A Rua Luís Piçarra e Costah no Alto do Lumiar

No Alto do Lumiar, o MURO’19- Festival de Arte Urbana de Lisboa que ligou a arte mural  à música presente na toponímia da zona foi também o ponto de encontro do cantor Luís Piçarra que é ali nome de rua e do portuense Costah, com a sua intervenção artística Há Sempre Música Entre Nós, próximo de uma grande superfície comercial da Avenida David Mourão-Ferreira.

Natural do Porto, Nuno Costah realizou os seus primeiros murais ainda na década de noventa, cerca de 1997. Em 2003, iniciou-se na técnica das colagens e stencil’s na sua cidade natal e quatro anos depois, em 2007, começou a assinar como Costah, ano em que também se passou a dedicar à tatuagem. Costah criou um novo estilo,  ilustrativo e versátil, que tanto usa na arte mural como em outros suportes, do papel à tela e até à pele.

Das suas diversas participações em exposições e festivais destaquem-se na Rua das Flores na EDP/Porto Lazer, GoodVibes do Porto, Inky Street Art Gallery do Porto, Maia Performance, A Mimosa da Lapa em Lisboa, Smed da Trofa, a Street art AXA, Traços Urbanos na Póvoa de Varzim, ou na Calçada da Glória da Galeria de Arte Urbana- GAU.

O cantor Luís Piçarra, ainda hoje reconhecido por dar a sua voz ao Hino do Sport Lisboa e Benfica, tem desde a publicação do Edital municipal de 15 de dezembro de 2003 o seu nome gravado nas placas toponímicas do Lumiar, por sugestão da Casa do Artista. Este arruamento liga a Rua José Cardoso Pires à Rua Helena Vaz da Silva e significativamente foi inaugurado no Dia Mundial da Música de 2004, junto com mais 6 arruamentos próximos, com nomes de cantores, instrumentistas e maestros – Arminda Correia, Adriana de Vecchi, Tomás Del Negro, Nóbrega e Sousa, Shegundo Galarza e Belo Marques –, que em conjunto com a Alameda da Música permitiu criar um Bairro da Música no Alto do Lumiar através da toponímia.

luis-picarra

Luís Raul Janeiro Caeiro de Aguilar Barbosa Piçarra Valdeterazzo y Ribadenayra (Moura/23.06.1917 – 22.09.1999/Lisboa)  deixou gravadas 999 canções, tendo ele próprio escrito dezenas delas e a sua voz é reconhecida por todos na interpretação do segundo e atual hino do Sport Lisboa e Benfica –  intitulado Ser Benfiquista-, para além de ter sido ele o criador da famosa Granada, que lhe foi oferecida pelo compositor mexicano Agustin Lara.

Filho do produtor de vinho Luís da Costa de Aguilar Barbosa Piçarra e de Luísa Maria Caeiro, frequentou os dois primeiros anos de Arquitetura da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa mas interrompeu o curso em 1937 para se dedicar a uma carreira musical. Estudou  canto com Fernando de Almeida e Hermínia de Alargim e estreou-se na ópera O Barbeiro de Sevilha levada a cena na Academia dos Amadores de Música de Lisboa. A partir daqui  fez uma carreira de sucesso, cantando pelo mundo inteiro, com espetáculos no Brasil, Argentina, México, Egito, Chipre, Líbano, Síria, Grécia, Turquia, Itália ou Paris. Refira-se especialmente que foi cantor privativo no palácio do rei Faruk (1947/48), parceiro de Edith Piaf numa série de programas do show This is Europe organizado pela ECA (agência encarregada de aplicar o Plano Marshall), tenor da Orquestra de Paul Durand e membro da digressão ao Brasil de A Rosa Cantadeira, com Amália Rodrigues. Na rádio e televisão francesas ficou conhecido como Lou Pizarra e aí estreou nos anos 50 do séc. XX temas como Avril au PortugalGranada ou Luna Lunera. Na década seguinte também gravou programas para diversas televisões incluindo a NBC norte–americana.

Em Portugal, Luís Piçarra distinguiu-se  como tenor oficial da Emissora Nacional, bem como interpretando ópera, opereta e teatro de revista. No cinema, também cantou pela primeira vez O Meu Alentejo no filme Pão Nosso (1940)  de Armando Miranda. Depois da morte da sua primeira esposa em 1968, Luís Piçarra escolheu viver em Angola até 1975, onde foi diretor do Centro de Preparação de Artistas da Rádio e professor de canto teatral na Academia de Música. Após o regresso a Portugal, publicou  em edição de autor Luís Piçarra instantâneos da minha vida (1987) e em 1996 foi lançada uma compilação de temas seus com GranadaAvril Au PortugalCanção do RibatejoCaminho ErradoAnda CáAninhasBatalhaGuitarra da MourariaMorena da RaiaSanta Maria dos MaresSer Benfiquista e  O Meu Alentejo.

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NBC e Adriana de Vecchi: dois músicos no MURO’19

(Foto: ©NBC- Natural Blake Colour)

De origem são-tomense e italiana, NBC e Adriana de Vecchi são dois músicos presentes – pela música e pela toponímia – no MURO’19- Festival de Arte Urbana, que de 23 a 26 de maio vai decorrer na Freguesia do Lumiar.

NBC é o nome artístico de Timóteo Deus Santos, natural de São Tomé e Príncipe onde nasceu em 17 outubro de 1974, que já conta com 20 anos de carreira e que no Festival da Canção 2019 vimos a defender Igual a Ti.

Este cantor e escritor de canções veio com a família para Portugal em 1980 – tendo residido em Enxará dos Cavaleiros, Sobral de Monte Agraço e Torres Vedras – e aqui desenvolveu a sua carreira como um dos fundadores do hip-hop português nos anos 90, tendo com o seu irmão BlackMastah criado Filhos de um Deus Menor para o Oeiras Rap 94 da Antena 3 enquanto como NBC  tornou possíveis os já clássicos «Especial» com Regula ou «Chelas» com Sam The Kid.

Conhecido pela sua garra em palco e com influências do groove, do funk, do rock,  soul e blues, a discografia de NBC  soma os álbuns Afro-Dísiaco (2003), Maturidade (2008), o EP  Epidemia (2013) e Toda a Gente Pode Ser Tudo (2017), que foi eleito pela Antena 3 como um dos discos desse ano. Nas duas décadas da sua carreira assinou ainda colaborações com New Max, Orelha Negra, Dealema,, Mundo Segundo, Bob da Rage Sense, Sir Scratch, Grognation, Time for T., Zimun, Dino d’Santiago, DJ Ride ou Gatupreto. Esteve com os GNR no Rock in Rio Lisboa’ 2006 e em 2014 no Meo Out Jazz, Super Bock Super Rock, Meo Sudoeste e no Vodafone Mexefest. Também participou no filme Fados de Carlos Saura e no Do Desassossego.

A origem do nome NBC deriva do rei bíblico de Israel, Nabucodonosor, mas que posteriormente foi assumido como Natural Black Color.

adriana-de-vecchiJá Adriana de Vecchi (Viana do Castelo/14.09.1896 – 1995), nasceu em Portugal filha de mãe italiana e de pai português e foi educada em Itália a partir dos 2 anos, tendo estudado piano e violoncelo no Conservatório de Turim, para além de ter concluído o curso de Pedagogia pelo método da educadora Maria Montessori.

A Rua Adriana de Vecchi, que liga a Rua Shegundo Galarza à Rua Ferrer Trindade,  foi atribuída por Edital Municipal de 15/12/2003, o mesmo Edital que na mesma zona atribuiu mais 6 topónimos ligados à música –  Rua Luís Piçarra, Rua Nóbrega e Sousa, Rua Belo Marques, Rua Shegundo Galarza, Rua Tomás Del Negro e Rua Arminda Correia –, tendo todos estes arruamentos mais a Alameda da Música tido uma cerimónia de inauguração no dia 1 de Outubro de 2004,  formando um Bairro da Música nesta zona da cidade.

Violoncelista como o seu marido Fernando Costa, que conheceu em Lisboa, criou a Fundação Musical Amigos das Crianças,  em 29 de junho de 1953, com o apoio de Sofia Abecassis, que disponibilizou salas da sua residência no nº 97 da Rua Saraiva de Carvalho para o efeito, depois de ouvir a conferência de Adriana «O Ensino da Música na infância e a sua projecção no futuro», no Museu João de Deus, em 15 de junho desse ano. A escola começou com aulas de violoncelo dadas por Adriana de Vecchi, aulas de piano por Abreu Mota, aulas de violino por Lamy Reis e aulas de Canto Coral por Jaime Silva. Adriana criou ainda material didático para ensino de música a crianças em idade pré-escolar pelo que esta escola desempenhou um papel pioneiro em Portugal no ensino da música desde a infância. Também foi a partir dela que se gerou a Orquestra Juvenil de Instrumentos de Arco da FMAC, dirigida por Fernando Costa, da qual saíram na década de 60 os primeiros jovens para os quadros da Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, enquanto outros alunos integraram a Orquestra Gulbenkian e a Orquestra Sinfónica Portuguesa.

A Fundação criada por Adriana de Vecchi designa-se hoje Academia Musical dos Amigos das Crianças e tem sede no 1.º andar do n.º 19 da Rua Dom Luís I, tendo já editado três discos – Canções Tradicionais PortuguesasCantar o Natal e Clássicos Madeirenses –, assim como publicado a partitura do Quarteto em Lá menor de Fernando Costa e um livro sobre a Nova Técnica de Contrabaixo, de Álvaro Silva.

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Surma de Leiria e Arminda Correia de Lagos no MURO’19

MURO’19, que vai decorrer de 23 a 26 de maio no Lumiar, está subordinado ao tema da Música, tal como a toponímia local, criando nesta 3ª edição do Festival de Arte Urbana de Lisboa também uma dimensão sonora mas preservando o contexto de  experimentação e inovação, que assim permitem coexistirem no espaço do mesmo Festival a cantora lírica do Bairro da Música, Arminda Correia, natural de Lagos, com a representante de música alternativa Surma, natural de Leiria.

De Leiria para o mundo, surge a filha de Maria Umbelino e Pedro Umbelino, nascida em 26 de dezembro de 1994, Débora Umbelino, que é o nome do registo civil da artista Surma que ainda este ano vimos defender Pugna no Festival da Canção. Usa as teclas, os samplers, as cordas, loop stations e o instrumento da sua voz através de uma fonética sem palavras que ela denomina «surmês», criando sonoridades que fogem do jazz para o post-rock, da electrónica para o noise, em atmosferas experimentais que já atraíram público em palcos holandeses, norte-americanos, italianos ou islandeses.

A singular Surma começou em 2015 e com a  editora de Leiria Omnichord Records estreou-se com  o single  Maasai, em 2016, para no ano seguinte ser a vez do álbum Antwerpen (lançado em 13/10/2017), nomeado para melhor disco europeu do ano e cujo single de apresentação do álbum – Hemma -, foi nomeado para melhor canção nacional nos prémios da Sociedade Portuguesa de Autores em 2017. O seu nome artístico é o de uma tribo da Etiópia e resultou da preferência desta One Woman Band por documentários.

De outra localidade portuguesa, de Lagos, veio Arminda Nunes Correia (Lagos/26.12.1903 – 21.09.1988/Lisboa), para Lisboa para concluir os cursos de Canto e Piano no Conservatório Nacional. A partir daí distinguiu-se na interpretação de «lieder» alemães e ficou perpetuada na Rua A da Malha 3 do Alto do Lumiar pelo Edital municipal de 15/12/2003 e oficialmente inaugurada no Dia Mundial da Música de 2004, junto com mais outros  7 arruamentos com nomes de cantores, instrumentistas e maestros – Luís Piçarra, Adriana de Vecchi, Tomás Del Negro, Nóbrega e Sousa, Shegundo Galarza e Belo Marques – e uma Alameda da Música, criando assim pela primeira vez na cidade de Lisboa um Bairro com topónimos dedicados à Música.

Arminda Correia estreou-se como cantora lírica em 1927, no palco do São Carlos, na estreia absoluta de três óperas de Rui Coelho. Foi uma notável intérprete de autores portugueses, muito valorizada pelos seus dotes de dicção e raro timbre de voz, tanto  na interpretação de «lieder» alemães e franceses como em canções tradicionais portuguesas, harmonizadas por Francisco de Lacerda ou Fernando Lopes Graça. Foi galardoada com  o prémio Luísa Todi (1943) e, em 1959, gravou no Reino Unido Canções Populares Portuguesas acompanhadas ao piano por Fernando Lopes Graça. Na  sua carreira de cantora merecem ainda destaque a sua interpretação de  Beatitudes de César Franck, de Crisfal (em português) no Teatro D. Maria II, da Paixão Segundo São Mateus de Bach no São Carlos, a gravação que executou de canções portuguesas a convite do Musée de la parole et du geste, os inúmeros recitais para a Emissora Nacional – com canções tradicionais portuguesas recolhidas por Francisco Lacerda  – nos anos 40 do século XX e concertos um pouco por todo o país.

A esta carreira lírica Arminda Correia somou ainda 14 anos de professora de solfejo e de canto, em quatro locais: Instituto de Música de Coimbra, Liceu Feminino de Coimbra, Academia de Amadores de Música e Conservatório Nacional.

(Foto: © Hugo Domingues)

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Olavo d’Eça Leal, homem de cinema e teatro numa Rua de São Domingos de Benfica

Freguesia de São Domingos de Benfica
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

O multifacetado artista Olavo d’Eça Leal, por ter sido um homem de cinema, enquanto ator, assistente e realizador, cabe no nosso tema desde último mês de 2018- cineastas e cinéfilos- sendo a Rua Olavo D’ Eça Leal o topónimo de um troço da Rua D à Rua Lúcio de Azevedo, desde a publicação do Edital municipal de 10 de julho de 2001.

No cinema, Olavo d’Eça Leal foi assistente de montagem do primeiro filme sonoro português,  Severa  (1931), de Leitão de Barros, assim como assistente de realização de Revolução de Maio (1937), de António Lopes Ribeiro. Foi também ator de Sonho de Amor (1945) de Carlos Porfírio, bem como de Ladrão Precisa-se (1946) de Jorge Brum do Canto. Fez crítica de cinema nas revistas Kino e Imagem de António Lopes Ribeiro, assim como a locução do documentário Monumentos Nacionais (1942) de Lino António e ainda produziu e realizou o seu próprio documentário Vida e Morte dos Porcos (1957). O seu livro Iratan e Iracema – Os Meninos Mais Malcriados do Mundo foi adaptada ao cinema em 1987, no filme homónimo realizado pelo seu filho Paulo-Guilherme, que obteve o Troféu de Ouro 1988 do Festival de Cinema dos Países de Língua Oficial Portuguesa. Refira-se também que Olavo foi desenhador no Atelier de desenhos animados, publicidade e fotografia de moda de André Vigneau.

De seu nome completo Olavo Correia Leite d’ Eça Leal (Lisboa/31.07.1908 – 17.09.1976/Grã-Bretanha), filho da dramaturga e poetisa Flávia Guimarães Correia Leite e do poeta Thomaz d’Aquino Pereira d’Eça e Albuquerque Leal, foi educado no Colégio Militar e na École Pascal, em Paris. Para além do cinema, seguindo a moda dos Anos Vinte do Século XX, mostrou-se um artista multifacetado: como escritor de poesia e de ficção, dramaturgo, jornalista, radialista, desenhador e professor de desenho, sendo que a sua obra está representada no Museu Gulbenkian.

Da sua obra editada, destaca-se a literatura infantil de Provérbios (1928), História de Portugal para meninos preguiçosos (1933) e Iratan e Iracema – Os Meninos Mais Malcriados do Mundo (1939), que foi Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho. Na ficção, publicou as novelas  Fim de Semana (1940),  o romance Processo Arquivado (1948) que foi galardoado com o Prémio Fialho de Almeida e o romance Conceituado Comerciante (1958) com ilustrações e capa do seu filho Paulo. Também escreveu diversas peças, das quais foram levadas à cena Noite de Natal ( no Teatro do Ginásio nos anos trinta), A Taça de Ouro ( no Teatro Nacional em 1953), O Amor, o Dinheiro e a Morte ( no Teatro da Trindade em 1960) e Noite de Paz (nos anos 60, na RTP). Olavo também colaborou, com textos e com desenhos, nas revistas AtlânticoContemporânea, Panorama, Seara Nova e Presença.

Quando esteve emigrado no Brasil, em 1933 e 1934, trabalhou a fazer cartazes publicitários, análises grafológicas e a ensinar desenho a crianças. Voltou a Portugal para concorrer a locutor na Emissora Nacional, e aí ficaram populares os seus Diálogos de Domingo, com Virgínia Vitorino, a partir dos quais  publicou Falar por Falar (1943), A Voz da Rádio (1944) e Nem Tudo Se Perde no Ar (1945). Na década de cinquenta ingressou no Rádio Clube Português, onde também teve sucesso.

Na sua vida pessoal, casou três vezes – com Luísa Ribeiro, Clara Amaral e Emília Pinto, tendo tido como filhos, entre outros, Paulo Guilherme Tomáz Dúlio Ribeiro d’ Eça Leal (1932), Olavo Oliveira Amaral d’Eça Leal e o arquiteto Tomás Olavo Pinto d’Eça Leal (1952).

O seu nome está também fixado numa artéria de Fernão Ferro, no concelho do Seixal.

Freguesia de São Domingos de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua Manuel Costa e Silva do Cinema Documental

Freguesia do Lumiar
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

O criador dos Encontros Internacionais do Cinema Documental, o cineasta Manuel Costa e Silva, está desde o ano 2000 como topónimo da  Rua C da Urbanização do Parque das Conchas, a unir a Rua António Lopes Ribeiro à Rua Manuel Guimarães, duas artérias também com topónimos de realizadores de cinema, na mesma freguesia da cidade que viu nascer a Tobis Portuguesa.

Foi pelo Edital municipal de 31 de maio de 2000 que este realizador lisboeta, cuja história de vida é também o percurso do cinema português na 2ª metade do séc. XX, ficou consagrado na Freguesia do Lumiar.

Manuel Fernando da Costa e Silva (Lisboa/19.03.1938 – 26.01.1999/Lisboa) começou a mostrar-se como realizador no ano de 1969, com o documentário A Grande Roda – com argumento de Alexandre O’Neill– a que seguiu a rodagem em Trás-os-Montes, em 1973, do documentário Festa, Trabalho e Pão em Grijó de Parada; a curta-metragem Madanela, filmada na aldeia da Venda (entre Mosaraz e Mourão), que foi exibida na RTP2 nesse mesmo ano de 1978; a longa-metragem de ficção A Moura Encantada (estreada em 1985) e a sua última película, a curta A Primeira Vez (1999). Para além dos inúmeros documentários que realizou foi também um dos cineastas que participou no documentário coletivo de abril de 1974, intitulado As Armas e o Povo, como Alberto Seixas Santos, António da Cunha Telles, António Escudeiro, António de Macedo, António Pedro Vasconcelos, Artur Semedo, Eduardo Geada, Fernando Lopes, Fernando Matos Silva, Glauber Rocha, João Matos Silva, José Fonseca e Costa, José de Sá Caetano, Luís Galvão Teles e Ricardo Costa.

Em 1990, criou os Encontros Internacionais do Cinema Documental, com sede no Centro Cultural da Malaposta, iniciativa que dirigiu durante 9 anos, um trabalho notável na divulgação do cinema, e do documentarismo em particular, que marcou indiscutivelmente a cultura cinematográfica portuguesa.

Em 1957, após concluir o ensino secundário, Manuel Fernando abalou para a Áustria, onde frequentou um curso de engenharia mecânica na Universidade de Graz. Dois anos depois, mudou-se para Paris, para ser aluno na escola oficial de cinema, o IDHEC – Institut des Hautes Études Cinématographiques, com uma bolsa do Fundo de Cinema português, onde em 1961 ficou cineasta diplomado.

Costa e Silva começou a trabalhar em cinema como operador de imagem: em La Pyramide Humaine (1960) de Jean Rouch, em O Milionário (1962) de Perdigão Queiroga ou em Belarmino de Fernando Lopes (1964), assim como em vários trabalhos de reportagem. Continuou como assistente de imagem tendo desempenhado essa função logo em 1963 e 1964, em três filmes de Jorn Donner, na Suécia. De volta a Portugal, trabalhou na Tobis Portuguesa, na Média Filmes, na Unifilme e na cooperativa Centro Português de Cinema, tendo sido um dos fundadores quer na segunda quer na quarta mencionadas.

Desenvolveu a sua carreira também como assistente de produção, assistente de realização, diretor de produção e produtor executivo. Destaque-se que foi o diretor de fotografia de Coimbra, Uma Universidade – a sua primeira vez, em 1961-, de  Uma Abelha na Chuva (1971) – no mesmo ano em que ficou correspondente da CBS- ou de Crónica dos Bons Malandros (1984) e do documentário Olhar / Ver – Gérard Fotógrafo (1998), películas de Fernando Lopes, assim como de O Mal-Amado (1972) de Fernando Matos Silva, Sofia ou a Educação Sexual (1974) e Saudades para Dona Genciana (1985) de Eduardo Geada, do documentário Almada, Um Nome de Guerra (1977) de Ernesto de Sousa, do Amor de Perdição (1979) de Manoel de Oliveira, de  Repórter X (1986) de José Nascimento, tendo também trabalhado com os realizadores Alfredo Tropa, Ana Luísa Guimarães, António de Macedo, António Pedro Vasconcelos, Artur Semedo, Claude Miller, Cristina Hauser, Faria de Almeida, Ginette Lavigne, Isabel Calpe, João César Monteiro, Jorge Paixão da Costa, Jorge Queiroga, Lauro António, Luís Galvão Teles, Luís Vidal Lopes, Manuel Carvalheiro, Margarida Gil e Monique Rutler. Saliente-se que foi ainda  produtor executivo de séries de TV estrangeiras como Love Boat (1985) ou Le Retour d’Arséne Lupin (1989), tendo nesta década criado a sua produtora: A Quimera de Ouro.

Manuel Costa e Silva também somou à sua história de vida a escrita de artigos  para revistas especializadas como FilmeCelulóide ou Plano e para a revista sueca Chaplin, entre 1962 e 1965. A visita a estúdios e laboratórios nos E.U.A., em 1967, para estudar técnicas de cinema, como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian. Ter dirigido, de 1969 a 1974, a Secção de Cinema e os Serviços de Produção do ITE – Instituto de Tecnologia Educativa. Ter sido membro da direção do Festival Internacional de Cinema de Tróia, em 1985 e 1986, bem como professor na Escola de Cinema do Conservatório Nacional e na Escola Superior de Teatro e Cinema. Ser autor de livros sobre cinema como o Guia Profissional Cinema Televisão Video (1989) ou Do Animatógrafo Lusitano ao Cinema Português (1996).

Costa e Silva teve um livro-homenagem editado por Nelson de Matos, intitulado Os Meus Amigos (1983), assim como está também presente na toponímia do concelho da Amadora.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Artur Ramos, o primeiro realizador da RTP, numa Rua de Santa Clara

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Artur Ramos, o primeiro realizador efetivo da televisão portuguesa, três anos passados sobre o seu falecimento passou a dar nome a uma artéria do Vale da Ameixoeira, na Freguesia de Santa Clara.

A Rua Artur Ramos foi fixada no arruamento projetado junto à Quinta da Atalaia à Rua 6B do Vale da Ameixoeira, por intermédio do Edital municipal de 16 de setembro de 2009, com a legenda «Encenador e Realizador/1926 – 2006». Pelo mesmo Edital foram perpetuados em ruas do Vale da Ameixoeira mais dois nomes ligados ao teatro, a saber, a atriz Glicínia Quartin e o compositor de teatro de revista Frederico de Brito.

O lisboeta Artur Manuel Moreira Ramos (Lisboa/20.11.1926 – 09.01.2006/Lisboa) foi o primeiro realizador efetivo da televisão portuguesa e o responsável pelas emissões experimentais da RTP, em Palhavã, logo em 1956. A partir de 1951, cursara Realização e Montagem do IDHEC, em Paris, com uma bolsa do governo francês, cuja prova final foi a sua curta-metragem Le Bel indiférent (1954) e no ano seguinte trabalhou na televisão francesa como assistente de realização. Como cineasta,  sobressaiem os seus filmes Pássaros de Asas Cortadas (1962) e A Noite e a Madrugada (1983), a partir das obras de Luiz Francisco Rebello e Fernando Namora, bem como a série adaptada para a RTP de Retalhos da Vida de Um Médico (de 1978 a 1980), tal como Resposta a Matilde (1986) em colaboração com Diniz Machado.  Foi ainda o cineasta autor da média-metragem Before Breakfast  (1961) de E. O’Neill para a ORTF; de L’ Anglaise (1963) para a Paris Match Television; da curta Tragédia do Monte Pereira (1975); de séries de 3 episódios para a RTP: a documental Um Passeio pelo Teatro Português (1987) e A Relíquia (1987) de Eça de QueirozBâton e Vem aí o Pai Natal (ambas em 1988).

Artur Ramos também fez uma carreira muito importante de realizador de teatro televisivo. Para a RTP, logo em 1957, começa a especializar-se em teatro televisivo e escolheu obras de Tchekhov, Garrett, Anselmo Lopes Vieira, Bernard Shaw, Calderón de la Barca, Carlos Selvagem, Cervantes, Claude Spaak, Gervásio Lobato, Gil Vicente, João Pedro de Andrade, John Synge, Lope de Vega, Maeterlinck, Mark Twain, Miguel Barbosa, Oscar Wilde, Pierre Barbier, Teresa Rita,  Thortnton Wilder. Em 1958, realizou também a experiência inédita de transmitir peças teatrais em direto de cenários naturais , com o Amor Posto à Prova  de Marivaux na escadaria do Seminário dos Olivais e, O Doente Imaginário de Molière no Palácio Centeno.

Como encenador, Artur Ramos fundou as companhias teatrais GAT-Grupo de Ação Teatral e a do Teatro Maria Matos, para além de se ter destacado  por ter sido quem primeiro estreou em Portugal Os Dias Felizes, de Samuel Beckett, no ano de 1968. Trabalhou para o Teatro Nacional em 1961, 1967 e 1969; para Solnado no Teatro Villaret em 1965 e 1966; bem como na dramaturgia de ópera, no Grupo Experimental de Ópera de Câmara (1963, 1968 e 1969) que fundou. Em 1972, foi proibida a sua A Mãe, bem como Auschwitz, Oratório em 11 cantos foi retirada de cena pela PIDE. No ano seguinte, ganhou o 1º prémio do concurso da FNAT, com o Retábulo do Flautista, pelo Grupo Teatro da Oliva (de São João da Madeira), de imediato proibida pela censura. Voltou ao teatro a partir de 1977, para encenar nos Bonecreiros, no Teatro da Bugiganga, na Casa da Comédia, no Teatro Nacional, no Grupo de Teatro de Campolide já estabelecido em Almada, no Teatro São Carlos, na Companhia Teatro Estúdio de Lisboa e no Teatro Experimental de Cascais.

Como cidadão, Artur Ramos aderiu ao PCP em 1957, o que lhe valeu em 1961 o despedimento político da RTP, justificado pelo pacifismo da realização da peça O Herói e o Soldado de Bernard Shaw. Em 1969, na primavera marcelista, regressou à RTP como free-lancer e assim realizou mais peças, de António Chiado, Francisco Manuel de Melo, Gil Vicente, Mrozeck, Paddy Chayeefsky, Reginald Rose, A. Miller, Manuel da Fonseca e Brecht. Após o 25 de Abril, foi nomeado Diretor de Programa da RTP, até agosto desse ano, passando depois a dirigir o Departamento de Programas Teatrais. Após o 25 de novembro de 1975 voltou a ser despedido da RTP por motivos políticos e reintegrado em 1986, por sentença judicial.

Este lisboeta, que foi pai de outra cara conhecida da televisão portuguesa – Helena Ramos -, estudou no Liceu Camões e licenciou-se em Filologia Germânica na Faculdade de Letras de Lisboa. Foi ainda crítico de teatro na Seara Nova, tradutor, dirigente da Sociedade Portuguesa de Autores e professor das Escolas de Teatro e Cinema do Conservatório Nacional (1982) e de um curso na Escola de Teatro do Centro Cultural de Évora (1986).

Freguesia de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

A Rua Gervásio Lobato do humor de «Lisboa em Camisa»

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A memória do alfacinha autor de Lisboa em Camisa, célebre na cidade-capital oitocentista pelo riso que provocava, está desde 1932 numa artéria de  Campo de Ourique através da Rua Gervásio Lobato, que liga a Estrada dos Prazeres à Rua Freitas Gazul, vizinha do lado do arruamento de outro nome do humor em palco que é a Rua André Brun, ambos topónimos saídos do mesmo Edital municipal de 12 de março  de 1932, cabendo a Gervásio a Rua Particular nº 1 aos Prazeres  e a André a Rua Particular nº 2 aos Prazeres.

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De seu nome completo Gervásio Jorge Gonçalves Lobato (Lisboa/23.04.1850 – 26.05.1895) ficou muito conhecido no seu tempo, pelas plateias do Teatro Ginásio e pelo acontecimento que foi para a comédia oitocentista o seu Lisboa em Camisa, publicado  primeiro em folhetim de jornal – no jornal O Progresso (de 11 de novembro de 1880 a 1 de março de 1881) e depois, no jornal O Fígaro (de 5 de fevereiro a 28 de maio de 1882)- e só depois em livro, publicado em 1882 pela Empreza Litteraria de Lisboa, no qual fazia humor com os  ridículos e manias da pequena e média burguesia lisboeta do fim do século que circulava pelas ruas do Chiado e da Baixa.

Contudo, Gervásio Lobato também trabalhou com afinco como funcionário público, jornalista e professor de Declamação na Escola Dramática do Conservatório de Lisboa. Gervásio Lobato concluíra o Curso Superior de Letras e a cadeira de Direito Internacional na Escola Naval com o intuito de seguir a carreira diplomática mas a sua vocação era o jornalismo e permaneceu em Lisboa, tanto mais que  aos 15 anos já havia fundado com alguns condiscípulos um jornal literário, A Voz Académica. Garantia a base do seu sustento como segundo oficial da Secretaria de Estado dos Negócios do Reino mas com Pinheiro Chagas fundou o Diário da Manhã – antes era A Discussão e foi depois Correio da Manhã-, onde se distinguiu como folhetinista, género muito em voga na época, tendo sido A Comédia de Lisboa o título do primeiro que publicou, em 1878, ainda com o pseudónimo Gilberto.

Ao longo da vida colaborou em inúmeros periódicos  como Braz TizanaCorreio da NoiteDiário IlustradoDiário de NotíciasGazeta de Portugal, Gazeta Literária, A Illustração PortuguesaRecreioRibaltas e GambiarrasO Século, A Semana de Lisboa, para além de ter dirigido a revista O Occidente, ou fundado com Teixeira de Vasconcelos e outros o Jornal da Noite, assim como O Contemporâneo com Salvador Marques e Sousa Bastos.

Como escritor,  Gervásio Lobato construiu-se como aquele que nas suas obras retratava a vida na capital portuguesa nessa época, destacando-se Lisboa em Camisa, que o realizador Herlander Peyroteo adaptou para uma série de televisão, com 15 episódios, em 1960. A sua fama cresceu por ser o dramaturgo de comédias que agradavam ao público do Teatro do Ginásio- o nascido  Theatro do Gymnasio, em 1846, na Rua Nova da Trindade-, no qual iam surgindo ano após ano, interpretadas por grandes valores como o ator Vale. Também foi um grande êxito O Comissário de Polícia em exibição em 1890, oferecendo o Teatro Ginásio ao público um cartaz da peça da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro e que foi adaptada ao cinema pela Invicta Films (em 1914) e por Constantino Esteves (em 1953). Foi até na representação de O Festim de Baltasar (1892), com fins caritativos, no São Carlos, que Gervásio Lobato foi agraciado pelo Rei com o oficialato da Ordem de Santiago.

A sua primeira comédia foi o O Rapto de um Noivo, em 1 acto, feita com Maximiliano de Azevedo, que subiu à cena no Teatro Dona Maria II. Seguiram-se em 1873, já para o Ginásio, Debaixo da Máscara e também No Campo. Depois, foram inúmeras peças originais suas, adaptações ou traduções que encheram os palcos portugueses do último quartel do séc. XIX, contabilizando Luiz Francisco Rebello 25 peças originais e 115 traduções e imitações, em pouco mais de 20 anos, como Sua Excelência (1884) ou As Noivas do Eneias (1892), para além de operetas como Cocó , Ranheta e Facada. Também publicou novelas e romances de que salientamos A Primeira Confessada (1881), Os Invisíveis de Lisboa (1886-1887) que teve êxito também no Brasil, Os Mistérios do Porto (1890-1891) ou O Grande Circo (1893).

Na sua vida particular, casou com Maria das Dores Pereira d’Eça Albuquerque, de quem teve filhas e residiu durante muitos anos na Travessa do Convento das Bernardas, na Madragoa, assim como na Travessa do Pombal, que em 29/12/1880 passou a ser a Rua da Imprensa Nacional. Faleceu aos 45 anos, na sua casa na Rua das Amoreiras, nº 102.

Gervásio Lobato está também presente na toponímia dos concelhos de Almada (Charneca da Caparica), Seixal (Arrentela)e Sintra (Massamá).

Freguesia de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O compositor teatral Wenceslau Pinto numa Rua de Santa Clara

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC/ Planta: Sérgio Dias| NT do DPC) )

Compositor sobretudo de teatro, maestro e professor, Wenceslau Pinto está desde 2008 como topónimo da Rua que liga a Rua Maluda à Rua Barata Feyo, na freguesia de Santa Clara, numa zona em que a toponímia comporta nomes de figuras de diversas artes.

A sugestão partiu de António Valdemar, enquanto membro da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa, considerando ser «figura de Lisboa que merece ser assinalada na toponímia da cidade». A concretização nasceu da publicação do Edital municipal de 3 de julho de 2008 na Rua 5 (projetada ao Bairro das Galinheiras), o mesmo que colocou o guitarrista Jaime Santos na Rua 4 e o maestro Carlos Rocha na Rua 6. Cerca de um ano e 3 meses antes, por Edital de 27 de abril de 2007, já haviam sido dados neste bairro os nomes da fadista Berta Cardoso (à Rua 3), do escultor Barata Feyo (Rua 2) e da pintora Maluda (Rua 1).

Refira-se ainda que nas proximidades existe também um núcleo toponímico teatral anterior que através do Edital municipal de 14/07/2004 juntou as Ruas Raul Carvalho, Arnaldo Assis Pacheco, António Vilar, José Viana e Varela Silva aos nomes que ali se fixaram pelo Edital de 19 de abril desse mesmo ano:  a Rua Fernanda Alves e a Rua Fernando Gusmão. Em  2009, por Edital de 16 de setembro, ganhou mais a Rua Artur Ramos e a Avenida Glicínia Quartin.

Wenceslau Pinto (Oliveira do Hospital/1883 – 1973/Lisboa), educado na Casa Pia,  tornou-se maestro e compositor com o curso de Contraponto, Composição e de Oboé do Conservatório Nacional, escola onde foi também professor de Composição de 1919 a 1953. Também  foi docente da Sociedade de Concertos e Escola de Música, na Rua do Alecrim nº 17, como se pode ver na publicidade da época.

Fez parte da primeira equipa escolar de futebol da Casa Pia e começou a sua carreira musical como primeiro-oboísta nas orquestras de Lambertini, Pedro Blanch, Viana da Mota e David de Sousa, tendo sido um dos sócios fundadores da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses (SECTP) em 1925, estrutura presidida por Júlio Dantas.

Ao longo da sua carreira teve a função de diretor musical de várias companhias teatrais ( como as de Taveira, de Luís Galhardo, de Estêvão Amarante ou de Armando de Vasconcelos), assim como regeu a Orquestra Sinfónica Popular da Emissora Nacional. Wenceslau Pinto compôs sinfonias, quartetos, canções para piano e canto, o quadro sinfónico Fandango, o poema sinfónico 1140 ou o auto Nun’Álvares, bem como inúmeras operetas de que se destacam Pérola Negra (1922), Poço do Bispo, Onze Mil Virgens, Flor do Bairro ou El-Rei Soviet. Também musicou comédias e teatro de revista e ainda escreveu música para os seguintes filmes: Mademoiselle Écran (1919), A Revolução de Maio (1937), Viagem de Sua Excelência o Presidente da República a Angola (1939), Feitiço do Império (1940) com Jaime Silva Filho e algumas canções para Rapsódia Portuguesa (1959).

No fado, ainda hoje se recordam êxitos seus, em conjunto com Raúl Portela e Alves Coelho, concebidos para o teatro, como o Fado do Bairro Alto e o Fado das Iscas (1927), criados para a  opereta Bairro Alto. Para o Parque Mayer produziu o Fado Culinário, tema de autoria partilhada com Álvaro Santos, António Lopes, Lopo Lauer, Gustavo Matos Sequeira e Lino Ferreira. Wenceslau Pinto concebeu ainda três fados que foram grandes sucessos: o Fado Ganga – que esteve proibido de passar na Emissora Nacional -, o Fado Maioral e o Fado Pão de Ló para o vaudeville homónimo.

Por último, recorde-se a sua colaboração com a Câmara Municipal de Lisboa, particularmente nos anos de 1961 e 1962, em que a edilidade lhe comprou a partitura O Aqueduto das Águas Livres e outros temas relacionados com a cidade e Wenceslau Pinto regeu alguns concertos da Orquestra Filarmónica de Lisboa, no Pavilhão dos Desportos.

Freguesia de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Largo de Lambertini, o homem dos 7 ofícios musicais

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Largo Michel’Angelo Lambertini homenageia na freguesia do Lumiar o homem dos 7 ofícios na arte musical – pianista, maestro e compositor, musicólogo e organizador de eventos, professor de canto, editor e comerciante de instrumentos musicais -,  assim existindo desde a publicação do Edital municipal de 17 de março de 2017 no largo interior formado entre a Alameda das Linhas de Torres, a Rua Luís de Freitas Branco e a Rua Virgínia Vitorino, a partir de uma sugestão de Miguel Lambertini Gouveia à Autarquia lisboeta.

O Occidente, 20 de novembro de 1907

Michel’Angelo Lambertini (Porto/14.04.1862 – 21.12.1920/Lisboa) foi um pianista, maestro e compositor, musicógrafo e organizador de eventos, professor de canto coral, além de editor da revista A Arte Musical e ainda, comerciante lisboeta de fabrico e revenda de instrumentos musicais.

Neto do compositor e construtor de pianos Luiz Joaquin Lambertini  – que veio para Lisboa em 1864 e montou a sua 1ª fábrica no Palacete do então Largo de São Roque [hoje Largo Trindade Coelho] à esquina da Travessa da Queimada – começou a estudar piano aos 6 anos no Conservatório. Concluiu os cursos de Piano (1879) e de Harmonia e Contraponto (1881) no Real Conservatório de Lisboa, bem como o Instituto Comercial e o Liceu.

O seu grande sonho foi criar um Museu Instrumental em Lisboa. Recomendado por vultos da I República como José Relvas,  foi incumbido por portaria de 22/12/1911  da recolha e ordenação dos instrumentos musicais que encontrasse em edifícios públicos ou religiosos, sem quaisquer custos para o Estado e desempenhou essa missão até à sua morte. Dos contributos recebidos ia dando notícia no seu quinzenário A Arte Musical.  A partir de janeiro de 1912, as peças eram colocadas em exíguas salas do Palácio das Necessidades e sobre essa experiência publicou O Museu Instrumental e as minhas relações com o Estado (1913). O seu sonho não esmoreceu e publica Primeiro nucleo de um museu instrumental em Lisboa : catalogo summario (1914) para no ano seguinte, o Decreto nº 1681, de 28 de junho, o instituir no Conservatório e nomeando Lambertini conservador mas que ficou sem execução prática. Assim, num andar do Palácio Quintela da Rua do Alecrim, instalou e dirigiu o Museu Instrumental Português, com cerca de cinco centenas de peças. A partir de 1929 o espólio do Museu Instrumental foi sendo adquirido pelo Conservatório Nacional e é deste modo que a herança de Lambertini , através de inúmeras vicissitudes, passa a ser uma parte considerável do atual acervo do Museu Nacional da Música, na Estação do Metropolitano dos Altos do Moinhos, em Lisboa.

Na cultura portuguesa de finais do século XIX, princípios do século XX, Michel’Angelo Lambertini foi relevante como organizador e animador de eventos musicais e literários, a ponto de Margarida Rebocho Ferreira o classificar como «benemérito  na cultura da música do Portugal dos inícios de novecentos». Foi o promotor da representação Portuguesa à Exposição Musical de Milão de 1881 – tendo conseguido reunir 121 obras-, o fundador da Sociedade de Música de Câmara em 1899 bem como da Grande Orquestra Portuguesa em 1907, para além de ter sido o responsável pela primeira apresentação em Portugal da Filarmónica de Berlim, em 1901.

Lambertini foi o autor do 1ª grande síntese da história musical portuguesa, publicado em 1915, na Encyclopédie de la Musique Et Dictionnaire du Conservatoire, dirigida por Lavignac. No mesmo ano publicou Pela Índia, sobre a música desse país. Já em 1900, editara os 2 volumes do Diccionario Biograhico de Músicos Portuguezes de Ernesto Vieira e  editou e dirigiu a sua revista A Arte Musical fazendo-a publicar de 15 de janeiro 1889 a 31 de dezembro de 1915, sendo que já nos seus 15 anos  havia sido redator da revista musical A Chitara – revista de musica e theatros, sedeada na Rua do Benformoso nº 266.

Em dezembro de 1887, com a morte do seu tio Ermete Lambertini, assumiu com seu pai a gerência da Casa Lambertini & Irmão, então sediada na Praça dos Restauradores nº 43 a 49, detentora do exclusivo da venda de pianos Bechstein para Portugal e fornecedores da Casa Real, desde o alvará de 2 de novembro de 1868. Neste âmbito publicou Annuario musical da Casa Lambertini (1900), As collecções de instrumentos musicos (1913), Indústria instrumental portuguesa (1914).

Michel’angelo Lambertini  foi também professor de canto coral das escolas  municipais centrais nºs 14 e 15, desde 1883 e redigiu o relatório da Comissão para Melhorar o Ensino da Música em Portugal, presidida por Viana da Mota. Foi ainda fundador da Caixa de Socorro a Músicos Pobres e sócio da Academia Marcos de Portugal.

Em Lisboa, vivia no Palacete Lambertini na Avenida da Liberdade, da autoria de Nicola Bigaglia, que foi Menção Honrosa no Prémio Valmor de 1904.

Lambertini foi condecorado como Cavaleiro da Real Ordem Militar de Cristo (1888) e da Coroa de Itália (1896), bem como Comendador da Ordem Militar de Nª Srª da Conceição de Vila Viçosa (1898) e da Ordem de Santiago de Espada (1908) e no 140º aniversário do seu nascimento o Museu Nacional da Música inaugurou uma exposição em sua homenagem.

A Rua do cantor lírico Dom Francisco de Sousa Coutinho ou Chico Redondo

Freguesia de Alvalade
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC/ Planta: Sérgio Dias| NT do DPC) )

Por sugestão de Durval Pires de Lima, membro da Comissão Municipal de Toponímia  ficou o cantor lírico Dom Francisco de Paula de Sousa Coutinho, conhecido como Chico Redondo, inscrito na toponímia de Alvalade, junto à Rua Guilhermina Suggia, a partir da publicação do Edital municipal de 20 de outubro de 1955.

Na reunião da Comissão Municipal de Toponímia de 26 de fevereiro de 1951, conforme se pode ler na ata da reunião, «Para efeito da denominação de novos arruamentos no Bairro de Alvalade, o Excelentíssimo Senhor doutor [Durval] Pires de Lima, indicou os seguintes nomes, além dos irmãos Andrade e de Luísa Todi : Dom Francisco de Sousa Coutinho (Chico Redondo), filho do Conde de Redondo e Marquês Borba – barítono; José Rosa, que cantou muito em Itália e morreu em Milão, onde está sepultado – Tenor; Alfredo Gazul, medíocre tenor, e Maria de Arneiro, medíocre soprano.» Assim, o Edital camarário de 20 de outubro de 1955 tornou Dom Francisco de Sousa Coutinho o topónimo da Rua 56 do Sítio de Alvalade, ao mesmo tempo que nas  ruas em seu redor ficaram mais nomes ligados ao meio musical, como a violoncelista Guilhermina Suggia, os irmãos cantores líricos António e Francisco Andrade e ainda, o mestre de filarmónicas Rodrigues Cordeiro.

O alfacinha Francisco de Paula de Portugal de Sousa Coutinho (Lisboa/11.12.1867 – 14.08.1924/Lisboa), filho do 3º marquês de Borba, D. Fernando de Sousa Coutinho, foi um barítono que se estreou como cantor lírico no Teatro de S. João (do Porto) e cuja interpretação do Falstaff de Verdi assombrou inúmeras plateias, nacionais e estrangeiras.

Segundo o Eng.° Júlio Eduardo dos Santos ( na Olisipo, Set-Dez de 1970), era  «conhecido na vida boémia da sua cidade natal [Lisboa] por Chico Redondo, o que bem se adaptava à sua alta linhagem, dos Condes de Redondo e Marqueses de Borba, e igualmente à sua figura, pois pesava cento e vinte quilos ou talvez mais …».

A sua primeira apresentação em público registou-se numa récita de amadores, no Teatro de S. João do Porto quando este se chamava Teatro do Príncipe Real, em 1888, interpretando o papel de Valentim do Fausto e foi tal o sucesso que resolveu aperfeiçoar-se na arte do canto, para o que partiu para Milão, acompanhado de um Carlos Lopes que era primeiro baixo e seguindo o conselho do seu primeiro professor, o  tenor Alfredo Gazul. De Itália partiu para França, onde permaneceu alguns anos, a estudar no Conservatório parisiense.

Em 1896 assinou contrato com a Ópera de Berlim, onde se estreou em fevereiro de 1897, na ópera Os Palhaços , de Ruggero Leoncavallo e foi um sucesso, mesmo se o seu maior  êxito foi a interpretação do Falstaff, de Verdi. Sousa Coutinho foi particularmente acarinhado na Alemanha, bastas vezes referido como «célebre barítono da ópera de Berlim» e o professor G. F. Berlein modelou o seu busto na personagem de Sir John Falstaff. Deu também numerosos concertos na Alemanha, Holanda, Suécia, Dinamarca, Polónia, Estados Unidos da América  ( Washington e Nova Iorque) e Brasil.

Em 1899, o conhecido Chico Redondo era a principal figura da pequena companhia de ópera que se apresentou no antigo Teatro D. Amélia ( depois República e mais tarde, São Luiz), sendo nesse contexto que também se apresentou na ópera Palhaços e em um ato do Fausto que eram o reportório dessa companhia. Pouco tempo depois, cantou-se Palhaços no Coliseu dos Recreios, numa das companhias de ópera que habitualmente lá se exibiam e Francisco Sousa Coutinho foi substituir o barítono Carbonell no papel de Tonio.

Nos últimos anos da sua vida Francisco de Sousa Coutinho deu aulas de canto em Lisboa e manifestou uma enorme paixão por cozinhar.  Foi internado na Casa de Saúde do Telhal em 1923, onde veio a falecer no ano seguinte, ficando sepultado no jazigo de família nos Prazeres.

Embora tendo recusado o título de marquês de Valença, Dom Francisco de Sousa Coutinho aceitou ser agraciado com o hábito de Cristo pelo rei Dom Luís e está também presente na toponímia de São Domingos de Rana.

Capa da Ilustração Portuguesa de 10 de dezembro de 1906