O Largo do fotógrafo e homem de cinema Gérard Castello-Lopes

Freguesia do Lumiar
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Gérard Castello-Lopes foi um homem do cinema e da fotografia a preto e branco, cuja memória está fixada como topónimo da Freguesia do Lumiar desde 2017, seis anos passados sobre o seu falecimento aos 85 anos de idade.

O Largo Gérard Castello-Lopes nasceu no Impasse entre os lotes 2 e 3 da Malha 6 do Projeto de Urbanização do Alto do Lumiar, por deliberação camarária de 22 de fevereiro de 2017 e consequente Edital de 17 de março seguinte, na freguesia onde se encontram a maioria dos topónimos ligados ao cinema português.

Gérard Maria José Leveque de Castello-Lopes (França – Vichy/06.08.1925 — 12.02.2011/Paris-França) foi um português que desenvolveu uma carreira no cinema como distribuidor, crítico e assistente de realização, assim como fotógrafo.

Filho de José Castello-Lopes, dos Filmes Castello-Lopes, e da pianista Marie-Antoinette Lévéque, foi herdeiro e gerente da distribuidora Castello-Lopes. Na década de sessenta foi assistente de realização de Artur Ramos, no filme Os Pássaros de Asas Cortadas (1962) – onde também interpretou o médico Manuel -, tal como o será mais tarde na curta-metragem Nacionalidade: Português (1970), sobre a emigração portuguesa em França, realizada por Fernando Lopes, a partir de texto de Nuno de Bragança, que era também o produtor. Também fez a voz-off da curta A Aventura Calculada (1970) de Fernando Lopes. Exerceu como crítico de cinema  na revista O Tempo e o Modo, de 1964 a 1966, bem como nos jornais A Tarde e o Semanário, entre 1982 e 1984. Esteve entre os fundadores da cooperativa Centro Português de Cinema nos final dos anos 60, foi presidente do júri do Instituto Português de Cinema (1991 a 1993) e integrou o Conselho Consultivo da Culturgest.

Antes do cinema fizera-se fotógrafo pelo desejo de registar o que via quando mergulhava. Começou de forma autodidata, a partir de 1956, através de revistas e livros estrangeiros da especialidade e seguindo os ensinamentos de Henri Cartier-Bresson como mestre e paradigma. Fotografou os modos de viver da Lisboa do Estado Novo para testemunhar a realidade que o rodeava. Realizou dezenas de exposições individuais e coletivas, antes e depois do 25 de Abril de 1974, em Portugal e no estrangeiro mas foi a sua mostra retrospetiva de 1956 a 1982, na Galeria Ether- Vale Tudo Menos Tirar Olhos, no nº 25 da Rua Rodrigo da Fonseca da Lisboa de 1982, que relançou a sua obra para o reconhecimento público. A partir desta passou a fotografar sobretudo objetos e composições mais abstractas, que vão surgir na retrospectiva Oui/Non de 2004, continuando a fotografar e a expor até 2008. Contudo, Gérard Castello-Lopes era muito exigente consigo declarando que «Nunca achei que era excepcional ou muito bom fotógrafo» e que Joshua Benoliel era «o único génio da fotografia portuguesa», mesmo que as suas fotografias estejam representadas no Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado e na The Berardo Collection.

Gérard Castello-Lopes, licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras foi ainda assistente de encenação de duas óperas produzidas pelo Grupo Experimental de Ópera de Câmara, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, já que ele próprio era um pianista talentoso e foi um dos fundadores do Hot Clube de Portugal, em Lisboa, em 1950, com Luiz Villas-Boas, os irmãos Ivo e Augusto Mayer, Helena Villas-Boas e os irmãos Sangareau.

Ao longo da sua vida, Gérard residiu em Lisboa, Cascais, Estrasburgo – quando integrou o Corpo Diplomático da Missão Permanente de Portugal junto do Conselho da Europa – Azóia e Paris, onde fixou residência. Casou com Danièle de quem teve uma filha (1972) e um filho (1982) e foi vítima de  Alzheimer.

O cineasta Fernando Lopes, que afirmou inspirar-se no estilo da fotografia de Gérard para realizar o seu filme Belarmino (1964), rodou em 1997 o seu retrato através do documentário  – Olhar / Ver – Gérard Fotógrafo, com direção de produção de Manuel Costa e Silva, assim como seis meses após a sua morte Jorge Calado concretizou a mostra Aparições (2011) e, em 2012, no Consulado de Portugal em Paris foi organizada uma exposição de homenagem só com fotografias dos anos 50 e de Portugal.

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A Rua José Gomes Ferreira para quem está espantado de existir

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Aquele que no seu Panfleto Mágico ousou avisar  «É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir» – o escritor José Gomes Ferreira -, desde o próprio ano da sua morte que está perpetuado na artéria de Campo de Ourique que liga a  Rua Joshua Benoliel à Avenida Engº Duarte Pacheco.

Falecido a 8 de fevereiro de 1985, José Gomes Ferreira, diplomata, compositor, escritor e poeta recebeu três dias depois da sua morte uma deliberação da edilidade alfacinha para ser um topónimo lisboeta, sendo fixado pelo Edital de dia 21 desse mês no arruamento construído no prolongamento da Rua D. João V, entre a Rua Silva Carvalho e a Avenida Engº Duarte Pacheco, também identificado como Rua A da Urbanização das Amoreiras.

José Gomes Ferreira (Porto/09.06.1900-08.02.1985/Lisboa), nasceu na portuense Rua das Musas, filho do empresário e benemérito Alexandre Ferreira, que chegou a ser vereador republicano na Câmara lisboeta na Primeira República, veio morar para Lisboa aos 4 anos de idade. O seu pai estabeleceu-se no Lumiar e foi quem doou as suas propriedades para a construção da Casa de Repouso dos Inválidos do Comércio. José estudou nos liceus Camões e Gil Vicente e também se dedicou a ser compositor, chegando a ter a sua obra Idílio Rústico estreada pela orquestra de David de Sousa, no Politeama. Em 1919 integrou o Batalhão Académico Republicano e depois de licenciado em Direito em 1924 seguiu carreira como Cônsul de Portugal na Noruega,  em Kristiansund, até 1930.

De regresso a Lisboa colaborou em inúmeras publicações como a Presença, a Seara NovaDescobrimentoGazeta Musical e de Todas as Artes, Imagem,  Ilustração Senhor Doutor,  para além de sob o pseudónimo de  Álvaro Gomes ter traduzido filmes. Em 1945-1946, colaborou com outros poetas neorrealistas no álbum das Heróicas compostas por Fernando Lopes Graça, sendo sua a letra de «Jornada».

Para a sua carreira literária é um marco o dia 8 de maio de 1931 em que de rajada escreveu o poema «Viver sempre também cansa», que João Gaspar Simões fez publicar logo na Presença. Já antes, na juventude, editara os livros de poesia  Lírios do Monte (1919) e Longe (1921) mas foi depois de 1931 que se dedicou ao ofício de ser escritor.  Na escrita poética salientamos do que deu a lume Poesia I (1948), Poesia III (1961) que foi Grande Prémio da Sociedade Portuguesa de Escritores, Poesia V (1973), Poeta Militante I, II e III (1978) com prefácio de Mário Dionísio.Também gravou discos com a sua poesia: Poesia (1969) e Poesia IV (1971) na Philips, Poesia V (1973) na Decca / Valentim de Carvalho e Entrevista 12 – José Gomes Ferreira (1973) na Guilda da Música/Sassetti.

Na prosa, José Gomes Ferreira publicou entre outros, O Mundo dos Outros – histórias e vagabundagens (1950), O Mundo Desabitado (1960),  Os segredos de Lisboa (1962), o panfleto mágico As Aventuras de João Sem Medo (1963) do Plano Nacional de Leitura, os contos Tempo Escandinavo (1969), O Irreal Quotidiano – histórias e invenções (1971), Gaveta de Nuvens – tarefas e tentames literários (1975), O sabor das Trevas – Romance-alegoria (1976), as crónicas Intervenção Sonâmbula (1977), Coleccionador de Absurdos (1978), Caprichos Teatrais (1978) e O Enigma da Árvore Enamorada – Divertimento em forma de Novela quase Policial (1980).  Somou ainda livros de memórias como A Memória das Palavras – ou o gosto de falar de mim (1965) que recebeu o Prémio da Casa da Imprensa, Imitação dos Dias – Diário Inventado (1966), Relatório de Sombras – ou a Memória das Palavras II (1980), Passos Efémeros – Dias Comuns I (1990) ou Dias Comuns – Derrota Pairante (2018).

Como cidadão exerceu funções de Vice-Presidente da Associação Portuguesa de Escritores em 1978 e no ano seguinte,  nas eleições legislativas intercalares, foi candidato da APU- Aliança Povo Unido pelo círculo de Lisboa e no ano de 1980 tornou-se militante do PCP. Nesta cidade, ficou ligado à Rua Heliodoro Salgado assim como às suas moradas na Rua Marquês de Fronteira e na Avenida Rio de Janeiro e na sua vida pessoal, foi pai do arquiteto Raul Hestnes Ferreira e do poeta Alexandre Vargas.

Em 1978 foi agraciado com a atribuição do seu nome à Escola Secundária de Benfica projectada pelo seu filho arquiteto e a CML colocou uma placa evocativa no prédio da sua última morada em 1990, deu o seu nome dado à Mata de Alvalade e no ano do centenário do seu nascimento, através da Videoteca produziu o documentário Um Homem do Tamanho do Século. José Gomes Ferreira recebeu também o grau de Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1981) e da Ordem da Liberdade (1985), a distinção de cidadão de mérito de Odemira (1981) e o seu nome consta também da toponímia dos concelhos do Porto, Almada (Charneca da Caparica, Laranjeiro), Amadora (Reboleira), Barreiro (Lavradio, Santo António da Charneca), Beja, Benavente (Samora Correia), Braga, Cascais (São Domingos de Rana), Coimbra, Entroncamento, Gondomar (Baguim do Monte), Évora, Loures (Santo Antão do Tojal, São João da Talha, Unhos), Moita (Alhos Vedros, Baixa da Banheira, Moita, Vale da Amoreira), Montemor-o-Novo, Montijo, Odivelas (Famões, Póvoa de Santo Adrião), Oeiras (Algés), Portimão, Seixal (Arrentela, Corroios), Sesimbra, Setúbal, Sintra (Agualva-Cacém, Mem Martins), Trofa, Vila Franca de Xira ( Forte da Casa, Póvoa de Santa Iria) e Vila Nova de Gaia.

Freguesia de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O seu poema escrito na noite de 8 de maio de 1931 foi:

Viver sempre também cansa!
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde…
Mas nunca tem a cor inesperada.
O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exacto.
Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida…
E obrigam-me a viver até à Morte!
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois, achando tudo mais novo?
Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
“Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela.”
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo…

 

A Rua de Nuno Bragança de «A Noite e o Riso» e de «Os Verdes Anos»

Freguesia de Belém
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Nuno de Bragança, o autor de A Noite e o Riso e argumentista de Os Verdes Anos,  desde 1986 é o topónimo de um arruamento de Belém, na sequência da Proposta nº 34/85, aprovada por maioria na reunião da Câmara de 11 de fevereiro de 1985, quatro dias após a morte do escritor que estava quase a completar 56 anos de idade.

Depois, o Edital municipal de 3 de novembro de 1986 determinou que fosse a Rua A à Rua Tristão Vaz a ser a Rua Nuno Bragança, em Belém, e Alexandre O’Neill também ficou como topónimo de uma artéria de Alcântara por este mesmo Edital.

Nuno Bragança (Lisboa/12.02.1929 – 07.02.1985/Lisboa),  foi o autor de 3 livros fundamentais pela sua linguagem inovadora: A Noite e o Riso (1969), Directa (1977) e Square Tolstoi (1981), que traçam um olhar violento mas cheio de amor pela procura da liberdade e pelas pessoas. São ainda obras suas o livro de contos Estação (1984) e o póstumo Do Fim do Mundo (1990) , tornando-o um escritor de culto, que a si próprio se qualificava como um prático de escrever, com uma obra literária reduzida em número mas relevante em originalidade e qualidade.

De seu nome completo Nuno Manuel Maria Caupers de Bragança,  frequentou Agronomia mas foi Direito o curso que concluiu em 1957, ainda no Palácio Valmor, no Campo dos Mártires da Pátria. Em paralelo, era praticante de boxe e pioneiro de caça submarina em Portugal, tendo sido cofundador do Centro Português de Actividades Subaquáticas. Também publicou os seus primeiros textos literários no órgão da Juventude Universitária Católica: o jornal Encontro. Aliás, com António Alçada Baptista, João Bénard da Costa e Pedro Tamen integrou o denominado catolicismo progressista e foi cofundador da revista O Tempo e o Modo, em 1963, na qual escreveu assiduamente.

Nuno Bragança também trabalhou para Rádio nos anos 50, tendo escrito a peça nonsense radiofónica  A Morte da Perdiz,  em colaboração de Pedro Tamen, Nuno Cardoso Peres e Maria Leonor, assim como O Guardador de Porcos, uma sátira a Salazar escrita com M. S. Lourenço, Luís de Sousa Costa e Manuel de Lucena.

Escreveu ainda inúmeras críticas cinematográficas na 1ª série de O Tempo e o Modo, onde também organizou um dossiê sobre Belarmino, e deixou muito crítica de cinema em inúmeros jornais desde o Expresso ao Diário de Lisboa, tanto mais que o seu amor ao cinema o levara de 1956 a 1959, a fundar e dirigir, um cineclube: o Centro Cultural de Cinema. E foi o argumentista da adaptação e diálogos do filme Os Verdes Anos (1963) de Paulo Rocha, o filme inaugural do Cinema Novo. Em 1970, com Gérard Castello-Lopes, Fernando Lopes e Augusto Cabrita também assinou o documentário Nacionalidade Português sobre a emigração portuguesa em França e que foi estreado em Portugal três anos depois.

Nuno Bragança era funcionário do Estado, no Fundo de Desenvolvimento de Mão de Obra, onde participou na organização do Serviço Nacional de Emprego e, em 1968, aceitou ir para Paris exercer as funções diplomáticas de delegado português na O.C.D.E. e, posteriormente, de consultor de um estudo sobre os problemas de emprego nos países membros subdesenvolvidos. Refira-se que Nuno Bragança a partir da década de 60  era militante do MAR – Movimento de Acção Revolucionária e ao fixar-se em Paris aproximou-se do grupo conhecido como Brigadas Revolucionárias, de Isabel do Carmo e de Carlos Antunes. Regressou a Portugal em 1973.

Na sua vida pessoal, gostava de vinho tinto, de comer e de cozinhar e fez casal, sucessivamente, com Maria Leonor da Fonseca de Matos e Góis Caupers, a psicanalista Maria Belo e Maria Madalena Batalha Pestana.

Foi agraciado pelo Presidente da República Jorge Sampaio, a título póstumo, com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1998), com o documentário U Omãi que dava pulus (2008) de João Pinto Nogueira e está presente na toponímia dos concelhos de Almada (Charneca da Caparica), Beja, Oeiras (Porto Salvo), Porto, Seixal (Arrentela, Corroios) e Sesimbra.

O Jardim com o busto de Júlio de Castilho

Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Rui Mendes)

Com um miradouro sobre Alfama, a partir do Largo de Santa Luzia, encontramos o Jardim que desde o dia 25 de julho de 1929 se inaugurou com um busto do olisipógrafo Júlio de Castilho, da autoria do escultor Costa Mota (sobrinho).

Falecido dez anos antes, no dia 8 de fevereiro de 1919, o olisipógrafo Júlio de Castilho, havia sido já consagrado na toponímia de Lisboa por via do Edital municipal de 2 de março de 1925, com o Largo Júlio de Castilho, o largo mais próximo da rua onde morara no Lumiar, acrescido da legenda «Erudito Escritor e Historiador/1840 – 1919».

A inauguração em 25 de julho de 1929
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Quatro anos mais tarde, em 25 de julho de 1929, a Comissão Administrativa da CML inaugurou o busto de Júlio de Castilho neste pequeno jardim também conhecido por Jardim de Santa Luzia, pela proximidade à Igreja de São Brás ou de Santa Luzia, erguida sobre a muralha da antiga cerca. O miradouro resultou de uma iniciativa de Quirino da Fonseca, para fornecer à cidade uma panorâmica geral de Alfama e do Rio Tejo, sendo que o assunto esteve alguns anos em discussão. Raul Proença no seu Guia de Portugal afirma no seu 1º volume, publicado pela primeira vez em 1924,  afirma que «Pela parte detrás da igreja existe, suportado pela muralha que desce a calçada de S. João da Praça, contornando-a, um troço de terreno, hoje inculto» e defende que «Como o templo não tem nenhum valor, poder-se-ia arrasar todo esse terreno e transformá-lo num jardim público, o que não só ofereceria aos habitantes uma janela aberta sobre o Tejo como também teria a vantagem de evitar o futuro desaparecimento do mais importante trecho de muralha goda que Lisboa possui.» Mais tarde, o espaço somou um painel de azulejos representando A Tomada do Castelo de São Jorge aos Mouros por Dom Afonso Henriques e outro painel com a a antiga Praça do Comércio (da autoria de António Quaresma e produzidos na Fábrica Viúva Lamego)  e ainda um outro, com uma vista de Lisboa com barcos no Tejo (desenho de Martins Barata e pintado em 1939 por Victoria Pereira).

Júlio de Castilho (Lisboa/30.04.1840- 08.02.1919/Lisboa), 2.º visconde de Castilho por ser filho primogénito de António Feliciano de Castilho (também perpetuado em Lisboa na Rua Castilho), é considerado um percursor dos estudos olisiponenses, tendo acumulado ao logo da vida uma importante coleção pessoal de documentos sobre o tema, que se encontra depositada na Biblioteca Nacional.

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rotunda e a Praça Marquês de Pombal

Freguesia de Santo António
(Foto: Rui Mendes)

A Praça Marquês de Pombal está assim oficialmente denominada desde há 135 anos, ou seja, desde 1882, embora popularmente seja  ainda hoje conhecida como Rotunda, tanto pela sua configuração pouco comum na época, como por esta denominação ter sido reforçada na memória dos lisboetas pelo nome da estação de Metropolitano de Lisboa, que durou de 1959 até 1998.

A Praça Marquês de Pombal é uma homenagem a Sebastião José de Carvalho e Melo (Lisboa/13.05.1699 – 08.05.1782/Pombal), o estadista que coordenou a reconstrução de Lisboa após o terramoto de 1755,  feita no século seguinte pela  deliberação de câmara de 6 de maio de 1882, ou seja, na data do centenário do falecimento do Marquês e quase no dia do 183º aniversário do seu nascimento. O espaço escolhido foi a confluência da Avenida da Liberdade com a Rua Fontes (hoje, Avenida Fontes Pereira de Melo) e o Parque da Avenida da Liberdade (hoje,  Parque Eduardo VII), ou seja, no topo da Baixa lisboeta reconstruída. Quatro anos depois, conforme documento de 2 de novembro de 1886 a Câmara ainda estava a negociar com diversos proprietários os preços das expropriações para completar a execução da Praça Marquês de Pombal.

Já o nome popular de Rotunda a individualizava por então as Rotundas serem pouco frequentes, por ter sido o local de concentração dos Republicanos no 5 de Outubro de 1910 e por ter sido o nome da estação do Metropolitano de Lisboa neste local, inaugurada em 29 de dezembro de 1959, e na qual confluíam ambos os troços do então novo sistema de transporte, quer Sete Rios-Restauradores quer Entrecampos- Restauradores; só a partir de 1998, a estação, já com duas linhas diferentes, passou a denominar-se Marquês de Pombal.

No dia do 235º aniversário de nascimento do Marquês de Pombal ( 13 de Maio de 1934), graças a uma subscrição pública, foi inaugurada no centro da Praça Marquês de Pombal um monumento em sua honra onde a figura feminina simboliza a Lisboa reconstruída. Esta obra resultou do traçado dos arquitetos Adães Bermudes e António do Couto bem como da escultura de Francisco dos Santos, Simões de Almeida e Leopoldo de Almeida.

Freguesias de Santo António
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua do Prémio Nobel da Paz Isaac Rabin

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias | NT do DPC )

Desde a publicação do Edital municipal de 24 de setembro de 1996 que Isaac Rabin dá nome a uma Rua da Freguesia do Lumiar, no ano seguinte a ter sido assassinado, dois anos após ter sido foi Prémio Nobel da Paz e três anos após ter celebrado um Acordo de Paz com a Palestina.

A atribuição deste topónimo resultou de uma moção de pesar, aprovada por unanimidade pela Câmara lisboeta em 15 de novembro de 1995, tendo a Comissão Municipal de Toponímia  designado para o efeito a Rua C à Alameda Mahatma Gandhi, na Urbanização do Paço do Lumiar e inaugurado oficialmente o arruamento em 14 de março de 1997.

Yitzhak Rabin  (Jerusalém/01.03.1922 – 04.11.1995/Telavive), filho de mãe russa e pai norte-americano, foi o primeiro chefe de governo israelita a ter nascido já no território que se tornaria Israel em 1948. Foi assassinado no decorrer de uma manifestação de paz em Telavive, na Praça dos Reis (hoje Praça Yitzhak Rabin), com 3 tiros nas costas, pelo judeu radical de extrema-direita Yigal Amir que se opunha aos Acordos de Paz celebrados com a Palestina.

Na cronologia dos acontecimentos para o estabelecimento da Paz entre Israel e a Pelestina, foi assinada em Oslo a 20 de agosto de 1993 uma Declaração de Princípios (Oslo I) que a 13 de setembro, na Casa Branca, Rabin e Arafat selaram publicamente com um aperto de mão.  A 4 de maio do ano seguinte, no Cairo, Rabin assina o Acordo de Paz. A 24 de julho, junta-se o rei Hussein da Jordânia a assinar a paz entre Israel e a Jordânia, que termina 46 anos de estado de guerra e foi formalizada  em 26 de outubro, mês em que também foi anunciado o Prémio Nobel da Paz para Arafat, Rabin e Peres que foi entregue em dezembro seguinte.

Mas no essencial, o percurso de vida de Isaac Rabin acompanhou o da formação do Estado Israel. Foi soldado do Palmah e combateu na Guerra da Independência (1948-1949); chefiou o Comando do Norte (1956) e o Estado-Maior das Forças Armadas Israelitas (1964- 1967); participou na Guerra dos 6 Dias (iniciada no dia 5 de junho de 1967), finda a qual Israel tinha triplicado o seu território. Depois, assumiu funções políticas como embaixador nos Estados Unidos da América (1968-1973); de líder do Partido Trabalhista (Ha-Avoda) e deputado trabalhista no parlamento (1973); Ministro do Trabalho de Golda Meir (março de 1974) e Ministro da Defesa (1985- 1990) na coligação Likud-Trabalhistas; Primeiro-Ministro em 1974-1977 e de novo, também de 1992 a 1995, período no qual em 1993, em detrimento de uma Terra de Israel Maior preferiu celebrar um Acordo de Paz com Arafat, representante palestiano da OLP, e do qual resultou no ano seguinte de 1994 ser agraciado com Prémio Nobel da Paz, juntamente com Yasser Arafat e Shimon Peres ( era o Ministro dos Negócios Estrangeiros de Rabin) para em 28 de setembro de 1995, Rabin assinar com Arafat um segundo acordo mais significativo (Oslo II), trazendo assim a Paz.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

 

O Príncipe dos Poetas Brasileiros numa Praça de Arroios

A Praça Olegário Mariano em 1964
(Foto: Artur João Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Praça Olegário Mariano foi um topónimo sugerido à edilidade lisboeta pelo Diário de Notícias, na sua edição de 15 de dezembro de 1958, para homenagear o poeta brasileiro que vinte anos antes fora eleito o Príncipe dos Poetas Brasileiros, igualmente conhecido como Poeta das Cigarras e como João da Avenida, enquanto cronista.

O Edital municipal de 4 de maio de 1959 colocou o topónimo na artéria até aí era identificada como Praceta da Rua Pascoal de Melo, cinco anos após o homenageado deixar de ser o embaixador do Brasil em Portugal.

Óleo sobre tela de 1928, por Candido Portinari, na Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras

Olegário Mariano Carneiro da Cunha (Recife/24.03.1889- 28.11.1958/Rio de Janeiro) foi um poeta, político e diplomata brasileiro que em 1938 foi eleito, num  concurso promovido pela revista Fon-Fon,  como Príncipe dos Poetas Brasileiros. Inicialmente parnasianista e simbolista, iniciou a sua vida literária aos 22 anos com Angelus, publicado em 1911. Depois, nos 23 livros seguintes adquiriu uma tendência intimista e ficou conhecido como o Poeta das Cigarras  por serem um de seus temas favoritos. Além da obra poética editada em livros a partir de 1911, e enfeixada nos dois volumes de Toda uma vida de poesia (1957), Olegário Mariano também publicou sob o pseudónimo de João da Avenida, durante anos, nas revistas Careta e Para Todos,  crónicas mundanas em versos humorísticos que mais tarde foram reunidas em dois livros sob os títulos Ba-ta-clan (1924) e Vida, caixa de brinquedos (1937). Em 23 de dezembro de 1926 sucedeu a Mário de Alencar na cadeira 21 da Academia Brasileira de Letras.

Nascido no mesmo ano da Proclamação da República (1889), filho de Olegária Carneiro da Cunha e de José Mariano Carneiro da Cunha, ambos heróis pernambucanos da Abolição da Escravatura e da República, também Olegário Mariano se sentiu motivado pela política tendo sido deputado à Assembleia Constituinte de 1934 e em 1937 à Câmara dos Deputados.

A sua ligação a Portugal começou em 1940, como ministro plenipotenciário nos Centenários de Portugal, seguida da sua nomeação como delegado da Academia Brasileira na Conferência Interacadémica de Lisboa para o Acordo Ortográfico de 1945 e finalmente, foi o embaixador do Brasil em Portugal nos anos de 1953 e 1954.

Na sua carreira desempenhou ainda as funções de inspetor do ensino secundário e censor de Teatro, de secretário de embaixada na Bolívia, de tabelião de  notas e oficial do 4.° Ofício de Registro de Imóveis do Rio de Janeiro.

E resta-nos deixar um poema do seu tema predileto:

Cigarra

Figurinha de outono!
Teu vulto é leve, é sensitivo,
Um misto de andorinha e bogari.
Num triste acento de abandono,
A tua voz lembra o motivo
De uma canção que um dia ouvi.

Quando te expões ao sol, o sol te impele
Para o rumor, para o bulício e tu, sorrindo,
Vibras como uma corda de guitarra…
É que o sol, quando queima a tua pele,
Dá-te o grande desejo boêmio e lindo
De ser flor, de ser pássaro ou cigarra

Cigarra cor de mel. Extraordinária!
Cigarra! Quem me dera
Que eu fosse um velho cedro adusto e bronco,
E tu, nessa alegria tumultuária,
Viesses pousar sobre o meu tronco
Ainda tonta do sol da primavera.

Terias glórias vegetais sendo vivente.
Mas um dia de lívidos palores,
Tu, cigarra, que vieste não sei donde,

Morrerias de fome lentamente
No teu leito de liquens e de flores
No aconchego sutil da minha fronde.

E eu, na dor de perder-te, no abandono,
Sem ter roubado dessa mocidade,
Do teu corpo de flor um perfume sequer,
Morreria de tédio e de saudade…
Figurinha de Outono!
Cigarra que o destino fez mulher!

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

 

As ruas de três estrangeirados críticos da Inquisição

Rua Ribeiro Sanches – Freguesia da Estrela

Ribeiro Sanches (1699- 1783), Dom Luís da Cunha (1662 – 1749) e  Alexandre Gusmão (1695 – 1753), todos os três estrangeirados do tempo de D. João V, fizeram duras críticas à Inquisição em Portugal e todos os três foram homenageados em ruas de Lisboa, em 1913, 1979 e 1990.

É com D. João V que a Inquisição atinge a sua época áurea assim como as críticas ao seu desempenho são cada vez mais intensas, nomeadamente através de Ribeiro Sanches, Luís da Cunha e Alexandre de Gusmão. Com o também estrangeirado Marquês de Pombal, a Inquisição passa a ser igual a qualquer outro tribunal régio, deixando de fazer a censura da imprensa, ao mesmo tempo que se aboliu a distinção entre cristãos-novos e cristãos-velhos. Estas medidas, retiravam toda a importância ao Tribunal do Santo Ofício mesmo que só venha a ser extinto em 1821. Por outro lado, D. João V também promoveu a vinda de estrangeiros a Portugal e as viagens de portugueses ao estrangeiro e o estrangeirado Luís António Verney (1713-1792) com o seu Verdadeiro Método de Estudar (1746) acabou por servir de base à política educativa reformista do marquês de Pombal, bem como a instituição do Colégio dos Nobres (1761) sugerida por Ribeiro Sanches, a reforma dos currículos escolares e o recurso a professores e demais estrangeiros, a par da criação da Academia das Ciências (1779).

Rua Ribeiro Sanches – Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

A Rua Ribeiro Sanches passou a ser o novo topónimo da antiga Rua Nova de S. Francisco de Paula pela publicação do Edital de 30/01/1913, com a legenda «Médico Notável Grande Figura da Ciência». Esta artéria que hoje une a Rua Presidente Arriaga à Travessa do Ferreiro pertence à freguesia da Estrela.

O homenageado António Nunes Ribeiro Sanches (Penamacor/07.03.1699- 14.10.1783/Paris), foi um médico e investigador de enorme reputação europeia, que frequentara Direito em Coimbra e Medicina em Salamanca, onde se formou em 1724. Chegou a exercer medicina em Benavente, Guarda e Amarante, mas teve de abandonar o país devido à perseguição que o Santo Ofício lhe movia por denúncia de um primo. Foi ser médico em Génova, Montpellier, Bordéus e Londres até se fixar em Leiden (Holanda), onde estudou com Hermann Boerhaave, considerado então o maior professor de medicina, que o recomendou para médico militar na Rússia e assim se tornou médico  da czarina Ana Ivanovna e da imperatriz Catarina II, para além de conselheiro de Estado, tudo isto no período de 1731 a 1747. Através de correspondência com o Marquês de Pombal, transmitiu as ideias presentes na Europa e foi também a pedido do governante que após o terramoto de 1755 escreveu o Tratado da Conservação da Saúde dos Povos, tendo-lhe também remetido, em 1761, a ideia inovadora de colocar um hospital junto de cada escola de Medicina e em 1763, o Método para aprender e estudar a Medicina . De igual modo, a notícia da expulsão da Companhia de Jesus por Alvará pombalino de 28 de junho de 1759 terá entusiasmado Ribeiro Sanches a redigir Cartas sobre a Educação da Mocidade (1760), defendendo que os privilégios e as imunidades das ordens privilegiadas teriam sido a causa da deturpação dos costumes e má educação, sendo o fidalgo educado para tratar como escravos todos os subalternos, como se as pessoas do povo não fossem proprietárias dos seus corpos e da sua honra e onde se encontra também a primeira manifestação escrita em português contra a cruel escravidão dos negros. Saliente-se ainda que em 1748, ano da execução por garrote de um seu parente em Minas Gerais, a mando da Inquisição, escreveu o libelo Origem da denominação de cristão-novo em Portugal, apanhado histórico e vigoroso safanão na odiosa discriminação que, ao longo de três séculos, permeou não apenas a mentalidade mas também a organização social, a economia e a estrutura política portuguesas, obra que terá  exercido grande influência no Testamento Político de Dom Luís da Cunha e na decisão pombalina de esvaziar o Tribunal da Inquisição da sua missão original contra as heresias.

Ribeiro Sanches que se fixou em Paris a partir de 1747, colaborou na Encyclopédie a pedido de D’Alembert e Diderot, pertenceu a diversas academias científicas europeias, distinguiu-se na venereologia, o que lhe granjeou o epíteto de médico dos males de amor, e ainda foi filósofo, pedagogista e historiador. Sendo a sua obra de reflexão política marcada por um acentuado laicismo, tendo como preocupação essencial o combate à Igreja, à intolerância religiosa e à Inquisição, não foi por acaso que a vereação republicana em 1913, latente que era o  o conflito da República com a Igreja, substituiu a Rua Nova de S. Francisco de Paula pelo seu nome.

Rua Dom Luís da Cunha – Freguesia de Alvalade

Já em 1979, por Edital de 29 de janeiro, foi a vez de Dom Luís da Cunha dar nome à Rua 4.3 do Novo Bairro das Fonsecas, junto à Avenida General Norton de Matos, na freguesia de Alvalade. O mesmo edital atribuiu também nas proximidades a Rua Mem de Sá, com a legenda «Governador do Brasil Século XVI». Em Lisboa, na Rua Dom Luís da Cunha existe também a Escola Básica Dom Luís da Cunha.

Dom Luís da Cunha ( Lisboa/25.01.1662 – 09.19.1749/Paris) foi um célebre diplomata do tempo de D. João V, enviado extraordinário às cortes de Londres em 1696 onde participou em importantes negociações relacionadas com a intervenção portuguesa na Guerra da Sucessão Espanhola, o acontecimento mais complexo da política internacional daquela época. Também foi embaixador em Madrid e Paris, bem como ministro plenipotenciário de Portugal no congresso de Utreque de 1712 a 1715. Fora antes arcediago da Sé de Évora, desembargador da Relação do Porto, de Lisboa e do Paço, académico da Academia Real de História e galardoado como comendador da Ordem de Cristo.  No seu Testamento Político fez uma severa crítica ao Tribunal da Inquisição que apelidava de « insensível e crudelíssima sangria» de portugueses, referindo o peso excessivo do Tribunal e do aparelho eclesiástico bem como a injusta perseguição aos cristãos-novos, forçados a abandonar Portugal e a ver confiscados os seus engenhos no Rio de Janeiro, no que coincidia com as reivindicações do Padre António Vieira cerca de 100 anos antes, contrapondo a ideia de dar aos judeus a possibilidade de viver sua religião como «se pratica entre todas as nações da Europa».

Rua Dom Luís da Cunha – Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

Por último, Alexandre de Gusmão, Secretário e Conselheiro de D. João V, deu nome à Rua dos Chumecos na Freguesia de Campolide, por Edital municipal de 14/12/1990. Este Edital atribuiu nova toponímia a todo o Bairro da Serafina, em resultado das reclamações da população pela que houvera sido imposta pelo Edital de 28 de dezembro do ano anterior, alegadamente numa política de recuperação da toponímia mais antiga e tradicional de Lisboa. A Comissão Municipal de Toponímia deu razão aos residentes considerando que os topónimos atribuídos anteriormente não tinham qualquer relação histórica com o Bairro da Serafina e encarregou seu vogal Engenheiro Manuel Maia Atayde de mediar com a Junta de Freguesia os novos  nomes propostos que foram  na sua grande maioria ligados à construção do Aqueduto das Águas Livres. Em resumo, a inicial Rua J, foi oficializada pela edilidade como Rua 21 do Bairro do Alto da Serafina, pelo Edital de 15/03/1950, tendo a Câmara modificado o topónimo numérico para Rua dos Chumecos pelo Edital de 28/12/1989 e face aos protestos dos moradores passou a ser a Rua Alexandre de Gusmão, pelo Edital de 14/12/1990, em resultado das negociações da autarquia com os residentes locais através da Junta de Freguesia.

Rua Alexandre Gusmão – Freguesia de Campolide

Alexandre de Gusmão (Brasil-Santos/17.07.1695 – 31.10.1753/Lisboa), irmão de Bartolomeu de Gusmão e amigo do Cavaleiro de Oliveira, estudou Cânones na Universidade de Coimbra bem como Direito Cível, Romano e Eclesiástico na Universidade de Paris, tendo começado a sua carreira como secretário particular de D. João V (então denominado escrivão da puridade), para em 1731  assumir a Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e em 1734 ficar encarregue dos despachos da Secretaria de Estado para o Brasil, tendo também durante algum tempo sido secretário da embaixada portuguesa na corte de Luís XIV. Assessorou ainda o Conde de Vila Nova de Cerveira nas negociações do Tratado de Madrid, assinado em 1750, nas quais defendeu o princípio do direito romano uti possidetis, o qual ditava que cada soberania tinha direito às terras que efetivamente ocupava, tendo sido este o primeiro acordo a delimitar os domínios coloniais portugueses e espanhóis na América do Sul. Foi ainda tradutor e autor de diatribes contra o despotismo, a superstição e a «fradaria», sendo célebre a sátira estatística dirigida aos cristãos-velhos que se gabavam do sangue rigorosamente limpo da infecção judaica, num claro ataque aos fundamentos racistas da Inquisição.

Rua Alexandre Gusmão – Freguesia de Campolide
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

A Avenida do autor da Lei de abolição da pena de morte, Barjona de Freitas

Freguesia de São Domingos de Benfica
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Avenida Conselheiro Barjona de Freitas perpetua o nome do ministro da Justiça que elaborou a proposta de Lei para abolição da pena de morte em 1867 – e cujos 150 anos se comemoram justamente neste mês -, atribuída ainda em vida do legislador e 30 anos após a promulgação dessa Lei.

Esta proposta de abolição da pena de morte foi aprovada por 90 votos contra dois  nas cortes gerais, no âmbito de uma reforma penal e das prisões, em 26 de junho de 1867, tendo sido promulgada pelo rei D. Luís I cinco dias mais tarde, em 1 de julho de 1867, tornando assim o ministro e o monarca os dois principais responsáveis políticos pela abolição da pena de morte em Portugal. A Carta de Lei de 1 de julho de 1867 aboliu a pena de morte para todos os crimes civis em Portugal, tendo sido o primeiro Estado soberano da Europa a fazê-lo. Para os crimes políticos, tinha sido já abolida em 1852.

Barjona de Freitas, o reformador do Código Penal sem pena de morte em 1867, desde 1897 que passou a dar o seu nome à  «a avenida que conduz da estrada de Bemfica, ao apeadeiro de S. Domingos, na via ferrea de Cintra, no 3º bairro d’esta cidade», através do Edital municipal de 10 de setembro, como Avenida Conselheiro Barjona de Freitas. A legenda «Jurisconsulto/1834 – 1900» foi acrescentada já no séc. XX, mais de 50 anos depois da atribuição do topónimo, na sequência de um parecer da Comissão Consultiva Municipal de Toponímia, emitido na sua reunião de 4 de junho de 1957.

O Ocidente, 15 de fevereiro de 1878

Augusto César Barjona de Freitas (Coimbra/13.01.1834 – 23.07.1900/Lisboa), nasceu filho de Maria Leocádia Barjona e de Justino António de Freitas e tornou-se catedrático de Direito da Universidade de Coimbra embora tenha acabado por trocar o ensino pela política. Filiou-se no Partido Regenerador e foi eleito deputado em 1864. Entrou no Governo da Fusão de Joaquim António de Aguiar (1865-1868), tomando posse da pasta da Justiça que também deteve mais tarde com Fontes Pereira de Melo (1871-1876) e, ainda mais duas vezes, em 1878 e em 1885, para além de ter sido Ministro do Reino de 24 de outubro de 1883 a 20 de fevereiro de 1886.

Como legislador, para além da reforma do Código Penal com a abolição da pena capital, trabalhou também nas novas Bases Municipais, na reorganização judicial e administrativa do país, na dotação do Clero e, ainda estabeleceu a representação por maioria na Lei eleitoral.

Barjona de Freitas desempenhou ainda os cargos de Conselheiro do Rei (1885) com D. Luís I, ministro plenipotenciário em Londres para negociar o diferendo sobre o mapa cor-de-rosa (1890), Presidente da Câmara dos Pares (de 1892 a 1894), Presidente do Conselho Administrativo da Companhia do Gás, advogado da Companhia dos Tabacos e da Exploração das Obras do Porto de Lisboa.

Freguesia de São Domingos de Benfica                                            (Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Avenida Sidónio Pais que esteve para ser trocada por outra figura republicana

Avenida Sidónio Pais – Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias)

A Avenida Sidónio Pais foi uma das artérias que após o 25 de Abril recebeu diversos pedidos de alterações, nomeadamente que fosse Avenida Doutor Afonso Costa, e parte dela chegou a ser, no papel, a Avenida Bernardino Machado.

Logo na 2ª reunião da Comissão Municipal de Toponímia após o 25 de Abril, em 20 dezembro de 1974, foi analisada uma carta do cidadão Alberto Bastos Flores na qual este solicitava que a Avenida Sidónio Pais passasse a ter a Doutor Afonso Costa como denominação. De igual modo, apontava mais pedidos de alterações e sugeria como possíveis futuros topónimos lisboetas os nomes de Abel Salazar, António Sérgio,  Catarina Eufémia, Cuba, Ferreira de Castro e Jaime Cortesão, tendo a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa registado e respondido que «irá considerá-las na devida oportunidade. Entretanto, entende desde já pertinente que o topónimo Praça do Ultramar seja alterado para Praça das Novas Nações, justificando dessa forma, os topónimos que a rodeiam, como Rua de Timor, Rua de Angola, Rua de Moçambique e outros.»

Em relação ao nome de Afonso Costa, um dos Primeiros Ministros da I República, no tempo da Presidência de Bernardino Machado, a 2ª Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa pós-25 de Abril, na sua reunião de 29 de junho de 1976, sugeriu que fosse o topónimo para o arruamento situado a Norte do Parque Eduardo VII, entre a Avenida Sidónio Pais e a Rua Castilho ( que desde 1982 é a Alameda Cardeal Cerejeira), mas já após as eleições autárquicas que colocaram Aquilino Ribeiro Machado como o 1º Presidente eleito da CML após o 25 de Abril, a Comissão de Toponímia sugeriu que ficasse antes num arruamento com maior extensão «que, partindo da Praça do Areeiro segue para Nascente e é vulgarmente designada por prolongamento da Avenida João XXI», que antes havia estado pendente para ser a Avenida Humberto Delgado.

Também na reunião de 6 de julho de 1976, a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa indicou o troço da Avenida Sidónio Pais compreendido entre a Avenida Afonso Costa e a Rua Marquês de Fronteira para ser a  Avenida Bernardino Machado, com o a legenda « 1851 – 1944». Contudo, as atas são omissas em relação ao desenvolvimento desta hipótese e Bernardino Machado acabou por ser homenageado numa Praça da freguesia do Lumiar em 1985.

Freguesia das Avenidas Novas – Placa Tipo IV
(Foto: Sérgio Dias)

A Avenida de Sidónio Pais, que liga a Avenida Fontes Pereira de Melo à Rua Marquês de Fronteira, é um arruamento nascido do Edital municipal de 22 de junho de 1948 no que antes era identificado como arruamento a Oriente do Parque Eduardo VII entre a Avenida Fontes Pereira de Melo e a Rua Marquês de Fronteira.

Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais (Caminha/01.05.1872 – 14.12.1918/Lisboa), conhecido como o Rei-Presidente, falecera cerca de 30 anos antes em plena Estação do Rossio,  vítima de um atentado. Militar de carreira, também era licenciado em Matemáticas, pela Universidade de Coimbra, onde aderiu à causa republicana. Após a implantação da República em 1910, foi eleito deputado à Constituinte que elaborou a Constituição Portuguesa de 1911; Ministro do Fomento do Governo de  João Chagas (1911); Ministro das Finanças (1911-1912); embaixador de Portugal em Berlim (1912- 1916), até à declaração de guerra da Alemanha a Portugal.

Regressado a Portugal, mostrou-se como figura principal de contestação ao Governo do Partido Democrático e encabeçou o golpe de estado de 5 de dezembro de 1917, tomando posse como Presidente do Ministério no dia 11 e acumulando as pastas da Guerra e  Negócios Estrangeiros, para além de a partir de dia 27 assumir ainda as funções de Presidente da República, num regime que designou como República Nova. A 9 de Maio do ano seguinte foi eleito Presidente da República por sufrágio direto, considerando que apesar do desaire da Batalha de La Lys e de problemas sociais e económicos  Sidónio Pais conseguia apoio popular com a  distribuição da sopa dos pobres (conhecida como Sopa do Sidónio) ou  a visita a hospitais na altura da Gripe Espanhola. No entanto, muitos o o consideravam um traidor aos ideais da República pelo que no 1º aniversário do golpe de estado que o colocou no poder sofreu um atentado de que escapou, para 9 dias depois falecer, a tiro, noutro, na Estação do Rossio.

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)