Novo topónimo em Lisboa: Passeio Artur Agostinho

Pelo Edital nº 141/2019 de 26/08/2019, foi atribuído ao arruamento à Rua Francisco Stromp, na Freguesia do Lumiar, o nome de Passeio Artur Agostinho.

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Régio, «As Encruzilhadas de Deus» e a Alameda António Sérgio

Publicado em 1936
(Imagem: © CER)

José Régio publicou em 1936 As Encruzilhadas de Deus, com capa e desenhos do seu irmão Júlio, nas Edições Presença – Atlântida de Coimbra e enviou esta obra a António Sérgio que lhe retribuiu com o seu parecer, em carta datada de 21 de setembro de 1936, escrita na Pensão Colaço de Alcoentre, sendo sabido que os dois escritores se corresponderam entre 1933 e 1958.

Desde a estreia de Régio em 1926 com Poemas de Deus e do Diabo, que o poeta vilacondense terá delineado manter a temática religiosa e foi assim reunindo os poemas que produzia neste âmbito, para intitular «Novos Poemas de Deus e do Diabo» mas de que acabou por resultar cerca de dez anos o novo título de 1936, por muitos considerado uma obra-prima com a sua poesia torrencial, reflexiva, lírica e dramática. Também em 1926, de  23 a 26 de abril, realizaram-se na Lusa Atenas sessões de divulgação da Seara Nova, dinamizadas por António Sérgio, a que  José Régio assistiu tendo depois colaborado na revista até 1940, ano em que António Sérgio e Mário de Azevedo Gomes abandonaram a da revista embora António Sérgio tenha regressado em 1947 e Régio em 1949, no n° 1116, de 28 de maio de 1949. Nesse ano de 1949, José Régio escreveu o artigo «O recurso ao medo», anunciado pelo jornal República de 16 de Janeiro, acabando por ser publicado num pequeno volume de 64 páginas dos Serviços Centrais da Candidatura de Norton de Matos, com o título genérico de «Depoimento contra Depoimento», numa clara alusão ao discurso «O meu Depoimento», de Salazar, de 7 de janeiro de 1949, no Palácio da Bolsa do Porto.

(Foto: © CER)

António Sérgio, cujo cinquentenário da morte passa este ano, deu nome à Alameda António Sérgio na Freguesia de Santa Clara, onze anos após o seu falecimento, artéria que liga a Rua Jorge de Sena à Rua Vitorino Nemésio, atribuída através da publicação do Edital municipal de 23 de abril de 1980, na via identificada urbanisticamente como Impasse 1 e 2 da Quinta de Santa Clara à Ameixoeira.

António Sérgio de Sousa Júnior (Índia – Damão/03.09.1883 – 12.02.1969/Lisboa) foi um importante pensador do século XX, que em Portugal lançou a ideia do Cooperativismo, mas cuja vasta obra abarca também a teoria do conhecimento e a filosofia política, a pedagogia e a filosofia da educação, assim como a filosofia da história. Radicado em Lisboa desde 1893,  estudou no Colégio Militar, na Escola Politécnica e na Escola Naval, tendo sido oficial da Marinha Portuguesa até 1910.

A partir da implantação da República em 1910, António Sérgio dedicou-se ao mundo editorial, como colaborador da revista Águia (1910), onde conheceu Teixeira de Pascoais e Fernando Pessoa, para no ano seguinte ser o diretor da revista Serões. Em 1918-1919 ( durante o consulado sidonista), fundou e dirigiu a revista Pela Grei, para a qual convocou diversos especialistas para apresentar um programa de Fomento Nacional; a partir de 1923, colabora na revista Seara Nova, como membro da direção  com Raúl Proença e Jaime Cortesão, sendo assim convidado para ministro da Instrução no governo de Álvaro de Castro, onde se manteve apenas dois meses, tempo que lhe foi suficiente para criar o ensino para deficientes, o cinema educativo e o Instituto Português para o Estudo do Cancro (decreto de 29/12/1923).

Integrou também o grupo da Biblioteca Nacional a partir do qual  lançará em 1924 a revista Lusitânia (1924), sendo  mais tarde o diretor da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Depois, residiu na Travessa do Moinho de Vento, no Bairro da Lapa, de 1926 a 1969,  numa habitação traçada pelo Arqt.º Raúl Lino, com excepção do exílio parisiense de 1926 a 1933.

Por outro lado, António Sérgio para além de teórico de pedagogia foi também professor, quer ao ministrar lições particulares na residência de alunos durante o exílio parisiense – após a subida ao poder de António Oliveira Salazar e, de onde passou para Madrid, até ter sido abrangido por uma amnistia- quer em Portugal, como docente de português no Liceu  Pedro Nunes e da Universidade de Santiago de Compostela, em 1932.

Da sua vasta obra destaquem-se Notas sobre os Sonetos e as Tendências Gerais da Filosofia de Antero de Quental (1909), Educação Cívica (1915), Bosquejo da História de Portugal (1923), O Desejado (1924), O Seiscentismo (1926), História de Portugal (1926), Cartesianismo Ideal e Cartesianismo Real (1937), Introdução Actual ao Problema Cooperativista (1937), Antero de Quental e António Vieira (1948), Antologia Sociológica (1956), oito volumes de Ensaios (1920-1958) e Democracia (edição póstuma em 1974).

A título póstumo foi agraciado com a Ordem da Liberdade (Grande Oficial em 30 de junho de 1980) e a Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (Grande Oficial em 3 de agosto de 1983) e nessa mesma década, a sua casa da Lapa, passou a servir a Biblioteca do INSCOOP e a Biblioteca António Sérgio, para além do seu nome ser o de um Prémio Cooperação e Solidariedade que a CASES criou em 2012 para distinguir pessoas singulares ou coletivas na Economia Social.

Na sua vida pessoal, António Sérgio casado com Luísa Epifâneo da Silva que chegou a assinar escritos pedagógicos como Luísa Sérgio.

Carta de António Sérgio a José Régio (Foto: © CER)
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Nascidos em 1901: Nemésio e Régio em ruas lisboetas

Freguesia de Santa Clara

Vitorino Nemésio e José Régio, que ao longo das suas vidas se vão corresponder, nasceram no mesmo ano de 1901 e partilharam também a participação em revistas comuns: Nemésio pontificou na Presença de Régio a partir de 1930 e Régio publicou na Revista Portugal  de Nemésio. Refira-se ainda que Vitorino Nemésio publicou no jornal académico Gente Nova, em abril de 1927, uma crítica favorável ao primeiro livro de José Régio, Poemas de Deus e do Diabo.

Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva (Ilha Terceira-Praia da Vitória/19.12.1901 – 20.02.1978/Lisboa), filho de Vitorino Gomes da Silva e de Maria da Glória Mendes Pinheiro, notabilizou-se como professor universitário da Faculdade de Letras de Lisboa, ensaísta, escritor e autor do famoso programa televisivo Se bem me lembro, estando desde o ano do seu falecimento na toponímia de Lisboa, através do Edital municipal de 20 de novembro de 1978, na Rua B da Quinta de Santa Clara à Ameixoeira, tendo ficado na Rua A o também escritor e professor universitário Jorge de Sena.

Na sua carreira académica, Vitorino Nemésio foi também diretor da Faculdade de Letras de Lisboa, de 1956 a 1958, bem como agraciado com o Doutoramento Honoris Causa pelas Universidades de Montpellier e do Ceará. Cumprido o serviço militar, como voluntário, a partir de 1919, concluiu o liceu em Coimbra, em 1921 e inscreveu-se no curso de Direito. Passados  três anos,  trocou pelo curso de Ciências Histórico-Filosóficas, e no ano seguinte voltou a mudar, desta feita para o curso de Filologia Românica, que concluiu em 1931 na Faculdade de Letras de Lisboa,  onde começou desde logo a ensinar Literatura Italiana e, mais tarde, Literatura Espanhola. Doutorou-se em 1934 com a tese A Mocidade de Herculano até à Volta do Exílio. Nemésio foi também professor na Universidade Livre de Bruxelas, entre 1937 e 1939, assim como no Brasil, em 1958. Publicou diversos ensaios de que se salientam Sob os Signos de Agora (1932), Relações Francesas do Romantismo Português (1936) ou Conhecimento de Poesia (1958).

Na carreira literária, Nemésio tanto foi poeta como prosador de crónicas ou romances. Se o seu primeiro livro publicado, como Régio, foi de poesia –Canto Matinal (1916) -, ele é o autor de obras incontornáveis como o romance Mau Tempo no Canal (1944) –  galardoado com o Prémio Ricardo Malheiros – ou as crónicas de Corsário das Ilhas (1956), para além da ficção Varanda de Pilatos (1926) ou Quatro prisões debaixo de armas (1971). Na poesia, destaquem-se as suas obras Eu, Comovido a Oeste (1940), Limite de idade (1972), Sapateia Açoriana, Andamento Holandês e Outros Poemas (1976) e o póstumo Caderno de Caligraphia e outros Poemas a Marga (2003).

Na comunicação social, Vitorino Nemésio construiu uma história longa: fundou e dirigiu as revistas  Estrela d’Alva (1916) e a Revista Portugal (1937); dirigiu o jornal O Dia (entre 11 de dezembro de 1975 a 25 de outubro de 1976); fundou a revista Tríptico (1924) com Branquinho da Fonseca e João Gaspar Simões, assim como a Gente Nova. Jornal Republicano Académico (1927) com Paulo Quintela, Cal Brandão e Sílvio Lima; foi redator de A Pátria, A Imprensa de Lisboa, Última Hora (1921), do Humanidade de Coimbra (1925); e ainda colaborou na revista Bizâncio (1923), na Seara Nova (1928), na Presença ( a partir de 1930), em O Diabo (1935), no Diário Popular (1946) com uma rubrica regular, na revista Vértice (1947) e na revista Observador (1971).

Na televisão ficou célebre pelo seu programa semanal Se bem me lembro, de meia hora em horário nobre, onde com uma postura descontraída, de 1970 a 1975, discorria sobre mentalidades e cultura em geral.

Vitorino Nemésio foi galardoado com o Grande Oficialato da Ordem da Infante D. Henrique (1961), o Prémio Nacional de Literatura (1965), o Prémio Montaigne (1974), a Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1967) de que também recebeu,  a título póstumo, a Grã-Cruz (1978).

Freguesia de Santa Clara

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Dois Josés Maria inovadores na literatura presentes na toponímia de Lisboa

Avenida José Régio e Rua Ferreira de Castro -Freguesias de Alvalade e de Marvila

José Maria dos Reis Pereira e José Maria Ferreira de Castro são dois Josés Marias que a escrita uniu e se corresponderam, ambos presentes na toponímia de Lisboa, em artérias paralelas, o primeiro numa Avenida de Alvalade e de Marvila e o segundo, numa Rua de Marvila.

Quando Régio publicou o seu primeiro livro – Poemas de Deus e do Diabo – Ferreira de Castro na sua página «Livros e Autores» do jornal ABC (de Rocha Martins), logo em 22 de abril de 1926 deu conta da sua chegada, testemunhando que «É um poeta, um autêntico poeta, este José Régio que agora solta o primeiro grito desde o campo, até aqui silente, do seu anonimato. É um poeta original, aqui e ali irreverente – uma irreverência que não está mui longe da profundidade. (…) O seu “Poemas de Deus e do Diabo” é uma verdadeira revelação – a revelação de uma forte personalidade que não está volvida para cinzas arcaicas, mas sim para os torreões onde se desfraldam os mais novos e deslumbrantes estandartes literários.»

Ferreira de Castro e Régio também estiveram presentes no nº especial da Vértice de 1951 – comemorativo do 10º aniversário e do nº 100 da revista – assim como em 11 de novembro de 1966, com David Mourão Ferreira, Luís Amaro e Natália Correia, ambos assistiram à deposição dos restos mortais de António Botto num gavetão do Cemitério do Alto de São João.

Ferreira de Castro, o autor de A Selva – fruto da sua experiência como emigrante no Brasil-, está desde a publicação do Edital municipal de 28 de fevereiro de 1984 como o topónimo de Marvila. O mesmo Edital colocou numa rua da mesma freguesia a escritora brasileira Dinah Silveira de Queiroz. Cinco anos depois,  junto à Rua Ferreira de Castro nasceu a Rua como o nome da poetisa Luísa Neto Jorge e em 1997, paralela, surgiu a Avenida José Régio.

José Maria Ferreira de Castro (Oliveira de Azeméis- Ossela/24.05.1898 – 29.06.1974/Porto) foi um escritor e jornalista que se destacou por retratar na  sua obra a vida dos emigrantes no Brasil, nomeadamente no romance Os Emigrantes (1926) e em A Selva (1930), no qual narra a vida nos seringais da Amazónia inspirando-se na sua própria experiência de trabalho. A edição de A Selva no Brasil, em 1935, foi prefaciada por Afrânio Peixoto  e, em 2002, numa produção luso-hispano-brasileira, a obra foi adaptada ao cinema por Leonel Vieira. Ferreira de Castro foi considerado precursor do neorrealismo pela sua inovadora obra marcada pelo sofrimento e pobreza, em resultado da morte prematura do pai em 1906 e a sua experiência de emigração no Brasil desde os 12 anos, corria então o ano de 1910: viveu durante quatro anos como caixeiro no seringal Paraíso (em plena selva amazónica) e depois recorreu a trabalhos como colar cartazes em Belém ou ser embarcadiço em navios entre Belém e a Guiana Francesa. Ainda no seringal escreveu o seu primeiro romance Criminoso por ambição (1916)  que publicou em fascículos no Brasil.

«Alma Nova», dezembro de 1925

Do conjunto das suas 31 obras refiram-se ainda a peça A Alma Lusitana(1916), O Êxito Fácil (1923), Sangue Negro (1923),  A Metamorfose (1924)A Epopeia do Trabalho (1926)O voo nas Trevas (1927), Terra Fria (1934) – que foi Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências e também adaptada a filme de António Campos em 1992-  A Tempestade (1940), A Lã e a Neve (1947), O Instinto Supremo (1968) , Os Fragmentos (1974) e os dois volumes de  As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-1963), que receberam em 1965 Prémio Catenacci da Academia de Belas Artes de Paris. Duas das suas obras de 1936- O Intervalo e a peça Sim, uma Dúvida Basta, feita para o Teatro Nacional e censurada  por despacho governamental – só foram publicadas em 1974 e 1994.

Nos periódicos, colaborou no Jornal do Novos de Belém (1916); fundou e dirigiu com outro emigrante, João Pinto Monteiro, o semanário Portugal (1917)  e O Luso (1919), as revistas A Hora (1922) e Civilização (1928); colaborou nos jornais Imprensa Livre (1921), no «Suplemento Literário» do diário A Batalha e da revista Renovação (1925) da Confederação Geral do Trabalho anarco-sindicalista, no jornal O Século (1927), O domingo ilustrado e Ilustração (1934), o jornal O Diabo (1935) e o jornal carioca A Noite (1938). Em 1926 foi eleito presidente do Sindicato dos Profissionais da Imprensa de Lisboa.

Como cidadão, José Maria Ferreira de Castro denunciou os efeitos nefastos da censura sobre os escritores portugueses numa entrevista ao Diário de Lisboa em 1945, e nessse mesmo ano integrou a Comissão Consultiva e a Comissão de Escritores Jornalistas e Artistas do Movimento da Unidade Democrática (MUD). Em 1949, apoiou empenhadamente a candidatura de Norton de Matos à presidência da República. Em 1962, foi eleito por unanimidade presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores, da qual era o sócio nº 2 e Aquilino o nº 1.

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Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro na tese de licenciatura de Régio e na toponímia de Lisboa

A Avenida Fernando Pessoa na Freguesia do Parque das Nações

José Régio licenciou-se em Filologia Românica,  na Faculdade de Letras de Coimbra, em 1925, com a tese intitulada As correntes e as individualidades na Moderna Poesia Portuguesa, o primeiro trabalho que faz a apologia dos poetas da revista Orpheu, sobretudo dos seus fundadores, Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro que também se encontram na memória das ruas lisboetas, sendo a tese  regiana inovadora a ponto de nela apresentar Fernando Pessoa como nome cimeiro da poesia contemporânea, quando este autor ainda não possuía nenhuma edição em livro mas apenas poemas publicados em publicações periódicas.

Tanto Fernando Pessoa como Mário de Sá Carneiro passaram a ser nome de rua em Alvalade pelo mesmo Edital municipal de 19 de julho de 1948, junto com mais escritores nas restantes artérias do Bairro. Pessoa passou a ser também topónimo de uma Avenida do Parque das Nações no ano de 2009.

As Ruas Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro na Freguesia de Alvalade

Mário de Sá Carneiro planeou com Fernando Pessoa o lançamento da Orpheu, com financiamento «involuntário» do seu pai, como ele próprio dizia e, esta revista foi a base para o nascimento do primeiro grupo modernista português. Os poemas de Mário Sá Carneiro no nº 1 da Orpheu deram logo brado e viriam a constituir a obra Indícios de Ouro. Mário de Sá Carneiro (Lisboa/19.05.1890 – 26.04.1916/Paris), nascido no 1º andar do nº 93/95 da Rua da Conceição, foi um poeta e contista que apesar de matriculado em Direito – em Coimbra e em Paris, na Sorbonne-, sempre preferiu a literatura. Conheceu Fernando Pessoa em 1912 e nesse mesmo ano publicou pela 1ª vez , a peça Amizade (em colaboração com Tomás Cabreira Júnior, seu colega do Liceu Camões), bem como as novelas Princípio. Entre 1913 e 1914 vinha de Paris a Lisboa com uma certa regularidade e deu ainda a lume Memórias de Paris (1913),  A Confissão de Lúcio (1914), o volume de poesia Dispersão (1914) e  as novelas Céu em Fogo (1915).  Nas cartas que escreveu  de Paris a Pessoa manifestou uma crescente angústia e, em 1915, informou-o de que o seu pai já não dispunha do dinheiro de outrora e já não poderia «involuntariamente» financiar o nº 3 da Orpheu. Depois, a menos de um mês de completar 26 anos, suicidou-se com veneno, num hotel parisiense de Montmartre.

A Rua nº 11 do Sítio de Alvalade foi a primeira a receber o nome do poeta Fernando Pessoa mas como na realização da Expo 98 o nome de Fernando Pessoas também designou uma Avenida do evento, mais tarde, pelo Edital de 2 de setembro de 2009, a Câmara Municipal de Lisboa oficializou esta e mais outros 102 arruamentos do Parque das Nações cujos topónimos tinham a mesma génese.

Fernando António Nogueira Pessoa (Lisboa/13.06.1888 – 30.11.1935/Lisboa), nascido no 4º andar direito do nº 4 do Largo de São Carlos, pode ser biografado brevemente como o poeta português dos heterónimos – Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e o semi-heterónimo Bernardo Soares – , que em vida foi galardoado com o Prémio Antero de Quental pela Mensagem (1934), o seu único livro publicado em vida. De 1903 a 1909, Pessoa escrevera poemas em inglês e em dezembro de 1904, publicou um ensaio literário sobre Macauly na revista da Durban High School. Em 1912, começou a colaborar com as revistas  A Águia e a Renascença Portuguesa, sendo nesta última que em 1913 publicou o seu primeiro poema em língua portuguesa, «Pauis», o qual marca o início do modernismo nas letras portuguesas. E depois, para além da revista Orpheu, também colaborou nas revistas Portugal Futurista (1917), Contemporânea (1922-1926) e Atena (1924-1925). Fernando Pessoa deixou  inédita a maioria da sua obra literária, que tem vindo a ser editada paulatinamente desde 1942, uma vez que deixou de espólio mais de 25 mil folhas com texto, à guarda da Biblioteca Nacional de Portugal.

A Rua Fernando Pessoa em 1955
(Foto: Claudino Madeira, Arquivo Municipal de Lisboa)

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A polémica de José Régio e Álvaro Cunhal na Seara Nova e três topónimos lisboetas

Freguesia do Lumiar

José Régio e  Álvaro Cunhal, ambos guardados na memória de avenidas topónimos lisboetas, foram os protagonistas de uma famosa polémica ocorrida em 1939 nas páginas da  Seara Nova, revista que é também nome de rua alfacinha.

Nas páginas dos nºs. 608, 609, 611, 615 e 619 da revista Seara Nova,  entre abril e junho de 1939, foram trocados argumentos entre Álvaro Cunhal e José Régio, constituindo-se como a polémica da visão neorrealista versus a visão presencista, entre intervenção social na arte e subjetivismo, em que o estava em causa era fundamentalmente a relação da arte com a vida. Todos os artigos discorrem numa perspetiva de são espírito de polémica e de respeito mútuo. Se o neorrealismo mostrava as questões sociais ou outras que marcavam o tempo a acontecer, o presencismo defendia a arte como um fim em si mesmo, uma revelação íntima do seu autor.

José Régio, então com 38 anos, publicou Cartas Intemporais do nosso Tempo, tendo as três primeiras o subtítulo comum de A um Moço Camarada, sobre Qualquer Possível Influência do Romance Brasileiro na Literatura Portuguesa, dirigindo-se assim ao então jovem Álvaro Cunhal, com 25 anos. José Régio defendia a autonomia da obra de arte contra o que chamava a sua instrumentalização ideológica feita por alguns jovens seareiros, com  uma visão algo neorromântica da criação artística muito centrada na individualidade do criador, no isolamento do poeta na sua torre de marfim, como então se dizia.

Álvaro Cunhal intitulou a sua primeira réplica como Numa encruzilhada dos homens – alusão ao título  de Régio Numa encruzilhada de Deus, acabado de publicar-, defendendo um compromisso social da arte e da literatura. A passagem dos anos trinta para os quarenta mostrara o fascismo alemão na guerra que incendiará a Europa, a Espanha saída duma guerra civil onde o fascismo de Franco impôs a lei da morte, a Itália de Mussolini, o aumento da repressão em Portugal. Contudo, Cunhal ressalvou a importância do movimento da Presença na sua rotura com o passado academizante e contra a mediocridade existente na literatura portuguesa de então.

A Avenida Álvaro Cunhal foi atribuída por Edital municipal de 6 de outubro de 2005, na que era a Avenida Avenida 1 do Plano de Urbanização no Alto do Lumiar, na Freguesia do Lumiar, na sequência da moção de pesar dos Vereadores do PCP aprovada na reunião de Câmara de 22 de junho de 2005, para homenagear Álvaro Barreirinhas Cunhal (Coimbra/10.11.1913 – 13.06.2005/Lisboa), político que foi Secretário-Geral do Partido Comunista Português mas que teve também uma intervenção cultural no seu tempo, quer como romancista sob o pseudónimo de Manuel Tiago, quer como desenhador, para além de toda a sua reflexão teórica sobre as artes plásticas, a estética e a criação cultural.

Dez anos depois, em 2015, foi a vez da atribuição da Rua Seara Nova, através do Edital municipal de 25 de novembro de 2015. Esta revista fundada em Lisboa, em 1921, por figuras do então denominado Grupo da Biblioteca Nacional, como Raúl ProençaJaime CortesãoAquilino Ribeiro, Câmara Reis, António Tomás Conceição Silva, Faria de Vasconcelos e outros, teve o seu 1º número saído para a rua no dia 15 de outubro de 1921, com capa do pintor Tomás Leal da Câmara. A partir dessa data atravessou  todo o século XX influenciando gerações sucessivas.

Freguesia de Santo António

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A Avenida da Liberdade do «Diário de Notícias» que premiou Régio em 1961

Em 1940
(Foto: Estúdio Mário Novais, Arquivo Municipal de Lisboa)

Desde 1940 na Avenida da Liberdade, num edifício traçado para o efeito por Pardal Monteiro, o jornal Diário de Notícias, fundado em 1864 no Bairro Alto, na então Rua dos Calafates que vinte e um anos depois passou a ser a Rua Diário de Notícias, atribuiu em 1961 a José Régio  o seu Prémio anual, no valor de 30 mil escudos (seriam hoje cerca de 150 euros).

A decisão do Prémio Anual DN 1961 agraciar José Régio foi tomada por maioria de um júri presidido pelo Dr. Augusto de Castro (diretor do jornal), em conjunto com o Prof. Jacinto do Prado Coelho em representação do Ministério da Educação, o Dr. Ramiro Valadão em representação do SNI – Secretariado Nacional de Informação, Alves Redol pela Sociedade Portuguesa de Escritores, Luís de Oliveira Guimarães pela Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais, Martinho Simões pelo Sindicato dos Jornalistas e ainda, António Quadros, o Prof. Delfim Santos, Luís Forjaz Trigueiros e Luís Teixeira.

A Avenida da Liberdade que hoje integra administrativamente o territórios das freguesia de Santa Maria Maior e de Santo António nasceu por iniciativa municipal e do sonho do então presidente da Câmara Municipal de Lisboa, José Gregório Rosa Araújo,  de querer para a sua cidade natal  um arruamento semelhante a um  boulevard parisiense, pelo que também ele está homenageado perto dela com a Rua Rosa Araújo.

Aberta e rasgada através de expropriações e demolições, a Avenida da Liberdade marca a primeira fase do plano de extensão de Lisboa:  o crescimento urbano para norte, delineado no último quartel do XIX. O seu traçado foi aprovado entre 1877 e 1879 pela Câmara Municipal de Lisboa, retomando propostas urbanísticas anteriores que conceberam a Avenida como prolongamento do Passeio Público, limitada na futura Rotunda do Marquês de Pombal. A Avenida da Liberdade foi  também o topónimo que tomou o lugar do Passeio Público e das Ruas Oriental e Ocidental do Passeio por deliberação camarária de 18 de agosto de 1879.

Com 90 metros de largura e 1273 de comprimento, a Avenida da Liberdade foi inaugurada em 1886, no mesmo ano em que as ruas Barata Salgueiro Castilho foram calcetadas e iluminadas e, no dia 25 de maio desse ano foi o palco de um grande desfile com Infantaria e Cavalaria, para o então futuro rei D. Carlos mostrar à sua noiva no dia do casamento.

(Imagem: © CERcarregue na imagem se quiser ver em tamanho maior)

 

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A Rua da Voz do Operário e o Arraial Beco de Lisboa

A Voz do Operário na Rua Voz do Operário – Freguesia de São Vicente

Na Rua da Voz do Operário,  num logradouro do edifício que começa num portão e contorna o edifício da Voz do Operário está a decorrer até ao final do mês o arraial Beco de Lisboa , que a instituição organiza no âmbito das Festas de Lisboa 2019 e que inclui noites de fado.

A Sociedade de Instrução e Beneficência A Voz do Operário fundada em 1879 está desde 1913 sediada nesta artéria, e teve honras de ser o próprio Presidente da República de então, Manuel de Arriaga, a ter lançado a 1ª pedra da sua sede. Nas Festas de Lisboa, para além de organizar a Marcha Infantil desde 1988 proporciona ainda o arraial Beco de Lisboa nas suas instalações.

A Voz do Operário ganhou tal importância ao longo da sua vida  que o  arruamento onde está sediada, aberto na antiga Quinta da Abelha nos princípios do último quartel do séc. XIX e que teve atribuído o nome de Rua da Infância, por deliberação camarária de 22 de novembro de 1880, dois anos depois de A Voz do Operário ter aqui a sua sede passou a denominar-se Rua Voz do Operário, pelo Edital municipal de 11 de fevereiro de 1915.

Em 1877, foi inaugurado no n.º 19 desta artéria o Asilo de São Vicente, uma das casas da Sociedade das Casas de Asilo da Infância Desvalida, razão para segundo o olisipógrafo Vieira da Silva ter sido denominada dois anos depois como Rua da Infância, em 1880. Mas cerca de 35 anos depois, a vereação republicana alterou o topónimo para consagrar a Sociedade «Voz do Operário», formada em 11 de Outubro de 1879 para para dar voz aos muitos operários tabaqueiros através da publicação de um semanário: o Voz do Operário. O operário tabaqueiro Custódio Gomes foi quem lançou a ideia do jornal da sua classe, mas foi outro operário, também tabaqueiro, Custódio Brás Pacheco de seu nome, o verdadeiro impulsionador da instituição e que levou a que em 13 de Fevereiro de 1883 nascesse a Sociedade Cooperativa A Voz do Operário em cujos estatutos se definia «sustentar a publicação do periódico A Voz do Operário, órgão dos manipuladores de tabaco, desligado de qualquer partido ou grupo político (…) estabelecer escolas, gabinete de leitura, caixa económica e tudo quanto, em harmonia com a índole das sociedades desta natureza, e com as circunstâncias do cofre, possa concorrer para a instrução e bem estar da classe trabalhadora em geral e dos sócios em particular».

Em 1879, aquele título tinha a sua sede no Beco dos Fróis. Em julho de 1887, mudou-se para a Calçada de São Vicente, com 1.114 sócios, nem todos operários tabaqueiros, o que obrigou a uma revisão dos estatutos, concretizada em 1889, aprovada no ano seguinte, convertendo-se em Sociedade de Instrução e Beneficência A Voz do Operário e, transitando em 1896 para o Largo do Outeirinho da Amendoeira. Com o desenvolvimento crescente da Sociedade propuseram ao governo em 1906 a cedência de uma parcela de terreno da designada Cerca das Mónicas para a construção de um edifício de raiz onde pudessem ser instaladas as escolas e os serviços de A Voz do Operário, o que foi despachado favoravelmente por decreto do governo de 29 de maio de 1907. Todavia, a primeira pedra de construção da sede de A Voz do Operário, para incluir a sua escola central, secretaria, biblioteca, serviços de assistência e sala de conferências só aconteceu em outubro de 1912, com a presença do próprio Presidente da República, Manuel de Arriaga. Em 1925, a instituição ganhou estatuto de utilidade pública.

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A Rua José Cardoso Pires e o italiano Peeta no 3º Festival de Arte Urbana de Lisboa – MURO’19

PEETA na Rua José Cardoso Pires
(Foto: © José Vicente, 2019 |DPC |DMC |CML )

A passagem que da Rua José Cardoso Pires dá acesso a um pátio que desemboca na Alameda da Música será o alvo da intervenção artística do italiano Peeta, no âmbito do MURO’19 – 3º Festival de Arte Urbana de Lisboa, mostrando a ilusão de tridimensionalidade que caracteriza a sua obra.

Radicado em Veneza, Peeta é o nome artístico de Manuel Di Rita, pintor e escultor que desde 1993 se dedica à Arte Urbana, usando figuras geométricas e letras para criar estruturas mais complexas num estilo de tridimensionalidade ilusória, revelando a ilusão da percepção humana, a falácia de pontos de vista estreitos, sendo de destacar os trabalhos que já realizou em Itália -Agropoli, Bolonha, Gemona, Milão ou Turim -, Vancouver (Canadá), na Catalunha, em Chicago, Atenas, Bristol (Reino Unido) ou Borås (Suécia). Na escultura, usa o pvc através de um software profissional de design 3D, a fibra de vidro e o bronze como materiais. Na pintura, executa telas em acrílico e óleo, quer com pincéis quer com aerógrafo.

Freguesia do Lumiar – Placa Tipo IV

Desde a publicação do Edital de 18 de novembro de 2003 que José Cardoso Pires, que a si se definia como alfacinha de coração, ficou a ser o topónimo da Rua D da Malha 15 do Alto do Lumiar, a ligar a Avenida Álvaro Cunhal à Avenida David Mourão-Ferreira.

José Augusto Neves Cardoso Pires (Vila do Rei-aldeia de S. João do Peso/02.10.1925 – 08.07.1998/Lisboa), filho de Maria Sofia Cardoso Pires Neves  e de José António das Neves, distinguiu-se nas letras portuguesas quer no jornalismo, quer na dramaturgia, no romance ou no ensaio. Em 50 anos de atividade literária iniciada em 1948 com Caminheiros e outros contos, sobressaem títulos como Histórias de Amor (1952) que foi apreendido pela PIDE, a peça O Render dos Heróis (1960), o ensaio Cartilha do Marialva (1960), a novela O Hóspede de Job (1963) consagrada com o Prémio Camilo Castelo Branco, O Delfim (1968), Dinossauro Excelentíssimo (1972), Balada da Praia dos Cães (1982) que foi Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores,  Alexandra Alpha (1987) que obteve o Prémio Especial da Associação de Críticos de S. Paulo, ou De Profundis, Valsa Lenta (1997) ou o seu póstumo Lavagante (2008).

Cardoso Pires veio morar para Lisboa com poucos meses de idade, para o n.º 7 da Rua Carlos José Barreiros, em Arroios,  e esta foi a sua cidade do coração, a quem dedicou inúmeras páginas e mesmo uma obra inteira – Lisboa, Livro de Bordo (1997)- para além de ter exercido as funções de Vereador da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa, em 1975. Estudou no Liceu Camões e na Faculdade de Ciências; fundou com Victor Palla a coleção de bolso «Os Livros das Três Abelhas» (1949) bem como dirigiu as Edições Artísticas Fólio (1954); foi professor de Literatura Portuguesa e Brasileira no King’s College da Universidade de Londres (1969 a 1971); foi jornalista no Diário PopularDiário de LisboaO Jornal e nas revistas Eva, Almanaque ou &etc. Viveu Lisboa desde o Café Herminius à Cervejaria Portugália, dos bilhares da Almirante Reis  à casa de jogo clandestina do carvoeiro da Rua José Estêvão, do Café Chiado ao Monte Carlo, do Toni dos Bifes à Pastelaria Joaninha (junto ao Jardim Constantino) ou o bar Procópio, na companhia de tantos como Abelaira, Alexandre O’Neil,  Carlos de Oliveira, CesarinyEduardo Prado Coelho, Gastão da Cruz, Herberto Helder, José Gomes FerreiraLuiz Pacheco,  Manuel da Fonseca, Pedro Oom ou Vespeira.

Democrata empenhado na luta contra a opressão, com Alçada Baptista, Miller Guerra, Lindley Cintra, Joel Serrão, José-Augusto França, Nuno Bragança e Nuno Teotónio Pereira, constituiu em 1966 o núcleo português da Association Internationale pour la Liberté de La Culture e em 1985 foi agraciado com a Ordem da Liberdade, assim como em 1989 com  a Grande Cruz de Mérito Cultural. Na sua vida pessoal, casou em 1954 com a enfermeira Maria Edite Pereira – a quem chamava Esquilo-  de quem teve duas filhas, a Ana e a Rita.

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RAF e Helena Vaz da Silva no MURO’19

A Rua Helena Vaz da Silva

No talude da Rua Helena Vaz da Silva vai estar presente RAF  com uma intervenção artística com 450 metros de extensão, no âmbito da realização do MURO’19 – Festival de Arte Urbana de Lisboa.

Rui Ferreira é o nome civil de RAF, criador das Produções Artísticas da RAF ART Lda., também tatuador e fundador da MU Workspace Creative Cowork, na Alta de Lisboa. Estudou na Escola Secundária Artística António Arroio e já em 2013 colaborou com a Galeria de Arte Urbana | GAU, ao participar no «Rostos do Muro Azul», na Rua das Murtas.

Área da intervenção artística de RAF para o MURO’19

Helena Vaz da Silva, mulher de cultura e jornalista do Centro Nacional de Cultura e do Instituto Português de Cinema, é topónimo de Rua do Alto do Lumiar desde a publicação do Edital municipal de 20 de novembro de 2003, numa artéria que parte da confluência da Avenida Álvaro Cunhal, Rua Arnaldo Ferreira, Rua General Vasco Gonçalves e Avenida Eugénio de Andrade para chegar à Avenida David Mourão-Ferreira.

Helena Maria da Costa de Sousa Macedo Gentil (Lisboa/03.07.1939 – 12.08.2002/Lisboa), nascida alfacinha no nº7 C do Largo Dr. António de Sousa Macedo, estudou em colégios católicos e quando terminou o ensino secundário ficou a ensinar Moral e Francês no Colégio das Oblatas, tendo também aos 17 anos conseguido o seu primeiro emprego como correspondente de línguas na Agência de Publicidade Manuel Martins da Hora, onde outrora trabalhara Fernando Pessoa. Em 1959, casou com Alberto Vaz da Silva, de quem teve quatro filhos (Francisco, Salvador, Tomás e Helena) e esta decisão pessoal vai marcar a sua carreira profissional futura já que o  seu círculo de amigos próximos passou a incluir Alçada Baptista, Nuno Bragança, João Bénard da Costa, Pedro Tamen, bem como José Escada, Luís Sousa Costa e Mateus Cardoso Peres. Concretizaram juntos em 1963 a revista católica de oposição ao regime salazarista, O Tempo e Modo, dirigida por Alçada Baptista, editada por Pedro Tamen, com chefia de redação de João Bénard da Costa e tendo como principais redatores Nuno Bragança e Alberto Vaz da Silva.

Em 1965, Helena Vaz da Silva assumiu a responsabilidade da edição portuguesa da revista Concilium, para difundir o espírito de Vaticano II, a partir da qual também se organizaram debates e seminários. E três anos depois, em 1968, foi para Paris fazer a sua formação de jornalista. Regressou a Portugal em 1972, para retomar o trabalho na O Tempo e o Modo, onde organizou dois números especiais, um sobre Deus e outro sobre o casamento, tendo este último sido apreendido pela Censura após a publicação. Ainda em 1972 dirigiu a empresa turística algarvia da Quinta da Balaia. Em 1973 ingressa no semanário Expresso, onde até 1976 assumiu a coordenação da «Revista», para além do trabalho de reportagens, crónicas e entrevistas. Depois foi trabalhar para a Direção de Programas Sociais e Políticos da RTP, a que regressou em 1993, para o Conselho de Opinião da RTP. Esteve na Agência ANOP (1977), onde trabalhou como grande repórter e chefe da secção de cultura e educação, para além de se ter associado à revista Raiz e Utopia, fundada em 1977 por António José Saraiva, passando em 1978 a ser a proprietária e diretora da mesma.

De 1979 até à sua morte presidiu ao Centro Nacional de Cultura, sendo muito recordada pelos lisboetas pela criação dos Passeios de Domingo, iniciativa de itinerários culturais pioneira em Portugal. Em 1980 foi nomeada Vice-Presidente do organismo de apoio à criação cinematográfica, o Instituto Português de Cinema.

Do vasto currículo de Helena Vaz da Silva refira-se que foi tradutora, nomeadamente de Yourcenar e deixou obra publicada como Júlio Pomar com Helena Vaz da Silva (1979), Portugal – o último descobrimento (1987); fez crónicas para a Antena 1, TSF, Comercial e Rádio Renascença; integrou a Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses (1987) e a Comissão Nacional da UNESCO (de 1989 a 1994); foi deputada no Parlamento Europeu, como independente eleita nas listas do PSD (1994-1999); presidiu à Comissão Cidadão e Justiça (1990); foi membro do Conselho de Orientação para os Itinerários Culturais do Conselho da Europa, do Conselho Estratégico de Lisboa (1992), da Comissão para o Futuro da Televisão em Portugal (1996), do Conselho Geral do Movimento Europeu e ainda, presidiu ao Grupo de Trabalho sobre Serviço Público de Televisão, a partir de 5 de junho de 2002.

A intervenção de RAF na Rua Helena Vaz da Silva
(Foto: Bruno Cunha| DPC| 2019)

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