A Rua do dono da Fábrica Alves Gouveia

Freguesia dos Olivais
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Francisco Alves Gouveia era o proprietário de uma estamparia que criou nos Olivais, assim como de um bairro para os seus operários, sito no arruamento entre a sua fábrica e a igreja, então denominado Rua das Casas Novas, mas que mais tarde virá a ser a Rua Alves Gouveia.

Tudo começa em 1874 quando o  industrial Francisco Alves Gouveia funda na antiga Quinta das Casas Novas, nos Olivais, a  Fábrica Francisco Alves Gouveia. Era uma  estamparia de tecidos, com tinturaria e branqueamento de algodões que gradualmente se foi expandindo para fora dos limites da primitiva quinta onde foi construída, sendo que  três anos depois do início da laboração, em 1877, empregava já mais de 200 operários.  Esta unidade fabril produzia chitas, zuartes (gangas azuis), lenços de cores e algodões branqueados, onde os processos manuais se mantiveram por mais de três décadas coexistindo com máquinas a vapor. O caminho-de-ferro nascera cerca de 20 anos antes, em 1856, a ligar Lisboa ao Carregado, tendo os Olivais uma estação própria que facilitava o escoamento de produtos.

Supomos que o industrial Alves Gouveia tenha falecido nos anos trinta do séc. XX, uma vez que a sua esposa  Maria José Marques Alves Gouveia comprou em 24 de agosto de 1932 um terreno no Cemitério do Alto de São João para a construção do jazigo (que ficou com o n.º 5618). Também porque a Fábrica mudou de nome em 1935 passando a designar-se União de Estamparia, Lda. e desde 1944 tornou-se a F. A. Gouveia Lda., denominação sob a qual solicitou à Câmara Municipal de Lisboa licença para demolição dos edifícios da fábrica de estamparia, na zona sul da Avenida de Berlim, em 18 de setembro de 1973, tendo assim esta empresa laborado quase cem anos.

Já o bairro operário disposto ao longo de um arruamento que virá a ser a Rua Alves Gouveia, surge oito depois do início da laboração da fábrica, em 1882, para as casas dos números pares, datando as dos  números ímpares de 1889. Francisco Alves Gouveia mandou construir  um bairro com habitações de renda económica para os seus trabalhadores,  no arruamento que se estendia desde a fábrica até à Igreja de Santa Maria e que nessa época se denominava Rua das Casas Novas. Alves Gouveia também mandou edificar um prédio no largo do rossio da Igreja, de maior volumetria e qualidade estética, provavelmente para os empregados técnicos e administrativos. Este bairro operário só ficou totalmente concluído em 1907 e a sua única artéria, que era também a principal via dos Olivais Velho, foi nomeada Rua Alves Gouveia, conforme aparece já na planta de Silva Pinto de março de 1907. Alves Gouveia também mandou construir no local uma escola primária para os operários e os filhos destes, bem como um clube de bairro, embora de todo o conjunto industrial e social edificado por este empresário hoje só sobrevivam as habitações operárias.

Finalmente, refira-se que nos Olivais de 1891 a 1896, foi erguido um chafariz, um coreto – onde então a Filarmónica Capricho Olivalense abrilhantava os bailes de domingo – e ainda, um urinol público em ferro, no Rossio dos Olivais delineado após o terramoto de 1755 (é a Praça da Viscondessa dos Olivais desde 22 de julho de 1892), que alguns estudiosos apontam ter sido Francisco Alves Gouveia o mecenas destes equipamentos.

Freguesia dos Olivais
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua do Instituto Dona Amélia junto à Avenida 24 de Julho

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Junto ao então edifício da Assistência Nacional aos Tuberculosos nasceu em 1947 a Rua do Instituto Dona Amélia, a ligar a Avenida 24 de Julho à Rua da Ribeira Nova.

Nas suas visitas regulares a arruamentos de Lisboa para estudar a nomenclatura a atribuir-lhes, a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa decidiu em 22 de maio de 1946 propor «que o arruamento sem nome que começa na Avenida Vinte e Quatro de Julho e finda na Rua da Ribeira Nova, entre o Mercado Vinte e Quatro de Julho e o edifício da Assistência Nacional aos Tuberculosos, tenha a denominação de Rua do Instituto Dona Amélia», a que a edilidade respondeu favoravelmente atribuindo esse topónimo através do Edital municipal de 18 de dezembro de 1947.

Quando a tuberculose era uma doença temível,  com uma taxa de cerca de 297 a 396 mortes por 100 mil habitantes, a Rainha D. Amélia de Orleães e Bragança (1865 – 1951), fundou a Assistência Nacional aos Tuberculosos através da Lei de 17 de agosto de 1899, a primeira instituição oficial portuguesa de luta contra a tuberculose. A sede abriu em 1906 no Instituto Rainha D. Amélia, na então Rua 24 de Julho ( e Avenida depois de 1928). Começou por ser uma associação de beneficência, que recolheu à época uma enorme adesão e cuja lei potenciou a disseminação um pouco por todo o país de hospitais, sanatórios e dispensários para combater a tuberculose.

Em 1911 foi criada uma Comissão permanente incumbida de estudar a reorganização geral da Assistência Geral aos Tuberculosos e de propor acções profiláticas e de assistência, de carácter oficial ou privado. Todavia, a proliferação da tuberculose levou à criação em 1924, de um fundo de assistência aos tuberculosos ferroviários, para a construção e manutenção de sanatórios.

Em 1931 foi criado o lugar de diretor dos serviços gerais da Assistência Nacional aos Tuberculosos e uma Comissão encarregada de apresentar um projeto de reorganização dos serviços  tendo quatro anos depois sido aprovados novos estatutos. Em 7 de novembro de 1945 (Decreto-Lei n.º 35.108) foi criado o Instituto Nacional de Assistência aos Tuberculosos (IANT) que absorveu a Assistência Nacional aos Tuberculosos criada pela Rainha D. Amélia.

Em 1975 foi criado o SLAT – Serviço de Luta Anti-Tuberculosa (Decreto-Lei 260/75 de 26 de maio) que foi absorvendo progressivamente as atribuições do Instituto Nacional de Assistência aos Tuberculosos para na década de noventa tudo ficar na tutela da Administração Regional de Saúde de Lisboa.

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

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As Escadinhas da Rocha e a Escadaria José António Marques

A Escadaria José António Marques – Freguesia da Estrela
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A ligar a então Rua 24 de Julho (desde 1928 é a Avenida 24 de Julho) ao Jardim das Albertas (desde 1925 é o Jardim Nove de Abril) foi construída uma escadaria entre 1887 e 1892, vulgarmente conhecida por Escadinhas da Rocha ou Escadinhas da Rocha Conde de Óbidos.

Quase um século depois, em 1985, foi atribuído ao espaço o topónimo Escadaria José António Marques pelo Edital municipal de 21/02/1985, para homenagear o fundador da Cruz Vermelha Portuguesa (Lisboa/29.01.1822 – 08.11.1884/Lisboa) no centenário do seu falecimento, junto da sede a instituição no Jardim Nove de Abril, instalada desde 1919 no palácio do primeiro Conde de Óbidos, D. Vasco de Mascarenhas, construído no segundo quartel do séc. XVII.

A edilidade lisboeta no programa das condições para fornecimento de uma grade de ferro para a parte superior da escadaria, de acordo com o desenho de Augusto César dos Santos, em 5 de setembro de 1891, denomina-a escadaria à Rocha do Conde de Óbidos enquanto os postais de 1910 a designam como Escadas da Rocha de Conde d’Óbidos e os de 1920 apenas com Rocha de Conde d’Óbidos. A coincidência de ambos os topónimos radicarem no mesmo palacete faz com que ainda hoje ambos os topónimos sejam usados para este arruamento.

As Escadinhas da Rocha, em construção, em 1891 (Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

 

A Rua do fadista humorístico Joaquim Cordeiro

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Cinco anos após o seu falecimento,  o fadista humorístico Joaquim Cordeiro passou a dar o seu nome a uma artéria do Bairro dos Sete Céus, na freguesia de Santa Clara, em 1987, a partir de uma sugestão de um munícipe.

O munícipe Manuel Cabaço, indicou vários nomes para se preencher a toponímia do Bairro dos Sete Céus e assim, o Impasse 4 do Bairro dos Sete Céus passou a ser a Rua Joaquim Cordeiro pelo Edital municipal de 30 de janeiro de 1987. Pelo mesmo edital a Câmara lisboeta atribuiu mais 5 topónimos nesse Bairro, sendo quatro provenientes da sugestão já referida: os dedicados ao poeta Vasco de Lima Couto (Impasse 3) cujos poemas serviram muitos fados, ao poeta popular Rua António Aleixo (Impasse 6), à cantora lírica Maria Júdice da Costa (Impasse 5) e ao músico setecentista João Lourenço Rebelo (Impasse 2). Somou-se ainda o poeta Ruy Cinatti (Impasse 1) para denominar o arruamento restante já que da sugestão inicial do munícipe não foi aproveitado o nome de Adriano Correia de Oliveira.

Joaquim dos Anjos Cordeiro (Lisboa/20.03.1903 ou 1904-18.11.1982/Faro), por alguns considerado o fadista mais popular de Lisboa, impôs-se no fado da década de quarenta do séc. XX ao mudar-se  do fado castiço para o fado humorístico e jocoso,  com um estilo próprio, por influência de Vasco Santana. Cantava fados como Belchior no JapãoBendito seja o descansoBom Conselho, Casa Bera (versão cómica de Uma Casa Portuguesa), Estranha Vida do Diabo (reformulação de Estranha Forma de Vida), Guitarra não os acordes,  O Homem que sabia demaisNão me falem da SeveraÓ Rita Volta p’ra Casa ( uma hilariante versão de O Tempo Volta para Trás), No Tasco do Zé Pinguinhas (versão da Casa da Mariquinhas), Reza-te a sina, Trabalho, vai-te embora ( a partir da Saudade vai-te embora de Tony de Matos),  O vinho mora em LisboaZé Caloteiro (uma versão jocosa do  Fado do Cacilheiro) ou Zé Vigarista.

Joaquim Cordeiro começou a cantar fado em retiros e tascas alfacinhas com 11 anos de idade, mas após a morte da mãe, foi viver com o seu tio Carlos Cordeiro, sapateiro e poeta popular, que lhe ensinou o ofício e lhe deu algumas das  letras que depois virá a cantar em fado. Cumprido o serviço militar no país e em Angola (1927-1929) começou a sua carreira profissional de fadista em 1929, no Bar Anjos e no Café Luso. Em 1931, mudou-se para Olhão embora em 1943 tenha regressado a Lisboa. Ganhou o epíteto de «Rei do Riso» e apresentou-se em várias casas de fado, como o Retiro dos Marialvas e o Café Latino, contando com António Chainho e Carlos Gonçalves entre os guitarristas que o acompanharam. Nos letristas, usou mais Aureliano Lima da Silva, Armando Coutinho Dias e Domingos Gonçalves Costa. Colaborou com a Emissora Nacional nos Serões para Trabalhadores, assim como com a RTP, tendo ainda integrado os agrupamentos Estrelas de Portugal e Caravana de Vedetas que promoveram espetáculos em Portugal, Angola e Moçambique.

Numa outra faceta, Joaquim Cordeiro coordenava uma festa de beneficência da Associação Os Amigos do Minho, para angariar fundos para as crianças necessitadas, que se realizava anualmente no dia 8 de dezembro e em cujo elenco artístico costumava incluir Fernando Maurício, Amélia Maria, David José, Fernando Manuel, Joaquim Silveirinha, José Gomes e Tristão da Silva (pai). Sabe-se também que foi ele que em 1955 inscreveu Julieta Estrela no concurso Rainhas das Cantadeiras e Ases do Fado, organizado pelo jornal A Voz de Portugal, que ela ganhou (ex-aqueo com Florinda Maria) e assim também a carteira profissional.

Freguesia de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua de Francisco Lourenço da Fonseca que enriqueceu no Brasil e foi vereador lisboeta

Freguesia de Alvalade

Desde 1956 que a Rua Francisco Lourenço da Fonseca homenageia, na freguesia de Alvalade, o comerciante que enriqueceu no Brasil e foi vereador da autarquia lisboeta no biénio de 1876 e 1877.

Foi através da publicação do Edital municipal de 26 de maio de 1956 que a Rua 37 A do Sítio de Alvalade passou a ter como topónimo oficial Rua Francisco Lourenço da Fonseca. O mesmo Edital colocou nas artérias circundantes os pintores do Grupo do Leão, António Ramalho, Cipriano Martins, João Vaz, Moura Girão e Ribeiro Cristino, o elemento dos Vencidos da Vida Carlos Mayer, o autor da letra do Hino Nacional Lopes de Mendonça e ainda, o Largo de Alvalade.

O comerciante Francisco Lourenço da Fonseca (Vila Nova de Gaia/10.08.1818 ou 1819– 09.03.1906/Dafundo) fez fortuna no Brasil, para onde emigrou,  e após regressar a Portugal em 1862, foi eleito vereador da Câmara Municipal de Lisboa, nos anos de 1876 e 1877, sob a presidência de Luís de Almeida e Albuquerque e a vice-presidência de Rosa Araújo. Nesse biénio, Francisco Lourenço da Fonseca deteve a responsabilidade das obras públicas municipais, tendo-se  destacado por produzir melhoramentos nos Jardins da Estrela e de São Pedro de Alcântara,  requisitar um arquiteto ao Ministério das Obras Públicas para as obras do município, reconstruir as Escadinhas da Barroca, bem como por  ter iniciado a expropriação de terrenos para a abertura de uma avenida a norte do Passeio Público, que viria a ser a Avenida da Liberdade mandada executar por Rosa Araújo. Francisco Lourenço da Fonseca foi ainda tesoureiro da Comissão Central 1° de Dezembro que promoveu a construção do Monumento aos Restauradores.

Francisco Lourenço da Fonseca, comendador  da Ordem de Cristo, foi ainda diretor do Asilo de Santa Catarina –  internato feminino instalado desde 1858 no complexo conventual de São João Nepomuceno, no Largo São João Nepomuceno  –, e casado com Maria José Oliveira Gaia ( Brasil- Rio Grande do Sul/19.02.1832 – 06.05.1912/Lisboa), de quem teve 4 filhos: Francisco Lourenço da Fonseca Júnior (Brasil – Rio Grande do Sul/06.06.1848 – 06.07.1902/Lisboa), Wenceslau da Fonseca (n. 1850), Álvaro da Fonseca (n. Brasil – Rio Grande do Sul/15.02.1855) e Alfredo da Fonseca (n. Lisboa – Freguesia de Santa Catarina/04.08.1862).

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua do irmão da Casa Pedreira em São Tomé que foi vereador de Lisboa

Freguesia do Lumiar

José da Costa Pedreira, comerciante da Casa Pedreira em São Tomé e vereador da Câmara de Lisboa nos anos 80 do séc. XIX, foi perpetuado em 1983 na Freguesia do Lumiar, numa rua nas proximidades da Alameda das Linhas de Torres, para cujo alargamento tinha contribuído com parcelas de terreno, com a legenda «Benemérito/1839 – 1903».

A partir de uma carta de Maria dos Prazeres Pedreira Cruz Romão e outros, sugerindo que a um arruamento recentemente aberto na Quinta das Pedreiras à Alameda das Linhas de Torres fosse dado o nome de José da Costa Pedreira, deu a Comissão Municipal de Toponímia  parecer favorável na sua reunião de 19 de abril de 1983 e assim foi atribuída a Rua José da Costa Pedreira no arruamento Z4 da Quinta do Lambert, através do Edital de 22 de abril de 1983. O mesmo Edital colocou noutros novos arruamentos da Quinta do Lambert a Rua Amílcar Cabral e a Rua Agostinho Neto.

O Occidente, 10 de julho de 1903

José da Costa Pedreira (Braga/27.09.1839 – 16.06.1903/Lisboa), foi para S. Tomé e Príncipe aos 18 anos (1857) e lá permaneceu até 1876, ocupando-se do comércio da Casa Pedreira que abastecia navios das rotas da África meridional e que o seu  irmão, Manuel José da Costa Pedreira, lá fundara em 1843. O seu irmão era dono da roça Monte Café no centro da ilha de São Tomé e ambos contribuíram para o desenvolvimento da agricultura local emprestando capital aos que desejavam abrir uma roça. José da Costa Pedreira também apoiou a administração local e criou o primeiro hospital da ilha. No regresso a Portugal dedicou-se à divulgação de meios de combate às febres tropicais tendo fundado a Companhia Luso-Africana de produtos químicos à base de quinino, sendo também o representante em Lisboa dos produtores de quina de São Tomé.

No período de janeiro de 1886 a março de 1890, foi também vereador da Câmara Municipal de Lisboa, eleito pela maioria monárquica do Partido Progressista. Foi responsável pelos pelouros das Obras e da Polícia Municipal, tendo no desempenho desse cargo contribuído decisivamente para o desenvolvimento das vias de acesso à cidade, inclusive com avultados donativos pessoais, e particularmente para o alargamento da Alameda das Linhas de Torres, através de parcelas retiradas à sua propriedade e doadas ao Município. Refira-se que foi também o responsável das obras e expropriações que permitiram a construção da Avenida da Liberdade idealizada por Rosa Araújo, do Parque da Liberdade (hoje Parque Eduardo VII) e do embelezamento do novo Rossio de 1889 (é a Praça de D. Pedro IV), com os dois lagos da autoria de Mesnier du Ponsard que hoje lhe reconhecemos como icónicos, e cujas figuras foram compradas à Societé des Hauts Fourneaux & Fonderies du Val d’Osne e pagas do bolso do próprio José da Costa Pedreira.

Note-se ainda que era o Pelouro da Polícia Municipal que tratava das denominações das ruas e da numeração das portas (esta última designada como numeração de polícia) e foi no mandato de Costa Pedreira que o Largo do Pelourinho passou a ser a Praça do Município ou a Rua do Carvalho passou a Rua Luz Soriano que tinha contribuído com 8 contos de réis para ser estabelecer uma escola nessa artéria.

A par disto, José da Costa Pedreira ainda desempenhou um papel importante na implantação dos Albergues Noturnos de Lisboa, fundados em 1881 pelo Rei D. Luís para apoio à população mais carenciada de alimentação e alojamento, tendo mesmo dirigido o primeiro, instalado no Intendente. O mesmo rei D. Luís I que o tinha como conselheiro particular para os assuntos africanos, também o nomeou Par do Reino e agraciou-o com a comenda da Ordem de Benemerência.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias)

José Rovisco Pais da Cervejaria Trindade e da Maternidade alfacinha

Freguesias do Areeiro e de Arroios
(Foto: Sérgio Dias)

A Avenida Rovisco Pais, repartida pelas freguesias do Areeiro e de Arroios, perpetua em Lisboa o grande proprietário rural de Pegões, comerciante da Fábrica de Cerveja da Trindade e benemérito da Maternidade Alfredo da Costa e dos Hospitais Civis de Lisboa.
Esta atribuição toponímica  teve lugar no próprio ano da morte de Rovisco Pais, através do Edital municipal de 25 de outubro de 1932, fixando-o no prolongamento da Avenida Duque de Ávila, entre a Rua Visconde de Santarém e a Avenida Manuel da Maia.

O olisipógrafo Norberto de Araújo, nas suas Peregrinações em Lisboa,  dá-nos uma imagem do contexto urbanístico desta avenida na década do seu nascimento : «Ora agora nos embrenhamos, a nascente, na urbanização gloriosa da nova Lisboa da década de 30 dêste século. São dois bairros, um, na planta, em forma oval – o Bairro Social do Arco do Cego, circundado pelas Avenidas D. João I [a Avenida Marconi de hoje] e do México, e que tem por remate a Praça do México [a Praça de Londres de hoje]; outro, em ogiva, contornado pelas Avenidas Rovisco Pais e Dr. António José de Almeida, aquêle onde se ergue o Instituto Superior Técnico (…)».

José Rovisco Pais (Casa Branca/16.10.1862 – 1932/Lisboa) deixou a sua marca na capital  por ser o proprietário da conhecida Fábrica de Cerveja da Trindade. Manuel Moreira Garcia – um galego que criara em 1836 a Fábrica de Cerveja da Trindade e com abertura de balcões ao público em 1840- passou o comércio a seu filho Domingos Moreira Garcia, cuja morte levou alguns empregados a constituir uma sociedade para explorar o negócio, com o apoio de Rovisco Pais, que acabou por ficar com todo o negócio, pelo que em 1932 quando faleceu foi a Cervejaria posta em hasta pública.

Rovisco Pais entregou a  Augusto Monjardino um donativo de mil e quinhentos contos para se concluir a construção da Maternidade de Alfredo da Costa, assim como por disposição testamentária, legou 10 mil contos – o que era uma fortuna na época – para os Hospitais Civis de Lisboa fazerem assistência aos necessitados.A Avenida Rovisco Pais, repartida pelas freguesias do Areeiro e de Arroios, perpetua em Lisboa o grande proprietário rural de Pegões, comerciante da Fábrica de Cerveja da Trindade e benemérito da Maternidade Alfredo da Costa e dos Hospitais Civis de Lisboa.

Enquanto agricultor, era o proprietário da Herdade de Pegões (concelho do Montijo), um latifúndio de 7000 hectares, na qual tentou instalar um plano de colonização análogo ao que José Maria dos Santos criara na Herdade de Rio Frio, visando fixar a mão de obra assalariada, necessária às grandes explorações da zona. Pela sua doação aos Hospitais Civis de Lisboa, que incluía parte da sua Herdade, a Junta de Colonização Interna – criada em 1936 -, desenvolveu nela um plano de fixação de colonos semelhante ao modelo agrícola alemão,  com o fim de desenvolver um «bom e abundante viveiro de colonos, que no Império Colonial irão fixar a Raça e valorizar o território», como se pode ler no Diário das Sessões da Assembleia Nacional e da Câmara Corporativa de 29 de outubro de 1938. Em 1958, constituiu-se a Cooperativa Agrícola Santo Isidro Pegões, destinada a laborar na sua adega e à produção dos novos vinhedos, não sendo assim de estranhar que alguns dos vinhos produzidos tenham o nome de Rovisco e que  Santo Isidro de Pegões tenha uma Avenida Rovisco Pais.

Rovisco Pais foi ainda benemérito da Santa Casa da Misericórdia de Setúbal, bem como da construção da Leprosaria Nacional Rovisco Pais, na Tocha (Cantanhede), inaugurada em 1947 e que desde 1996 é o Centro de Medicina de Reabilitação, pelo que a Tocha tem também uma Avenida José Rovisco Pais.

José Rovisco Pais foi agraciado postumamente, em 17 de março de 1933, com a Grã-Cruz da Ordem de Mérito.

Freguesias do Areeiro e de Arroios
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do Cine-Bélgica/Universal e a Duquesa de Palmela

O Cine Bélgica na Rua da Beneficência em 1961 (Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Cine Bélgica na Rua da Beneficência em 1961
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua da Beneficência foi atribuída ainda em vida da 3ª Duquesa de Palmela,  Maria Luísa Holstein, pelo Edital de 18 de dezembro de 1903, que nessa época ligava o Largo do Rego à Palma de Cima, perpetuando as iniciativas beneméritas da homenageada.

Publicidade do Universal no Diário de Lisboa , 7 de janeiro de 1977

Publicidade do Universal no Diário de Lisboa , 7 de janeiro de 1977

Vinte e cinco anos depois, em 1928, abriu portas no nº 175 deste arruamento o Cine-Bélgica, por se situar no Bairro da Bélgica, com uma  lotação de 500 lugares que em  1933 foi também equipado com uma aparelhagem de som. Em 1968 pensaram denominá-lo Cinema Universitário mas ficou a designar-se Cinema Universal e cinco anos depois (1973) já pertencia à Animatógrafo, dirigida pelo produtor e realizador António da Cunha Telles tendo em 1980 dado  lugar ao Rock Rendez-Vous, que encerrou em 27 de julho de 1990.

A Duquesa de Palmela no jornal Tiro e Sport, 15 de setembro de 1909

A Duquesa de Palmela no jornal Tiro e Sport, 15 de setembro de 1909

Hoje a Rua da Beneficência liga a Avenida de Berna à Rua Alberto de Sousa e fixa na memória da cidade Maria Luísa Domingas de Sales de Borja de Assis de Paula de Sousa Holstein (Lisboa/04.08.1841-02.09.1909/Sintra) cuja filantropia lhe concedeu um lugar único no panorama nacional, nomeadamente, na Assistência Nacional aos Tuberculosos, nos Socorros a Náufragos, em asilos, missões ultramarinas, institutos de auxílio à infância e na fundação das Cozinhas Económicas, com a sua prima Maria Isabel Saint-Lèger, tendo sido a sua primeira presidente. A Duquesa de Palmela para além de dama da Rainha D. Amélia dedicou-se também à escultura, havendo trabalhos seus no Museu do Chiado e na Sociedade de Geografia de Lisboa, assim como se interessou pela cerâmica e juntamente com a Condessa de Ficalho fundou a Fábrica do Ratinho no seu próprio palácio. Foi distinguida com a Ordem de Santiago, a Ordem de Santa Isabel, a Ordem de Maria Luísa (Espanha) e a Académica de Mérito da Academia Nacional de Belas-Artes.

Passados 86 anos, pelo Edital de 25 de janeiro de 1989, a edilidade lisboeta voltou a perpetuá-la em Lisboa num arruamento de Alcântara junto à Rua da Cozinha Económica: Rua Maria Luísa Holstein.

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua de Casimiro Freire, o mecenas das Escolas Móveis João de Deus, no Bairro dos Aliados

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

Casimiro Freire, o mecenas republicano que em 1882 fundou a  Associação de Escolas Móveis pelo Método de João de Deus, dá nome a uma rua do Bairro dos Aliados, com a legenda «Apóstolo da Instrução Popular/Século XIX», desde junho de 1926.

Casimiro Freire foi fixado na Rua nº 5 do Bairro dos Aliados à Rua Carvalho Araújo, nos terrenos do antigo Areeiro também conhecido como Quinta do Bacalhau, pela deliberação camarária de 12 de junho de 1926 e edital de dia 25 do mesmo mês. Pelo mesmo edital foi também homenageado, na Rua nº 4,  João de Menezes , um «Precursor do Regime Republicano/Século XIX».

Casimiro Freire (Sertã – Pedrogão Pequeno/08.10.1843 – 20.10.1918/Lisboa) era um comerciante e industrial cuja prosperidade o tornou num mecenas da alfabetização. Assim, publicou em 29 e 30 de março de 1881, no jornal O Século, um artigo intitulado «A instrução do povo e a monarquia», onde se insurgia contra a incúria dos governos monárquicos no combate ao analfabetismo e propunha que fossem enviados aos mais recônditos lugares de Portugal missões de alfabetização de professores habilitados que ensinassem a ler e a escrever. Numa época em que 80% da população portuguesa era iletrada, Casimiro Freire fundou em 18 de maio de 1882, com João de Deus, a Associação das Escolas Móveis pelo Método de João de Deus e em 1897 publicou também em folheto uma representação à Câmara dos Deputados intitulada A Instrução do Povo e o Método de João de Deus. Acompanharam-no nessa iniciativa personalidades, como João de Barros, Bernardino Machado, Jaime Magalhães Lima, Francisco Teixeira de Queiroz, Ana de Castro Osório e Homem Cristo, entre outros. Cedeu a João de Deus, um primeiro andar dos armazéns onde trabalhava, no Largo do Terreiro do Trigo, para ser a sede da Associação de Escolas Móveis pelo Método de João de Deus.

Mais tarde, em 1915, por decreto de 5 de junho do Ministro da Instrução Pública, Sebastião Magalhães Lima, foi encarregue da catalogação e organização do Museu Bibliográfico, Pedagógico e Artístico João de Deus, serviço que concluiu em 30 de junho de 1916. E por decreto de 23 de dezembro de 1916, também lhe foi destinada a guarda e conservação do museu até à sua instalação definitiva junto ao Jardim-Escola João de Deus, na Avenida Álvares Cabral.

Republicano desde 1862, foi em 1876 um dos fundadores do primeiro Centro Republicano com Oliveira Marreca e Sousa Brandão entre outros, e em 1899, a partir da comissão paroquial republicana da freguesia de Santa Isabel foi eleito para o diretório do Partido Republicano Português. Em 1884 foi eleito vereador por Lisboa, mas o apuramento na Câmara Municipal não lhe confirmou a votação mas já em 1911 foi o mais votado da Junta Consultiva do Partido Republicano. Colaborou também na imprensa republicana, nomeadamente no Democracia (1873) – jornal dirigido por Elias Garcia -, e no Vanguarda.

Casou com Maria Madalena Battaglia, sogra de João de Deus, no segundo casamento desta, e com ela residiu nº 20 C-1º da Rua das Gaivotas.

Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Aboim Ascensão, benemérito da 1ª creche e 1º lactário lisboetas

Rua Aboim Ascensão - Freguesia de Alvalade (Foto: Sérgio Dias)

Rua Aboim Ascensão – Freguesia de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias)

O Arqº Miguel Ventura Terra projetou o primeiro lactário e a primeira creche lisboeta, no Largo do Museu de Artilharia, nº 2, uma iniciativa do Coronel Rodrigo António Aboim Ascensão que para o efeito fundara a Associação Protetora da Primeira Infância e em Lisboa dá nome a uma Rua (que antes foi Azinhaga) e a uma Travessa.

Aboim Ascensão fundou em 1901 a Associação Protetora da Primeira Infância (APPI) e no ano seguinte o Ministério das Obras Públicas doou-lhe uma sede e terreno, tendo sido traçado por  Ventura Terra o plano de requalificação do edifício Sede e a construção da Vacaria que permitira leite sempre fresco para a criação do 1º lactário e 1ª creche alfacinhas.

Contudo, Aboim Ascensão só 30 anos após esta fundação e um ano após o seu falecimento passou a integrar a toponímia de Lisboa. Em Alvalade, existia uma Azinhaga dos Coruchéus que por Edital municipal de 30/12/1931 passou a ser designada como  Azinhaga Aboim Ascensão e no ano seguinte, o Edital de 03/11/1932 mudou-lhe a categoria para Rua. Dezoito anos depois a Rua Aboim Ascensão foi aumentada já que o Edital de 14/06/1950 incluiu a Rua Luís Augusto Palmeirim neste arruamento. E vinte anos mais tarde, a artéria ganhou a legenda « Benemérito/1859 – 1930», de acordo com um parecer da Comissão Municipal de Toponímia na sua reunião de 15/05/1970, que foi homologado pelo Presidente da CML, à época o General França Borges.

Muito próximo, no arruamento paralelo ao Campo Grande entre a Rua Aboim Ascensão e a Rua Afonso Lopes Vieira,  e com a mesma legenda, existe também a Travessa Aboim Ascensão que era antes a Rua Ferreira de Castro, atribuída pelo Edital municipal de 04/12/1981. No entanto, a Associação dos Amigos de Ferreira de Castro, solicitou à CML que a homenagem se concretizasse em arruamento de maior dignidade, tendo a Comissão Municipal de Toponímia dado parecer favorável pelo que Ferreira de Castro seguiu para a Rua “E” da Malha N1 de Chelas  e ali ficou a Travessa Aboim Ascensão, desde o Edital de 28/02/1984.

A APPI no Largo do Museu de Artilharia, em 1902/03 (Foto: Paulo Guedes, Arquivo Municipal de Lisboa)

A APPI no Largo do Museu de Artilharia, em 1902/03
(Foto: Paulo Guedes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rodrigo António Aboim de Ascensão (Faro/23.08.1859 – 22.01.1930/?) foi um oficial do exército que desenvolveu a sua carreira sobretudo na Guarda Fiscal onde ingressou em 1877 mas também se dedicou à filantropia. Foi coronel da Guarda Fiscal e fundador em Lisboa do Cofre da Previdência da Guarda Fiscal e do Museu das Apreensões (depois, Museu Aduaneiro), bem como fundador da Associação Protetora da Primeira Infância (1901) que instituiu vários lactários na capital e da Associação de Beneficência e Instrução do Campo Grande (1907), para as crianças em idade escolar. Em 1931, por iniciativa de um grupo de amigos foi erigido um busto seu  em bronze, da autoria de Raul Xavier, no jardim da APPI.

Após a sua morte, deixou em testamento um legado para fundar em Faro, sua terra natal, a instituição que foi designada como Refúgio Aboim Ascensão, de apoio social para crianças e idosos, o que se concretizou em 1932. Rodrigo Aboim de Ascensão foi distinguido com as comendas da Ordem de Benemerência e de Isabel, a Católica, e com as ordens de Santiago de Espada e de São Bento de Avis.

Freguesia de Alvalade (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias)