A Rua do Cine-Bélgica/Universal e a Duquesa de Palmela

O Cine Bélgica na Rua da Beneficência em 1961 (Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Cine Bélgica na Rua da Beneficência em 1961
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua da Beneficência foi atribuída ainda em vida da 3ª Duquesa de Palmela,  Maria Luísa Holstein, pelo Edital de 18 de dezembro de 1903, que nessa época ligava o Largo do Rego à Palma de Cima, perpetuando as iniciativas beneméritas da homenageada.

Publicidade do Universal no Diário de Lisboa , 7 de janeiro de 1977

Publicidade do Universal no Diário de Lisboa , 7 de janeiro de 1977

Vinte e cinco anos depois, em 1928, abriu portas no nº 175 deste arruamento o Cine-Bélgica, por se situar no Bairro da Bélgica, com uma  lotação de 500 lugares que em  1933 foi também equipado com uma aparelhagem de som. Em 1968 pensaram denominá-lo Cinema Universitário mas ficou a designar-se Cinema Universal e cinco anos depois (1973) já pertencia à Animatógrafo, dirigida pelo produtor e realizador António da Cunha Telles tendo em 1980 dado  lugar ao Rock Rendez-Vous, que encerrou em 27 de julho de 1990.

A Duquesa de Palmela no jornal Tiro e Sport, 15 de setembro de 1909

A Duquesa de Palmela no jornal Tiro e Sport, 15 de setembro de 1909

Hoje a Rua da Beneficência liga a Avenida de Berna à Rua Alberto de Sousa e fixa na memória da cidade Maria Luísa Domingas de Sales de Borja de Assis de Paula de Sousa Holstein (Lisboa/04.08.1841-02.09.1909/Sintra) cuja filantropia lhe concedeu um lugar único no panorama nacional, nomeadamente, na Assistência Nacional aos Tuberculosos, nos Socorros a Náufragos, em asilos, missões ultramarinas, institutos de auxílio à infância e na fundação das Cozinhas Económicas, com a sua prima Maria Isabel Saint-Lèger, tendo sido a sua primeira presidente. A Duquesa de Palmela para além de dama da Rainha D. Amélia dedicou-se também à escultura, havendo trabalhos seus no Museu do Chiado e na Sociedade de Geografia de Lisboa, assim como se interessou pela cerâmica e juntamente com a Condessa de Ficalho fundou a Fábrica do Ratinho no seu próprio palácio. Foi distinguida com a Ordem de Santiago, a Ordem de Santa Isabel, a Ordem de Maria Luísa (Espanha) e a Académica de Mérito da Academia Nacional de Belas-Artes.

Passados 86 anos, pelo Edital de 25 de janeiro de 1989, a edilidade lisboeta voltou a perpetuá-la em Lisboa num arruamento de Alcântara junto à Rua da Cozinha Económica: Rua Maria Luísa Holstein.

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua de Casimiro Freire, o mecenas das Escolas Móveis João de Deus, no Bairro dos Aliados

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

Casimiro Freire, o mecenas republicano que em 1882 fundou a  Associação de Escolas Móveis pelo Método de João de Deus, dá nome a uma rua do Bairro dos Aliados, com a legenda «Apóstolo da Instrução Popular/Século XIX», desde junho de 1926.

Casimiro Freire foi fixado na Rua nº 5 do Bairro dos Aliados à Rua Carvalho Araújo, nos terrenos do antigo Areeiro também conhecido como Quinta do Bacalhau, pela deliberação camarária de 12 de junho de 1926 e edital de dia 25 do mesmo mês. Pelo mesmo edital foi também homenageado, na Rua nº 4,  João de Menezes , um «Precursor do Regime Republicano/Século XIX».

Casimiro Freire (Sertã – Pedrogão Pequeno/08.10.1843 – 20.10.1918/Lisboa) era um comerciante e industrial cuja prosperidade o tornou num mecenas da alfabetização. Assim, publicou em 29 e 30 de março de 1881, no jornal O Século, um artigo intitulado «A instrução do povo e a monarquia», onde se insurgia contra a incúria dos governos monárquicos no combate ao analfabetismo e propunha que fossem enviados aos mais recônditos lugares de Portugal missões de alfabetização de professores habilitados que ensinassem a ler e a escrever. Numa época em que 80% da população portuguesa era iletrada, Casimiro Freire fundou em 18 de maio de 1882, com João de Deus, a Associação das Escolas Móveis pelo Método de João de Deus e em 1897 publicou também em folheto uma representação à Câmara dos Deputados intitulada A Instrução do Povo e o Método de João de Deus. Acompanharam-no nessa iniciativa personalidades, como João de Barros, Bernardino Machado, Jaime Magalhães Lima, Francisco Teixeira de Queiroz, Ana de Castro Osório e Homem Cristo, entre outros. Cedeu a João de Deus, um primeiro andar dos armazéns onde trabalhava, no Largo do Terreiro do Trigo, para ser a sede da Associação de Escolas Móveis pelo Método de João de Deus.

Mais tarde, em 1915, por decreto de 5 de junho do Ministro da Instrução Pública, Sebastião Magalhães Lima, foi encarregue da catalogação e organização do Museu Bibliográfico, Pedagógico e Artístico João de Deus, serviço que concluiu em 30 de junho de 1916. E por decreto de 23 de dezembro de 1916, também lhe foi destinada a guarda e conservação do museu até à sua instalação definitiva junto ao Jardim-Escola João de Deus, na Avenida Álvares Cabral.

Republicano desde 1862, foi em 1876 um dos fundadores do primeiro Centro Republicano com Oliveira Marreca e Sousa Brandão entre outros, e em 1899, a partir da comissão paroquial republicana da freguesia de Santa Isabel foi eleito para o diretório do Partido Republicano Português. Em 1884 foi eleito vereador por Lisboa, mas o apuramento na Câmara Municipal não lhe confirmou a votação mas já em 1911 foi o mais votado da Junta Consultiva do Partido Republicano. Colaborou também na imprensa republicana, nomeadamente no Democracia (1873) – jornal dirigido por Elias Garcia -, e no Vanguarda.

Casou com Maria Madalena Battaglia, sogra de João de Deus, no segundo casamento desta, e com ela residiu nº 20 C-1º da Rua das Gaivotas.

Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Aboim Ascensão, benemérito da 1ª creche e 1º lactário lisboetas

Rua Aboim Ascensão - Freguesia de Alvalade (Foto: Sérgio Dias)

Rua Aboim Ascensão – Freguesia de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias)

O Arqº Miguel Ventura Terra projetou o primeiro lactário e a primeira creche lisboeta, no Largo do Museu de Artilharia, nº 2, uma iniciativa do Coronel Rodrigo António Aboim Ascensão que para o efeito fundara a Associação Protetora da Primeira Infância e em Lisboa dá nome a uma Rua (que antes foi Azinhaga) e a uma Travessa.

Aboim Ascensão fundou em 1901 a Associação Protetora da Primeira Infância (APPI) e no ano seguinte o Ministério das Obras Públicas doou-lhe uma sede e terreno, tendo sido traçado por  Ventura Terra o plano de requalificação do edifício Sede e a construção da Vacaria que permitira leite sempre fresco para a criação do 1º lactário e 1ª creche alfacinhas.

Contudo, Aboim Ascensão só 30 anos após esta fundação e um ano após o seu falecimento passou a integrar a toponímia de Lisboa. Em Alvalade, existia uma Azinhaga dos Coruchéus que por Edital municipal de 30/12/1931 passou a ser designada como  Azinhaga Aboim Ascensão e no ano seguinte, o Edital de 03/11/1932 mudou-lhe a categoria para Rua. Dezoito anos depois a Rua Aboim Ascensão foi aumentada já que o Edital de 14/06/1950 incluiu a Rua Luís Augusto Palmeirim neste arruamento. E vinte anos mais tarde, a artéria ganhou a legenda « Benemérito/1859 – 1930», de acordo com um parecer da Comissão Municipal de Toponímia na sua reunião de 15/05/1970, que foi homologado pelo Presidente da CML, à época o General França Borges.

Muito próximo, no arruamento paralelo ao Campo Grande entre a Rua Aboim Ascensão e a Rua Afonso Lopes Vieira,  e com a mesma legenda, existe também a Travessa Aboim Ascensão que era antes a Rua Ferreira de Castro, atribuída pelo Edital municipal de 04/12/1981. No entanto, a Associação dos Amigos de Ferreira de Castro, solicitou à CML que a homenagem se concretizasse em arruamento de maior dignidade, tendo a Comissão Municipal de Toponímia dado parecer favorável pelo que Ferreira de Castro seguiu para a Rua “E” da Malha N1 de Chelas  e ali ficou a Travessa Aboim Ascensão, desde o Edital de 28/02/1984.

A APPI no Largo do Museu de Artilharia, em 1902/03 (Foto: Paulo Guedes, Arquivo Municipal de Lisboa)

A APPI no Largo do Museu de Artilharia, em 1902/03
(Foto: Paulo Guedes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rodrigo António Aboim de Ascensão (Faro/23.08.1859 – 22.01.1930/?) foi um oficial do exército que desenvolveu a sua carreira sobretudo na Guarda Fiscal onde ingressou em 1877 mas também se dedicou à filantropia. Foi coronel da Guarda Fiscal e fundador em Lisboa do Cofre da Previdência da Guarda Fiscal e do Museu das Apreensões (depois, Museu Aduaneiro), bem como fundador da Associação Protetora da Primeira Infância (1901) que instituiu vários lactários na capital e da Associação de Beneficência e Instrução do Campo Grande (1907), para as crianças em idade escolar. Em 1931, por iniciativa de um grupo de amigos foi erigido um busto seu  em bronze, da autoria de Raul Xavier, no jardim da APPI.

Após a sua morte, deixou em testamento um legado para fundar em Faro, sua terra natal, a instituição que foi designada como Refúgio Aboim Ascensão, de apoio social para crianças e idosos, o que se concretizou em 1932. Rodrigo Aboim de Ascensão foi distinguido com as comendas da Ordem de Benemerência e de Isabel, a Católica, e com as ordens de Santiago de Espada e de São Bento de Avis.

Freguesia de Alvalade (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias)

Valmor e Ventura Terra em Lisboa

Freguesias das Avenidas Novas e do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias das Avenidas Novas e do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

Valmor e Ventura Terra são nomes que se cruzam em Lisboa. Por um lado, porque o arqtº Miguel Ventura Terra recebeu 4 Prémios Valmor (nos anos de 1903, 1906, 1909 e 1911) e ainda uma menção honrosa no ano de 1913,  e por outro, porque a Casa dos Viscondes de Valmor, prédio de gaveto do  nº 38 da Avenida Ressano Garcia (hoje Avenida da República) com o  nº 22  da Rua Visconde Valmor (hoje Avenida Visconde Valmor) nasceu do traço de Ventura Terra.

Por Edital municipal de 11 de dezembro de 1902 a «nova via publica, entre a avenida Pinto Coelho e a rua nº 7» passou a ter o topónimo Rua Visconde de Valmor, tendo nascido do mesmo Edital a « Avenida Duque de Loulé, Avenida Marquez de Thomar,  Rua Conde de Redondo, Avenida Conde de Valbom, Rua Barbosa Bocage, Rua João Chrysostomo, Rua Gonçalves Crespo, Rua Luciano Cordeiro». Quase 23 anos anos, por Edital municipal de 8 de junho de 1925, passou à categoria de Avenida, como «as Ruas Antonio Serpa, Julio Diniz, Barbosa du Bucage, Elias Garcia, (…) e João Crisostomo.»

Visconde de Valmor num óelo de José Malhoa nos Paços do Concelho de Lisboa (Foto: Francisco Leite Pinto, anos 80 do séc. XX, Arquivo Municipal de Lisboa)

Visconde de Valmor num óleo de José Malhoa nos Paços do Concelho de Lisboa
(Foto: Francisco Leite Pinto, anos 80 do séc. XX, Arquivo Municipal de Lisboa)

Assim, a Rua Visconde de Valmor de 1902 que passou a Avenida Visconde Valmor em 1925, perpetua a memória de Fausto de Queirós Guedes (Peso da Régua/01.02.1837-24.12.1898/Paris), 2º  Visconde de Valmor (por herança de um tio paterno) e último, que foi um diplomata, par do reino e governador civil de Lisboa, membro do Partido Progressista, reconhecido conhecedor da arquitetura clássica e protetor dos artistas de tal forma que até instituiu um prémio anual para atribuir ao edifício de melhor nível artístico construído em Lisboa. Em testamento deixou à Academia das Belas-Artes a quantia de 100 contos de réis, valor muito considerável para a época, destinando metade  para a formação de um fundo, cujo rendimento anual seria o prémio a atribuir, em partes iguais, ao proprietário e ao arquiteto que tivessem construído o mais belo prédio de Lisboa, «com a condição, porém, que essa casa nova, ou restauração de edifício velho, tenha um estilo arquitectónico clássico, grego ou romano, romão gótico, ou da renascença ou algum tipo artístico português, enfim um estilo digno de uma cidade civilizada.»  Quatro anos depois, em sessão municipal de 23 de dezembro de 1902, foi criado o regulamento que legitimava a atribuição do Prémio Valmor, aprovado em 23 de janeiro de 1903, especificando que no 1º semestre de cada ano, um júri de três arquitetos, nomeados pela Câmara Municipal de Lisboa, pela Academia-Real de Belas Artes e pela Sociedade dos Arquitetos Portugueses, analisava os prédios construídos no ano anterior, escolhendo o melhor no âmbito das condições exigidas. O Visconde de Valmor foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa.

O Palacete Valmor ganhou o Prémio Valmor de 1906. Delineado por Ventura Terra em 1905,  por encomenda da Viscondessa de Valmor, D. Josefina Clarisse de Oliveira, foi construído por Joaquim Francisco Tojal (o construtor e dono da Vila Berta) no  nº 38 da Avenida da República (então Avenida Ressano Garcia), com esquina para o  nº 22  da Avenida Visconde Valmor (então Rua Visconde Valmor), destinado a ser um prédio de rendimento. Existia já um Palácio Valmor, no Campo dos Mártires da Pátria, edificado no séc. XVIII,  que se manteve como residência até ao início do séc. XX, altura em que acolheu a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e mais tarde, a partir de 1964, nele se fixou a Embaixada da República Federal Alemã e o Instituto Goethe.

Refira-se que o Mausoléu dos Viscondes de Valmor no Cemitério do Alto de São João, construído em 1900, comporta estátuas  alegóricas à gravura, à pintura, e à arquitectura.

Freguesias das Avenidas Novas e do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias das Avenidas Novas e do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua da Cozinha Económica de Alcântara

Freguesia de Alcântara (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Alcântara
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua da Cozinha Económica, que liga a  Rua Cascais ao Largo das Fontaínhas,  perpetua a memória da Cozinha Económica nº3, em Alcântara, no local onde existiu desde a sua criação em 1895. Seis anos mais tarde, em resultado do plano de 29 de março de 1901 do funcionário municipal Augusto César dos Santos, Chefe da 2ª secção da Repartição Técnica, foi definido o arruamento que no ano seguinte, por Edital municipal de 16 de setembro de 1902, passou a ser a Rua da Cozinha Económica.

Em Lisboa, as Cozinhas Económicas nasceram da iniciativa da Sociedade Protectora das Cozinhas Económicas de Lisboa, uma instituição de filantropia começada a delinear em 1892 e que obteve Alvará em 25 de outubro de 1894, para promover a instalação de estabelecimentos próprios para, segundo os seus Estatutos,  « (…) fornecer uma alimentação sã, limpa e abundante, para as classes operárias e menos abastadas, por preços acessíveis aos meios que dispõem ». Esta Sociedade foi fundada pela 3ª duquesa de Palmela, Maria Luísa Holstein, a exemplo do que vira em Londres e Paris, e pela sua prima, Maria Isabel Saint-Léger. Todas as 6 Cozinhas lisboetas foram erguidas em terrenos municipais: a primeira Cozinha Económica (nº 1) foi inaugurada em 8 dezembro de 1893, na Travessa do Forno aos Prazeres (também conhecida como Travessa da Liberdade ou Rua do Forno e desde o Edital de 29/12/1903 é a Travessa dos Prazeres), a que se seguiram depois as dependências do Regueirão dos Anjos (21 de novembro de 1894), a Cozinha nº 3 de Alcântara (15 de abril de 1895), a Cozinha nº 4 da Rua de Xabregas (20 de fevereiro de 1896), a Cozinha nº 5 do Terreiro do Trigo (16 de julho 1897) e a Cozinha nº 6 da Rua de São Bento (11 de agosto de 1906). As Cozinhas Económicas de Lisboa não pretendiam fazer caridade, mas sim servir  e vender refeições baratas, ajudando e moralizando as classes operárias de acordo com padrões de qualidade e higiene.

Maria Luísa Holstein, 3ª Duquesa de Palmela na Ilustração Portuguesa, 26.12.1904

Maria Luísa Holstein, 3ª Duquesa de Palmela na Ilustração Portuguesa, 26.12.1904

Maria Luísa Holstein, 3ª Duquesa de Palmela, fundadora e 1ª Presidente das Cozinhas Económicas (até à sua morte em 1909), foi homenageada na toponímia lisboeta logo no ano seguinte à atribuição do topónimo Rua da Cozinha Económica, através do Edital municipal de 18/12/1903, que deu ao arruamento que ia do Largo do Rego à Palma de Cima a nomenclatura de Rua da Beneficência. Passados 86 anos, pelo Edital de 25/01/1989, a edilidade lisboeta voltou a consagrá-la na cidade, desta vez com o seu nome próprio e a legenda «Fundadora das Cozinhas Económicas/1841 – 1909», na Primeira Rua Particular à Rua da Cozinha Económica, um arruamento de Alcântara que era propriedade privada, mas cuja sociedade proprietária anuiu que se pudesse incluir na toponímia oficial da cidade de Lisboa. Sete anos mais tarde, pelo Edital de 24/09/1996, na Segunda Rua Particular à Rua da Cozinha Económica, foi também perpetuada Maria Isabel Saint Léger, 1ª Vice-Presidente das Cozinhas Económicas, com a legenda «Fundadora das Cozinhas Económicas/1841 – 1920».

A Sociedade das Cozinhas Económicas de Lisboa dissolveu-se em 5 de novembro de 1910, com a demissão de toda a direção e a nomeação de uma Comissão Administrativa de 7 elementos sob presidência de Rosendo de Carvalheira mas em 1911, as Cozinhas passaram para a Misericórdia de Lisboa.

 

Freguesia de Alcântara (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Alcântara
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do fundador da 1ª associação mutualista portuguesa, Fernandes da Fonseca

Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Sérgio Dias)

A antiga Carreirinha do Socorro passou no final do século XIX, através do Edital municipal de 20/07/1888, a designar-se Rua Fernandes da Fonseca para, de acordo com Norberto de Araújo, perpetuar «a memória do fundador da Sociedade de socorro mútuo dos Artistas Lisbonenses» ou Associação dos Artistas Lisbonenses, uma associação operária mutualista que foi a primeira no nosso país, fundada  em 3 de fevereiro de 1839 por Alexandre Fernandes da Fonseca e 19 operários, com o intuito de apoiar os operários na velhice, na doença e no desemprego.

Em 1851, por ocasião do 12º aniversário da Sociedade dos Artistas Lisbonenses, os seus estatutos foram publicados na Revista Universal Lisbonense, publicação que contou mesmo entre os seus colaboradores  com alguns membros da associação. No ano seguinte, o jornal fez também notícia do aniversário da associação e deu conta que a mesma somava já 448 sócios, sendo presidente o Sr. Chaves, serralheiro de profissão.

Diário Ilustrado, 28.02.1898

Diário Ilustrado, 28.02.1898

Alexandre Fernandes da Fonseca (Aldeia do Bispo- Guarda/28.02.1798- 05.05.1860/Lisboa), o impulsionador da Sociedade dos Artistas Lisbonenses, a que ele chamava a sua «filha querida» e que mais tarde tomou o seu nome, viera para Lisboa em 1823, tendo trabalhado num dos 4 estabelecimentos de António Marrare em Lisboa – eram cafés junto ao Teatro de São Carlos, no Cais do Sodré, no Chiado e na Rua dos Sapateiros -, para no ano de 1832 se estabelecer por conta própria. Findas as guerras liberais foi nomeado fiscal dos trabalhos da Casa Real (em 1834) e depois, apontador-geral das obras feitas para a Câmara dos Pares em São Bento e para o Paço das Necessidades. A partir de 3 de abril de 1855 desempenhou as funções de porteiro e de almoxarife no Palácio de Queluz. Fernandes da Fonseca foi sepultado no túmulo de Veríssimo José Baptista, no Cemitério dos Prazeres.

Freguesia de Santa Maria Maior (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Alexandre Ferreira próxima dos «Inválidos do Comércio»

Freguesia do Lumiar (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

Seis anos após o seu falecimento, Alexandre Ferreira ficou perpetuado numa artéria próxima dos Inválidos do Comércio, instituição a que ele presidiu até ao ano do seu falecimento, a partir de propostas do vereadores António Maria Pereira e Eduardo Neves, ficando por  Edital de 28/12/1956 num troço da Estrada do Desvio, entre a Rua do Lumiar e a Estrada que conduz à Ameixoeira, com a legenda «Mutualista/1877 – 1950» acrescentada a partir de uma sugestão da Comissão Municipal de Toponímia de 4 de maio de 1957.

A Associação Inválidos do Comércio foi fundada em 1929, com Estatutos aprovados em 10 de Abril desse ano e Alexandre Ferreira foi o seu Presidente da Direção até falecer, no ano de 1950, para além de ter doado as suas propriedades no Lumiar para a construção da Casa de Repouso dos Inválidos do Comércio.

O Diário Ilustrado, 28.06. 1925

O Diário Ilustrado, 28.06. 1925

Alexandre Branco Ferreira (Porto/04.11.1877- 15.03.1950/Lisboa), filho de Caetano Branco Ferreira e Maria da Conceição, e republicano desde que assistiu ao 31 de Janeiro de 1891, foi um comerciante de artigos de fotografia e profissional de seguros que se radicou em Lisboa, na zona do Lumiar, a partir de 1904, e nesta cidade  foi vereador municipal em três executivos, entre 1917 e junho de 1926. Destacou-se no Pelouro da Instrução e da Assistência por ter criado os lactários, as consultas médicas para mães e crianças, bem como o fornecimento de roupa e calçado às famílias carenciadas, para além de ter fundado a Colónia Balnear da Cruz Quebrada e colónias de campo na Quinta de Santo Elói (na Paiã). Foi também o responsável pela transferência do Museu Rafael Bordalo Pinheiro para a administração municipal. Já em 1911 Alexandre Ferreira havia sido o responsável pela criação  da Universidade Livre – que funcionou durante 25 anos-  e e em 1922, no  âmbito da CML, organizou o Congresso Nacional de Educação Popular.

Alexandre Ferreira foi ainda  nomeado Secretário Geral da Comissão Nacional da Comemoração do 4º centenário do nascimento de Camões (1924), eleito deputado na legislatura de 1925 onde esteve até ao 28 de maio de 1926 e presidiu a diversas instituições de instrução, cultura, mutualismo e beneficência, como a Academia de Amadores de Música. Publicou  O Mutualismo na Evolução Social (1926), O Ensino Profissional da Mulher (1930), Necessidade de Orientar em Moldes Novos a Causa da Educação Física (1932) e a partir de 1930 revelou-se também como conferencista divulgador da obra de beneficência dos Inválidos do Comércio e da campanha contra o analfabetismo promovida pelo Diário de Notícias.

Refira-se ainda que Alexandre Ferreira foi pai do escritor José Gomes Ferreira – também presente na toponímia de Lisboa, em Campo de Ourique -, e morou na Rua de São Julião (1904), na Calçada do Monte Agudo nº 52 r/c – esqº (em 1906 e que hoje é a Rua Heliodoro Salgado) e na Rua Maria Andrade nº 3 r/c – esqº (1917 ), para além de ter trabalhado na área de fotografia da Drogaria Peninsular na Rua Augusta nº 39-41 e depois estabelecido a sua loja de fotografia no nº 55 da Rua Nova do Almada.

Freguesia do Lumiar (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias)

 

O adeus de Fernando Assis Pacheco na Rua Duque de Palmela

Fernando Assis Pacheco em Paris, de reportagem, em 1988 (Foto: Fernando Assis Pacheco no Facebook)

Fernando Assis Pacheco em Paris em 1988
(Foto: Fernando Assis Pacheco no Facebook)

Fernando Assis Pacheco, jornalista, escritor e amante de livros, após uma das suas visitas regulares à Livraria Bucholz, na Rua Duque de Palmela, naquela artéria faleceu em 1995,  acontecimento que o escritor galego Torrente Ballester sintetizou como «Morreu junto aos livros, no seu posto, como soldado no campo de batalha.»

A Rua Duque de Palmela é um topónimo do último quartel do séc. XIX em resultado da deliberação camarária de 12/04/1885 e Edital municipal de 19/04/1887, fixado na Rua nº 4,  então descrita no Edital «a primeira rua parallela á Avenida da Liberdade, pelo lado do poente, (…) e comprehendida entre a Rua Alexandre Herculano e a rua obliqua que se projecta, a ligar esta ultima com a Praça Marquez de Pombal.» Homenageia Pedro de Sousa Holstein que «contribuiu tão poderosamente com a sua penna como diplomata e homem de estado, como outros com as espadas, para o triumpho do regimen liberal, e que havendo a camara ja votado os nomes das ruas “Duque da Terceira” e “Marechal Saldanha“, cumpre dedicar tambem uma rua á memoria d’aquelle benemerito da patria, a fim de reparar a injustiça que ora se dá». 

Freguesia de Santo António (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias)

Pedro de Sousa Holstein (Turim/08.05.1781 – 12.10.1850/Lisboa), conde de Sanfré no Piemonte, foi o 1.º conde (decreto de 11/04/1812), 1.º marquês (03/07/1825) e 1.º duque de Palmela (13/07/1833) e marechal de campo mas, sobretudo, político   cartista moderado que desempenhou as funções de par do Reino desde 1826 e presidente da respectiva câmara a partir de 1833; presidente da Câmara dos Senadores em 1841; conselheiro de Estado; embaixador extraordinário e ministro plenipotenciário em diversas cortes estrangeiras (Cúria Romana, Cádis e Londres); representante de Portugal no congresso de Viena em 1815; ministro dos negócios estrangeiros em 1817, 1823 e 1835 ; presidente da Regência estabelecida na ilha Terceira em 1830 e do Conselho de Ministros em 1842  e 1846 .

Refira-se que o Duque de Palmela foi um dos que primeiro e mais generosamente contribuíram para as despesas da guerra no tempo das invasões napoleónicas, bem como nas lutas entre absolutistas e liberais, tendo desembarcado em Lisboa com as tropas vitoriosas do Duque de Terceira em 24 de julho de 1833.

Este morador alfacinha da zona das Chagas e com quinta no Lumiar, recebeu os galardões da Grã-Cruz das Ordens de Cristo e Torre e Espada, de Cavaleiro do Tosão de Ouro, da Grã-Cruz de Carlos III de Espanha, da Legião de Honra francesa, de Santo Alexandre Nevsky da Rússia e de Cavaleiro de S. João de Jerusalém e teve biografias redigidas por António Pedro Lopes de Mendonça, Luís Augusto Rebelo da Silva, e Maria Amália Vaz de Carvalho.

Freguesia de Santo António (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Luz Soriano do «Diário de Lisboa»

Fernando Assis Pacheco no Diário de Lisboa (Foto: © Fernando Assis Pacheco no Facebook)

Fernando Assis Pacheco no Diário de Lisboa
(Foto: © Fernando Assis Pacheco no Facebook)

Fernando Assis Pacheco foi desde 1965  jornalista do Diário de Lisboa, um dos muitos jornais que animaram o Bairro Alto e que se encontrava sediado nos nº 44 e nº 48 da Rua Luz Soriano, rua íngreme que Assis Pacheco calcorreou muitos dias, já que trabalhou neste jornal de 1965 e até 1971, interrompendo de 1972 a 1974 para estar no República, na Rua da Misericórdia, regressando ao vespertino em 1974 e até 1979, ano em que passou a trabalhar nas várias publicações da Projornal, na Avenida da Liberdade.

Esta Rua Luz Soriano que veio substituir a seiscentista denominação de Rua do Carvalho nasceu ainda em vida do homenageado, em resultado da deliberação camarária de 12/04/1887 e do Edital municipal de 08/07/1887 que a justifica assim: «a mesma câmara considerando que a doação que lhe fora feita pelo cidadão Simão José da Luz Soriano, da verba de oito contos de réis e da propriedade de casas em que reside, na rua do Carvalho, para a fundação e manutenção de uma escola de instrucção primaria, constitue um valioso serviço prestado ao municipio; considerando que actos d’estes merecem immediato galardão para que sirvam de incitamento a presentes e vindouros; considerando que é dever da camara retribuir o generoso donativo de tão prestante cidadão com um acto que a todos recorde o seu nome philantropico.»

Freguesia da Misericórdia - placa de azulejo (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Misericórdia – placa de azulejo
(Foto: Sérgio Dias)

Simão José da Luz Soriano (Lisboa/2 ou 08.09.1802- 18.08.1891/Lisboa) firmou-se como um político do Liberalismo, assim como um historiador que deixou obras monumentais como História do Cerco do Porto precedida de uma extensa noticia sobre as diferentes fases políticas da monarquia, desde os mais remotos tempos até ao ano de 1820, e desde este mesmo ano até ao começo do sobredito cerco(1846-1849) – obra que, apesar dos seus defeitos, tem extremo interesse como valor de consulta;  ou os 17 volumes da História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal (1866-1890) que Luz Soriano foi encarregue de escrever pelo governo, por uma verba anual de 600$000 réis. São ainda de salientar a sua História do Reinado de D. José (1867)  ou Vida do Marquês de Sá da Bandeira (1887-1888).

Nos seus muitos legados beneméritos Luz Soriano fez também doações à Casa Pia de Lisboa, Misericórdias de Lisboa e Coimbra para atribuição de bolsas de estudos superiores, assim como contribuiu para o monumento a Afonso de Albuquerque (em Belém) e para o do marquês de Sá da Bandeira.

Aluno da Casa Pia de Lisboa que o fez patrono da Biblioteca-Museu do Ateneu Casapiano, foi mediante uma bolsa que Luz Soriano estudou matemática e filosofia em Coimbra e, depois das guerras liberais, se formou em Medicina, mas nunca exerceu. Em 1828, devido às suas ideias liberais, emigrara para a Galiza e depois, para Plymouth, seguindo daí em 1829 para a Terceira – quartel general do exército liberal – onde exerceu jornalismo político, sendo o redator principal da Crónica da Terceira. Regressado com D. Pedro IV em 1832, inserido no grupo dos Bravos do Mindelo (com Herculano e Garrett), iniciou uma relevante carreira de funcionário da Secretaria da Marinha e Ultramar.  Em 1851 foi também deputado por Angola,  sendo reeleito nas seguintes legislaturas, e foi ainda ao serviço desta província africana que impulsionou o desenvolvimento da colónia de Moçâmedes, para se consolidar o domínio português no porto de Ambriz, de que a Inglaterra pretendia assenhorear-se.

Freguesia da Misericórdia (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua do Menino de Ouro Luís Fernandes

Freguesia de Santo António (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias)

Luís Fernandes, conhecido como «Menino de Ouro», era um brasileiro de origens paternas minhotas dono do palacete onde hoje encontramos o Instituto Britânico (British Council) e que dá o seu nome a esta rua desde 1923.

Esta artéria denominou-se Travessa de S. Francisco de Borja e depois Travessa de S. Marçal, para ficar Rua Luís Fernandes pelo Edital de 06/02/1923, na data precisa em que se completava um ano sobre a morte do homenageado. A Ilustração Portuguesa, de 08/12/1923, noticiou da seguinte forma: «Em 30 de novembro desse ano foi organizada uma cerimónia celebrando a nova toponímia, na qual foi descerrada uma placa de bronze desenhada por Raul Lino e modelada e fundida sob a direção de Teixeira Lopes. Colocada no pilar direito do portão do palacete que pertencera a Fernandes, esta placa ainda lá está, homenageando a memória “do benemerito brasileiro (…) a quem Portugal ficou devendo tantas provas de carinho e interesse”.» 

Luís Fernandes mandou construir este palacete em 1885 para aí morar com a senhora portuguesa com quem se casara, embora após o falecimento dela, de parto, se tenha ausentado em Paris.

na Iustração Portuguesa,   12.04.1920

na Iustração Portuguesa, 12.04.1920

Capitalista e coleccionador brasileiro, Luís José Seixas Fernandes (Baía/30.11.1859 – 06.02.1922/Paris), conhecido como «Menino de Ouro», foi também o 1º presidente do Grupo dos Amigos do Museu de Arte Antiga (organismo instituído oficialmente em 27 de abril de 1912) e, quando se retirou para Paris em 1886 legou as suas colecções ao Museu Nacional de Arte Antiga que as tem agrupadas numa sala com o seu nome, bem como deu algumas obras à ao Instituto Geográfico e Histórico da Baía, à Academia Nacional de Belas Artes, ao Museu Nacional de Arte Contemporânea e à Biblioteca Nacional de Portugal,  sendo também de destacar que a sua presidência do GAMNAA está profundamente ligada à construção e consolidação da imagem do Museu como referência nacional.

Luís Fernandes tornou-se ainda o organizador e principal doador da Secção Portuguesa do Museu e Biblioteca da Grande Guerra de Paris. Acresce que foi também um dos primeiros sócios da Sociedade Propaganda de Portugal, tendo elaborado o 1º curso de Hotelaria em Portugal, em 1908, na Casa Pia e,  publicado o Guia de Proprietários de Hotéis (1908), para além de ter sido o relator geral do Congresso Internacional de Turismo em 1911. 

Freguesia de Santo António

Freguesia de Santo António