A Rua do Prémio Nobel da Paz Isaac Rabin

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias | NT do DPC )

Desde a publicação do Edital municipal de 24 de setembro de 1996 que Isaac Rabin dá nome a uma Rua da Freguesia do Lumiar, no ano seguinte a ter sido assassinado, dois anos após ter sido foi Prémio Nobel da Paz e três anos após ter celebrado um Acordo de Paz com a Palestina.

A atribuição deste topónimo resultou de uma moção de pesar, aprovada por unanimidade pela Câmara lisboeta em 15 de novembro de 1995, tendo a Comissão Municipal de Toponímia  designado para o efeito a Rua C à Alameda Mahatma Gandhi, na Urbanização do Paço do Lumiar e inaugurado oficialmente o arruamento em 14 de março de 1997.

Yitzhak Rabin  (Jerusalém/01.03.1922 – 04.11.1995/Telavive), filho de mãe russa e pai norte-americano, foi o primeiro chefe de governo israelita a ter nascido já no território que se tornaria Israel em 1948. Foi assassinado no decorrer de uma manifestação de paz em Telavive, na Praça dos Reis (hoje Praça Yitzhak Rabin), com 3 tiros nas costas, pelo judeu radical de extrema-direita Yigal Amir que se opunha aos Acordos de Paz celebrados com a Palestina.

Na cronologia dos acontecimentos para o estabelecimento da Paz entre Israel e a Pelestina, foi assinada em Oslo a 20 de agosto de 1993 uma Declaração de Princípios (Oslo I) que a 13 de setembro, na Casa Branca, Rabin e Arafat selaram publicamente com um aperto de mão.  A 4 de maio do ano seguinte, no Cairo, Rabin assina o Acordo de Paz. A 24 de julho, junta-se o rei Hussein da Jordânia a assinar a paz entre Israel e a Jordânia, que termina 46 anos de estado de guerra e foi formalizada  em 26 de outubro, mês em que também foi anunciado o Prémio Nobel da Paz para Arafat, Rabin e Peres que foi entregue em dezembro seguinte.

Mas no essencial, o percurso de vida de Isaac Rabin acompanhou o da formação do Estado Israel. Foi soldado do Palmah e combateu na Guerra da Independência (1948-1949); chefiou o Comando do Norte (1956) e o Estado-Maior das Forças Armadas Israelitas (1964- 1967); participou na Guerra dos 6 Dias (iniciada no dia 5 de junho de 1967), finda a qual Israel tinha triplicado o seu território. Depois, assumiu funções políticas como embaixador nos Estados Unidos da América (1968-1973); de líder do Partido Trabalhista (Ha-Avoda) e deputado trabalhista no parlamento (1973); Ministro do Trabalho de Golda Meir (março de 1974) e Ministro da Defesa (1985- 1990) na coligação Likud-Trabalhistas; Primeiro-Ministro em 1974-1977 e de novo, também de 1992 a 1995, período no qual em 1993, em detrimento de uma Terra de Israel Maior preferiu celebrar um Acordo de Paz com Arafat, representante palestiano da OLP, e do qual resultou no ano seguinte de 1994 ser agraciado com Prémio Nobel da Paz, juntamente com Yasser Arafat e Shimon Peres ( era o Ministro dos Negócios Estrangeiros de Rabin) para em 28 de setembro de 1995, Rabin assinar com Arafat um segundo acordo mais significativo (Oslo II), trazendo assim a Paz.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

 

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O Príncipe dos Poetas Brasileiros numa Praça de Arroios

A Praça Olegário Mariano em 1964
(Foto: Artur João Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Praça Olegário Mariano foi um topónimo sugerido à edilidade lisboeta pelo Diário de Notícias, na sua edição de 15 de dezembro de 1958, para homenagear o poeta brasileiro que vinte anos antes fora eleito o Príncipe dos Poetas Brasileiros, igualmente conhecido como Poeta das Cigarras e como João da Avenida, enquanto cronista.

O Edital municipal de 4 de maio de 1959 colocou o topónimo na artéria até aí era identificada como Praceta da Rua Pascoal de Melo, cinco anos após o homenageado deixar de ser o embaixador do Brasil em Portugal.

Óleo sobre tela de 1928, por Candido Portinari, na Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras

Olegário Mariano Carneiro da Cunha (Recife/24.03.1889- 28.11.1958/Rio de Janeiro) foi um poeta, político e diplomata brasileiro que em 1938 foi eleito, num  concurso promovido pela revista Fon-Fon,  como Príncipe dos Poetas Brasileiros. Inicialmente parnasianista e simbolista, iniciou a sua vida literária aos 22 anos com Angelus, publicado em 1911. Depois, nos 23 livros seguintes adquiriu uma tendência intimista e ficou conhecido como o Poeta das Cigarras  por serem um de seus temas favoritos. Além da obra poética editada em livros a partir de 1911, e enfeixada nos dois volumes de Toda uma vida de poesia (1957), Olegário Mariano também publicou sob o pseudónimo de João da Avenida, durante anos, nas revistas Careta e Para Todos,  crónicas mundanas em versos humorísticos que mais tarde foram reunidas em dois livros sob os títulos Ba-ta-clan (1924) e Vida, caixa de brinquedos (1937). Em 23 de dezembro de 1926 sucedeu a Mário de Alencar na cadeira 21 da Academia Brasileira de Letras.

Nascido no mesmo ano da Proclamação da República (1889), filho de Olegária Carneiro da Cunha e de José Mariano Carneiro da Cunha, ambos heróis pernambucanos da Abolição da Escravatura e da República, também Olegário Mariano se sentiu motivado pela política tendo sido deputado à Assembleia Constituinte de 1934 e em 1937 à Câmara dos Deputados.

A sua ligação a Portugal começou em 1940, como ministro plenipotenciário nos Centenários de Portugal, seguida da sua nomeação como delegado da Academia Brasileira na Conferência Interacadémica de Lisboa para o Acordo Ortográfico de 1945 e finalmente, foi o embaixador do Brasil em Portugal nos anos de 1953 e 1954.

Na sua carreira desempenhou ainda as funções de inspetor do ensino secundário e censor de Teatro, de secretário de embaixada na Bolívia, de tabelião de  notas e oficial do 4.° Ofício de Registro de Imóveis do Rio de Janeiro.

E resta-nos deixar um poema do seu tema predileto:

Cigarra

Figurinha de outono!
Teu vulto é leve, é sensitivo,
Um misto de andorinha e bogari.
Num triste acento de abandono,
A tua voz lembra o motivo
De uma canção que um dia ouvi.

Quando te expões ao sol, o sol te impele
Para o rumor, para o bulício e tu, sorrindo,
Vibras como uma corda de guitarra…
É que o sol, quando queima a tua pele,
Dá-te o grande desejo boêmio e lindo
De ser flor, de ser pássaro ou cigarra

Cigarra cor de mel. Extraordinária!
Cigarra! Quem me dera
Que eu fosse um velho cedro adusto e bronco,
E tu, nessa alegria tumultuária,
Viesses pousar sobre o meu tronco
Ainda tonta do sol da primavera.

Terias glórias vegetais sendo vivente.
Mas um dia de lívidos palores,
Tu, cigarra, que vieste não sei donde,

Morrerias de fome lentamente
No teu leito de liquens e de flores
No aconchego sutil da minha fronde.

E eu, na dor de perder-te, no abandono,
Sem ter roubado dessa mocidade,
Do teu corpo de flor um perfume sequer,
Morreria de tédio e de saudade…
Figurinha de Outono!
Cigarra que o destino fez mulher!

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

 

As ruas de três estrangeirados críticos da Inquisição

Rua Ribeiro Sanches – Freguesia da Estrela

Ribeiro Sanches (1699- 1783), Dom Luís da Cunha (1662 – 1749) e  Alexandre Gusmão (1695 – 1753), todos os três estrangeirados do tempo de D. João V, fizeram duras críticas à Inquisição em Portugal e todos os três foram homenageados em ruas de Lisboa, em 1913, 1979 e 1990.

É com D. João V que a Inquisição atinge a sua época áurea assim como as críticas ao seu desempenho são cada vez mais intensas, nomeadamente através de Ribeiro Sanches, Luís da Cunha e Alexandre de Gusmão. Com o também estrangeirado Marquês de Pombal, a Inquisição passa a ser igual a qualquer outro tribunal régio, deixando de fazer a censura da imprensa, ao mesmo tempo que se aboliu a distinção entre cristãos-novos e cristãos-velhos. Estas medidas, retiravam toda a importância ao Tribunal do Santo Ofício mesmo que só venha a ser extinto em 1821. Por outro lado, D. João V também promoveu a vinda de estrangeiros a Portugal e as viagens de portugueses ao estrangeiro e o estrangeirado Luís António Verney (1713-1792) com o seu Verdadeiro Método de Estudar (1746) acabou por servir de base à política educativa reformista do marquês de Pombal, bem como a instituição do Colégio dos Nobres (1761) sugerida por Ribeiro Sanches, a reforma dos currículos escolares e o recurso a professores e demais estrangeiros, a par da criação da Academia das Ciências (1779).

Rua Ribeiro Sanches – Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

A Rua Ribeiro Sanches passou a ser o novo topónimo da antiga Rua Nova de S. Francisco de Paula pela publicação do Edital de 30/01/1913, com a legenda «Médico Notável Grande Figura da Ciência». Esta artéria que hoje une a Rua Presidente Arriaga à Travessa do Ferreiro pertence à freguesia da Estrela.

O homenageado António Nunes Ribeiro Sanches (Penamacor/07.03.1699- 14.10.1783/Paris), foi um médico e investigador de enorme reputação europeia, que frequentara Direito em Coimbra e Medicina em Salamanca, onde se formou em 1724. Chegou a exercer medicina em Benavente, Guarda e Amarante, mas teve de abandonar o país devido à perseguição que o Santo Ofício lhe movia por denúncia de um primo. Foi ser médico em Génova, Montpellier, Bordéus e Londres até se fixar em Leiden (Holanda), onde estudou com Hermann Boerhaave, considerado então o maior professor de medicina, que o recomendou para médico militar na Rússia e assim se tornou médico  da czarina Ana Ivanovna e da imperatriz Catarina II, para além de conselheiro de Estado, tudo isto no período de 1731 a 1747. Através de correspondência com o Marquês de Pombal, transmitiu as ideias presentes na Europa e foi também a pedido do governante que após o terramoto de 1755 escreveu o Tratado da Conservação da Saúde dos Povos, tendo-lhe também remetido, em 1761, a ideia inovadora de colocar um hospital junto de cada escola de Medicina e em 1763, o Método para aprender e estudar a Medicina . De igual modo, a notícia da expulsão da Companhia de Jesus por Alvará pombalino de 28 de junho de 1759 terá entusiasmado Ribeiro Sanches a redigir Cartas sobre a Educação da Mocidade (1760), defendendo que os privilégios e as imunidades das ordens privilegiadas teriam sido a causa da deturpação dos costumes e má educação, sendo o fidalgo educado para tratar como escravos todos os subalternos, como se as pessoas do povo não fossem proprietárias dos seus corpos e da sua honra e onde se encontra também a primeira manifestação escrita em português contra a cruel escravidão dos negros. Saliente-se ainda que em 1748, ano da execução por garrote de um seu parente em Minas Gerais, a mando da Inquisição, escreveu o libelo Origem da denominação de cristão-novo em Portugal, apanhado histórico e vigoroso safanão na odiosa discriminação que, ao longo de três séculos, permeou não apenas a mentalidade mas também a organização social, a economia e a estrutura política portuguesas, obra que terá  exercido grande influência no Testamento Político de Dom Luís da Cunha e na decisão pombalina de esvaziar o Tribunal da Inquisição da sua missão original contra as heresias.

Ribeiro Sanches que se fixou em Paris a partir de 1747, colaborou na Encyclopédie a pedido de D’Alembert e Diderot, pertenceu a diversas academias científicas europeias, distinguiu-se na venereologia, o que lhe granjeou o epíteto de médico dos males de amor, e ainda foi filósofo, pedagogista e historiador. Sendo a sua obra de reflexão política marcada por um acentuado laicismo, tendo como preocupação essencial o combate à Igreja, à intolerância religiosa e à Inquisição, não foi por acaso que a vereação republicana em 1913, latente que era o  o conflito da República com a Igreja, substituiu a Rua Nova de S. Francisco de Paula pelo seu nome.

Rua Dom Luís da Cunha – Freguesia de Alvalade

Já em 1979, por Edital de 29 de janeiro, foi a vez de Dom Luís da Cunha dar nome à Rua 4.3 do Novo Bairro das Fonsecas, junto à Avenida General Norton de Matos, na freguesia de Alvalade. O mesmo edital atribuiu também nas proximidades a Rua Mem de Sá, com a legenda «Governador do Brasil Século XVI». Em Lisboa, na Rua Dom Luís da Cunha existe também a Escola Básica Dom Luís da Cunha.

Dom Luís da Cunha ( Lisboa/25.01.1662 – 09.19.1749/Paris) foi um célebre diplomata do tempo de D. João V, enviado extraordinário às cortes de Londres em 1696 onde participou em importantes negociações relacionadas com a intervenção portuguesa na Guerra da Sucessão Espanhola, o acontecimento mais complexo da política internacional daquela época. Também foi embaixador em Madrid e Paris, bem como ministro plenipotenciário de Portugal no congresso de Utreque de 1712 a 1715. Fora antes arcediago da Sé de Évora, desembargador da Relação do Porto, de Lisboa e do Paço, académico da Academia Real de História e galardoado como comendador da Ordem de Cristo.  No seu Testamento Político fez uma severa crítica ao Tribunal da Inquisição que apelidava de « insensível e crudelíssima sangria» de portugueses, referindo o peso excessivo do Tribunal e do aparelho eclesiástico bem como a injusta perseguição aos cristãos-novos, forçados a abandonar Portugal e a ver confiscados os seus engenhos no Rio de Janeiro, no que coincidia com as reivindicações do Padre António Vieira cerca de 100 anos antes, contrapondo a ideia de dar aos judeus a possibilidade de viver sua religião como «se pratica entre todas as nações da Europa».

Rua Dom Luís da Cunha – Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

Por último, Alexandre de Gusmão, Secretário e Conselheiro de D. João V, deu nome à Rua dos Chumecos na Freguesia de Campolide, por Edital municipal de 14/12/1990. Este Edital atribuiu nova toponímia a todo o Bairro da Serafina, em resultado das reclamações da população pela que houvera sido imposta pelo Edital de 28 de dezembro do ano anterior, alegadamente numa política de recuperação da toponímia mais antiga e tradicional de Lisboa. A Comissão Municipal de Toponímia deu razão aos residentes considerando que os topónimos atribuídos anteriormente não tinham qualquer relação histórica com o Bairro da Serafina e encarregou seu vogal Engenheiro Manuel Maia Atayde de mediar com a Junta de Freguesia os novos  nomes propostos que foram  na sua grande maioria ligados à construção do Aqueduto das Águas Livres. Em resumo, a inicial Rua J, foi oficializada pela edilidade como Rua 21 do Bairro do Alto da Serafina, pelo Edital de 15/03/1950, tendo a Câmara modificado o topónimo numérico para Rua dos Chumecos pelo Edital de 28/12/1989 e face aos protestos dos moradores passou a ser a Rua Alexandre de Gusmão, pelo Edital de 14/12/1990, em resultado das negociações da autarquia com os residentes locais através da Junta de Freguesia.

Rua Alexandre Gusmão – Freguesia de Campolide

Alexandre de Gusmão (Brasil-Santos/17.07.1695 – 31.10.1753/Lisboa), irmão de Bartolomeu de Gusmão e amigo do Cavaleiro de Oliveira, estudou Cânones na Universidade de Coimbra bem como Direito Cível, Romano e Eclesiástico na Universidade de Paris, tendo começado a sua carreira como secretário particular de D. João V (então denominado escrivão da puridade), para em 1731  assumir a Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e em 1734 ficar encarregue dos despachos da Secretaria de Estado para o Brasil, tendo também durante algum tempo sido secretário da embaixada portuguesa na corte de Luís XIV. Assessorou ainda o Conde de Vila Nova de Cerveira nas negociações do Tratado de Madrid, assinado em 1750, nas quais defendeu o princípio do direito romano uti possidetis, o qual ditava que cada soberania tinha direito às terras que efetivamente ocupava, tendo sido este o primeiro acordo a delimitar os domínios coloniais portugueses e espanhóis na América do Sul. Foi ainda tradutor e autor de diatribes contra o despotismo, a superstição e a «fradaria», sendo célebre a sátira estatística dirigida aos cristãos-velhos que se gabavam do sangue rigorosamente limpo da infecção judaica, num claro ataque aos fundamentos racistas da Inquisição.

Rua Alexandre Gusmão – Freguesia de Campolide
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

A Avenida do autor da Lei de abolição da pena de morte, Barjona de Freitas

Freguesia de São Domingos de Benfica
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Avenida Conselheiro Barjona de Freitas perpetua o nome do ministro da Justiça que elaborou a proposta de Lei para abolição da pena de morte em 1867 – e cujos 150 anos se comemoram justamente neste mês -, atribuída ainda em vida do legislador e 30 anos após a promulgação dessa Lei.

Esta proposta de abolição da pena de morte foi aprovada por 90 votos contra dois  nas cortes gerais, no âmbito de uma reforma penal e das prisões, em 26 de junho de 1867, tendo sido promulgada pelo rei D. Luís I cinco dias mais tarde, em 1 de julho de 1867, tornando assim o ministro e o monarca os dois principais responsáveis políticos pela abolição da pena de morte em Portugal. A Carta de Lei de 1 de julho de 1867 aboliu a pena de morte para todos os crimes civis em Portugal, tendo sido o primeiro Estado soberano da Europa a fazê-lo. Para os crimes políticos, tinha sido já abolida em 1852.

Barjona de Freitas, o reformador do Código Penal sem pena de morte em 1867, desde 1897 que passou a dar o seu nome à  «a avenida que conduz da estrada de Bemfica, ao apeadeiro de S. Domingos, na via ferrea de Cintra, no 3º bairro d’esta cidade», através do Edital municipal de 10 de setembro, como Avenida Conselheiro Barjona de Freitas. A legenda «Jurisconsulto/1834 – 1900» foi acrescentada já no séc. XX, mais de 50 anos depois da atribuição do topónimo, na sequência de um parecer da Comissão Consultiva Municipal de Toponímia, emitido na sua reunião de 4 de junho de 1957.

O Ocidente, 15 de fevereiro de 1878

Augusto César Barjona de Freitas (Coimbra/13.01.1834 – 23.07.1900/Lisboa), nasceu filho de Maria Leocádia Barjona e de Justino António de Freitas e tornou-se catedrático de Direito da Universidade de Coimbra embora tenha acabado por trocar o ensino pela política. Filiou-se no Partido Regenerador e foi eleito deputado em 1864. Entrou no Governo da Fusão de Joaquim António de Aguiar (1865-1868), tomando posse da pasta da Justiça que também deteve mais tarde com Fontes Pereira de Melo (1871-1876) e, ainda mais duas vezes, em 1878 e em 1885, para além de ter sido Ministro do Reino de 24 de outubro de 1883 a 20 de fevereiro de 1886.

Como legislador, para além da reforma do Código Penal com a abolição da pena capital, trabalhou também nas novas Bases Municipais, na reorganização judicial e administrativa do país, na dotação do Clero e, ainda estabeleceu a representação por maioria na Lei eleitoral.

Barjona de Freitas desempenhou ainda os cargos de Conselheiro do Rei (1885) com D. Luís I, ministro plenipotenciário em Londres para negociar o diferendo sobre o mapa cor-de-rosa (1890), Presidente da Câmara dos Pares (de 1892 a 1894), Presidente do Conselho Administrativo da Companhia do Gás, advogado da Companhia dos Tabacos e da Exploração das Obras do Porto de Lisboa.

Freguesia de São Domingos de Benfica                                            (Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Avenida Sidónio Pais que esteve para ser trocada por outra figura republicana

Avenida Sidónio Pais – Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias)

A Avenida Sidónio Pais foi uma das artérias que após o 25 de Abril recebeu diversos pedidos de alterações, nomeadamente que fosse Avenida Doutor Afonso Costa, e parte dela chegou a ser, no papel, a Avenida Bernardino Machado.

Logo na 2ª reunião da Comissão Municipal de Toponímia após o 25 de Abril, em 20 dezembro de 1974, foi analisada uma carta do cidadão Alberto Bastos Flores na qual este solicitava que a Avenida Sidónio Pais passasse a ter a Doutor Afonso Costa como denominação. De igual modo, apontava mais pedidos de alterações e sugeria como possíveis futuros topónimos lisboetas os nomes de Abel Salazar, António Sérgio,  Catarina Eufémia, Cuba, Ferreira de Castro e Jaime Cortesão, tendo a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa registado e respondido que «irá considerá-las na devida oportunidade. Entretanto, entende desde já pertinente que o topónimo Praça do Ultramar seja alterado para Praça das Novas Nações, justificando dessa forma, os topónimos que a rodeiam, como Rua de Timor, Rua de Angola, Rua de Moçambique e outros.»

Em relação ao nome de Afonso Costa, um dos Primeiros Ministros da I República, no tempo da Presidência de Bernardino Machado, a 2ª Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa pós-25 de Abril, na sua reunião de 29 de junho de 1976, sugeriu que fosse o topónimo para o arruamento situado a Norte do Parque Eduardo VII, entre a Avenida Sidónio Pais e a Rua Castilho ( que desde 1982 é a Alameda Cardeal Cerejeira), mas já após as eleições autárquicas que colocaram Aquilino Ribeiro Machado como o 1º Presidente eleito da CML após o 25 de Abril, a Comissão de Toponímia sugeriu que ficasse antes num arruamento com maior extensão «que, partindo da Praça do Areeiro segue para Nascente e é vulgarmente designada por prolongamento da Avenida João XXI», que antes havia estado pendente para ser a Avenida Humberto Delgado.

Também na reunião de 6 de julho de 1976, a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa indicou o troço da Avenida Sidónio Pais compreendido entre a Avenida Afonso Costa e a Rua Marquês de Fronteira para ser a  Avenida Bernardino Machado, com o a legenda « 1851 – 1944». Contudo, as atas são omissas em relação ao desenvolvimento desta hipótese e Bernardino Machado acabou por ser homenageado numa Praça da freguesia do Lumiar em 1985.

Freguesia das Avenidas Novas – Placa Tipo IV
(Foto: Sérgio Dias)

A Avenida de Sidónio Pais, que liga a Avenida Fontes Pereira de Melo à Rua Marquês de Fronteira, é um arruamento nascido do Edital municipal de 22 de junho de 1948 no que antes era identificado como arruamento a Oriente do Parque Eduardo VII entre a Avenida Fontes Pereira de Melo e a Rua Marquês de Fronteira.

Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais (Caminha/01.05.1872 – 14.12.1918/Lisboa), conhecido como o Rei-Presidente, falecera cerca de 30 anos antes em plena Estação do Rossio,  vítima de um atentado. Militar de carreira, também era licenciado em Matemáticas, pela Universidade de Coimbra, onde aderiu à causa republicana. Após a implantação da República em 1910, foi eleito deputado à Constituinte que elaborou a Constituição Portuguesa de 1911; Ministro do Fomento do Governo de  João Chagas (1911); Ministro das Finanças (1911-1912); embaixador de Portugal em Berlim (1912- 1916), até à declaração de guerra da Alemanha a Portugal.

Regressado a Portugal, mostrou-se como figura principal de contestação ao Governo do Partido Democrático e encabeçou o golpe de estado de 5 de dezembro de 1917, tomando posse como Presidente do Ministério no dia 11 e acumulando as pastas da Guerra e  Negócios Estrangeiros, para além de a partir de dia 27 assumir ainda as funções de Presidente da República, num regime que designou como República Nova. A 9 de Maio do ano seguinte foi eleito Presidente da República por sufrágio direto, considerando que apesar do desaire da Batalha de La Lys e de problemas sociais e económicos  Sidónio Pais conseguia apoio popular com a  distribuição da sopa dos pobres (conhecida como Sopa do Sidónio) ou  a visita a hospitais na altura da Gripe Espanhola. No entanto, muitos o o consideravam um traidor aos ideais da República pelo que no 1º aniversário do golpe de estado que o colocou no poder sofreu um atentado de que escapou, para 9 dias depois falecer, a tiro, noutro, na Estação do Rossio.

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua do Padre António Vieira, defensor da abolição da escravatura

Freguesias das Avenidas Novas e de Campolide (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias das Avenidas Novas e de Campolide
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua Padre António Vieira nasceu da deliberação camarária de 21 de outubro de 1909 para homenagear o padre jesuíta que se distinguiu como missionário e pregador, diplomata e político, que a memória popular recorda como o autor do Sermão de Santo António aos Peixes (1654) e da defesa da abolição da escravatura.

Este topónimo foi fixado em 1909 na Rua D entre a Rua José da Silva Carvalho [hoje, Rua de Artilharia Um] e a Rua Castilho, sendo que tal como a Rua Francisco Manuel de Melo, foram artérias que começaram a ser abertas em 1910.

Padre António Vieira pintado por António Nunes Junior no Saão Nobre dos Paços do Concelho de Lisboa (Foto: Francisco Leite Pinto, anos 80 do séc. XX, Arquivo Municipal de Lisboa)

Padre António Vieira pintado por António Nunes Junior no Salão Nobre dos Paços do Concelho de Lisboa
(Foto: Francisco Leite Pinto, anos 80 do séc. XX, Arquivo Municipal de Lisboa)

António Vieira (Lisboa/06.02.1608-18.07.1697/Baía) nasceu na Rua dos Cónegos também conhecida como Rua do Leão, na então freguesia da Sé, como primogénito de quatro filhos da lisboeta Maria de Azevedo e de Cristóvão Vieira Ravasco, de origens alentejanas mas cuja mãe era filha de uma mulata. A partir de 1614 foi viver para o Brasil já que o seu pai conseguiu lá trabalho como escrivão no Tribunal da Relação da Baía. Estudou no colégio jesuíta da Baía e ingressou na Companhia de Jesus como noviço em 1623, recebendo ordens em 1634 e iniciando nessa altura o seu trabalho como pregador, de oratória barroca de acordo com Margarida Vieira Mendes. A partir do final de 1626 ou início do ano seguinte, começou a exercer como professor de Retórica em Olinda e em 1638, foi nomeado Lente de Teologia do Colégio Jesuíta de Salvador.

Em 1641 regressou a Lisboa com o governador, para apresentar ao rei D. João IV a adesão à causa da Restauração. Para além de confessor da rainha D. Luísa de Gusmão, o rei nomeou-o pregador régio e encarregou-o então de várias missões diplomáticas nos Países Baixos (1646) e em França (1647), após o que regressou novamente ao Brasil e se empenhou na missionação junto dos índios, de 1653 a 1661, gerindo a Missão no Maranhão e no Grão-Pará. O Padre António Vieira defendeu incansavelmente os direitos dos povos indígenas, combatendo a sua exploração e escravização, o que lhe valeu 0 nome de Paiaçu, o termo tupi para Grande Pai, tendo ficado célebre o seu Sermão da Primeira Dominga de Quaresma, em 1653, no qual tentou convencer os senhores de engenho a libertarem os seus escravos indígenas.

Deixou uma obra que exprime as suas opiniões políticas em  cerca de 200 Sermões publicados em 16 tomos ( de 1679 a 1699), Esperanças de Portugal – Quinto Império do Mundo, Clavis Prophetarum, História do Futuro e 3 tomos de Cartas. Defendeu os judeus e a abolição da distinção entre cristãos-novos e cristãos-velhos, assim como a abolição da escravatura. Criticou ainda severamente os sacerdotes da sua época e a própria Inquisição. Aliás, após a morte de D. João IV foi condenado pela Inquisição de professar opiniões heréticas, pelos seus manuscritos Esperanças de Portugal,  Clavis Prophetarum História do Futuro, num processo que durou de 21 de julho de 1663 a 1667 sob desterro em Coimbra, e do qual só foi absolvido com a subida ao trono de D. Pedro II, em 1668.

A partir de 1669 e durante seis anos passou a desenvolver trabalho de diplomata em Roma, tendo conseguido que por determinação papal fosse suspensa a Inquisição, entre 1675 e 1681, em Portugal e no império. Em 1681 regressou definitivamente à Baía, e foi visitador-geral das missões do Brasil para além de se dedicar à edição das suas obras, nomeadamente das suas cerca de 700 cartas, tendo aí morrido aos 89 anos de idade.

Em Lisboa, este grande orador também deu nome em 1959 ao Liceu Padre António Vieira, da autoria do arqº Rui Jervis Athouguia. Na toponímia surge, entre outros locais, no Algueirão, em Almada, na Amadora, Braga, Chaves, Coimbra, Fiães, Gondomar, Guarda, Odivelas, Porto, Porto Salvo, Póvoa de Santo Adrião, Rio de Mouro, Santo António dos Cavaleiros, e no Brasil, em Esteio, Parnaíba, Porto Alegre, Salvador, Santa Catarina, São Bernardo e São Paulo.

Freguesias das Avenidas Novas e de Campolide (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias das Avenidas Novas e de Campolide
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

Os últimos topónimos atribuídos em 1916

Freguesias de Arroios e Penha de França (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias de Arroios e Penha de França
(Planta: Sérgio Dias)

O último Edital municipal de toponímia de 1916 foi publicado no dia 27 de novembro e incluiu 6 topónimos: dois relacionados com o topónimo Penha de França em dois locais distintos da cidade, três de conselheiros já sediados em Arroios aos quais foi retirado esse título,  e um referente a heróis da I Guerra Mundial numa artéria repartida entre a Penha de França e Arroios.

De acordo com as deliberações da sessão de câmara de 23/11/1916, o vereador Manuel Joaquim dos Santos apresentou uma solicitação da Junta de Freguesia de Arroios para que fossem alterados alguns topónimos de forma a «que se instaure um processo de expropriação de uma parcela de terreno na quinta do Fole à estrada da Penha de França e se passe a dar denominação de rua da Penha de França, à rua da Penha de França (á Escola Politecnica) a de calçada da Penha de França, á rua Conselheiro Carrilho a de Antonio Pereira Carrilho, à rua Conselheiro Monteverde a de rua Achiles Monteverde, à Rua Conselheiro Morais Soares, a de rua Morais Soares, e á do Caracol da Penha, a de rua dos Herois do Kionga», o que foi aprovado por unanimidade.

Assim, a Estrada da Penha de França passou a Rua da Penha de França  e importa esclarecer a origem do topónimo Penha de França neste local. António Simões, um escultor de imagens sacras ou imaginário, como se dizia na sua época, encontrando-se perdido em Alcácer Quibir fez promessa de que se voltasse a Portugal fabricaria várias imagens de Nossa Senhora e lhes daria um destino condigno. De regresso,  chamou Senhora da Penha de França (uma invocação de um santuário de Salamanca) à última imagem que produziu  e esta foi inicialmente colocada na Igreja da Vitória da Baixa lisboeta até o escultor ter erguido uma Ermida,  no Monte Alperche, em terrenos de Afonso Torres de Magalhães, onde a dita imagem de Nossa Senhora da Penha de França se acolheu em 1597, apesar da Ermida ter ficado concluída apenas no ano seguinte. Passados seis anos, em 1604, começou a construir-se no local uma nova Igreja, maior e com Casa Conventual, concluída em 1635 e que acabou por estender o nome da Senhora da Penha de França a todo o sítio, até chegar a ser também o da própria freguesia.

Pormenor da planta de Filipe Folque de 1857 (Arquivo Municipal de Lisboa)

Pormenor da planta de Filipe Folque de 1857
(Arquivo Municipal de Lisboa)

Ora já existia uma Rua da Penha de França nas proximidades da Rua da Escola Politécnica,  o que causaria equívocos caso existissem duas na cidade pelo que foi aprovado que esta passasse a designar-se como Calçada da Penha de França em 1916, embora de seguida tenha sido a Calçada João do Rio e hoje a encontremos como Calçada Engº Miguel Pais (desde a publicação do Edital municipal de 23/12/1948). Nesta artéria, quando ainda era designada como Rua da Penha de França, nasceu Maria Matos em 1886.

Já António Pereira Carrilho, Aquiles Monteverde e Morais Soares ficaram sem o título de conselheiro no enunciado dos topónimos, trocado que foi pelos seus próprios nomes, uma vez que na  I República era característico eliminar da toponímia referências à monarquia e o título de conselheiro era atribuído pelo soberano, tradicionalmente aos magistrados do Supremo Tribunal, mas também concedido a quem tivesse prestado serviços honrosos ao país.

Antonio Pereira Carrilho, Diário Ilustrad, 19 de março de 1880

António Pereira Carrilho, Diário Ilustrado, 19 de março de 1880

António Pereira Carrilho, a cujo topónimo acresceu mais tarde a legenda «Notável Economista e Jornalista/1835 – 1903 » por parecer da Comissão Municipal de Toponímia de 03/03/1960, antes de ser Rua do Conselheiro Pereira Carrilho era um troço da antiga Estrada de Circunvalação. O homenageado é António Maria Pereira Carrilho (Lisboa/10.10.1835 – 16.11.1903/Paris) que se notabilizou como Diretor Geral da Contabilidade Pública e Secretário Geral do Ministério da Fazenda, responsável por elaborar o Orçamento Geral do Estado ao serviço de diversos Governos e os explicar na Câmara dos Deputados. Carrilho desempenhou também a função de Presidente do Conselho de Administração da Real Companhia dos Caminhos-de-Ferro e também foi recompensado com a Grã-Cruz da Ordem de Cristo. Fundou ainda O Economista em 1880 e colaborou com os jornais Diário Mercantil do Porto, Gazeta do Povo, Opinião O Progressista. Esta figura do rotativismo liberal foi ainda diversas vezes deputado a partir de 1875 e par do reino em 1902 e 1903.

aquiles-monteverde-livroAquiles Monteverde, cujo topónimo recebeu mais tarde a legenda «Escritor Didáctico e Diplomata/ 1803 – 1881» por parecer da Comissão Municipal de Toponímia de 19/04/1960, antes de ser Rua do Conselheiro Monteverde (Edital de 14/02/1882) era a Travessa Cruz do Tabuado. Perpetua o nome de Emílio Aquiles Monteverde (Lisboa/09.06.1803 – 07.01.1881/Lisboa), funcionário público desde que em 1821 começou como adido à legação portuguesa de Madrid, tendo chegado a secretário geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros em 1869 e antes, em 1850 foi galardoado com o título de conselheiro, a comenda da Ordem de Cristo e a de Cavaleiro da Torre e Espada. Foi também o autor Manual Enciclopédico para uso das Escola de Instrução Primária, no último quartel do séc. XIX, aprovado pela Junta Consultiva de Instrução Pública, sendo cada edição de dezenas e centenas de milhares de exemplares.

Finalmente, sobre a Rua Morais Soares e a Rua dos Heróis de Quionga, basta aqui carregar nos seus nomes sublinhados para ser dirigido para os artigos que já publicámos sobre eles.

O regenerador Martens Ferrão na rua onde se ergueu o Cinema Mundial

O Cinema Mundial, na Rua Martens Ferrão, em 1967 (Foto: Augusto de Jesus Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Cinema Mundial, na Rua Martens Ferrão, em 1967
(Foto: Augusto de Jesus Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

O político regenerador conhecido como Martens Ferrão está desde 1902 perpetuado numa artéria de Picoas, graças a um Edital da câmara presidida pelo Conde d’Ávila que perpetuou mais onze políticos regeneradores em artérias lisboetas e nesta rua partilhada hoje pelas freguesias das Avenidas Novas e de Arroios nasceu há 51 anos o Cinema Mundial.

O Edital de 29 de novembro de 1902 colocou nesta zona, em Avenidas, os nomes dos políticos António de Serpa, Casal Ribeiro, Duque D’Ávila, Hintze Ribeiro (hoje Avenida Miguel Bombarda), José Luciano (hoje Avenida Elias Garcia),  e em Ruas, os nomes de Andrade Corvo, António Enes, Barros Gomes (hoje Rua Viriato), Latino Coelho , Luís Bivar (hoje Avenida), Martens Ferrão e Pinheiro Chagas, bem como o médico Pedro Nunes e o matemático e cartógrafo Filipe Folque.

Martens Ferrão no Diário Ilustrado de 3 de novembro de 1890

Martens Ferrão no Diário Ilustrado de 3 de novembro de 1890

Sessenta e três depois, a 22 de setembro de 1965 abriu no nº 12 A da Rua Martens Ferrão o Cinema Mundial, concebido pelo Arqº Manuel Ramos Chaves. Encerrou em 2004, no ano seguinte a ter exibido a última obra de João César Monteiro (Vaivém) .

Este topónimo perpetua na memória da cidade João Baptismo da Silva Ferrão de Carvalho Martens (Lisboa – Olivais/28.01.1824 – 15.11.1895/Florença), mais conhecido como Martens Ferrão, um jurisconsulto que se destacou sobretudo como um deputado muito interventivo do Partido Regenerador (de 1854 a 1871) e com capacidade de produzir propostas de legislação, ficando também famoso por ter apoiado o governo do Duque d’Ávila na decisão de proibir as Conferências do Casino ( que decorreram de 22 de março a 26 de junho de 1871). Foi também ministro da justiça e negócios eclesiásticos (de 16 de março de 1859 a 4 de julho de 1860) e ministro do reino (1866 a 1868), substituindo António Augusto Aguiar no Ministério dos Negócios do Reino e assim promoveu a Lei da Administração Civil de 26 de junho de 1867, conhecida como Código Martens Ferrão, cujo mapa final de divisão do território ao ser publicado em dezembro gerou descontentamento generalizado e manifestações populares que levaram à queda do governo em janeiro de 1868 ( a Janeirinha) e à revogação da reforma.

Martens Ferrão exerceu ainda funções de procurador geral da Coroa e da Fazenda (1868- 1885), par do reino ( 1871), conselheiro de Estado (1874), aio dos príncipes na educação literária e científica (1874) e embaixador de Portugal junto da Santa Sé (1885-1895). Refira-se ainda que a partir de 1858 foi também lente da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, afirmando-se como um reputado especialista em Direito.

Fregeusias de Arroios e das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias de Arroios e das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

A Avenida do Duque d’Ávila e o cinema dos três nomes

Freguesias das Avenidas Novas, de Arroios e do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias das Avenidas Novas, de Arroios e do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

O político liberal e também conde, marquês e duque de Ávila,  desde 1902 que tem assento numa avenida lisboeta onde a partir do primeiro dia do ano de 1930 abriu um cinema que foi sendo denominado  sucessivamente Trianon, Palácio e Avis.

Foi pelo Edital municipal de 29 de novembro de 1902  que nasceu a Avenida Duque d’Ávila, na época situada entre a Estrada do Arco do Cego e a Rua Marquês de Sá da Bandeira e que nos nossos dias começa na Rua Alves Redol e termina na Rua Marquês de Sá da Bandeira e na Rua Marquês de Fronteira. Foi por este Edital da presidência do Conde de Ávila (António José de Ávila – 07.11.1842 – 13.08.1917 – 2º Conde e Marquês de Ávila) que se fixaram nas Avenidas Novas um conjunto de de 15 topónimos referentes essencialmente a políticos regeneradores da Monarquia Constitucional, a saber:  em Avenidas, os nomes dos políticos António de Serpa, Casal Ribeiro, Duque d’Ávila, Hintze Ribeiro (hoje, Avenida Miguel Bombarda), José Luciano (hoje, Avenida Elias Garcia), e em Ruas, os também políticos Andrade Corvo, António Enes, Barros Gomes (hoje, Rua Viriato), Latino Coelho, Luís Bivar ( que passou a Avenida em 1926), Martens Ferrão,  o político e escritor Pinheiro Chagas, o  matemático e cartógrafo Filipe Folque,   e o médico Pedro Nunes.

O Cinema Avis na Avenida Duque d'Avila em 1960 (Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Cinema Avis na Avenida Duque d’Ávila em 1960
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

Já o cinema Trianon abriu portas nesta Avenida no dia 1 de janeiro de 1930, garantindo lugar para 733 espetadores, sendo então uma das maiores salas de Lisboa. Augusto de Ornelas Bruges comprara  para o efeito terreno na Avenida Duque d’Ávila, frente à antiga estação dos elétricos do Arco do Cego. Mais tarde, o cinema  mudou de nome para Palácio e voltou  a ser reaberto em 1956 com a designação de Avis, mantendo-se assim durante mais de 30 anos até encerrar no final dos anos 80 e ser demolido na década seguinte para dar lugar à construção de prédios.

António José de Ávila (Faial/08.03.1806 – 03.05.1881/Lisboa), 1º conde (1864) e 1º marquês (1870) de Ávila e único duque de Ávila e Bolama (1878), foi um político Cartista, cuja carreira acompanhou os altos e baixos motivados pelas guerras liberais. Desempenhou as funções de deputado, conselheiro de Estado efetivo, presidente da Câmara dos Pares, ministro das Finanças, Presidente do Conselho de Ministros por três vezes (1868, 1870/71, 1877/78) e ainda, de embaixador junto das cortes de Paris e de Madrid.

Entrou como sócio da Academia Real das Ciências em março de 1855 e pouco depois foi nomeado vice-presidente, tendo sido também agraciado com inúmeras condecorações portuguesas e estrangeiras, de que se destacam a  Grã-Cruz da Ordem de Nª Srª da Conceição e de S. Tiago, a Ordem da Torre e Espada e a comenda da Ordem de Cristo.

Freguesias das Avenidas Novas, de Arroios e do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias das Avenidas Novas, de Arroios e do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Franklim do Bairro América

Freguesia de São Vicente (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de São Vicente
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua Franklim estava identificada como Rua nº 1 do Bairro América, urbanização então de construção recente na Quinta das Marcelinas à Rua do Vale de Santo António, quando a deliberação camarária em 25 de novembro de 1918 decidiu atribuir-lhe um topónimo referente a uma personalidade americana e ficando a ligar a Rua Fernão de Magalhães à Rua dos Cortes Reais, embora o Edital só tenha sido publicado 6 anos depois, em 17 de outubro de 1924.

O Bairro América passou a conter os seguintes topónimos: «Que se denomine Bairro America, o bairro em construção na Quinta das Marcelinas na rua do Vale de Santo Antonio e que os respectivos arruamentos tenham as designações seguintes: o nº 1, rua Franklin; o nº 2, rua Washington [ o primeiro presidente dos Estados Unidos da América]; o nº3, rua Ruy Barbosa [político e jornalista brasileiro que defendia o princípio da igualdade das nações]; o nº 4, rua Bolivar [Simon Bolívar que combateu o domínio espanhol na América do Sul, comandando as revoluções que promoveram a independência da Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia]; a nº 5, rua do Costa Reais [refere-se à Rua dos Cortes Reais, família de navegadores portugueses que empreenderam navegações para o continente americano]; o nº 6, rua Fernão de Magalhães  [o primeiro navegador a fazer uma viagem de circum-navegação], e o nº7, rua Alvaro Fagundes [navegador português do século XVI que explorou a costa austral da Terra Nova]. Deliberação camararia de 25 de Novembro de 1918». Acrescente-se que os arruamentos Rua Bolivar e Rua Álvaro Fagundes nunca tiveram execução prática, embora, em 1971, o nome de Álvaro Fagundes tenha regressado para a toponímia lisboeta para dar nome à Rua C, à Rua General Justiniano Padrel.

Rua Franklim BenjaminEstadista, cientista e escritor norte-americano Benjamim Franklin (Boston/17.01.1706 – 17.04.1790/Filadélfia), lutou contra a escravatura e fez mesmo o Memorial para a sua abolição enquanto Presidente da Sociedade Pensilvaniana para além do seu papel preponderante na independência dos Estados Unidos da América. Franklin foi o porta-voz dos colonos junto dos ingleses; integrou a Comissão redatorial da Declaração da Independência; foi membro da Convenção para redigir a Constituição Nacional (1787); e assinou com a Grã-Bretanha o Tratado de Versalhes que reconhecia a independência das 13 colónias norte-americanas.

Benjamim Franklin foi ainda um cientista: demonstrou a identidade do raio e da electricidade e inventou o pára-raios, para além de ter sido compositor gráfico, publicado jornais (The New-England Courant), ter sido escritor ( Poor Richard’s Almanac) e o 1º representante do realismo norte-americano ( O Sermão do pai Abraão).

Freguesia de São Vicente (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias)