A Rua José Cardoso Pires e o italiano Peeta no 3º Festival de Arte Urbana de Lisboa – MURO’19

PEETA na Rua José Cardoso Pires
(Foto: © José Vicente, 2019 |DPC |DMC |CML )

A passagem que da Rua José Cardoso Pires dá acesso a um pátio que desemboca na Alameda da Música será o alvo da intervenção artística do italiano Peeta, no âmbito do MURO’19 – 3º Festival de Arte Urbana de Lisboa, mostrando a ilusão de tridimensionalidade que caracteriza a sua obra.

Radicado em Veneza, Peeta é o nome artístico de Manuel Di Rita, pintor e escultor que desde 1993 se dedica à Arte Urbana, usando figuras geométricas e letras para criar estruturas mais complexas num estilo de tridimensionalidade ilusória, revelando a ilusão da percepção humana, a falácia de pontos de vista estreitos, sendo de destacar os trabalhos que já realizou em Itália -Agropoli, Bolonha, Gemona, Milão ou Turim -, Vancouver (Canadá), na Catalunha, em Chicago, Atenas, Bristol (Reino Unido) ou Borås (Suécia). Na escultura, usa o pvc através de um software profissional de design 3D, a fibra de vidro e o bronze como materiais. Na pintura, executa telas em acrílico e óleo, quer com pincéis quer com aerógrafo.

Freguesia do Lumiar – Placa Tipo IV

Desde a publicação do Edital de 18 de novembro de 2003 que José Cardoso Pires, que a si se definia como alfacinha de coração, ficou a ser o topónimo da Rua D da Malha 15 do Alto do Lumiar, a ligar a Avenida Álvaro Cunhal à Avenida David Mourão-Ferreira.

José Augusto Neves Cardoso Pires (Vila do Rei-aldeia de S. João do Peso/02.10.1925 – 08.07.1998/Lisboa), filho de Maria Sofia Cardoso Pires Neves  e de José António das Neves, distinguiu-se nas letras portuguesas quer no jornalismo, quer na dramaturgia, no romance ou no ensaio. Em 50 anos de atividade literária iniciada em 1948 com Caminheiros e outros contos, sobressaem títulos como Histórias de Amor (1952) que foi apreendido pela PIDE, a peça O Render dos Heróis (1960), o ensaio Cartilha do Marialva (1960), a novela O Hóspede de Job (1963) consagrada com o Prémio Camilo Castelo Branco, O Delfim (1968), Dinossauro Excelentíssimo (1972), Balada da Praia dos Cães (1982) que foi Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores,  Alexandra Alpha (1987) que obteve o Prémio Especial da Associação de Críticos de S. Paulo, ou De Profundis, Valsa Lenta (1997) ou o seu póstumo Lavagante (2008).

Cardoso Pires veio morar para Lisboa com poucos meses de idade, para o n.º 7 da Rua Carlos José Barreiros, em Arroios,  e esta foi a sua cidade do coração, a quem dedicou inúmeras páginas e mesmo uma obra inteira – Lisboa, Livro de Bordo (1997)- para além de ter exercido as funções de Vereador da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa, em 1975. Estudou no Liceu Camões e na Faculdade de Ciências; fundou com Victor Palla a coleção de bolso «Os Livros das Três Abelhas» (1949) bem como dirigiu as Edições Artísticas Fólio (1954); foi professor de Literatura Portuguesa e Brasileira no King’s College da Universidade de Londres (1969 a 1971); foi jornalista no Diário PopularDiário de LisboaO Jornal e nas revistas Eva, Almanaque ou &etc. Viveu Lisboa desde o Café Herminius à Cervejaria Portugália, dos bilhares da Almirante Reis  à casa de jogo clandestina do carvoeiro da Rua José Estêvão, do Café Chiado ao Monte Carlo, do Toni dos Bifes à Pastelaria Joaninha (junto ao Jardim Constantino) ou o bar Procópio, na companhia de tantos como Abelaira, Alexandre O’Neil,  Carlos de Oliveira, CesarinyEduardo Prado Coelho, Gastão da Cruz, Herberto Helder, José Gomes FerreiraLuiz Pacheco,  Manuel da Fonseca, Pedro Oom ou Vespeira.

Democrata empenhado na luta contra a opressão, com Alçada Baptista, Miller Guerra, Lindley Cintra, Joel Serrão, José-Augusto França, Nuno Bragança e Nuno Teotónio Pereira, constituiu em 1966 o núcleo português da Association Internationale pour la Liberté de La Culture e em 1985 foi agraciado com a Ordem da Liberdade, assim como em 1989 com  a Grande Cruz de Mérito Cultural. Na sua vida pessoal, casou em 1954 com a enfermeira Maria Edite Pereira – a quem chamava Esquilo-  de quem teve duas filhas, a Ana e a Rita.

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RAF e Helena Vaz da Silva no MURO’19

A Rua Helena Vaz da Silva

No talude da Rua Helena Vaz da Silva vai estar presente RAF  com uma intervenção artística com 450 metros de extensão, no âmbito da realização do MURO’19 – Festival de Arte Urbana de Lisboa.

Rui Ferreira é o nome civil de RAF, criador das Produções Artísticas da RAF ART Lda., também tatuador e fundador da MU Workspace Creative Cowork, na Alta de Lisboa. Estudou na Escola Secundária Artística António Arroio e já em 2013 colaborou com a Galeria de Arte Urbana | GAU, ao participar no «Rostos do Muro Azul», na Rua das Murtas.

Área da intervenção artística de RAF para o MURO’19

Helena Vaz da Silva, mulher de cultura e jornalista do Centro Nacional de Cultura e do Instituto Português de Cinema, é topónimo de Rua do Alto do Lumiar desde a publicação do Edital municipal de 20 de novembro de 2003, numa artéria que parte da confluência da Avenida Álvaro Cunhal, Rua Arnaldo Ferreira, Rua General Vasco Gonçalves e Avenida Eugénio de Andrade para chegar à Avenida David Mourão-Ferreira.

Helena Maria da Costa de Sousa Macedo Gentil (Lisboa/03.07.1939 – 12.08.2002/Lisboa), nascida alfacinha no nº7 C do Largo Dr. António de Sousa Macedo, estudou em colégios católicos e quando terminou o ensino secundário ficou a ensinar Moral e Francês no Colégio das Oblatas, tendo também aos 17 anos conseguido o seu primeiro emprego como correspondente de línguas na Agência de Publicidade Manuel Martins da Hora, onde outrora trabalhara Fernando Pessoa. Em 1959, casou com Alberto Vaz da Silva, de quem teve quatro filhos (Francisco, Salvador, Tomás e Helena) e esta decisão pessoal vai marcar a sua carreira profissional futura já que o  seu círculo de amigos próximos passou a incluir Alçada Baptista, Nuno Bragança, João Bénard da Costa, Pedro Tamen, bem como José Escada, Luís Sousa Costa e Mateus Cardoso Peres. Concretizaram juntos em 1963 a revista católica de oposição ao regime salazarista, O Tempo e Modo, dirigida por Alçada Baptista, editada por Pedro Tamen, com chefia de redação de João Bénard da Costa e tendo como principais redatores Nuno Bragança e Alberto Vaz da Silva.

Em 1965, Helena Vaz da Silva assumiu a responsabilidade da edição portuguesa da revista Concilium, para difundir o espírito de Vaticano II, a partir da qual também se organizaram debates e seminários. E três anos depois, em 1968, foi para Paris fazer a sua formação de jornalista. Regressou a Portugal em 1972, para retomar o trabalho na O Tempo e o Modo, onde organizou dois números especiais, um sobre Deus e outro sobre o casamento, tendo este último sido apreendido pela Censura após a publicação. Ainda em 1972 dirigiu a empresa turística algarvia da Quinta da Balaia. Em 1973 ingressa no semanário Expresso, onde até 1976 assumiu a coordenação da «Revista», para além do trabalho de reportagens, crónicas e entrevistas. Depois foi trabalhar para a Direção de Programas Sociais e Políticos da RTP, a que regressou em 1993, para o Conselho de Opinião da RTP. Esteve na Agência ANOP (1977), onde trabalhou como grande repórter e chefe da secção de cultura e educação, para além de se ter associado à revista Raiz e Utopia, fundada em 1977 por António José Saraiva, passando em 1978 a ser a proprietária e diretora da mesma.

De 1979 até à sua morte presidiu ao Centro Nacional de Cultura, sendo muito recordada pelos lisboetas pela criação dos Passeios de Domingo, iniciativa de itinerários culturais pioneira em Portugal. Em 1980 foi nomeada Vice-Presidente do organismo de apoio à criação cinematográfica, o Instituto Português de Cinema.

Do vasto currículo de Helena Vaz da Silva refira-se que foi tradutora, nomeadamente de Yourcenar e deixou obra publicada como Júlio Pomar com Helena Vaz da Silva (1979), Portugal – o último descobrimento (1987); fez crónicas para a Antena 1, TSF, Comercial e Rádio Renascença; integrou a Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses (1987) e a Comissão Nacional da UNESCO (de 1989 a 1994); foi deputada no Parlamento Europeu, como independente eleita nas listas do PSD (1994-1999); presidiu à Comissão Cidadão e Justiça (1990); foi membro do Conselho de Orientação para os Itinerários Culturais do Conselho da Europa, do Conselho Estratégico de Lisboa (1992), da Comissão para o Futuro da Televisão em Portugal (1996), do Conselho Geral do Movimento Europeu e ainda, presidiu ao Grupo de Trabalho sobre Serviço Público de Televisão, a partir de 5 de junho de 2002.

A intervenção de RAF na Rua Helena Vaz da Silva
(Foto: Bruno Cunha| DPC| 2019)

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Muzai na Escola Nuno Cordeiro da Avenida David Mourão-Ferreira, no MURO’19

Muzai na Escola Nuno Cordeiro: A Balada de Seu Ciro e Dona Elvira
(Foto: © José Vicente| CML| DPC| 2019

No âmbito do MURO’19 foi Muzai o escolhido para deixar a sua intervenção artística – A Balada de Seu Ciro e Dona Elvira – na empena da Escola Básica Nuno Cordeiro, sediada na Avenida David Mourão-Ferreira, nesta 3ª edição Festival de Arte Urbana de Lisboa em que a arte urbana se une à música e à literatura presente no espaço, quer através da toponímia, quer de concertos e peças artísticas que unem a pintura a sonoridades.

O brasileiro Muzai usa o fio condutor da simplicidade do seu traço e de cores puras, fortes e contrastadas, para produzir arte urbana. Procura uma poética visual de fantasia e sonho, como que resgatando a criança interior do interior do homem. Nascido em Minas Gerais, em 1968, como Fabrício Alves, desde criança que era apaixonado por banda desenhada e licenciou-se pela Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Uberlândia. Desde 2009 que se tornou o artista Muzai, após ter visitado São Paulo e ter ficado impressionado com o impacto da arte urbana na cidade em contraste com as antigas ruas cinzentas. Começou o seu percurso pela arte urbana mural na sua cidade natal.

David Mourão-Ferreira, escritor romancista, novelista, contista, dramaturgo e poeta que também escreveu para fado, professor universitário de literatura, ensaísta, jornalista e cronista, tradutor e crítico literário é o homenageado nesta longa Avenida onde se encontra a Escola Básica Nuno Cordeiro em cuja empena Muzai pintou a sua obra de caras, guitarra e ternura.

A Avenida David Mourão-Ferreira foi o topónimo dado à Rua 3 da Malha 14,6,1,2 e 3 do Alto do Lumiar através da publicação do Edital municipal de 22 de julho de 2005 e que encontramos desde a rotunda onde confluem a Avenida Carlos Paredes e a Rua General Vasco Gonçalves até ao Eixo Central (no troço entre Rotunda 2 e a Av. Nuno Krus Abecassis). Com a Rua José Cardoso Pires e a Avenida Carlos Paredes define quase um círculo em cujo espaço interior decorre o MURO’19.

O escritor David de Jesus Mourão-Ferreira (Lisboa/24.02.1927-16.06.1996/Lisboa), filho de David Ferreira – secretário do diretor da Biblioteca Nacional – e de Teresa de Jesus Mourão-Ferreira, homem de múltiplas facetas notabilizou-se como poeta do amor e da sensualidade, como uma personalidade que tanto na vida como na escrita celebrou o amor, o erotismo e o corpo em palavras. Nasceu e viveu até aos 15 anos no Bairro da Lapa, frequentou o Colégio Moderno e já nas brincadeiras de infância fazia peças de teatro e jornais que o seu irmão mais novo – Jaime Alberto – ilustrava. Licenciou-se em 1951 em Filologia Românica, na Faculdade de Letras de Lisboa, onde veio a ser professor e catedrático de Teoria da Literatura e Literatura Portuguesa.

Com Alain Oulman, David Mourão-Ferreira levou os seus poemas também para o fado e para a voz de Amália, em que se destacam Barco Negro (1954), Abandono, Solidão,  Espelho Quebrado, Primavera, Anda o Sol na Minha Rua, Nome de Rua ou Maria Lisboa (1961). Depois, também produziu letras para Simone de Oliveira ou Luís Cília, apesar de ter sido alvo de uma campanha de difamação, assim como de um processo judicial por  ter subscrito a apresentação da Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, organizada por Natália Correia (em 1965), bem como por no ano seguinte ter prefaciado a tradução de A Filosofia da Alcova do Marquês de Sade.

Começou a sua vida literária na poesia com a A Viagem (1950) a que somou, entre outros, Tempestade de Verão (1954) que foi Prémio Delfim Guimarães, Os Quatro Cantos do Tempo (1958), A Arte de Amar (1962), Cancioneiro de Natal (1971) que foi Prémio Nacional de Poesia, Matura Idade (1973), Sonetos do Cativo (1974), Os Ramos e os Remos (1985), No Veio de Cristal (1988) que foi Grande Prémio Inasset de Poesia, Nos Passos de Pessoa (1988) que ganhou o Prémio Jacinto Prado Coelho e a antologia erótica Música de Cama (1994).

São também de destacar as novelas Gaivotas em Terra (1959) que conquistaram o Prémio Ricardo Malheiros e são topónimo de uma artéria do Parque das Nações, a peça O Irmão (1965) que foi Prémio de Teatro da Casa da Imprensa, os contos Os Amantes (1968), As Quatro Estações (1980) galardoada com prémio da Associação Internacional dos Críticos Literários, o romance Um Amor Feliz (1986) – que recebeu o Prémio de Narrativa do Pen Clube Português, o Prémio D. Dinis da Fundação da Casa de Mateus, o Prémio de Ficção Município de Lisboa, o Grande Prémio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores e a Medalha Oskar Nobiling da Academia Brasileira de Letras -, Duas Histórias de Lisboa (1987) e o CD Um Monumento de Palavras.

Colaborou também em jornais e revistas, como o Diário Popular ou a revista Seara Nova (onde em 1945 publicara os seus primeiros poemas), para além de ter sido um dos fundadores da revista literária Távola Redonda (1950-1954) que dirigiu com António Manuel Couto Viana e Luís de Macedo. Em 1967, tinha a rubrica «Poesia para Todos» no Diário de Lisboa e após o 25 de Abril dirigiu A Capital e foi diretor-adjunto de O Dia. Na década de sessenta do séc. XX também foi o autor do programa Música e Poesia na Emissora Nacional e de Hospital das Letras e Imagens da Poesia Europeia na RTP, tendo nos anos setenta criado também O Dom de Contar para a televisão.

Desempenhou ainda as funções de Secretário de Estado da Cultura (nos anos de 1976, 1977 e 1979), sendo seu o despacho que criou a Companhia Nacional de Bailado. A partir de 1981 dirigiu o Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Fundação Calouste Gulbenkian e depois, presidiu à Associação Portuguesa de Escritores (1984 – 1986) e ao Pen Club Português (1991).

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O jornal República e a Rua da Misericórdia

(Foto: Ana Haterly, Arquivo Municipal de Lisboa)

No dia 25 de abril de 1974, o jornal «República», sito na Rua da Misericórdia nº 116,  saiu impresso para as ruas com o rodapé «Este jornal não foi visado por qualquer Comissão de Censura».

Em meados de abril de 1974,  o jornalista Álvaro Guerra – que era elemento de ligação entre alguns oficiais do MFA e meios civis da oposição-  conseguiu a colaboração do núcleo do jornal República, contando com o diretor, Raul Rego, bem como os jornalistas Álvaro Belo Marques, Carlos Albino, Fernando Assis Pacheco, José Jorge Letria e Vítor Direito. Por isso, às 14 horas no dia 24 de abril, a edição do vespertino República inseria uma curta notícia, intitulada «Limite», onde se podia ler «O programa Limite que se transmite em Rádio Renascença diariamente entre a meia-noite e as 2 horas, melhorou notoriamente nas últimas semanas. A qualidade dos apontamentos transmitidos e o rigor da selecção musical, fazem de «Limite» um tempo radiofónico de audição obrigatória.», aludindo ao programa onde à meia-noite e vinte do dia 25 de abril iria passar a 2ª senha do Movimento: Grândola, Vila Morena, de José Afonso.

Raul Rego recusou de viva voz enviar provas ao Exame Prévio da Comissão de Censura e no dia 25 de abril o República saiu à rua com uma tarja em rodapé de primeira página anunciando que «Este jornal não foi visado por qualquer Comissão de Censura».  Também a 1ª página exibia a manchete «As Forças Armadas tomaram o poder» quando só horas mais tarde a rendição ocorreria no Quartel do Largo do Carmo.

Já cerca das 13:45, na Rua da Misericórdia, Largo Trindade Coelho e Praça de Luís de Camões, os capitães Andrade Moura e Alberto Ferreira dispuseram as suas forças e comunicaram com as forças da GNR, tendo o seu comandante contactado com o Comando-Geral e após 30 minutos recolheram a quartéis. As tropas do RC7 aderiram ao Movimento.

Ainda na Rua da Misericórdia mas na manhã do dia 26 de abril de 1974, as instalações do jornal A Época e da Comissão de Censura são destruídas por populares. Desde 22 de setembro de 1969 que a Censura estava sediada na Rua da Misericórdia nº 125 – 1º, embora as provas para exame prévio fossem entregues pela porta das traseiras na Rua das Gáveas nº 90 – 3º.  O Época veio substituir  em 1971 o Diário da Manhã, o órgão oficioso e de doutrinação da União Nacional que desde 1931 tinha comprado a sede do jornal O Mundo, no nº 95 daquela artéria.

A Rua da Misericórdia onde estava sediado o República tem uma história toponímica também relacionada com os movimentos políticos que foram acontecendo no país. Começou por ser a Rua Larga de São Roque, dada a proximidade à Igreja e Convento de São Roque,  que afinal também deu o topónimo inicial do Bairro: Alto de São Roque. No final do séc. XIX viu o seu nome encurtado para Rua de São Roque, por Edital municipal de 8 de junho de 1889. Depois, o jornal O Mundo, foi criado em 16 de setembro de 1900 por António França Borges (1871-1915) que fez dele o  órgão republicano e um matutino de grande tiragem e se instalou na Rua das Gáveas mas esse edifício  foi depois englobado numa nova edificação com a fachada principal para a Rua de São Roque e na qual até exibia um grande globo, pelo que a edilidade republicana fez da artéria uma homenagem ao jornal tornando-a Rua do Mundo, através do Edital de 18 de novembro de 1910. Depois, com o Estado Novo, sobretudo nos anos trinta, foram frequentes as mudanças de topónimos republicanos por outros de cariz religioso ou usados anteriormente, pelo que o Edital municipal de 19 de agosto de 1937 passou a denominá-la Rua da Misericórdia por referência à Misericórdia de Lisboa instalada no largo do topo desta artéria.

 

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A 1ª senha do 25 de Abril, os Emissores Associados de Lisboa e a Avenida Elias Garcia

Emissora escolhida pelo MFA para transmitir a primeira senha para o arranque da operação militar contra o regime. Assim, às 22H55 do dia 24 de abril, o jornalista João Paulo Diniz pôs no ar a canção “E Depois do Adeus”, interpretada por Paulo de Carvalho.

No 7º andar do nº 162 da  Avenida Elias Garcia estavam sediados os estúdios dos  Emissores Associados de Lisboa, os escolhidos pelo MFA para, através de João Paulo Diniz, transmitir a primeira senha para o arranque da operação militar contra o regime. E assim, às 22:55 do dia 24 de abril de 1974, ele anunciou aos microfones da estação «Faltam cinco minutos para as vinte e três horas. Convosco, Paulo de Carvalho com “E Depois do Adeus”», a senha que servia de sinal para as unidades preparem a saída dos quartéis.

A artéria que homenageia o republicano José Elias Garcia foi um topónimo atribuído pelo primeiro Edital de toponímia após a proclamação da República, de 5 de novembro de 1910, que incluiu mais 9 topónimos como a Avenida da República e a Avenida Cinco de Outubro, assim outras figuras republicanas, como o Almirante Cândido dos Reis e Miguel Bombarda.

José Elias Garcia (Almada-Cacilhas/31.12.1830 –  21.06.1891/Lisboa), militar e político republicano, desempenhou na edilidade alfacinha  as funções de vereador com o pelouro de instrução pública (entre 1873-1875 e 1878-1881), tendo criado as bibliotecas populares e as escolas centrais, bem como instituído o ensino da ginástica, do desenho de ornato e do canto coral, tendo também sido o 25º Presidente da Câmara Municipal de Lisboa ( de 2 de janeiro a 18 de agosto de 1878).

Coronel de engenharia exerceu também como professor de Mecânica Aplicada na Escola do Exército (a partir de 1857), tendo também fundado diversos jornais republicanos – O Trabalho (1854), O Futuro (1858-1862), A Política Liberal (1862)- e sido o redator principal do Jornal de Lisboa (1865) e do Democracia (1873), para além de ter presidido à Assembleia dos Jornalistas e Escritores Portugueses.

Elias Garcia, a partir do célebre grupo do Pátio do Salema (Clube dos Lunáticos), fundou em 1868 o Partido Reformista, de onde veio a resultar o Centro Republicano Democrático Português (1876) e o Partido Republicano e nessa qualidade foi deputado, eleito pela primeira vez em 1870 por Lisboa, sendo depois também eleito pelo Partido Republicano em 1882-1884, 1884-1887 e 1887-1889 e 1890.  Entre 1883 e 1891 presidiu ao Diretório do Partido Republicano.

Paralelamente, como Irmão Péricles na Maçonaria Portuguesa desde 1853, foi o 1.º e único Grão-Mestre  da Federação Maçónica (1863 a 1869),  Grão-Mestre interino do Grande Oriente Lusitano Unido (1884 a 1886), Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano Unido (1887 a 1889) e assim, o seu túmulo no Cemitério do Alto de São João, construído em 1893-1894 pelo Grande Oriente Lusitano em terreno cedido pela CML, ostenta um obelisco encimado por uma estrela de cinco raios.

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Rua Jaime Lopes Dias

Jaime Lopes Dias em 1949 (ao centro)
(Foto: Firmino Marques da Costa, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua Jaime Lopes Dias, topónimo atribuído por Edital de 3 de outubro de 1991 a um arruamento da freguesia do Lumiar

Jaime dos Santos Lopes Dias (1890-1977), funcionário público e da Câmara Municipal de Lisboa, jurista, jornalista e etnógrafo. Fez parte de dezenas de associações, nacionais e estrangeiras, entre as quais a Academia das Ciências de Lisboa, a Associação dos Arqueólogos Portugueses, o Instituto de Coimbra, a Sociedade de Geografia de Lisboa, Société de Etnologie Française, e Asociación de los Amigos del Arte (Argentina). Natural do Vale da Senhora da Póvoa, concelho de Penamacor, estudou em Castelo Branco e Coimbra, licenciando-se em Direito na Universidade desta cidade em 1912. Desde a licenciatura até 1936 desempenhou vários cargos em Penamacor, Idanha a Nova e Castelo Branco: oficial do Registo Civil, Administrador de Concelho, Vereador (em Idanha a Nova), Juiz, Secretário Geral do Governo Civil do Distrito de Castelo Branco. Em 1936 veio para Lisboa como adjunto do Director Geral da Administração Política e Civil do Ministério do Interior, ministério onde se manteve até 1938, ano em que foi nomeado Director dos Serviços Centrais e Culturais da Câmara Municipal de Lisboa.

Ao longo da vida, foi autor de centenas de títulos e colaborador em publicações periódicas como, por exemplo, o Diário de Notícias, O Século, Diário de Coimbra, Panorama, Terras Portuguesas. Fundou os jornais Povo de Idanha (1914) e A província (1921) e dirigiu o Boletim da Casa das Beiras, a Revista das beiras e a Revista Municipal da Câmara Municipal de Lisboa. Escreveu obras sobre matérias de Direito, nomeadamente a edição revista e anotada do Código de Direito Administrativo de 31 de Dezembro de 1936. Mas o seu grande interesse foi a etnografia, principalmente a da sua terra natal. Editou, em 11 volumes, Etnografia da Beira (1926-1971), ainda hoje obra de referência sobre os usos e costumes desta região portuguesa. Publicou ainda Pelourinhos e forcas no Distrito de Castelo Branco (1935), A Beira Baixa, seu folclore, sua história e suas riquezas (1936), Cortiças da Beira Baixa (1947), ou A Beira Baixa e o seu teatro popular na obra de Gil Vicente (1959), entre tantos outros. Manteve sempre a ligação às origens, desempenhando cargos na Santa Casa da Misericórdia de Idanha a Nova, batendo-se pela construção da barragem do rio Ponsul ou pela criação de uma linha férrea que servisse a vila. Legou a sua biblioteca à Câmara Municipal de Castelo Branco, o que se veio a concretizar já depois da sua morte. Presentemente a Biblioteca desta cidade tem o nome de Jaime Lopes Dias.

Fez parte da Associação dos Jardins-Escolas João de Deus, tendo sido presidente da Assembleia Geral e tendo colaborado com João de Deus Ramos na obra O Livro de Capa Verde: selecta para a gente moça (1948).

Quando passou a residir em Lisboa, Lopes Dias começou igualmente a escrever sobre aspectos da vida lisboeta, dentro da sua linha de investigador etnográfico. Trouxe a lume Festas e divertimentos da cidade de Lisboa: da Independência à Restauração (1940), Grades de Lisboa (1947), Uma tradição lisboeta que revive: os tronos a Santo António (1949), Natal Português (1957). Publicou ainda um útil estudo O brasão de armas da cidade de Lisboa (1943) três anos após a fixação desta insígnia pela Comissão de Heráldica da Associação de Arqueólogos Portugueses. Nesse mesmo ano publicou O Museu da Cidade de Lisboa e em 1953 Vinte e Cinco anos da vida de uma capital. Colaborou na obra Lisboa Oito séculos de História, com o capítulo “Lisboa de hoje. A cidade de amanhã”.

Foi membro da Comissão Municipal de Toponímia desde a sua criação em 1943, juntamente com Pastor de Macedo e Augusto Vieira da Silva, até 1960.

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Rua Norberto de Araújo

Revista Municipal nº 55, 4º trimestre de 1952

Rua Norberto Araújo, topónimo atribuído a uma arruamento da freguesia de Santa Maria Maior por Edital de 22 de Junho de 1956

Norberto Moreira de Araújo (1889 -1952), jornalista, funcionário do Ministério das Finanças, poeta, escritor e olisipógrafo. Em 1904, entra na Imprensa Nacional como aprendiz de tipógrafo, tendo sido o melhor aluno do seu curso, ao mesmo tempo que prossegue os seus estudos. Frequenta o Curso Superior de Letras, mas não concluiu a licenciatura. Iniciou-se como jornalista, em 1913, colaborando no jornal Sport Lisboa. Profere algumas conferências na Imprensa Nacional sobre a arte tipográfica, posteriormente publicadas, e que lhe valeram a recomendação do então director da Imprensa, Luís Derouet, para ingressar na redacção de O Mundo, em 1916. Como jornalista, colaborou, entre outros, no Repórter X: semanário de grandes reportagens, no Animatógrafo, na Ilustração Portuguesa, no A Manhã, no Diário de Notícias, no Século da Noite, e no Diário de Lisboa, jornal onde se manteve desde 1922 até à sua morte e onde assinava a coluna “Páginas de quinta feira”, dedicada a temas variados que iam desde a cultura, os casos de rua até à cidade de Lisboa e à defesa do seu património. Através dos seus artigos defendeu a manutenção e a renovação do Bairro de Alfama contra a campanha higienista que propunha a sua demolição, bateu-se pela realização anual da Feira do Livro, pela regularidade das exposições de Arte na Sociedade Nacional de Belas Artes, apoiou a iniciativa de Leitão de Barros para a realização das marchas populares, e a 31 de Agosto de 1934, propôs a abertura de uma cadeira de Estudos Olisiponenses na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Ideia que Pastor de Macedo transforma em proposta apresentada em Sessão de Câmara a 6 de Setembro e que é aprovada, funcionando a cadeira durante alguns anos das décadas de 30-40. A par deste interesse pela sua cidade natal, Norberto de Araújo fez reportagens de grande fôlego, como o acompanhamento de duas visitas presidenciais (de António José de Almeida ao Brasil em 1922 e de Carmona a Espanha em 1929), a do Ano Santo de 1925 em Roma (onde entrevista o Papa Pio IX e Mussolini), a do julgamento de Alves dos Reis (1839) e a da visita da Rainha D. Amélia ao Panteão de S. Vicente (1945).

Norberto de Araújo dedicou à cidade muito do seu tempo e saber, tendo feito parte da Comissão Executiva das Festas de Lisboa de 1935 e organizado o Cortejo das Marchas Populares (tendo chegado a redigir a letra de para algumas delas); sendo sócio fundador do Grupo Amigos de Lisboa e assumindo a responsabilidade da decoração do Pavilhão de Lisboa na Exposição do Mundo Português, em 1940.

Como jornalista, os seus colegas e críticos são unânimes em afirmar que Araújo trouxe um novo estilo ao jornalismo, “repórter de frase curta, palavra solta, liberta da ganga da retórica” (palavras de Baptista Bastos), sem se prender em compromissos políticos. Como olisipógrafo, manteve estas mesmas características, que lhe granjearam grande número de leitores. Para além de milhares de artigos, e de algumas dezenas de conferências, foi autor das pequenas monografias Lisboa, o Castelo de S. Jorge e Itinerários turísticos de Lisboa, destinadas aos turistas. Escreveu ainda Legendas de Lisboa (1943), reunindo diversos textos sobre locais típicos de Lisboa; Casas da Câmara de Lisboa, em co-autoria com Pastor de Macedo, e que é um dos estudos mais completos sobre a câmara e os locais onde se estabeleceu; e de Inventário de Lisboa (1944-1956), concluído por Durval Pires de Lima, onde se pretendia fazer o levantamento de todo o património lisboeta.

Mas a sua obra mais conhecida intitula-se Peregrinações em Lisboa, editada a partir de 1938, resultado do seu profundo conhecimento físico da cidade e de um intenso labor de pesquisa documental. Como o título indica, Norberto de Araújo, traça percursos por Lisboa, descrevendo-os, narrando as suas histórias, desvendando os seus segredos. Num tom muito coloquial, como em conversa com o seu “dilecto Amigo”, figura imaginária a quem ele narra tudo o que sabe, e na qual o leitor se revê, as Peregrinações são ainda hoje, uma obra incontornável para quem quer conhecer a cidade.

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Rua Gustavo de Matos Sequeira

Gustavo de Matos Sequeira em 1947
(Foto: Ferreira da Cunha, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua Gustavo de Matos Sequeira, topónimo atribuído a um arruamento da freguesia de Santo António por Edital de 22 de Janeiro de 1963

Gustavo Adriano de Matos Sequeira (1880-1962), funcionário público, autor, jornalista e olisipógrafo. Iniciou a sua carreira de jornalista em 1905. Foi funcionário das Alfândegas até 1931 quando foi compulsivamente afastado da função pública por ter sido acusado pela PIDE de ter ajudado à introdução de armas no país, do que foi ilibado. Passa a colaborar mais activamente em diversas publicações periódicas, fazendo crítica teatral (especialmente de teatro de revista) e escrevendo sobre Lisboa. Foi também autor teatral de revistas, tradutor e adaptador de peças teatrais, poeta e escreveu a letra da conhecida Marcha dos Marinheiros. Desempenhou ainda funções de Comissário do Governo junto do Teatro Nacional (1917-1936) e foi eleito presidente do Sindicato dos Profissionais da Imprensa (1931). Pertenceu a várias instituições culturais, entre as quais a Associação dos Arqueólogos Portugueses, a Academia das Ciências, a Academia da História e o Grupo Amigos de Lisboa, do qual foi um dos fundadores.

A sua primeira obra sobre Lisboa, foi publicada por Júlio de Castilho (de quem seria amigo a partir de então) numa das suas obras. Era um longo texto sobre a paróquia e igreja de S. Mamede, entregue ao Mestre em 1903 que sobre ele afirmou: “trabalho (…) tão conscienciosamente feito, tão metódico, e tão exacto que o entendi reproduzi-lo textualmente.” Para além de artigos avulsos em publicações periódicas, Matos Sequeira publicou a partir de 1916 as suas obras mais conhecidas: Depois do Terramoto: subsídios para a história dos bairros ocidentais (1916-1933) e O Carmo e a Trindade: subsídios para a história de Lisboa (1933-1941). No entanto a sua actividade como olisipógrafo estendeu-se muito para além destas duas monografias, sendo autor de centenas de títulos sob a forma de artigos, conferências, opúsculos, livros, e peças teatrais, quer a solo, quer em colaboração com outros olisipógrafos. Saliente-se ainda a curiosa edição que fez, em 1925, de Relação de vários casos notáveis e curiosos sucedidos em tempo na cidade de Lisboa e em outras terras de Portugal (…) onde à moda de setecentos reúne pequenos artigos sobre notícias e casos ocorridos, que tinha vindo a encontrar no meio das suas investigações.

Organizou ou colaborou em diversas actividades ou eventos culturais, como a Exposição Olisiponense, no Museu do Carmo (1914), na reconstituição de um mercado seiscentista no Largo de S. Domingos (1926), na reconstituição da Lisboa Antiga, na cerca do Convento das Francesinhas (1935), na Exposição do Mundo Português (1940). Em 1945 dá início a um dos seus mais originais projectos: a criação de uma maquete da cidade pré-pombalina. A maquete foi por ele planeada, histórica e artisticamente dirigida, e executada com a colaboração do pintor Martins Barata e do artista modelador Ticiano Violante. Reúne mais de 10 000 edifícios em miniatura e reproduzia a cidade entre Santa Apolónia e S. Paulo. Foi publicamente apresentada na Exposição Iconográfica e Bibliográfica Comemorativa da Reconstrução da Cidade depois do Terramoto de 1755, tornando-se na sua peça central. Dois anos mais tarde a Câmara Municipal de Lisboa incumbiu-o ainda de fazer o prolongamento da maquete até à zona de Alcântara. Para este trabalho, Matos Sequeira recorreu ainda ao desenho de plantas topográficas da cidade, muitas das quais se encontram (juntamente com o seu espólio) à guarda do Gabinete de Estudos Olisiponenses. São plantas em papel vegetal, por vezes, muito toscamente desenhadas, a lápis de carvão, esferográfica, lápis de cor, mas com uma precisão de localização e de explicação de arruamentos e edifícios já desaparecidos, que resultaram das suas inúmeras pesquisas em arquivos e bibliotecas, confrontadas com o trabalho de campo, e que lhe permitiram traçar um fiel retrato da Lisboa pré-terramoto.

Apesar da precisão científica que a sua obra nos oferece, o seu estilo de escrita é cativante, abandonando o tom académico, utilizando um estilo jornalístico e quase intimista que o levou muitas vezes a descrever em pormenor acontecimentos, ou aspectos da vida social e diária da cidade, que permitem ao seu leitor visualizar uma Lisboa já desaparecida.

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Rua Gomes de Brito

Olisipo, outubro de 1943

Rua Gomes de Brito, topónimo atribuído por Edital de 16 de Setembro de 2009 a um arruamento da freguesia de Marvila

José Joaquim Gomes de Brito (1843 – 1923), jornalista, funcionário da Câmara Municipal de Lisboa, olisipógrafo, foi autor prolífico, redigindo diversos elogios históricos, pareceres sobre a indústria e o comércio, e escrevendo sobre a cidade de Lisboa. Assinou quer com o seu nome, quer sob pseudónimo (Brás Fogaça, Um português obscuro, Nullius, Petintal de Alfama, G. de B.). Foi sócio fundador da Sociedade de Geografia de Lisboa (1875), participou na criação da Sociedade dos Jornalistas e Escritores Portugueses e na Comissão do primeiro mausoléu de Alexandre Herculano (1880). Cursou Belas Artes, mas por influência de Alexandre Herculano, de quem viria a ser discípulo e amigo, licenciou-se em Letras, onde conheceu os irmãos Bordalo Pinheiro. Participou num grupo de teatro amador, ao qual pertencia Rafael Bordalo Pinheiro, vindo a colaborar com este n’O Binóculo (1870) e n’O Calcanhar de Achilles (1870). Publicou artigos na Revista de Educação e Ensino, no Correio Nacional, n’O Occidente, O Commercio de Portugal e o Diário de Notícias, entre outros. Como olisipógrafo, publicou o primeiro trabalho em 1880, A Rua de S. Tomé, publicado no jornal A Revolução de Setembro. Mais de dez anos depois, atendendo à sua vida profissional que o impediu de se dedicar à olisipografia, dá início à publicação de várias obras sobre a cidade: Lisboa de 1578 a 1583: cartas de Filipe Sassetti(…) (1893); O prior de S. Nicolau (…) (1893); Os remolares: o que fossem, onde e quando começariam a ser denominação de um sítio de Lisboa (1899); Os Itinerários de Lisboa (1899-1900); Archeologia musical (1904); Tenças testamentárias da Infanta D. Maria (1907); Notícia de livreiros e impressores em Lisboa na segunda metade do século XVI (1911). Neste último ano, publicou ainda Lisboa do passado, Lisboa dos nossos dias, reunindo num único volume alguns dos artigos dispersos em várias publicações.

Já reformado, prosseguiu os seus trabalhos, embora muito limitado nas suas deslocações, após ter partido uma perna nas escadas dos Paços do Concelho de Lisboa. No entanto, tal não o impediu de trabalhar naqueles que viriam a ser os seus grandes contributos para a história e a olisipografia. Em 1914, foi publicado o seu aprofundado estudo sobre Alexandre Herculano para o Diccionario Bibliographico Português de Inocêncio F. da Silva e Brito Aranha, que viria a ocupar todo o volume XXI.

Em 1923, terminou, pouco antes de falecer, o comentário e as notas à edição do manuscrito anónimo, Estatística de Lisboa de 1552, ao qual atribuiu novo título (Tratado da majestade, grandeza e abastança da cidade de Lisboa, na 2ª metade do século XVI) e cujo autor conseguiu identificar como sendo João Brandão (de Buarcos). Augusto Vieira da Silva conta no discurso que fez em homenagem a Gomes de Brito em sessão da Academia Portuguesa da História, um episódio passado entre os dois a propósito desta obra. Vieira da Silva narra como Gomes de Brito sempre o auxiliou nas suas investigações, quer emprestando-lhe livros da sua biblioteca, quer partilhando o seu conhecimento. No entanto, quando Vieira da Silva o indagou sobre a autoria da Estatística Brito remeteu-se ao silêncio, não querendo revelar o que tinha descoberto antes da edição das anotações. Mas não se esqueceu Gomes de Brito deste episódio. O Gabinete de Estudos Olisiponenses possui o exemplar da Estatística de Vieira da Silva com a seguinte dedicatória, assinada por António Baião, testamenteiro de Gomes de Brito e datada de 14 de Novembro de 1923, isto é um mês após a morte do olisipógrafo: “Exemplar oferecido ao Exmº Sr. A. Vieira da Silva, como homenagem ao seu valioso auxílio para a publicação desta obra e por expressa determinação do anotador e comentador, J.J. Gomes de Brito, antes do seu falecimento.”

A última grande obra da sua autoria publicada por António Baião, é certamente a mais conhecida: As Ruas de Lisboa: notas para a história das vias públicas lisbonenses. Editada em 1935, ela resulta do facto de António Baião, ter sido amigo e o herdeiro do espólio de Gomes de Brito, o qual ao longo da vida recolhera as informações necessárias para a realização do livro, reunindo verbetes sobre topónimos lisboetas. Baião prosseguiu o trabalho de Brito dando-lhe forma de livro, organizado alfabeticamente, tal como as fichas de Brito. Trabalho incompleto e com entradas de dimensões muito variáveis, As Ruas de Lisboa, são, porém, um trabalho inovador. Até então nunca tinha sido impressa uma obra exclusivamente dedicada à toponímia urbana. Gomes de Brito é justamente considerado o fundador dos estudos toponímicos de Lisboa.

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Júlio de Castilho duas vezes topónimo lisboeta: em Largo e em Jardim

Júlio de Castilho com o fotógrafo José Artur Leitão Bárcia
(Foto: José A. Leitão Bárcia, Arquivo Municipal de Lisboa)

No último dia desta semana, 8 de fevereiro de 2019, completam-se cem anos da morte do Mestre da Olisipografia Júlio de Castilho, o autor  de obras tão importantes e pioneiras como Lisboa antiga – Primeira parte: 0 Bairro Alto (1879) – que teve uma 2ª edição ampliada em 5 tomos-,  Lisboa antiga – Segunda parte: Bairros orientais (1884 – 1890) – em 7 tomos – ou A Ribeira de Lisboa, descrição histórica da margem do Tejo desde a Madre de Deus até Santos o Velho (1893), pelo que foi considerado o fundador dos estudos olisiponenses.

De acordo com Raquel Henriques da Silva, na sua palestra de abertura de «Uma casa em Lisboa – Homenagem a José Sarmento Matos» no passado dia 22 de janeiro – dia de São Vicente, o padroeiro de Lisboa – , Lisboa tem uma disciplina própria que mais nenhuma cidade tem que é a Olisipografia que Júlio de Castilho inventou. Por isso mesmo, recomendou a reedição anotada de toda a obra de Mestre Castilho.

Júlio de Castilho (Lisboa/30.04.1840- 08.02.1919/Lisboa), era filho do escritor António Feliciano de Castilho que nascera no Bairro Alto, e por isso ao investigar para escrever as memórias de seu pai acabou por escrever a sua primeira obra sobre a história da cidade de Lisboa, dedicada a esse Bairro. Também por essa condição de nascimento foi o 2º visconde de Castilho e viveu a maior parte da sua vida no Lumiar, vindo a ter o seu nome consagrado no Largo contíguo à artéria onde morava, já que residente do n.º 11 da Travessa do Prior ( hoje n.º 26 da Rua Pena Monteiro),  junto ao Largo da Duquesa, este último topónimo passou a ser o Largo Júlio de Castilho, por Edital municipal de 2 de março de 1925, com a legenda «Erudito Escritor e Historiador/1840 – 1919».

Logo no ano do seu falecimento, havia sido  homenageado com a colocação de uma lápide na sua casa no Lumiar, por iniciativa dos seus amigos José Artur Leitão Bárcia, Miguel Trancoso e António César Mena Júnior.

Largo da Duqueza, depois Largo Júlio de Castilho
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

E quatro anos após a atribuição do Largo com o seu nome, o fundador da Olisipografia, foi também homenageado com a criação do Jardim de Júlio de Castilho, onde a Comissão Administrativa da CML inaugurou  um busto do olisipógrafo, da autoria do escultor Costa Mota (sobrinho), no dia 25 de julho de 1929, integrado num miradouro sobre Alfama, conhecido como Miradouro de Santa Luzia, cerimónia a que compareceram outros olisipógrafos como Gustavo de Matos Sequeira ou o Engº Augusto Vieira da Silva, assim como o fotógrafo José  Artur Leitão Bárcia.

Em 1939, a Câmara Municipal de Lisboa lançou ainda o Prémio Júlio de Castilho e no ano seguinte (1940), no centenário do nascimento de Júlio de Castilho,  promoveu no Palácio Galveias uma Exposição ilustrativa da obra deste olisipógrafo.

Busto de Júlio de Castilho
(Foto: José A. Leitão Bárcia, Arquivo Municipal de Lisboa)

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