O Cais do Tojo repartido por rua, travessa e Largo Vitorino Damásio

O Cais do Tojo em sobreposição da planta de 1856 de Filipe Folque na dos dias de hoje

O antigo Cais do Tojo, lugar aberto de execução de penas capitais para servir de exemplo público, que em 1842 teve erguido o seu último patíbulo, tem a sua memória guardada em Lisboa através da Rua e da Travessa do Cais do Tojo, bem como do Largo Vitorino Damásio em cujo espaço ele se situava até cerca de 1858, razão para que a placa evocativa dos 150 Anos da Abolição da Pena de Morte tenha sido nele colocada pela edilidade, no primeiro dia de julho deste ano, dia do 150º aniversário da abolição da pena de morte em Portugal.

A última execução no Cais do Tojo, que ocupava o espaço onde hoje vemos o Largo Vitorino Damásio a encontrar-se com a Avenida Dom Carlos I, foi em 16 de abril de 1842 : o enforcamento de Francisco Matos Lobo, após prisão no Limoeiro, pelo assassinato da sua tia por afinidade, os seus dois filhos e a criada, na sua casa na Praça de São Paulo. Em  19 de fevereiro de 1841, também a forca ali se tinha erguido para Diogo Alves, condenado não pelas mortes daqueles que atirara do alto do Aqueduto das Águas Livres depois de os roubar mas pelo massacre da família de um médico no decorrer de um assalto com a sua quadrilha. No entanto, mesmo em 1842 já a pena de morte seria considerada desumana sendo disso exemplo o caso do sacerdote que acompanhava a última aplicação da pena capital em Lisboa ter morrido no local vítima de apoplexia.

Travessa do Cais do Tojo – Freguesia da Misericórdia – Placa Tipo II
(Foto: Mário Marzagão)

Rua do Cais do Tojo – Freguesias da Misericórdia e da Estrela
(Foto: Sérgio Dias|NT do DPC)

A Rua do Cais do Tojo ( nas freguesias da Estrela e da Misericórdia ) liga o Boqueirão do Duro à Avenida Dom Carlos I e a Travessa do Cais do Tojo (freguesia da Misericórdia) une a Rua do Cais Tojo ao Largo do Conde Barão, tendo ambos os topónimos sido atribuídos pela Câmara alfacinha através do Edital de 8 de junho de 1889, para substituir as antigas Rua Nova do Cais do Tojo e a Travessa Nova do Cais do Tojo.

A ligação ribeirinha de Lisboa ao Tejo é uma constante da história da cidade, enumerando a Chancelaria Régia em 1725 as praias de Alfama, Remolares, São Paulo e Boavista. O Cais do Tojo da Boavista – assim denominado para de distinguir do Cais do Tojo do lado oriental, conhecido como Cais do Tojo da Bica do Sapato – já surge mencionado em 1766, numa apresentação feita pelo juiz do povo, a referir a necessidade da construção de um Cais para a descarga e venda de tojo, carqueja, carvão e lenha, tanto na parte oriental como ocidental da cidade de Lisboa. Refira-se que tojo é uma planta arbustiva usada para cama de gado, estrume ou combustível.

O Cais do Tojo passou mesmo a ter um cais de madeira e nele aportavam inúmeros produtos, pelos quais se cobrava o donativo, um imposto municipal sobre os rendimentos, criado por resolução régia de 21 de março de 1766 e que começou a ser arrecadado a partir da publicação do edital municipal de 2 de novembro de 1769.  Sabe-se ainda que este arruamento teve em tempos um chafariz, muito frequentado por aguadeiros e populares e que em 11 de setembro de 1820 ocorreu um incêndio nas estâncias de lenha que lá existiam, tal como no ano seguinte o posto da 4.ª Companhia de Infantaria da Guarda Real da Polícia, nele situado, sofreu um grande incêndio, após o que surgiu nas imediações o topónimo Boqueirão do Duro.

Largo Vitorino Damásio – Freguesia da Estrela
(Foto: Sérgio Dias|NT do DPC)

O Largo Vitorino Damásio ( na freguesia da Estrela ), na confluência da Avenida Dom Carlos I e o Largo de Santos, nasceu de remodelações urbanísticas na zona que se espelharam no Edital municipal de 17/06/1947, tendo o troço da Rua Vasco da Gama com os prédios com os nºs 1 a 51 e 24 a 66 passado a ser o Largo em homenagem ao engenheiro que veio para Lisboa concretizar o Aterro da Boa Vista. Este Largo que até  1787 tinha o seu lado sul parcialmente sob a linha de água resulta das obras do Aterro.

O Aterro era uma ideia que pairava pelo menos desde o reinado de D. João V mas as obras para a sua construção apenas foram decididas após o surto de cólera morbus que grassou na Lisboa de 1857, como medida preventiva contra novos focos de epidemia e assim, em 1858,  o eng.º Vitorino Damásio foi encarregado de proceder ao aterro da margem, desde o Boqueirão da Moeda até à praia de Santos, com os trabalhos executados pela empresa Lucotte. Em  1859, rasgou-se também a Calçada de Santos (hoje, Calçada Ribeiro Santos) para ligar o Aterro à Rua das Janelas Verdes. O Aterro ficou concluído no mesmo ano – 1867 – da abolição da pena de morte mas em agosto. Foram ainda demolidas habitações entre a Praça D. Luís e a Rua das Janelas Verdes para a construção de um paredão que constituiu o 1º acesso ao troço inicial do Aterro e que mais tarde, em  13 de setembro de 1878,  recebeu o nome de Rua 24 de Julho.

A partir de 1881 operam-se ainda mais transformações neste espaço urbano. São abertas a Rua Dom Carlos I (hoje Avenida) e a Rua Vasco da Gama (onde hoje encontramos o Largo de Santos e o Largo Vitorino Damásio). Em 1887 e 1888 é também alargada a Rua Nova do Cais do Tojo (antes denominada Travessa Nova do Cais do Tojo), à qual o Edital municipal de 8 de junho de 1889 retirou a partícula «nova», tal como fez à Travessa Nova do Cais do Tojo (antes Travessa do Chafariz do Cais do Tojo).

José Vitorino Damásio (Feira/02.11.1807 – 19.10.1875/Lisboa), licenciado em Matemática e Filosofia desde 1837 e engenheiro do Conselho Superior de Obras Públicas e Minas desde 1852, foi escolhido para dirigir as obras do Aterro, tendo depois também desempenhado o cargo de Reitor do Instituto Industrial (1853), bem como de presidente da administração do Caminho-de-Ferro do Leste e diretor da Companhia das Águas (ambos em 1858), e ainda, de Diretor-Geral dos Telégrafos (1864).

Vitorino Damásio fora Lente da Academia Politécnica do Porto e engenheiro das Obras Públicas desse mesmo Distrito, tendo sido pioneiro na utilização do processo de cilindragem e construído a 1ª draga a vapor portuguesa, para além de, com Faria de Guimarães e Silva Guimarães, ter fundado a Fundição do Bolhão, onde se fabricou a primeira louça estanhada nacional, estando também em 1852 na criação da Associação Industrial Portuense. Ainda estudante, Vitorino Damásio alistara-se no Batalhão Académico dos exércitos liberais, tendo chegado a General de Brigada, condecorado com a Torre e Espada pelo seu comportamento durante o cerco do Porto.

O Largo Vitorino Damásio, a Rua do Cais do Tojo e a Travessa do Tojo
(Planta: Sérgio Dias|NT do DPC)

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A Rua Sam Levy

Freguesia de Belém
(Foto: Sérgio Dias)

Sam Levy, comerciante português nascido em Esmirna, que também foi presidente da Comunidade Judaica de Lisboa, dá o seu nome a uma Rua de Caselas desde 1999, com a legenda «Humanista/1912 – 1997».

A Rua Sam Levy, que liga a Avenida das Descobertas à Rua do Gabarete, por  deliberação camarária unânime de 26/11/1997 que se concretizou no Edital municipal de 15/12/1997, está fixada no que foi um troço da Estrada de Caselas.

Sam LevyDe seu nome completo Samuel Algranti Levy (Turquia- Esmirna/01.05.1912 – 07.09.1997/Lisboa), nasceu no seio de uma família judia portuguesa, filho de Raphael Levy e Djamila Algranti, já que os seus antepassados tiveram de abandonar Portugal no séc. XV para não abdicar da sua fé,  por causa do decreto de 5 de dezembro de 1496 de D. Manuel I que ameaçava todos os judeus que não se convertessem ao catolicismo, tendo sido recebidos pelo Império Otomano que nessa época acolheu muitos judeus peninsulares e aí falavam o «Ladino», língua dos judeus sefarditas (portugueses e espanhóis). Aos 13 anos, Sam Levy saiu de casa dos seus pais para ir estudar em Marselha, onde permaneceu até 1929.

Como comerciante, começou a partir desse ano de 1929, em Barcelona, a trabalhar  com o seu irmão mais velho. Mais tarde seguiu  para Milão, onde estabeleceu relações comerciais com Portugal, através de Agenore Magno, o Cônsul Honorário de Portugal em Milão, com quem também desenvolveu iniciativas humanitárias para salvar diversas pessoas, nomeadamente, judeus, encaminhando-os para Portugal. A partir de 1942 radicou-se em Portugal e nesse mesmo ano aqui casou por procuração com Vitória, de quem teve dois filhos: André e Arlette.  Finda a II Guerra Mundial dedicou-se à exportação de produtos de origem portuguesa, procurando mercados onde Portugal ainda não tinha penetração, como na Feira Internacional de Esmirna, trazendo também tapeçaria oriental para território português. Mais tarde, montou ainda uma pequena indústria têxtil e tornou-se sócio da Associação Industrial Portuguesa e do Ateneu Comercial do Porto.

A legenda «Humanista» na sua artéria lisboeta deve-se a Sam Levy ter sido considerado um homem solidário como os seus semelhantes em vários momentos históricos. Por exemplo, durante todo o período da II Guerra  colaborou nesse sentido com a Cruz Vermelha –  de que foi sócio vitalício – , bem como com as organizações humanitárias judaicas e os dirigentes da Comunidade Judaica Portuguesa como, por exemplo, o Prof. Moisés Amzalak. Foi galardoado três vezes pela Cruz Vermelha Portuguesa e também recebeu o título de Cavaleiro da Ordem de Mérito da República Francesa.

Numa outra faceta, também se destacou como figura da cultura portuguesa. Durante cerca de quinze anos, levou a cabo uma criteriosa tradução de Os Lusíadas para francês, respeitando os decassílabos e o seu classicismo, numa edição prefaciada pelo Prof. Justino Mendes de Almeida. Também traduziu do hebraico para português o Cântico dos Cânticos, com prefácio de David-Mourão Ferreira e ilustrações de António Duarte e de Lima de Freitas, numa edição de Francisco Lyon de Castro. Além disto, as suas constantes viagens comerciais e a sua paixão pela arqueologia também lhe permitiram reunir um espólio de peças que doou ao Museu Nacional de Arqueologia, assim como o guarda-roupa renascentista que adquiriu em Itália, e que bastas vezes emprestou para desfiles nas Festas de Lisboa, fez dele doação à cidade de Tomar. Foi  agraciado com a Medalha de Honra da Universidade Autónoma de Lisboa.

Para além de ter sido presidente honorário da Comunidade Judaica de Lisboa, Sam Levy foi um elemento empenhado da vida associativa, quer enquanto sócio nº 1 do Lions Club de Portugal, sócio do Grupo Amigos de Lisboa e da Sociedade de Geografia de Lisboa, quer como membro do Comité de Direção da Alliance Française de Lisboa durante inúmeros anos, membro do Círculo Eça de Queiroz e do Grémio Literário, sócio da Associação para a reconstrução e  instalação da Casa Memória de Camões em Constância, ou ainda como fundador da Associação de Amizade Portugal-Israel e membro da Associação Internacional de Defesa das Democracias e da Liga Internacional Contra o Racismo e o Anti-Semitismo.

Freguesia de Belém
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

 

A Rua de Casimiro Freire, o mecenas das Escolas Móveis João de Deus, no Bairro dos Aliados

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

Casimiro Freire, o mecenas republicano que em 1882 fundou a  Associação de Escolas Móveis pelo Método de João de Deus, dá nome a uma rua do Bairro dos Aliados, com a legenda «Apóstolo da Instrução Popular/Século XIX», desde junho de 1926.

Casimiro Freire foi fixado na Rua nº 5 do Bairro dos Aliados à Rua Carvalho Araújo, nos terrenos do antigo Areeiro também conhecido como Quinta do Bacalhau, pela deliberação camarária de 12 de junho de 1926 e edital de dia 25 do mesmo mês. Pelo mesmo edital foi também homenageado, na Rua nº 4,  João de Menezes , um «Precursor do Regime Republicano/Século XIX».

Casimiro Freire (Sertã – Pedrogão Pequeno/08.10.1843 – 20.10.1918/Lisboa) era um comerciante e industrial cuja prosperidade o tornou num mecenas da alfabetização. Assim, publicou em 29 e 30 de março de 1881, no jornal O Século, um artigo intitulado «A instrução do povo e a monarquia», onde se insurgia contra a incúria dos governos monárquicos no combate ao analfabetismo e propunha que fossem enviados aos mais recônditos lugares de Portugal missões de alfabetização de professores habilitados que ensinassem a ler e a escrever. Numa época em que 80% da população portuguesa era iletrada, Casimiro Freire fundou em 18 de maio de 1882, com João de Deus, a Associação das Escolas Móveis pelo Método de João de Deus e em 1897 publicou também em folheto uma representação à Câmara dos Deputados intitulada A Instrução do Povo e o Método de João de Deus. Acompanharam-no nessa iniciativa personalidades, como João de Barros, Bernardino Machado, Jaime Magalhães Lima, Francisco Teixeira de Queiroz, Ana de Castro Osório e Homem Cristo, entre outros. Cedeu a João de Deus, um primeiro andar dos armazéns onde trabalhava, no Largo do Terreiro do Trigo, para ser a sede da Associação de Escolas Móveis pelo Método de João de Deus.

Mais tarde, em 1915, por decreto de 5 de junho do Ministro da Instrução Pública, Sebastião Magalhães Lima, foi encarregue da catalogação e organização do Museu Bibliográfico, Pedagógico e Artístico João de Deus, serviço que concluiu em 30 de junho de 1916. E por decreto de 23 de dezembro de 1916, também lhe foi destinada a guarda e conservação do museu até à sua instalação definitiva junto ao Jardim-Escola João de Deus, na Avenida Álvares Cabral.

Republicano desde 1862, foi em 1876 um dos fundadores do primeiro Centro Republicano com Oliveira Marreca e Sousa Brandão entre outros, e em 1899, a partir da comissão paroquial republicana da freguesia de Santa Isabel foi eleito para o diretório do Partido Republicano Português. Em 1884 foi eleito vereador por Lisboa, mas o apuramento na Câmara Municipal não lhe confirmou a votação mas já em 1911 foi o mais votado da Junta Consultiva do Partido Republicano. Colaborou também na imprensa republicana, nomeadamente no Democracia (1873) – jornal dirigido por Elias Garcia -, e no Vanguarda.

Casou com Maria Madalena Battaglia, sogra de João de Deus, no segundo casamento desta, e com ela residiu nº 20 C-1º da Rua das Gaivotas.

Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

O Beco da Bolacha e a Rua do industrial Eduardo Costa

Argus, julho de 1907

Argus, julho de 1907

O Beco da Bolacha na Freguesia da Estrela e a Rua Eduardo Costa na Freguesia da Penha de França partilham em comum a memória da industrialização da zona da Pampulha, na área das bolachas e biscoitos.

O Beco da Bolacha abre-se frente ao nº 5 da Rua Ribeiro Sanches, na freguesia da Estrela, e terá sido nesta Rua que houve uma fábrica de bolachas que deu nome ao Beco. Segundo Pastor de Macedo, de acordo com o seu Ficheiro Toponímico (propriedade do Gabinete de Estudos Olisiponenses), terá sido a fábrica de José Maria de Moira, transcrevendo o olisipógrafo o seguinte anúncio publicado na Gazeta de Lisboa de 22 de dezembro de 1817 : «Participa-se ao público que a antiga Fabrica de bolacha e biscoito, do fallecido José Maria de Moira, sita na rua nova de S. Francisco de Paula nº1 [ desde 1913 é a Rua Ribeiro Sanches], continua a trabalhar de Janeiro de 1818 em diante por conta de Francisco de Paula de Moira e Companhia; e estes esperão que os Senhores Proprietários de Navios e mais Pessoas que costumavão prover-se deste mantimento, na antiga Fabrica, lhes continuem a dar listas do que precisarem, na certeza que serão bem serviços, tanto na promptidão como na boa qualidade.» 

E é posterior a 1818 a referência escrita que encontramos ao Beco da Bolacha, inscrita na planta n.º 48 do Atlas da carta topográfica de Lisboa de Filipe Folque, de setembro de 1856.

Freguesia da Estrela (Planta: Sérgio Dias)

Beco da Bolacha – Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias)

Eduardo Costa, morador e industrial do Bairro da Pampulha, dá nome a uma Rua lisboeta na Freguesia da Penha de França – a  Rua nº 4 do Vale Escuro – desde  a publicação do Edital de 23 de março de 1954 e foi quem em 1875 criou a Fábrica de Bolachas e Biscoitos da Pampulha. Talvez se chame Eduardo António Costa porque em 18 de novembro de 1872 foi esse o nome de quem pediu à Câmara uma vistoria a um telheiro na Travessa dos Brunos à Pampulha, artéria onde ficava o último piso da fábrica e a morada de Eduardo Costa.

Segundo a publicidade da própria empresa, a Fábrica da Pampulha foi fundada em 1875 por Eduardo Costa, mas já estaria lá o seu embrião em 1872, de acordo com uma reportagem do semanário Branco e Negro desse ano. Em Lisboa, terá sido uma das principais mas foi mesmo a primeira a fabricar em Portugal bolacha de alto relevo.  A Fábrica da Pampulha situava-se na Cruz da Rocha, entre a Travessa dos Brunos (na Pampulha) e a Rua 24 de Julho (hoje, Avenida 24 de Julho). Estava instalada num edifício próprio de 5 pisos, num terreno inclinado, pelo que a matéria prima entrava pelo piso térreo na 24 de Julho e no 5º piso acondicionavam-se as bolachas em caixas que saíam pela Travessa dos Brunos. No topo estava a casa de morada de Eduardo Costa, «uma vivenda deliciosa» como classificava a reportagem de Branco e Negro de 30 de janeiro de 1898  que também relata que na Fábrica da Pampulha trabalhavam 21 mulheres e 31 homens. Em 10 de março de 1902 O Ocidente noticiava que lá trabalhavam 60 pessoas de ambos os sexos, que diariamente produziam 600 quilos de bolacha, sendo exportadas por mês, para África, Brasil e Índia, cerca de 30 mil quilos. Chegaram a ser produzidas cerca de 400 variedades de bolachas e biscoitos, sendo a Maria a especialidade da casa.

A Fábrica da Pampulha tinha ainda em Lisboa um depósito na Rua dos Retroseiros 32/34 (é a que hoje conhecemos como Rua da Conceição) e uma filial no Porto, na Rua D. Pedro, 143-145. Conseguiu ainda vários prémios como na Exposição Industrial de Filadélfia (1876) e na de Paris (1878), para além de uma medalha de mérito da Associação Promotora da Indústria Fabril de Viena de Áustria, bem como no nosso país foi premiada na Exposição Agrícola de Lisboa (1884) e  recebeu a medalha de ouro da Exposição Industrial Portuguesa (1888).

Eduardo Costa era amigo de Alfredo Keil pelo que não se estranhará que a Fábrica de Bolacha e Biscoito da Pampulha tenha feito de oferta aos seus clientes, em março de 1890, de um retrato de Serpa Pinto e de um rótulo de A Portuguesa, além de ter criado as bolachas Serpa Pinto e A Portuguesa. A produção também exaltou valores da cultura nacional como as Bolachas de Santo António, do Ator Taborda (1898), as Garrett  (1902) ou uma bolacha comemorativa da ópera Dona Branca (composta por Alfredo Keil sobre o poema narrativo de Garrett), para além das caixas dedicadas a Gomes Freire de Andrade ou a Bocage (1905 ?). Curiosamente, os seus produtos também veicularam valores republicanos através dos Biscoitos Republicanos, das Bolachas 5 de Outubro (1911) e  das Bolachas Bernardino Machado.

A Fábrica da Pampulha também foi pioneira em ofertas aos clientes para divulgação da marca, como uma bolacha em porcelana, os calendários anuais, como temas como a Partida de Vasco da Gama para a Índia, D. Filipa de Vilhena armando os filhos para a guerra, a Entrada das tropas liberais em Lisboa no ano de 1833 (1903) com retrato de Eduardo Costa e o mês de Março dedicado a Bernardino Machado cuja aniversário era a dia 28, ou ainda O Marquês de Pombal promovendo a reedificação de Lisboa (1906).

Eduardo Costa terá falecido antes de 1911, já que o brinde desse ano mencionava «Fábrica da Pampulha/Eduardo Costa Sucessores» e era um cartaz alusivo à implantação da República, com um civil armado montando guarda sobre destroços e símbolos quebrados da Monarquia e uma fotografia da Praça dos Restauradores.

Freguesia da Penha de França (Planta: Sérgio Dias)

Rua Eduardo Costa – Freguesia da Penha de França
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do Arsenal da Marinha

Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior (Foto : Sérgio Dias)

Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior
(Foto : Sérgio Dias)

A Rua do Arsenal acolheu no seu número 96 a Nova Livraria Internacional  de Carrilho Videira, que publicava a Revista de Estudos Livres (1883-1886), mensário em que Ramalho Ortigão colaborou.

Este topónimo fixou na memória de Lisboa a presença no local do Arsenal da Marinha. Os estaleiros das Tercenas navais  mandados construir por D. Manuel I foram destruídos pelo Terramoto de 1755 mas logo foi determinada a sua reconstrução, sob o risco de Eugénio dos Santos, que se iniciou em 1759 e assim, ficaram conhecidos durante muito tempo como Ribeira das Naus. O Arsenal da Ribeira das Naus, depois Real da Marinha e a partir de 1910 apenas Arsenal da Marinha manteve-se em actividade até 1939, data em que a sua doca seca foi atulhada por motivo da abertura da Avenida da Ribeira das Naus embora já desde 1936 tivesse começado a transferência do Arsenal para as instalações navais do Alfeite.

Nas suas Peregrinações em Lisboa Norberto de Araújo refere que «Ora em 1755 aqui, onde se ergue o edifício da Câmara Municipal, existia o pátio esplendoroso da Capela Real (…). Da porta do Arsenal, para poente (Rua do Arsenal fora, então Rua do Arco dos Cobertos) ficava a Casa da Ópera, construída dois anos antes do Terramoto; defronte do Pátio citado da Capela, do lado sul, isto é, na Rua hoje do Arsenal, entre a face do edifício onde estão repartições dos Correios, e a face lateral da Câmara, rasgava-se um não grande Largo do Relógio ou das Tendas da Capela.»

O arruamento começou com uma configuração diferente a ser a Rua dos Arcos Cobertos, e após o Terramoto, ficou como a Rua Direita do Arsenal e assim surge ainda em  1856 no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque, para mais tarde perdurar até hoje como Rua do Arsenal, como já em 1907 é referida nas plantas de Júlio Silva Pinto e Alberto Sá Correia.

Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior - Placa Tipo II (Foto. Artur Matos)

Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior – Placa Tipo II
(Foto. Artur Matos)

O Largo dos irmãos Stephens do vidro da Marinha Grande

Freguesia da Misericórdia (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias)

O Largo dos Stephens refere-se aos irmãos ingleses Guilherme Stephens e João Diogo Stephens, industriais responsáveis pela Fábrica de Vidro da Marinha Grande, que aqui viveram numa casa construída em 1767, junto com os outros 3 irmãos e, na qual se instalaram oficiais franceses aquando da invasão napoleónica.

Freguesia da Misericórdia - Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Misericórdia – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

Guilherme Stephens (Cornualha/20.05.1731 –  11.01.1802/Lisboa) veio para Portugal no tempo do Marquês de Pombal e, começou por explorar alguns fornos de cal em Alcântara, usando carvão de pedra que mandava vir de Inglaterra livre de direitos. Em 1769, instigado pelo Marquês, instalou a sua primeira fábrica  – que John Bearea fundara em 1748 por transferência da Real Fábrica de Vidros de Coina e que entretanto abandonou – , uma indústria de vidros na Marinha Grande que reinaugurou a 7 de Julho como Real Fábrica de Vidros da Marinha Grande,  aumentando as instalações, o número de operários e dotando-a com os mais aperfeiçoados maquinismos da época. E aqui se iniciou o fabrico de vidraça necessária à reconstrução da cidade de Lisboa que fora arrasada pelo terramoto de 1755. O próprio Marquês de Pombal concedeu-lhe um empréstimo para o efeito, sem juros nem limite temporal de pagamento, podendo até o mesmo ser feitos em cal para obras públicas, a partir dos fornos que possuía em Alcântara.

O irmão João Diogo Stephens (1748- 1826) começou por gerir os fornos de Alcântara quando Guilherme se ocupou da indústria de vidros, vivendo na casa de Lisboa e depois, sucedeu ao irmão na Real Fábrica da Marinha Grande, que legou ao Estado após a sua morte, em 1826.

O olisipógrafo Norberto Araújo refere também que neste Largo viveu Columbano Bordalo Pinheiro, onde faleceu em 6 de novembro de 1929.

Largo dos Stephens por Filipe Folque, na sua planta de 1856 (Arquivo Municipal de Lisboa)

Largo dos Stephens por Filipe Folque, na sua planta de 1856 (Arquivo Municipal de Lisboa)

O Largo da Fábrica de Xabregas ou do Black

Placa Tipo II

Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

O Largo da Fábrica da Fiação de Xabregas, perpetua a memória desta Fábrica fundada em 1854 na zona Oriental de Lisboa, desde a publicação do Edital de 10/02/2004 que juntou em arruamentos próximos fábricas icónicas da industrialização desta zona da cidade.

Este Edital espelha que as artérias junto à Rua Carlos Botelho, na freguesia do Beato,  foram escolhidas para consagrar as fábricas desta zona de Lisboa: a Rua D passou a Largo da Fábrica de Fiação de Xabregas, a Rua E a Largo da Fábrica de Tecidos Oriental, a Rua B e a Rua F a Rua da Fábrica de Estamparia, a Rua G a Rua da Fábrica de Tecidos Lisbonenses e a Rua A e a Rua C a Rua da Fábrica das Moagens.

O mundo rural de Xabregas e Beato transformou-se a partir da extinção das ordens monásticas em 1832-34 e, a instalação das primeiras unidades industriais no que haviam sido edifícios religiosos, fez com que no final do séc. XIX nas fábricas do Beato laborassem entre 800 a 1000 operários.

A Fábrica de Fiação de Xabregas foi fundada em 1854 no Beco dos Toucinheiros, perto da Fonte da Samaritana, e os seus proprietários – Alexandre Black e John Scott Howard – mandaram edificar para os seus trabalhadores, em 1867 e 1877, as primeiras vilas operárias de Xabregas.  Assim se entende que a Fábrica também fosse conhecida como fábrica da Samaritana ou fábrica do Black, em referência ao engenheiro fundador.

Em 1854, começaram as obras da fábrica em terrenos arrendados ao Hospital de S. José, tendo-se concluído em 1857, o edifício rectangular, com 3 pisos e com todos os apetrechos para a mecanização da fiação de algodão. A sua laboração começou em 1858, depois de se constituir em Companhia de Fabrico de Algodões, uma unidade mecanizada de fiação de algodão. Em 1877, um incêndio criou condições para se renovar também com tecelagem mecânica. Ali trabalhavam 150 pessoas, cumprindo um horário médio de 12 horas diárias e, na última década do século XIX, ocupava 513 operários. De acordo com os Inquéritos Industriais de 1881 e 1890, o auge desta fábrica terá sido no final do século XIX. Entre 1932 e 1934 foi integrada na Sociedade Têxtil do Sul, Lda., mantendo a fiação e a tecelagem juntas, até à data do último incêndio, em 1948, altura em que fornecia os Grandes Armazéns do Chiado.

Freguesia do Beato

Freguesia do Beato
(Foto: Sérgio Dias)

A Travessa do Sebeiro no pólo industrial de Alcântara

Freguesia de Alcântara

Freguesia de Alcântara

Da vocação manufactureira  e industrial de Alcântara, graças ao seu fácil acesso a linhas de água, nasce a Travessa do Sebeiro  no Bairro do Alvito, acima da Rua da Fábrica da Pólvora, entre a Rua da Cruz a Alcântara e a Rua do Alvito.

Desconhece-se a data em que a  Travessa do Sebeiro se fixou na memória do Bairro do Alvito, mas das quatro travessas deste Bairro  duas delas –  a do Sebeiro e a dos Surradores – relacionam-se com manufacturas e indústrias. Sebeiro é aquele que prepara ou vende sebo, material que na sua acepção industrial é um despojo usado para a fabricação de glicerina, sabões e cosméticos. Surradores são aqueles que curtem as peles.

Já no final do séc. XVII, a mando de D. João V fora  instalada nesta zona a fábrica da pólvora. Após o Terramoto, foram os fornos de cal dos irmãos Sthephens, as estamparias de algodão e as fábricas de curtumes e, no séc. XIX, foi a vez da indústria química, de sabões, velas de estearina e outros óleos. Alcântara foi um pólo industrial da zona ocidental de Lisboa, em que as unidades industriais se espalhavam ao longo do Vale de Alcântara, aproveitando as águas da ribeira que corria onde hoje é a Avenida de Ceuta.

Placa Tipo II

Placa Tipo II