O pedido de mudança da Rua Agostinho Lourenço, nome igual ao do diretor da PIDE

Rua Agostinho Lourenço – Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua Agostinho Lourenço, nascida por Edital de 1903, foi das que após o 25 de Abril recebeu inúmeros pedidos de alteração do topónimo por parte dos munícipes e cidadãos em geral, já que o nome era igual ao daquele que foi o primeiro diretor da PIDE.

Lembrava o topónimo o nome do Capitão Agostinho Lourenço (Lisboa/05.09.1886 – 1964) que fora diretor da Polícia Internacional desde 1931,  da PVDE a partir de 1933 e da PIDE, de 1945 até 5 de setembro de 1956, data em que atingiu o limite de idade.

Entre os diversos pedidos para se proceder a esta alteração, todos de 1974 e 1975,  um deles sugeria mesmo que a artéria passasse a ter o nome de Manuel Rodrigues da Silva (Brasil/10.04.1909 – 22.07.1968/Moscovo), um militante operário que passou grande parte da sua existência preso no Tarrafal e em  Peniche. Passados mais de vinte anos, o nome de Manuel Rodrigues da Silva veio mesmo a ser um topónimo lisboeta, por Edital de 24 de setembro de 1996, na freguesia de Carnide.

Edital de 1903

Como topónimo, a Rua Agostinho Lourenço nasceu  em 1903, determinando o Edital municipal de 8 de junho «Que a nova via publica, entre a Avenida Antonio Augusto d’Aguiar e a rua de S. Sebastião da Pedreira, tenha a denominação de: rua Agostinho Lourenço». Todavia, passados 43 anos, em 18 de junho de 1946, a Comissão Municipal de Toponímia visitou diversos arruamentos da cidade, e concluiu « Que, em virtude das obras de urbanização efectuadas no respectivo local, o troço ainda existente da Rua Agostinho Lourenço, seja integrado na Rua Filipe Folque, devendo atribuir-se a outra via pública o nome de Agostinho Lourenço.»

Durante 9 nove anos não voltou a ser reposto o topónimo em Lisboa até que, na reunião de 11 de novembro de 1955, a Comissão Municipal de Toponímia deu o parecer de «que o nome de Agostinho Lourenço denomine o troço da Rua Alves Torgo, a Norte da Avenida do Aeroporto, até à linha férrea, mantendo a Rua Alves Torgo esta denominação entre a Rua de Arroios e a Rua António Pereira Carrilho». E assim ficou registada uma nova Rua Agostinho Lourenço, que hoje une a Avenida Almirante Gago Coutinho à Avenida São João de Deus, pelo Edital municipal de 15/03/1956, ou seja, cerca de 6 meses antes do Capitão Agostinho Lourenço deixar de ser o diretor da PIDE por atingir o limite de idade.

A figura de Agostinho Lourenço que está perpetuada na toponímia de Lisboa desde 1903 é de seu nome completo Agostinho Vicente Lourenço (Índia-Goa/1822 ou 1826- 1893/Lisboa), um químico e professor universitário, formado na Escola Médica de Nova Goa, onde foi docente, tal como na Escola Politécnica de Lisboa, a partir de 1862. Frequentou centros universitários em Paris, Munique, Heidelberg e Londres, tendo na capital francesa desenvolvido a maior parte da sua atividade científica, nomeadamente, trabalhando com Adolphe Würtz, que nos seus artigos lhe atribuiu a categoria de ter sido o primeiro investigador a obter o álcool dietilénico ou éter intermediário do glicol. Em 1867, Agostinho Lourenço publicou Trabalhos preparatorios ácerca das aguas minerais do Reino e providencias do Governo sobre proposta da Commissão respectiva, assim como organizou uma colecção de amostras das águas minerais portuguesas que integrou o trabalho Renseigments sur les eaux minerales portugaises, que foi nesse mesmo ano premiado na Exposição Internacional de Paris com medalha de ouro.

Edital de 1956

A Avenida do professor e político António Augusto de Aguiar

Avenida António Augusto Aguiar entre 1955 e 1970 (Foto: Artur Pastor, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Avenida António Augusto Aguiar em data entre 1955 e 1970
(Foto: Artur Pastor, Arquivo Municipal de Lisboa)

Vergílio Ferreira publicou  a sua Aparição em 1959, na colecção «Contemporânea» da Portugália Editora e teve   sucessivas reedições, das quais destacamos  a primeira em formato de bolso, de 1971, na «Biblioteca Básica Verbo – Livros RTP». A  Editorial Verbo está sediada no 2º andar do nº 148 da Avenida António Augusto de Aguiar, artéria que liga a Avenida Fontes Pereira de Melo à Praça de Espanha nascida pelo Edital municipal de 11/12/1902, na que era a Rua António Augusto de Aguiar desde 10/01/1888.

O plano de crescimento de Lisboa para Norte, intitulado Avenida das Picoas ao Campo Grande, da autoria do Engenheiro Ressano Garcia, foi aprovado em 1888 e as terraplanagens nas ruas Fontes Pereira de Melo e António Augusto de Aguiar começaram em 1897. Em 1901, a canalização de água para esta zona da Cidade estava concluída e considerou-se que as artérias já podiam ser abertas. Neste arruamento Júlio de Andrade comprou terrenos em 1898, 1899 e 1903 e Francisco de Almeida Grandela no ano de 1901.

antonio augusto de aguiarAntónio Augusto de Aguiar (Lisboa/05.09.1838 – 04.09.1887/Lisboa), licenciado em Ciências Naturais e de Química na Escola Politécnica, foi  professor  de química mineral dessa Escola e publicou estudos no campo da Química, dando primazia aos temas vinícolas. Também foi docente  de química aplicada no Instituto Industrial e Comercial de Lisboa, escola que também dirigiu a partir de 1871.

A partir de 1875 empenhou-se na política, tendo sido eleito deputado em 1879 e par do reino em 1884. Fez parte do governo presidido por Fontes Pereira de Melo, como Ministro das Obras Públicas, Comércio e Indústria,  entre 1883 e 1885, distinguindo-se pela criação de escolas profissionais, sobretudo de ensino industrial, bem como de museus industriais e comerciais para além de campanhas públicas em prol do melhoramento da qualidade dos vinhos portugueses com vista à exportação.

António Augusto Aguiar foi ainda presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa e grão-mestre da Maçonaria Portuguesa (1886-87), para além de ter exercido os cargos de membro da Comissão dos Trabalhos Geológicos (1862), da comissão encarregada do estudo dos vinhos portugueses (1866), de Comissário Real da representação portuguesa na Exposição Vinícola de Londres (1874), de membro da Comissão Geral das Alfândegas (1874), de Presidente da Comissão que organizou a representação portuguesa à Exposição Industrial de Filadélfia (1876), de Comissário Real na Índia para a negociação do Tratado do Sal entre Portugal e a Grã-Bretanha e de Comissário Técnico da representação portuguesa à Exposição Universal de Paris  (1878).

 

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)