos magistrados do Supremo Tribunal, mas também concedido a quem tivesse prestado serviços honrosos ao país.

Antonio Pereira Carrilho, Diário Ilustrad, 19 de março de 1880

António Pereira Carrilho, Diário Ilustrado, 19 de março de 1880

António Pereira Carrilho, a cujo topónimo acresceu mais tarde a legenda «Notável Economista e Jornalista/1835 – 1903 » por parecer da Comissão Municipal de Toponímia de 03/03/1960, antes de ser Rua do Conselheiro Pereira Carrilho era um troço da antiga Estrada de Circunvalação. O homenageado é António Maria Pereira Carrilho (Lisboa/10.10.1835 – 16.11.1903/Paris) que se notabilizou como Diretor Geral da Contabilidade Pública e Secretário Geral do Ministério da Fazenda, responsável por elaborar o Orçamento Geral do Estado ao serviço de diversos Governos e os explicar na Câmara dos Deputados. Carrilho desempenhou também a função de Presidente do Conselho de Administração da Real Companhia dos Caminhos-de-Ferro e também foi recompensado com a Grã-Cruz da Ordem de Cristo. Fundou ainda O Economista em 1880 e colaborou com os jornais Diário Mercantil do Porto, Gazeta do Povo, Opinião O Progressista. Esta figura do rotativismo liberal foi ainda diversas vezes deputado a partir de 1875 e par do reino em 1902 e 1903.

aquiles-monteverde-livroAquiles Monteverde, cujo topónimo recebeu mais tarde a legenda «Escritor Didáctico e Diplomata/ 1803 – 1881» por parecer da Comissão Municipal de Toponímia de 19/04/1960, antes de ser Rua do Conselheiro Monteverde (Edital de 14/02/1882) era a Travessa Cruz do Tabuado. Perpetua o nome de Emílio Aquiles Monteverde (Lisboa/09.06.1803 – 07.01.1881/Lisboa), funcionário público desde que em 1821 começou como adido à legação portuguesa de Madrid, tendo chegado a secretário geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros em 1869 e antes, em 1850 foi galardoado com o título de conselheiro, a comenda da Ordem de Cristo e a de Cavaleiro da Torre e Espada. Foi também o autor Manual Enciclopédico para uso das Escola de Instrução Primária, no último quartel do séc. XIX, aprovado pela Junta Consultiva de Instrução Pública, sendo cada edição de dezenas e centenas de milhares de exemplares.

Finalmente, sobre a Rua Morais Soares e a Rua dos Heróis de Quionga, basta aqui carregar nos seus nomes sublinhados para ser dirigido para os artigos que já publicámos sobre eles.

A Rua do Inspetor de Incêndios Carlos José Barreiros

Freguesia de Arroios (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Arroios
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua Carlos José Barreiros, com a legenda «Inspector de Incêndios», foi atribuída por edital municipal de 26 de setembro de 1916 no que era o troço da Estrada das Amoreiras que ligava o Largo de Arroios ao do Leão, a partir de uma proposta do vereador Augusto de Magalhães Peixoto, para  homenagear o funcionário camarário que se destacou como Inspetor de Incêndios.

Desconhecem-se as datas de nascimento e morte de Carlos José Barreiros, embora se possa calcular que tenha falecido antes de 1901, ano da atribuição da Rua Tomás Ribeiro, já que para a construção dessa artéria encontramos um documento municipal de expropriação de terrenos aos herdeiros de Carlos José Barreiros, com datas entre 1894 e 1908.

A Câmara Municipal de Lisboa criou a primeira Companhia de Bombeiros em 1834, conhecida como Companhia do Caldo e do Nabo, no mesmo ano em que estabeleceu uma tabela codificada dos toques a rebate. E dezassete anos depois (1851), publicou um novo Regulamento do Serviço de Incêndios. Antes de 1868, Carlos José Barreiros foi nomeado inspetor de incêndios e foi segundo uma proposta sua que os serviços de incêndio passaram a ser uma Repartição da Câmara, resolução que foi publicada em 1867. Recorde-se que no ano anterior Carlos José Barreiros havia publicado o Itinerário para os socorros dos incendios em Lisboa.

Em 18 de outubro de 1868, junto com o vereador Isidro Viana, que detinha o Pelouro dos Incêndios, Carlos José Barreiros participou numa reunião  no edifício da Abegoaria Municipal, na qual se deu corpo à formação da Companhia de Voluntários Bombeiros (CVB), sob a divisa Humanitas, vita nostra tua est, presidida por Guilherme Cossoul, e que mais tarde se denominaria Associação dos Bombeiros Voluntários de Lisboa (ABVL), tendo o seu primeiro quartel funcionado numa casa arrendada na Travessa de André Valente e a sede instalada na Travessa do Carvalho, também em espaço arrendado.

Carlos José Barreiros deu ainda à estampa, através da Tipographia Universal, Incendios: estado do serviço em 1870 (1871) e O incendio da Travessa da Palha: memória dedicada à Exma. Câmara Municipal de Lisboa (1887), sendo que todas suas obras revolucionaram o sistema de organização do combate aos incêndios e tornaram mais eficazes os serviços de luta contra o fogo na cidade de Lisboa. No seu relatório sobre o serviço no ano de 1870 louvou os bombeiros voluntários: «Ocupando-me de bombeiros não posso terminar sem aproveitar o ensejo de pagar o devido tributo de homenagem e reconhecimento à Humanitária Associação que sob modesto titulo de Bombeiros Voluntários tantos e tão apreciáveis serviços tem feito a esta cidade nos dois últimos anos. Alguns dos sócios, que têm procurado instruir-se, já são bombeiros tão aptos como os homens de profissão, e não só se chegam para o fogo, mas como batem-se com tanto acerto e tanto sangue frio como eles. (…) No nosso país é uma ideia apenas nascente, mas prometedora, porque já tem adquirido incontestáveis direitos não só aos aplausos, mas como a bênção do público.»

Em 4 de junho de 1880, Carlos José Barreiros fundou o Montepio de S. Carlos, que no ano seguinte aprovou os seus primeiros estatutos, nos quais são estabelecidos os critérios para atribuição de subsídios, pensões, enterros e legados a que os sócios têm direito. Mais tarde, os bombeiros, em homenagem ao seu fundador resolveram alterar o título da instituição para Associação dos Socorros Mútuos Carlos José Barreiros dos Bombeiros Municipais de Lisboa, que depois passou a Real Associação de Socorros Mútuos Carlos José Barreiros.

Sabe-se também que José Barbosa Leão que em 1864 fundara o Jornal de Lisboa, cedeu pouco depois  sociedade a Carlos José Barreiros, que acabou por ficar com a propriedade exclusiva do jornal.

Os Bombeiros Voluntários da Ajuda, fundados em 1881, deram ao seu quartel na Praça da Alegria, o nome de Carlos José Barreiros.

Freguesia de Arroios (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua do trompista e compositor Tomás Del Negro

Freguesia do Lumiar (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

Tomás Del Negro, o solista de trompa e compositor que muito divulgou a música em Portugal na passagem do séc. XIX para o XX através de concertos públicos, jornais da especialidade e enquanto empresário teatral e musical, desde a publicação do Edital de 15/12/2003 que dá o seu nome a uma rua do Lumiar, a partir de uma sugestão da Comissão para a Comemoração do 150º Aniversário do Maestro Tomás Del Negro.

Esta artéria que era identificada como Rua 3.2 da Malha 15 do Alto do Lumiar  foi inaugurada oficialmente no dia 1 de outubro de 2004, Dia Mundial da Música, em conjunto com outros 7 topónimos, todos referentes à área musical: a Alameda da Música, a  Rua Adriana de Vecchi (Violoncelista/1896 – 1995), a Rua Arminda Correia (Cantora/1903 – 1988), a Rua Belo Marques (Músico/1898 – 1987), a Rua Luís Piçarra (Cantor/1917 – 1999),  a Rua Nóbrega e Sousa (Músico/1913 – 2001) e a Rua Shegundo Galarza (Músico/1924 – 2003).

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Joaquim Thomaz del Negro (Lisboa/05.06.1850 – 12.02.1933/Lisboa), oriundo de uma família italiana que cultivava a arte musical e estava estabelecida no alto comércio de Lisboa desde finais do séc. XVIII, nasceu na freguesia de Santos-O-Velho e foi batizado  na Igreja  de Nossa Senhora do Loreto. Distinguiu-se como uma das figuras mais conhecidas da música e do teatro da última metade do séc. XIX e primeiro quartel do séc. XX.

Notabilizou-se como solista de trompa do Teatro Real de São Carlos (até 1878 e depois de 1890), e em Madrid, na Capela e Teatro Real (de 1879 a 1889). Como compositor ficou conhecido por diversos géneros de música (sacra, de câmara, para piano, para trompa, para banda filarmónica), mas sobretudo, pela autoria de música para teatro e operetas. Divulgou a música sinfónica e de câmara, dando a conhecer pela primeira vez ao público de Lisboa obras de grandes compositores como Beethoven, Haydn, Mendelssohn, Wagner, Weber, Glimka e Saint-Saens.

Del Negro foi também dirigente da Associação Música 24 de Junho, fundada por Francisco Norberto dos Santos Pinto, assim como professor de trompa, durante 27 anos, no Conservatório Nacional de Música de Lisboa, para além de ter sido diretor musical e coproprietário de O Álbum-Jornal de Música para Piano (1869-1871), diretor musical de O Mundo Artístico – Gazeta Musical de Lisboa (1883) e colaborador e crítico musical de inúmeros jornais e revistas como Perfis artísticos (sob o pseudónimo de Ruy Blas), A semana Musical e a Semana. Foi também empresário e diretor musical dos Teatros D. Afonso,  Carlos Alberto, Real de S. João e Príncipe Real, todos no  Porto, bem como do Teatro da Trindade, em Lisboa.

Tomás Del Negro foi condecorado com as Ordens portuguesas de Cristo e de Santiago de Espada, assim como com a Ordem espanhola de Isabel-a-Católica e chegou a existir um concurso para trompistas com o seu nome.

Freguesia do Lumiar (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias)