A Rua Braamcaamp Freire, Presidente da CML quando Ventura Terra foi vereador

Anselmo Braamcamp Freire em 1911 (Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

Anselmo Braamcamp Freire em 1911
(Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

Ventura Terra foi vereador da primeira gestão republicana na CML,  no período de 1908 a 1913, tendo assim conhecido de perto Anselmo Braamcaamp Freire que era Vice-presidente até 1910 e foi depois eleito Presidente.

No entanto, só mais de 20 anos após o falecimento de Braamcaamp Freire é que este teve honras de topónimo lisboeta, pelo Edital de 13 de maio de 1949, fixado no arruamento identificado como Rua A do Bairro da Quinta dos Apóstolos à Rua Lopes. Pelo mesmo Edital municipal foram também atribuídos os nomes de Sousa Viterbo na  Rua B, de David Lopes na Rua C  e de Adolfo Coelho na Rua D.

Foi neste período em que o Arqº Miguel  Ventura Terra foi também vereador  na Câmara Municipal de Lisboa que elaborou planos na área do urbanismo, nomeadamente para a zona ribeirinha da capital – com a fim da linha férrea em Santos para que a zona até ao Cais do Sodré passasse a ser zona de lazer – e Rua do Arsenal com arcadas nos prédios (1908), bem como para o Parque Eduardo VII tendo até em 13 de outubro de 1910 proposto «que seja dado o nome de Esplanada dos Heróis da Revolução ao espaço que no meu projecto de Parque Eduardo VII fica compreendido entre o limite norte da Praça do Marquês de Pombal, as ruas Fontes Pereira de Melo e António Joaquim Aguiar e o Palácio de exposições e festas onde começa o parque propriamente dito» e que até foi aprovado mas que não chegou a ser concretizado.  A 9 de março do ano seguinte propôs ainda a atribuição dos nomes de Eugénio dos Santos, Nuno Santos e Silva Porto a ruas importantes de Lisboa. Foi ainda Ventura Terra que solicitou a António Teixeira Lopes a execução de um busto em mármore de Anselmo Braamcamp Freire, pago pelos 11 vereadores, que em 1911 ficou colocado nos Paços do Concelho de Lisboa.

Freguesia de Penha de França (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Penha de França
(Foto: Sérgio Dias)

Anselmo Braamcamp Freire, nascido na então Freguesia de São José (Lisboa/01.02.1849 – 23.12.1929/Lisboa) foi um homem de cultura invulgar, arqueólogo e genealogista, escritor e historiador, que depois de 1875 voltou a morar em Lisboa, na Rua do Salitre, para publicar, a partir de 1903, o Arquivo Histórico Português,  que por uma minuciosa pesquisa na Torre do Tombo e outros arquivos trouxe a lume documentos inéditos da história do país. Como político, foi o 1º Presidente da Câmara Municipal de Loures (de 1887 a 1889 e também de 1893 a 1895); aderiu em 1907 ao Partido Republicano e assim foi vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa de 1908 a 1910 e depois eleito Presidente em 1911, função que desempenhou até 1913. Paralelamente, foi deputado republicano à Câmara Constituinte de 1911 e foi o 1º Presidente do Senado da República.  É ainda no ano de 1911, a 21 de agosto, que enquanto Presidente da Assembleia Braamcamp Freire promulgou a 1ª Constituição da República.

Braamcamp Freire precursor de genealogia científica em Portugal, foi sócio efetivo da da Sociedade de Geografia de Lisboa e da Academia das Ciências de Lisboa, tendo desta última sido Presidente em 1918, para além de vasta obra publicada de que salientamos O Conde de Vila Franca e a Inquisição (1899), As sepulturas do Espinheiro (1901), Em volta de uma carta de Garcia de Resende (1905),  Amarrado ao pelourinho (1907), Livro dos bens de D. João de Portel: cartulario do século XIII (1910), Um aventureiro na empresa de Ceuta (1913), Gil Vicente, poeta e ourives (1914), Maria Brandoa, a do Crisfal (1916), Vida e Obra de Gil Vicente, Trovador e Mestre da Balança (1918), Notícias da feitoria de Flandres: precedidas dos Brandões poetas do Cancioneiro (1920), A censura e o Cancioneiro Geral ou Brasões da Sala de Sintra (ambos em 1921).

Braamcamp Freire legou à cidade de Santarém a sua vasta biblioteca, as suas múltiplas obras de arte e a casa onde viveu, que é  hoje a Biblioteca Municipal de Santarém.

Freguesia de Penha de França (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Penha de França
(Planta: Sérgio Dias)

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A Rua do escultor António Teixeira Lopes, amigo de Ventura Terra

Teixeira Lopes na Ilustração Portuguesa, 16 de novembro de 1903

Teixeira Lopes na Ilustração Portuguesa, 16 de novembro de 1903

Ventura Terra solicitou em 1911 a António Teixeira Lopes a execução de um busto do 1º Presidente Republicano da Câmara Municipal de Lisboa, já o seu amigo escultor estava homenageado em Lisboa com a Rua Teixeira Lopes, que liga o Largo dos Caminhos de Ferro ao Largo do Museu da Artilharia, desde a publicação do Edital municipal de 5 de novembro de 1903, quatro dias antes da inauguração do monumento a Eça de Queiroz no Largo do Barão de Quintela.

Miguel Ventura Terra que além de arquiteto foi também vereador  na 1ª edilidade republicana de Lisboa, no período de 1908 a 1913, presidida por Anselmo Bramcaamp Freire, propôs em 1911 a Teixeira Lopes a execução de um busto em mármore do 1º Presidente Republicano da Câmara de Lisboa, pago pelos 11 vereadores, que a partir do nosso seguinte ficou nos Paços do Concelho de Lisboa. E doze dias antes de falecer Ventura Terra endereçou a seguinte missiva ao seu amigo Teixeira Lopes:
18 -4-919
Meu querido amigo
Tenho estado tão doente que não posso de modo algum responder à sua carta, espero poder fazer d`entro d´alguns dias e oxalá assim seja.
Sou carinhosamente dedicado
Ventura Terra

Ainda em Lisboa podemos encontrar outras obras de Teixeira Lopes como A viúva (1893) no Museu do Chiado; o monumento fúnebre de Oliveira Martins – A História – no Cemitério dos Prazeres, em pareceria com o seu irmão (1903); o Monumento a Eça de Queiroz, em bronze, inaugurado em 9 de novembro de 1903, no Largo do Barão de Quintela; o busto do Visconde de Valmor inaugurado em 1904 no Largo da Biblioteca Pública (desde 6 de abril de 1982  é o Largo da Academia Nacional de Belas Artes);  o busto  de Manuel Bento de Sousa  inaugurado em 1906 no pátio central da Faculdade de Ciências Médicas, no Campo Mártires da Pátria; o busto de Augusto Rosa inaugurado em 1925 no Largo da Sé; o busto de Alfredo Keil Busto que foi inaugurado no Jardim Alfredo Keil,  na Praça da Alegria,  em 3 de julho de 1957.

Freguesias de Santa Maria Maior e de São Vicente (Foto: Artur Matos)

Freguesias de Santa Maria Maior e de São Vicente
(Foto: Artur Matos)

António Teixeira Lopes (Vila Nova de Gaia/27.10.1866 – 21.06.1942/São Mamede de Ribatua), filho do  escultor José Joaquim Teixeira Lopes (1837-1918) e de Raquel Pereira de Melo Fernandes Meireles Teixeira Lopes nasceu nas proximidades da Fábrica Cerâmica das Devesas e foi irmão mais velho do arquiteto José Teixeira Lopes (1872-1919), seu colaborador em diversos trabalhos e na construção da sua Casa-Atelier, na Rua Marquês Sá da Bandeira em Vila Nova de Gaia, em 1895 e que hoje é a Casa-Museu Teixeira Lopes, doada à Câmara Municipal de Gaia em 1933, com a ressalva do artista nela residir até ao fim dos seus dias.

Em 1881, Teixeira Lopes começou a aprender escultura na oficina de seu pai e no ano seguinte ingressou na Academia Portuense de Belas Artes onde foi aluno de Soares dos Reis e Marques de Oliveira. Estudou também em Paris com Paul Berthet  ou Matias Duval. A sua primeira exposição individual foi em 1891 no Palácio da Bolsa do Porto e no ano seguinte, com Veloso Salgado, lá voltou a mostrar a sua obra.

No Salon de Paris ganhou menções-honrosas com as obras Comungante e Caim (1889) e medalha de ouro de terceira classe com A Viúva (1890) que na versão em bronze obteve medalha de ouro em Berlim (1896). Na Exposição Universal de Paris de 1900 com Santo IsidoroAgriculturaA Dor, A História e Raquel conseguiu um Grand Prix e a condecoração de Cavaleiro da Legião de Honra. António Teixeira Lopes foi ainda autor das imponentes três portas de bronze da Igreja da Candelária (1901) no Rio de Janeiro e do monumento onde repousam os restos mortais do 1º Presidente da República do Rio Grande.

Em 1901 Teixeira Lopes assumiu o lugar de professor da Academia Portuense de Belas Artes, que manteve até ao ano da sua jubilação (1936).  Refira-se ainda que pelo seu testamento de 1939 determinou que se entregassem 3 mil escudos à Academia de Belas Artes do Porto para premiar anualmente o melhor aluno de escultura.

Freguesias de Santa Maria Maior e de São Vicente (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias de Santa Maria Maior e de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua de Maria Joana Arriaga que morou neste arruamento

Freguesia da Estrela (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Estrela
(Foto: Sérgio Dias)

A Casa de Jacinto Cândido, traçada em  1902 pelo Arqº Ventura Terra e demolida no correr dos tempos, existiu na Rua da Arriaga, topónimo que relembra a primeira moradora da artéria, uma filha de Guilherme Street de Arriaga.

De acordo com Luís Pastor de Macedo,  a primeira casa construída nesta rua, a que nos nossos dias correspondem os números de polícia 31 a 37, pertenceu a uma filha de Guilherme Street de Arriaga e Cunha Brum da Silveira (Lisboa/13.10.1834 – 27.02.1898/Lisboa), 2º Visconde e 1º Conde de Carnide (decreto real de 20/03/1890), e assim terá sido esta moradora que deu azo à fixação do topónimo no séc. XIX. Segundo Norberto Araújo chamava-se Maria Joana Aniceta Francisca de Arriaga, opinião que Gomes de Brito corrobora referindo o Almanach de 1812.

A Rua da Arriaga foi aberta nos terrenos da Quinta de Buenos Aires, que se estendia desde a Rua do Olival até à Cruz de Buenos Aires. Era propriedade de Guilherme Street de Arriaga e Cunha Brum da Silveira, filho primogénito e herdeiro de José Street de Arriaga Brum da Silveira (1805 -1885), 1º visconde de Carnide. As primeiras referências escritas à Rua da Arriaga estão no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque, de 1856, assim como numa planta referente ao estado da artéria de Francisco Goullard, de julho de 1884.

 

Freguesia da Estrela (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

Na Rua de São Bento Ventura Terra remodelou o Palácio das Cortes

@ palacio de são bento ventura terra

Na Rua de São Bento que corre ao longo de 4 freguesias – Estrela , Misericórdia , Santo António e Campo de Ourique – encontramos o edifício da Assembleia da República, cujo hemiciclo foi traçado por Ventura Terra e inaugurado em 1903.

Sobre a arquitetura monacal do Convento de São Bento foi depois construído o Palácio das Cortes, uma remodelação do Arqº Possidónio da Silva e aí reuniram as Cortes pela primeira vez em 15 de agosto de 1834. Mas em 1895 ocorreu um incêndio na Sala das Sessões e no ano seguinte Ventura Terra ganhou o concurso para a a remodelação do edifício das Cortes na Câmara dos Deputados e Parlamento que foi inaugurado em 1903.

O Palácio de São Bento, antes das obras de restauro de Ventura Terra (Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

O Palácio de São Bento, antes das obras de restauro de Ventura Terra
(Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

O nome do sítio de São Bento data do séc. XVI por referência ao Convento de frades beneditinos que vieram de Tibães. Estes frades já instalados na área compraram em 1596 terras da Quinta da Saúde onde construíram o Convento de São Bento, que por tal também foi conhecido por Convento da Saúde. Sabe-se que o convento já estava ocupado em 1598 apesar da obra só ter ficado concluída em 1615. Dado o local não ter sofrido com o Terramoto, o Arquivo da Torre do Tombo foi transferido do Castelo de São Jorge para este convento em 1757.

Segundo o olisipógrafo Norberto Araújo, nas suas Peregrinações em Lisboa, da Rua dos Poços dos Negros até ao Largo passado o Arco de São Bento, o topónimo Rua de S. Bento seria antigo. Dali para cima até ao Rato, considerava ser do séc. XVIII já que eram os Olivais de São Bento e antes Rua Nova de Colónia. Segundo outro olisipógrafo, Luís Pastor de Macedo, na sua Lisboa de Lés-a-Lés, o troço superior da Rua de S. Bento poderia anteriormente ter sido designado como Rua de São Bento às Trinas, por referência às Trinas do Rato.

Nesta Rua de São Bento existiu um estúdio de cinema da Portugalia Filmes que depois passou a ser da associação Triângulo Vermelho; nasceu Alexandre Herculano no Pátio do Gil que se abre no n.º 458 desta artéria; e viveram o político regenerador Hintze Ribeiro e a fadista Amália Rodrigues.

Freguesias da Estrela , da Misericórdia , de Santo António e de Campo de Ourique (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias da Estrela , da Misericórdia , de Santo António e de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua de Pardal Monteiro, Arquiteto que teve Ventura Terra como referência

A Estação do Cais do Sodré de Pardal Monteiro, fotografada pelo próprio em 1928 (Arquivo Municipal de Lisboa)

A Estação do Cais do Sodré de Pardal Monteiro, fotografada pelo próprio em 1928 (Arquivo Municipal de Lisboa)

O Arqº Pardal Monteiro que teve Ventura Terra como figura de referência passou em 1978 a dar nome a uma artéria da freguesia de Marvila, no Bairro dos Lóios.

Miguel Ventura Terra, um dos mais destacados arquitetos do início do século XX em Portugal era uma figura venerada no círculo familiar de Pardal Monteiro e este, ainda durante a frequência da Escola de Belas Artes de Lisboa, onde foi aluno de José Luís Monteiro, trabalhou no atelier do primeiro.   Pardal Monteiro foi também o responsável pela cantaria do prédio traçado por Ventura Terra na Avenida António Augusto de Aguiar nº 3-D, para o escultor Artur Prat, que recebeu uma Menção Honrosa do Prémio Valmor em 1913.

Com a legenda «Arquitecto/1897-1957», Pardal Monteiro teve o seu nome fixado na Via Envolvente da Zona N2 de Chelas pelo Edital municipal de 10/08/1978, tal como mais 11 arquitetos, todos em ruas, a partir de uma proposta do Arqº Francisco Silva Dias, que era então membro da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa, a saber :  Adães Bermudes, Adelino Nunes, Álvaro Machado, Cassiano Branco, Domingos Parente, José Luís Monteiro, Keil do Amaral, Luís Cristino da Silva, Miguel Nogueira Júnior, Norte Júnior e Pedro José Pezerat.

Rua Pardal Monteiro - Freguesia de Marvila (Foto: Pedro Letria, 1998, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua Pardal Monteiro – Freguesia de Marvila
(Foto: Pedro Letria, 1998, Arquivo Municipal de Lisboa)

Porfírio Pardal Monteiro (Pêro Pinheiro/06.02.1897 –  16.12.1957/Lisboa) foi o autor em Lisboa de arquiteturas tão emblemáticas como a Estação do Cais do Sodré (1925-1928), o conjunto arquitetónico de 7 edifícios do Instituto Superior Técnico (1927-41) como uma Acrópole sobre o vale da Avenida Almirante Reis e exemplo do Modernismo Português, o Instituto Nacional de Estatística (1931), a Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Fátima que foi Prémio Valmor 1938, o monumento a António José de Almeida (1937) com Leopoldo de Almeida, as Estações Marítimas de Alcântara (inaugurada em 1943) e da Rocha do Conde de Óbidos (edificada entre 1945 e 1948), o Laboratório Nacional de Engenharia Civil (1949), os hotéis Tivoli, Mundial e Ritz (1952 – 1959), a Cidade Universitária (através das  Faculdade de Direito, Faculdade de Letras e Reitoria, a partir de 1952) e, com outros arquitetos, a Biblioteca Nacional (1954-61), tendo sido estes dois últimos projetos terminados pelo seu sobrinho António Pardal Monteiro. Traçou ainda na capital um edifício na Avenida da República, nº 49 (1920) que foi Prémio Valmor 1923 e outro no nº 54 que foi Menção Honrosa do Prémio Valmor 1930,  o Templo da Igreja Adventista de Lisboa (1923) na Rua Joaquim Bonifácio, o  Palacete Vale Flor na Calçada de Santo Amaro (1925) que foi Prémio Valmor 1928, uma moradia na Avenida Cinco de Outubro nºs 207-215 que foi Prémio Valmor 1929, o edifício da Ford Lusitana (1930) na Rua Castilho e já demolido,  o edifício do Diário de Notícias na Avenida da Liberdade que foi Prémio Valmor 1940, o edifício de habitação na Avenida Sidónio Pais nº 16 que foi Prémio Municipal de Arquitetura 1947, o edifício da A Nacional/Companhia Industrial de Portugal e Colónias (1952) na Avenida Infante Dom Henrique nº 255 com a Rua do Beato nº 21.

Pardal Monteiro começou por trabalhar em 1919 na Repartição das Construções Escolares do Ministério da Instrução e depois, no serviço de arquitetura da Caixa Geral de Depósitos (1920-1929), assim como na Exposição do Mundo Português de 1940, em Belém,  a partir do plano coordenado pelo arquiteto Cottineli Telmo, sendo seu o Pavilhão e Esfera dos Conhecimentos. Foi também professor desde 1920 e  catedrático desde 1942,  da cadeira de Arquitetura do curso de Engenharia Civil do Instituto Superior Técnico .

Pardal Monteiro desempenhou ainda os cargos de Secretário da Direção da Sociedade de Arquitectos Portugueses (1919-1922),  vogal do Conselho Superior de Belas Artes, da Comissão Municipal de Arte e Arqueologia da CML, da Junta Nacional de Educação, do Conselho Superior das Obras Públicas, de Presidente do Conselho Diretor (1936-1944)  e da Mesa da Assembleia Geral (1948 e 1951)  do Sindicato Nacional dos Arquitectos, para além de ter sido membro honorário da Academia de São Fernando de Madrid, do Real Instituto dos Arquitectos Britânicos e do Instituto de Arquitectos do Brasil tendo sido ainda, a título póstumo, sido agraciado com a Comenda da Ordem Militar de Santiago da Espada (em 5 de janeiro de 1962).

 

Freguesia de Marvila (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias)

A Avenida do republicano Elias Garcia

Prédio traçado por Ventura Terra no nº 62 da Avenida Elias Garcia com a Avenida da República cerca de 1906 (Foto: Alberto Carlos Lima, Arquivo Municipal de Lisboa)

Prédio traçado por Ventura Terra no nº 62 da Avenida Elias Garcia com a Avenida da República 
(Foto: Alberto Carlos Lima, cerca de 1906, Arquivo Municipal de Lisboa)

Ventura Terra traçou em 1902 três prédios de rendimento para o republicano Joaquim dos Santos Lima,  na esquina da Avenida José Luciano nº 62 (a partir de 5 de novembro de 1910 passou a ser a Avenida Elias Garcia ) com a Avenida Ressano Garcia nº 46 (Avenida da República também desde 05/11/1910).

O republicano José Elias Garcia que foi Presidente da Câmara Municipal de Lisboa em 1878 passou a dar nome à Avenida José Luciano pelo Edital municipal de 5 de novembro de 1910, o primeiro de toponímia após a proclamação da República, que incluiu mais 9 topónimos destacando-se os que homenagearam a implantação da República – Avenida da República e Avenida Cinco de Outubro– e figuras republicanas, como o Almirante Cândido dos Reis e Miguel Bombarda.

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José Elias Garcia (Almada-Cacilhas/31.12.1830 –  21.06.1891/Lisboa) foi um político republicano que foi deputado, vereador da edilidade alfacinha com o pelouro de instrução pública (entre 1872 e 1890) em que estabeleceu as escolas centrais, o ensino da ginástica, do desenho de ornato,do canto coral das escolas e as bibliotecas populares, bem como foi até o 25º Presidente da Câmara Municipal de Lisboa ( de 2 de janeiro a 18 de agosto de 1878).

Coronel de engenharia foi ainda professor de Mecânica Aplicada na Escola do Exército (a partir de 1857), bem como jornalista, tendo fundado diversos jornais republicanos como O Trabalho (1854), O Futuro (1858-1862), A Política Liberal (1862), e sido o redator principal do Jornal de Lisboa (1865) e do Democracia (1873), para além de ter presidido à Assembleia dos Jornalistas e Escritores Portugueses. Também colaborou na revista de pedagogia Froebel, dirigida por Feio Terenas.

Elias Garcia, a partir do célebre grupo do Pátio do Salema (Clube dos Lunáticos), fundou em 1868 o Partido Reformista, de onde veio a resultar o Centro Republicano Democrático Português (1876) e o Partido Republicano e nessa qualidade foi deputado, eleito pela primeira vez em 1870 por Lisboa, sendo depois também eleito pelo Partido Republicano em 1882-1884, 1884-1887 e 1887-1889 e 1890.  Entre 1883 e 1891 presidiu ao Diretório do Partido Republicano.

Desde 1853 Irmão Péricles na Maçonaria Portuguesa, foi o 1.º e único Grão-Mestre  da Federação Maçónica (1863 a 1869),  Grão-Mestre interino do Grande Oriente Lusitano Unido (1884 a 1886), Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano Unido (1887 a 1889) e o seu túmulo no Cemitério do Alto de São João, construído em 1893-94 pelo Grande Oriente Lusitano em terreno cedido pela CML, ostenta um obelisco encimado por uma estrela de cinco raios.

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do criador do Supremo Tribunal de Justiça, Mouzinho da Silveira

Freguesia de Santo António (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua Mouzinho da Silveira, atribuída por deliberação camarária de 6 de maio de 1882 no Bairro Barata Salgueiro, em homenagem ao jurisconsulto que fundou o Supremo Tribunal de Justiça, tem no seu nº 12 uma obra de Ventura Terra, de 1907: a casa do médico João Silvestre de Almeida (1865-1936), com vitrais Arte Nova e um mural de Veloso Salgado.

Pela mesma deliberação camarária foram também atribuídos na mesma área, por unanimidade, a Rua Barata Salgueiro, a Rua Alexandre Herculano, a Rua Castilho, a Rua Passos Manuel ( que em 1887 passou a designar-se Rua Rosa Araújo) e a Praça do Marquês de Pombal.

Mouzinho da Silveira 1925Mouzinho da Silveira 1994

De seu nome completo José Xavier Mouzinho da Silveira (Castelo de Vide/12.07.1780 – 04.04.1849/Lisboa) foi um político da revolução liberal e jurisconsulto que criou o Supremo Tribunal de Justiça. Como legislador conseguiu em 1832 algumas das mais profundas modificações nas áreas da fiscalidade e da justiça como a abolição do dízimo, a supressão da hereditariedade dos cargos públicos e de outros privilégios, a liberdade de ensino a casas particulares permitindo a criação de Academias e Grémios, sendo também sua a primeira reforma administrativa liberal.

Formado em Direito em 1802, foi juiz em Marvão, Setúbal e Portalegre e a partir de 1821, administrador das Alfândegas e foi na Vilafrancada Ministro da Fazenda (maio e junho de 1823) para no ano seguinte, durante a Abrilada ser preso se tornar um intransigente defensor da Carta Constitucional pelo que também se exilou em Paris em 1828. Participou na guerra civil de 1832-34, tendo sido ministro da Fazenda e da Justiça, durante a Regência dos Açores de D. Pedro IV,  de março a dezembro de 1832. Regressou ao Parlamento em 1834 e a dirigir as Alfândegas do Sul em 1835 mas voltou a exilar-se em 1836 após a Revolução de Setembro. Regressou em 1839 como deputado mas retirou-se da vida política a partir do ano seguinte para ser apenas um abastado proprietário rural.

Mouzinho da Silveira está homenageado na Sala dos Passos Perdidos da Assembleia da República numa pintura a óleo de Columbano, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Lisboa numa pintura a óleo de José Rodrigues (1866) e também o Museu Grão Vasco possui um retrato  de Mouzinho da autoria de Columbano.

Freguesia de Santo António (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Planta: Sérgio Dias)

Veloso Salgado, pintor do Politeama de Ventura Terra, numa Rua de um Bairro de Pintores

Freguesia das Avenidas Novas (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias)

José Maria Veloso Salgado, pintor da 2ª geração do naturalismo e colaborador de Ventura Terra em várias obras como o Politeama,  dá desde 1960 o seu nome  a uma artéria do Bairro de Santos que em matéria toponímica é sobretudo um bairro de pintores.

Veloso Salgado faleceu em 1945 e logo em 16 de julho de 1948, a Comissão Consultiva Municipal de Toponímia tomou conhecimento de uma carta de uma Comissão de antigos discípulos do mestre  Veloso Salgado pedindo que a um novo arruamento de Lisboa fosse dado o seu nome e de uma outra da Sociedade Nacional de Belas Artes, datada de 05/07/1948, solicitando que a um dos Bairros residenciais de Lisboa se desse a denominação de Bairro dos Artistas e que às suas ruas se dessem nomes de artistas, sugerindo os escultores Soares dos Reis, Teixeira Lopes e Simões de Almeida, os arquitetos Ventura Terra e José Luís Monteiro, e ainda, os pintores José Malhoa, Carlos Reis, Veloso Salgado e Roque Gameiro. Doze anos mais tarde, na reunião da Comissão de 9 de junho de 1960, deliberou esta «que os nomes de Carlos Reis, Veloso Salgado e Francisco de Holanda, denominem, respectivamente, as ruas L, J e I do chamado Bairro Santos à Rua da Beneficência. Aos nomes dos dois primeiros deverá acrescentar-se a legenda: pintores, bem como as datas do nascimento e morte; e quanto a Francisco de Holanda deverá colher-se elementos sobre a sua biografia» e assim a Rua J do chamado Bairro Santos passou a designar-se Rua Veloso Salgado, com a legenda «Pintor/1864 – 1945», pelo Edital municipal de 16/09/1960 que também fixou no bairro a Rua Carlos Reis e a Rua Francisco de Holanda.

Veloso Salgado no seu Atelier em 1912 (Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

Veloso Salgado (de barba) no seu Atelier, em 1912
(Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

José Maria Veloso Salgado (Galiza-Orense/02.04.1864 – 12.12.1945/Lisboa) era amigo de Ventura Terra, a ponto de ter pintado Victória Affonso Lindo, a mãe do arquiteto. Trabalharam juntos na edificação do Teatro Politeama, exemplar representativo da Arte do Ferro, que Miguel Ventura Terra traçou em 1912-1913  e Veloso Salgado decorou com pinturas. Curiosamente, o Politeama foi erguido na Rua Eugénio dos Santos (Rua das Portas de Santo Antão desde 1956) na sequência de uma proposta de Miguel Ventura Terra enquanto Vereador da CML em 1911. Já antes, em 1907, quando Ventura Terra delineou a casa de João Silvestre de Almeida, na Rua Mouzinho da Silveira nº 12, incluiu na sua decoração vitrais Arte Nova  e uma pintura mural de Veloso Salgado.

Veloso Salgado habitava em Lisboa com um tio litógrafo desde os seus 10 anos, na antiga Rua de S. Francisco (hoje Rua Ivens). Em 1887 naturalizou-se português e formou-se em 1887 na Academia de Belas-Artes de Lisboa tendo sido aluno de Ferreira Chaves e Simões de Almeida e em 1890 vencido o  o concurso de pintura da Câmara Municipal de Lisboa. Em 1888 foi como bolseiro para Paris – com atelier na Rue Denfert-Rochereau no mesmo prédio que Teixeira Lopes de quem se tornou amigo-   e Itália, tendo regressado a Lisboa em 1895,  e em  dezembro nomeado professor interino de Pintura Histórica da Escola de Belas Artes e em 1897 passou a efetivo,  derrotando entre outros Columbano. Com a reforma do ensino artístico, em 1901, passou a repartir a sua cadeira de Pintura Histórica com Columbano e Maria Keil do Amaral foi sua aluna.

Sobretudo como retratista e pintor histórico Veloso Salgado deixou vasta obra pictórica, de que se destacam os quadros A morte de Catão (1887), Amor e Psique (1891), Jesus (1892) e Jesus no DesertoCoroação de D. João IV, Vasco da Gama em presença do Samorim (1898), Sufrágio (1911) e os retratos do conselheiro Venceslau de Lima (1891), de Braamcamp Freire (1894), do escultor Teixeira Lopes  e de António Cândido, estando representado em Lisboa no Museu do Chiado, no Museu Militar e na Escola Médico-Cirúrgica, bem como no Palácio da Bolsa no Porto, na Casa Museu Teixeira Lopes em Vila Nova de Gaia, e no Museu José Malhoa nas Caldas da Rainha.

Em 1926 foi homenageado pela Escola de Belas Artes de Lisboa com o descerramento de uma lápide na sala de pintura onde ensinava e, em 1934, ao atingir o limite de idade para o exercício da docência, foi homenageado pela Escola de Belas Artes do Porto, embora continuasse a lecionar. No decurso do seu processo de aposentação (entre 1937 e 1941), a Sociedade Nacional de Belas Artes realizou uma exposição retrospetiva da sua obra (1939) e só em 1940 Veloso Salgado deixou de pintar.

Veloso Salgado recebeu várias distinções como oficial da Ordem de Santiago,  1ª Medalha do Grémio Artístico de Lisboa (1894), Prémio Anunciação da Academia de Belas Artes (1886), cavaleiro da Ordem Nacional da Legião de Honra Francesa (1902), eleito Académico de Mérito da Academia de Belas Artes de Lisboa (1894) e da Academia Portuense de Belas Artes (1907) e medalha de honra da Sociedade Nacional de Belas-Artes de Lisboa (1911). No primeiro aniversário da sua morte, em 1946, a Sociedade Nacional de Belas Artes promoveu uma sessão comemorativa da efeméride, e a Câmara Municipal de Lisboa descerrou uma lápide evocativa no n.º 99 da Rua da Quintinha, casa onde vivera e falecera.

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

De Ventura Terra a casa de Alfredo Bensaúde na Rua de São Caetano

A casa de Alfredo Bensaúde traçada por Ventura Terra na Rua de São Caetano (Foto: blogue Ventura Terra coiso e tal)

A casa de Alfredo Bensaúde traçada por Ventura Terra na Rua de São Caetano
(Foto: blogue Ventura Terra)

Em 1907 Ventura Terra traçou a casa do Dr. Alfredo Bensaúde, o primeiro director do Instituto Superior Técnico a convite do Ministro do Fomento, Brito Camacho, construída no  nº 4 da Rua de São Caetano, no gaveto com a Rua do Arco do Chafariz das Terras nº 1, na Lapa, também conhecido como Edifício Sandoz.

No princípio do século XVIII, a Lapa ainda não fazia parte dos limites administrativos de Lisboa, mas em 1857 já aparecia na planta nº 40 do Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque, a Rua Nova de São Caetano que o Edital municipal de 08/06/1889 tornou simplesmente Rua de São Caetano, a ligar a Rua de Buenos Aires à Rua Ribeiro Sanches.

Já a Rua do Arco do Chafariz das Terras deriva do Chafariz das Terras, construído em 1791, mais a norte, embora a sua implantação tenha sofrido alterações em 1867 como a placa incrustada o documenta. Esta rua faz referência a um dos arcos do Aqueduto das Águas Livres e o Chafariz das Terras era um dos chafarizes de Lisboa a aproveitar a derivação de água do Aqueduto.

A Rua do Arco do Chafariz das Terras - Freguesia da Estrela (Foto: Sérgio Dias)

A Rua do Arco do Chafariz das Terras – Freguesia da Estrela
(Foto: Sérgio Dias)

São Caetano, cujo dia se comemora a 7 de agosto, foi o fundador dos clérigos regulares teatinos da Divina Providência, que em Lisboa se estabeleceram em 1653, num convento da Freguesia das Mercês que ficou conhecido como o Convento dos Caetanos ou Convento de Nossa Senhora da Providência, mas que após o Terramoto de 1755 necessitou de múltiplas obras. Em 1834, com a extinção das ordens religiosas, o antigo convento foi transformado em Real Conservatório de Lisboa e inaugurado em 1837.

De acordo com o olisipógrafo Norberto de Araújo, nas suas Peregrinações, o Sr. Francisco Margiochi também residiu nesta Rua de São Caetano, no nº 5.

A Rua de São Caetano - Freguesia da Estrela Planta: Sérgio Dias)

A Rua de São Caetano – Freguesia da Estrela
Planta: Sérgio Dias)

A Rua Viriato da Maternidade de Ventura Terra

Duas obras de Ventura Terra: a Maternidade Alfredo da Costa (à esquerda) e o Hotel Aviz (à direita) em 1959 (Foto: Fernando Manuel de Jesus Matias, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Maternidade Alfredo da Costa (à esquerda) , uma obra de Ventura Terra
(Foto: Fernando Manuel de Jesus Matias, 1959, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua Viriato é a morada da Maternidade Alfredo da Costa, traçada por Ventura Terra em 1908, e o topónimo uma homenagem a um «Herói Lusitano/Faleceu no ano 140, antes da nossa era», em resultado do Edital municipal de 7 de agosto de 1911 da vereação republicana.

A Rua do Viriato foi atribuída à antiga Rua Barros Gomes – um ministro da monarquia constitucional e diretor do Banco de Portugal que introduziu o imposto de selo -, seguindo a norma da toponímia da I República de substituir os nomes de figuras ligadas à monarquia por outras personalidades republicanas ou figuras heróicas e históricas. E assim a toponímia da capital passou a guardar memória do Chefe militar lusitano do século II a. C. que sucessivas vezes derrotou o exército romano invasor, até morrer assassinado por traidores, que se venderam a troco de uma recompensa.

Freguesia das Avenidas Novas (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias)

A iniciativa da construção da maternidade vem de 1908, ano em que Miguel Ventura Terra pensou para Lisboa a primeira maternidade concebida e construída de raiz. Mas só em 1914 começou a ser construída e apenas em 31 de maio de 1932 foi inaugurada com o nome do médico obstetra Alfredo da Costa que tinha esta obra como sonho de vida e pela qual lutara, para em 5 de dezembro finalmente abrir ao público. Foi seu fundador e primeiro diretor o Professor Augusto Monjardino que desde 2011 dá nome ao jardim fronteiro a esta maternidade.

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)