A Avenida Sidónio Pais que esteve para ser trocada por outra figura republicana

Avenida Sidónio Pais – Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias)

A Avenida Sidónio Pais foi uma das artérias que após o 25 de Abril recebeu diversos pedidos de alterações, nomeadamente que fosse Avenida Doutor Afonso Costa, e parte dela chegou a ser, no papel, a Avenida Bernardino Machado.

Logo na 2ª reunião da Comissão Municipal de Toponímia após o 25 de Abril, em 20 dezembro de 1974, foi analisada uma carta do cidadão Alberto Bastos Flores na qual este solicitava que a Avenida Sidónio Pais passasse a ter a Doutor Afonso Costa como denominação. De igual modo, apontava mais pedidos de alterações e sugeria como possíveis futuros topónimos lisboetas os nomes de Abel Salazar, António Sérgio,  Catarina Eufémia, Cuba, Ferreira de Castro e Jaime Cortesão, tendo a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa registado e respondido que «irá considerá-las na devida oportunidade. Entretanto, entende desde já pertinente que o topónimo Praça do Ultramar seja alterado para Praça das Novas Nações, justificando dessa forma, os topónimos que a rodeiam, como Rua de Timor, Rua de Angola, Rua de Moçambique e outros.»

Em relação ao nome de Afonso Costa, um dos Primeiros Ministros da I República, no tempo da Presidência de Bernardino Machado, a 2ª Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa pós-25 de Abril, na sua reunião de 29 de junho de 1976, sugeriu que fosse o topónimo para o arruamento situado a Norte do Parque Eduardo VII, entre a Avenida Sidónio Pais e a Rua Castilho ( que desde 1982 é a Alameda Cardeal Cerejeira), mas já após as eleições autárquicas que colocaram Aquilino Ribeiro Machado como o 1º Presidente eleito da CML após o 25 de Abril, a Comissão de Toponímia sugeriu que ficasse antes num arruamento com maior extensão «que, partindo da Praça do Areeiro segue para Nascente e é vulgarmente designada por prolongamento da Avenida João XXI», que antes havia estado pendente para ser a Avenida Humberto Delgado.

Também na reunião de 6 de julho de 1976, a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa indicou o troço da Avenida Sidónio Pais compreendido entre a Avenida Afonso Costa e a Rua Marquês de Fronteira para ser a  Avenida Bernardino Machado, com o a legenda « 1851 – 1944». Contudo, as atas são omissas em relação ao desenvolvimento desta hipótese e Bernardino Machado acabou por ser homenageado numa Praça da freguesia do Lumiar em 1985.

Freguesia das Avenidas Novas – Placa Tipo IV
(Foto: Sérgio Dias)

A Avenida de Sidónio Pais, que liga a Avenida Fontes Pereira de Melo à Rua Marquês de Fronteira, é um arruamento nascido do Edital municipal de 22 de junho de 1948 no que antes era identificado como arruamento a Oriente do Parque Eduardo VII entre a Avenida Fontes Pereira de Melo e a Rua Marquês de Fronteira.

Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais (Caminha/01.05.1872 – 14.12.1918/Lisboa), conhecido como o Rei-Presidente, falecera cerca de 30 anos antes em plena Estação do Rossio,  vítima de um atentado. Militar de carreira, também era licenciado em Matemáticas, pela Universidade de Coimbra, onde aderiu à causa republicana. Após a implantação da República em 1910, foi eleito deputado à Constituinte que elaborou a Constituição Portuguesa de 1911; Ministro do Fomento do Governo de  João Chagas (1911); Ministro das Finanças (1911-1912); embaixador de Portugal em Berlim (1912- 1916), até à declaração de guerra da Alemanha a Portugal.

Regressado a Portugal, mostrou-se como figura principal de contestação ao Governo do Partido Democrático e encabeçou o golpe de estado de 5 de dezembro de 1917, tomando posse como Presidente do Ministério no dia 11 e acumulando as pastas da Guerra e  Negócios Estrangeiros, para além de a partir de dia 27 assumir ainda as funções de Presidente da República, num regime que designou como República Nova. A 9 de Maio do ano seguinte foi eleito Presidente da República por sufrágio direto, considerando que apesar do desaire da Batalha de La Lys e de problemas sociais e económicos  Sidónio Pais conseguia apoio popular com a  distribuição da sopa dos pobres (conhecida como Sopa do Sidónio) ou  a visita a hospitais na altura da Gripe Espanhola. No entanto, muitos o o consideravam um traidor aos ideais da República pelo que no 1º aniversário do golpe de estado que o colocou no poder sofreu um atentado de que escapou, para 9 dias depois falecer, a tiro, noutro, na Estação do Rossio.

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua do Padre António Vieira, defensor da abolição da escravatura

Freguesias das Avenidas Novas e de Campolide (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias das Avenidas Novas e de Campolide
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua Padre António Vieira nasceu da deliberação camarária de 21 de outubro de 1909 para homenagear o padre jesuíta que se distinguiu como missionário e pregador, diplomata e político, que a memória popular recorda como o autor do Sermão de Santo António aos Peixes (1654) e da defesa da abolição da escravatura.

Este topónimo foi fixado em 1909 na Rua D entre a Rua José da Silva Carvalho [hoje, Rua de Artilharia Um] e a Rua Castilho, sendo que tal como a Rua Francisco Manuel de Melo, foram artérias que começaram a ser abertas em 1910.

Padre António Vieira pintado por António Nunes Junior no Saão Nobre dos Paços do Concelho de Lisboa (Foto: Francisco Leite Pinto, anos 80 do séc. XX, Arquivo Municipal de Lisboa)

Padre António Vieira pintado por António Nunes Junior no Salão Nobre dos Paços do Concelho de Lisboa
(Foto: Francisco Leite Pinto, anos 80 do séc. XX, Arquivo Municipal de Lisboa)

António Vieira (Lisboa/06.02.1608-18.07.1697/Baía) nasceu na Rua dos Cónegos também conhecida como Rua do Leão, na então freguesia da Sé, como primogénito de quatro filhos da lisboeta Maria de Azevedo e de Cristóvão Vieira Ravasco, de origens alentejanas mas cuja mãe era filha de uma mulata. A partir de 1614 foi viver para o Brasil já que o seu pai conseguiu lá trabalho como escrivão no Tribunal da Relação da Baía. Estudou no colégio jesuíta da Baía e ingressou na Companhia de Jesus como noviço em 1623, recebendo ordens em 1634 e iniciando nessa altura o seu trabalho como pregador, de oratória barroca de acordo com Margarida Vieira Mendes. A partir do final de 1626 ou início do ano seguinte, começou a exercer como professor de Retórica em Olinda e em 1638, foi nomeado Lente de Teologia do Colégio Jesuíta de Salvador.

Em 1641 regressou a Lisboa com o governador, para apresentar ao rei D. João IV a adesão à causa da Restauração. Para além de confessor da rainha D. Luísa de Gusmão, o rei nomeou-o pregador régio e encarregou-o então de várias missões diplomáticas nos Países Baixos (1646) e em França (1647), após o que regressou novamente ao Brasil e se empenhou na missionação junto dos índios, de 1653 a 1661, gerindo a Missão no Maranhão e no Grão-Pará. O Padre António Vieira defendeu incansavelmente os direitos dos povos indígenas, combatendo a sua exploração e escravização, o que lhe valeu 0 nome de Paiaçu, o termo tupi para Grande Pai, tendo ficado célebre o seu Sermão da Primeira Dominga de Quaresma, em 1653, no qual tentou convencer os senhores de engenho a libertarem os seus escravos indígenas.

Deixou uma obra que exprime as suas opiniões políticas em  cerca de 200 Sermões publicados em 16 tomos ( de 1679 a 1699), Esperanças de Portugal – Quinto Império do Mundo, Clavis Prophetarum, História do Futuro e 3 tomos de Cartas. Defendeu os judeus e a abolição da distinção entre cristãos-novos e cristãos-velhos, assim como a abolição da escravatura. Criticou ainda severamente os sacerdotes da sua época e a própria Inquisição. Aliás, após a morte de D. João IV foi condenado pela Inquisição de professar opiniões heréticas, pelos seus manuscritos Esperanças de Portugal,  Clavis Prophetarum História do Futuro, num processo que durou de 21 de julho de 1663 a 1667 sob desterro em Coimbra, e do qual só foi absolvido com a subida ao trono de D. Pedro II, em 1668.

A partir de 1669 e durante seis anos passou a desenvolver trabalho de diplomata em Roma, tendo conseguido que por determinação papal fosse suspensa a Inquisição, entre 1675 e 1681, em Portugal e no império. Em 1681 regressou definitivamente à Baía, e foi visitador-geral das missões do Brasil para além de se dedicar à edição das suas obras, nomeadamente das suas cerca de 700 cartas, tendo aí morrido aos 89 anos de idade.

Em Lisboa, este grande orador também deu nome em 1959 ao Liceu Padre António Vieira, da autoria do arqº Rui Jervis Athouguia. Na toponímia surge, entre outros locais, no Algueirão, em Almada, na Amadora, Braga, Chaves, Coimbra, Fiães, Gondomar, Guarda, Odivelas, Porto, Porto Salvo, Póvoa de Santo Adrião, Rio de Mouro, Santo António dos Cavaleiros, e no Brasil, em Esteio, Parnaíba, Porto Alegre, Salvador, Santa Catarina, São Bernardo e São Paulo.

Freguesias das Avenidas Novas e de Campolide (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias das Avenidas Novas e de Campolide
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

Os últimos topónimos atribuídos em 1916

Freguesias de Arroios e Penha de França (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias de Arroios e Penha de França
(Planta: Sérgio Dias)

O último Edital municipal de toponímia de 1916 foi publicado no dia 27 de novembro e incluiu 6 topónimos: dois relacionados com o topónimo Penha de França em dois locais distintos da cidade, três de conselheiros já sediados em Arroios aos quais foi retirado esse título,  e um referente a heróis da I Guerra Mundial numa artéria repartida entre a Penha de França e Arroios.

De acordo com as deliberações da sessão de câmara de 23/11/1916, o vereador Manuel Joaquim dos Santos apresentou uma solicitação da Junta de Freguesia de Arroios para que fossem alterados alguns topónimos de forma a «que se instaure um processo de expropriação de uma parcela de terreno na quinta do Fole à estrada da Penha de França e se passe a dar denominação de rua da Penha de França, à rua da Penha de França (á Escola Politecnica) a de calçada da Penha de França, á rua Conselheiro Carrilho a de Antonio Pereira Carrilho, à rua Conselheiro Monteverde a de rua Achiles Monteverde, à Rua Conselheiro Morais Soares, a de rua Morais Soares, e á do Caracol da Penha, a de rua dos Herois do Kionga», o que foi aprovado por unanimidade.

Assim, a Estrada da Penha de França passou a Rua da Penha de França  e importa esclarecer a origem do topónimo Penha de França neste local. António Simões, um escultor de imagens sacras ou imaginário, como se dizia na sua época, encontrando-se perdido em Alcácer Quibir fez promessa de que se voltasse a Portugal fabricaria várias imagens de Nossa Senhora e lhes daria um destino condigno. De regresso,  chamou Senhora da Penha de França (uma invocação de um santuário de Salamanca) à última imagem que produziu  e esta foi inicialmente colocada na Igreja da Vitória da Baixa lisboeta até o escultor ter erguido uma Ermida,  no Monte Alperche, em terrenos de Afonso Torres de Magalhães, onde a dita imagem de Nossa Senhora da Penha de França se acolheu em 1597, apesar da Ermida ter ficado concluída apenas no ano seguinte. Passados seis anos, em 1604, começou a construir-se no local uma nova Igreja, maior e com Casa Conventual, concluída em 1635 e que acabou por estender o nome da Senhora da Penha de França a todo o sítio, até chegar a ser também o da própria freguesia.

Pormenor da planta de Filipe Folque de 1857 (Arquivo Municipal de Lisboa)

Pormenor da planta de Filipe Folque de 1857
(Arquivo Municipal de Lisboa)

Ora já existia uma Rua da Penha de França nas proximidades da Rua da Escola Politécnica,  o que causaria equívocos caso existissem duas na cidade pelo que foi aprovado que esta passasse a designar-se como Calçada da Penha de França em 1916, embora de seguida tenha sido a Calçada João do Rio e hoje a encontremos como Calçada Engº Miguel Pais (desde a publicação do Edital municipal de 23/12/1948). Nesta artéria, quando ainda era designada como Rua da Penha de França, nasceu Maria Matos em 1886.

Já António Pereira Carrilho, Aquiles Monteverde e Morais Soares ficaram sem o título de conselheiro no enunciado dos topónimos, trocado que foi pelos seus próprios nomes, uma vez que na  I República era característico eliminar da toponímia referências à monarquia e o título de conselheiro era atribuído pelo soberano, tradicionalmente aos magistrados do Supremo Tribunal, mas também concedido a quem tivesse prestado serviços honrosos ao país.

Antonio Pereira Carrilho, Diário Ilustrad, 19 de março de 1880

António Pereira Carrilho, Diário Ilustrado, 19 de março de 1880

António Pereira Carrilho, a cujo topónimo acresceu mais tarde a legenda «Notável Economista e Jornalista/1835 – 1903 » por parecer da Comissão Municipal de Toponímia de 03/03/1960, antes de ser Rua do Conselheiro Pereira Carrilho era um troço da antiga Estrada de Circunvalação. O homenageado é António Maria Pereira Carrilho (Lisboa/10.10.1835 – 16.11.1903/Paris) que se notabilizou como Diretor Geral da Contabilidade Pública e Secretário Geral do Ministério da Fazenda, responsável por elaborar o Orçamento Geral do Estado ao serviço de diversos Governos e os explicar na Câmara dos Deputados. Carrilho desempenhou também a função de Presidente do Conselho de Administração da Real Companhia dos Caminhos-de-Ferro e também foi recompensado com a Grã-Cruz da Ordem de Cristo. Fundou ainda O Economista em 1880 e colaborou com os jornais Diário Mercantil do Porto, Gazeta do Povo, Opinião O Progressista. Esta figura do rotativismo liberal foi ainda diversas vezes deputado a partir de 1875 e par do reino em 1902 e 1903.

aquiles-monteverde-livroAquiles Monteverde, cujo topónimo recebeu mais tarde a legenda «Escritor Didáctico e Diplomata/ 1803 – 1881» por parecer da Comissão Municipal de Toponímia de 19/04/1960, antes de ser Rua do Conselheiro Monteverde (Edital de 14/02/1882) era a Travessa Cruz do Tabuado. Perpetua o nome de Emílio Aquiles Monteverde (Lisboa/09.06.1803 – 07.01.1881/Lisboa), funcionário público desde que em 1821 começou como adido à legação portuguesa de Madrid, tendo chegado a secretário geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros em 1869 e antes, em 1850 foi galardoado com o título de conselheiro, a comenda da Ordem de Cristo e a de Cavaleiro da Torre e Espada. Foi também o autor Manual Enciclopédico para uso das Escola de Instrução Primária, no último quartel do séc. XIX, aprovado pela Junta Consultiva de Instrução Pública, sendo cada edição de dezenas e centenas de milhares de exemplares.

Finalmente, sobre a Rua Morais Soares e a Rua dos Heróis de Quionga, basta aqui carregar nos seus nomes sublinhados para ser dirigido para os artigos que já publicámos sobre eles.

O regenerador Martens Ferrão na rua onde se ergueu o Cinema Mundial

O Cinema Mundial, na Rua Martens Ferrão, em 1967 (Foto: Augusto de Jesus Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Cinema Mundial, na Rua Martens Ferrão, em 1967
(Foto: Augusto de Jesus Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

O político regenerador conhecido como Martens Ferrão está desde 1902 perpetuado numa artéria de Picoas, graças a um Edital da câmara presidida pelo Conde d’Ávila que perpetuou mais onze políticos regeneradores em artérias lisboetas e nesta rua partilhada hoje pelas freguesias das Avenidas Novas e de Arroios nasceu há 51 anos o Cinema Mundial.

O Edital de 29 de novembro de 1902 colocou nesta zona, em Avenidas, os nomes dos políticos António de Serpa, Casal Ribeiro, Duque D’Ávila, Hintze Ribeiro (hoje Avenida Miguel Bombarda), José Luciano (hoje Avenida Elias Garcia),  e em Ruas, os nomes de Andrade Corvo, António Enes, Barros Gomes (hoje Rua Viriato), Latino Coelho , Luís Bivar (hoje Avenida), Martens Ferrão e Pinheiro Chagas, bem como o médico Pedro Nunes e o matemático e cartógrafo Filipe Folque.

Martens Ferrão no Diário Ilustrado de 3 de novembro de 1890

Martens Ferrão no Diário Ilustrado de 3 de novembro de 1890

Sessenta e três depois, a 22 de setembro de 1965 abriu no nº 12 A da Rua Martens Ferrão o Cinema Mundial, concebido pelo Arqº Manuel Ramos Chaves. Encerrou em 2004, no ano seguinte a ter exibido a última obra de João César Monteiro (Vaivém) .

Este topónimo perpetua na memória da cidade João Baptismo da Silva Ferrão de Carvalho Martens (Lisboa – Olivais/28.01.1824 – 15.11.1895/Florença), mais conhecido como Martens Ferrão, um jurisconsulto que se destacou sobretudo como um deputado muito interventivo do Partido Regenerador (de 1854 a 1871) e com capacidade de produzir propostas de legislação, ficando também famoso por ter apoiado o governo do Duque d’Ávila na decisão de proibir as Conferências do Casino ( que decorreram de 22 de março a 26 de junho de 1871). Foi também ministro da justiça e negócios eclesiásticos (de 16 de março de 1859 a 4 de julho de 1860) e ministro do reino (1866 a 1868), substituindo António Augusto Aguiar no Ministério dos Negócios do Reino e assim promoveu a Lei da Administração Civil de 26 de junho de 1867, conhecida como Código Martens Ferrão, cujo mapa final de divisão do território ao ser publicado em dezembro gerou descontentamento generalizado e manifestações populares que levaram à queda do governo em janeiro de 1868 ( a Janeirinha) e à revogação da reforma.

Martens Ferrão exerceu ainda funções de procurador geral da Coroa e da Fazenda (1868- 1885), par do reino ( 1871), conselheiro de Estado (1874), aio dos príncipes na educação literária e científica (1874) e embaixador de Portugal junto da Santa Sé (1885-1895). Refira-se ainda que a partir de 1858 foi também lente da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, afirmando-se como um reputado especialista em Direito.

Fregeusias de Arroios e das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias de Arroios e das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

A Avenida do Duque d’Ávila e o cinema dos três nomes

Freguesias das Avenidas Novas, de Arroios e do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias das Avenidas Novas, de Arroios e do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

O político liberal e também conde, marquês e duque de Ávila,  desde 1902 que tem assento numa avenida lisboeta onde a partir do primeiro dia do ano de 1930 abriu um cinema que foi sendo denominado  sucessivamente Trianon, Palácio e Avis.

Foi pelo Edital municipal de 29 de novembro de 1902  que nasceu a Avenida Duque d’Ávila, na época situada entre a Estrada do Arco do Cego e a Rua Marquês de Sá da Bandeira e que nos nossos dias começa na Rua Alves Redol e termina na Rua Marquês de Sá da Bandeira e na Rua Marquês de Fronteira. Foi por este Edital da presidência do Conde de Ávila (António José de Ávila – 07.11.1842 – 13.08.1917 – 2º Conde e Marquês de Ávila) que se fixaram nas Avenidas Novas um conjunto de de 15 topónimos referentes essencialmente a políticos regeneradores da Monarquia Constitucional, a saber:  em Avenidas, os nomes dos políticos António de Serpa, Casal Ribeiro, Duque d’Ávila, Hintze Ribeiro (hoje, Avenida Miguel Bombarda), José Luciano (hoje, Avenida Elias Garcia), e em Ruas, os também políticos Andrade Corvo, António Enes, Barros Gomes (hoje, Rua Viriato), Latino Coelho, Luís Bivar ( que passou a Avenida em 1926), Martens Ferrão,  o político e escritor Pinheiro Chagas, o  matemático e cartógrafo Filipe Folque,   e o médico Pedro Nunes.

O Cinema Avis na Avenida Duque d'Avila em 1960 (Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Cinema Avis na Avenida Duque d’Ávila em 1960
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

Já o cinema Trianon abriu portas nesta Avenida no dia 1 de janeiro de 1930, garantindo lugar para 733 espetadores, sendo então uma das maiores salas de Lisboa. Augusto de Ornelas Bruges comprara  para o efeito terreno na Avenida Duque d’Ávila, frente à antiga estação dos elétricos do Arco do Cego. Mais tarde, o cinema  mudou de nome para Palácio e voltou  a ser reaberto em 1956 com a designação de Avis, mantendo-se assim durante mais de 30 anos até encerrar no final dos anos 80 e ser demolido na década seguinte para dar lugar à construção de prédios.

António José de Ávila (Faial/08.03.1806 – 03.05.1881/Lisboa), 1º conde (1864) e 1º marquês (1870) de Ávila e único duque de Ávila e Bolama (1878), foi um político Cartista, cuja carreira acompanhou os altos e baixos motivados pelas guerras liberais. Desempenhou as funções de deputado, conselheiro de Estado efetivo, presidente da Câmara dos Pares, ministro das Finanças, Presidente do Conselho de Ministros por três vezes (1868, 1870/71, 1877/78) e ainda, de embaixador junto das cortes de Paris e de Madrid.

Entrou como sócio da Academia Real das Ciências em março de 1855 e pouco depois foi nomeado vice-presidente, tendo sido também agraciado com inúmeras condecorações portuguesas e estrangeiras, de que se destacam a  Grã-Cruz da Ordem de Nª Srª da Conceição e de S. Tiago, a Ordem da Torre e Espada e a comenda da Ordem de Cristo.

Freguesias das Avenidas Novas, de Arroios e do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias das Avenidas Novas, de Arroios e do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Franklim do Bairro América

Freguesia de São Vicente (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de São Vicente
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua Franklim estava identificada como Rua nº 1 do Bairro América, urbanização então de construção recente na Quinta das Marcelinas à Rua do Vale de Santo António, quando a deliberação camarária em 25 de novembro de 1918 decidiu atribuir-lhe um topónimo referente a uma personalidade americana e ficando a ligar a Rua Fernão de Magalhães à Rua dos Cortes Reais, embora o Edital só tenha sido publicado 6 anos depois, em 17 de outubro de 1924.

O Bairro América passou a conter os seguintes topónimos: «Que se denomine Bairro America, o bairro em construção na Quinta das Marcelinas na rua do Vale de Santo Antonio e que os respectivos arruamentos tenham as designações seguintes: o nº 1, rua Franklin; o nº 2, rua Washington [ o primeiro presidente dos Estados Unidos da América]; o nº3, rua Ruy Barbosa [político e jornalista brasileiro que defendia o princípio da igualdade das nações]; o nº 4, rua Bolivar [Simon Bolívar que combateu o domínio espanhol na América do Sul, comandando as revoluções que promoveram a independência da Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia]; a nº 5, rua do Costa Reais [refere-se à Rua dos Cortes Reais, família de navegadores portugueses que empreenderam navegações para o continente americano]; o nº 6, rua Fernão de Magalhães  [o primeiro navegador a fazer uma viagem de circum-navegação], e o nº7, rua Alvaro Fagundes [navegador português do século XVI que explorou a costa austral da Terra Nova]. Deliberação camararia de 25 de Novembro de 1918». Acrescente-se que os arruamentos Rua Bolivar e Rua Álvaro Fagundes nunca tiveram execução prática, embora, em 1971, o nome de Álvaro Fagundes tenha regressado para a toponímia lisboeta para dar nome à Rua C, à Rua General Justiniano Padrel.

Rua Franklim BenjaminEstadista, cientista e escritor norte-americano Benjamim Franklin (Boston/17.01.1706 – 17.04.1790/Filadélfia), lutou contra a escravatura e fez mesmo o Memorial para a sua abolição enquanto Presidente da Sociedade Pensilvaniana para além do seu papel preponderante na independência dos Estados Unidos da América. Franklin foi o porta-voz dos colonos junto dos ingleses; integrou a Comissão redatorial da Declaração da Independência; foi membro da Convenção para redigir a Constituição Nacional (1787); e assinou com a Grã-Bretanha o Tratado de Versalhes que reconhecia a independência das 13 colónias norte-americanas.

Benjamim Franklin foi ainda um cientista: demonstrou a identidade do raio e da electricidade e inventou o pára-raios, para além de ter sido compositor gráfico, publicado jornais (The New-England Courant), ter sido escritor ( Poor Richard’s Almanac) e o 1º representante do realismo norte-americano ( O Sermão do pai Abraão).

Freguesia de São Vicente (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias)

Valmor e Ventura Terra em Lisboa

Freguesias das Avenidas Novas e do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias das Avenidas Novas e do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

Valmor e Ventura Terra são nomes que se cruzam em Lisboa. Por um lado, porque o arqtº Miguel Ventura Terra recebeu 4 Prémios Valmor (nos anos de 1903, 1906, 1909 e 1911) e ainda uma menção honrosa no ano de 1913,  e por outro, porque a Casa dos Viscondes de Valmor, prédio de gaveto do  nº 38 da Avenida Ressano Garcia (hoje Avenida da República) com o  nº 22  da Rua Visconde Valmor (hoje Avenida Visconde Valmor) nasceu do traço de Ventura Terra.

Por Edital municipal de 11 de dezembro de 1902 a «nova via publica, entre a avenida Pinto Coelho e a rua nº 7» passou a ter o topónimo Rua Visconde de Valmor, tendo nascido do mesmo Edital a « Avenida Duque de Loulé, Avenida Marquez de Thomar,  Rua Conde de Redondo, Avenida Conde de Valbom, Rua Barbosa Bocage, Rua João Chrysostomo, Rua Gonçalves Crespo, Rua Luciano Cordeiro». Quase 23 anos anos, por Edital municipal de 8 de junho de 1925, passou à categoria de Avenida, como «as Ruas Antonio Serpa, Julio Diniz, Barbosa du Bucage, Elias Garcia, (…) e João Crisostomo.»

Visconde de Valmor num óelo de José Malhoa nos Paços do Concelho de Lisboa (Foto: Francisco Leite Pinto, anos 80 do séc. XX, Arquivo Municipal de Lisboa)

Visconde de Valmor num óleo de José Malhoa nos Paços do Concelho de Lisboa
(Foto: Francisco Leite Pinto, anos 80 do séc. XX, Arquivo Municipal de Lisboa)

Assim, a Rua Visconde de Valmor de 1902 que passou a Avenida Visconde Valmor em 1925, perpetua a memória de Fausto de Queirós Guedes (Peso da Régua/01.02.1837-24.12.1898/Paris), 2º  Visconde de Valmor (por herança de um tio paterno) e último, que foi um diplomata, par do reino e governador civil de Lisboa, membro do Partido Progressista, reconhecido conhecedor da arquitetura clássica e protetor dos artistas de tal forma que até instituiu um prémio anual para atribuir ao edifício de melhor nível artístico construído em Lisboa. Em testamento deixou à Academia das Belas-Artes a quantia de 100 contos de réis, valor muito considerável para a época, destinando metade  para a formação de um fundo, cujo rendimento anual seria o prémio a atribuir, em partes iguais, ao proprietário e ao arquiteto que tivessem construído o mais belo prédio de Lisboa, «com a condição, porém, que essa casa nova, ou restauração de edifício velho, tenha um estilo arquitectónico clássico, grego ou romano, romão gótico, ou da renascença ou algum tipo artístico português, enfim um estilo digno de uma cidade civilizada.»  Quatro anos depois, em sessão municipal de 23 de dezembro de 1902, foi criado o regulamento que legitimava a atribuição do Prémio Valmor, aprovado em 23 de janeiro de 1903, especificando que no 1º semestre de cada ano, um júri de três arquitetos, nomeados pela Câmara Municipal de Lisboa, pela Academia-Real de Belas Artes e pela Sociedade dos Arquitetos Portugueses, analisava os prédios construídos no ano anterior, escolhendo o melhor no âmbito das condições exigidas. O Visconde de Valmor foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa.

O Palacete Valmor ganhou o Prémio Valmor de 1906. Delineado por Ventura Terra em 1905,  por encomenda da Viscondessa de Valmor, D. Josefina Clarisse de Oliveira, foi construído por Joaquim Francisco Tojal (o construtor e dono da Vila Berta) no  nº 38 da Avenida da República (então Avenida Ressano Garcia), com esquina para o  nº 22  da Avenida Visconde Valmor (então Rua Visconde Valmor), destinado a ser um prédio de rendimento. Existia já um Palácio Valmor, no Campo dos Mártires da Pátria, edificado no séc. XVIII,  que se manteve como residência até ao início do séc. XX, altura em que acolheu a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e mais tarde, a partir de 1964, nele se fixou a Embaixada da República Federal Alemã e o Instituto Goethe.

Refira-se que o Mausoléu dos Viscondes de Valmor no Cemitério do Alto de São João, construído em 1900, comporta estátuas  alegóricas à gravura, à pintura, e à arquitectura.

Freguesias das Avenidas Novas e do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias das Avenidas Novas e do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

 

Bernardino Machado, duas vezes Presidente da República, numa Praça do Lumiar

0 Bernardino Machado PortugalnaGuerra 1 Jun. 1917

Bernardino Machado que era Primeiro-Ministro quando eclodiu a I Guerra Mundial e Presidente da República quando Portugal entrou no conflito, e nessa qualidade  visitou os militares em França em outubro de 1917, foi perpetuado numa Praça lisboeta 41 anos após a sua morte, através do Edital de 21/10/1985, com a legenda «Presidente da República/1851 – 1944», ficando na Praça J da Urbanização dos Terrenos da Tobis Portuguesa, também designada como Praça J à Rua Luís Pastor de Macedo.

A sua entrada na toponímia alfacinha passou por algumas peripécias. O jornal A Capital sugeriu que os nomes dos antigos Presidentes da República Portuguesa Bernardino Machado e João do Canto e Castro fossem consagrados na toponímia de Lisboa mas a Comissão Consultiva Municipal de Toponímia na sua reunião de 08/07/1970 « foi de parecer que deverá aguardar-se a existência de arruamentos condignos». Seis anos mais tarde, na reunião de 06/07/1976, a Comissão Consultiva Municipal de Toponímia  sugeriu que a Avenida Sidónio Pais, no troço compreendido entre a Avenida Afonso Costa ( é a  Alameda Cardeal Cerejeira  desde o Edital de 14/04/1982) e a Rua Marquês de Fronteira, passasse a Avenida Bernardino Machado. No entanto, só 41 anos após a sua morte, por sugestão de um munícipe, Bernardino Machado foi mesmo consagrado por Edital na toponímia de Lisboa, na Praça do Lumiar onde o encontramos hoje.

Bernardino Machado e Afonso Costa de visita às tropas em França (Portugal na Guerra, novembro de 1917)

Bernardino Machado e Afonso Costa de visita às tropas em França
(Portugal na Guerra, novembro de 1917)

Bernardino Luís Machado Guimarães (Rio de Janeiro/28.o3. 1851 – 28.04.1944/Porto) foi duas vezes eleito para Presidente da República. No primeiro período, para o quadriénio de 5 de outubro de 1915 a 1919, e no segundo, para o de dezembro de 1925 a 1929. Não chegou a cumprir nenhum deles até final, abortados que foram pelo movimento de Sidónio Pais de 8 de dezembro de 1917 que o expulsou do país e no segundo caso, pelo movimento militar do 28 de maio de 1926.

Bernardino Machado formado em Filosofia e Matemática pela Universidade de Coimbra (1875), com a tese  «Teoria Mecânica da Refleção da Luz» e catedrático desde 1879, foi Lente de Matemática e par do Reino nomeado pelo corpo de catedráticos da Universidade de Coimbra até que ao juntar-se aos estudantes por ocasião da crise académica de 1907 foi  obrigado a pedir a demissão do cargo de lente da Universidade. Integrou ainda o Conselho Superior de Instrução Pública (1892), presidiu ao  Instituto de Coimbra (1894) e dirigiu o Instituto Comercial e Industrial de Lisboa. Casou em 1882 com Elzira Dantas, de quem teve 18 filhos.

Iniciou em 1882 as suas funções políticas  como deputado por Lamego, eleito pelo Partido Regenerador. Depois foi deputado por Coimbra (1886), Ministro das Obras Públicas (1893) que elaborou legislação protetora do trabalho das mulheres e dos menores e procedeu à criação do primeiro Tribunal de Trabalho, grão-mestre da Maçonaria (entre 1895 e 1899) e presidente do Diretório do Partido Republicano entre 1906 e 1909. Proclamada a República, foi Ministro dos Negócios Estrangeiros (1910-1911; 1914), Embaixador no Brasil (1912-1914),  ministro do Interior e presidente do Ministério (em 1914 e em 1921). Após o 28 de maio de 1926 ficou em Portugal até às derrotas das revoltas de 3 e 7 de fevereiro de 1927 e foi novamente expulso do País, tendo-se exilado na Galiza e depois, em França. Foi autorizado a regressar em junho de 1940, quando as forças nazis invadiram França mas como estava proibido de residir em Lisboa, fixou residência no Alto Douro onde veio a falecer.

Finalmente, refiram-se algumas das suas obras:  A Introdução à Pedagogia (1892), O Ministério das Obras Públicas (1893), A Indústria (1898), O Ensino (1898), O Ensino Primário e Secundário (1899), O Ensino Profissional (1900), A Agricultura (1900), Pela Liberdade (1900), Da Monarquia para a República (1903), Os Meios de Comunicação e o Comércio (1903), Conferências Políticas (1904), Pela República (1908), No Exílio (1920), A Irresponsabilidade Governativa e as Duas Reacções Monárquica e Republicana (1924).

 

Freguesia do Lumiar (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

O Largo Júlio de Castilho

Freguesia do Lumiar (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

Júlio de Castilho que viveu e faleceu no Lumiar, no nº 11 da Travessa do Prior ( hoje nº 26 da Rua Pena Monteiro), teve o seu nome imortalizado no Largo contíguo – que era o Largo da Duquesa-, por Edital municipal de 2 de março de 1925, com a legenda «Erudito Escritor e Historiador/1840 – 1919», recordando a sua obra publicada sobre Lisboa: Lisboa antiga – Primeira parte: 0 Bairro Alto (1879), Lisboa antiga – Segunda parte: Bairros orientais em 8 tomos (1884 – 1890) e A Ribeira de Lisboa, descrição histórica da margem do Tejo desde a Madre de Deus até Santos o Velho (1893).

 Júlio de Castilho em data anterior a 1919 (Foto: José Leitão Bárcia, Arquivo Municipal de Lisboa)

Júlio de Castilho em data anterior a 1919
(Foto: José Artur Bárcia, Arquivo Municipal de Lisboa)

Júlio de Castilho (Lisboa/30.04.1840- 08.02.1919/Lisboa), 2.º visconde de Castilho por ser filho primogénito de António Feliciano de Castilho (também perpetuado em Lisboa na Rua Castilho), é considerado um percursor dos estudos olisiponenses, tendo mesmo conseguido uma importante coleção pessoal de documentos sobre o tema, hoje depositada na Biblioteca Nacional. Habilitado com o Curso Superior de Letras foi primeiro-oficial da Biblioteca Nacional de Lisboa, onde desenvolveu investigação na área da bibliografia e da biografia que se espelhou, bem como a sua faceta de poeta e dramaturgo, na obra que publicou e da qual salientamos  Primeiros versos (1867), os 3 volumes de Antonio Ferreira, poeta quinhentista, estudos biographico litterarios, seguidos de excerptos do mesmo autor (1875), o drama em 5 actos e em verso D. Ignez de Castro (1875) com uma monografia, Memórias de Castilho (1881), O archipelago dos Açôres (1886), D. António da Costa, quadro biographico litterario (1895), Elogio historico do arquitecto Joaquim Possidonio Narciso da Silva, proferido em sessão solemne da Real Associação dos Architectos e Archeologos portuguezes em 28 de Março de 1897 (1897), A mocidade de Gil Vicente, o poeta, quadros da vida portugueza nos séculos XV e XVI (1897), Amores de Vieira Lusitano (1901) e um Requerimento a sua magestade el-rei pedindo a abolição das touradas em Portugal (1876), apresentado em nome da Sociedade Protetora dos Animais.

Colaborou também com diversos órgãos de comunicação social como o Arquivo Pitoresco, o Diário Oficial do Rio de Janeiro, a Gazeta Literária do Porto, O Ocidente, a Revista Contemporânea de Portugal e Brasil e A semana de Lisboa. Em 1906 foi-lhe atribuída a tarefa de ser professor de História e de Literatura Portuguesa do Infante D. Luís e ainda desempenhou as funções de cônsul de Portugal em Zanzibar (1888).

Recorde-se também que Júlio de Castilho foi sócio  da Academia das Ciências de Lisboa, da Associação dos Arquitectos e Arqueólogos Portugueses, bem como sócio correspondente do Instituto de Coimbra, do Gabinete Português de Leitura de Pernambuco,  do Instituto Vasco da Gama de Nova Goa e da Associação Literária Internacional de Paris. Foi ainda Governador Civil do distrito da Horta (1877 – 1878) o que lhe trouxe a distinção de sócio honorário do Grémio Literário Faialense e do Grémio Literário Artista da Horta.

Júlio de Castilho já tinha sido homenageado em Lisboa logo no ano do seu falecimento com a colocação de uma lápide na casa onde viveu por iniciativa de Miguel Trancoso, José Artur Bárcia e António César Mena Júnior, assim como com um busto seu de autoria de Costa Mota (tio), no Largo de Santa Luzia, e inaugurado no dia 25 de julho de 1929, ganhando o espaço ajardinado o nome de Jardim Júlio de Castilho.

Freguesia do Lumiar (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias)

O adeus de Fernando Assis Pacheco na Rua Duque de Palmela

Fernando Assis Pacheco em Paris, de reportagem, em 1988 (Foto: Fernando Assis Pacheco no Facebook)

Fernando Assis Pacheco em Paris em 1988
(Foto: Fernando Assis Pacheco no Facebook)

Fernando Assis Pacheco, jornalista, escritor e amante de livros, após uma das suas visitas regulares à Livraria Bucholz, na Rua Duque de Palmela, naquela artéria faleceu em 1995,  acontecimento que o escritor galego Torrente Ballester sintetizou como «Morreu junto aos livros, no seu posto, como soldado no campo de batalha.»

A Rua Duque de Palmela é um topónimo do último quartel do séc. XIX em resultado da deliberação camarária de 12/04/1885 e Edital municipal de 19/04/1887, fixado na Rua nº 4,  então descrita no Edital «a primeira rua parallela á Avenida da Liberdade, pelo lado do poente, (…) e comprehendida entre a Rua Alexandre Herculano e a rua obliqua que se projecta, a ligar esta ultima com a Praça Marquez de Pombal.» Homenageia Pedro de Sousa Holstein que «contribuiu tão poderosamente com a sua penna como diplomata e homem de estado, como outros com as espadas, para o triumpho do regimen liberal, e que havendo a camara ja votado os nomes das ruas “Duque da Terceira” e “Marechal Saldanha“, cumpre dedicar tambem uma rua á memoria d’aquelle benemerito da patria, a fim de reparar a injustiça que ora se dá». 

Freguesia de Santo António (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias)

Pedro de Sousa Holstein (Turim/08.05.1781 – 12.10.1850/Lisboa), conde de Sanfré no Piemonte, foi o 1.º conde (decreto de 11/04/1812), 1.º marquês (03/07/1825) e 1.º duque de Palmela (13/07/1833) e marechal de campo mas, sobretudo, político   cartista moderado que desempenhou as funções de par do Reino desde 1826 e presidente da respectiva câmara a partir de 1833; presidente da Câmara dos Senadores em 1841; conselheiro de Estado; embaixador extraordinário e ministro plenipotenciário em diversas cortes estrangeiras (Cúria Romana, Cádis e Londres); representante de Portugal no congresso de Viena em 1815; ministro dos negócios estrangeiros em 1817, 1823 e 1835 ; presidente da Regência estabelecida na ilha Terceira em 1830 e do Conselho de Ministros em 1842  e 1846 .

Refira-se que o Duque de Palmela foi um dos que primeiro e mais generosamente contribuíram para as despesas da guerra no tempo das invasões napoleónicas, bem como nas lutas entre absolutistas e liberais, tendo desembarcado em Lisboa com as tropas vitoriosas do Duque de Terceira em 24 de julho de 1833.

Este morador alfacinha da zona das Chagas e com quinta no Lumiar, recebeu os galardões da Grã-Cruz das Ordens de Cristo e Torre e Espada, de Cavaleiro do Tosão de Ouro, da Grã-Cruz de Carlos III de Espanha, da Legião de Honra francesa, de Santo Alexandre Nevsky da Rússia e de Cavaleiro de S. João de Jerusalém e teve biografias redigidas por António Pedro Lopes de Mendonça, Luís Augusto Rebelo da Silva, e Maria Amália Vaz de Carvalho.

Freguesia de Santo António (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Planta: Sérgio Dias)